Blog do Canabarro
SOFRIMENTO ALHEIO

Está chegando o Natal e aparentemente afloram os bons sentimentos nas pessoas. O coração fica mais mole, há um sentimento de alegria no ar e muitas campanhas para apoiar quem está passando por dificuldades nesta época. Afinal, são mais de 12 milhões de desempregados, então a felicidade e a alegria reinantes não se estendem para todos. O espírito altruísta das pessoas surge na época do Natal. Sempre que falo sobre altruísmo, muitas pessoas não sabem do que se trata. Em contrapartida, quando se fala sobre egoísmo, todos sabem do que se trata. Talvez porque vivemos em uma sociedade mais egoísta do que altruísta. Altruísmo significa, de forma simplificada, pensar no bem coletivo sempre, em detrimento do bem individual. Quando uma ação, ou empreitada, ou projeto for iniciado, pensar sempre se o benefício é para a coletividade e não para uma ou poucas pessoas. Deveríamos praticar isso em casa, nas escolas e no trabalho durante o ano todo, e fazer com que o altruísmo se torne mais conhecido e praticado que o egoísmo. E que as ações em prol dos mais fracos, mais pobres e em minoria, sejam a regra de convivência e não a exceção da regra.

PENSAR NO SOFRIMENTO DO OUTRO

Muitas vezes fazemos pessoas sofrerem com nossas ações e atitudes mesmo sem ter essa intenção, colocando em prática uma das frases mais egoístas que existem: “cada um com seus problemas”. Afinal, por que vou me preocupar com o problema dos outros se já tenho os meus? É preciso refletir sem julgamentos sobre a condição de cada um. Olhar ao redor, perceber os sofrimentos das pessoas que nos cercam e tentar entender a realidade de cada um pode ser um passo importante para construir um planeta onde, independente de condição social, cor da pele, gênero ou deficiência, cada indivíduo seja tão importante como se representasse toda a humanidade. Porque perder uma vida, deixar uma única pessoa para trás, alimentar a tristeza de um só cidadão, deveria ser motivo de sofrimento de todos. Na realidade, parece que quanto mais pessoas vivem no mundo, menos pessoas se conhecem, e passamos a viver como boi no pasto, onde não existe a noção de coletividade, onde um cai morto e os outros continuam suas vidas como se nada tivesse acontecido.

NOVA PROMESSA DE ANO NOVO

Poderíamos incluir uma promessa nova no Ano Novo, coletiva, para que o mundo possa melhorar. E essa promessa seria sempre, em qualquer condição, medir meus atos e minhas palavras antes de executá-los, para ver se não estão causando sofrimento para alguém. Se o que eu faço ou o que você faz for causar sofrimento em uma única pessoa, para que alguém possa se divertir ou se entreter, não vale a pena ser feito. Quem sabe assim, com pensamento coletivo mas com ação individual, possamos mudar o mundo. Não solte fogos, se você tem vizinhos autistas. Não estacione em vagas para pessoas com deficiência. Não diga frases racistas ou homofóbicas. Não maltrate crianças e idosos. Se você tem recursos, ajude a quem precisa, mas sem fazer com que a sua ajuda se torne uma humilhação. Não diga coisas ofensivas como: Você deveria estar numa escola especial. Esse aleijado está tirando minha vaga de emprego. Mudaram a lei e agora a escola tem que dar jeito em tutores! Lugar de mulher é na cozinha! Isso tudo só gera dor e sofrimento. Vamos nos reinventar e construir uma sociedade mais justa, onde cada um seja uma pessoa e não um problema. Onde todos podem ser salvos e não descartados para economizar uns trocados. No fim de tudo, vão-se os bens e ficam os nossos atos. Parece sonho, mas que época melhor do que a que se comemora o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo para falar sobre isso?

Obrigado a todos os que me acompanharam até aqui. Volto com colunas inéditas em Fevereiro.

FELIZ NATAL E PRÓSPERO 2020, com coragem para fazer a igualdade.

