Arte Mista
Minicontos III

Chora maçã

Alíria chorava, as lágrimas escorriam copiosas, desciam pela face como corredeira que finalmente rompe pelo veio entre as rochas e deságua com tudo, por tanto represadas. Seu peito era o terreno que deixava brotar o filete que se avolumava e queria jorrar. Um misto de medo, tristezas, frustrações. Havia tempo ela não chorava. Tantas coisas vividas e não esquecidas. Lembrava do homem vindo a cavalo, presença firme, segurava a rédea como quem sabe onde vai, por onde seguir e o que está prestes a encontrar. No galope rápido, o animal também se extasiava, seguia um caminho que passava a ser seu. Alíria olhava pela janela. Agora o homem não mais passaria, fora embora deixando o sorriso dela órfão de motivos. Naquela manhã em especial saudade, pegou a maçã, lavou tristemente, contemplou alguns segundos aquela tez vermelha, quase se espelhava nela. Mordeu. Uma sonora mordida que terminou no estalido que rompia a polpa, pele rasgada, na boca o pedaço se avolumava em águas, no sulco abundante. Nos olhos também, vertia abundante o sumo do extrato da sua carne. E maçã e seus olhos desaguavam sem parar. Era de ver quem mais chorava, Alíria nos olhos ou a maçã na boca a se despedaçar.

 

 

Hotel barato

Escolheram ao acaso a região da cidade, qualquer uma serviria, já que era apenas para o pouco tempo disponível. Ela caprichou no visual, botas de cano e salto alto, mini-saia, maquiagem marcante e cabelos soltos, queria causar boa impressão. Ou melhor, chamar a atenção, já que havia seis anos não se viam. Esse encontro só seria possível porque ele veio passar dois dias e uma noite a trabalho na cidade. Estranha sensação, depois de tanto tempo ainda havia o gosto, o desejo, as lembranças arrebatadoras dos últimos encontros. Na praça e horário combinados, ele estava lá, não mudara muito. Sorriso largo, olhar que continuava provocante, mãos e braços fortes no abraço. O próprio taxista foi quem recomendou o lugar, um hotel barato no centro da cidade, na parte mais antiga e decadente. De certa forma foi o que pareceu a ela, um encontro furtivo, em ambiente decadente, sintoma de sentimentos igualmente decadentes. Seriam os amores antigos também obsoletos e fardados ao declínio? É possível. Na prática, na manhã seguinte, entre cobertores fuleiros e conversas efusivas, tudo de bom o tal quarto lhe parecia.

 

Telepatia

Pensei e ele também pensou, no que mais se pensaria? Pelo menos era o que me ocorria. Imaginei tantas cenas, inúmeras fantasias. Contudo, o que mais me recorria era se realmente haveria a tal telepatia. Uma noite, um estranho desconforto me acometeu, logo eu que nunca fico doente. Dias depois soube que ele passara muito mal e fora internado às pressas, crise de apendicite. Depois das festas de fim de ano, eu arrumava o jardim quando uma cena me veio à mente: flores, muitas flores e uma avenida larga com prédios antigos. No mesmo instante ele ligou, disse que estava num lugar muito agradável, com muitas flores, uma larga avenida e prédios antigos. Telepatia? Talvez. Nesse instante olho o relógio, são 11h53m, amanhã lhe perguntarei, nesse mesmo horário, ontem, por acaso, em alguém ele pensaria? Não, não perguntarei, que ideia sem sentido! Pego o gato no colo, que olha agradecido, faz cara de dengoso e mia. Ouço sinal de mensagem. Foto recebida. É ele, em casa, com um felino no colo. Telepatia? Pode ser, pelo menos, com tudo que mia.

 

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

ÊXODO

POEMA DE ROSICLER ANTONIÁCOMI ALVES GOMES

 

 

ÊXODO

Era um dia ensolarado, anfitrião festeiro

Fazendo as honras do recreio

Convidando pra folgar.

 

E eu ao menino triste, sentado no patamar:

Por que assim turvo teu olhar?

Ele a mim confessou:

 

“A mágoa que nele mora foi revorta quem plantô,

Porque vão me levá embora

Daqui pra outro lugá.

 

"Não tem lugá que nem esse pra gente se acomodá.

Da cidade conheço história,

Dos cabelo arrepiá.  

 

"De menino que fuça lixo pra podê se alimentá,

E uns que vive que nem bicho

Por não podê trabaiá.

 

"Coisa que não entendo é lei que não tem sentido:

Menino não ter dever

Mas podê virá bandido.

 

"Assim reza a Escritura: ‘Quem não trabaia não come’,

Mostrando que a vida é dura

Pros nascido bicho-home.

 

"No sítio trabaia o home, e também o menininho.

Tem serviço de todo tipo,

Do pesado ao levinho.

 

"Não é desonra o trabaio que ensina a fazê o destino –

Só o trabaio explorado

Que enriquece o ladino.

 

"Mas até o sítio padece de um cruel desatino:

Nem pro home é permitido

O trabaio que a terra dá.

 

"Uma máquina logo faz o que pra ele é sofrido

Mas não repassa pro home

Metade do que é colhido -

 

"Que o direito ao trabaio é propriedade do home.

Se pra máquina ele passô

Foi meação que tratô.

 

"Por que então pro home, que fica sem o trabaio,

Só resta arrumá as traia,

E deixá o seu arraiá?

 

"E disputá c’otros home um trabaio que não conhece

E c’oa natureza bardia

Um canto pra moradia?”

 

Não pude contradizer, porque as lágrimas não deixavam,

Nem argumentos restavam

Contra tanta filosofia.

 

Vi que a vã sabedoria dos bancos da faculdade

Com a razão não podia

Daquela pura verdade.

 

Mas perguntei: Não sobrevivem da pequena propriedade?

