Arte Mista
Maçã que conta as horas

21h42. Era exatamente o que a maçã informava. No centro da polpa, em vez da porção macia, suculenta e adstringente, um mecanismo eletrônico e um display alardeando o tempo. A carapaça vermelha, circundando o miolo, formatava a aparência. A pseudo maçã ficava na estante, junto com outros relógios, bloco de notas, algumas canetas e enfeites. Vasos de flores discretas, quase se confundindo com as naturais. Nichos nos quais se adicionava um toque de personalidade, de identidade feminina, recém-aderida ao recinto. Durante três anos, Luciano e sua maçã que conta as horas habitaram, sozinhos, o apartamento pequeno. Ele próprio não era espaçoso, já aprendera que a alma se espalha onde encontra recônditos discretamente disponíveis, algumas sim, mais espalhafatosas e esparramadas do que outras. No pulso, outro inseparável relógio, com números em relevo permitindo o toque no tempo, reconhecendo, imediatamente, dele, seus momentos. Quando os olhos faltam, outras partes do corpo assumem seu papel, transmitindo do seu próprio jeito as impressões sobre o mundo. Os dedos sentem, na própria pele, a passagem do tempo, que lhe pressiona as digitais, dos olhos somente absorveriam a imparcialidade em leituras impessoais. No instante em que Melânia o encontrou, de pronto não identificaria o tamanho do encantamento. O violão, o microfone, as caixas de som e o restante do equipamento prestes a enternecer o pensamento, acondicionados, discretamente, num dos escassos cantos do mesmo apartamento. A qualidade e o gosto musical do Luciano prenunciam uma pessoa harmoniosa, em ritmos e acordes próprios e caminhando pelo mundo feito uma partitura por onde as notas entretecem e formam a urdidura.


O que me chamou a atenção foi a transformação do ambiente, de um quarto frio de hotel, tornado um lar contundente, sem sombra de dúvida, uma casa. Melânia passara antes na cafeteria e comprara uns quitutes para o nosso lanche, eu no papel de visitante. As mesas das refeições são sempre um palco. Nelas, tramas e diálogos, conversas tão frutíferas e saborosas quanto as comidas ali servidas se desenrolam. O tamanho do coração contrastando com o espaço. Onde mal cabe uma cadeira extra sequer, sobra e transborda em carinho. No ambiente, uma poltrona vermelha, que pertenceu a avó, significava o refinamento na herança transmitida, bela e marcante em seus motivos arabescados no tecido fino. Uma estirpe que se sabe requintada, nem por isso se expande demasiadamente e perturba o direito aos espaços alheios. Curiosamente, a tal poltrona, de formas arredondadas e clássicas, no tecido escarlate, mais parecia outra maçã no espaço reservada. As maçãs andavam realmente em alta, se ousar um corte longitudinal, no centro da fruta, uma estrela aparece. Cinco pontas, como a imagem do Homem Vitruviano, no desenho de Leonardo Da Vinci, que se posicione e compreenda seu papel no mundo. A Melânia encontrou o Luciano e ele a recolheu em seu pequeno habitáculo fazendo as vezes de lar. Fisicamente nem cabem dois, na prática e no coração, cabe uma multidão, o coração do Luciano e da Melânia, agora juntos, é do tamanho da vastidão.


Autoria: Renata Regis Florisbelo

Mistérios da terra sem mal

Autoria: Rosicler Antoniácomi

DE VOLTA AO COTIDIANO A casa de Gil, isolada na Ilha Rasa, onde o biólogo se instalara com sua filha Cíntia, dando andamento ao seu projeto de pesquisas, era uma casa simples, mas aconchegante. A grande mesa oval no centro da cozinha, que também servia de copa, estava rodeada pelo grupo recém- -chegado, enquanto lá fora Crash se aninhara sob as asas para aguardar a noite, e Zampoña, na varanda, ainda andava de cá para lá, procurando um lugar ideal para o sono. Saboreavam gulosamente as pizzas, elogiando a diversidade dos recheios, que variavam entre os “naturebas”, com vegetais da horta e queijos artesanais, e os “sustentadores de amizades”, à base de peixes que Zampoña pescara, pois não poderiam ferir os sentimentos do amigo bicudo. Parecia que havia brotado uma grande amizade “de infância” entre os recém-conhecidos companheiros de jornada. Crescia também uma saudade profunda do recente amigo Elias, que ficara para trás, seduzido pela aventura de viajar num mundo desconhecido. Em breves momentos de nostalgia, perscrutavam seus sentimentos mais profundos para investigar a própria sanidade. Num desses momentos Sumé e Angie perguntaram, ao mesmo tempo: – Por que fomos nós os escolhidos? – Também sempre fiz essa pergunta – respondeu o Mestre. Creio que as atitudes com que escolhemos encarar a vida é que nos propõem esses desafios. Não se trata de sermos escolhidos, mas de fazermos escolhas. 66 Angie estava para passar uma segunda noite fora de casa . Mas não estava preocupada com isso, pois o que deixara escrito num bilhete para sua avó levava a pensar que ela estaria passando o fim de semana em casa de Julie. Preocupava-se com o que diria a Julie, Willy e Decinho, as três pessoas para quem não mentia . Na verdade, nem sabia se, quando voltasse para casa, ela mesma acreditaria na aventura que vivera . Nessa madrugada, Crash os deixaria novamente na Praia dos Pescadores, e ela apenas iria para casa, fingiria ir para a escola, retornaria pela lavanderia para o seu “cafofo”, e dormiria até acordar com fome, achando que havia sonhado tudo . Então não precisaria dizer nada a ninguém . Entretanto, para Sumé, um mero retorno à vida normal parecia algo insustentável . Sua vida normal de adolescente de rua – dormindo em ruínas abandonadas, às vezes em albergues, mudando para outras regiões sempre que a convivência com outros jovens se complicava – agora significava contentar-se com a mesmice e a inutilidade. Além disso, percebia que sua vida parecia curta demais para o tempo de sua existência passada na rua. Tentava refazer na memória a trajetória completa de sua vida até seus treze ou quatorze anos, mas não conseguia juntar os retalhos . Era como se fosse um personagem inanimado, um boneco, que de tempos em tempos recebia uma alma e uma vida para viver . Dos outros momentos, enquanto boneco, não havia retalhos . Alma . . . O Mestre havia falado que o sonho que tivera na floresta, depois do Círculo de Iniciação, referia- - se à alma humana. O que iria fazer ele, de volta ao seu mundo marginal, com essa noção de que nesse mundo havia momentos em que percebia em si uma alma, e momentos em que esta parecia abandoná-lo?

