Arte Mista
CRÔNICA – DELÍRIOS NO SÁBADO À TARDE

Por Rosicler Antoniácomi

 

No último sábado, dia 30 de junho de 2018, estive presente no evento do lançamento do excelente livro Delírios de uma Mente Perturbada, em segunda edição por Chiado Books, abril de 2018, que teve lugar no hall da Escola de Idiomas First Class, na Avenida Visconde de Mauá.

Não fui apenas pelo livro, cujo título e sinopse, que eu havia lido alguns meses atrás na página da editora, sugeriam drama psicológico, o que, pela pouca idade de seu autor, provocou em mim uma curiosidade para conferir até onde está indo a juventude nas profundezas do Ser. Fui também por outra curiosidade: a de confirmar minhas suspeitas de que o jovem escritor – que a leitura já mencionada deu-me ciência de que residia em Florianópolis –, poderia pertencer a uma família ponta-grossense à qual sou ligada por laços relacionais.

Fui entrando naquele ambiente onde fui reconhecendo fisionomias (algumas eu não sabia nominar), que me acolheram, também sem me identificar, ainda, como uma "conhecida". Logo ao primeiro contato com o jovem escritor, esclareceram-se as suspeitas: já reconheci o ramo de parentesco que o ligava ao meu genro, e outro ramo ligado a um dos padrinhos de meu casamento (trinta e quatro anos atrás). E aquela assertiva sempre repetida de que "esta cidade é pequena", se mostrou verdadeira. Logo aquele evento literário pareceu um encontro de famílias conhecidas, com grupinhos de senhoras falando dos filhos que estudaram no mesmo colégio, de amigos e amigas do escritor que comentavam as novidades sobre parentes ou amigos que tinham em comum, e de alguns fanáticos por futebol que preferiram lançar os olhares nem tão furtivos a um televisor que transmitia o jogo do Uruguai versus Portugal, inclusive eu. Um agradável encontro familiar.

            O que pode acontecer quando uma mente perturbada, em delírios para desvendar os mistérios de um círculo familiar em conflitos que a arrogância e a ganância promovem, apresenta-se a um cérebro jovem empenhado em produzir boa literatura?

            Tratando-se do escritor Jhônatas Kuhn, jovem oriundo de famílias que floresceram e espalharam seus frutos pelos bairros de Oficinas, Maria Otília e Colônia Dona Luiza, filho de Rute Kuhn Knaut e Gerônimo Knaut, posso dizer que o resultado foi a primeira fase da saga com drama familiar, em que a ascensão do jovem herdeiro ao poder máximo na empresa da família sofre oposição dissimulada às voltas com intrigas e manipulações que afetam o estado psicológico do herdeiro graduado e pós-graduado em estratégias de administração. O personagem narrador, em um crescendo no decorrer da narrativa, vai abandonando a simples apresentação dos fatos que constituem o enredo – como o propósito de atender às expectativas do patriarca de se tornar seu substituto como empresário irrepreensível, que acalentara desde a infância – para mergulhar nas profundezas e na escuridão da desconfiança, da perplexidade, da frustração, quando a constatação da hipocrisia, do machismo, da arrogância, e da omissão de familiares envolvidos em uma disputa mesquinha o arrastam para o abandono de si mesmo, na compulsão pela virada do jogo e pela vingança, pois os ícones que alimentaram a formação de seu caráter, que construíram seus conceitos mais valiosos deitam por terra, dando lugar a um insuportável vazio.

            Sim, na madrugada seguinte, 1º de julho, às 2h30min, terminei a leitura que não me concedeu a permissão para pausas ou para outros afazeres, tal o apelo exercido pelo drama tão bem conduzido. 

            Recomendo a leitura para jovens e adultos dispostos a brigar valentemente com agendas de compromissos e com o relógio que vão querer tomar-lhes o prazer dessa leitura sedutora. 

 

2014 - SETE A UM

Autoria: Rosicler Alves Gomes

 

Pelo amor de Deus, acabe logo!

Acabou. Mas não foi aquele fim: agora é pegar a trouxa e ir embora, curtir a derrota em casa, deixando o vexame para trás. Não. Ainda é preciso pensar no terceiro lugar (ou quarto). Um torcedor descrente, que até já esperava perder (por um pouco menos, claro), mas torcendo ainda assim, não sabia como expressar seu sofrimento: "Vamos olhar o lado bom". E os enfurecidos, que já tinham esgotado o repertório de palavrões: "Que lado bom? Poderia ser dez x zero?". E o descrente, agora com riso sarcástico sofrível: "Ninguém mais vai falar no Maracanaço. Agora tem o Mineiraço."

Por um momento, tudo virou piada com a famigerada semifinal. Fui ao meu jogo de Vôlei das terças-feiras, cumprir minha escalação no time reserva, e tive que aguentar a babada do treinador, porque as titulares tinham perdido (feio) no Copa Cidade, no domingo. E não pude me conter: "Foi um preparação psicológica para hoje. Sem essa preparação elas poderiam não suportar." 

