Blog do Canabarro
PAI-19

Sou pai de três filhos. Nelson Luiz, hoje com 30 anos, Benjamin com 5 anos e Rebeca com 3 anos. Quando fui pai pela primeira vez eu era muito jovem. Não tinha maturidade, não tinha profissão e a sinceramente não tinha nem mesmo um futuro. Digo para meu filho mais velho que ele deu azar porque eu era um tanto “idiota" e muito preocupado com ganhar a vida e as dificuldades dessa empreitada  para conseguir ser um bom pai. A culpa disso não era só da minha imaturidade. Fui criado sem pai. Quando eu tinha 3 anos de idade meu pai abandonou a família. Morávamos no Rio Grande do Sul. Ele trabalhava no Mato Grosso. Ia nos visitar de vez em quando. Um belo dia nos trouxe para Ponta Grossa, alugou uma casa e comprou muita comida. Foi trabalhar e nunca mais voltou,. deixando para trás a mãe com 8 filhos e uma história. Então não tive nenhuma referência paterna e isso fez muita falta na minha relação com o Nelson Luiz. Explica, mas não justifica. Porque eu poderia ter sido melhor e feito meu melhor. Não o fiz e não há como resolver o passado.

UMA SEGUNDA OPORTUNIDADE

Quando olho meus filhos pequenos sinto que Deus me ama. Que me deu uma nova oportunidade de ser melhor. De romper os grilhões da corrente, porque meu filho mais velho também se criou sem referência de pai. Devo ter passado para ele o não aprendizado que tive. Quando Benjamin veio eu estava num momento da vida muito diferente. Já não precisava correr atrás de muitas coisas. E quando olhei para ele na maternidade, com toda a fragilidade e os estigmas da Síndrome de Down senti realmente o amor de Deus na minha vida. Percebi o tamanho da missão que eu e Danielle recebemos. Naquele momento senti que a corrente se rompeu. Que eu ganhei um coração novo e me tornei um homem novo. E depois veio a Rebeca, a irmã que o Benjamin precisava, serelepe, ágil, traquina, feliz, falante e cheia de ideias. Sempre me pergunto como pude ser merecedor de três filhos tão bons. Onde Deus estava com a cabeça ao me confiar essas três vidas. Já sou meio velhinho na idade mas tenho tentado  ser o mais jovem que eu consigo, para acompanhar meus filhos.

NÃO É FÁCIL

Ser pai não é uma tarefa fácil. Ainda há muita cobrança do pai Durão, do disciplinador e do provedor. Ao mesmo tempo em que a sociedade moderna pese exatamente o contrário. Criar sendo libertador. Conduzir sem reprimir. Aprender a educar enquanto educa. Criar um filho no mundo de hoje é como construir um avião em pleno voo. Não existem receitas nem caminhos infalíveis, mas tem uma coisa que não falha nunca: o amor. Amar os filhos e declarar seu amor por eles, sem economizar palavras e nem perder oportunidades de abraçá-los e abençoá-los,  pode ser a maneira  mais simples e sofisticada de ser pai. De influenciar positivamente. De plantar uma boa semente. E boas sementes dão bons frutos. O amor justifica os sacrifícios que temos que fazer, como as ausências em função do trabalho, as noites mal dormidas e até as mudanças de hábitos. Sempre senti falta de dizer ao meu pai que o amava. Então hoje em dia não passo vontade de dizer aos meus filhos que os amo.  Não importa que tipo de pai você foi até hoje porque o passado não se muda, se aceita.  Mas importa sim que tipo de pai você vai decidir ser a partir de hoje.

SAIR DE CASA PARA MATAR UMA ONÇA...

