Blog do Canabarro
REGINA DUARTE X MÁRIO FRIAS

 

Fui procurar o currículo do Mário Frias na área da gestão e das políticas públicas para o setor cultural.  Sabem o que encontrei? O mesmo que encontrei quando fiz a mesma pesquisa em relação à nomeação de Regina Duarte para a mesma pasta de Secretário Especial para a Cultura do Governo Federal: EXATAMENTE NADA. Os dois são atores, ela com carreira consolidada e ele ainda se afirmando. Ambos passaram pela Rede Globo, atuaram em novelas, séries e teatro. Nunca ocuparam nenhuma função ou cargo, púbico ou privado, na área e muito menos fizeram graduação ou pós graduação em qualquer coisa que os credenciasse para ocupar tão importante cargo. Alçá-los à posição pode ser simplesmente a vontade de um governo em dizer que a cultura não é importante, que qualquer um pode estar lá e fazer qualquer coisa que já está bom, desde que não incomode, que não crie caso. Mas esse aspecto não é a razão pela qual estou escrevendo sobre o tema. O que me levou a esta coluna foram as reações de todo mundo – artistas, políticos, movimentos de cultura e contracultura, cantores, escritores e todo mundo nas redes sociais – às nomeações promovidas pelo governo.

SERIA QUESTÃO DE GÊNERO OU DE GERAÇÃO?

Regina Duarte foi execrada em praça pública. Foi solta na calçada, nua e sem proteção alguma. Dissecada e desossada. Não teve a seu favor nem mesmo benefício da dúvida sobre o que poderia ou não fazer na pasta da cultura. A terrível e vergonhosa entrevista à CNN já estava carregada dos impactos emocionais que a pobre coitada sofreu por tudo o que falaram dela no período. Ninguém teve piedade da coitada – artistas, políticos, movimentos de cultura e contracultura, cantores, escritores e todo mundo nas redes sociais – detonaram a nomeação e colocaram a mulher Regina Duarte na lata de lixo. Mulher que corajosamente pediu demissão do emprego na Globo para assumir o cargo público, ou seja, para ter essa atitude, ela acreditava verdadeiramente que seria capaz de fazer algo pelo setor. Mas nem mesmo seus ex-colegas de trabalho a pouparam. Nas redes sociais, anônimos e famosos, políticos e humoristas, referiam-se a ela como “a véia da cultura”. Não teve nem tempo, foi demitida.

Já com Mário Frias está sendo diferente. Encontrei algumas críticas e reações, mas todas comedidas e dando a ele o benefício da dúvida. Um certo importante da cultura de São Paulo disse que “a nomeação de Mario é uma incógnita”. Ninguém está “detonando” o rapaz, mesmo tendo ele as mesmas credenciais que Regina Duarte. Por que ele é homem? Ou por que ele é jovem?

NÃO TEM JUSTIFICATIVA

Qual a razão dos diferentes tratamentos? O que explica o que fizeram com Regina Duarte que não estão fazendo com Mário Frias? Na minha modesta leitura, só existem duas razões: 1) ela é mulher, ele é homem; 2) ela é idosa, ele é jovem. Esses dois motivos dizem muito da nossa sociedade e na forma como tratamos mulheres e idosos. De maneira inconsciente descartamos a “véia da cultura” em favor do homem jovem da cultura. Se fosse uma troca baseada em critérios técnicos, e que ele fosse aquele cara que todos do setor esperavam que ocupasse o cargo, até teria uma justificativa, mas não é o caso. Simplesmente os idosos são vistos como incapazes e as mulheres ainda são vistas como inferiores ao homem. E nem mesmo os movimentos feministas e levantaram para proteger a mulher que estava sendo reduzida a pó diante de todos. É preciso rever nossos valores e fazermos a transmutação do discurso para a prática. Falar que mulheres e homens têm direito às mesmas oportunidades e que os idosos devem ser valorizados é muito diferente de trata-los efetivamente dessa maneira. #Todamulherpode. #Todoidosotemvalor.