O pior era não poder tirar da cabeça aquele refrão da Globo (que eu tive que parodiar, para não me sentir retardada), que ficou assim:

"Eu sei que são

Sete gols, como sei!

Vi gol mais gol

E não era  'replay'

Mesmo perdendo

O Brasil é espetacular

E nem precisou do Neymar!!!"

A paródia continua, referindo-se ao Fred, mas não é possível transcrevê-la, para não tornar esta crônica imprópria para menores.

Nem cantar aliviava o peso daquele sete x um. Cheguei a acalentar um devaneio insano (até falei em voz alta, para incentivar uma reação positiva do Cosmos):"Vou pra casa, assistir à Central da Copa, quero ver os gols do Brasil”. Vai que foi só um pesadelo, ou um desvio temporário da rota dimensional, que só eu peguei, por conta de algum pecado contra a Esperança. Mas, não. Embora parecessem do Flamengo (teria algum consolo, se eu torcesse para o Flamengo), por causa do uniforme, os gols ainda eram da Alemanha. E serão da Alemanha, para todo o sempre, pelos séculos dos séculos.

Mas ainda viria o jogo da Argentina x Holanda. Nada é tão ruim que não possa piorar: poderíamos ter que enfrentar a Argentina, sem Neymar, e com um saco de sete x um nas costas. Melhorou um pouco quando pensei nisso. A Holanda bem que podia dar de sete x um, na Argentina, e o peso ficaria equilibrado. Se fosse o contrário, pelo menos não correríamos nenhum risco com a Argentina; eles, sim, iram correr um grande risco jogando contra a Alemanha.  Quem sabe, outro sete x um.

E, afinal, jogaram Argentina e Holanda, na segunda semifinal. Aquele zero x zero interminável era o meu sonho de consumo. Nunca imagineique eu pudesse apreciar tanto um empate de zero x zero. Que maravilha seria se fosse nosso zero x zero na semifinal. Pacífico..., tranquilo como uma brisa soprando para a decisão por pênaltis. Sem aquele mergulho asfixiante em uma onda atrás da outra, sem tempo para respirar. Tudo estava correndo de acordo com os planos do treinador da Holanda, que, no final da prorrogação, substituiria o goleiro por aquele alienígena de três metros, para defender os pênaltis. Não contou com a humanidade de Van Persie e sua indisposição estomacal, e viu a possibilidade de substituir o goleiro ir pelo Rio da Plata abaixo, junto com a terceira substituição. Quem não faz, toma, diz a bíblia do futebol. Tomou. Mas não de sete x um.  E, assim, um de meus mais acalentados sonhos, o de que outra seleção também tomasse uma goleada fenomenal, também vazou Rio da Plata abaixo. A não ser que a gente possa passar o saco do Maracanaço para a Argentina... Mas nem penso em sonhar com isso, pois meus sonhos não estão se realizando. Pior, estão se voltando contra nossa própria seleção. E ainda temos um jogo, que, concordo com o holandês, nem devia existir. Dois perdedores disputando para saber quem é mais perdedor. Masoquismo futebolístico. E uma chance aos que foram desclassificados de se desforrar dos que os desclassificaram. Incentivo à vingança. E nem nome tem: não é uma final, não uma classificatória, não é um amistoso. Não é nada. É para o torcedor curar as feridas com salmoura (uuuuiiiii), e para a Fifa ganhar mais dinheiro. E...,

... a não ser que a gente conquiste o terceiro lugar (ou o Maracanaço, pelo menos parecido com sete x um,  passe para  os hermanos), esta crônica termina aqui.

 

2018

Como todos sabem, terminou, pois nem terceiro lugar, para aliviar o peso, o Brasil conseguiu, e o saco de sete x um continua em nossas costas.

Mas estamos em 2018, e até agora não consegui escrever FIM. Ainda sonho em devolver o sete x um para a Alemanha, numa semifinal, ou final, quem sabe? Ou, ao menos passaremos esse mico pra frente, para esse padecimento acabar?

 

Ilustração: Rute Yumi Onnoda

 

Perto do fim tudo é mais bonito

Autor: Marcos Pileggi

 

Não tinha conseguido dormir naquela noite. Ficou de olhos fechados, deitado, ouvindo o barulho das ondas.Tentava sentir alguma mudança na luminosidade pelas frestas da veneziana de madeira verde, antiga como ele. Assim que percebeu que amanhecia, levantou. Era sempre estressante o levantar. Não naquele dia. Desceu a escada bem lentamente, procurando fazer barulhos de passos que soassem solenes, como em filmes de suspense.

            Fez café, escovou os dentes em um banheiro ao lado da cozinha, e subiu para se vestir. Não queria nada muito formal, mas queria estar bem vestido. Uma camiseta polo, uma bermuda azul de que tanto gostava, sapatos estilo iatista e um boné azul marinho. Saiu da casa e trancou a porta. Parou por um momento, sorrindo. Destrancou a porta e subiu mais uma vez. Pegou um pequeno frasco branco no banheiro e desceu a escada, mais rápido e sem os barulhos solenes. Não havia solenidade quando se repetia o mesmo ato várias vezes.