 

Sempre tive em mente que no mundo tem gente para tudo. Brinco em sala de aula que tudo o que você imagina de mais esquisito que possa existir ou ser feito, sempre vai ter alguém fazendo em algum lugar do planeta. Então é de se esperar todo e qualquer comportamento da humanidade, do extremamente bizarro ao extremamente convencional, o que obviamente não elimina o estranhamento dos demais. Mas algumas coisas são pontos fora da curva, são tão esquisitas que fica difícil de entender. E temos sido brindados recentemente com uma grande miríade de acontecimentos que mostram o quanto estamos piorando com o tempo. Vendo a reportagem sobre um grupo de caçadores na região amazônica composto por médicos, dentistas, servidores públicos e outros profissionais supostamente “esclarecidos e bem formados” me deixou chocado. Os cidadãos reuniam os amigos, saiam de seus trabalhos e entravam na floresta com matilhas de cães para caçar os animais. E a única justificativa usada foi a do líder do grupo dizendo “como eu não fumo e não bebo, eu faço isso...”.

ESTAMOS NO LIMITE

Parecia normal colocar a caçada no mesmo patamar do cigarro e da bebida, como se cada pessoa precisasse ter um vício qualquer para poder viver bem. Extrapolando a notícia, que por si só já é esquisita, pois os indivíduos saíam de casa deixando família e trabalho para matar animais, esse comportamento é um sintoma muito forte do momento pelo qual passamos, onde a vida não tem mais o mesmo valor. Matar por matar não é algo que acontece somente no meio da floresta, mas tem acontecido nas ruas da cidade, dentro das casas, no ambiente de trabalho. A falta de significado para a própria existência faz com que a existência do outro se torne um insulto. Não gosta da pessoa, então a elimina. Não consegue ter os bens que o outro tem, então toma de assalto e se vacilar, mata por matar, e ainda exibe o troféu. Exatamente como os caçadores e suas caças.

OUTRAS FORMAS DE MATAR

Além da morte física existem outras formas de matar alguém, por meio da opressão, da destruição dos sonhos, da desmotivação, das palavras duras, do reforça nas crenças limitantes. Morte que mata por dentro, que tira o brilho dos olhos e torna a pessoa uma carcaça vazia. A humanidade passa por uma inversão profunda de valores, onde o respeito ao próximo e à vida estão perdendo o significado. A exposição massiva à violência que temos todos os dias nos meios de comunicação está deixando mais elástico o nosso limite de aceitação para essas coisas. Tudo é normal, tudo é aceitável e tudo pode ser replicado. Um amigo meu disse que o problema dos vícios é que cada vez o limite de aceitação do corpo aumenta e o viciado precisa usar doses cada vez maiores. O alcoolismo começa com uma dose, não com uma garrafa de bebida. O tabagismo começa com um cigarro. Porém o efeito é assimilado pelo corpo e é preciso beber e fumar cada vez mais, e mais. O descaso com as pessoas e com a vida parece mesmo um vício. Se não forem tomadas medidas de contenção urgentemente, a que ponto chegará a dose necessária para satisfazer o instinto destrutivo das pessoas?

FIM DE FÉRIAS

Quando as crianças entram em férias lembro claramente do meu falecido avô materno falando um dia: “Onde tem juventude, não tem quietude.” Ele referia-se a nós, que na época éramos crianças, e ficávamos o dia todo correndo e gritando. Foram três semanas de férias, em alta rotação, cheia de dedinhos apontando para tudo, cheios de querer, de descobrir e de aprontar. Acordando às 7h da manhã, acordando não, DESPERTANDO para a vida, cheios de idéias na cabeça. E encerrando o dia lá pelas 22h, sob muita negociação e ameaças de que não poderiam brincar no dia seguinte. O Alcione (meu gato) que tem mais de 3,5kg saía de orelha baixa quando escutava a criançada. Subia no muro e ficava lá do alto observando tudo e se sentindo livre. Voltava para casa somente depois do silenciamento.

IDEIAS

E para completar o quadro, tive a brilhante ideia de levar para casa um filhote de coelho exatamente igual ao da música de Páscoa, fofinho, de pelos branquinhos, orelhas compridas e olhos vermelhos. Afinal que trabalho pode dar um coelhinho? Meus amigos, que ilusão! Primeiro porque as crianças ficam em desespero porque querem ver o animalzinho botar ovos de chocolate. Segundo porque é um bichinho bem “porquinho” e sem muito espaço mental para aprender coisas. Ao contrário do que a maioria pensa, o coelho não come cenouras como se fosse o melhor dos manjares, ele prefere ração. Além disso, não obedece a comandos, deixa seus “ovinhos de chocolate” por todo canto e não respeita nem a própria comida. Esconde-se embaixo de móveis e à noite, quando ia pegá-lo para colocar na gaiola, fazia uma correria e eu tinha que fazer uma perseguição ao coelho, que é incrivelmente rápido para seu tamanho. Onde é que eu estava com a cabeça quando o aceitei de presente?