Nota: Texto extraído do livro “Mistérios da terra sem mal” da escritora Rosicler Antoniácomi e lançado pela Editora Chiado.

Muitos mestres, eterna gratidão

*Autoria: Prof. Flávio Madalosso Vieira (professor nos últimos 30 anos, escritor e membro da Academia de Letras dos Campos Gerais, como 1º ocupante da cadeira nº40)

 

Bom-dia, radialistas, engenheiros, dentistas, médicos, enfermeiros, agrônomos, advogados, veterinários, administradores, contadores, farmacêuticos, economistas, profissionais de todas as lides que a sociedade necessita. São vocês testemunhos vivos, e em atividade, formados por uma classe que somente é lembrada quando dela se necessita.

            Inicialmente, educando, formando personalidades, instruindo; depois não são mais lembrados. As crianças crescem, escolhem uma profissão e dela constroem a vida. Simples, fácil, nada mais importa.

            E as raízes desta formação? Ninguém mais lembra porque não precisa. Já se sabe tudo o que é necessário para tentar alcançar o sucesso profissional.

            Assim é! Aquele que deu continuidade ao trabalho dos pais, socializando uma criança; depois ensinando a ler, escrever, fazer contas; depois ensinando uma profissão; depois ... o esquecimento! Normal, pois a sociedade assim trata os seus professores.

            Hoje, porém, tudo está diferente. As escolas parabenizam seus mestres, as crianças se comportam um pouco diferentes, procuram não aborrecer seus professores, a mídia enaltece a data, alguns professores recebem presentes, abraços, carinhos que normalmente desconhecem. É porque hoje é o “Dia do Professor”. Amanhã, tudo terá acabado, e volta-se à normalidade, a uma rotina cansativa, ninguém mais se lembrará da data importante para os mestres e somente daqui a um ano os professores serão lembrados novamente.

            Assim é a vida. Cremos que com todos os profissionais acontece a mesma coisa, porém para o professor, torna-se diferente, pois não teríamos nenhum profissional na sociedade se não houvesse professores, aliás, nem sociedade teríamos.

            Neste ponto da prosa, lembramo-nos dos nossos professores e professoras, daqueles que já se foram e de quem ainda está por aqui, e tomamos a liberdade de citá-los, com prazer e saudades, com muito respeito e reconhecimento pelo trabalho que realizaram ao longo de uma vida. Vêm à mente a figura simpática da Glacy Secco, do Antônio Aguiar, da Adelaide Chamma, do Pascoal Salles Rosa, do Laertes Larocca, do Jacques Courneau, Norberto Ceccato, Rosélis Nápoli, Kasuko Inoue, Dona Nílva (Ah! Dona Nílva – quanto carinho e respeito pela senhora) e outros grandes de um passado mais distante, como Plácido Cardon, Faris Michaele, Edgar Welter, Daniel Tavares,João Lubczyk, Osni Mongruel, Milda Brehpol, Robert Bowles, Teresinha Miranda. São tantos e com tanto carinho deles lembramos que o espaço vai se tornando pequeno no papel, mas no coração uma ternura invade e na mente vêm as lembranças de um tempo em que os professores e professoras eram tidos como autoridades, como educadores, e como tais eram respeitados até pelas autoridades. Hoje, porém, ser professor é sinônimo de lutas árduas, muito embora a importância seja a mesma, e sempre será, pois todos aqueles que desejam se tornar profissional de qualquer lida obrigatoriamente tem que passar pelas mãos de professores.

            Parabéns, Professores e Professoras, principalmente, meu carinho, gratidão e respeito àqueles e àquelas tantas que me ensinaram e me possibilitaram alcançar a realização profissional, de que muito me orgulho. E se hoje encho o peito de orgulho e digo ao mundo que GRAÇAS A DEUS SOU PROFESSOR, é pelo trabalho dos meus professores ao longo da minha vida.