Abriu a porta da garagem e ficou olhando. Havia acontecido tantas coisas importantes em sua vida, mas nada parecia ser digno de ser lembrado. Realmente achou que pensaria em algo. Nada. Olhou para um pequeno barco e para as amarras que o mantinham preso à parede. Sempre tinha preguiça de soltar aquelas amarras. Não agora. Desfez os nós com cuidado, metódica e calmamente. Desceu o barco sobre um carrinho de transporte e o levou para fora. Trancou a porta, mas deixou a chave inserida no cadeado.

            O caminho até a praia era curto,sua casa ficava em frente ao mar. Apesar disso, teve que fazer mais força para puxar o barcosobre a areia. Normalmente sentia preguiça nesta parte também. Lembrou que passeava com o cachorro todos os fins de tarde. Adorava o cachorro, mas sentia preguiça antes do passeio. Ficava com preguiça de sair para correr,antes de dar aulas, coisas que adorava. Adorava o passeio de barco que vinha em seguida à puxadado barco. Não entendia estes sentimentos. Agora não sentia preguiça. Finalmente.

            Chegou a poucos metros da água e largou o barco,olhando para a casa, por cima dos arbustos que ficavam em uma restinga junto à rua. Começou a caminhar pela praia, prestando mais atenção aos detalhes do que normalmente fazia. Olhou para o céu.

Lembroudo museu Van Gogh, em Amsterdam,das pinturasvistas tão próximas, nas quaiso céu não era apenas uma representação, mas do sentimento do artista. As pinceladas em relevo, as cores, pareciam puxar o observador para dentro das pinturas. Algumas delas continham areia das praias, que Van Gogh visitou, misturada nas tintas. Era quase impossível estar na mesma percepção do artista, descobrir todas estas nuances.As pessoas que conheciam as pinturas pela Internetou pelos catálogos, não as conheciam realmente.

            O céu, que olhava agora estava azul com nuvens brancas e rosadas na linha do horizonte, lembrava as pinceladas de Van Gogh. Tentou tocá-las com uma das mãos,com uma sensação estranha. Sabia que sua mão estava bem próxima de si e que as nuvens estavam muito distantes, mas parecia poder tocá-las. As cores eram muito nítidas, mas inalcançáveis, intocáveis. Mas a mão, céu e nuvens pareciam estar duas dimensões, em um quadro.

            Caminhava de volta ao barco. Apesar de ainda ser cedo, algumas famílias estavam se preparando para passar a manhã, ou até o dia. A visão de outras pessoas normalmente lhe enchia de raiva. Não as suportava, tinha uma percepção de como a espécie humana é predatória, injusta e egoísta. Só por existirem, destroem o ambiente, pessoas, ideias. Fazem barulho, fazem sujeira, consomem recursos desnecessariamente. E o fazem por que podem. De que vale ser uma civilização com cultura se é burra demais para utilizá-la?

            Desta vez não sentia raiva. Tinha uma sensação de conseguir entender as pessoas com as suas limitações, angústias e suas incapacidades em compreender o mundo. Se a humanidade tem algum sentido além de ser mais um tipo de animal na Terra, ele imaginava que pudesse vislumbrá-lo neste momento. Via famílias felizes passando um dia na praia. Somente isso.

            Conduziu o barco até a beira da água. As ondas estavam fracas, podendo subir sem problemas. Remava em direção ao horizonte. Podia ver as três ilhas, velhas companheiras deuma época que tinhas tantos planos. Agora só tinha um, e o estava executando olhando para elas. Remou muito, ficando cansado. Ajeitou o barco para ficar de frente para a praia, bem distante àquela altura. Passara tantas temporadas naquela praia, parecia um lugar comum, mas visto do mar, era belíssimo. Nós sempre estamos em um lugar belo, só é preciso ter uma boa distância para se perceber.

              Paz. É o que estava sentindo. Sabia que era um momento único, não iria se repetir. O sol estava mais alto, mais forte, não queria ter queimaduras, nem sentir fome ou sede. Tinha um comprimido, dentro do frasco branco. O barco balançava, ouvia o barulho da água, sentia a brisa, o calor, a vida passando. Lembrava de coisas do passado, tanto distantes quanto recentes. Fatos felizes, tristes, vergonhosos, grandiosos. Também fora enganado, tratado como objeto de barganha. Continuava a ter todo aquele passado, mas comoas nuvens no céu. As coisas boas estavam no mesmo nível das ruins, inalcançáveis, intocáveis, em duas dimensões. Um céu de Van Gogh. Sentia as pinceladas lhe puxarem. Era hora de partir.  

           

(Marcos Pileggi é professor de Microbiologia e Microbiologia Ambiental em cursos de Graduação e Pós-Graduação em Biologia Evolutiva na Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde realiza pesquisas com degradação de contaminantes ambientais. Orienta em curso de Pós-Graduação em Biotecnologia Ambiental na Universidade Estadual de Maringá. Tem doutorado em Genética pela Universidade Federal do Paraná e Ohio State University e Pós-Doutorado em Microbiologia Ambiental pela University of Minnesota.)