E ele: “Pequena, sim, professora,

E de pouca utilidade.

 

"O mato que nela cresce tem lei de preservação

Com muito justa razão,

Que o caipira não desacata.

 

"Mas só o matuto é que paga pelo bem que traz a mata

Pra humanidade inteira,

Se justiça é verdadeira?

 

"Hoje vi uma triste revorta – cena pra nunca esquecê –

Meu pai, que ama o pinheiro

E tudo faz pra crescê,

 

"Pisotiá uma planta de pinho, que pequenina crescia

No carreiro pro paió,

O que me deu muito dó.

 

"O pobre viu na plantinha o que ela um dia seria:

Natureza protegida

À custa da sua vida.

 

"Vai vendê a propriedade de muito pouco valor

Porque o eito de prantio

Não é bom pra trator

 

"Vai virá uma chacrinha pro descanso de um doutor

Um de nóis vai sê o caseiro

Os otros vão pro lixeiro.

 

"Como seria pro bicho da sua mata levado,

Ir prum circo, engaiolado

E fazê coisa de artista?

 

"O que não se permite ao home, o bicho do mato avista:

Um grau maior na existência –

Em vez de bicho, ser home.”

 

Eu quis dizer que a cidade podia se bem legal

Pra o menino consolar,

E pro assunto acabar.

 

Mas não podia faltar com o teor do juramento

De a verdade sempre ensinar

E balbuciei um lamento:

 

Não é nada diferente de tudo o que vi na História:

A mentira é sempre enfeitada

Mas a verdade é simplória –

 

O poderoso engendra as manhas para o humilde governar

Por leis elaboradas

E esse poder conservar

 

Muitos ISMOS nasceram com a melhor das intenções:

Favorecer sempre os mesmos

Poderosos das nações

 

Mas não respeitam a lógica da humana vivência

Que rege o passo do humilde

E a sua inteligência.

 

 Saber não nasce com o Sábio, ele o busca e alcança;

E à Verdade se lança,

Lhe presta fidelidade.

 

Mas quem o Poder venera, lhe deve retribuição.

E a consciência perece

Na desigual relação.

 

Por isso deve o humilde com todo o coração

Empreender RESISTÊNCIA

Como sábia resolução.

 

Tela do artista plástico Marcelo Schimaneski, que estará com uma exposição de seus trabalhos em técnica Naif, na Biblioteca Pública Municipal, durante o mês de agosto.

 

Amor no velório

Levantou um pouco a saia, discreta e delicadamente. Olhou com o canto do olho direito e mirou seu alvo: Osni, também discreto e calado, que acabara de chegar. Saia violeta e preta com mesclas de outras cores. Pernas cruzadas ao estilo que se faz de displicente, mas mede, meticulosamente, cada detalhe pensado para causar certo efeito. E qual seria? Chamar a atenção do Osni e despertar o que aquele morto que ali jazia, quando vivo, mais gostava, o jogo de sedução e conquista. Ela sentara no começo das fileiras, tendo o cair da noite como presença; a noite avançaria. Lucimara nem era tão bonita, mas possuía um carisma além da conta. Atraía os olhares dos homens com total magnetismo. Aquela cruzada de pernas era sempre eficaz em perturbar a paz e estimular a imaginação de alguém. O falecido tinha problemas crônicos de saúde, contudo nada que impedisse viver e desfrutar de certos confortos e luxos. Vivia bem, até o dia em que a mulher aparecera em casa com uma nova preferência religiosa. Havia, aos poucos, aderido a uma religião bastante restritiva quanto aos hábitos sociais, alimentares e musicais. Inclusive o gosto dele, que era de roda de samba com amigos nos finais de semana, regados a chope e cerveja, passou a ser veementemente combatido. Também Osni se deixou encantar e seduzir pelas cruzadas de pernas da intrigante Lucimara. Quando ele chegou ao velório, um burburinho se formou. Algumas comadres nas cadeiras mais próximas ao caixão cochichavam e mal falavam da Lucimara. Nada cordiais as acusações. Que era desavergonhada, que era cacho do morto, e que falta de vergonha era sua presença ali, ainda mais considerando que também tinha um caso com o amigo dele, Osni.

- / -

Lucimara rezava. Seu velho pai fora padrinho de batismo do falecido, afeiçoando-se a ele como a um filho. Ela se lembrava dos Natais, dos Domingos de Páscoa, dos aniversários do menino afilhado e seu pai sempre demonstrando crescente afeto por ele. Chegou a lhe dar o apelido de Nico. Ninguém o chamava assim, nem a família dele, só ela e o pai. Sem que os demais se apercebessem, foram convivendo como irmãos. Assim cresceram, um cuidando e se preocupando com o outro, embora de forma leve e carinhosa. A adolescência trouxe os amores, as primeiras paixões. Um dia, Lucimara olhou para Nico e percebeu angústia em seu olhar, insistiu para que lhe revelasse o motivo da aflição. Ele arregalou os profundos olhos castanhos e desatou a falar de uma vez só sobre o aperto em seu coração, causado por um amor incomum, inaceitável, um rapaz mais velho e já comprometido com uma moça. Lucimara conhecia bem o amigo e a família, podia imaginar a tragédia que a tal preferência, se descoberta, desencadearia. O pai e o avô do Nico eram tradicionalíssimos, donos de lojas e casas comerciais conhecidas e consagradas na conservadora cidade interiorana. O que já era uma amizade forte tornou-se insolúvel e Nico, a cada ano, sofrendo com novos amores, dissabores e romances ocultos, Lucimara sempre a lhe amparar. A família exigiu que o rapaz casasse e constituísse família. A contragosto, porém disfarçando, Nico escolheu a mais tímida e discreta moça da vizinhança e cumpriu o desejo da família, não sem escapar sempre e mais em seus amores proibidos. Lucimara era a única que sabia e lhe acobertava em tudo, sem se preocupar com os falatórios que começavam a recorrer sobre ela como oferecida e fácil, alvo dos ciúmes da mulher do Nico.

