Alexandre Garcia
CHEGOU A DIVERSIDADE

Alexandre Garcia

O atento repórter da Gazeta do Sul perguntou-me sobre a importância do jornalismo “em um momento em que o país está profundamente dividido em termos políticos e ideológicos”. Percebi, nessa preocupação, que a pregação totalitária das últimas décadas conseguiu sequestrar corações e mentes. Enquanto nos dividiam, impuseram-nos o totalitarismo do pensamento único. Por isso, estranhamos, hoje, que haja correntes diferentes de pensamento, de posições ideológicas. Enquanto nos enfraqueciam, nos convenceram de que toda diversidade é politicamente correta, menos a de pensamento.

            Passaram por cima do princípio constitucional básico de que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Está no artigo 5º da Constituicão, abrindo o Capítulo dos Direitos e Garantias Individuais. Quer dizer, é o primeiro dos direitos e garantias individuais. Mas essa igualdade já foi derrubada no Supremo. Embora a Constituicão diga que somos iguais sem distinção de natureza alguma, destruiram esse princípio, mostrando que cor da pele, preferênciais sexuais, adesões sociais e políticas, tornam alguns diferentes de outros. Foi a forma de fracionar a nacionalidade, definir condições diferentes para manipular direitos naturais, invadir direitos pessoais, inclusive e principalmente a liberdade de pensamento.

            Nessas últimas décadas, conseguiram transportar a utopia de George Orwell no 1984 para o Brasil, com seus lemas muito bem camuflados de “guerra é paz”, “liberdade é escravidão”, “ignorância é força”. Nos impuseram a paz da submissão e do silêncio, enquanto só valiam as orientações da monocracia; as frases-de-efeito, os chavões, a repetição das mentiras ganhavam força, desde que não pensássemos. Para nos enfraquecer, dividiram-nos espertamente por classes sociais, por preferências sexuais, por cor da pele, entre patrões e empregados, criando o “nós e eles”. E muitos acreditam, porque houve dinheiro farto de nossos impostos para custear a tomada de nossos cérebros via artes, cultura, ensino, meios de informação.

            No poder, já estavam; para ficar eternamente, precisavam conquistar nossas mentes, nos escravizar. Usaram a sutileza do politicamente correto para nos intimidar, para que desaprendêssemos a pensar. Quase conseguiram não fosse a força dos que combateram a corrupção, o engodo, a mentira, a deturpação da História. Foi por pouco. Uma pequena lavagem de dólares da corrupção num lava-jato em Brasília foi a chave de uma Caixa de Pandora, onde estavam guardados quase todos os males. E a maior condenação veio pelo voto popular, nas eleições que se seguiram, municipais e depois gerais. Não precisou de marqueteiro nem dinheiro; milhões de jurados deram o veredito contra o status quo. Sobrou o direito de espernear, garantido aos que se aproveitavam das tetas recheadas do tesouro e das estatais, do direito cedido pelos intimidados, da ingenuidade dos que acreditavam. Faz sete meses que esperneiam, sem perceber que o totalitarismo ideológico foi substituído pela bendita diversidade de idéias, que nos ajuda a criticar para corrigir.

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COINCIDÊNCIAS

Alexandre Garcia

Previno o leitor, como os filmes previnem: “qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”. Então, vamos pensar. Em 6 de setembro último, Adélio Bispo esfaqueia o candidato líder na campanha, que são não morre porque foi bem atendido. Imediatamente aparecem advogados para defender o agressor. No mesmo dia e hora em que ele esfaqueia, o nome do agressor está registrado como visitante de algum deputado federal em Brasília. A polícia tenta saber a origem do dinheiro que pagou caros advogados, e a OAB entra na Justiça e impede. Preso, o agressor é declarado inimputável, mas fica guardado como demente.

Enquanto isso, recém-reeleito, um deputado renuncia e vai para a Europa, deixando no lugar o suplente que é marido de um americano. O americano, meses depois, começa a divulgar produto de uma invasão ilegal de privacidade; mensagens entre o juiz da Lava-Jato e o procurador que coordenou as investigações. A polícia localiza e prende os autores confessos da invasão e descobre que eles fizeram o mesmo em telefones das mais altas autoridades da República. E descobre também uma maleta com 99 mil reais e movimentação bancária de mais de 600 mil.