Cristina Donasolo - professora, atriz, musicista e contadora de histórias (foto: divulgação)

 

Minicontos

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Minicontos

Prato

 

Comeu um prato de feijão. Antes dele uma cumbuca de sopa que soltava um vapor espiralado no ar. Segurou com as duas mãos, aqueceu as palmas geladas no primeiro frio daquele maio em outono. A manhã fora de sol, de irradiações tímidas em não sobrepujar o clima gelado, em não aplacar dos pensamentos temerosos, do medo que sempre insiste. Ali, no trabalho, a comida era boa, o prato farto, em conchadas de feijão preto e arroz branco. Cedo havia o horário do café quente com pão d’água. Não somente água, uma massa de trigo oferecia sustância até que chegasse o prato do feijão, o prato do almoço, o prato mata-fome. Enquanto a fumaça da sopa encaracolava no seu pensamento, lembrava das noites geladas, dos ossos doloridos no corpo gélido pela madrugada na rua. De quando vivia nas ruas, tantas memórias doídas. Ninguém o olhava, arrastava o cobertor moribundo e pedia por comida, quase sempre o estômago roendo a si mesmo. Quanta fome, no prato de feijão, não mais lhe consome.

 

Cobertor cinza

A tarde era cinza. O dia era cinza. A vida parecia cinza. O cobertor era cinza. Ao despertar, os raios de sol da manhã entravam pelas frestas da janela do quarto dos fundos, por entre os ramos das acerolas e das pitangas, um pouco de mexericas também. Mas elas não ousariam falar, não mexericariam sobre o que viram, sobre o que ali transcorreria. Um livro vermelho à cabeceira da cama, como testemunho, histórias tantas descritas. A tarde preguiçosa, vida ansiosa, suspiros afoitos pelos toques, por deixar de ser sozinho. E quando pensou em carinho encontrou sob o cobertor cinza a vida em par feito um ninho.

 

Poço

Olhou para ele. Rosto sóbrio, traços delicados, lábios com ar de molhados, fechados, não se deixavam descerrar. O fundo dos olhos num castanho distante daquele lugar. Ele sempre fora esquivo, nos últimos anos tão ausente que, no reaparecimento, parecia que não era para ficar. Ela permanecia atordoada, não sabia como lhe abordar. Usaria palavras de carinho? Demonstraria contentamento? O olhar dele pedia por alento. Ao fundo a parede de pedra, o velho poço. A casa antiga, da propriedade majestosa sobrara a fachada imponente, os paredões, o chão de tijolos. Os olhares se encontraram, quase marearam. Ela afastou os cabelos dele da fronte, moveu-os para nada, só para tocar o rosto na tarde ensolarada.

 

Malícia

No anúncio de batom aparecia a foto com os lábios carnudos, grossos e generosos na carne viçosa e macia. Marlene olhou para os seus lábios, no espelho apenas um traço pálido e desquarado, longe de alcançar, em volume, aquela polpa alardeada. Apanhou um batom vermelho, da mesma marca da propaganda e aplicou generosamente sobre os tais traços. Extrapolou os contornos, alargou os limites da própria boca, expandiu muito e desenhou um novo contorno. Preencheu todo o conteúdo, caprichou nos cantinhos, afinal borrar a cor seria péssimo. Finalizou. Olhou criteriosamente para si mesma, o mesmo espelho em novos lábios. Não gostou, tirou tudo, aplicou um tom suave acompanhando os contornos naturais dos lábios. Sorriu, e eis que um brilho se ampliou. Mas que curioso, não tinha reparado antes o quanto os lábios ficam lindos sorrindo.

Minicontos III

Chora maçã

Alíria chorava, as lágrimas escorriam copiosas, desciam pela face como corredeira que finalmente rompe pelo veio entre as rochas e deságua com tudo, por tanto represadas. Seu peito era o terreno que deixava brotar o filete que se avolumava e queria jorrar. Um misto de medo, tristezas, frustrações. Havia tempo ela não chorava. Tantas coisas vividas e não esquecidas. Lembrava do homem vindo a cavalo, presença firme, segurava a rédea como quem sabe onde vai, por onde seguir e o que está prestes a encontrar. No galope rápido, o animal também se extasiava, seguia um caminho que passava a ser seu. Alíria olhava pela janela. Agora o homem não mais passaria, fora embora deixando o sorriso dela órfão de motivos. Naquela manhã em especial saudade, pegou a maçã, lavou tristemente, contemplou alguns segundos aquela tez vermelha, quase se espelhava nela. Mordeu. Uma sonora mordida que terminou no estalido que rompia a polpa, pele rasgada, na boca o pedaço se avolumava em águas, no sulco abundante. Nos olhos também, vertia abundante o sumo do extrato da sua carne. E maçã e seus olhos desaguavam sem parar. Era de ver quem mais chorava, Alíria nos olhos ou a maçã na boca a se despedaçar.

 

 

Hotel barato

Escolheram ao acaso a região da cidade, qualquer uma serviria, já que era apenas para o pouco tempo disponível. Ela caprichou no visual, botas de cano e salto alto, mini-saia, maquiagem marcante e cabelos soltos, queria causar boa impressão. Ou melhor, chamar a atenção, já que havia seis anos não se viam. Esse encontro só seria possível porque ele veio passar dois dias e uma noite a trabalho na cidade. Estranha sensação, depois de tanto tempo ainda havia o gosto, o desejo, as lembranças arrebatadoras dos últimos encontros. Na praça e horário combinados, ele estava lá, não mudara muito. Sorriso largo, olhar que continuava provocante, mãos e braços fortes no abraço. O próprio taxista foi quem recomendou o lugar, um hotel barato no centro da cidade, na parte mais antiga e decadente. De certa forma foi o que pareceu a ela, um encontro furtivo, em ambiente decadente, sintoma de sentimentos igualmente decadentes. Seriam os amores antigos também obsoletos e fardados ao declínio? É possível. Na prática, na manhã seguinte, entre cobertores fuleiros e conversas efusivas, tudo de bom o tal quarto lhe parecia.