ENFRENTANDO O BICHO

Falar da pandemia é chover no molhado. Obviamente não fazemos a menor ideia do que vai acontecer daqui para a frente, aliás, ninguém sabe. Nem o governo de nenhum país, nem a OMS, nem FBI, KGB, ABIN, MOSSAD, ou qualquer outra agência de inteligência. Nem mesmo a NASA, que colocou o homem na Lua (além de desenvolver os melhores travesseiros do mundo), tem qualquer previsão sobre o que vai ser da humanidade e de quando é que vamos voltar à normalidade. Normalidade, talvez nunca mais. Considerando os números da doença ao redor do mundo, me parece impossível que na China tenha se resumido àqueles dados divulgados. Países muito menos populosos, com menor densidade demográfica e com questões de higiene e sanitárias muito mais desenvolvidas que a China estão em situação terrível, sendo que nem foram pegos de surpresa, como ocorreu por lá. O fato é que estamos todos andando no escuro, com algumas frágeis velas acesas, sem vislumbrar a luz no fim do túnel.

SE CORRER OU SE FICAR, O BICHO PEGA

Países como Alemanha, Japão e Coréia do Sul, que estavam passando relativamente sem sofrimentos pela pandemia, sentiram que houve um aumento considerável no número de casos a partir do relaxamento do isolamento social e do retorno da economia. E agora, o que farão? Parar de novo? Até quando dá para suportar? E como enfrentar os efeitos tangíveis (emprego, renda, riqueza, produção, número de mortos) e intangíveis (depressão, ansiedade, solidão, síndrome de pânico, suicídio) de uma paralisação mais prolongada que torne impossível a retomada rápida da economia. Esses países são uma amostra de que talvez estejamos tentando resolver o problema com a solução errada. Estamos acuados, com medo, escondidos dentro de casa, enquanto lá fora paira uma nuvem de incertezas sobre tudo.

SAIR DO BURACO

Não é característica da humanidade se esconder por medo. Temos que enfrentar o problema. Esse tempo de reclusão, que já está próximo de 60 dias, deveria ter servido para tornar os sistemas de saúde mais robustos, para poder enfrentar o número de doentes graves da pandemia, e assim poder liberar a população para enfrentar o vírus de frente. Obviamente que não quero ficar doente e nem que meus amados fiquem, ou que qualquer um de nós morra. Mas o fato é que a quarentena não elimina o vírus, o que significa que vamos nos encontrar. Precisamos de três coisas para esse enfrentamento: atendimento médico, remédios e vacina. Dos três o que é possível fazer em curto e médio prazo é estruturar o sistema de saúde. Remédio em torno de 6 meses e não é eficaz para todo mundo. Vacinas em torno de 18 meses, e não alcançará todo o planeta de imediato. E não dá para esperar tanto tempo, pois então estaríamos gerando uma segunda pandemia – do desemprego, e consequentemente a fome, a miséria e o aumentos das desgraças humanas que são subprodutos da desgraça econômica.

ALEGRIA

O que fazer para não perder a alegria, para não se entregar para a tristeza? Não existe no momento, nada no horizonte que possa dizer que o fim da pandemia está próximo. Na verdade, a todo momento vem uma nova notícia que joga para frente a pior fase da contaminação pelo vírus. Ao mesmo tempo, não existe uma unanimidade sobre o que fazer para minimizar as perdas, tanto de vidas quanto de empregos, e cada país, estado e cidade vai tomando medidas mais ou menos rígidas conforme intuição. O que significa que tudo pode ser inócuo diante da gravidade do problema. Escolas fechadas estão mudando a rotina e o comportamento das crianças e forçando professores, coordenadores e equipes pedagógicas a se tornarem rapidamente atores ou youtubers e, na terceira ponta, colocando os pais na posição de ensinantes, sendo que a maioria não possui formação ou qualificação para ensinar. Parques, academias, empresas, cinemas, restaurantes, festas, festejos, comemorações, fronteiras, porteiras e portarias, tudo total ou parcialmente fechados. O corona vírus nos tirou a felicidade de um abraço e também a parte da vida que serviria de alívio para o stress do dia a dia. Como não perder a alegria?

EQUILÍBRIO

Diante dessa situação toda, fica mais difícil manter o equilíbrio, porque a vida equilibrada se constrói na convivência dentro e fora de casa. No complemento entre a rotina da casa e a da vida produtiva. No compartilhamento das derrotas e frustrações e das festas de celebração das vitórias e conquistas. É preciso então encontrar uma nova forma de equilíbrio e de alegria na nova realidade. Porque a tristeza quando se instala, vai matando lentamente a motivação e drenando a energia psíquica necessária para que sejamos resilientes diante dos fatos. A tristeza, como diz no Eclesiástico, não serve para nada e já matou e mata muita gente. Algumas vezes leva à morte física, mas a imensa maioria das vezes, a morte da vontade, da coragem, da potência, da proatividade e do propósito de viver.