Quando Osni apareceu, depois de anos morando no exterior, foi arrebatador, as lembranças da adolescência vieram à tona, o que se poderia chamar de amor à segunda vista. Ele e Nico mal podiam disfarçar em juras de amor eterno. Pressentindo o perigo, Lucimara interveio e passou a demonstrar afeto além da conta para ambos, em situações públicas. Ela era discreta em sua vida particular, ninguém a vira com alguém, somente com Nico e, agora, com Osni. Os buchichos e rumores foram totais, onde já se viu ter caso com um homem casado e com outro recém-chegado de volta à cidade! Lucimara lembrava apenas da voz do velho pai, antes da doença lhe roubar a sanidade e a vida, dizendo:

- Fique perto do Nico, esse menino vale ouro! É meu filho de coração!

Parece que tanto amor, às vezes, não cabe no coração. Antes de completar 42 anos, numa madrugada fria de junho, Nico foi embora, disse adeus com um infarto fulminante. Lucimara não coube em si de tristeza, seu amigo, irmão, seu tudo. Na capela, sentou-se o mais próximo possível do corpo, de vez em quando levantava pegava a mão do Nico e beijava-lhe a fronte, indiferente às caras feias da viúva. Quando Osni chegou, em consternação contida, Lucimara disparou-lhe seu olhar mais sedutor, ergueu discretamente a saia, cruzou e descruzou as pernas. Ele entendeu e a tudo retribuiu com correspondente olhar sedutor. Faces indignadas com a cena jamais imaginariam o pacto de silêncio assinado a três mãos.

Arte de Rute Yumi Onnoda

Autoria: Renata Regis Florisbelo

CRÔNICA – DELÍRIOS NO SÁBADO À TARDE

Por Rosicler Antoniácomi

 

No último sábado, dia 30 de junho de 2018, estive presente no evento do lançamento do excelente livro Delírios de uma Mente Perturbada, em segunda edição por Chiado Books, abril de 2018, que teve lugar no hall da Escola de Idiomas First Class, na Avenida Visconde de Mauá.

Não fui apenas pelo livro, cujo título e sinopse, que eu havia lido alguns meses atrás na página da editora, sugeriam drama psicológico, o que, pela pouca idade de seu autor, provocou em mim uma curiosidade para conferir até onde está indo a juventude nas profundezas do Ser. Fui também por outra curiosidade: a de confirmar minhas suspeitas de que o jovem escritor – que a leitura já mencionada deu-me ciência de que residia em Florianópolis –, poderia pertencer a uma família ponta-grossense à qual sou ligada por laços relacionais.

Fui entrando naquele ambiente onde fui reconhecendo fisionomias (algumas eu não sabia nominar), que me acolheram, também sem me identificar, ainda, como uma "conhecida". Logo ao primeiro contato com o jovem escritor, esclareceram-se as suspeitas: já reconheci o ramo de parentesco que o ligava ao meu genro, e outro ramo ligado a um dos padrinhos de meu casamento (trinta e quatro anos atrás). E aquela assertiva sempre repetida de que "esta cidade é pequena", se mostrou verdadeira. Logo aquele evento literário pareceu um encontro de famílias conhecidas, com grupinhos de senhoras falando dos filhos que estudaram no mesmo colégio, de amigos e amigas do escritor que comentavam as novidades sobre parentes ou amigos que tinham em comum, e de alguns fanáticos por futebol que preferiram lançar os olhares nem tão furtivos a um televisor que transmitia o jogo do Uruguai versus Portugal, inclusive eu. Um agradável encontro familiar.

            O que pode acontecer quando uma mente perturbada, em delírios para desvendar os mistérios de um círculo familiar em conflitos que a arrogância e a ganância promovem, apresenta-se a um cérebro jovem empenhado em produzir boa literatura?

            Tratando-se do escritor Jhônatas Kuhn, jovem oriundo de famílias que floresceram e espalharam seus frutos pelos bairros de Oficinas, Maria Otília e Colônia Dona Luiza, filho de Rute Kuhn Knaut e Gerônimo Knaut, posso dizer que o resultado foi a primeira fase da saga com drama familiar, em que a ascensão do jovem herdeiro ao poder máximo na empresa da família sofre oposição dissimulada às voltas com intrigas e manipulações que afetam o estado psicológico do herdeiro graduado e pós-graduado em estratégias de administração. O personagem narrador, em um crescendo no decorrer da narrativa, vai abandonando a simples apresentação dos fatos que constituem o enredo – como o propósito de atender às expectativas do patriarca de se tornar seu substituto como empresário irrepreensível, que acalentara desde a infância – para mergulhar nas profundezas e na escuridão da desconfiança, da perplexidade, da frustração, quando a constatação da hipocrisia, do machismo, da arrogância, e da omissão de familiares envolvidos em uma disputa mesquinha o arrastam para o abandono de si mesmo, na compulsão pela virada do jogo e pela vingança, pois os ícones que alimentaram a formação de seu caráter, que construíram seus conceitos mais valiosos deitam por terra, dando lugar a um insuportável vazio.

            Sim, na madrugada seguinte, 1º de julho, às 2h30min, terminei a leitura que não me concedeu a permissão para pausas ou para outros afazeres, tal o apelo exercido pelo drama tão bem conduzido. 

            Recomendo a leitura para jovens e adultos dispostos a brigar valentemente com agendas de compromissos e com o relógio que vão querer tomar-lhes o prazer dessa leitura sedutora. 

 

2014 - SETE A UM

Autoria: Rosicler Alves Gomes

 

Pelo amor de Deus, acabe logo!