 

Telepatia

Pensei e ele também pensou, no que mais se pensaria? Pelo menos era o que me ocorria. Imaginei tantas cenas, inúmeras fantasias. Contudo, o que mais me recorria era se realmente haveria a tal telepatia. Uma noite, um estranho desconforto me acometeu, logo eu que nunca fico doente. Dias depois soube que ele passara muito mal e fora internado às pressas, crise de apendicite. Depois das festas de fim de ano, eu arrumava o jardim quando uma cena me veio à mente: flores, muitas flores e uma avenida larga com prédios antigos. No mesmo instante ele ligou, disse que estava num lugar muito agradável, com muitas flores, uma larga avenida e prédios antigos. Telepatia? Talvez. Nesse instante olho o relógio, são 11h53m, amanhã lhe perguntarei, nesse mesmo horário, ontem, por acaso, em alguém ele pensaria? Não, não perguntarei, que ideia sem sentido! Pego o gato no colo, que olha agradecido, faz cara de dengoso e mia. Ouço sinal de mensagem. Foto recebida. É ele, em casa, com um felino no colo. Telepatia? Pode ser, pelo menos, com tudo que mia.

 

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

ÊXODO

POEMA DE ROSICLER ANTONIÁCOMI ALVES GOMES

 

 

ÊXODO

Era um dia ensolarado, anfitrião festeiro

Fazendo as honras do recreio

Convidando pra folgar.

 

E eu ao menino triste, sentado no patamar:

Por que assim turvo teu olhar?

Ele a mim confessou:

 

“A mágoa que nele mora foi revorta quem plantô,

Porque vão me levá embora

Daqui pra outro lugá.

 

"Não tem lugá que nem esse pra gente se acomodá.

Da cidade conheço história,

Dos cabelo arrepiá.  

 

"De menino que fuça lixo pra podê se alimentá,

E uns que vive que nem bicho

Por não podê trabaiá.

 

"Coisa que não entendo é lei que não tem sentido:

Menino não ter dever

Mas podê virá bandido.

 

"Assim reza a Escritura: ‘Quem não trabaia não come’,

Mostrando que a vida é dura

Pros nascido bicho-home.

 

"No sítio trabaia o home, e também o menininho.

Tem serviço de todo tipo,

Do pesado ao levinho.

 

"Não é desonra o trabaio que ensina a fazê o destino –

Só o trabaio explorado

Que enriquece o ladino.

 

"Mas até o sítio padece de um cruel desatino:

Nem pro home é permitido

O trabaio que a terra dá.

 

"Uma máquina logo faz o que pra ele é sofrido

Mas não repassa pro home

Metade do que é colhido -

 

"Que o direito ao trabaio é propriedade do home.

Se pra máquina ele passô

Foi meação que tratô.

 

"Por que então pro home, que fica sem o trabaio,

Só resta arrumá as traia,

E deixá o seu arraiá?

 

"E disputá c’otros home um trabaio que não conhece

E c’oa natureza bardia

Um canto pra moradia?”

 

Não pude contradizer, porque as lágrimas não deixavam,

Nem argumentos restavam

Contra tanta filosofia.

 

Vi que a vã sabedoria dos bancos da faculdade

Com a razão não podia

Daquela pura verdade.

 

Mas perguntei: Não sobrevivem da pequena propriedade?

E ele: “Pequena, sim, professora,

E de pouca utilidade.

 

"O mato que nela cresce tem lei de preservação

Com muito justa razão,

Que o caipira não desacata.

 

"Mas só o matuto é que paga pelo bem que traz a mata

Pra humanidade inteira,

Se justiça é verdadeira?

 

"Hoje vi uma triste revorta – cena pra nunca esquecê –

Meu pai, que ama o pinheiro

E tudo faz pra crescê,

 

"Pisotiá uma planta de pinho, que pequenina crescia

No carreiro pro paió,

O que me deu muito dó.

 

"O pobre viu na plantinha o que ela um dia seria:

Natureza protegida

À custa da sua vida.

 

"Vai vendê a propriedade de muito pouco valor

Porque o eito de prantio

Não é bom pra trator

 

"Vai virá uma chacrinha pro descanso de um doutor

Um de nóis vai sê o caseiro

Os otros vão pro lixeiro.

 

"Como seria pro bicho da sua mata levado,

Ir prum circo, engaiolado

E fazê coisa de artista?

 

"O que não se permite ao home, o bicho do mato avista:

Um grau maior na existência –

Em vez de bicho, ser home.”

 

Eu quis dizer que a cidade podia se bem legal

Pra o menino consolar,

E pro assunto acabar.