Um deles confessa que a intermediária para chegarem ao jornalista americano foi a ex-deputada e companheira de chapa de Haddad, Manuela d´Ávila, que alega apenas ter fornecido o telefone. Ou seja, os hackers descobriram os telefones de todas as maiores autoridades, só não conseguiram o do americano; então chegaram ao telefone da ex-deputada, que lhes forneceu o número desejado. Como hackers politizados, preferiram invadir mensagens de autoridades, ao invés de flagrar vítimas mais endinheiradas que tenham amantes, por exemplo. Renderia mais e seriam protegidos pelo silêncio. Fontes confessas das invasões ilegais, eles foram considerados “fontes confiáveis” pelo receptador delas e pelos que tratam produto de crime como notícia.

Tudo muito estranho. Vale a pergunta: qual o objetivo? A quem interessa? Ora, o objetivo duplo é enfraquecer a Lava-Jato e proteger corruptos. Você há de perguntar como alguém pode aplaudir isso. Pois há quem aplauda o crime e torça contra a lei. Na Itália também houve reação contra a operação Mãos Limpas. Aqui, a reação vem da organização que armou um grande esquema de corrupção que saqueou estatais, principalmente a Petrobras. Para os apoiadores desse esquema, que tiveram as torneiras e tetas fechadas pela Lava-Jato, vale tudo. E quem olha os acontecimentos, percebe que tudo está ligado, ou é mera coincidência.

 

O ESTILO NA MISSÃO

O presidente ganhou a eleição praticamente sozinho. Ele, seus eleitores e as redes sociais. O estilo deu certo sem gastar, sem marqueteiro, sem apoio da maioria dos meios de informação. E hoje, passados quase sete meses da posse, o Presidente parece sentir-se confortável usando as mesmas armas da campanha: falar direto, não deixar de responder às criticas, pôr em prática o que foi prometido e autorizado pelo voto de quase 58 milhões de brasileiros.

Os que nele votaram deram-lhe mandato para tirar a esquerda do poder e recuperar valores. Por isso ele fala em missão – a tarefa que lhe incumbiram. Desde 1995 até o afastamento de Dilma em 2017, o Brasil teve governos de caráter socialista. Foram mais de 20 anos de mudanças nas leis penais, na economia, no estado, na segurança; de fisiologismo e anos de corrupção que levaram um presidente para a cadeia.

Durante duas décadas, governo e opinião pública foram induzidos a viver um sistema que não deu certo em lugar algum do mundo e os resultados, após 20 anos, foram 12 milhões de desempregados e a maior recessão da história, um esquema institucionalizado de corrupção jamais visto, com enfraquecimento de valores como família e pátria. Direitos sobrepujaram os deveres e desequilibraram a balança da cidadania e do estado.

Só um lado passou a ter voz e poder. É como se o país estivesse polarizado apenas de um lado. Tanto que não se falava em “vocês e nós”, mas em “ nós e eles”. O “nós” vinha em primeiro lugar e o “eles” era uma terceira pessoa oculta. O gigante silencioso despertado pelo candidato Bolsonaro, gerou a queixa de “ bipolarização”; que isso iria dividir o país em dois, como se o país já não tivesse sofrido divisões. “Divide e governa!”. Ainda bem que se pode discutir agora. Idéia única é o caminho para enveredar em corrupção, desemprego e recessão, sem que a crítica ajude a corrigir rumos.

O presidente bater boca com jornalistas e ser criticado é saudável. Afinal, não se pode esquecer que ele, durante a campanha, avisou que “é bom já ir se acostumando”. Ele acredita que precisa fazer uma faxina no “aparelhamento” plantado no estado brasileiro, não apenas nos ministérios e estatais, mas também em órgãos de ciência, cultura, educação e diplomacia. A população de menos de 35 anos nem lembra que existe outro estilo de governo além do que viu desde 1995. E não parece que o presidente vá mudar um estilo que deu certo na campanha. É da natureza dele. Agora esse estilo será julgado pelos resultados.

