Blog do Canabarro
ISSO NÃO É PARA VOCÊ!

Por: Nelson Canabarro

Este mês fui convidado a compor a banca de avaliação de um excelente trabalho de graduação de duas estudantes de engenharia. O curioso é que quando fui professor das duas, ouvi o seu relato, corroborado por outras mulheres da classe, que no início do curso ouviram comentário do tipo: o que você está fazendo aqui? Engenharia é para homens. Ou isso não para você!. O fato é que o TCC das duas mulheres, que não deveriam estar ali, gerou uma patente de um dispositivo destinado a apoiar a saúde de idosos, que gerou uma startup para a incubadora da UTFPR, que proporcionou o aceite de uma delas no mestrado na UFSC e que é objeto de estudo de um mestrando em Fisioterapia na USP. Naturalmente nota 10. Não consigo enxergar em que ponto o fato delas serem mulheres as descredencia para qualquer coisa ou atividade na vida. Aliás, na minha carreira de professor nunca encontrei nenhum tipo de pessoa que fosse possível dizer de antemão: Isto não é para você. Simplesmente porque o ser humano é capaz de coisas impressionantes, e que a aptidão ou não nunca será um impeditivo para qualquer tipo de realização, de qualquer pessoa. O único impeditivo verdadeiro é aquele imposto pelo preconceito, pela ignorância ou pela discriminação.

SUPREMACIA BRANCA

A explosão racial vista recentemente na Europa e nos EUA expuseram um grupo de pessoas que se sentem superiores aos outros porque têm a pele branca. É SÉRIO ISSO? Superiores em que? Maior índice de vermelhidão no rosto nos dias quentes? Até onde se sabe, são feitos do mesmo material (carne e ossos). Possuem a mesma estrutura genética dos outros 7 bilhões de pessoas. Nascem do mesmo jeito. Se alimentam do mesmo jeito. E se pararem de respirar, morrem. Se não se alimentarem, morrem. Se não respirarem morrem. Se algum órgão importante parar de funcionar, morrem. Se perderem muito sangue, morrem. Frágeis como todo ser vivo. Aliás, grandes nomes de malucos que queriam impor sua supremacia morreram e desapareceram da face da Terra. Voltaram ao pó, juntamente com seus pensamentos absurdos que viraram pó.

Mas ainda pior que esse pessoal que vai para a rua e para as redes sociais são aqueles que praticam as pequenas discriminações do dia-a-dia, como as frases que essas estudantes ouviram ou atos de depreciação. Na proteção do anonimato ou como membro de um bando, sentem-se à vontade para atacar pessoas e violentar sua dignidade.

EQUIDADE

Quando todos aceitarem que as pessoas são diferentes e que essa colcha de retalhos de saberes, gostos, cores, sotaques, competências, habilidades, conhecimentos e pensamentos foi o que possibilitou que toda a humanidade caminhasse e chegasse até onde chegou essas pequenas idiotices do cotidiano vão desaparecer e poderemos avançar mais rapidamente para uma verdadeira aldeia global. Os diferentes sendo tratados de forma diferente mas com a intenção de promover e potencializar suas capacidades.

Quanto ao povo dos EUA que fala em supremacia, fico imaginando-os vibrando com Michael Jordan, Tiger Woods, Carl Lewis, Serena e Venus Williams, Muhammad Ali, Mike Tyson e Obama. Mas com um cartazinho do Hitler no meio desses posters, para não esquecer da causa.

 

FILHOS

Por: Nelson Canabarro

Faz uns quatro anos que não sei o que é uma casa arrumada. Mais recentemente tenho descoberto os dotes artísticos rupestres de dois mini-Dalis, com paredes, móveis, cadernos, livros, roupas e até o (pobre) gato rabiscados com canetinhas de ponta porosa. Brinquedos espalhados por todo canto, de tal forma que quando preciso levantar à noite por qualquer razão, tenho que tomar muito cuidado para não pisar numa buzina, chutar uma boneca, ou quebrar algum brinquedo favorito.

Tenho aprendido de cor historietas do Show da Luna, Peppa Pig, Masha e o Urso, Busy Beavers, Galinha Pintadinha, Patati & Patatá, dentre outros personagens que povoam o imaginário infantil. A tal música da cabeça, ombro, joelho e pé já não tem mais uma coreografia tão fácil de executar para mim e para outros que se tornaram pais depois dos 40.