VIVER DO TRABALHO DE SUAS MÃOS

O título da coluna é um versículo bíblico de um texto que fala que o homem ou a mulher justos viverão do trabalho de suas mãos. O trabalho, portanto, é uma bênção e hoje temos no Brasil mais de 12 milhões de pessoas que estão na busca por essa bênção. Por outro lado é muito comum encontrarmos pessoas empregadas que parece que não vivem do seu trabalho, tal é a forma descuidada, desatenciosa e até relapsa com que conduzem suas atividades diárias. Funcionários que atendem mal aos clientes enfraquecem a empresa e fragilizam sua própria condição de emprego. Algumas pessoas procuram por emprego desesperadamente e quando conseguem, parecem não dar o devido valor. Não se esmeram, não fazem o seu melhor e não buscam soluções para o cliente, pelo contrário, colocam sempre dificuldades e contrariedades. É muito ruim quando vamos conversar com uma pessoa sobre um produto ou projeto e o argumento de quem deveria resolver é sempre de oposição. Minha esposa fala sempre que “se a pessoa não vai realizar o meu sonho, e vai fazer só o que ela acha que pode, é melhor procurar outro fornecedor.”

E QUANDO O EMPRESÁRIO É ASSIM?  

A posição não favorável de um funcionário pode ser entendida a partir de uma análise sociológica e antropológica da relação homem-trabalho, mas quando o empresário, o dono da empresa, o dono do olhar que engorda o boi, tem essa postura no trato com o cliente, como podemos explicar? Não se explica, porque se aquele que deve ditar a maneira como a equipe deve trabalhar se comporta assim, aumentam consideravelmente as chances do cliente ter uma experiência ruim e, mais dia menos dia, todos seus clientes desaparecerão. Muitas vezes o cliente tem desejos mas não está certo, e muitas vezes ele tem desejo e ESTÁ certo.  O fornecedor do produto ou serviço, que precisa de clientes, tem a missão de encontrar a forma e a linguagem de mostrar a esse potencial cliente a melhor solução, mas do ponto de vista do cliente, e não da sua zona de conforto, onde procura faturar com o menor esforço possível.

EFEITOS IRREVERSÍVEIS

Estive recentemente em uma empresa para fazer um reparo no meu carro. Fui por indicação, que seria a mais qualificada para o que eu precisava. O serviço muito bom mas o atendimento sofrível. De início, por telefone, me passaram as informações todas incompletas. Não levei comigo tudo o que precisava e, para piorar, a pessoa me tratou como se estivesse me fazendo um favor. NÃO É FAVOR. Nunca é favor. É uma relação comercial e envolve dinheiro em troca de produtos ou  serviços. E existem muitas opções no mercado. A má experiência afasta o cliente de forma irreversível. Mesmo que o serviço seja bem feito, não é suficiente. Para fidelizar o cliente é preciso satisfazer suas necessidades, fazendo um levantamento detalhado de suas dores, e também é preciso satisfazer ou superar suas expectativas, que o que ele espera da relação comercial estabelecida. Isso é mais profundo e mais difícil de definir e suprir, mas é aí que se encontra a diferença, que faz o cliente manter ou trocar um fornecedor. Superar expectativas no atendimento, na qualidade, no pacote de serviços e etc, é o que proporcionará uma experiência positiva e inesquecível para o cliente, e ele perceberá valor na relação com a empresa, pensando duas vezes para mudar de fornecedor. No meu caso, já sei onde não levar meu carro nunca mais e onde não indicar para meus amigos.

NEM-NEM-NEM

 

Inicialmente chamados de nem-nem, para definir jovens que nem trabalham e nem estudam, atualmente chamados de nem-nem-nem, ou seja, nem estudam, nem trabalham e nem procuram por trabalho, são jovens na faixa de idade de 15 a 29 anos que se encontram sem rumo e sem ocupação. O Brasil com 23%, é o quarto pais do mundo em porcentagem da população jovem desempregada, estando à frente somente da África do Sul (53,7%), Espanha (33,6%) e Nigéria (33,1%). A desocupação da população jovem é um fenômeno bastante democrático, mais acentuado em alguns países e menos em outros, mas presente em todos, como por exemplo, Canadá e Reino Unido, cada um com 11%, e Estados Unidos com 8,5%, afeta uma camada da população que deveria estar construindo toda a base de sua vida adulta. Um adolescente de 15 a 18 anos está finalizando a Educação Básica e deveria estar decidindo entre uma profissão por meio de cursos técnicos, ou do Ensino Superior, por meio do acesso a uma faculdade. E um adulto jovem de 25 a 29 anos (faixa de idade superior dos NNN) deveria estar na arrancada para a carreira, para a vida independente e para a sua própria família.