COMO SE FORTALECER

O isolamento torna superlativas algumas atitudes no nosso dia a dia. Algumas são construtivas e podem ser pontos de apoio para enfrentar os problemas. Porém outras são tóxicas e podem nos levar a um caminho sem volta. É preciso identificá-las e tratá-las, eliminando-as de sua rotina. Dentre outras decisões, eu desisti de assistir telejornais, porque assustam. Não estou vendo reprises de esporte porque me lembram de um tempo bom, que parece muito distante. Tenho evitado as “tretas” das redes sociais, porque têm alimentado a discórdia e o desamor. Substitui essas coisas por envolvimento em projetos para combater a pandemia, por momentos com os filhos para assistir filmes e vídeos que nos aproximem, por momentos de oração em família, de brincadeiras, de contação de histórias e de planejamento de ações pós-pandemia. Isso imprimiu um novo ânimo e deu a resistência necessária para mais um período de isolamento. Nos devolveu, por hora, a alegria de viver.

PENSADORES OU SEGUIDORES

As aulas voltaram e com elas voltou também a vida na cidade. O trânsito recebe um acréscimo considerável de carros, crianças sonolentas acordando muito cedo e encarando uma rotina de aulas que, com o tempo, só aumenta em quantidade (não necessariamente em qualidade). Com o retorno das universidades e faculdades, os jovens acadêmicos itinerantes dão nova cara à vida noturna da cidade e geram muita movimentação. E nós, professores, ganhamos nesse novo Ano Novo, a oportunidade de formar pensadores e fazer com que mais e mais pessoas desenvolvam senso crítico, opiniões próprias, caráter e personalidade fortes. Mas o problema é que ainda estamos no modelo de escola do século XVII, que a não ser pelo fato de ter mais tecnologias disponíveis, pouca coisa mudou. Ensinamos o que os livros ensinam e avaliamos se o nosso aluno tem capacidade de memorizar informações da disciplina que nem sempre vão se converter em conhecimento. Afinal quem nunca ficou horas e horas estudando um determinado assuntado até que o soubesse de cor para uma determinada prova. Saber de cor um tema qualquer significa que não desenvolvemos capacidade de aplicação, análises e criação em cima dessa tal informação. Se não concorda comigo, tente lembrar se você, quando estudante, nunca teve aquela situação em que decorou todo o conteúdo para a prova e, quando esta terminava, não lembrava mais nenhuma palavra. Ou seja, não era conhecimento e sim informação superficial e mau fundamentada. E que professor que nunca falou que “se eu mudo um pouquinho as perguntas da prova, que fiquem diferentes do que foi falado em sala, quase nenhum aluno consegue responder.” Ou seja, os estudantes não conseguiram transpor a informação para situações diversas, então foi tempo perdido na escola.

PENSAR FORA DA CAIXA

Essa expressão é muito usada hoje em dia por coachs, neurocientistas, desenvolvedores e treinadores de pessoas. Pensar fora da caixa, ou seja, tentar ver a situação/problema por outro ângulo, ver o que ninguém vê, resolver com saídas e insights inesperados, criativos e inovadores. Mas como vamos conseguir desenvolver isso na vida adulta quando as conexões neuronais estão já estabelecidas e nossos modelos mentais e de comportamento já se definiram? O esforço é gigantesco, porque precisar abrir uma “brecha” nos paradigmas existenciais. Já no cérebro da criança, principalmente na primeira infância (leia-se Educação Infantil), essa tarefa é muito mais fácil, porque o cérebro está em formação, é uma maquininha nova, limpa, sem vícios de pensamento e comportamento. Sempre ouvi minha mãe dizer que as crianças são verdadeiras esponjas, ou seja, são capazes de absorver todo tipo de conhecimento, desde que na forma líquida. Conhecimento líquido é aquele que vem sem forma pré-estabelecida, livre de preconceitos e de formalidades. Os pequenos aprendem a falar falando, a andar, andando, a cantar, cantando. E o que queremos na escola? Que aprendam ouvindo.