E também o fenômeno inexplicável de os pequenos acordarem às 10h da manhã em dias de semana e às 6h da manhã nos finais de semana, com uma energia impressionante arrastando-nos juntos no seu vórtice de felicidades, de exigências, de quereres e, principalmente, de fofurices.

GERAÇÕES SEM CONFLITOS

Meu avô materno faleceu com 111 anos (!!!). Lembro muito das minhas férias de julho no sítio dele em Piraí do Sul. Vovô, já com uns 100 anos, levantava às 5h da manhã e eu me esforçava para levantar junto com ele. Aí ele tomava um café da manhã gigante e saía para a lida no campo. Chegava em casa perto das 7h e os homens que voltavam da roça se reuniam ao redor de um fogo de chão, e enquanto passavam uma cuia de mate de mão em mão, contavam as histórias do dia ou da semana. Um dos netos pequenos era escolhido pelo vovô para lavar seus pés. Era um ritual em família. Preparar a água com sal na gamela. Tirar as botas do vovô e lavar e secar um pé de cada vez. Lembro disso como se fosse hoje, pois eu amava fazer isso e participar do universo adulto do fim de dia. Hoje meus filhos convivem muito com as avós, porque os avôs já se foram. Minha mãe com 82 anos e minha sogra com 70, têm muitas histórias para contar e coisas para ensinar para mim e minha esposa, como pais, e principalmente para nossos filhos pequenos. A convivência com os idosos é fundamental para que os futuros adultos entendam o valor dos mais velhos. E agradeço a Deus por ter podido conviver com meu avô e por meus filhos poderem conviver com suas avós.

HISTÓRIA QUE PASSA

Essa aproximação de universos tão diferentes, de mulheres que cresceram num mundo ainda sem telefone para crianças que nasceram num mundo sem barreiras permitirá que a evolução da sociedade aconteça de maneira mais suave e humanizada, pois como sempre falo em todo lugar que posso, qualquer atividade humana começa em uma pessoa e termina em outra pessoa. O resto é meio e pode ser substituído ou descartado.

Meu avô me ensinou a saber quando vai ter geada através do cheiro da atmosfera. Minha mãe e minha sogra estão ensinando seus segredos de avós para nossos pequenos e essa convivência fará parte das melhores lembranças que eles terão da infância, fazendo-os voltar a serem crianças cada vez que um cheiro, uma música ou uma comida que a vovó fazia for servido para eles.

Os filhos são uma herança de Deus. Uma recompensa que Ele nos dá. (Salmo 127,3). E a bagunça da casa? As paredes riscadas e os brinquedos espalhados? Só estão assim porque nessa casa tem crianças e uma família feliz. FELIZ DIA DOS PAIS E SEMANA DA FAMÍLIA.

CIDADE SEM PEDESTRES

Por: Nelson Canabarro

Todas as cidades deveriam ser adaptadas às pessoas, mas não é o que ocorre na realidade. Ponta Grossa é um grande exemplo disso, pois se observarmos a cidade e todas as mudanças que vêm sendo feitas, são para melhorar as condições de fluxo para os veículos, não para o cidadão. Desafio você, leitor, a buscar pela memória um lugar da cidade que esteja perfeitamente adaptado ao cidadão. Calçadas, guias de calçadas, sinalização vertical e horizontal, acessibilidade, segurança, local para descanso, água, lixeiras, dentre outros suportes ao pedestre. O mais próximo disso é o calçadão, mas se pensarmos bem, é muito difícil para o pedestre transitar por lá. Muita gente ao mesmo tempo, vendedores ambulantes com seus produtos espalhados de forma desordenada, todo tipo de cheiros e abordagens e com ruas movimentadíssimas cortando o calçadão em toda a sua extensão, sem sinalização, sem faixa elevada e sem preferência para as pessoas.

PROBLEMAS PELA CIDADE TODA

Além disso vários cruzamentos da cidade comportariam há muitos anos a colocação de semáforos, para organizar a passagem de veículos, mas por razões desconhecidas não são colocados.

As faixas de segurança de todas as ruas centrais estão colocadas fora de lugar, pois devido à posição das construções no centro, é impossível para o motorista para antes da faixa porque simplesmente não enxergaria o tráfego na via transversal. E o pedestre precisa se contorcer entre os carros para passar.