NADA DISSO

O fato é que nada disso está acontecendo e 11 milhões de jovens brasileiros estão parados no tempo, enquanto a vida passa pela janela. Como professor já vi mudanças impressionantes de comportamento de alunos totalmente descompromissados, que se tornaram adultos engajados e profissionais brilhantes. Ou seja, tudo é possível, mas a diferença é que esses ex-alunos estavam na escola, e qualquer escola – boa ou ruim – é melhor que nenhuma escola. Tenho casos na minha família de jovens que estão à deriva na vida, que vivem cada dia como se não houvesse amanhã, mas não no sentido de aproveitar a vida, mas sim no sentido de falta de visão de futuro, de perspectiva e de vontade de mudar a realidade. Eu os conheci quando crianças e não eram assim, foram mudando com o tempo. E em que momento ou que soma de fatores levou a essa acomodação mórbida que torna tudo impossível de ser feito?

FATORES            

No Brasil a juventude NNN é constituída em mais de 70% pelo sexo feminino, e um dos fatores dessa parcela é a gravidez na adolescência que cria uma nova realidade na vida da menina-mãe. Mas fatores psicossociais afetam diretamente na visão de futuro desses jovens. A baixa da qualidade da escola, o papel irrelevante atribuído à educação nos dias de hoje, a falta de trabalho para o primeiro emprego, as demandas cada vez maiores por consumo de tecnologia, as relações superficiais de redes sociais são fatores dominantes nessa situação. Além disso perguntas como: “qual meu propósito de vida?” “Por que estudar?”, “Trabalhar como os meus pais?” povoam a mente dessa juventude, onde muitos cresceram longe de pai e mãe, que estavam sobrecarregados trabalhando e se viram obrigados a terceirizar a criação/educação dos filhos. O fato é que teremos ainda consequências nefastas como subproduto desse comportamento, porque o adolescente e o adulto jovem são os responsáveis pela atualização do pensamento, a modernização do comportamento e pela geração de conhecimento e riquezas que irão manter o mundo, a economia e a cultura circulando e se desenvolvendo. Mas eles abriram mão de carregar esse fardo, e todos temos que nos preparar para o que isso vai ter como efeito no futuro.

ENTRAR NA FACULDADE

Um dia desses eu passei diante de uma escola no horário em que os estudantes estavam saindo das provas para acesso ao Ensino Superior. Lembro perfeitamente da minha caminhada desde a decisão de cursar algum curso superior até o dia em que entrei na universidade. Cursar uma faculdade era algo muito remoto para mim e para outros jovens da minha comunidade e da minha escola. Eu já trabalhava desde os 11 anos de idade e descobri logo que os melhores trabalhos e maiores salários pertenciam àqueles que tinham alguma profissão. E descobri que para ter uma profissão precisava fazer faculdade. Os assistentes, auxiliares, ajudantes e outros cargos de apoiadores eram/são trabalhos exigentes e mal remunerados. Naquele tempo o assunto sobre vestibular ou Ensino Superior não fazia parte da rotina da escola pública (espero que tenha mudado) e a primeira grande dificuldade que enfrentei foi entender o processo, que pode parecer óbvio, mas para quem tem 16 anos e está descobrindo sozinho não é. Inscrição, pagamento de taxa, conteúdos das provas, onde estudar e outras coisas inerentes à missão. Conversei com poucas pessoas sobre a ideia e recebi diferentes formas de incentivo.

CONSELHOS

Minha mãe falou que eu conseguiria fazer qualquer coisa na vida (mãe é mãe!). Uma grande amiga já falecida disse que era só estudar muito. Um professor de Geografia me disse que era loucura, que vestibular era só para os ricos que podiam pagar cursinho (e não existia cota para escola pública) e por fim, quando pedi orientação ao Professor Ulisses, de Português, ele abriu a sua pasta, tirou de lá 5 livros e me disse. “ – É difícil, mas você consegue. Vá lá, estude para caramba, leia estes livros que eles vão te dar umas 5 ou 6 questões de graça. Eu consegui, você consegue.” O ato de me entregar aqueles cinco livros criou em mim uma motivação tão grande que daquele momento em diante passei a ter certeza de duas coisas: 1) que iria fazer o vestibular e 2) que eu passaria. Todo momento livre que tinha no trabalho, em casa ou na escola eu estava estudando e lendo aqueles benditos livros. Criou em mim um compromisso com meu professor que, por inciativa própria, me cedeu aqueles livros, que sem dúvida foram decisivos para minha atitude vencedora. Entrei na Universidade e pude abrir caminho para uma nova história na minha vida e de minha família.