COMO CONSTRUIR UMA JUVENTUDE APÁTICA

Tenho buscado alternativas para fugir do modelo que ensina somente de uma forma e, que em casos mais graves, as respostas de prova só servem se forem escritas do jeito exato que o professor quer, ou como está no livro. Não existe espaço para que o estudante seja autor. E nós professores começamos a formatar a cabeça dos jovens desde pequeninos, com atitudes que vão dando a todos a ideia de que só dá para ser e a agir de acordo com o que o professor quer e o bando é capaz. Obrigamos os pequenos a sentarem sempre na mesma mesa, cercado dos mesmos amigos, muitas vezes até na mesma posição da mesa, reforçando neles um comportamento extremamente negativo para a vida profissional, que é a pouca capacidade de se relacionar com pessoas fora do círculo de convivência. Senta, levanta, anda, come, dorme, escreve na hora que os professores ordenam, nas cores que os docentes escolhem, minando a proatividade, a criatividade e o gosto pessoal. Isso repetido ano após ano, vai matando na juventude o senso investigativo, questionador e criativo peculiar a todas as crianças. Quem tem filhos na faixa dos 4 a 7 anos sabe o que é responder uma pergunta atrás da outra, já no Ensino Médio e na faculdade, o céu se rejubila quando algum jovem se arrisca a fazer uma pergunta sobre qualquer tema. Como professor sei que não é fácil, porque não foi a formação que recebemos, porque as salas são cheias, porque o planejamento, o vestibular, os pais, a coordenação... Ou seja, temos muitas justificativas mas nenhuma explicação do porquê repetimos um modelo educacional que claramente  não está dando certo. Enquanto isso, o Brasil continua produzindo comodities a preço de banana e comprando conhecimento a peso de ouro.

SOFRIMENTO ALHEIO

Está chegando o Natal e aparentemente afloram os bons sentimentos nas pessoas. O coração fica mais mole, há um sentimento de alegria no ar e muitas campanhas para apoiar quem está passando por dificuldades nesta época. Afinal, são mais de 12 milhões de desempregados, então a felicidade e a alegria reinantes não se estendem para todos. O espírito altruísta das pessoas surge na época do Natal. Sempre que falo sobre altruísmo, muitas pessoas não sabem do que se trata. Em contrapartida, quando se fala sobre egoísmo, todos sabem do que se trata. Talvez porque vivemos em uma sociedade mais egoísta do que altruísta. Altruísmo significa, de forma simplificada, pensar no bem coletivo sempre, em detrimento do bem individual. Quando uma ação, ou empreitada, ou projeto for iniciado, pensar sempre se o benefício é para a coletividade e não para uma ou poucas pessoas. Deveríamos praticar isso em casa, nas escolas e no trabalho durante o ano todo, e fazer com que o altruísmo se torne mais conhecido e praticado que o egoísmo. E que as ações em prol dos mais fracos, mais pobres e em minoria, sejam a regra de convivência e não a exceção da regra.

PENSAR NO SOFRIMENTO DO OUTRO

Muitas vezes fazemos pessoas sofrerem com nossas ações e atitudes mesmo sem ter essa intenção, colocando em prática uma das frases mais egoístas que existem: “cada um com seus problemas”. Afinal, por que vou me preocupar com o problema dos outros se já tenho os meus? É preciso refletir sem julgamentos sobre a condição de cada um. Olhar ao redor, perceber os sofrimentos das pessoas que nos cercam e tentar entender a realidade de cada um pode ser um passo importante para construir um planeta onde, independente de condição social, cor da pele, gênero ou deficiência, cada indivíduo seja tão importante como se representasse toda a humanidade. Porque perder uma vida, deixar uma única pessoa para trás, alimentar a tristeza de um só cidadão, deveria ser motivo de sofrimento de todos. Na realidade, parece que quanto mais pessoas vivem no mundo, menos pessoas se conhecem, e passamos a viver como boi no pasto, onde não existe a noção de coletividade, onde um cai morto e os outros continuam suas vidas como se nada tivesse acontecido.

NOVA PROMESSA DE ANO NOVO

Poderíamos incluir uma promessa nova no Ano Novo, coletiva, para que o mundo possa melhorar. E essa promessa seria sempre, em qualquer condição, medir meus atos e minhas palavras antes de executá-los, para ver se não estão causando sofrimento para alguém. Se o que eu faço ou o que você faz for causar sofrimento em uma única pessoa, para que alguém possa se divertir ou se entreter, não vale a pena ser feito. Quem sabe assim, com pensamento coletivo mas com ação individual, possamos mudar o mundo. Não solte fogos, se você tem vizinhos autistas. Não estacione em vagas para pessoas com deficiência. Não diga frases racistas ou homofóbicas. Não maltrate crianças e idosos. Se você tem recursos, ajude a quem precisa, mas sem fazer com que a sua ajuda se torne uma humilhação. Não diga coisas ofensivas como: Você deveria estar numa escola especial. Esse aleijado está tirando minha vaga de emprego. Mudaram a lei e agora a escola tem que dar jeito em tutores! Lugar de mulher é na cozinha! Isso tudo só gera dor e sofrimento. Vamos nos reinventar e construir uma sociedade mais justa, onde cada um seja uma pessoa e não um problema. Onde todos podem ser salvos e não descartados para economizar uns trocados. No fim de tudo, vão-se os bens e ficam os nossos atos. Parece sonho, mas que época melhor do que a que se comemora o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo para falar sobre isso?