Acabou. Mas não foi aquele fim: agora é pegar a trouxa e ir embora, curtir a derrota em casa, deixando o vexame para trás. Não. Ainda é preciso pensar no terceiro lugar (ou quarto). Um torcedor descrente, que até já esperava perder (por um pouco menos, claro), mas torcendo ainda assim, não sabia como expressar seu sofrimento: "Vamos olhar o lado bom". E os enfurecidos, que já tinham esgotado o repertório de palavrões: "Que lado bom? Poderia ser dez x zero?". E o descrente, agora com riso sarcástico sofrível: "Ninguém mais vai falar no Maracanaço. Agora tem o Mineiraço."

Por um momento, tudo virou piada com a famigerada semifinal. Fui ao meu jogo de Vôlei das terças-feiras, cumprir minha escalação no time reserva, e tive que aguentar a babada do treinador, porque as titulares tinham perdido (feio) no Copa Cidade, no domingo. E não pude me conter: "Foi um preparação psicológica para hoje. Sem essa preparação elas poderiam não suportar." 

O pior era não poder tirar da cabeça aquele refrão da Globo (que eu tive que parodiar, para não me sentir retardada), que ficou assim:

"Eu sei que são

Sete gols, como sei!

Vi gol mais gol

E não era  'replay'

Mesmo perdendo

O Brasil é espetacular

E nem precisou do Neymar!!!"

A paródia continua, referindo-se ao Fred, mas não é possível transcrevê-la, para não tornar esta crônica imprópria para menores.

Nem cantar aliviava o peso daquele sete x um. Cheguei a acalentar um devaneio insano (até falei em voz alta, para incentivar uma reação positiva do Cosmos):"Vou pra casa, assistir à Central da Copa, quero ver os gols do Brasil”. Vai que foi só um pesadelo, ou um desvio temporário da rota dimensional, que só eu peguei, por conta de algum pecado contra a Esperança. Mas, não. Embora parecessem do Flamengo (teria algum consolo, se eu torcesse para o Flamengo), por causa do uniforme, os gols ainda eram da Alemanha. E serão da Alemanha, para todo o sempre, pelos séculos dos séculos.

Mas ainda viria o jogo da Argentina x Holanda. Nada é tão ruim que não possa piorar: poderíamos ter que enfrentar a Argentina, sem Neymar, e com um saco de sete x um nas costas. Melhorou um pouco quando pensei nisso. A Holanda bem que podia dar de sete x um, na Argentina, e o peso ficaria equilibrado. Se fosse o contrário, pelo menos não correríamos nenhum risco com a Argentina; eles, sim, iram correr um grande risco jogando contra a Alemanha.  Quem sabe, outro sete x um.

E, afinal, jogaram Argentina e Holanda, na segunda semifinal. Aquele zero x zero interminável era o meu sonho de consumo. Nunca imagineique eu pudesse apreciar tanto um empate de zero x zero. Que maravilha seria se fosse nosso zero x zero na semifinal. Pacífico..., tranquilo como uma brisa soprando para a decisão por pênaltis. Sem aquele mergulho asfixiante em uma onda atrás da outra, sem tempo para respirar. Tudo estava correndo de acordo com os planos do treinador da Holanda, que, no final da prorrogação, substituiria o goleiro por aquele alienígena de três metros, para defender os pênaltis. Não contou com a humanidade de Van Persie e sua indisposição estomacal, e viu a possibilidade de substituir o goleiro ir pelo Rio da Plata abaixo, junto com a terceira substituição. Quem não faz, toma, diz a bíblia do futebol. Tomou. Mas não de sete x um.  E, assim, um de meus mais acalentados sonhos, o de que outra seleção também tomasse uma goleada fenomenal, também vazou Rio da Plata abaixo. A não ser que a gente possa passar o saco do Maracanaço para a Argentina... Mas nem penso em sonhar com isso, pois meus sonhos não estão se realizando. Pior, estão se voltando contra nossa própria seleção. E ainda temos um jogo, que, concordo com o holandês, nem devia existir. Dois perdedores disputando para saber quem é mais perdedor. Masoquismo futebolístico. E uma chance aos que foram desclassificados de se desforrar dos que os desclassificaram. Incentivo à vingança. E nem nome tem: não é uma final, não uma classificatória, não é um amistoso. Não é nada. É para o torcedor curar as feridas com salmoura (uuuuiiiii), e para a Fifa ganhar mais dinheiro. E...,

... a não ser que a gente conquiste o terceiro lugar (ou o Maracanaço, pelo menos parecido com sete x um,  passe para  os hermanos), esta crônica termina aqui.

 

2018

Como todos sabem, terminou, pois nem terceiro lugar, para aliviar o peso, o Brasil conseguiu, e o saco de sete x um continua em nossas costas.

Mas estamos em 2018, e até agora não consegui escrever FIM. Ainda sonho em devolver o sete x um para a Alemanha, numa semifinal, ou final, quem sabe? Ou, ao menos passaremos esse mico pra frente, para esse padecimento acabar?

 

Ilustração: Rute Yumi Onnoda

 

Perto do fim tudo é mais bonito

Autor: Marcos Pileggi

 

Não tinha conseguido dormir naquela noite. Ficou de olhos fechados, deitado, ouvindo o barulho das ondas.Tentava sentir alguma mudança na luminosidade pelas frestas da veneziana de madeira verde, antiga como ele. Assim que percebeu que amanhecia, levantou. Era sempre estressante o levantar. Não naquele dia. Desceu a escada bem lentamente, procurando fazer barulhos de passos que soassem solenes, como em filmes de suspense.

