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Qualificação e mercado de trabalho

Parte I

* Patrícia Ecave

Entre os anos de 2001 a 2010 tivemos a criação de 17,8 milhões de empregos no Brasil, um crescimento aproximado de 68%; em 2013 cerca de 93 milhões de brasileiros foram considerados aptos a trabalhar, porém 90% das novas vagas de emprego requer o ensino médio como escolaridade mínima – conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Entretanto, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 40% dos trabalhadores têm ensino fundamental incompleto e 16% são considerados analfabetos funcionais, incapazes de atuar significativamente em seus respectivos grupos e comunidades, pela insuficiência de habilidades básicas de leitura e escrita.

No primeiro semestre de 2013 o Brasil ofertou 1,4 milhão de vagas no mercado de trabalho, de acordo com informações fornecidas pelo Ministério do Trabalho, das quais apenas 22% foram preenchidas. Ademais, menos de 15% dos jovens que concluem o ensino médio na rede pública de ensino conseguem chegar ao ensino superior.

Estes dados que apresento ao leitor objetivam demonstrar a nítida falta de qualificação para o mercado de trabalho no Brasil, que sem dúvida atrapalha o desenvolvimento industrial em nosso país. A mão de obra qualificada é fundamental para o desenvolvimento econômico e a competitividade com outros países é prejudicada por sua carência, combinada a outros fatores como a carga tributária, por exemplo.

Faz-se essencial destacar que a tecnologia é intrínseca ao crescimento do mercado. Todavia boa parte dos trabalhadores brasileiros não é contemplada pelas ferramentas tecnológicas em todo o seu potencial, ferramentas estas que desempenharam um papel fundamental no decorrer da história da humanidade e na concepção do mundo atual.

Há uma década, quando de sua instalação, uma nova indústria em Ponta Grossa realizou a contratação de profissionais de outras cidades e estados para suprir suas demandas, cuja medida gerou críticas e questionamentos. Observo que, diante da ausência de profissionais qualificados na cidade e as necessidades da produção, o caminho óbvio é a admissão de mão de obra externa.

Este episódio serve como alerta para a necessidade de discutirmos a questão da qualificação profissional, afeta aos setores tanto comercial quanto industrial. Um cliente mal atendido não retorna ao estabelecimento e ainda propaga aos amigos e a quem interessar possa a sua insatisfação. Neste quesito, saliento a imprescindibilidade da promoção da capacitação às equipes por parte dos empresários, aliada a um bom ambiente de trabalho: funcionário feliz se traduz em cliente satisfeito, fomentando bons rendimentos e crescimento para os negócios da empresa.

 

*Patrícia Ecave é diretora geral da Secretaria de Indústria, Comércio e Qualificação Profissional

Nossas câmaras também captam solidariedade

* Érica Busnardo

O gesto de solidariedade, captado no dia 28 de novembro por uma das câmeras da Secretaria Municipal de Cidadania e Segurança Pública, ainda repercute nas redes sociais. Em meio à correria daquele dia, pessoas e motoristas apressados, com contas a pagar, com horários a serem cumpridos, corre-corre, estresse, não percebiam a presença daquela idosa frágil, que, apesar da sinalização da movimentada Balduíno Taques, encontrava dificuldades para atravessar a rua.

Mas do outro lado da rua, os estudantes Ana Carolina Antero Martins e Bruno Sansana, provavelmente também com uma sexta-feira (28 de novembro) agitada, dedicaram alguns minutos para olhar o próximo. Ao perceberem a dificuldade daquela senhora com andador, que não encontrava oportunidade para fazer a simples ação de atravessar uma rua, voltaram o caminho já feito para prestar a ajuda necessária. Lado a lado, os três atravessaram a Balduíno. Ana Carolina continuou, até deixar a idosa em local seguro. Recebeu como agradecimento um beijo daquela senhora que agora sorria.