Passeios estreitos e com postes pelo meio. Rampas de acesso para cadeirante na posição errada na esquina. Calçadas desniveladas, esburacadas, escorregadias e com vários obstáculos, que obrigam o pedestre a caminhar no asfalto, bem como cadeirantes, mulheres com carrinho de bebê e idosos a disputar espaço com carros e motos.

CIDADE HISTÓRICA

Sempre ouvi falar que pelo fato de sermos uma cidade histórica tudo fica mais difícil de mexer. Fico imaginando como devem ser atrasadas cidades mais antigas que a nossa, tipo Salvador. Certa vez, conversando com um dos responsáveis sobre a colocação de semáforos em alguns cruzamentos da cidade, ele me disse que a colocação do semáforo obrigaria uma espera de dois minutos na esquina, pois o semáforo abre e fecha para cada rua em tempos diferentes (?!?). Enquanto ouvia isso, uma fila iniciando na Rua do Rosário e terminando na Avenida central estava formada há meia hora.

É um problema antigo, que vem se arrastando e dificultando para todos. Talvez o problema histórico da nossa cidade histórica seja o de não olhar o trânsito e o urbanismo com olhos de pedestre e suas necessidades. Afinal a cidade é feita pelas pessoas e para as pessoas.

 

LUGAR DE VELHO É EM CASA

Um dia desses estava no centro da cidade quando escutei alguns garotos reclamando de um senhor idoso que estava andando vagarosamente pela calçada, atrapalhando a pressa da juventude. Um deles até disse que esses velhos não deveriam sair de casa.

Não sei qual sua opinião sobre isso, mas o fato é que a lentidão dos idosos muito se deve ao esforço que fizeram para construir a cidade em que vivemos. Esses velhos foram responsáveis por tudo o que temos à nossa disposição hoje em dia. Cada pedra na calçada, cada novo prédio, cada criança nascida, cada tijolinho da nossa história foi colocado por alguém mais velho que nós.

E todos deveriam reverenciar os idosos, pois viveram numa época em que o mundo era muito mais difícil e a vida não tinha tantas facilidades eletrônicas e tecnológicas como hoje em dia.  Porém o que vemos são situações de flagrante desrespeito à pessoa idosa. Assédio moral, sequestro psicológico, exploração financeira, maus tratos, solidão, esquecimento, falta de atenção à saúde, falta de acessibilidade para o idoso, dentre tantas outras mazelas sociais a que estão expostos.

A VIDA MUDA APÓS OS 60

Tenho a felicidade de ter minha mãe com 82 anos, saudável e atuante, com uma energia e vitalidade impressionantes para a idade. Mas também vejo que a vida dela mudou muito com o passar dos anos, deixando-a mais frágil, com menos potência e necessitando cada vez mais da presença dos filhos e netos, no caso eu, meus irmãos e nossos filhos. Na situação dela existem milhares de outros idosos que necessitam cada vez mais da atenção dos mais jovens, mas que em muitos casos precisam buscar o apoio de estranhos para poderem fazer as coisas do dia a dia. A solidão ronda a terceira idade e cria a condição ideal para que oportunistas surjam, se infiltrem e explorem o idoso. Primeiro com bons serviços, com companhia e com suporte. Criam a dependência emocional e afetiva e então se aproveitam da situação, passando praticamente a anular a vida ativa do idoso, fazendo tudo no lugar deles, tomando decisões por eles, bloqueando e monitorando visitas, até que por fim, tomam conta das finanças da casa e criam a última e crucial dependência: a financeira. E o idoso mesmo sendo o dono da receita, passa a viver com uma vida racionada e controlada por terceiros.

O QUE FAZER

Essas situações são mais comuns do que imaginamos e sair de uma dessas é muito difícil porque a dependência psicológica acaba fazendo com que o idoso aceite a situação e passe a não enxergar a realidade dos fatos. É necessário que os membros da família se aproximem e passem a ocupar os espaços vazios da vida emocional dos mais velhos e, com isso, passem a diminuir a dependência de uma pessoa só, comecem a entender as tramas sociais estabelecidas na casa e passem a dividir a atenção com o oportunista, até o completo expurgo do mesmo. Afinal, tudo o que qualquer pessoa precisa é de amor, atenção e companhia, que no final das contas não custam nada.  E quando você encontrar uma pessoa andando devagar, com cabelos brancos e o rosto esculpido pelo tempo, abra caminho e dê passagem. É certo que ele não ficará jovem novamente, mas você ficará velho, se Deus permitir.