INCENTIVOS

Entrar na faculdade talvez seja o maior desafio que um profissional enfrente, porque a oferta e a procura por vagas no Ensino Superior são muito diferentes. O certo é que não tem lugar para todos e o processo seletivo é para ver quais são os eliminados, visto que há imensamente mais candidatos que vagas. Mas nada é impossível e incentivar os jovens para que estes explorem suas capacidades ao máximo, para que desenvolvam resistência emocional e resiliência para encarar os desafios, suportar as derrotas e saborear as vitórias. Um jovem com propósito de vida é a promessa de um mundo melhor, de novas formas de viver, de ver a vida, de ser sociedade. Professores, pais e amigos de modo geral devem falar sobre o tema, explicar o processo e os procedimentos, e incentivar sempre, pois não existe nenhum lugar no mundo que seja proibido para esta ou aquela pessoa, pobre ou rico, bonito ou feio, homem ou mulher. Pois como disse o Prof. Ulisses, se eu consegui, você consegue.

GILMAR MENDES E A SEGUNDA INSTÂNCIA

 

O ministro mudou de idéia e a regra que havia mudado, voltou a ser o que era antes, ou seja, o réu é considerado definitivamente culpado somente quando não existir mais nenhum recurso para a ação, que é o tal trânsito em julgado. Nada disso era de conhecimento do grande público até a grande revolução chamada Lava Jato ter eclodido e tornado público algo que já deveria ser público há muito tempo. O que são primeira e segunda instâncias, Superior Tribunal, Ministério Público Federal e, principalmente e com ajuda de Joaquim Barbosa, o Supremo Tribunal Federal. Hoje em dia a população sabe até a “escalação” do STF, com seu número de 11 “jogadores” que decidem praticamente tudo por e para mais de 200 milhões de brasileiros, e que ganharam fama e notoriedade além do que parecem merecer ou precisar. Cada vez que assisto a algum tipo de julgamento que os ministros do STF realizam, tenho a sensação que eles inventaram um dialeto próprio, como fizeram os brancos do Apartheid que falavam o africâner, pois não se fazem entender pela maioria da população. Sempre falo nas aulas da universidade que podemos usar o conhecimento para estabelecer canais de comunicação ou para criar barreiras para ela. E usaremos conforme nossa vontade de que mais pessoas compreendam ou não a sua mensagem.

VERBORRAGIA

Quando ouço os ministros falando vejo que usam o conhecimento da lei e o domínio do vernáculo para afastar as pessoas, para criar barreiras de comunicação e para demonstrar superioridade. Assim ficam inalcançáveis, pois quem tem condições de debater com eles? Até mesmo com aqueles que estão próximos de sua estatura de conhecimento de legislação eles estabelecem a relação do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, como ocorreu com o corretivo aplicado à advogada que fazia ali o seu trabalho e chamou os ministros de VOCÊS, como se fossem gente como a gente. Levou uma babada em público, sem dó nem empatia, como se o pronome de tratamento certo fosse a chave para o desempenho competente do seu papel de advogada. Parece-me que criamos mais uma casta superior numa sociedade supostamente sem castas e demos a eles todo o poder, sem correição que possa os alcançar. Assim decidem de um jeito hoje e amanhã mudam, conforme mudam suas convicções e/ou conveniências.

SIMPLIFICAÇÃO

Gilmar Mendes tornou-se a personificação dessa mudança da lei por sua postura autocrática e por ter sido ele o fiel da balança que oscilou de um lado para o outro, mudando o resultado dos julgamentos. Por que mudou de lado? Ele e sua consciência carregarão esse fardo. Mas o STF poderia aproveitar essa fama retumbante e aproximar a lei, a justiça e a interpretação destas para a grande plebe. E isso só seria possível pela simplificação, ou seja, trazendo mais próximo da linguagem do brasileiro comum. É possível? Vou citar três exemplos que trabalhavam em campos bem mais complexos e que realizaram um esforço enorme para popularizar sua área de conhecimento: Carl Sagan popularizou a Astronomia, Einstein a relatividade e Jesus Cristo a palavra de Deus. Popularizar é levar aquilo que era dominado e controlado por poucos para a grande massa, para o maior número de pessoas, com o maior alcance possível. E isso só é possível lançando mão do extremo da sofisticação: a SIMPLICIDADE.

