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A história do Brasil e a fúria de Calibã

Acir da Cruz Camargo

O ensino da nossa História nunca andou bem no Brasil. Tudo indica que, repetiremos a façanha de meio século atrás, ele será o alvo da ofensiva reacionária. É a ciência da análise, crítica, pesquisa, dúvida e por isso, revolucionária. A imprensa séria e corajosa já informa sobre a perseguição institucional elaborada e orquestrada pelos aspirantes e embriagados agentes do antigo regime restaurado para os professores das ciências sociais, no âmbito da escola fundamental à universidade.

A questão posta é o que fizemos da educação brasileira, formal e informal, esses anos todos, qual foi o efetivo papel social e político da escola pública brasileira, dos seus docentes desde a redemocratização do país até o adoecimento da democracia?  O processo foi tão grave e desastroso que a equipe pedagógica das instituições públicas assimilaram o discurso político que era contra a educação pública, em termos de sua finalidade e da segurança do emprego dos seus agentes, promovendo pelo voto livre políticos vinculados a grupos internacionais que buscam no Brasil um negócio rentoso com a educação, mercadoria que rende mais que dinheiro, pois a população semianalfabeta busca o diploma a qualquer custo e não a formação qualificada e intelectual, rende a domesticação cultural alienadora. Dentro das escolas, em todos os níveis, estão pessoas, que se empenham arduamente, para a implosão do serviço público.

Enquanto as escolas e o ensino das Ciências Sociais se ocuparam de modismos teóricos e desmobilizadores, o reacionarismo foi minando por baixo, aproveitando-se do vazio cultural, consciências vulneráveis da população estudantil, professoral e trabalhadora. As masturbações teóricas em sala de aula, a utilização de conceitos travestidos e valorização do contexto cultural estrangeiro, a desnacionalização do pensamento filosófico e educacional brasileiro, facilitaram que os adolescentes e a juventude, desprezassem as informações que estão nos arquivos históricos, nos testemunhos vivos da recente história política do país. Faltou a educação de adultos, a atividade pública e transformadora dos sindicatos gabinetários.

Assim, de mansinho o povo brasileiro, bestializado, desprezou em nome do farisaísmo, todas as conquistas históricas que nos deram a beleza de um conceito gigante como cidadania. Hoje, a história da cidadania é menor e tende, por força ideológica, ser ainda mais restringida. A fase da Revolução Nacional Brasileira, conhecida como era Vargas já parece como um longo parêntese entre 1930-2016. A psicologia das massas da população retorna à mesma medida do estado mental dos povos alemães e italiano por entre 1918-1938. A denominada civilização ocidental e cristã criou, em terras brasileiras, o Novíssimo Testamento de Jesus Cristo, pervertendo o Sermão do Monte e o Quarto Evangelho que assinalam a prática do amor, da tolerância, do altruísmo, da dignidade dos excluídos socialmente, pela inspiração na violência, no discurso de morte, na negação do direito de existir do diferente. Escolhemos como eles, nossos inimigos, o negro, o pobre, o gay, a mulher e o nacionalista. E tudo parece normal. A concepção do novo Estado é, sujeite-se a esse ressurgimento do pensamento europeu do início do século 20 ou deixe o Brasil. Aquilo que não vingou aqui na década de 1930, rebenta agora. Surge um novo messias na pátria brasileira, mas encarnando o oposto dos ensinamentos do Primeiro, o cavaleiro branco do Apocalipse, imitação do que foi verdadeiro. É momento de crise.

 

O autor é historiador