 

Mas não podia faltar com o teor do juramento

De a verdade sempre ensinar

E balbuciei um lamento:

 

Não é nada diferente de tudo o que vi na História:

A mentira é sempre enfeitada

Mas a verdade é simplória –

 

O poderoso engendra as manhas para o humilde governar

Por leis elaboradas

E esse poder conservar

 

Muitos ISMOS nasceram com a melhor das intenções:

Favorecer sempre os mesmos

Poderosos das nações

 

Mas não respeitam a lógica da humana vivência

Que rege o passo do humilde

E a sua inteligência.

 

 Saber não nasce com o Sábio, ele o busca e alcança;

E à Verdade se lança,

Lhe presta fidelidade.

 

Mas quem o Poder venera, lhe deve retribuição.

E a consciência perece

Na desigual relação.

 

Por isso deve o humilde com todo o coração

Empreender RESISTÊNCIA

Como sábia resolução.

 

Tela do artista plástico Marcelo Schimaneski, que estará com uma exposição de seus trabalhos em técnica Naif, na Biblioteca Pública Municipal, durante o mês de agosto.

 

Amor no velório

Levantou um pouco a saia, discreta e delicadamente. Olhou com o canto do olho direito e mirou seu alvo: Osni, também discreto e calado, que acabara de chegar. Saia violeta e preta com mesclas de outras cores. Pernas cruzadas ao estilo que se faz de displicente, mas mede, meticulosamente, cada detalhe pensado para causar certo efeito. E qual seria? Chamar a atenção do Osni e despertar o que aquele morto que ali jazia, quando vivo, mais gostava, o jogo de sedução e conquista. Ela sentara no começo das fileiras, tendo o cair da noite como presença; a noite avançaria. Lucimara nem era tão bonita, mas possuía um carisma além da conta. Atraía os olhares dos homens com total magnetismo. Aquela cruzada de pernas era sempre eficaz em perturbar a paz e estimular a imaginação de alguém. O falecido tinha problemas crônicos de saúde, contudo nada que impedisse viver e desfrutar de certos confortos e luxos. Vivia bem, até o dia em que a mulher aparecera em casa com uma nova preferência religiosa. Havia, aos poucos, aderido a uma religião bastante restritiva quanto aos hábitos sociais, alimentares e musicais. Inclusive o gosto dele, que era de roda de samba com amigos nos finais de semana, regados a chope e cerveja, passou a ser veementemente combatido. Também Osni se deixou encantar e seduzir pelas cruzadas de pernas da intrigante Lucimara. Quando ele chegou ao velório, um burburinho se formou. Algumas comadres nas cadeiras mais próximas ao caixão cochichavam e mal falavam da Lucimara. Nada cordiais as acusações. Que era desavergonhada, que era cacho do morto, e que falta de vergonha era sua presença ali, ainda mais considerando que também tinha um caso com o amigo dele, Osni.

- / -

Lucimara rezava. Seu velho pai fora padrinho de batismo do falecido, afeiçoando-se a ele como a um filho. Ela se lembrava dos Natais, dos Domingos de Páscoa, dos aniversários do menino afilhado e seu pai sempre demonstrando crescente afeto por ele. Chegou a lhe dar o apelido de Nico. Ninguém o chamava assim, nem a família dele, só ela e o pai. Sem que os demais se apercebessem, foram convivendo como irmãos. Assim cresceram, um cuidando e se preocupando com o outro, embora de forma leve e carinhosa. A adolescência trouxe os amores, as primeiras paixões. Um dia, Lucimara olhou para Nico e percebeu angústia em seu olhar, insistiu para que lhe revelasse o motivo da aflição. Ele arregalou os profundos olhos castanhos e desatou a falar de uma vez só sobre o aperto em seu coração, causado por um amor incomum, inaceitável, um rapaz mais velho e já comprometido com uma moça. Lucimara conhecia bem o amigo e a família, podia imaginar a tragédia que a tal preferência, se descoberta, desencadearia. O pai e o avô do Nico eram tradicionalíssimos, donos de lojas e casas comerciais conhecidas e consagradas na conservadora cidade interiorana. O que já era uma amizade forte tornou-se insolúvel e Nico, a cada ano, sofrendo com novos amores, dissabores e romances ocultos, Lucimara sempre a lhe amparar. A família exigiu que o rapaz casasse e constituísse família. A contragosto, porém disfarçando, Nico escolheu a mais tímida e discreta moça da vizinhança e cumpriu o desejo da família, não sem escapar sempre e mais em seus amores proibidos. Lucimara era a única que sabia e lhe acobertava em tudo, sem se preocupar com os falatórios que começavam a recorrer sobre ela como oferecida e fácil, alvo dos ciúmes da mulher do Nico.

Quando Osni apareceu, depois de anos morando no exterior, foi arrebatador, as lembranças da adolescência vieram à tona, o que se poderia chamar de amor à segunda vista. Ele e Nico mal podiam disfarçar em juras de amor eterno. Pressentindo o perigo, Lucimara interveio e passou a demonstrar afeto além da conta para ambos, em situações públicas. Ela era discreta em sua vida particular, ninguém a vira com alguém, somente com Nico e, agora, com Osni. Os buchichos e rumores foram totais, onde já se viu ter caso com um homem casado e com outro recém-chegado de volta à cidade! Lucimara lembrava apenas da voz do velho pai, antes da doença lhe roubar a sanidade e a vida, dizendo:

- Fique perto do Nico, esse menino vale ouro! É meu filho de coração!

