Arte Mista
Maçã que conta as horas

21h42. Era exatamente o que a maçã informava. No centro da polpa, em vez da porção macia, suculenta e adstringente, um mecanismo eletrônico e um display alardeando o tempo. A carapaça vermelha, circundando o miolo, formatava a aparência. A pseudo maçã ficava na estante, junto com outros relógios, bloco de notas, algumas canetas e enfeites. Vasos de flores discretas, quase se confundindo com as naturais. Nichos nos quais se adicionava um toque de personalidade, de identidade feminina, recém-aderida ao recinto. Durante três anos, Luciano e sua maçã que conta as horas habitaram, sozinhos, o apartamento pequeno. Ele próprio não era espaçoso, já aprendera que a alma se espalha onde encontra recônditos discretamente disponíveis, algumas sim, mais espalhafatosas e esparramadas do que outras. No pulso, outro inseparável relógio, com números em relevo permitindo o toque no tempo, reconhecendo, imediatamente, dele, seus momentos. Quando os olhos faltam, outras partes do corpo assumem seu papel, transmitindo do seu próprio jeito as impressões sobre o mundo. Os dedos sentem, na própria pele, a passagem do tempo, que lhe pressiona as digitais, dos olhos somente absorveriam a imparcialidade em leituras impessoais. No instante em que Melânia o encontrou, de pronto não identificaria o tamanho do encantamento. O violão, o microfone, as caixas de som e o restante do equipamento prestes a enternecer o pensamento, acondicionados, discretamente, num dos escassos cantos do mesmo apartamento. A qualidade e o gosto musical do Luciano prenunciam uma pessoa harmoniosa, em ritmos e acordes próprios e caminhando pelo mundo feito uma partitura por onde as notas entretecem e formam a urdidura.


O que me chamou a atenção foi a transformação do ambiente, de um quarto frio de hotel, tornado um lar contundente, sem sombra de dúvida, uma casa. Melânia passara antes na cafeteria e comprara uns quitutes para o nosso lanche, eu no papel de visitante. As mesas das refeições são sempre um palco. Nelas, tramas e diálogos, conversas tão frutíferas e saborosas quanto as comidas ali servidas se desenrolam. O tamanho do coração contrastando com o espaço. Onde mal cabe uma cadeira extra sequer, sobra e transborda em carinho. No ambiente, uma poltrona vermelha, que pertenceu a avó, significava o refinamento na herança transmitida, bela e marcante em seus motivos arabescados no tecido fino. Uma estirpe que se sabe requintada, nem por isso se expande demasiadamente e perturba o direito aos espaços alheios. Curiosamente, a tal poltrona, de formas arredondadas e clássicas, no tecido escarlate, mais parecia outra maçã no espaço reservada. As maçãs andavam realmente em alta, se ousar um corte longitudinal, no centro da fruta, uma estrela aparece. Cinco pontas, como a imagem do Homem Vitruviano, no desenho de Leonardo Da Vinci, que se posicione e compreenda seu papel no mundo. A Melânia encontrou o Luciano e ele a recolheu em seu pequeno habitáculo fazendo as vezes de lar. Fisicamente nem cabem dois, na prática e no coração, cabe uma multidão, o coração do Luciano e da Melânia, agora juntos, é do tamanho da vastidão.


Autoria: Renata Regis Florisbelo