COMPENSAÇÃO

Obviamente estou exagerando nas impressões das férias, porque na realidade é um tempo muito bom e precioso de convivência com as crianças, sem compromisso de horário, de tarefa, de uniforme e outros tantos fatores que envolvem o frequentar as aulas. Conseguimos medir melhor a evolução dos pequenos e recuperamos um pouco de nossa juventude, porque eles não sabem o que significam os conceitos de jovem/velho e nos arrastam em suas aventuras como se fôssemos da mesma idade. Um dia desses, no shopping fui “obrigado” a entrar na piscina de bolinhas com os dois. Esforcei-me bastante para parecer contrariado, porque na verdade estava achando ótimo rolar, mergulhar e afundar naquele monte de bolinhas. Tenho um pijama esverdeado (que parece uma melancia) que tive que usar durante o dia algumas vezes, porque segundo eles era a minha fantasia de Lagartixo (verde), um dos heróis de pijama que faz trio com o azul Menino-Gato (Benjamin) e a pink Corujita (Rebeca). Se você não tem filhos pequenos não vai saber do que estou falando, então é melhor acionar o Google. E assim entre a realidade do trabalho e da família e o imaginário e o lúdico das crianças, as férias acabaram e eles voltaram para a escola. E o silêncio voltou e as horas alongaram. E a casa ficou baldia, ou seja, vazia e abandonada.

 

NÃO ACEITAR A DOMA

 

Quando era criança o pai de um amigo meu da Rua Tomazina era criador de búfalos e algumas vezes ele levava a criançada da rua na fazenda dele para passear. Tinha um caminhão pequeno  com aquelas grades próprias para transporte de gado, a qual enchia com as crianças da rua e levava para a fazenda, na zona rural da cidade. Era uma festa! Tem duas coisas que nunca me esqueci dessas aventuras que ele nos proporcionava. A primeira foi uma vez que ele estava mudando os peixes de um lago de criação para outro e, para isso, esgotou o lago e nós pegávamos os peixes com toalhas, redes e, muitas vezes, com as próprias mãos. Lembro de pegar uma carpa enorme e levar para dentro de um tonel para transportar para o outro lago. A segunda foi quando ele nos colocou para andar montado em um búfalo. Impressionou-me aquele animal enorme, extremamente dócil, andando puxado por uma corda bem frágil, com duas crianças em suas costas. Vendo aquela docilidade daquele brutamonte perguntei para o pai do meu amigo se os búfalos nasciam assim, mansos. E ele me respondeu que não, mas que era muito fácil de amansá-lo. Bastava desde pequenininho colocar uma argola no nariz do animal e prender ao chão com uma corda curta, de maneira que forçasse o animal a não poder levantar a cabeça. Esse processo repetido por muito tempo fazia com que o búfalo perdesse o ímpeto e ficasse manso e de cabeça baixa.

CORDA CURTA

Da mesma forma fazemos com nossas crianças, que nascem impetuosas, cheias de energia e ânimo e nos encarregamos de colocar uma argola imaginária em seus narizes e prender com várias cordas curtas. Ensinamos nossas crianças a serem dóceis e a andarem de cabeça baixa. Naturalmente que a argola e as cordas são figuras de linguagem, e que podem ser representadas por todas as vezes que levamos nossas crianças a acreditarem que algo na vida não é para eles. Educação castradora, violência domestica, escola de má qualidade, falta de alimentação, descuido, desamor, descrédito, despreparo, falta de suporte psicológico, ausência da família e de Deus, são alguns exemplos das várias cordas curtas que oferecemos às crianças. Com isso eles aprendem a abaixar a cabeça e se tornam pessoas reativas, ou seja, não são protagonistas, não assumem a autoria da própria história e se acostumam a obedecer, sem questionar. Quem anda de cabeça baixa, não enxerga o infinito.