LUTAR É PRECISO

Existem mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam. Faz uns 10 anos realizei um projeto numa cidade vizinha onde tive um contato estreito por um ano com um grupo de aproximadamente 30 pessoas, todas em situação extremamente difícil de pobreza e de todo tipo de carência. Histórias dolorosas que tornaram todos prostrados e desanimados. Apesar de tudo nenhum deles era fracassado, mas sim desistentes. E esse era o ponto comum na história de todos. Os membros do projeto se encontravam naquela condição porque, em algum momento de sua vida, começaram a desistir dos desafios ao invés de enfrentá-los. E a desistência é uma sentença, ou seja, é o fim de toda e qualquer possibilidade de sucesso. Quando uma pessoa desiste de lutar ela abre mão de qualquer ganho que o enfrentamento de um desafio pode trazer. Quando encaramos uma empreitada e levamos até o fim, nem sempre a vitória será alcançada, mas haverá muitos ganhos no percurso. Ninguém sai de um grande desafio do mesmo jeito que entrou. Todos passam por transformações e desenvolvimento pessoal.

RESILIÊNCIA

A derrota em si não faz de ninguém um perdedor e pode ser usada como combustível para o próximo passo, mas a desistência faz de qualquer pessoa um derrotado. Quando sofremos um revés podemos perder aquilo que almejávamos, mas podemos ganhar muito em aprendizado. Aprender com os erros, se fortalecer com as derrotas, se levantar e começar a batalha novamente, mas tomando mais cuidado para não cair nas mesmas armadilhas e para potencializar o uso de que aprendemos nos permite iniciar um novo projeto sem sair do zero, mas sim dar a largada com alguns pontos positivos conquistados com aquele fracasso, mas que levamos até o final. Porém quando desistimos da batalha, baixamos a guarda e nos damos por vencidos, não temos nem o bônus do conhecimento e do desenvolvimento pessoal. É preciso desenvolver resiliência, ou seja, é preciso ficar como o “couro grosso” como dizia minha mãe, para suportar os desafios da vida, cair e se levantar, para prosseguir adiante. Diferente de persistência, a resiliência é uma capacidade que se desenvolve para enfrentar estresses e sofrimentos e conseguir voltar e refazer o caminho, dando um novo traçado e definindo um destino melhor, apesar das derrotas.

UM GRANDE MAL

A desistência, por sua vez, causa estragos maiores do que se possa imaginar, porque pelo resta da vida aquele que desiste de um desafio ficará se perguntando; “e se...?” Além dessa dúvida, a decisão de desistir afeta a autoconfiança e a auto-estima da pessoa que desiste, fazendo com que num próximo desafio o início seja no negativo, potencializando ainda mais a possibilidade de abandonar novamente. Voltando ao projeto que citei no início da coluna, todas as pessoas ali estavam acostumadas a desistir de tudo na primeira dificuldade, porque uma derrota após a outra, fazia com que ao menor sinal de dificuldade, o cérebro enviava um sinal de alerta e o histórico de desistência vinha à memória, e tomados pelo medo do fracasso, caíam fora. Enfrentar o medo e lutar contra si mesmo é tão importante quanto respirar, descansar e dormir, pois por medo podemos deixar passar a oportunidade da nossa vida, o emprego dos nossos sonhos, o amor para sempre, a mudança de realidade. Quem vence um adversário é um vencedor, mas quem vence a si mesmo é invencíve.

SER VOCÊ MESMO

 

Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo. Na universidade em que trabalho o processo seletivo é somente o ENEM. Por essa razão ela tornou-se uma instituição de ensino nacional, deixando a característica regional, comum às universidades que aplicam vestibular. Temos jovens originários de 23 estados da federação. Isso trouxe uma característica bastante interessante ao perfil do estudante que vem para cá, são mais arrojados e empreendedores, e ao mesmo tempo sofrem um pouco mais por estarem longe da família e dando conta da rotina da casa num tempo em que isso não seria comum. A nossa universidade tornou-se ponto de  convergência de jovens de toda natureza, formação, classe social e personalidade, mas uma coisa não mudou: carregam consigo os mesmos valores e limites que tinham quando estudavam em suas cidades de origem. Durante minhas aulas abordo com bastante frequência  e intensidade a questão dos modelos mentais e os comportamentos nocivos à carreira de cada um. De como nossas crenças e a forma como fomos criados, o tipo de escola que frequentamos e até mesmo o perfil do círculo de amigos que convivemos moldam nosso caráter e ajudam na definição de quem sou eu.