A solidariedade foi vista por muita gente – muitas mesmo - através da televisão, youtube, facebook, whatsapp. A imagem surpreendeu as pessoas atarefadas e estressadas, que vivem no corre-corre, com horários a serem cumpridos. Claro que não presenciei a reação dessas pessoas ao assistir a cena, mas certamente, acredito eu, esboçaram um sorriso de mea culpa e pensaram: eu poderia ter feito isso. Bom, pelo menos essa foi a minha reação, depois de ver a imagem na Central de Monitoramento da Secretaria de Cidadania e Segurança Pública.

Viu, nossas câmeras também captam solidariedade, disse-me o diretor de Tecnologia, Henrique Salomon Pinto. E antes que eu propusesse divulgação sobre a fantástica Central de Monitoramento (sim, é realmente hipnotizante), ele foi logo me explicando: o município tem 28 câmeras instaladas em pontos estratégicos do município, que filmam a cidade durante 24 horas por dia e garantem imagens captadas num raio de 360º. Elas estão instaladas em locais de grande circulação de pessoas e pontos estratégicos da cidade, escolhidos com base nas estatísticas de criminalidade, feitas pelas forças de segurança do município.

E por 24 horas três guardas municipais (claro que há o revezamento) acompanham todas as cenas da cidade em tempo real, através das oito telas da Central de Monitoramento, sendo três de 46 polegadas e cinco de 32 polegadas. Imagens perfeitas até mesmo para mim, uma pessoa míope, sem a lente de contato do olho direito. Aliado aos equipamentos modernos está o trabalho da equipe formada por pessoas altamente capacitadas para a função. Não perdem o foco em momento algum, nem mesmo quando dão entrevista. Seis olhos e três cérebros concentrados nas telas.

Na sala ao lado, o analista de sistemas Rogério Büchner também acompanha o funcionamento de toda a Central de Monitoramento. Mas a atenção dele não fica somente nesta atividade. Apesar da correria que o trabalho exige, ele dedica alguns minutos para olhar o próximo, assim como fizeram Ana Carolina Antero Martins e o Bruno Sansana. Foi dele a percepção do ato de solidariedade de pouco mais de um minuto e cinquenta segundos em meio a tantas horas de imagens.

Para quem não viu, acesse www.youtube.com/watch?v=-Gm--djFy5w

 

*Érica Busnardo é jornalista e atua na assessoria de imprensa da Prefeitura de Ponta Grossa

Novas regras do IR da Pessoa Jurídica e de contribuições sobre lucro líquido

Ivo Avelar*

Polêmicas à parte, foi publicada no último dia 26 de novembro a Instrução Normativa RFB n° 1.515 que dispõe sobre a determinação e o pagamento do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), da Contribuição Social sobre o Lucro e ainda disciplina o tratamento tributário das contribuições ao PIS/Pasep e à COFINS, relativamente às alterações introduzidas pela Lei n° 12.973/2014.

Nessa nova regra a Receita Federal relembra ao contribuinte que o IRPJ e a CSLL devem ser apurados, via de regra, trimestralmente. Entretanto, à opção da pessoa jurídica o imposto poderá ser pago sobre base de cálculo estimada, com a possibilidade de suspender ou reduzir o pagamento desde que o faça por meio de balanços ou balancetes.

São ainda relembradas as regras a serem adotadas no que se refere às Perdas no Recebimento de Crédito, aos Juros sobre o Capital Próprio, à Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado, às Despesas Pré-Operacionais ou Pré-Industriais, ao Custo dos Empréstimos, ao Arrendamento Mercantil, às Participações em Coligadas e Controladas, à Tributação com Base nos Lucros Presumido e Arbitrado e vários outros.

Importante observar que ainda estão presentes na Instrução Normativa procedimentos a serem adotados relativos à AVJ - Avaliação a Valor Justo e ao AVP - Ajuste a Valor Presente, figuras não muito conhecidas nem tampouco praticadas pelas empresas e que estão contidos em Pronunciamentos Técnicos sobre procedimentos de Contabilidade, emitidos pelo CPC – Comitê de Pronunciamentos Contábeis, criado pela Resolução CFC n° 1.055/2005.