            Fez café, escovou os dentes em um banheiro ao lado da cozinha, e subiu para se vestir. Não queria nada muito formal, mas queria estar bem vestido. Uma camiseta polo, uma bermuda azul de que tanto gostava, sapatos estilo iatista e um boné azul marinho. Saiu da casa e trancou a porta. Parou por um momento, sorrindo. Destrancou a porta e subiu mais uma vez. Pegou um pequeno frasco branco no banheiro e desceu a escada, mais rápido e sem os barulhos solenes. Não havia solenidade quando se repetia o mesmo ato várias vezes.

Abriu a porta da garagem e ficou olhando. Havia acontecido tantas coisas importantes em sua vida, mas nada parecia ser digno de ser lembrado. Realmente achou que pensaria em algo. Nada. Olhou para um pequeno barco e para as amarras que o mantinham preso à parede. Sempre tinha preguiça de soltar aquelas amarras. Não agora. Desfez os nós com cuidado, metódica e calmamente. Desceu o barco sobre um carrinho de transporte e o levou para fora. Trancou a porta, mas deixou a chave inserida no cadeado.

            O caminho até a praia era curto,sua casa ficava em frente ao mar. Apesar disso, teve que fazer mais força para puxar o barcosobre a areia. Normalmente sentia preguiça nesta parte também. Lembrou que passeava com o cachorro todos os fins de tarde. Adorava o cachorro, mas sentia preguiça antes do passeio. Ficava com preguiça de sair para correr,antes de dar aulas, coisas que adorava. Adorava o passeio de barco que vinha em seguida à puxadado barco. Não entendia estes sentimentos. Agora não sentia preguiça. Finalmente.

            Chegou a poucos metros da água e largou o barco,olhando para a casa, por cima dos arbustos que ficavam em uma restinga junto à rua. Começou a caminhar pela praia, prestando mais atenção aos detalhes do que normalmente fazia. Olhou para o céu.

Lembroudo museu Van Gogh, em Amsterdam,das pinturasvistas tão próximas, nas quaiso céu não era apenas uma representação, mas do sentimento do artista. As pinceladas em relevo, as cores, pareciam puxar o observador para dentro das pinturas. Algumas delas continham areia das praias, que Van Gogh visitou, misturada nas tintas. Era quase impossível estar na mesma percepção do artista, descobrir todas estas nuances.As pessoas que conheciam as pinturas pela Internetou pelos catálogos, não as conheciam realmente.

            O céu, que olhava agora estava azul com nuvens brancas e rosadas na linha do horizonte, lembrava as pinceladas de Van Gogh. Tentou tocá-las com uma das mãos,com uma sensação estranha. Sabia que sua mão estava bem próxima de si e que as nuvens estavam muito distantes, mas parecia poder tocá-las. As cores eram muito nítidas, mas inalcançáveis, intocáveis. Mas a mão, céu e nuvens pareciam estar duas dimensões, em um quadro.

            Caminhava de volta ao barco. Apesar de ainda ser cedo, algumas famílias estavam se preparando para passar a manhã, ou até o dia. A visão de outras pessoas normalmente lhe enchia de raiva. Não as suportava, tinha uma percepção de como a espécie humana é predatória, injusta e egoísta. Só por existirem, destroem o ambiente, pessoas, ideias. Fazem barulho, fazem sujeira, consomem recursos desnecessariamente. E o fazem por que podem. De que vale ser uma civilização com cultura se é burra demais para utilizá-la?

            Desta vez não sentia raiva. Tinha uma sensação de conseguir entender as pessoas com as suas limitações, angústias e suas incapacidades em compreender o mundo. Se a humanidade tem algum sentido além de ser mais um tipo de animal na Terra, ele imaginava que pudesse vislumbrá-lo neste momento. Via famílias felizes passando um dia na praia. Somente isso.

            Conduziu o barco até a beira da água. As ondas estavam fracas, podendo subir sem problemas. Remava em direção ao horizonte. Podia ver as três ilhas, velhas companheiras deuma época que tinhas tantos planos. Agora só tinha um, e o estava executando olhando para elas. Remou muito, ficando cansado. Ajeitou o barco para ficar de frente para a praia, bem distante àquela altura. Passara tantas temporadas naquela praia, parecia um lugar comum, mas visto do mar, era belíssimo. Nós sempre estamos em um lugar belo, só é preciso ter uma boa distância para se perceber.

              Paz. É o que estava sentindo. Sabia que era um momento único, não iria se repetir. O sol estava mais alto, mais forte, não queria ter queimaduras, nem sentir fome ou sede. Tinha um comprimido, dentro do frasco branco. O barco balançava, ouvia o barulho da água, sentia a brisa, o calor, a vida passando. Lembrava de coisas do passado, tanto distantes quanto recentes. Fatos felizes, tristes, vergonhosos, grandiosos. Também fora enganado, tratado como objeto de barganha. Continuava a ter todo aquele passado, mas comoas nuvens no céu. As coisas boas estavam no mesmo nível das ruins, inalcançáveis, intocáveis, em duas dimensões. Um céu de Van Gogh. Sentia as pinceladas lhe puxarem. Era hora de partir.  

           

(Marcos Pileggi é professor de Microbiologia e Microbiologia Ambiental em cursos de Graduação e Pós-Graduação em Biologia Evolutiva na Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde realiza pesquisas com degradação de contaminantes ambientais. Orienta em curso de Pós-Graduação em Biotecnologia Ambiental na Universidade Estadual de Maringá. Tem doutorado em Genética pela Universidade Federal do Paraná e Ohio State University e Pós-Doutorado em Microbiologia Ambiental pela University of Minnesota.)

O passeio de Maria

Era início do outono e as árvores balançavam, espalhando suas folhas pelas calçadas. Lá dentro da choupana de madeira, aquecida pelo fogo, Maria Clara era embalada no colo de sua avó, que andava de uma janela a outra, cantarolando baixinho uma canção de ninar.