O passeio de Maria

Era início do outono e as árvores balançavam, espalhando suas folhas pelas calçadas. Lá dentro da choupana de madeira, aquecida pelo fogo, Maria Clara era embalada no colo de sua avó, que andava de uma janela a outra, cantarolando baixinho uma canção de ninar.

Desde que nasceu, era assim que Maria adormecia. Só fechava seus olhinhos com uma canção. Havia uma música de que ela mais gostava, era quase uma oração. Maria acostumou-se tanto com ela que, se a música era interrompida enquanto tentava dormir, mesmo sem aprender a falar, ela soltava sua voz em linguagem de bebê e cantarolava até a canção recomeçar, ou até ela fechar os olhinhos e dormir.

O que ela ainda não sabia é que existiam ao redor da choupana pequeninos seres que não se cansam de cantar. Os mais belos passarinhos, que enfeitavam as ruas do vilarejo e alegravam a praça com suas variadas canções. Alguns eram tímidos. Outros, exibidos e barulhentos. Com penugens de variadas cores, eles ocupavam a floresta, o campo e os jardins do vilarejo. Quando se juntavam em grupos, os sons se misturavam e se transformavam em uma bela sinfonia.

Foi então que naquela noite, ao dormir, Maria Clara sonhou. No sonho, ela ganhava de sua avó um par de sapatos mágicos e com eles partia em busca dessas aves encantadoras. No início da caminhada, buscou informações com as formiguinhas, queem longas fileiras, carregavam seus mantimentos para se prepararem ao inverno que logo chegaria. Então, depois de atravessar a ponte no riacho, Maria avistou uma linda casinha de pássaros. Dirigiu-se ao canário, que voava em torno de um galho de árvore. Suas penas amarelas refletiam o brilho do sol:

- Oi, meu nome é Maria. Vocês gostam de brincar?

- Brincamos sempre, linda menina. Mas gostamos mesmo é de cantar!

E o canário chamou seus amigos. Aos poucos, vários passarinhos foram se juntando na árvore e ocupando seu lugar. O bem-te-vi, o rouxinol, o sabiá e o azulão foram os primeiros a chegar. Depois apareceram o cardeal e o pintassilgo. E até o joão-de-barro e um beija-flor vieram, encantando Maria com tanta beleza. Passou horas com eles, ouvindo suas canções, conversando e brincando.

Mas o tempo passou rápido e ela precisava voltar. Até entristeceu-se.

- Queria tanto levá-los comigo, - ela disse. – Sentirei falta de todos.

- Não será preciso, criança, - respondeu o canário. Logo você crescerá, correrá pelos campos e nos verá por todos os lados. Onde houver natureza, você nos encontrará. Apenas nos ajude a preservá-la, porque sem ela nós também desaparecemos.

Maria Clara, ainda tão pequena, só entenderia mais tarde aquelas palavras.

- Como eu gostaria de lembrar para sempre desse passeio!

Os passarinhos se olharam, ao mesmo tempo em que ela se despediu e partiu. No caminho de volta, parou no canteiro de flores. Quem sabe cheirá-las um pouquinho ajudaria Maria a se lembrar.

Mas o fato é que ela nunca se esqueceu da visita aos passarinhos e do quanto foi divertido aquele passeio. Acredita-se que os passarinhos contaram seu desejo para as fadas dos sonhos, que o tornaram real. Porque quando Maria acordou, ela calçava em seus pequenos pés os lindos sapatinhos mágicos!

 

Autora:

Ale Dossena é curitibana. Formada em Administração de Empresas e Licenciatura em Letras, atua como divulgadora literária, professora e produtora de conteúdo. Publicou uma coletânea de poesias e três livros infantojuvenis. Ale também é apresentadora do canal “Portão Literário” no You Tube.

Ilustradora:

Stella Rocker, 34 anos, curitibana de coração, formada em Relações Internacionais, é mãe, empresária e ilustradora por paixão. Criatividade, cores e manualidades fazem parte do seu dia a dia.

Corpo fechado

Numa noite de lua cheia ele nasceu, 11 de maio, sexta-feira. O parto foi difícil, o guri estava atravessado. Depois de muito esforço, reza da parteira e da vizinha, ele virou, ficou em posição melhor e logo saiu. Nisso se passaram os gritos da mãe a noite toda. Praticamente exaurida das forças, Amália inda tentou esforço adicional para o outro bebê. Em vão. Já foi retirado sem vida. Dor irreparável para aquela mãe de primeira viagem. A cada aniversário, sempre velavam em silêncio, sem palavras, pelo menino morto. Aníbal sabia da história pelos outros, os primos principalmente. A ele a mãe não pronunciava uma palavra sequer sobre o assunto. Osório, o tio mais novo, um dia deixou escapar que, naquela madrugada, após retirarem o corpo do menino morto, a parteira colocou água sobre a fronte dele, fez uma reza e o benzeu, chamando-o de Anésio. Assim seria encaminhado ao outro lado com mais facilidade. Olhou para o pequeno Aníbal, que chorava com vigor, valendo por dois, e sentenciou: “Esse terá o corpo fechado, nada o atingirá. Nem ao corpo, nem ao coração”. O pai era marinheiro, meses e meses longe de casa, garantia os provimentos para a mulher e assim fazia lembrar a sua existência, presença física era rara.