Obrigado a todos os que me acompanharam até aqui. Volto com colunas inéditas em Fevereiro.

FELIZ NATAL E PRÓSPERO 2020, com coragem para fazer a igualdade.

VIVER DO TRABALHO DE SUAS MÃOS

O título da coluna é um versículo bíblico de um texto que fala que o homem ou a mulher justos viverão do trabalho de suas mãos. O trabalho, portanto, é uma bênção e hoje temos no Brasil mais de 12 milhões de pessoas que estão na busca por essa bênção. Por outro lado é muito comum encontrarmos pessoas empregadas que parece que não vivem do seu trabalho, tal é a forma descuidada, desatenciosa e até relapsa com que conduzem suas atividades diárias. Funcionários que atendem mal aos clientes enfraquecem a empresa e fragilizam sua própria condição de emprego. Algumas pessoas procuram por emprego desesperadamente e quando conseguem, parecem não dar o devido valor. Não se esmeram, não fazem o seu melhor e não buscam soluções para o cliente, pelo contrário, colocam sempre dificuldades e contrariedades. É muito ruim quando vamos conversar com uma pessoa sobre um produto ou projeto e o argumento de quem deveria resolver é sempre de oposição. Minha esposa fala sempre que “se a pessoa não vai realizar o meu sonho, e vai fazer só o que ela acha que pode, é melhor procurar outro fornecedor.”

E QUANDO O EMPRESÁRIO É ASSIM?  

A posição não favorável de um funcionário pode ser entendida a partir de uma análise sociológica e antropológica da relação homem-trabalho, mas quando o empresário, o dono da empresa, o dono do olhar que engorda o boi, tem essa postura no trato com o cliente, como podemos explicar? Não se explica, porque se aquele que deve ditar a maneira como a equipe deve trabalhar se comporta assim, aumentam consideravelmente as chances do cliente ter uma experiência ruim e, mais dia menos dia, todos seus clientes desaparecerão. Muitas vezes o cliente tem desejos mas não está certo, e muitas vezes ele tem desejo e ESTÁ certo.  O fornecedor do produto ou serviço, que precisa de clientes, tem a missão de encontrar a forma e a linguagem de mostrar a esse potencial cliente a melhor solução, mas do ponto de vista do cliente, e não da sua zona de conforto, onde procura faturar com o menor esforço possível.

EFEITOS IRREVERSÍVEIS

Estive recentemente em uma empresa para fazer um reparo no meu carro. Fui por indicação, que seria a mais qualificada para o que eu precisava. O serviço muito bom mas o atendimento sofrível. De início, por telefone, me passaram as informações todas incompletas. Não levei comigo tudo o que precisava e, para piorar, a pessoa me tratou como se estivesse me fazendo um favor. NÃO É FAVOR. Nunca é favor. É uma relação comercial e envolve dinheiro em troca de produtos ou  serviços. E existem muitas opções no mercado. A má experiência afasta o cliente de forma irreversível. Mesmo que o serviço seja bem feito, não é suficiente. Para fidelizar o cliente é preciso satisfazer suas necessidades, fazendo um levantamento detalhado de suas dores, e também é preciso satisfazer ou superar suas expectativas, que o que ele espera da relação comercial estabelecida. Isso é mais profundo e mais difícil de definir e suprir, mas é aí que se encontra a diferença, que faz o cliente manter ou trocar um fornecedor. Superar expectativas no atendimento, na qualidade, no pacote de serviços e etc, é o que proporcionará uma experiência positiva e inesquecível para o cliente, e ele perceberá valor na relação com a empresa, pensando duas vezes para mudar de fornecedor. No meu caso, já sei onde não levar meu carro nunca mais e onde não indicar para meus amigos.