Considerando a complexidade da norma e dando o Fisco uma de bonzinho, anexos à IN são divulgados exemplos de contabilização e de utilização de subcontas na adoção inicial à Lei n° 12.973/2014 e de Ajuste a Valor Presente e Avaliação a Valor Justo, além de exemplos relativos à Aquisição de Participação Societária em Estágios e Contratos de Concessão de Serviços Públicos.

Há de se ressaltar que o Fisco parte da premissa de que todas as pessoas jurídicas adotam as novas regras contábeis, nos padrões internacionais, introduzidas no Brasil pela Lei n° 11.638/2007 e pela Lei n° 11.941/2009.

Um ponto que chama a atenção é quantidade de vezes em que é mencionado que o Lucro Líquido da pessoa jurídica é apurado com observância das Leis Comerciais, dentre as quais a mais importante é a Lei n° 6.404/1976, também conhecida como Lei das S.A.

Isso significa, entendemos, que nos termos do artigo 47 da Lei n° 8.981/1995, a pessoa jurídica poderá ter seu lucro arbitrado pela Receita caso não mantenha escrituração na forma das leis comerciais e fiscais ou deixem de elaborar demonstrações financeiras exigidas pela lei fiscal.

Dessa forma, é de extrema importância que a contabilidade das pessoas jurídicas esteja em consonância com as leis comerciais e fiscais evitando futuras surpresas emanadas do Fisco.

 

*Ivo Avelar é advogado, pós-graduado em Ciências Contábeis pela Fundação Getúlio Vargas e professor

Vigilância para garantir mudanças

*Sidney Anversa Victor

Acabou 2014. Foi um ano de Copa do Mundo, eleições acirradas e baixo crescimento do PIB, que apresentou dificuldades para os setores produtivos. Os desafios são muitos e como sempre ocorre em cenários adversos, haverá oportunidades a serem aproveitadas. Dentre elas, implementar um processo mais eficiente de gestão é uma prioridade para os empresários gráficos.

Num cenário com baixo nível de atividade econômica, as empresas precisam aumentar a sua eficiência, não só no plano administrativo e gerencial, como em produtividade, qualidade, prospecção do mercado, treinamento e eficiência dos recursos humanos e principalmente, atender à satisfação dos clientes. Tudo isso estabelece diferenciais competitivos importantes em épocas de vacas magras.

Como resultado das eleições de outubro último, quando 50% do eleitorado deu uma mensagem clara de que deseja mudanças, já se notam algumas respostas do governo, como uma sinalização mais forte de combate à inflação e a aprovação de lei que desonera a folha de pagamentos de vários setores da economia. Porém, isso ainda é muito pouco ante as dificuldades a serem vencidas.

Precisamos de ações concretas e amplas para que o Brasil volte a crescer em patamares mais elevados, como mais estímulo às exportações, o que implica melhor balizamento do câmbio, reforma tributária, ajuste fiscal, mais segurança jurídica e eficiência da máquina pública. Para adotar todas as providências necessárias, o governo precisa ouvir mais a sociedade e os setores produtivos, para não repetir equívocos, de impor medidas econômicas que acabam não apresentando qualquer resultado prático positivo.

A sociedade brasileira precisa cobrar as promessas de campanha feitas pela presidente Dilma Rousseff na propaganda eleitoral gratuita, nas entrevistas à imprensa, nos debates televisivos e no seu discurso comemorativo da vitória eleitoral.  Nesse sentido, acredito que as entidades de classe, de todos os setores, tenham grande responsabilidade, pois elas conhecem em profundidade as dificuldades e necessidades de cada segmento produtivo do País. E, além disso, têm a força legítima da representatividade.