Desde que nasceu, era assim que Maria adormecia. Só fechava seus olhinhos com uma canção. Havia uma música de que ela mais gostava, era quase uma oração. Maria acostumou-se tanto com ela que, se a música era interrompida enquanto tentava dormir, mesmo sem aprender a falar, ela soltava sua voz em linguagem de bebê e cantarolava até a canção recomeçar, ou até ela fechar os olhinhos e dormir.

O que ela ainda não sabia é que existiam ao redor da choupana pequeninos seres que não se cansam de cantar. Os mais belos passarinhos, que enfeitavam as ruas do vilarejo e alegravam a praça com suas variadas canções. Alguns eram tímidos. Outros, exibidos e barulhentos. Com penugens de variadas cores, eles ocupavam a floresta, o campo e os jardins do vilarejo. Quando se juntavam em grupos, os sons se misturavam e se transformavam em uma bela sinfonia.

Foi então que naquela noite, ao dormir, Maria Clara sonhou. No sonho, ela ganhava de sua avó um par de sapatos mágicos e com eles partia em busca dessas aves encantadoras. No início da caminhada, buscou informações com as formiguinhas, queem longas fileiras, carregavam seus mantimentos para se prepararem ao inverno que logo chegaria. Então, depois de atravessar a ponte no riacho, Maria avistou uma linda casinha de pássaros. Dirigiu-se ao canário, que voava em torno de um galho de árvore. Suas penas amarelas refletiam o brilho do sol:

- Oi, meu nome é Maria. Vocês gostam de brincar?

- Brincamos sempre, linda menina. Mas gostamos mesmo é de cantar!

E o canário chamou seus amigos. Aos poucos, vários passarinhos foram se juntando na árvore e ocupando seu lugar. O bem-te-vi, o rouxinol, o sabiá e o azulão foram os primeiros a chegar. Depois apareceram o cardeal e o pintassilgo. E até o joão-de-barro e um beija-flor vieram, encantando Maria com tanta beleza. Passou horas com eles, ouvindo suas canções, conversando e brincando.

Mas o tempo passou rápido e ela precisava voltar. Até entristeceu-se.

- Queria tanto levá-los comigo, - ela disse. – Sentirei falta de todos.

- Não será preciso, criança, - respondeu o canário. Logo você crescerá, correrá pelos campos e nos verá por todos os lados. Onde houver natureza, você nos encontrará. Apenas nos ajude a preservá-la, porque sem ela nós também desaparecemos.

Maria Clara, ainda tão pequena, só entenderia mais tarde aquelas palavras.

- Como eu gostaria de lembrar para sempre desse passeio!

Os passarinhos se olharam, ao mesmo tempo em que ela se despediu e partiu. No caminho de volta, parou no canteiro de flores. Quem sabe cheirá-las um pouquinho ajudaria Maria a se lembrar.

Mas o fato é que ela nunca se esqueceu da visita aos passarinhos e do quanto foi divertido aquele passeio. Acredita-se que os passarinhos contaram seu desejo para as fadas dos sonhos, que o tornaram real. Porque quando Maria acordou, ela calçava em seus pequenos pés os lindos sapatinhos mágicos!

 

Autora:

Ale Dossena é curitibana. Formada em Administração de Empresas e Licenciatura em Letras, atua como divulgadora literária, professora e produtora de conteúdo. Publicou uma coletânea de poesias e três livros infantojuvenis. Ale também é apresentadora do canal “Portão Literário” no You Tube.

Ilustradora:

Stella Rocker, 34 anos, curitibana de coração, formada em Relações Internacionais, é mãe, empresária e ilustradora por paixão. Criatividade, cores e manualidades fazem parte do seu dia a dia.

Corpo fechado

Numa noite de lua cheia ele nasceu, 11 de maio, sexta-feira. O parto foi difícil, o guri estava atravessado. Depois de muito esforço, reza da parteira e da vizinha, ele virou, ficou em posição melhor e logo saiu. Nisso se passaram os gritos da mãe a noite toda. Praticamente exaurida das forças, Amália inda tentou esforço adicional para o outro bebê. Em vão. Já foi retirado sem vida. Dor irreparável para aquela mãe de primeira viagem. A cada aniversário, sempre velavam em silêncio, sem palavras, pelo menino morto. Aníbal sabia da história pelos outros, os primos principalmente. A ele a mãe não pronunciava uma palavra sequer sobre o assunto. Osório, o tio mais novo, um dia deixou escapar que, naquela madrugada, após retirarem o corpo do menino morto, a parteira colocou água sobre a fronte dele, fez uma reza e o benzeu, chamando-o de Anésio. Assim seria encaminhado ao outro lado com mais facilidade. Olhou para o pequeno Aníbal, que chorava com vigor, valendo por dois, e sentenciou: “Esse terá o corpo fechado, nada o atingirá. Nem ao corpo, nem ao coração”. O pai era marinheiro, meses e meses longe de casa, garantia os provimentos para a mulher e assim fazia lembrar a sua existência, presença física era rara.

Durante a infância, Aníbal era calado, mal tinha amigos, parecia um garoto normal apenas na hora do futebol no colégio, corria atrás de uma bola como qualquer guri. Um dia, houve uma grande chuva de pedra, foi num verão muito quente e incomum. Nuvens negras e densas carregaram o céu por completo, rajadas fortes de vento e chuva começaram a fustigar. As pedras vieram, mais pareciam ovos de avestruz arremessados com vigor. A casa dos vizinhos, onde ele estava, era um casebre de madeira. Num rompante mais forte de chuva e vento, o teto veio abaixo na sala. Os dois garotos, vizinhos, que ali moravam estavam ao lado do Aníbal e foram atingidos. Morreram na hora. Aníbal nada sofreu, sequer um sarrafo de madeira encostou nele. A mãe dos garotos, desesperada, nunca mais conseguiu olhar direito para ele, inconformada sobre como seus meninos se foram enquanto Aníbal nada sofrera.