 

MAIS CASTIGO, MENOS CRIME

Alexandre Garcia

O Monitor da Violência mostra que no primeiro quadrimestre deste ano, isto é, nos primeiros quatro meses do novo governo, os homicídios dolosos caíram 23%. De 18.688 no quadrimestre do ano passado para 14.374 no mesmo período deste ano. Mesmo assim, os números são altíssimos; equivalem a um assassinato a cada 12 minutos. São dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Outro dado é que o número de presos aumentou. São 705 mil presos em 415 mil vagas.

Muita gente continua a defender que se abram as portas das prisões até que não haja superlotação. Mas o que se nota, é que quanto mais bandido é retirado das ruas, menos crime é praticado. A vontade de desencarcerar está em oposição ao direito dos brasileiros à segurança. Da mesma forma, enquanto se aplicaram leis brandas, que proporcionam “prisão em regime aberto”, “progressão da pena”, soltando depois de cumprido 1/6 da pena, “desarmamento”, o crime só aumentou, em assaltos e homicídios. Um carro é levado a cada minuto.

Também ficou oco o argumento de que as raízes são sociais, o que implica afirmar que o pobre é desonesto. A gigantesca corrupção que grassou nesses últimos anos mostrou que gente com mandato e com empresa não está isenta de ser corrupta. Além disso, o crime cresceu no Nordeste, à medida em que a região foi crescendo em renda. Ser criminoso, em geral, é questão de caráter, não de necessidade econômica.

Leis mais duras são necessárias. El Chapo está sendo condenado em Nova Iorque à prisão perpétua. Nunca mais vai poder receber visitas, mesmo da mulher e dos filhos. Aqui, desarmaram as vítimas em potencial e se deu mais segurança... aos agressores. Leis suaves não servem para desestimular os mal-intencionados. . Bastou o discurso sobre o direito natural de defesa e proteção legal à polícia para o crime diminuir. Mas ainda falta mudar as leis. No Congresso, há muitas propostas para endurecer o Código Penal e o Processo Penal. O que falta é pressão dos eleitores sobre seus representantes. E se faltam vagas nos presídios, construam-se mais presídios, sem medo do sofisma “mais escolas, menos presídios”. Escola dá ensino; educação e caráter vem de casa.

O DINHEIRO DO CRIME

Alexandre Garcia

Imagine que você tenha tido a má sorte de ser um dos milhares de brasileiros que tiveram o carro levado por um ladrão. E que o ladrão já tivesse um receptador e seu carro já tivesse ganhado outra placa, outro número de chassi e outro documento – tudo falsificado. Você pagou 90 mil pelo carro. O ladrão o vendeu por 45 mil. Meses depois, o ladrão foi preso. Mas pagou 20 mil a um advogado e o juiz arbitrou 10 mil de fiança e ele já está em liberdade, podendo furtar o carro que você acabou de comprar financiado. Você acha justo que ele esteja em liberdade, para furtar mais, e ainda com saldo de 15 mil no bolso, e que, com o produto do roubo de seu carro ele tenha pagado advogado, fiança?

Estamos falando de um simples ladrão de carro. Agora pense num ladrão maior, do dinheiro dos seus impostos, que roube milhões, sob forma de propina, em negociatas que lesam empresas públicas, como apurou a Lava-jato. Imagine o ladrão que lesa o dinheiro do povo, superfaturando obras para pagar políticos, “doar” milhões a partidos políticos. E que depois de presos, esses corruptos pagam milhões a advogados por um número sem fim de recursos, com o dinheiro que roubaram do povo, que é dono da Petrobras. Dinheiro da propina, do superfaturamento, do crime. Produto de crime usado para safar o criminoso. É um círculo vicioso típico.