NEM-NEM-NEM

 

Inicialmente chamados de nem-nem, para definir jovens que nem trabalham e nem estudam, atualmente chamados de nem-nem-nem, ou seja, nem estudam, nem trabalham e nem procuram por trabalho, são jovens na faixa de idade de 15 a 29 anos que se encontram sem rumo e sem ocupação. O Brasil com 23%, é o quarto pais do mundo em porcentagem da população jovem desempregada, estando à frente somente da África do Sul (53,7%), Espanha (33,6%) e Nigéria (33,1%). A desocupação da população jovem é um fenômeno bastante democrático, mais acentuado em alguns países e menos em outros, mas presente em todos, como por exemplo, Canadá e Reino Unido, cada um com 11%, e Estados Unidos com 8,5%, afeta uma camada da população que deveria estar construindo toda a base de sua vida adulta. Um adolescente de 15 a 18 anos está finalizando a Educação Básica e deveria estar decidindo entre uma profissão por meio de cursos técnicos, ou do Ensino Superior, por meio do acesso a uma faculdade. E um adulto jovem de 25 a 29 anos (faixa de idade superior dos NNN) deveria estar na arrancada para a carreira, para a vida independente e para a sua própria família.

NADA DISSO

O fato é que nada disso está acontecendo e 11 milhões de jovens brasileiros estão parados no tempo, enquanto a vida passa pela janela. Como professor já vi mudanças impressionantes de comportamento de alunos totalmente descompromissados, que se tornaram adultos engajados e profissionais brilhantes. Ou seja, tudo é possível, mas a diferença é que esses ex-alunos estavam na escola, e qualquer escola – boa ou ruim – é melhor que nenhuma escola. Tenho casos na minha família de jovens que estão à deriva na vida, que vivem cada dia como se não houvesse amanhã, mas não no sentido de aproveitar a vida, mas sim no sentido de falta de visão de futuro, de perspectiva e de vontade de mudar a realidade. Eu os conheci quando crianças e não eram assim, foram mudando com o tempo. E em que momento ou que soma de fatores levou a essa acomodação mórbida que torna tudo impossível de ser feito?

FATORES            

No Brasil a juventude NNN é constituída em mais de 70% pelo sexo feminino, e um dos fatores dessa parcela é a gravidez na adolescência que cria uma nova realidade na vida da menina-mãe. Mas fatores psicossociais afetam diretamente na visão de futuro desses jovens. A baixa da qualidade da escola, o papel irrelevante atribuído à educação nos dias de hoje, a falta de trabalho para o primeiro emprego, as demandas cada vez maiores por consumo de tecnologia, as relações superficiais de redes sociais são fatores dominantes nessa situação. Além disso perguntas como: “qual meu propósito de vida?” “Por que estudar?”, “Trabalhar como os meus pais?” povoam a mente dessa juventude, onde muitos cresceram longe de pai e mãe, que estavam sobrecarregados trabalhando e se viram obrigados a terceirizar a criação/educação dos filhos. O fato é que teremos ainda consequências nefastas como subproduto desse comportamento, porque o adolescente e o adulto jovem são os responsáveis pela atualização do pensamento, a modernização do comportamento e pela geração de conhecimento e riquezas que irão manter o mundo, a economia e a cultura circulando e se desenvolvendo. Mas eles abriram mão de carregar esse fardo, e todos temos que nos preparar para o que isso vai ter como efeito no futuro.

ENTRAR NA FACULDADE

Um dia desses eu passei diante de uma escola no horário em que os estudantes estavam saindo das provas para acesso ao Ensino Superior. Lembro perfeitamente da minha caminhada desde a decisão de cursar algum curso superior até o dia em que entrei na universidade. Cursar uma faculdade era algo muito remoto para mim e para outros jovens da minha comunidade e da minha escola. Eu já trabalhava desde os 11 anos de idade e descobri logo que os melhores trabalhos e maiores salários pertenciam àqueles que tinham alguma profissão. E descobri que para ter uma profissão precisava fazer faculdade. Os assistentes, auxiliares, ajudantes e outros cargos de apoiadores eram/são trabalhos exigentes e mal remunerados. Naquele tempo o assunto sobre vestibular ou Ensino Superior não fazia parte da rotina da escola pública (espero que tenha mudado) e a primeira grande dificuldade que enfrentei foi entender o processo, que pode parecer óbvio, mas para quem tem 16 anos e está descobrindo sozinho não é. Inscrição, pagamento de taxa, conteúdos das provas, onde estudar e outras coisas inerentes à missão. Conversei com poucas pessoas sobre a ideia e recebi diferentes formas de incentivo.