COMBATE AOS COMPORTAMENTOS TÓXICOS

Alguns comportamentos tóxicos funcionam como auto-sabotagem, ou seja, a pessoa toma decisões e atitudes que vão contra ela própria. O excesso de timidez, o medo de falar em público, a dificuldade de transformar o pensamento em palavras, de organizar o tempo, a pouca interação com outras pessoas, o hábito de ficar calado durante as aulas e reuniões por medo de se expor, tudo isso é normal. Todos têm fraquezas e dificuldades. O que não é normal e altamente tóxico para o desenvolvimento pessoal é o não enfrentamento dessas dificuldades. É aceitar como fato consumado e se dar por vencido. É preciso tomar consciência das dificuldades, mas principalmente é preciso tomar consciência da necessidade de mudar de comportamento, de lutar contra as fraquezas e romper as amarras que não permitem a exploração do seu maior potencial. Quantas oportunidades as pessoas perdem na vida por não encontrarem forças para vencer uma barreira mental? Quantos lugares, pessoas, entidades e empresas deixamos de conhecer por medo de interagir?

A SUA MELHOR VERSÃO

Li uma frase dias atrás que falava que quem vence um concorrente é vencedor, mas quem vence a si mesmo é invencível. Sempre realizo com meus alunos um exercício mental, que creio que vale para você que lê agora. Peço para que voltem ao primeiro dia de aula na universidade, como calouros. Pergunto a eles quantas pessoas conheciam ali naquela sala e quantos o conheciam também. Invariavelmente a resposta é: NINGUÉM. Então pergunto: o que te impediu então de ser uma nova pessoa, totalmente diferente do que você era antes de vir para a faculdade? Afinal estava chegando num lugar onde ninguém o conhecia, onde ninguém sabia como você era. O que impede uma pessoa tímida de deixar de ser tímida? Ou de parar de ter medo de falar em público? Afinal onde ninguém te conhece, não há uma imagem formada do seu perfil e você poderia ser quem você quisesse. Mude o cenário para uma empresa onde você está começando a trabalhar. A situação é a mesma.  Mas não conseguimos ser diferentes porque ainda não aprendemos a combater a nós mesmos, os nossos limites e mentais e modelos de comportamento. Ou aprendemos a nos reinventar, a ser uma nova pessoa em cada oportunidade, mas sem perder a identidade ou levaremos para todos os lugares exatamente quem sempre fomos, com as fraquezas e dificuldades que sempre tivemos e sofreremos o que sempre sofremos.

 

LUGAR DE CRIANÇA É...

Tenho quase certeza que você completou a frase acima com “...é na escola!”. Porque lugar de criança é na escola mesmo, aprendendo, se desenvolvendo e crescendo como pessoa. A família pode ensinar muita coisa, mas em família uma criança é uma criança, na escola torna-se um cidadão. Cada pessoa entra na escola e, após sua jornada estudantil, torna-se um adulto com conhecimento e possibilidades. É impossível dissociar a infância da escola, o que implica em dizer que é impossível separar a imagem de uma criança da imagem de um professor. São os professores que promovem as grandes revoluções mentais em cada um de nós. É o único profissional que nos acompanha em praticamente toda nossa vida produtiva. Transformam-nos, nos ensinam, nos moldam e nos inspiram. Olhando para trás na minha trajetória estudantil (que ainda não terminou) eu vejo o quanto fui influenciado e inspirado por meus professores. Lembro com carinho da Dona Áurea, minha primeira professora, que me ensinou a ler e escrever. Um dia a encontrei quando eu fazia uma palestra no CEFET para os pais de novos alunos. Ela chorava e seus olhos brilhavam quando veio conversar comigo, feliz por me ver ali, palestrando. Quando fiquei diante dela me ocorreram dois grandes insights.