A Abigraf Regional São Paulo estará alinhada à Nacional, no sentido de que a representação associativista da indústria gráfica paulista seja muito proativa nesse processo cívico e político de engajamento da sociedade. É preciso interagir com o governo, sugerir e reivindicar a adoção das medidas necessárias ao avanço do Brasil a um novo patamar de desenvolvimento. Esta será uma ação muito forte de nossa gestão, atuando em tudo o que diga respeito aos interesses regionais, apoiando e participando nas demandas pertinentes à esfera nacional.

Mobilização dessa natureza poderá contribuir para uma melhoria do ambiente de negócios e uma retomada mais rápida do crescimento econômico, embora se espere que 2015 seja um ano mais de ajustes da economia do que de aquecimento do nível de atividade e expansão dos investimentos. Por isso mesmo, as gráficas devem preparar-se bem, aumentando sua eficiência empresarial para enfrentar as dificuldades conjunturais.

Mais do que nunca, é hora de fortalecermos nossas entidades de classe. Para isso, nada melhor do que a participação mais ativa dos associados, transformando nossas associações e sindicatos em fortes polos de ideias, propostas e encaminhamento de sugestões ao Governo Federal, estados e prefeituras. É preciso acreditar no Brasil e trabalhar muito para que nosso país possa seguir um caminho de prosperidade.

 

*Sidney Anversa Victor

Presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica-SP

Como economizar em um intercâmbio cultural?

*Ana Luisa D´Arcádia Siqueira

Fazer um intercâmbio é o desejo de muitos brasileiros. Muitos acabam desistindo do sonho ao descobrir o valor total do investimento.  O investimento é alto? Sim, mas o retorno é excelente e com o planejamento adequado e algumas atitudes fica mais fácil alcançar a tão sonhada viagem.

Para iniciar o planejamento o jeito é colocar tudo no papel. Custos com curso, acomodação, alimentação, passagem, seguro saúde e gastos em geral devem ser contabilizados. O ideal é fazer esse estudo e analisar as finanças pessoais para saber quanto é possível reservar por mês. Assim fica mais fácil projetar uma data de embarque - é muito importante definir a data, mesmo que mude, este será o ponto de partida para tomar todas as decisões referentes ao intercâmbio.

Por falar em data, viajar em baixa temporada é uma excelente forma de economizar. Além da passagem aérea, acomodação e curso também podem sair mais em conta. Durante as altas temporadas é comum que as escolas cobrem uma taxa extra. O período de alta temporada varia de escola para escola, mas geralmente é no verão e feriados importantes do país de destino.

Em relação à passagem aérea, quanto mais cedo se compra, maiores as chances de se conseguir um bom preço. É bom ficar atento porque alunos com até 35 anos tem direito a passagem de estudante, que oferece tarifas mais convidativas e maior flexibilidade para mudanças nas datas de embarque.

Antes de sair do Brasil, o aluno deve fechar o local onde ficará hospedado. Uma dica importante é não fechar acomodação para todo o período para cursos de longa duração. Fazendo isso, o aluno pode, ao chegar no destino, procurar outros estudantes para dividir apartamento, o que sai mais em conta. Para cursos de curta duração, o melhor é já embarcar com a acomodação para todo o período. Vale buscar o local mais barato que pode ser quarto compartilhado em residência ou casa de família, ou ainda algum hostel da cidade. O valor varia conforme o destino.

Quando se chega à cidade, é possível economizar em refeições e passeios. Comprar comida no supermercado e preparar na acomodação sai bem mais em conta do que comer em restaurantes. Se informar sobre o destino também é essencial para economizar. Em cada local há opções de passeios sem custos ou com um valor bem baixo.

Além de todas essas dicas, em alguns destinos, como Austrália, Nova Zelândia e Irlanda, é permitido que estudantes trabalhem. Cada país tem suas regras para a permissão e esta é uma ótima maneira de bancar as despesas.