Durante a infância, Aníbal era calado, mal tinha amigos, parecia um garoto normal apenas na hora do futebol no colégio, corria atrás de uma bola como qualquer guri. Um dia, houve uma grande chuva de pedra, foi num verão muito quente e incomum. Nuvens negras e densas carregaram o céu por completo, rajadas fortes de vento e chuva começaram a fustigar. As pedras vieram, mais pareciam ovos de avestruz arremessados com vigor. A casa dos vizinhos, onde ele estava, era um casebre de madeira. Num rompante mais forte de chuva e vento, o teto veio abaixo na sala. Os dois garotos, vizinhos, que ali moravam estavam ao lado do Aníbal e foram atingidos. Morreram na hora. Aníbal nada sofreu, sequer um sarrafo de madeira encostou nele. A mãe dos garotos, desesperada, nunca mais conseguiu olhar direito para ele, inconformada sobre como seus meninos se foram enquanto Aníbal nada sofrera.

O garoto tinha habilidades práticas e a mãe o colocou para trabalhar numa oficina mecânica ainda no começo da adolescência, a oportunidade lhe serviria para aprender um ofício. Conseguiu inscrevê-lo num curso técnico profissionalizante, no horário noturno. Logo no início das aulas, Aníbal conheceu o Paulo e se tornaram amigos. Moravam no bairro ao lado da escola e voltavam a pé para casa, juntos. Numa noite fria e chuvosa de inverno, as aulas terminaram um pouco mais cedo e os dois retornaram conversando sobre as disciplinas. Aníbal era muito bom em matemática e física e sempre ajudava o amigo. Quase chegando em casa, um carro cruzou a rua em alta velocidade, resvalou numa poça d’água e alcançou a calçada, bateu no Paulo e o arremessou para o alto. Aníbal ao lado, por um triz, não foi atingido. O motorista fugiu. Paulo foi socorrido, mas não houve o que fazer, morreu ainda na calçada, olhando para o Aníbal e dizendo: “Obrigado por me ensinar matemática”. Aníbal recolheu os tênis do Paulo, arrancados de seus pés na violência do impacto, e foi até a casa dele. Bateu na porta e foi recebido pela mãe do garoto. Quando ela viu o par de tênis do filho abarrotado e ensanguentado, desatou a chorar. Pelo que consta, nunca mais parou de chorar pelo menino morto.

O coração do Aníbal seguia reservado e calado, nunca falava de sua vida pessoal. Tornou-se um homem bonito, com várias pretendentes e interessadas. Ele nada expressava, jamais a vida pessoal comentava. Um dia apareceu com uma desconhecida daquelas vizinhanças. Moça muito calada que não fez amizade com ninguém. Via-se apenas que estava grávida, a barriga crescendo a cada dia. Acharam estranho que ela possuía uma tatuagem de serpente no braço esquerdo, que se entrelaçava com dois corações. Quando as dores do parto chegaram, a moça foi para o hospital. Contou um vizinho enfermeiro que estava de plantão que houve uma complicação e a moça não sobreviveu. Aníbal voltou para casa com o recém-nascido nos braços. Deu-lhe o nome de Anésio. Criaria aquele menino sozinho, inseparáveis depois que o pai voltava do trabalho.

Arte de Rute Yumi Onnoda

Autoria: Renata Regis Florisbelo

 

CORINA PORTUGAL - Um anjo de luz a confortar almas

POR DIONE NAVARRO

Exatamente há 129 anos no dia 26 de abril de 1889, se despedia da cidade de  Ponta Grossa uma linda jovem carioca de 18 anos chamada Corina Portugal. Ao se casar, abandonou a vida de nobreza do Rio de Janeiro em busca de realizar seus sonhos de amor. Sonhos juvenis que foram interrompidos tragicamente dois anos depois com 33 facadas desferidas pelo seu marido, seu algoz. Corina partiu silenciosamente deste mundo, mas suaspegadas haveriam de marcar as calçadas de nossa cidade. A população comovida começou a acreditar na santidade desta jovem cruelmente assassinada e súplicas de esperança fizeram de sua lápide, um santuário àqueles que padecem. Principalmente daquelas mulheres que sofrem violência doméstica. A primeira placa de agradecimento fixada à lápide data do ano de 1945, com um “obrigado” pela graça atendida.  A partir daí,uma história de santidade balizada pela crença popular faz do Cemitério Municipal um lugar santo de curas dos males do corpo e da alma, promovidas pela “santinha dos Campos Gerais”, como assim é chamada afetuosamente Corina Portugal. Santidade essa, que seus fiéis acreditamter sido comprovadaanos mais tarde pela abertura de seu caixão, onde o corpo de Corina estava intacto e de dentro do caixão exalava um perfume de rosas. Rosas! Parece que rosas são os símbolos de fé e a linguagem silenciosa desta “santinha”. Ao escrever o livro Corina Portugal: Súplicas e Respostas (2016), uma devota relata agradecida que foi curada de um câncer terminal pela intercessão de Corina quando, essa lhe apareceu no meio da noite num clarão de luz e disse:

