Em outra esfera
Atualizado em: 14/02/2012 - 11:43
Está definido: por força da pressão popular, estamos todos - nós, sociedade, povo, comunidade, cidadãos e eleitores - judicializando uma discussão politica. Agora a OAB aguarda, vejo nos jornais, uma posição da Justiça a pedido de liminar para que dispositivo do Regimento Interno da Câmara Municipal de Ponta Grossa não se aplique no caso específico da proposta de lei de iniciativa popular que - outra vez pressão popular - impede o aumento do número de vereadores.
Não vou entrar no mérito da questão, mas bem que poderia, porque sou francamente favorável ao aumento do número de vereadores e não acho que direito constitucional possa ser medido por preço ou percentual do orçamento público (já entrei no mérito). Mas não é disso que quero falar.
Vejamos: a comunidade fez a sua parte. Um número bem grande de pessoas assinou uma proposta para que haja uma reforma na legislação municipal e que o número de vereadores não seja recomposto (a palavra é essa: nos foram tiradas cadeiras sob um argumento que se revelou falacioso, ainda que não intencionalmente, acredito). Mas essa proposta não está de acordo com os ditames estabelecidos legal e antecipadamente pela própria Câmara Municipal. O que se faz então? Se busca a Justiça para mudar as regras do jogo DURANTE o jogo.
Não posso concordar com isso. Não posso aceitar isso em silêncio nem aplaudir que o faz. Legislativo é Legislativo, Judiciário é Judiciário. Queremos agora então - e na prática é isso mesmo que está acontecendo - que o Judiciário legisle, ainda que de maneira pontual, num caso específico que é de interesse de alguns (não todos)? Não posso, não quero e não vou concordar com isso. Fico constrangido ao perceber que pessoas a quem muito admiro abraçam essa tese com paixão. Respeito suas crenças e creio mesmo que posso entender seu desencanto com a classe politica ou a atual configuração da Câmara de vereadores de Ponta Grossa. O que não explica nem justifica qualquer tipo de iniciativa tendente a esvaziar os poderes do Legislativo Municipal ou de defender aberta e atipicamente, uma intervenção judicial num processo legislativo que não é, nunca foi e espero que nunca seja de alçada do Judiciário.
Não gostam da performance dos atuais vereadores? Acham que não trabalham, trabalham pouco ou que pouco ajudam? Que elejam vereadores melhores, em outubro! E mais, além de melhores. Para que todo cidadão se sinta enfim representado, legitimado e presente.
Mas o caminho é a urna, democrática, acessível e indiscutível. Não a intervenção judicial. Que pode ser justa, mas não vai ser democrática.
Comentários
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Faço minhas as palavras dos dois amigos leitores aí embaixo. Perfeito. Eu até me arriscaria a dizer que nossa Câmara de Vereadores é a única - "única", no mundo - "mundo" que tem esta exigência, de cópia do título de eleitor. A maior aberração, a mais absoluta falta de respeito com o cidadão, com quem os coloca lá dentro. E neste caso, somente a justiça pode resolver. Toda malandragem, é exatamente o que foi feito, tem que ser desfeita, mesmo que custe a interferência de um poder em outro. Por último, vou considerar que o blogueiro, uma pessoa extremamente inteligente, apenas postou isto buscando conhecer opiniões contrárias.
E quando os representantes agem contra a vontade dos representados, qual é a solução? Esses aí votaram o aumento de vereadores às pressas e na calada da noite, sem consultar a população que os colocou lá. E qual o objetivo? Com mais vagas, fica mais fácil a reeleição. Se vão aumentar os gastos, o povo que se lasque! Isso lá é democracia? Infelizmente, depois de eleitos, não dá para cassar a procuração que lhes foi outorgada. Melhor recorrer à Justiça, que é o certo, ou tacar fogo na Câmara, que á a vontade de muitos? Que fique a lição, para que nenhum destes que aí estão seja reeleito.
Quantas vezes o STF teve que legislar em Brasília porque o Congresso Nacional simplesmente não enfrentava questões cruciais para o país? O Judiciário é, e sempre foi a última instância entre os poderes constituídos e vc deveria saber disto ou se faz de desentendido. Ademais, esta Lei municipal é um acinte, pois exigir uma fotocópia de título eleitoral é praticamente extinguir a possibilidade de apresentação de Leis de iniciativa popular. Isto prá não lembrar quem foi o autor desse absurdo, ninguém menos do que o ex-vereador Delmar Pimentel, réu no caso Esqueleto. Precisa dizer mais.