São muitos detalhes, por isso é importante que o aluno encontre uma boa agência para auxiliar no planejamento do intercâmbio. Consultores educacionais bem preparados podem dar dicas preciosas do destino, curso, passagem e também das melhores formas de economizar. Além disso, algumas agências oferecem a possibilidade de dividir o valor do pacote.

Com um bom planejamento, é possível encontrar um intercâmbio que caiba no bolso. Viver uma experiência no exterior é inesquecível e vale todos os esforços. O segredo é se preparar e não desistir. Seguindo essas dicas, o próximo desafio será arrumar as malas e embarcar.

 

*Ana Luisa D'Arcadia de Siqueira é diretora de marketing da Global Study, franquia de intercâmbios

A hora de mudar (ou não mudar)...

Temos assistido desde o ano passado, as manifestações de rua, que começaram protestando contra o aumento das passagens de ônibus, trens e barcos, passaram pela oposição à Copa do Mundo e seguiram até hoje pedindo o fim da corrupção, mais segurança, casa própria, saúde, escola e dezenas de outras coisas. Nossas ruas e estradas são frequentemente bloqueadas por infindáveis protestos, muitas vezes violentos. Vivemos o sobressalto de ver ônibus e outros veículos queimados em revoltas de diferentes raízes, a maioria delas ligadas ao crime organizado. Apesar do discurso oficial, que fala em normalidade, não é isso que se vê na prática. Nossas vidas correm risco permanente, a propriedade há muito não é protegida, o direito de ir e vir é desrespeitado, as instituições mostram-se fracas e as autoridades omissas e atabalhoadas.

É nesse quadro que chegamos ao dia da eleição, onde escolheremos presidente da República, governador, senador e deputados. É o único momento em que os incomodados podem fazer algo pela mudança e os satisfeitos têm a oportunidade de deixar tudo como está. Não terão tido significado e nem um mínimo sentido prático todas as passeatas e protestos que se realizaram ao longo desse último ano e meio, se seus promotores e aqueles que dela participaram continuarem votando como antes. Se é para continuar como está, não havia razão para protestar!

A República brasileira sempre padeceu de representação popular. Nasceu nas mãos dos militares, serviu as oligarquias, foi suplantada por ditaduras e nunca foi efetivamente o poder emanado do povo, embora seja exercido em nome dele. Mesmo nos momentos de democracia e maior participação popular, o que se ofereceu ao povo é o resultado de acordos e conchavos de segmentos políticos, econômicos ou ideológicos. O povo, infelizmente, só é utilizado para dar legitimidade à vontade dos grupos que se organizam ao redor de interesses. Vivemos hoje o mais longo período democrático de nossa história, mas, mesmo assim, a estrutura partidária e de governo é dotada de vícios que precisam ser sanados para que todos – e não apenas alguns – tenham a oportunidade de chegar ao poder.

No entanto, o mais importante para o momento é votar bem. Diante da urna eletrônica teremos a oportunidade de, se insatisfeitos, dar nossa contribuição para mudar o governo e a composição das casas legislativas e, se satisfeitos, votar pela reeleição tanto dos componentes do Executivo quanto dos do Legislativo. Se a presidente e/ou o governador forem reeleitos, ficará claro que a maioria da população não concorda com os protestos contra eles dirigidos, e as manifestações têm de cessar imediatamente. Numa democracia, as minorias se curvam à maioria e, ponto final...

Dirceu Cardoso Gonçalves é tenente e dirigente da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo (Aspomil)

Horário eleitoral: muita promessa e nada de objetivo

Por Marcos Morita

Tedioso, monótono, cafona, brega, caricato, insensato, ridículo, mentiroso, chulo, vulgar, rústico e grosseiro são algumas palavras que me vêm a mente quando o tema é horário eleitoral gratuito. Mesmo tentando fugir dos candidatos como o diabo foge da cruz, algumas vezes sou pego de surpresa, seja no rádio ou na televisão, já que não satisfeitos, invadiram os horários normais da programação, além das calçadas com seus cavaletes imundos.