“Diga às pessoas que onde eu estou, eu posso ajudar quem padece e se alguém quiser me agradar eu gosto de pétalas de rosas brancas”.  E as rosas brancas continuaram a falar por Corina. Outra devota relata que ao receber um milagre, que, neste dia da graça recebida, no seu quintal floresceram rosas brancas, sendo que ela nunca tinha plantado rosas. Quando escrevi esse livroonde colhi mais de 80 depoimentos de graças atendidas, transitei pelo mundo do enigmático e me defrontei com uma nova seara, a perspectiva da santidade. Um universo sagrado onde encontrei um espelho “da crença em algo maior”que me fizeram ver, o que as cortinas do cotidiano me impediam de enxergar. Enclausurada nomeu bem-estar, subtraída dos anseios que afligem tantas pessoas, não tinha a dimensão das dores que angustiam pessoas que dividem comigo o mesmo caminhar. Quem adentra pela primeira a alameda onde se encontra o túmulo de Corina fica impressionada pela centena de placas de agradecimentos. E todas as semanas, em qualquer época do ano seu túmulo é repleto de dezenas de flores, bilhetinhos, objetos religiosos, cartas de agradecimentos que seus devotos carinhosamente introduzem nas frestas de sua morada na esperança que sua “santinha” leia e os atenda em seus pesares. Se escrever um livro sobre Corina Portugal abriu portas dos labirintos de minha alma para que novas verdades fossem reveladas, o carinho e a fé que o povo ponta-grossense dedica à “sua santinha” é a única certeza que somente o “acreditar” muda destinos e pode reescrever novas histórias de vida! E testemunhartudo isso, para mim foi maravilhoso!

 

*Dione Navarro é farmacêutica-bioquímica com Doutorado em Química de Produtos Naturais, Pós Graduação em Fitoterapia, Homeopatia e Florais de Bach. Presidente da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes (APLA).

 

DORES DA ALMA

Por Dione Navarro:

Vivemos na era dos fragmentos. Das especificidades. Dos especialistas. Existem especialistas para tudo. Nas lojas, nas profissões, na saúde. Na saúde ...aí é que as fragmentações são mais evidentes. O ser humano virou uma colcha de retalhos, onde ele passou a ser apenas órgãos! Esqueceu-se que ele é um ser total, um sistema. As pessoas são conhecidas como:  João que sofre do coração, Maria que tem asma, Antônio que é diabético. E neste contexto fracionado algumas terapêuticas timidamente e muitas vezes contestadas insistem no ser humano holístico, um ser total, onde mente,  corpo e emoções  interagem não através de uma visão fragmentada do real, mas sim num  entendimento fenomenológico da pessoa como um todo.

Assim algumas especialidades estão sendo reconhecidas no mundo todo e têm quebrado paradigmas ortodoxos para trazer novas opções de cura, como é o caso da Homeopatia, que acredita que existe uma energia vital circulante no ser humano e, quando em desequilíbrio, provoca enfermidades.

Ou ainda a Acupuntura que estabelece no corpo linhas invisíveis chamadas meridianos por onde circula e se restabelece os fluxos da energia vital que promove a saúde. Outra ciência mais atual e ousada como a Psiconeuroimunologia (a partir de 1981),  estabelece a profunda interatividade entre o comportamento e os sistemas endócrinos, nervoso e imunológico,  ou  a terapia Florais de Bach (ainda carente de legislação própria) que enaltece a importância dos estados mentais ou emocionais que, em desarmonia, podem se cristalizar no campo molecular e provocar doenças.

Estes novos paradigmas que rejeitam a inflexibilidade de uma abordagem única, oportunizam tratar o ser humano como um ser holístico, onde o sintoma da enfermidade  é apenas um apelo do corpo em favor de uma causa maior. Causa esta, representada pelos sentimentos em desequilíbrio localizados numa esfera tão sutil onde a ciência  não consegue adentrar. Neste novo universo se enaltece a influência de estados mentais desarmonizantes, que podem se somatizar no corpo físico.

Para comprovar essa psicossomatização, inúmeros trabalhos científicos foram desenvolvidos por psiquiatras e pesquisadores, onde se mostrou que indivíduos infelizes reduzem até 90%  a fagocitose de seus macrófagos (células de defesa); o medo contínuo e duradouro promove a distorção da capacidade visual e  o stress ou a perda de uma pessoa amada leva ao enfraquecimento do sistema imunológico.