CONSELHOS

Minha mãe falou que eu conseguiria fazer qualquer coisa na vida (mãe é mãe!). Uma grande amiga já falecida disse que era só estudar muito. Um professor de Geografia me disse que era loucura, que vestibular era só para os ricos que podiam pagar cursinho (e não existia cota para escola pública) e por fim, quando pedi orientação ao Professor Ulisses, de Português, ele abriu a sua pasta, tirou de lá 5 livros e me disse. “ – É difícil, mas você consegue. Vá lá, estude para caramba, leia estes livros que eles vão te dar umas 5 ou 6 questões de graça. Eu consegui, você consegue.” O ato de me entregar aqueles cinco livros criou em mim uma motivação tão grande que daquele momento em diante passei a ter certeza de duas coisas: 1) que iria fazer o vestibular e 2) que eu passaria. Todo momento livre que tinha no trabalho, em casa ou na escola eu estava estudando e lendo aqueles benditos livros. Criou em mim um compromisso com meu professor que, por inciativa própria, me cedeu aqueles livros, que sem dúvida foram decisivos para minha atitude vencedora. Entrei na Universidade e pude abrir caminho para uma nova história na minha vida e de minha família.

INCENTIVOS

Entrar na faculdade talvez seja o maior desafio que um profissional enfrente, porque a oferta e a procura por vagas no Ensino Superior são muito diferentes. O certo é que não tem lugar para todos e o processo seletivo é para ver quais são os eliminados, visto que há imensamente mais candidatos que vagas. Mas nada é impossível e incentivar os jovens para que estes explorem suas capacidades ao máximo, para que desenvolvam resistência emocional e resiliência para encarar os desafios, suportar as derrotas e saborear as vitórias. Um jovem com propósito de vida é a promessa de um mundo melhor, de novas formas de viver, de ver a vida, de ser sociedade. Professores, pais e amigos de modo geral devem falar sobre o tema, explicar o processo e os procedimentos, e incentivar sempre, pois não existe nenhum lugar no mundo que seja proibido para esta ou aquela pessoa, pobre ou rico, bonito ou feio, homem ou mulher. Pois como disse o Prof. Ulisses, se eu consegui, você consegue.

GILMAR MENDES E A SEGUNDA INSTÂNCIA

 

O ministro mudou de idéia e a regra que havia mudado, voltou a ser o que era antes, ou seja, o réu é considerado definitivamente culpado somente quando não existir mais nenhum recurso para a ação, que é o tal trânsito em julgado. Nada disso era de conhecimento do grande público até a grande revolução chamada Lava Jato ter eclodido e tornado público algo que já deveria ser público há muito tempo. O que são primeira e segunda instâncias, Superior Tribunal, Ministério Público Federal e, principalmente e com ajuda de Joaquim Barbosa, o Supremo Tribunal Federal. Hoje em dia a população sabe até a “escalação” do STF, com seu número de 11 “jogadores” que decidem praticamente tudo por e para mais de 200 milhões de brasileiros, e que ganharam fama e notoriedade além do que parecem merecer ou precisar. Cada vez que assisto a algum tipo de julgamento que os ministros do STF realizam, tenho a sensação que eles inventaram um dialeto próprio, como fizeram os brancos do Apartheid que falavam o africâner, pois não se fazem entender pela maioria da população. Sempre falo nas aulas da universidade que podemos usar o conhecimento para estabelecer canais de comunicação ou para criar barreiras para ela. E usaremos conforme nossa vontade de que mais pessoas compreendam ou não a sua mensagem.

VERBORRAGIA

Quando ouço os ministros falando vejo que usam o conhecimento da lei e o domínio do vernáculo para afastar as pessoas, para criar barreiras de comunicação e para demonstrar superioridade. Assim ficam inalcançáveis, pois quem tem condições de debater com eles? Até mesmo com aqueles que estão próximos de sua estatura de conhecimento de legislação eles estabelecem a relação do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, como ocorreu com o corretivo aplicado à advogada que fazia ali o seu trabalho e chamou os ministros de VOCÊS, como se fossem gente como a gente. Levou uma babada em público, sem dó nem empatia, como se o pronome de tratamento certo fosse a chave para o desempenho competente do seu papel de advogada. Parece-me que criamos mais uma casta superior numa sociedade supostamente sem castas e demos a eles todo o poder, sem correição que possa os alcançar. Assim decidem de um jeito hoje e amanhã mudam, conforme mudam suas convicções e/ou conveniências.