PASSADO E FUTURO

O primeiro foi ao me posicionar em frente à Dona Áurea. Senti como se fosse novamente uma criança, principalmente quando ela chegou perto de mim e me chamou de Nelsinho, que era a forma carinhosa com que me tratava na escola. Foi muito reconfortante me transportar àqueles dias na infância onde havia poucas preocupações na vida, e sentir novamente aquele olhar protetor pousando sobre mim. Ou seja, e professor é para sempre. Dona Áurea me abriu os olhos e os ouvidos da mente e expôs todos os meus potenciais. O segundo fenômeno foi o entendimento de qual é a grande realização de um professor. Seus olhos brilhando por me ver palestrando me fizeram ver o quanto ela estava feliz e realizada por saber que a sua ação, lá na minha infância, foi uma das etapas que me levaram até aquele momento. E de fato ela e outros professores, todos grandiosos dentro de suas capacidades e personalidades, ajudaram a formar em mim muito do cidadão, do profissional e do homem que sou.

ETERNO PROFESSOR

Cada mestre nos deixa uma marca que nunca se apaga e todos vão estar sempre em nossa memória. As experiências que vivi pelas escolas por onde estudei sempre são testemunhadas pela figura de um professor. Hoje em dia depois de tantos anos de sala de aula já tenho a grata satisfação de encontrar ex-alunos exercendo suas profissões e vejo nos olhos deles aquele sentimento que eu tenho diante dos meus ex-professores. Por isso hoje, 15 de outubro, dia destinado a homenagear o professor, vá até suas redes sociais e faça uma lista daqueles professores que realmente transformaram sua vida. Agradeça e enalteça o trabalho de cada um deles. Em um país onde a classe do magistério tem sido bastante maltratada, onde escolas vão sendo sucateadas, talvez a sua homenagem singela e sincera possa alimentar a chama transformadora que existe no coração de cada professor. Quanto a mim, vou fazer a minha lista e agradecer aos meus formadores e inspiradores. Se lugar de criança é na escola, a alma de uma escola é formada por seus professores. Uma escola viva depende de uma quadro de docentes criativos, vibrantes e motivados.

SOFT SKILLS

Numa tradução ao pé da letra, o título acima significa habilidades suaves ou leves, e referem-se às habilidades que uma pessoa precisa ter para estabelecer relações interpessoais de qualidade, para criar uma grande e robusta network e para, simplesmente, conseguir conviver em sociedade. Esses tipos de habilidades têm sido colocados pelos visionários do mercado como as mais importantes para os líderes do século XXI, porque são habilidade que permitem a alguém construir equipes de alto desempenho. Numa sociedade que está passando pela quarta revolução industrial, a tão falada e propalada INDÚSTRIA 4.0, aonde a tecnologia vai gradualmente substituindo a mão de obra humana, falar de habilidades de relacionamento interpessoal parece algo contraditório. Afinal a busca pela automatização, o desenvolvimento de máquinas que aprendem com erros, que corrigem suas próprias falhas, do uso da internet para tudo, parecem levar fatalmente à subutilização do ser humano no mundo do trabalho. Participei a alguns anos atrás de uma apresentação feita por uma indústria de papel da região, onde ela mostrava uma máquina que havia comprado na América do Norte, que substituiria a mão de obra de 100 operários na floresta. Na ocasião questionei o que seria feito desse pessoal e obtive como resposta um significativo silêncio de uns 30s aproximadamente.

QUEM RESTARÁ NO MERCADO?

Eu não sabia, mas estava presenciando os primeiros passos disso que estamos todos assistindo atualmente da desumanização e da robotização do trabalho. Observem agências bancárias (talvez o exemplo mais forte) e a atividade industrial, como gradativamente vão reduzindo a participação de pessoas na sua linha de operações. Considerando essa realidade, por que então se torna imprescindível a contratação de pessoal com grandes habilidades relacionais? Existem muitos fatores que apontam para essa necessidade. De forma bastante objetiva vou abordar alguns deles, que entendo como fundamentais. O primeiro fator está relacionado à questão do aumento da demanda por bens de consumo em todo o planeta. A produção agrícola e a industrial precisam desenvolver novas maneiras de suprir a demanda. O segundo fator está na composição das famílias modernas, que já faz algum tempo vem reduzindo cada vez mais o número de filhos, sendo muito comum famílias com filho único ou sem filhos. A ausência de irmãos e, consequentemente, de primos, diminui a necessidade da convivência e das disputas que esta impõe, afetando o desenvolvimento de habilidades comportamentais na fase da infância.