O garoto tinha habilidades práticas e a mãe o colocou para trabalhar numa oficina mecânica ainda no começo da adolescência, a oportunidade lhe serviria para aprender um ofício. Conseguiu inscrevê-lo num curso técnico profissionalizante, no horário noturno. Logo no início das aulas, Aníbal conheceu o Paulo e se tornaram amigos. Moravam no bairro ao lado da escola e voltavam a pé para casa, juntos. Numa noite fria e chuvosa de inverno, as aulas terminaram um pouco mais cedo e os dois retornaram conversando sobre as disciplinas. Aníbal era muito bom em matemática e física e sempre ajudava o amigo. Quase chegando em casa, um carro cruzou a rua em alta velocidade, resvalou numa poça d’água e alcançou a calçada, bateu no Paulo e o arremessou para o alto. Aníbal ao lado, por um triz, não foi atingido. O motorista fugiu. Paulo foi socorrido, mas não houve o que fazer, morreu ainda na calçada, olhando para o Aníbal e dizendo: “Obrigado por me ensinar matemática”. Aníbal recolheu os tênis do Paulo, arrancados de seus pés na violência do impacto, e foi até a casa dele. Bateu na porta e foi recebido pela mãe do garoto. Quando ela viu o par de tênis do filho abarrotado e ensanguentado, desatou a chorar. Pelo que consta, nunca mais parou de chorar pelo menino morto.

O coração do Aníbal seguia reservado e calado, nunca falava de sua vida pessoal. Tornou-se um homem bonito, com várias pretendentes e interessadas. Ele nada expressava, jamais a vida pessoal comentava. Um dia apareceu com uma desconhecida daquelas vizinhanças. Moça muito calada que não fez amizade com ninguém. Via-se apenas que estava grávida, a barriga crescendo a cada dia. Acharam estranho que ela possuía uma tatuagem de serpente no braço esquerdo, que se entrelaçava com dois corações. Quando as dores do parto chegaram, a moça foi para o hospital. Contou um vizinho enfermeiro que estava de plantão que houve uma complicação e a moça não sobreviveu. Aníbal voltou para casa com o recém-nascido nos braços. Deu-lhe o nome de Anésio. Criaria aquele menino sozinho, inseparáveis depois que o pai voltava do trabalho.

Arte de Rute Yumi Onnoda

Autoria: Renata Regis Florisbelo

 

CORINA PORTUGAL - Um anjo de luz a confortar almas

POR DIONE NAVARRO

Exatamente há 129 anos no dia 26 de abril de 1889, se despedia da cidade de  Ponta Grossa uma linda jovem carioca de 18 anos chamada Corina Portugal. Ao se casar, abandonou a vida de nobreza do Rio de Janeiro em busca de realizar seus sonhos de amor. Sonhos juvenis que foram interrompidos tragicamente dois anos depois com 33 facadas desferidas pelo seu marido, seu algoz. Corina partiu silenciosamente deste mundo, mas suaspegadas haveriam de marcar as calçadas de nossa cidade. A população comovida começou a acreditar na santidade desta jovem cruelmente assassinada e súplicas de esperança fizeram de sua lápide, um santuário àqueles que padecem. Principalmente daquelas mulheres que sofrem violência doméstica. A primeira placa de agradecimento fixada à lápide data do ano de 1945, com um “obrigado” pela graça atendida.  A partir daí,uma história de santidade balizada pela crença popular faz do Cemitério Municipal um lugar santo de curas dos males do corpo e da alma, promovidas pela “santinha dos Campos Gerais”, como assim é chamada afetuosamente Corina Portugal. Santidade essa, que seus fiéis acreditamter sido comprovadaanos mais tarde pela abertura de seu caixão, onde o corpo de Corina estava intacto e de dentro do caixão exalava um perfume de rosas. Rosas! Parece que rosas são os símbolos de fé e a linguagem silenciosa desta “santinha”. Ao escrever o livro Corina Portugal: Súplicas e Respostas (2016), uma devota relata agradecida que foi curada de um câncer terminal pela intercessão de Corina quando, essa lhe apareceu no meio da noite num clarão de luz e disse:

“Diga às pessoas que onde eu estou, eu posso ajudar quem padece e se alguém quiser me agradar eu gosto de pétalas de rosas brancas”.  E as rosas brancas continuaram a falar por Corina. Outra devota relata que ao receber um milagre, que, neste dia da graça recebida, no seu quintal floresceram rosas brancas, sendo que ela nunca tinha plantado rosas. Quando escrevi esse livroonde colhi mais de 80 depoimentos de graças atendidas, transitei pelo mundo do enigmático e me defrontei com uma nova seara, a perspectiva da santidade. Um universo sagrado onde encontrei um espelho “da crença em algo maior”que me fizeram ver, o que as cortinas do cotidiano me impediam de enxergar. Enclausurada nomeu bem-estar, subtraída dos anseios que afligem tantas pessoas, não tinha a dimensão das dores que angustiam pessoas que dividem comigo o mesmo caminhar. Quem adentra pela primeira a alameda onde se encontra o túmulo de Corina fica impressionada pela centena de placas de agradecimentos. E todas as semanas, em qualquer época do ano seu túmulo é repleto de dezenas de flores, bilhetinhos, objetos religiosos, cartas de agradecimentos que seus devotos carinhosamente introduzem nas frestas de sua morada na esperança que sua “santinha” leia e os atenda em seus pesares. Se escrever um livro sobre Corina Portugal abriu portas dos labirintos de minha alma para que novas verdades fossem reveladas, o carinho e a fé que o povo ponta-grossense dedica à “sua santinha” é a única certeza que somente o “acreditar” muda destinos e pode reescrever novas histórias de vida! E testemunhartudo isso, para mim foi maravilhoso!