OLHAR PARA FRENTE

A inspiração para esta coluna veio de uma conversa que tive com minha esposa sobre crenças limitantes e lembrei que quando eu tinha uns doze ou treze anos e a vida era bastante difícil, eu andava muito a pé para economizar alguma grana. Da casa para o trabalho, do trabalho para a escola e da escola para casa, sempre andando. Lembrei que eu gostava de andar rápido e ia pensando que tinha que andar com passos largos porque não podia ficar desanimado, e que tinha que olhar para frente, para o horizonte, para poder enxergar o futuro, e que quem andava de cabeça baixa, olhando para o chão, não enxergava as possibilidades que se apresentavam na caminhada. Hoje vejo o quanto esse experimento mental foi importante na formação da minha personalidade e na forma com que eu encaro os desafios da vida. Minha mãe usava uma frase bastante simples, mas que é filosofia pura e resumia bem esse fato. Ela me fazia um elogio e dizia: “você nunca aceitou o cabresto”. Hoje eu entendo o que ela queria dizer, pois aceitar o cabresto é aceitar a doma, ou seja, subjugar o espírito e curvar a coluna, andando sempre de cabeça baixa. Quem sabe estamos fazendo isso com os jovens sem perceber.

E SE O AMANHÃ NÃO CHEGAR?

*Por Nelson Canabarro 


Nestes dias uma empresa que eu trabalhei por muitos anos promoveu um encontro de ex-professores e ex-alunos. Foi muito bacana reencontrar velhos companheiros de profissão, boas lembranças com os ex-estudantes, que agora são pais, mães, médicos, engenheiros, advogados e outras tantas ocupações na vida. Algumas histórias surpreendentes, algumas perdas irreparáveis. É bom ver o que o tempo faz com a personalidade das pessoas. A maioria melhora muito. Outros parecem ter estacionado na adolescência. Uns ainda guardam os mesmos traços da juventude, outros envelheceram rápido e mudaram muito. Mas o mais impressionante são as mudanças de personalidade que o tempo nos impõe. Por isso que sempre digo, se os jovens tiverem o direcionamento correto, suporte emocional e, acima de tudo, bons exemplos, podem vir a ser pessoas excepcionais. Independente de como eram na juventude. O tempo, as diversidades e as necessidades da vida servem de buril para o caráter das pessoas. O mesmo posso falar dos meus colegas professores. Lembro do tempo em que éramos jovens por dentro e por fora (hoje somos jovens somente na mente). Havia dentro de nós uma ansiedade, uma busca por algo desconhecido, uma necessidade de conquistar seu espaço, uma vontade enorme de um vir a ser. Vivíamos afoitos, com pressa e acelerados.


A CALMARIA DOS ANOS
Penso que essa agitação, própria da juventude, não permitia que explorássemos ao máximo nosso potencial e gastávamos mais energia do que o necessário para realizar tarefas. Mas ao mesmo tempo, de forma paradoxal, esse excesso de energia era o que nos impelia para frente, para fazer coisas e para realizar o futuro. Hoje somos o futuro de nós mesmos. Todos mais calmos, com mais dores pelo corpo, mais desacelerados e mais complacentes. Ganhamos experiência e, com ela, habilidades de relacionamento e de resolver problemas gastando somente a energia necessária. Todos podem olhar para trás, alunos e professores, e ver a sua trajetória, e com ela poder entender muito de si mesmos. Somos o que somos por tudo que vivemos, fizemos e experimentamos. A vida pode ser muito imprevisível, mas história não, ela guarda uma relação forte de causa e efeito. Nossas relações, frustrações, aspirações, fé, e acima de tudo, nossas ações e decisões nos moldaram e construíram os nossos atuais estados físico, psíquico e social. E é só o que nos resta. Nos cabe aceitar e vivermos felizes para sempre consigo mesmo.