A partir daí surgem “as dores da alma”! Dores na maioria das vezes não detectadas por aparelhos ou exames, mas são um espelho de que “se o coração sofre, o corpo dói!”. Dores da alma como a mágoa, a culpa, o remorso ou  tristeza, que não são assuntos de noticiários da mídia,  mas são sentenças de sofrimento que deixam sequelas,  que podem perdurar por muito tempo e somente quem as viveu pode avaliar o peso do seu estrago.

Não se detectam esses  sentimentos em exames de rotina, no entanto, interferem no  cotidiano das pessoas, onde: a tristeza pode sufocar sonhos, o medo  impede o movimento da vida, a solidão consome, as neuroses tiranizam , as incertezas abafam esperanças, culpas aprisionam ao passado, a depressão escurece o arco-íris do caminho. São dores do coração que pode evoluir para doenças orgânicas quando não se chorou todas as perdas.

Algumas linhas terapêuticas até associam a disfunção física de uma parte do corpo com uma determinada emoção. Por exemplo, problemas pulmonares estão relacionados com a ansiedade; disfunções na garganta apontam palavras reprimidas; cefaleias podem ser produzidas por pensamentos repetitivos e obsessivos; oscilação na pressão arterial aparece em momentos de grande insegurança; problemas ósseos e sérios de coluna/postura caracterizam a inflexibilidade diante das situações da vida; distúrbios sérios da visão despontam quando uma pessoa tem uma verdade absoluta diante dela e não consegue enxergar.

O rim é o órgão do medo, onde o medo extremo  pode levar  até à perda do controle da função renal. A  culpa enfraquece o coração,  a preocupação interfere no metabolismo do baço, problemas estomacais  estão relacionadas  a sentimentos como a raiva e a frustração, a sensação de náusea e nó na garganta  se traduzem  pela emoção de “não se conseguir engolir” certas situações imperativas e a incerteza no agir interfere no equilíbrio dermatológico provocando excessiva sudorese.

E finalizando, e ressaltando essa estreita relação que existe entre nossas emoções e as enfermidades, estudos recentes realizados por equipe de médicos americanos comprovaram que em 100 casos de pessoas que desenvolveram algum tipo de câncer, quando rastreadas suas vidas e comportamento social, tal ensaio demonstrou que  90% dessas pessoas eram detentoras de um ressentimento ou mágoa que não conseguiram digerir e metabolizar ao longo de sua existência. Quando um dos médicos foi questionado numa entrevista, pela pergunta:  qual seria o melhor medicamento preventivo para evitar a formação de processos cancerígenos, ele enfaticamente  respondeu:

- Contra o câncer, só existe uma maneira de prevenir: exercitar o Perdão!

 

Dione Navarro tem Doutorado em Química de Produtos Naturais, Pós Graduação em Fitoterapia, Homeopatia e Florais de Bach. Presidente da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes (APLA).

O chato que escrevia bem

Por Renata Regis Florisbelo

Quando das reuniões acadêmicas, todos dele queriam escapar. Comentários, risos sem graça, falas frívolas para, das conversas chatas abstrair. Sempre desferindo perguntas inconvenientes nos momentos mais inoportunos. Dúvidas sem sentido, opiniões fora de hora, sem perceber os trabalhos e afazeres a serem realizados, tomando do tempo de outros. Por certo não seria o único com tais hábitos. Outro senhor muitíssimo conceituado, com inúmeras publicações de peso e respaldo, até prêmios, era um caso estranho também. Certa vez eu mesma ouvi sobre o tal que era excelente escritor, entretanto uma pessoa mal-humorada e péssima de se lidar. Não pude escutar de forma impune e me pus a refletir sobre a pitoresca situação. Tantas edições  de poemas, crônicas, contos, romances. Neles, invariavelmente, sempre o autor assume pontos de vista que não necessariamente são seus. Em outros casos, personagens tomam emprestadas suas ideias, sua imaginação, emoções ou ainda sua procura e investigação. Mais do que isto, o autor chafurda por realidades a ponto de conhecê-las como se fossem suas. Seria isto talvez? Uma apropriação desmedida e criminosa do que não lhe pertence, fazendo de conta que é seu? Pensando bem, talvez esta afirmação contenha um pouco de exagero, no máximo bastaria um enquadramento como "uso capeão" da tal circunstância. Que se valha disto, o inescrupuloso escritor para forjar seus sentimentos. Não! Não seria este o caminho, acusá-lo de falso e dissimulado. Ele, também ela, para o gênero feminino as mesmas ponderações valem, apenas tem a boa vontade de querer conhecer o que não é seu. Então! Eis a charada: o elemento em questão se trataria de um "voyeur", um observador sem escrúpulos que rouba da intimidade alheia. Hum! Roubar o quê? A intimidade, isto sim! Os temores, os anseios, os medos, também as fantasias e as taras. Se é que alguém as tenha em proporção tão voluptuosa a ponto de querer escondê-las.