Seus personagens, em especial os candidatos a deputado, mais parecem ter saído de um show de calouros, seja pela aparência ou oratória de dez segundos, cuja restrição certamente têm salvo alguns que mal saberiam falar algo além do próprio nome, preferindo associar-se a sinônimos como borracharia, farmácia, açougue, sindicato, motoboy, ‘cabelereiro’, papelaria e garçom. Saliento que nada tenho contra as profissões dos candidatos ao sonho de Tiririca.

De outro lado temos aqueles um pouco mais bem preparados, candidatos ao senado, governo e presidente. Com mais tempo disponível, gastam nosso precioso tempo em críticas à gestão alheia, feitos do passado e promessas, aliás, muitas promessas. Curioso, fui buscar seu significado no dicionário e pasmem, além de políticos são também infiéis, injustos, descompromissados e quiçá, tenham suas almas perdidas queimadas no purgatório.

Promessa: (pro.mes.sa lat promissa) 1 Ato ou efeito de prometer. 2 Declaração pela qual alguém se obriga, pela fidelidade e pela justiça, a fazer ou deixar de fazer alguma coisa. 3 pop Aquilo que se faz ou omite em honra de Deus, dos anjos, dos santos e até das almas do purgatório. 4 Asseguração expressa em que se baseia determinada expectativa; compromisso.

Não obstante alguns progressos obtidos, tal qual a lei da ficha limpa, a qual afastou a possibilidade de um tiroteio ao vivo, sugeriria para as próximas eleições a lei da promessa cumprida, cujo objetivo seria fazer com que os candidatos pensassem um pouco mais nas obscenidades proferidas em rede nacional de televisão. Vale salientar que promessa me lembra sonho e há uma diferença muito grande entre um sonho e uma meta ou objetivo.

Como executivo, sou avaliado não apenas pela qualidade e criatividade de minhas propostas, mas principalmente por sua execução dentro do prazo e com os recursos previamente disponíveis. Em geral um bom projeto deve ser: especifico, mensurável, atingível, realista e com tempo definido, cujos critérios são sabatinados e escrutinados antes de sua aceitação. Vale mencionar que nunca, em meus vinte anos de vida corporativa, escutei a palavra promessa.

Extinguir, aniquilar, dizimar e exterminar a corrupção, o trânsito nas grandes metrópoles, a violência urbana, o analfabetismo, o desmatamento, o desemprego, a seca no Sertão e em São Paulo, os problemas de saúde, a desigualdade social, as férias de 60 dias dos senadores, as benesses dos deputados, a burocracia e a teia dos impostos são algumas das propostas. Isto soa para vocês mais como meta, objetivo ou sonho?

*Marcos Morita é mestre em Administração de empresas e professor da FIA-USP e Universidade Mackenzie.

A eleição de deputados e senadores

Pela própria natureza, a campanha eleitoral polariza entre os candidatos a presidente e a governador. Mas não devemos esquecer que, no próximo domingo, também votaremos para senador e deputados federais e estaduais. Pela legislação nacional, os senadores são representantes dos Estados perante a União e os deputados representam diretamente o povo, tanto na Câmara Federal quanto nas Assembleias Estaduais. São esses senhores e senhoras que terão, durante os próximos quatro anos – oito anos no caso do senador – a tarefa de discutir e votar as leis propostas pelo Governo, de propor leis de iniciativa parlamentar e, principalmente, de fiscalizar os atos do Executivo.

Nesses dias que ainda nos faltam até a data da votação, quem ainda não o fez, tem a oportunidade de refletir e conhecer os candidatos a deputado e senador de sua cidade ou região para, a partir desse conhecimento, votar naquele que melhor possa representar seus interesses. Verificar, por exemplo, nos candidatos à reeleição, o que eles fizeram e, nos novos, quais são as suas propostas e compromissos e, principalmente, se são pessoas honestas e acessíveis. E rejeitar aqueles que só aparecem pedindo voto a cada quatro anos.