CARPE DIEM, QUAM MINIMUM CREDULA POSTERO...
A expressão carpe diem tem sido usada com a conotação de viver o dia de hoje como se fosse o último. Se fosse isso, teríamos que gastar muito tempo nos despedindo das pessoas. Já pensou ir embora sem dar tchau para os amigos, sem um textão no facebook? Mas quando o poeta grego Horácio cunhou essa expressão no contexto da frase acima, ela tinha um significado mais realista. Ela significa: “colha o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”. Não significa ser o último dia, nem viver como se fosse o último dia, mas sim “colher” todas as possibilidade que o hoje nos permite, porque o amanhã poderá nunca chegar. Não confiar no amanhã e nem deixar para amanhã pedaços de vida que podemos viver hoje talvez seja o grande segredo do bem viver e da saúde mental. Olhando as fotos com os meus colegas de profissão e com os ex-alunos e vendo os efeitos tão evidentes do tempo, entendi o real significado de colher um dia de cada vez, na árvore da vida. Terminamos nosso encontro como todos os encontros de ex-colegas, ou seja, com algumas promessas de nos revermos e nos reunirmos outras vezes no futuro. Mas é preciso tomar algumas decisões hoje para que isso não se torne promessa vazia, porque é melhor não confiar muito no amanhã. 
 

EM SUA MENTE HÁ UM LUTADOR

Não devemos criar nossos filhos com limites. Parece um absurdo falar dessa forma, mas é a pura verdade. Colocar limites é colocar bordas. É colocar barreiras e dizer a uma pessoa até onde ela pode ir. Como já disse outras vezes, criamos nossos filhos como frangos e queremos que lutem como leões. Só existe uma maneira de fazer com que nossos filhos enfrentem a vida: ensinando-os a serem lutadores. Isso implica em não colocar limites, pois os limites acabam potencializando o medo. Medo de transpor, de transgredir o modelo mental estabelecido. Medo de ir contra a corrente. De não aceitar a zona de conforto como uma conquista, mas sim como uma prisão. Todos nós deveríamos ter nossa criação baseada em valores, e não em limites. O respeito ao próximo. A aceitação das diferenças. A honestidade. A sustentabilidade. O altruísmo... estes são alguns dos valores universais que devem nortear a caminhada de cada pessoa neste mundo. Não há necessidade de limites, mas há uma premência por valores. Valores estes que parecem estar rareando a cada dia que passa. É preciso que cada um tenha a mente de um lutador. Tenha o coração de um guerreiro, mas não à moda antiga, mas das batalhas modernas. Num mundo onde a superpopulação se aproxima, onde o populismo tem corroído os governos, onde a desigualdade de renda e a tecnologia está jogando muitas famílias no lixo. É preciso que novas formas de ver o mundo e a humanidade sejam criados e distribuídos ao redor do planeta.

Repetindo o que aprendemos

A questão é que para conseguirmos passar aos filhos essa capacidade de transformar as coisas, precisamos quebrar primeiro um modelo mental que nos foi passado. Nós adultos acima dos 35 anos fomos criados em uma época em que a mãe ainda estava dentro de casa e o pai era o provedor da casa. Só existia um modelo de família, pouquíssima tecnologia e era um orgulho trabalhar no mesmo emprego até se aposentar. O mundo era maior do que hoje, pois uma viagem internacional era algo quase inimaginável. Nessa época, o bom e velho chinelo havaianas e a varinha de marmelo eram parceiras fiéis da educação dos filhos. E até hoje relutamos em abrir mão desse formato de educação. Levei muitas chineladas, porque não fui uma criança “calminha”. Mas não me lembro de uma surra (a palavra é pesada, porque não era bem isso que a mãe fazia) que me fez ser melhor cidadão. Mas houve algumas vezes em que minha mãe ficou tão decepcionada comigo que não teve energia nem para ralhar comigo. Nessas vezes eu aprendia muito mais e meu caráter se transformava mais do que com qualquer chinelada, pois não queria causar aquela sensação novamente na pessoa mais importante da minha infância. Eram valores sendo infundidos na minha mente.