Parece que tanto amor, às vezes, não cabe no coração. Antes de completar 42 anos, numa madrugada fria de junho, Nico foi embora, disse adeus com um infarto fulminante. Lucimara não coube em si de tristeza, seu amigo, irmão, seu tudo. Na capela, sentou-se o mais próximo possível do corpo, de vez em quando levantava pegava a mão do Nico e beijava-lhe a fronte, indiferente às caras feias da viúva. Quando Osni chegou, em consternação contida, Lucimara disparou-lhe seu olhar mais sedutor, ergueu discretamente a saia, cruzou e descruzou as pernas. Ele entendeu e a tudo retribuiu com correspondente olhar sedutor. Faces indignadas com a cena jamais imaginariam o pacto de silêncio assinado a três mãos.

Arte de Rute Yumi Onnoda

Autoria: Renata Regis Florisbelo

CRÔNICA – DELÍRIOS NO SÁBADO À TARDE

Por Rosicler Antoniácomi

 

No último sábado, dia 30 de junho de 2018, estive presente no evento do lançamento do excelente livro Delírios de uma Mente Perturbada, em segunda edição por Chiado Books, abril de 2018, que teve lugar no hall da Escola de Idiomas First Class, na Avenida Visconde de Mauá.

Não fui apenas pelo livro, cujo título e sinopse, que eu havia lido alguns meses atrás na página da editora, sugeriam drama psicológico, o que, pela pouca idade de seu autor, provocou em mim uma curiosidade para conferir até onde está indo a juventude nas profundezas do Ser. Fui também por outra curiosidade: a de confirmar minhas suspeitas de que o jovem escritor – que a leitura já mencionada deu-me ciência de que residia em Florianópolis –, poderia pertencer a uma família ponta-grossense à qual sou ligada por laços relacionais.

Fui entrando naquele ambiente onde fui reconhecendo fisionomias (algumas eu não sabia nominar), que me acolheram, também sem me identificar, ainda, como uma "conhecida". Logo ao primeiro contato com o jovem escritor, esclareceram-se as suspeitas: já reconheci o ramo de parentesco que o ligava ao meu genro, e outro ramo ligado a um dos padrinhos de meu casamento (trinta e quatro anos atrás). E aquela assertiva sempre repetida de que "esta cidade é pequena", se mostrou verdadeira. Logo aquele evento literário pareceu um encontro de famílias conhecidas, com grupinhos de senhoras falando dos filhos que estudaram no mesmo colégio, de amigos e amigas do escritor que comentavam as novidades sobre parentes ou amigos que tinham em comum, e de alguns fanáticos por futebol que preferiram lançar os olhares nem tão furtivos a um televisor que transmitia o jogo do Uruguai versus Portugal, inclusive eu. Um agradável encontro familiar.

            O que pode acontecer quando uma mente perturbada, em delírios para desvendar os mistérios de um círculo familiar em conflitos que a arrogância e a ganância promovem, apresenta-se a um cérebro jovem empenhado em produzir boa literatura?

            Tratando-se do escritor Jhônatas Kuhn, jovem oriundo de famílias que floresceram e espalharam seus frutos pelos bairros de Oficinas, Maria Otília e Colônia Dona Luiza, filho de Rute Kuhn Knaut e Gerônimo Knaut, posso dizer que o resultado foi a primeira fase da saga com drama familiar, em que a ascensão do jovem herdeiro ao poder máximo na empresa da família sofre oposição dissimulada às voltas com intrigas e manipulações que afetam o estado psicológico do herdeiro graduado e pós-graduado em estratégias de administração. O personagem narrador, em um crescendo no decorrer da narrativa, vai abandonando a simples apresentação dos fatos que constituem o enredo – como o propósito de atender às expectativas do patriarca de se tornar seu substituto como empresário irrepreensível, que acalentara desde a infância – para mergulhar nas profundezas e na escuridão da desconfiança, da perplexidade, da frustração, quando a constatação da hipocrisia, do machismo, da arrogância, e da omissão de familiares envolvidos em uma disputa mesquinha o arrastam para o abandono de si mesmo, na compulsão pela virada do jogo e pela vingança, pois os ícones que alimentaram a formação de seu caráter, que construíram seus conceitos mais valiosos deitam por terra, dando lugar a um insuportável vazio.

            Sim, na madrugada seguinte, 1º de julho, às 2h30min, terminei a leitura que não me concedeu a permissão para pausas ou para outros afazeres, tal o apelo exercido pelo drama tão bem conduzido. 

            Recomendo a leitura para jovens e adultos dispostos a brigar valentemente com agendas de compromissos e com o relógio que vão querer tomar-lhes o prazer dessa leitura sedutora. 

 

2014 - SETE A UM

Autoria: Rosicler Alves Gomes

 

Pelo amor de Deus, acabe logo!

Acabou. Mas não foi aquele fim: agora é pegar a trouxa e ir embora, curtir a derrota em casa, deixando o vexame para trás. Não. Ainda é preciso pensar no terceiro lugar (ou quarto). Um torcedor descrente, que até já esperava perder (por um pouco menos, claro), mas torcendo ainda assim, não sabia como expressar seu sofrimento: "Vamos olhar o lado bom". E os enfurecidos, que já tinham esgotado o repertório de palavrões: "Que lado bom? Poderia ser dez x zero?". E o descrente, agora com riso sarcástico sofrível: "Ninguém mais vai falar no Maracanaço. Agora tem o Mineiraço."

