Arte Mista
2014 - SETE A UM

Autoria: Rosicler Alves Gomes

 

Pelo amor de Deus, acabe logo!

Acabou. Mas não foi aquele fim: agora é pegar a trouxa e ir embora, curtir a derrota em casa, deixando o vexame para trás. Não. Ainda é preciso pensar no terceiro lugar (ou quarto). Um torcedor descrente, que até já esperava perder (por um pouco menos, claro), mas torcendo ainda assim, não sabia como expressar seu sofrimento: "Vamos olhar o lado bom". E os enfurecidos, que já tinham esgotado o repertório de palavrões: "Que lado bom? Poderia ser dez x zero?". E o descrente, agora com riso sarcástico sofrível: "Ninguém mais vai falar no Maracanaço. Agora tem o Mineiraço."

Por um momento, tudo virou piada com a famigerada semifinal. Fui ao meu jogo de Vôlei das terças-feiras, cumprir minha escalação no time reserva, e tive que aguentar a babada do treinador, porque as titulares tinham perdido (feio) no Copa Cidade, no domingo. E não pude me conter: "Foi um preparação psicológica para hoje. Sem essa preparação elas poderiam não suportar." 

O pior era não poder tirar da cabeça aquele refrão da Globo (que eu tive que parodiar, para não me sentir retardada), que ficou assim:

"Eu sei que são

Sete gols, como sei!

Vi gol mais gol

E não era  'replay'

Mesmo perdendo

O Brasil é espetacular

E nem precisou do Neymar!!!"

A paródia continua, referindo-se ao Fred, mas não é possível transcrevê-la, para não tornar esta crônica imprópria para menores.

Nem cantar aliviava o peso daquele sete x um. Cheguei a acalentar um devaneio insano (até falei em voz alta, para incentivar uma reação positiva do Cosmos):"Vou pra casa, assistir à Central da Copa, quero ver os gols do Brasil”. Vai que foi só um pesadelo, ou um desvio temporário da rota dimensional, que só eu peguei, por conta de algum pecado contra a Esperança. Mas, não. Embora parecessem do Flamengo (teria algum consolo, se eu torcesse para o Flamengo), por causa do uniforme, os gols ainda eram da Alemanha. E serão da Alemanha, para todo o sempre, pelos séculos dos séculos.

Mas ainda viria o jogo da Argentina x Holanda. Nada é tão ruim que não possa piorar: poderíamos ter que enfrentar a Argentina, sem Neymar, e com um saco de sete x um nas costas. Melhorou um pouco quando pensei nisso. A Holanda bem que podia dar de sete x um, na Argentina, e o peso ficaria equilibrado. Se fosse o contrário, pelo menos não correríamos nenhum risco com a Argentina; eles, sim, iram correr um grande risco jogando contra a Alemanha.  Quem sabe, outro sete x um.

E, afinal, jogaram Argentina e Holanda, na segunda semifinal. Aquele zero x zero interminável era o meu sonho de consumo. Nunca imagineique eu pudesse apreciar tanto um empate de zero x zero. Que maravilha seria se fosse nosso zero x zero na semifinal. Pacífico..., tranquilo como uma brisa soprando para a decisão por pênaltis. Sem aquele mergulho asfixiante em uma onda atrás da outra, sem tempo para respirar. Tudo estava correndo de acordo com os planos do treinador da Holanda, que, no final da prorrogação, substituiria o goleiro por aquele alienígena de três metros, para defender os pênaltis. Não contou com a humanidade de Van Persie e sua indisposição estomacal, e viu a possibilidade de substituir o goleiro ir pelo Rio da Plata abaixo, junto com a terceira substituição. Quem não faz, toma, diz a bíblia do futebol. Tomou. Mas não de sete x um.  E, assim, um de meus mais acalentados sonhos, o de que outra seleção também tomasse uma goleada fenomenal, também vazou Rio da Plata abaixo. A não ser que a gente possa passar o saco do Maracanaço para a Argentina... Mas nem penso em sonhar com isso, pois meus sonhos não estão se realizando. Pior, estão se voltando contra nossa própria seleção. E ainda temos um jogo, que, concordo com o holandês, nem devia existir. Dois perdedores disputando para saber quem é mais perdedor. Masoquismo futebolístico. E uma chance aos que foram desclassificados de se desforrar dos que os desclassificaram. Incentivo à vingança. E nem nome tem: não é uma final, não uma classificatória, não é um amistoso. Não é nada. É para o torcedor curar as feridas com salmoura (uuuuiiiii), e para a Fifa ganhar mais dinheiro. E...,

... a não ser que a gente conquiste o terceiro lugar (ou o Maracanaço, pelo menos parecido com sete x um,  passe para  os hermanos), esta crônica termina aqui.

 

2018

Como todos sabem, terminou, pois nem terceiro lugar, para aliviar o peso, o Brasil conseguiu, e o saco de sete x um continua em nossas costas.

Mas estamos em 2018, e até agora não consegui escrever FIM. Ainda sonho em devolver o sete x um para a Alemanha, numa semifinal, ou final, quem sabe? Ou, ao menos passaremos esse mico pra frente, para esse padecimento acabar?

 

Ilustração: Rute Yumi Onnoda