PARADOXO

O terceiro fator, talvez o mais decisivo de todos, é a portabilidade da tecnologia que abriu um universo de possibilidades de entretenimento, diversão, aprendizagem e tudo o mais na palma da mão, o que acaba por restringir cada vez mais as relações reais e presenciais. As conexões atualmente são feitas de maneira virtual, o que impede o desenvolvimento das habilidades relacionais construídas no dia a dia, nas interações sociais presenciais. Paradoxalmente a tecnologia que nos apresenta a um universo de possibilidades é a mesma que restringe de forma considerável o nosso universo pessoal de relacionamentos. Somados esses elementos, muitos jovens com pouca empatia, baixa capacidade de comunicação, pouca inteligência emocional, sem resistências ás frustrações e sem saber dar vazão aos seus sentimentos, têm entrado no mercado, e precisam de lideranças firmes e empoderadas que consigam tirar de cada um deles o melhor humano que podem ser.

 

REFORÇO POSITIVO

Nelson Canabarro

Sempre falo nas minhas aulas na universidade algumas frases que são bastante usadas no mundo corporativo. Frases do tipo: - Manda quem pode, obedece quem tem juízo. - Quer bem feito, faça você mesmo. - Você é pago para fazer, não é pago para pensar. - Elogiar estraga.

Notem que todas elas servem de reforço negativo, ou seja, mostram o lado ruim das relações e do ambiente de trabalho. São frases usadas em contextos de conflito, de enfrentamento e de desacordo. Considero todas muito danosas para o dia a dia de qualquer corporação mas a última, principalmente, mostra o quanto alguns gestores estão equivocados no exercício da liderança. O elogio é uma ferramenta poderosa para promover o engajamento da equipe e de qualquer pessoa, na família, na escola, na faculdade, na ONG. O elogio bem colocado serve como combustível para que uma pessoa passe a fazer o seu melhor, para que mude de comportamento e deixe de ser um causador de problemas para ser um solucionador de problemas. O elogio será sempre construtivo quando aplicado de forma pública, nas situações onde o indivíduo fez algo que estava além de suas responsabilidades, ou seja, fez mais do que se esperava dele. Não elogiar quem está se superando, quem está se doando, pode funcionar como desestimulante, fazendo com  que a pessoa se sinta desvalorizada e desprestigiada e se faça a seguinte pergunta: “de que vale tanta dedicação se ninguém dá valor?”

LADO NEGATIVO

De maneira geral nós somos rápidos em destacar as coisas negativas que acontecem e raramente reconhecemos as positivas. A rotina diária é repleta de exemplos, sempre gastando energia com quem não está fazendo sua parte, e ignorando quem faz mais do que precisa. As coordenações pedagógicas das escolas, por exemplo, gastam um tempo enorme para tratar os casos de alunos que tiram notas ruins ou “aprontam” nas aulas. Conversam com o estudante, fazem reuniões com os pais e, em alguns casos, até elaboram estratégias de ensino diferente para eles. Enquanto isso o estudante que cumpre todas as suas obrigações e, além disso, tiram notas altas (que não é obrigação), seguem sendo solenemente ignorados. Por que não chamar seus pais e dar a esses jovens um reforço positivo, que sirva de estímulo para que continuem se destacando e fazendo mais do que precisa ser feito? Simplesmente porque faz parte de nossa cultura olhar somente aquilo que dá errado, como se dar certo fosse a obrigação, não sendo digna de ser destacada.

AUTOCONFIANÇA

De forma direta, um elogio colocado de forma cirúrgica, ou seja, na hora e na medida certas, em público e reconhecendo o trabalho feito além do esperado, aumenta a autoconfiança e a auto-estima de qualquer pessoa. Perceber que um trabalho bem feito foi reconhecido tem mais impacto na motivação do que um aumento de salário ou de mesada, estimula o indivíduo a continuar procurando formas de fazer mais e mais. Além disso, outras pessoas da equipe seriam “contaminadas” pelo bom exemplo, até chegar o momento onde a cultura do local seja a de fazer mais e melhor. Pessoas motivadas, autoconfiantes e com auto-estima elevada suportam melhor os reveses que lhes são impostos, deixando-as mais resistentes e resilientes. Se gastássemos com quem desempenha bem seu papel, a mesma energia e tempo que gastamos com quem desempenha mal, com certeza criaríamos uma nova realidade, dentro de um ambiente saudável, livre dos medos, do estresse desnecessário, da pressão por resultados e dos conflitos da convivência.