Embora o Brasil seja um país executivista, onde em muitas épocas se fechou o parlamento e se procurou diminuir a importância do senador, do deputado e do vereador, é preciso levar em consideração que todo o poder, a canalização de verbas para obras públicas e outros interesses diretos da população passam pelas mãos dos senadores e deputados. Melhor se eles forem de nossa confiança e estiverem alinhados com as nossas preocupações e necessidades. Muitas cidades sofrem por não terem eleito deputados para defenderem seus interesses mas, mesmo assim, os candidatos não conseguem passar essa mensagem ao eleitor. É importante eleger candidatos da própria cidade ou da região, que conhecem os problemas da área e, alem disso, depois de eleitos, poderão ser facilmente localizados, abordados e fiscalizados pelo eleitor.

Partindo da ideia de que a hora do voto é o único momento em que nós, do povo, podemos promover mudanças no país, não devemos perder a oportunidade de, além de presidente e governador, também eleger parlamentares que realmente nos representem e tenham o compromisso de lutar pelas nossas necessidades. O voto, reservadas as proporções, é mais ou menos como a contratação de um empregado. Você contrataria para trabalhar em seus negócios alguém que não demonstrasse competência, honestidade e disposição? Faça o mesmo em relação aos candidatos, pois eles vão falar e agir em seu nome...

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves é dirigente da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo (Aspomil)

O planeta cabe na urna

Na sociedade da hiperinformação – multiconectada e agindo cada vez mais por valores – o produtor rural parece ter conquistado, definitivamente, um espaço de valor na percepção do público urbano, por desempenhar uma função essencial na sociedade. Mais ainda: ele próprio, o produtor, aumentou seu nível de confiança e hoje se vê como um provedor de alimentos.

Está na pesquisa Farm Perspectiv Study (realizada pela BASF), que ouviu 1.300 pessoas no Brasil e cujos resultados foram divulgados em agosto último: 88,6% dos consumidores têm consciência que o produtor é um fornecedor de alimentos e 93% dos produtores assim se percebem também.  Ou seja, a consciência do papel do produtor na segurança alimentar cresceu – na cidade e no campo.

O levantamento também revela que a preocupação dos consumidores com a sustentabilidade atingiu a marca de 82%. Mostra, ainda, que 67% dos agricultores afirmam usar métodos sustentáveis de produção e só 37% dos consumidores concordam com isso. Outra dissonância: 75% dos consumidores concordam em pagar mais por alimentos produzidos de forma ambientalmente amigável, mas apenas 36% dos agricultores acreditam nisso.

Como se vê, há uma nova realidade do mercado de alimentos, emergente, que cria oportunidades e abre espaço para o marketing do produtor e do agronegócio, para agregar valor percebido em seus produtos e atividades – ou pelo menos reduzir eventuais abismos de percepção entre cidade e campo, como os mostrados acima.

Desde que a revolução verde chegou a nossos campos e a produção animal modernizou-se, um hectare de terra multiplicou sua capacidade geradora de proteína animal - de 2 para 2,8 kg de carne suína, ou de 1 para 5,6 kg de frango, por exemplo. Isso é sustentabilidade em três dimensões: ambiental, econômica e social.

Mas no mundo contemporâneo, das percepções mutantes, é preciso contar ao público nossas conquistas e progressos. E, olhando a pesquisa Farm Perspective Study, talvez esteja faltando uma maior energia em marketing do agronegócio, para contar essas e outras histórias para a cidade. Falta, por exemplo, desenvolver uma narrativa do campo sobre a sua sustentabilidade.

Quer ver um exemplo? A sustentabilidade depende cada vez mais da incorporação de tecnologia; vale dizer, de sistemas de produção apoiados em uso intensivo de tecnologia. Mais ciência e menos regras – ainda que essas sejam também necessárias e importantes, para induzir o progresso da consciência sustentável.

