Arte Mista
Mistérios da terra sem mal

Autoria: Rosicler Antoniácomi

DE VOLTA AO COTIDIANO A casa de Gil, isolada na Ilha Rasa, onde o biólogo se instalara com sua filha Cíntia, dando andamento ao seu projeto de pesquisas, era uma casa simples, mas aconchegante. A grande mesa oval no centro da cozinha, que também servia de copa, estava rodeada pelo grupo recém- -chegado, enquanto lá fora Crash se aninhara sob as asas para aguardar a noite, e Zampoña, na varanda, ainda andava de cá para lá, procurando um lugar ideal para o sono. Saboreavam gulosamente as pizzas, elogiando a diversidade dos recheios, que variavam entre os “naturebas”, com vegetais da horta e queijos artesanais, e os “sustentadores de amizades”, à base de peixes que Zampoña pescara, pois não poderiam ferir os sentimentos do amigo bicudo. Parecia que havia brotado uma grande amizade “de infância” entre os recém-conhecidos companheiros de jornada. Crescia também uma saudade profunda do recente amigo Elias, que ficara para trás, seduzido pela aventura de viajar num mundo desconhecido. Em breves momentos de nostalgia, perscrutavam seus sentimentos mais profundos para investigar a própria sanidade. Num desses momentos Sumé e Angie perguntaram, ao mesmo tempo: – Por que fomos nós os escolhidos? – Também sempre fiz essa pergunta – respondeu o Mestre. Creio que as atitudes com que escolhemos encarar a vida é que nos propõem esses desafios. Não se trata de sermos escolhidos, mas de fazermos escolhas. 66 Angie estava para passar uma segunda noite fora de casa . Mas não estava preocupada com isso, pois o que deixara escrito num bilhete para sua avó levava a pensar que ela estaria passando o fim de semana em casa de Julie. Preocupava-se com o que diria a Julie, Willy e Decinho, as três pessoas para quem não mentia . Na verdade, nem sabia se, quando voltasse para casa, ela mesma acreditaria na aventura que vivera . Nessa madrugada, Crash os deixaria novamente na Praia dos Pescadores, e ela apenas iria para casa, fingiria ir para a escola, retornaria pela lavanderia para o seu “cafofo”, e dormiria até acordar com fome, achando que havia sonhado tudo . Então não precisaria dizer nada a ninguém . Entretanto, para Sumé, um mero retorno à vida normal parecia algo insustentável . Sua vida normal de adolescente de rua – dormindo em ruínas abandonadas, às vezes em albergues, mudando para outras regiões sempre que a convivência com outros jovens se complicava – agora significava contentar-se com a mesmice e a inutilidade. Além disso, percebia que sua vida parecia curta demais para o tempo de sua existência passada na rua. Tentava refazer na memória a trajetória completa de sua vida até seus treze ou quatorze anos, mas não conseguia juntar os retalhos . Era como se fosse um personagem inanimado, um boneco, que de tempos em tempos recebia uma alma e uma vida para viver . Dos outros momentos, enquanto boneco, não havia retalhos . Alma . . . O Mestre havia falado que o sonho que tivera na floresta, depois do Círculo de Iniciação, referia- - se à alma humana. O que iria fazer ele, de volta ao seu mundo marginal, com essa noção de que nesse mundo havia momentos em que percebia em si uma alma, e momentos em que esta parecia abandoná-lo?

Nota: Texto extraído do livro “Mistérios da terra sem mal” da escritora Rosicler Antoniácomi e lançado pela Editora Chiado.