Creio tratar-se mesmo de um curioso mistério, às vezes aquele senhor tão carrancudo e a distinta senhora com ar de freira, publicam textos quentes, de teor sensual capaz de revolver até os pensamentos menos pudicos, ou o moço tímido, pacato e bem-intencionado que escreve contos com requintes de carnificina, não economizando em anatomia descritiva de estripamentos. E sempre a expressão facial impávida. Seríamos, nós escritores, colecionadores de motivações alheias buscando os extremos das condições narradas? Procurando motivos psicológicos para abarcar as ações, com ou sem julgamento, voltando aos deliberados estímulos como nossos? Revolvendo o passado, percebo que sempre encontrei, ao longo da vida, os tais chatos que escreviam bem. No ginásio, lembro-me claramente de uma menina esnobe e um jovem prodígio, e como tinham facilidade com a escrita. Todavia, fora do papel as palavras dirigidas diretamente, por eles, não eram cordiais. Lamentável talento relegado, quando da tônica de provocar o encantamento, apenas ao papel. Já sei o que vão pensar, há uma coleção de atores, atrizes, cantores e cantoras famosos por seu talento e antipatia igualmente proporcionais. Fato. Pensando melhor, pondero que talvez não seja fácil tentar carregar tantos arquétipos, tantas motivações numa só mente a se manter fértil em sentimentos e intenções, inda que não sejam nobres as dos seus personagens. Confesso! Sou otimista! Creio fielmente que os indivíduos azedos e mal-humorados tentam procurar, no fundo, na escrita, novas opções que lhes compensem e equilibrem a vida. Quiçá venham a escolher, um dia, formas mais amistosas e cordiais para sua própria expressão. Por certo, depois desta análise tenho grandes chances de ser taxada como uma chata que sequer escrevia bem...

Arte de Rute Yumi Onnoda

 

 

 

 

 

 

PANELA DE PRESSÃO
Autora: Rô Mierling

 

“Porque o feijão estava triste? Porque ele iria para a panela DEPRESSÃO!”

Ele era um feijão trabalhador. Sempre se esforçou muito para dar o melhor de si. Foi um rapaz estudioso, dedicado. E quando surgiu uma oportunidade, ele se inscreveu para um concurso público. Queria trabalhar em um banco e ganhar a sonhada estabilidade.

Enquanto estudava para o concurso, incansavelmente, dia e noite, sua noiva torcia por ele. Em breve se casariam, ela estava grávida. Teriam um lindo feijãozinho ou uma feijoazinha. Tanto faz, vindo com saúde, seriam felizes.

O senhor feijão passou no concurso, eles se casaram. E ele passou a trabalhar no banco.

Um ano, dois anos, cinco anos, dez anos.

Mesma função, mesma atividade, mas já desde o primeiro ano, algo perturbava o senhor feijão. Seu chefe estava sempre em cima dele, cobrando, exigindo, metas a cumprir, produtos bancários a oferecer. Ele via o chefe gritando, pressionando, cobrando todos os funcionários e com ele era ainda pior. Ele não falava nada, só concordava. Gostava do trabalho, mas a pressão aumentava a cada ano. Sem promoção, sem prêmios por esforço. Mas a cobrança, agora com mais de dez anos de trabalho, era desenfreada. Se o país entrava em crise, tudo ficava pior.

GRITOS, BERROS, PRESSÃO – venda, venda, venda. Seguros de vida, seguro para automóveis, qualquer coisa. VENDA – LUCRE!

E o pobre senhor feijão trabalhador começou a sentir palpitações toda vez que ia trabalhar. Suor frio nas mãos, uma dor no peito. Sua alegria já não era mais no trabalho. Era aflitivo e torturante. Ele estava esgotado mentalmente e veio um sentimento de peso, de tristeza cada vez maior. Nem mais quando estava em casa podia se sentir feliz. Sabia que teria que ir trabalhar no próximo dia e escutaria os gritos, cobranças e isso lhe atormentava.

Os sintomas de sua mente e de seu corpo fizeram dele um feijão murcho e cada dia mais seco. E ele não sabia o que estava acontecendo dentro de si mesmo, só sabia que estava muito mal.

Em um dia, ele abriu uma revista e leu sobre outros feijões que passavam a mesma coisa que ele. Todos iam para a PANELA “DEPRESSAO” – não apenas de pressão, mas sim com pressão, gerando a tal da DEPRESSÃO e um termo novo surgiu na reportagem - síndrome de Burnout. Ele então soube que estava doente, estava sendo assediado moralmente e ele não queria, de forma alguma, ser mais um feijão na PANELA DEPRESSÃO.

Entrou com um pedido de avaliação psicológica, registrou uma queixa contra seu chefe. Com coragem e disposição, subiu pelas beiradas e saiu da tal panela.

Em algumas semanas, tudo mudou. Ele voltou a ser um feijão brilhoso, alegre e produtivo, em outro cargo, outro lugar e sem PRESSÃO - SEM DEPRESSÃO.

Hoje, ele é um feijão feliz novamente.

 

ALERTA: não se deixe pressionar demasiado em seu ambiente de trabalho. Pressão, assédio moral e cobranças descabidas geram depressão, mal estar e doenças psicossomáticas. Lute pela qualidade de vida em um ambiente de trabalho saudável.

 

Buenos Aires, 16 de agosto de 2017.