Essa é uma mensagem que precisa ser levada, por exemplo, aos candidatos a governo federal e estadual da próxima eleição, principalmente aqueles mais identificados com as causas do meio ambiente. Dizer, propor e levar estudos mostrando que a sustentabilidade do campo vai se resolver de fato, na tecnologia.

Essa é uma iniciativa só nossa, só das lideranças do agro, não tenha dúvidas. Pois o planeta cabe em uma urna eleitoral e dá voto, principalmente entre os eleitores mais jovens.

 

Por Coriolano Xavier, membro do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS); professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM

 

Sirvam nossas façanhas...

*Giovanni Luigi Schiavon

Ao redor de um cipreste em Pedras Brancas, Bento Gonçalves, coronel, prepara a lenha. Vai acender um fogo grande além do tempo que para o povo será símbolo e senha. Há 179 anos, aos 25 de setembro, expedindo carta ao Regente Imperial padre Diogo Antônio Feijó, Bento Gonçalves da Silva, gaúcho de Triunfo, maçom e Primeiro Presidente da República Rio-Grandense declarou respeitar o juramento que havia prestado ao Código Sagrado, ao Trono Constitucional e à conservação da integridade do Império. De lá pra cá o gaúcho e sua identidade revelaram-se perenes embora sovados pelo tempo e pela modernização natural do meio.

Algo mais pertinente que apenas analisar a dicotomia ‘separatismo x não separatismo’ se faz presente na conjuntura atual. Pois o estereótipo do gaúcho – tal qual seu homônimo argentino e castelhano – encontra-se além daquele primeiro, guerreiro dos campos, depois da Guerra do Paraguai, da Revolução Farroupilha e da Federalista: o Pampa, conceito de região pastoril de planícies com coxilhas, que ao mesmo tempo metaforiza-se, por nós mesmos, como forma abrangente e definidora, também simboliza, de fato, o próprio gaúcho que, da mesma forma, faz-se representação do Pampa.

Contraditoriamente ao que se é estereotipado Brasil adentro, ou seja, o gaúcho sendo um misto de homem do campo com herói, rude e valente ou ainda como define Euclides da Cunha em ‘Os Sertões’, uma ‘existência-quase-romanesca’, originalmente o gaúcho é o homem do interior rio-grandense, que trabalha a cavalo em estâncias de criação de gado, o mesmo tipo daquele que participou de guerras e revoluções, porém cultivador agora de seu espiritual mais sereno. Ainda, esse gaúcho, assim descrito, passa por uma fase de transição, uma fase de calmaria propensa à reflexão do seu eu interior vinculada à sua própria identidade. Uma autoanálise que o coloca adiante de seu próprio tempo de modo que aprenda e evolua com as lembranças de sua História, lembranças essas que vêm à tona sem ao menos provoca-las, incessante, algo até parecido com Madeleine de Proust ao que faz instigar a ‘mémoire involontaire’.

Não obstante, o sul rio-grandense é detentor de um regalo atávico: o paralelismo cultural e social que, não tão somente imposto pelo seu retrospecto histórico como também pela impressão da estereotipia singular por parte dos demais Estados, a coloca como uma nação marginalizada em face da hegemonia central do país em muitos aspectos da vida nacional, principalmente no âmbito cultural. De certo modo, é um prazer que, por consequência, se transforma na valorização e no apreço à sua terra, fazendo com que, antes de ser um cidadão do mundo, o gaúcho seja um cidadão regional, amante de seu chão e ateste, cada vez mais, o que foi concluído pelo escritor e compositor pelotense Vitor Ramil em sua fantástica e minuciosa obra ‘A Estética do Frio’ (apresentada em Genebra como parte da programação ‘Porto Alegre, um autre Brésil’): Não estamos à margem de um centro, mas no centro de uma outra história..

 

*Giovanni Luigi Schiavon
Acadêmico de Engenharia Civil – UEPG