Por um momento, tudo virou piada com a famigerada semifinal. Fui ao meu jogo de Vôlei das terças-feiras, cumprir minha escalação no time reserva, e tive que aguentar a babada do treinador, porque as titulares tinham perdido (feio) no Copa Cidade, no domingo. E não pude me conter: "Foi um preparação psicológica para hoje. Sem essa preparação elas poderiam não suportar." 

O pior era não poder tirar da cabeça aquele refrão da Globo (que eu tive que parodiar, para não me sentir retardada), que ficou assim:

"Eu sei que são

Sete gols, como sei!

Vi gol mais gol

E não era  'replay'

Mesmo perdendo

O Brasil é espetacular

E nem precisou do Neymar!!!"

A paródia continua, referindo-se ao Fred, mas não é possível transcrevê-la, para não tornar esta crônica imprópria para menores.

Nem cantar aliviava o peso daquele sete x um. Cheguei a acalentar um devaneio insano (até falei em voz alta, para incentivar uma reação positiva do Cosmos):"Vou pra casa, assistir à Central da Copa, quero ver os gols do Brasil”. Vai que foi só um pesadelo, ou um desvio temporário da rota dimensional, que só eu peguei, por conta de algum pecado contra a Esperança. Mas, não. Embora parecessem do Flamengo (teria algum consolo, se eu torcesse para o Flamengo), por causa do uniforme, os gols ainda eram da Alemanha. E serão da Alemanha, para todo o sempre, pelos séculos dos séculos.

Mas ainda viria o jogo da Argentina x Holanda. Nada é tão ruim que não possa piorar: poderíamos ter que enfrentar a Argentina, sem Neymar, e com um saco de sete x um nas costas. Melhorou um pouco quando pensei nisso. A Holanda bem que podia dar de sete x um, na Argentina, e o peso ficaria equilibrado. Se fosse o contrário, pelo menos não correríamos nenhum risco com a Argentina; eles, sim, iram correr um grande risco jogando contra a Alemanha.  Quem sabe, outro sete x um.

E, afinal, jogaram Argentina e Holanda, na segunda semifinal. Aquele zero x zero interminável era o meu sonho de consumo. Nunca imagineique eu pudesse apreciar tanto um empate de zero x zero. Que maravilha seria se fosse nosso zero x zero na semifinal. Pacífico..., tranquilo como uma brisa soprando para a decisão por pênaltis. Sem aquele mergulho asfixiante em uma onda atrás da outra, sem tempo para respirar. Tudo estava correndo de acordo com os planos do treinador da Holanda, que, no final da prorrogação, substituiria o goleiro por aquele alienígena de três metros, para defender os pênaltis. Não contou com a humanidade de Van Persie e sua indisposição estomacal, e viu a possibilidade de substituir o goleiro ir pelo Rio da Plata abaixo, junto com a terceira substituição. Quem não faz, toma, diz a bíblia do futebol. Tomou. Mas não de sete x um.  E, assim, um de meus mais acalentados sonhos, o de que outra seleção também tomasse uma goleada fenomenal, também vazou Rio da Plata abaixo. A não ser que a gente possa passar o saco do Maracanaço para a Argentina... Mas nem penso em sonhar com isso, pois meus sonhos não estão se realizando. Pior, estão se voltando contra nossa própria seleção. E ainda temos um jogo, que, concordo com o holandês, nem devia existir. Dois perdedores disputando para saber quem é mais perdedor. Masoquismo futebolístico. E uma chance aos que foram desclassificados de se desforrar dos que os desclassificaram. Incentivo à vingança. E nem nome tem: não é uma final, não uma classificatória, não é um amistoso. Não é nada. É para o torcedor curar as feridas com salmoura (uuuuiiiii), e para a Fifa ganhar mais dinheiro. E...,

... a não ser que a gente conquiste o terceiro lugar (ou o Maracanaço, pelo menos parecido com sete x um,  passe para  os hermanos), esta crônica termina aqui.

 

2018

Como todos sabem, terminou, pois nem terceiro lugar, para aliviar o peso, o Brasil conseguiu, e o saco de sete x um continua em nossas costas.

Mas estamos em 2018, e até agora não consegui escrever FIM. Ainda sonho em devolver o sete x um para a Alemanha, numa semifinal, ou final, quem sabe? Ou, ao menos passaremos esse mico pra frente, para esse padecimento acabar?

 

Ilustração: Rute Yumi Onnoda

 

Perto do fim tudo é mais bonito

Autor: Marcos Pileggi

 

Não tinha conseguido dormir naquela noite. Ficou de olhos fechados, deitado, ouvindo o barulho das ondas.Tentava sentir alguma mudança na luminosidade pelas frestas da veneziana de madeira verde, antiga como ele. Assim que percebeu que amanhecia, levantou. Era sempre estressante o levantar. Não naquele dia. Desceu a escada bem lentamente, procurando fazer barulhos de passos que soassem solenes, como em filmes de suspense.

            Fez café, escovou os dentes em um banheiro ao lado da cozinha, e subiu para se vestir. Não queria nada muito formal, mas queria estar bem vestido. Uma camiseta polo, uma bermuda azul de que tanto gostava, sapatos estilo iatista e um boné azul marinho. Saiu da casa e trancou a porta. Parou por um momento, sorrindo. Destrancou a porta e subiu mais uma vez. Pegou um pequeno frasco branco no banheiro e desceu a escada, mais rápido e sem os barulhos solenes. Não havia solenidade quando se repetia o mesmo ato várias vezes.