FORMANDO UM LUTADOR

Ao mesmo tempo minha mãe me ensinou, com seu exemplo, a ser um lutador. Ela nunca desistiu de nós. Nunca esmoreceu e nunca demonstrou fraqueza, apesar de enfrentar uma batalha muitas vezes maior que suas forças e capacidades. Valores e exemplo. Combinação perfeita para formar lutadores. Se não quero que meus filhos fumem, não devo fumar perto deles. Se quero que sejam trabalhadores, devo exaltar o trabalho e ensiná-los o seu valor. Não se ensina a lutar se nos entregamos na primeira dificuldade. E na minha jornada como professor, vejo tantos jovens que perderam a vontade de lutar ainda no início da vida. Olhos sem brilho. Corações vazios. Essa atitude foi plantada em seus corações durante sua infância. Por isso, olho para meus filhos e vejo que são uns pestinhas. Mas respeitam a família, amam a escola, reconhecem o valor do trabalho e são felizes. Quebrar a corrente e tentar uma nova forma de educar, de desenvolver caráter e de formar pessoas é o grande desafio da nossa geração. Não vivemos mais em um tempo em que as crianças precisam apanhar para aprender. Elas irão aprender muito mais com o exemplo e com os valores, e poderão ser pessoas de futuro ilimitado.

A chave para o sucesso e para a independência está na mente de cada pessoa.

DESUMANIZAÇÃO

Estava assistindo a um programa de entrevistas quando uma das entrevistadas falou que no seu trabalho ela sempre reclamava de tudo, ficava insatisfeita com tudo, nada parecia ser o suficiente para torná-la realizada. Não gostava da equipe, do ambiente de trabalho, dos móveis, da rotina, enfim, nada era bom. Até que um dia um colega de trabalho lhe disse que ela parecia com uma macaca de circo, vestida com roupa de bailarina para parecer graciosa, mas que era embrutecida pela mão rude do treinador. É uma figura de linguagem muito forte e expressa de maneira bastante intensa o que acontece com muitas pessoas no mundo moderno. Ela disse que isso foi um tapa na sua cara, e que depois de umas semanas de sofrimento interno, começou a tentar mudar a sua forma de ver as coisas, mudar suas expectativas em relação aos outros, e tentar enxergar o melhor nas coisas que estavam ao seu alcance. Não se sentiu bem na figura com a qual foi comparada, e muito menos com a imagem de uma pessoa bruta, porque a brutalidade é o oposto da humanidade. 
SER BRUTO É SER DESUMANIZADO
Estamos nos embrutecendo, estamos ficando rudes em nossas relações, estamos nos preocupando e supervalorizando nossos dramas individuais e deixando transbordar para os outros nossos medos, raivas e frustrações. Uma entidade aqui da cidade comprou um conjunto de suportes de acrílico para avisos. Ao tirar da caixa, alguns estavam danificados. Ao tentar fazer a troca, o vendedor se negou e disse que aquilo só quebrou porque quem estava manuseando estava agindo feito “cavalo”. Por que razão as pessoas maltratam as outras? Os chefes que menosprezam suas equipes, vizinhos que não se conversam, colegas de trabalho que não se respeitam, brigas no trânsito por besteiras, crimes hediondos por ninharia. As pessoas deixaram de relativizar as coisas, ou seja, deixaram de estabelecer as proporções dos fatos. Explico. Se você bate o carro e ninguém se machuca, qual é o problema? Se teus filhos são uns pestinhas, mas são saudáveis e felizes, qual é o problema? Se o teu emprego não é aquele dos teus sonhos, mas você tem tempo para se reinventar, qual é o problema? O problema surge quando esquecemos de olhar todas as variáveis da vida e centramos nossas expectativas em um único elemento. 