Pois agora a deputada Bia Kicis apresentou à Câmara Federal um projeto-de-lei que caracteriza o óbvio: advogado que receber dinheiro produto do crime para defender o criminoso, na verdade incorre no crime de receptação. É como se a defesa do ladrão fosse paga com o carro que ele furtou de você, ou com o que recebeu ilicitamente da empresa pública, que é de todos, vindo dos seus impostos. Tampouco pode a fiança ser paga com o produto de uma vigarice. É incrível como ninguém havia proposto uma lei assim. Melhor seria perguntar por que não se denunciava isso?

Assisti a um debate entre dois amigos sobre isso. Um advogado e um corretor de imóveis. O corretor argumentou que na lei contra corrupção e lavagem, é enquadrado o corretor que receber um pagamento dinheiro não declarado, como lavagem de dinheiro. Alega ele que a lei também enquadrava o advogado, num texto que copiava o código de ética da OAB. Mas foi retirado da lei. Meu amigo advogado argumenta que não é ele que tem que averiguar a licitude do que recebe de honorários. Cá entre nós, é fácil saber. Basta verificar na declaração de renda se o cliente tem rendimento lícito para pagar tais honorários. Muitos advogados já se manifestaram pelas redes sociais, de que não aceitam dinheiro sujo, cheirando a crime, pois seriam de fato, cúmplices do criminoso. Enfim, o assunto agora está nas mãos de nossos representantes no Legislativo.

TÁ MALUCO

        Em Kioto, o presidente da França, perguntou a Bolsonaro se aceitaria uma reunião com ele, Macron, e Raoni. Recebeu de resposta um imediato não. Fosse eu, a resposta seria um “tá maluco?”. Raoni é promoção do cantor Sting, assim como Juruna foi criação do antropólogo Darcy Ribeiro. O Presidente do Brasil explicou ao francês que Raoni “não representa o Brasil, nem a comunidade indígena de onde veio”. Na Europa, Raoni é apresentado como um defensor da Amazônia. Bolsonaro convidou o francês, para um voo sobre a floresta. Um voo atravessando a França de um extremo a outro dura 100 minutos. Pelo mesmo tempo podem voar sobre a Amazônia e só ver floresta.

        A França vê o Brasil como um país exótico, na sua exuberância tropical. Mulheres semi-despidas, praias, macacos e cobras, índios e floresta sendo devastada. E os índios, os “bons selvagens” de Rousseau. Exotismo trazido por Gauguin e seu impressionismo no Taiti. As utopias dos escritores sobre lugares paradisíacos do outro lado do mar. E visitantes pouco civilizados, que se comportam mal em Paris, falando alto nos restaurantes. Um colega meu de Jornal do Brasil, Luiz Edgar de Andrade, chegou a atribuir ao Presidente De Gaulle uma frase dita em francês pelo embaixador brasileiro: “Le Brésil n'est pas un pays sérieux”.

        Bolsonaro deu resposta à altura também à Senhora Merkel, de que não aceitamos tutelas na política do meio ambiente. A Alemanha extrativista acabou com seu bioma original e hoje seu verde é de reflorestamento. E emite sete vezes mais carbono que o Brasil. O brasileiro confirmou a adesão ao Tratado de Paris, que estabelece metas de proteção ambiental, e Macron terminou por servir água a Bolsonaro, como mostra uma simbólica foto. O encontro em Kioto de líderes das 20 maiores economias do planeta serviu de vexame para os que noticiaram que Bolsonaro ficaria isolado e que não seria recebido por Merkel e Macron. Mas Bolsonaro conseguiu até fechar acordo entre o Mercosul e a União européia.

        Brasileiros derrotados em outubro, sem conseguir platéia em seu país, vão para a Europa falar mal da terra em que nasceram. Eu mesmo vi e ouvi, um dia, um ex-ministro de Dilma, dizer a uma ministra do Reino Unido que não há democracia no Brasil. A gente costuma falar mal de nosso país entre nós - isso é saudável. Mas falar mal da nossa família para os vizinhos e amigos parece traição. O Nordeste, que está cheio de gente, está vazio de ONGs; a Amazônia, que é um vazio de população, está cheia de ONGs. Quando o dinheiro fácil cessa, falam mal de nós lá fora e impressionam os europeus. Tão malucos.

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