Abriu a porta da garagem e ficou olhando. Havia acontecido tantas coisas importantes em sua vida, mas nada parecia ser digno de ser lembrado. Realmente achou que pensaria em algo. Nada. Olhou para um pequeno barco e para as amarras que o mantinham preso à parede. Sempre tinha preguiça de soltar aquelas amarras. Não agora. Desfez os nós com cuidado, metódica e calmamente. Desceu o barco sobre um carrinho de transporte e o levou para fora. Trancou a porta, mas deixou a chave inserida no cadeado.

            O caminho até a praia era curto,sua casa ficava em frente ao mar. Apesar disso, teve que fazer mais força para puxar o barcosobre a areia. Normalmente sentia preguiça nesta parte também. Lembrou que passeava com o cachorro todos os fins de tarde. Adorava o cachorro, mas sentia preguiça antes do passeio. Ficava com preguiça de sair para correr,antes de dar aulas, coisas que adorava. Adorava o passeio de barco que vinha em seguida à puxadado barco. Não entendia estes sentimentos. Agora não sentia preguiça. Finalmente.

            Chegou a poucos metros da água e largou o barco,olhando para a casa, por cima dos arbustos que ficavam em uma restinga junto à rua. Começou a caminhar pela praia, prestando mais atenção aos detalhes do que normalmente fazia. Olhou para o céu.

Lembroudo museu Van Gogh, em Amsterdam,das pinturasvistas tão próximas, nas quaiso céu não era apenas uma representação, mas do sentimento do artista. As pinceladas em relevo, as cores, pareciam puxar o observador para dentro das pinturas. Algumas delas continham areia das praias, que Van Gogh visitou, misturada nas tintas. Era quase impossível estar na mesma percepção do artista, descobrir todas estas nuances.As pessoas que conheciam as pinturas pela Internetou pelos catálogos, não as conheciam realmente.

            O céu, que olhava agora estava azul com nuvens brancas e rosadas na linha do horizonte, lembrava as pinceladas de Van Gogh. Tentou tocá-las com uma das mãos,com uma sensação estranha. Sabia que sua mão estava bem próxima de si e que as nuvens estavam muito distantes, mas parecia poder tocá-las. As cores eram muito nítidas, mas inalcançáveis, intocáveis. Mas a mão, céu e nuvens pareciam estar duas dimensões, em um quadro.

            Caminhava de volta ao barco. Apesar de ainda ser cedo, algumas famílias estavam se preparando para passar a manhã, ou até o dia. A visão de outras pessoas normalmente lhe enchia de raiva. Não as suportava, tinha uma percepção de como a espécie humana é predatória, injusta e egoísta. Só por existirem, destroem o ambiente, pessoas, ideias. Fazem barulho, fazem sujeira, consomem recursos desnecessariamente. E o fazem por que podem. De que vale ser uma civilização com cultura se é burra demais para utilizá-la?

            Desta vez não sentia raiva. Tinha uma sensação de conseguir entender as pessoas com as suas limitações, angústias e suas incapacidades em compreender o mundo. Se a humanidade tem algum sentido além de ser mais um tipo de animal na Terra, ele imaginava que pudesse vislumbrá-lo neste momento. Via famílias felizes passando um dia na praia. Somente isso.

            Conduziu o barco até a beira da água. As ondas estavam fracas, podendo subir sem problemas. Remava em direção ao horizonte. Podia ver as três ilhas, velhas companheiras deuma época que tinhas tantos planos. Agora só tinha um, e o estava executando olhando para elas. Remou muito, ficando cansado. Ajeitou o barco para ficar de frente para a praia, bem distante àquela altura. Passara tantas temporadas naquela praia, parecia um lugar comum, mas visto do mar, era belíssimo. Nós sempre estamos em um lugar belo, só é preciso ter uma boa distância para se perceber.

              Paz. É o que estava sentindo. Sabia que era um momento único, não iria se repetir. O sol estava mais alto, mais forte, não queria ter queimaduras, nem sentir fome ou sede. Tinha um comprimido, dentro do frasco branco. O barco balançava, ouvia o barulho da água, sentia a brisa, o calor, a vida passando. Lembrava de coisas do passado, tanto distantes quanto recentes. Fatos felizes, tristes, vergonhosos, grandiosos. Também fora enganado, tratado como objeto de barganha. Continuava a ter todo aquele passado, mas comoas nuvens no céu. As coisas boas estavam no mesmo nível das ruins, inalcançáveis, intocáveis, em duas dimensões. Um céu de Van Gogh. Sentia as pinceladas lhe puxarem. Era hora de partir.  

           

(Marcos Pileggi é professor de Microbiologia e Microbiologia Ambiental em cursos de Graduação e Pós-Graduação em Biologia Evolutiva na Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde realiza pesquisas com degradação de contaminantes ambientais. Orienta em curso de Pós-Graduação em Biotecnologia Ambiental na Universidade Estadual de Maringá. Tem doutorado em Genética pela Universidade Federal do Paraná e Ohio State University e Pós-Doutorado em Microbiologia Ambiental pela University of Minnesota.)