A MÃO RUDE DO TREINADOR
A brutalização das pessoas vem ocorrendo de maneira lenta e forçada e, para interromper esse processo, a primeira coisa a fazer é se livrar do treinador. Assumir as rédeas da própria vida. Quem é o seu treinador? O trabalho? O salário? A falta de amor e paz dentro de casa? A falta de tempo? A rotina? O descontrole emocional? A falta de maturidade emocional? É preciso encarar a vida de frente e dar um basta. É preciso iniciar um processo de descida, de por os pés no chão, de reorganizar-se, de entender que a sua vida e a vida das outras pessoas são maiores e mais importantes que qualquer problema. A mudança de postura diante das dificuldades da vida (nossos treinadores de mãos rudes) é uma decisão particular, pessoal e intransferível. Aceite sua história. Amenize suas relações e entenda que cada um tem seus próprios sofrimentos. E não se esqueça de relativizar os problemas, deixando-os do tamanho que verdadeiramente, sem torná-los maior do que a própria existência. A REUMANIZAÇÃO das nossas relações começa em cada um de nós, e para isso basta cada um lembrar-se de SER HUMANO.

ANIVERSÁRIO DE CRIANÇA

Não lembro muito das minhas festinhas de aniversário de quando eu era criança. Das que lembro, sempre eram muito simples. Um bolo retangular escrito PARABÉNS, brigadeiros, coxinhas, cachorro-quente, tubaína ou gasosa como falamos por aqui (porque Coca-Cola era somente em festa de ricos), chapeuzinhos em forma de cone (nunca entendi o porquê desses chapéus), balões cheios no sopro, e pouco mais do que isso. Tudo feito em casa e tudo com muita intimidade. Não tinha cama elástica, nem infláveis, nem pintura facial, nem atendentes, nem roteiros. Os presentes eram baratos basicamente consistiam em brinquedos, quando queriam agradar a criança, ou em roupas, quando queriam agradar os donos da casa. Mas tinha um ingrediente que sempre sobrava: diversão. Crianças correndo de um lado para o outro, comendo e bebendo até a barriga ficar inchada e os cantos da boca vermelhos por causa da gasosa de framboesa. As mães conversando em uma mesa, falando sobre a educação dos filhos, e os pais, na maioria das vezes, ausentes das festas. A gente ia para casa exaustos, caía na cama e dormia o sono dos justos. Isso era num tempo em que só o olhar da mãe nos dizia muita coisa, e mesmo sem saber o que estávamos fazendo de errado, mudávamos de atitude na mesma hora. As festas eram sempre aos domingos no período da tarde, e sempre terminavam quando a noite caía. As mães levavam para casa um prato de salgadinhos e um pedaço de bolo.
UMA NOVA INDÚSTRIA
Atualmente a realidade de festas de aniversário mudou muito. Tornou-se uma nova oportunidade de negócios. Dependendo da classe social são feitas festas para comemorar o MESNIVERSÁRIO da criança, que nada mais é do que comemorar os meses de vida de um bebê até ele completar o primeiro ano de vida. Com menos de um ano, a criança já vai ser considerada arroz de festa. Já vai poder fazer um arquivo vivo de modelos de convites para aniversários, ou melhor, mesniversários. As festas passaram a ser superproduções. Você chega e tem uma atendente que pega o presente (você não entrega para a criança), anota seu nome numa lista e joga o presente em uma caixa. Dentro da festa as crianças são separadas das mães. As primeiras vão para um playground fechado e controlado por atendentes, e as segundas vão para um salão. A festa tem um roteiro solene, com hora marcada para tudo. Que horas se canta o ‘parabéns para você’ para o aniversariante, quando podem comer docinhos e em que momento será cortado o bolo. Estive num aniversário onde foram servidos pratos quentes como escondidinho, camarão e outros quitutes, para os quais meus filhos e os filhos dos outros torcem o nariz. Nem uma coxinha... Para os adultos serviram cerveja, vinho, whisky e frisante.
FOCO NAS CRIANÇAS
Nos meus tempos era impensável servir bebida alcoólica em festas de crianças, para não dar o mau exemplo. Na sociedade moderna, não ter a bebida não é bem visto. Lembro do aniversário de 15 anos da filha de um amigo meu, que ele se recusou a servir bebida alcoólica por ser festa de menor de idade. Todos foram embora 10 horas da noite e a festa acabou.  Tenho dois filhos pequenos e eu e minha esposa gostamos de fazer festa de aniversário para eles. Mas fazemos no quintal de casa. Colocamos bebidas e comidas pensando no que as crianças gostam. Colocamos pais e mães juntos com os filhos. Não tem bebida alcoólica. E não tem solenidade, as crianças podem comer os docinhos e salgadinhos antes da hora, sendo que a única espera é para cantar parabéns juntos. Organizamos brincadeiras envolvendo as crianças, para que possam se divertir, correndo e pulando, e indo para casa suados, exaustos e com um cordãozinho de sujeira no pescoço. Não sei se estamos certos, se nossas festas são bem-vindas ou bem vistas, mas tenho certeza de que as crianças terão boas lembranças de seus aniversários.
 