 

*Dione Navarro é farmacêutica-bioquímica com Doutorado em Química de Produtos Naturais, Pós Graduação em Fitoterapia, Homeopatia e Florais de Bach. Presidente da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes (APLA).

 

DORES DA ALMA

Por Dione Navarro:

Vivemos na era dos fragmentos. Das especificidades. Dos especialistas. Existem especialistas para tudo. Nas lojas, nas profissões, na saúde. Na saúde ...aí é que as fragmentações são mais evidentes. O ser humano virou uma colcha de retalhos, onde ele passou a ser apenas órgãos! Esqueceu-se que ele é um ser total, um sistema. As pessoas são conhecidas como:  João que sofre do coração, Maria que tem asma, Antônio que é diabético. E neste contexto fracionado algumas terapêuticas timidamente e muitas vezes contestadas insistem no ser humano holístico, um ser total, onde mente,  corpo e emoções  interagem não através de uma visão fragmentada do real, mas sim num  entendimento fenomenológico da pessoa como um todo.

Assim algumas especialidades estão sendo reconhecidas no mundo todo e têm quebrado paradigmas ortodoxos para trazer novas opções de cura, como é o caso da Homeopatia, que acredita que existe uma energia vital circulante no ser humano e, quando em desequilíbrio, provoca enfermidades.

Ou ainda a Acupuntura que estabelece no corpo linhas invisíveis chamadas meridianos por onde circula e se restabelece os fluxos da energia vital que promove a saúde. Outra ciência mais atual e ousada como a Psiconeuroimunologia (a partir de 1981),  estabelece a profunda interatividade entre o comportamento e os sistemas endócrinos, nervoso e imunológico,  ou  a terapia Florais de Bach (ainda carente de legislação própria) que enaltece a importância dos estados mentais ou emocionais que, em desarmonia, podem se cristalizar no campo molecular e provocar doenças.

Estes novos paradigmas que rejeitam a inflexibilidade de uma abordagem única, oportunizam tratar o ser humano como um ser holístico, onde o sintoma da enfermidade  é apenas um apelo do corpo em favor de uma causa maior. Causa esta, representada pelos sentimentos em desequilíbrio localizados numa esfera tão sutil onde a ciência  não consegue adentrar. Neste novo universo se enaltece a influência de estados mentais desarmonizantes, que podem se somatizar no corpo físico.

Para comprovar essa psicossomatização, inúmeros trabalhos científicos foram desenvolvidos por psiquiatras e pesquisadores, onde se mostrou que indivíduos infelizes reduzem até 90%  a fagocitose de seus macrófagos (células de defesa); o medo contínuo e duradouro promove a distorção da capacidade visual e  o stress ou a perda de uma pessoa amada leva ao enfraquecimento do sistema imunológico.

A partir daí surgem “as dores da alma”! Dores na maioria das vezes não detectadas por aparelhos ou exames, mas são um espelho de que “se o coração sofre, o corpo dói!”. Dores da alma como a mágoa, a culpa, o remorso ou  tristeza, que não são assuntos de noticiários da mídia,  mas são sentenças de sofrimento que deixam sequelas,  que podem perdurar por muito tempo e somente quem as viveu pode avaliar o peso do seu estrago.

Não se detectam esses  sentimentos em exames de rotina, no entanto, interferem no  cotidiano das pessoas, onde: a tristeza pode sufocar sonhos, o medo  impede o movimento da vida, a solidão consome, as neuroses tiranizam , as incertezas abafam esperanças, culpas aprisionam ao passado, a depressão escurece o arco-íris do caminho. São dores do coração que pode evoluir para doenças orgânicas quando não se chorou todas as perdas.

Algumas linhas terapêuticas até associam a disfunção física de uma parte do corpo com uma determinada emoção. Por exemplo, problemas pulmonares estão relacionados com a ansiedade; disfunções na garganta apontam palavras reprimidas; cefaleias podem ser produzidas por pensamentos repetitivos e obsessivos; oscilação na pressão arterial aparece em momentos de grande insegurança; problemas ósseos e sérios de coluna/postura caracterizam a inflexibilidade diante das situações da vida; distúrbios sérios da visão despontam quando uma pessoa tem uma verdade absoluta diante dela e não consegue enxergar.

O rim é o órgão do medo, onde o medo extremo  pode levar  até à perda do controle da função renal. A  culpa enfraquece o coração,  a preocupação interfere no metabolismo do baço, problemas estomacais  estão relacionadas  a sentimentos como a raiva e a frustração, a sensação de náusea e nó na garganta  se traduzem  pela emoção de “não se conseguir engolir” certas situações imperativas e a incerteza no agir interfere no equilíbrio dermatológico provocando excessiva sudorese.

E finalizando, e ressaltando essa estreita relação que existe entre nossas emoções e as enfermidades, estudos recentes realizados por equipe de médicos americanos comprovaram que em 100 casos de pessoas que desenvolveram algum tipo de câncer, quando rastreadas suas vidas e comportamento social, tal ensaio demonstrou que  90% dessas pessoas eram detentoras de um ressentimento ou mágoa que não conseguiram digerir e metabolizar ao longo de sua existência. Quando um dos médicos foi questionado numa entrevista, pela pergunta:  qual seria o melhor medicamento preventivo para evitar a formação de processos cancerígenos, ele enfaticamente  respondeu:

- Contra o câncer, só existe uma maneira de prevenir: exercitar o Perdão!

 

Dione Navarro tem Doutorado em Química de Produtos Naturais, Pós Graduação em Fitoterapia, Homeopatia e Florais de Bach. Presidente da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes (APLA).