SIMPLIFICAÇÃO

Gilmar Mendes tornou-se a personificação dessa mudança da lei por sua postura autocrática e por ter sido ele o fiel da balança que oscilou de um lado para o outro, mudando o resultado dos julgamentos. Por que mudou de lado? Ele e sua consciência carregarão esse fardo. Mas o STF poderia aproveitar essa fama retumbante e aproximar a lei, a justiça e a interpretação destas para a grande plebe. E isso só seria possível pela simplificação, ou seja, trazendo mais próximo da linguagem do brasileiro comum. É possível? Vou citar três exemplos que trabalhavam em campos bem mais complexos e que realizaram um esforço enorme para popularizar sua área de conhecimento: Carl Sagan popularizou a Astronomia, Einstein a relatividade e Jesus Cristo a palavra de Deus. Popularizar é levar aquilo que era dominado e controlado por poucos para a grande massa, para o maior número de pessoas, com o maior alcance possível. E isso só é possível lançando mão do extremo da sofisticação: a SIMPLICIDADE.

LUTAR É PRECISO

Existem mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam. Faz uns 10 anos realizei um projeto numa cidade vizinha onde tive um contato estreito por um ano com um grupo de aproximadamente 30 pessoas, todas em situação extremamente difícil de pobreza e de todo tipo de carência. Histórias dolorosas que tornaram todos prostrados e desanimados. Apesar de tudo nenhum deles era fracassado, mas sim desistentes. E esse era o ponto comum na história de todos. Os membros do projeto se encontravam naquela condição porque, em algum momento de sua vida, começaram a desistir dos desafios ao invés de enfrentá-los. E a desistência é uma sentença, ou seja, é o fim de toda e qualquer possibilidade de sucesso. Quando uma pessoa desiste de lutar ela abre mão de qualquer ganho que o enfrentamento de um desafio pode trazer. Quando encaramos uma empreitada e levamos até o fim, nem sempre a vitória será alcançada, mas haverá muitos ganhos no percurso. Ninguém sai de um grande desafio do mesmo jeito que entrou. Todos passam por transformações e desenvolvimento pessoal.

RESILIÊNCIA

A derrota em si não faz de ninguém um perdedor e pode ser usada como combustível para o próximo passo, mas a desistência faz de qualquer pessoa um derrotado. Quando sofremos um revés podemos perder aquilo que almejávamos, mas podemos ganhar muito em aprendizado. Aprender com os erros, se fortalecer com as derrotas, se levantar e começar a batalha novamente, mas tomando mais cuidado para não cair nas mesmas armadilhas e para potencializar o uso de que aprendemos nos permite iniciar um novo projeto sem sair do zero, mas sim dar a largada com alguns pontos positivos conquistados com aquele fracasso, mas que levamos até o final. Porém quando desistimos da batalha, baixamos a guarda e nos damos por vencidos, não temos nem o bônus do conhecimento e do desenvolvimento pessoal. É preciso desenvolver resiliência, ou seja, é preciso ficar como o “couro grosso” como dizia minha mãe, para suportar os desafios da vida, cair e se levantar, para prosseguir adiante. Diferente de persistência, a resiliência é uma capacidade que se desenvolve para enfrentar estresses e sofrimentos e conseguir voltar e refazer o caminho, dando um novo traçado e definindo um destino melhor, apesar das derrotas.

UM GRANDE MAL

A desistência, por sua vez, causa estragos maiores do que se possa imaginar, porque pelo resta da vida aquele que desiste de um desafio ficará se perguntando; “e se...?” Além dessa dúvida, a decisão de desistir afeta a autoconfiança e a auto-estima da pessoa que desiste, fazendo com que num próximo desafio o início seja no negativo, potencializando ainda mais a possibilidade de abandonar novamente. Voltando ao projeto que citei no início da coluna, todas as pessoas ali estavam acostumadas a desistir de tudo na primeira dificuldade, porque uma derrota após a outra, fazia com que ao menor sinal de dificuldade, o cérebro enviava um sinal de alerta e o histórico de desistência vinha à memória, e tomados pelo medo do fracasso, caíam fora. Enfrentar o medo e lutar contra si mesmo é tão importante quanto respirar, descansar e dormir, pois por medo podemos deixar passar a oportunidade da nossa vida, o emprego dos nossos sonhos, o amor para sempre, a mudança de realidade. Quem vence um adversário é um vencedor, mas quem vence a si mesmo é invencíve.