CELEBRANDO A TRISTEZA

Por: Nelson Canabarro

Quantos aniversários um recém-nascido conseguirá completar? Quantos aniversários você vai conseguir completar? Ninguém sabe, ou melhor, só Deus sabe. O fato é que entre a primeira inspiração, no momento do parto, e a última expiração no fim da vida, cada pessoa irá realizar uma imensidão de grandes feitos. Conquistas na vida que merecem ser comemoradas. Formaturas, aprovações em todo tipo provas, concursos. Casamentos, batizados, novos empregos, primeiros salários, primeiras namoradas, viagens, retornos, filhos, netos, bisnetos. Sair ileso de um acidente. Recuperar a saúde após uma permanência no hospital. Conhecer o mundo... E coisa menores, porém mais grandiosas ainda, como aprender a andar, a falar, a ler, a escrever e conhecer o mundo e construir conhecimento.

São momentos em que podemos contemplar o milagre grandioso da vida e que deveríamos sempre nos esforçar para festejar com os amigos e familiares, pois sabe-se lá quando será a experiência derradeira. E se cada conquista fosse encarada como se fosse a última, se cada encontro, festa ou realização como se fossem os últimos, daríamos um valor infinitamente maior para eles.

REUNIÕES PARA LAMENTAR

Infelizmente não aceitamos que a nossa vida e a vida dos que amamos estão sempre por um fio e, por isso, não nos esforçamos para nos encontrar. Afinal uma festa é só mais uma festa. Um churrasco é só mais um churrasco. E ficamos procurando razões para fugir desse tipo de compromisso. É a rotina, é o trabalho, é a falta de dinheiro, é a falta de coragem, é um desafeto na família que estará presente, é uma mágoa do passado que insistimos em cultivar e manter viva. É a incompreensão e o egoísmo. Mas acima de tudo é a vaidade de querermos tudo do nosso jeito.

O interessante de tudo isso é que em casos de morte súbita ou simplesmente um cheiro de morte de algum querido e esquecido, todos damos um jeito de estar lá, para celebrar a tristeza. Aí não tem agenda, não tem trabalho nem falta de vontade. Deixamos tudo de lado e a prioridade é estar com a pessoa naquele momento de sofrimento. Nessa hora percebemos o quanto perdemos de vida correndo atrás de sucesso.

SUCESSO NA VIDA

Sempre tenho dito para meus alunos que é necessário viver de forma intensa pois até onde se sabe, a experiência é única. E a intensidade da vida não está nas loucuras, mas sim nas relações com as pessoas. Estabelecer relações de confiança com todos e em todos os níveis permitirá que você sempre tenha ao seu lado pessoas que poderão compartilhar contigo o sucesso. O seu e o delas. E tenho disseminado que o conceito de sucesso está associado à felicidade pois de que valem as conquistas da vida, o dinheiro e tudo o mais se não estivermos felizes? E Deus na sua infinita sabedoria criou a felicidade como um sentimento coletivo e compartilhado, ou seja, só é possível ser feliz se estivermos cercados de pessoas para compartilhar nossa felicidade com elas. Quando estamos juntos um prato de arroz, feijão e ovo frito vira um banquete recheado de sorrisos e alegria. Por isso perdoe seus irmãos, reúna seus familiares, preserve e fortaleça suas amizades, porque da vida não levamos nada, mas podemos deixar saudade e felicidade por onde passarmos.