Blog do Canabarro
50 ANOS

 

Dos meus 6 aos 11 anos de idade era hábito passar as férias de julho na casa do meu avô, pai da minha mãe. Ele era agricultor em Piraí do Sul, morava numa casa grande com a Tia Elísia que sempre foi solteira e “cuidava” do vovô.  A casa tinha uma sala enorme de chão batido. Tenho lembranças bastante frescas na minha memória desses períodos que passava lá, e uma das coisas que meu avô me ensinou foi saber quando vai ter geada sentindo o cheiro da atmosfera na noite anterior. Não serve para muita coisa, mas algumas pessoas se impressionam com essa minha habilidade. Mas a lembrança mais viva que tenho era da rotina do meu avô, um senhor com mais de 90 anos. Ele sempre madrugava. Lá pelas 5h da manhã, comia um prato enorme de virado de feijão com ovos e linguiça, tomava café preto extremamente forte, um prato de leite recém ordenhado com farinha de milho, colocava um dedinho de rapé em cada narina, montava em seu cavalo branco e saía para a lida. Passava o dia no campo trabalhando e voltava ao escurecer. Logo após ele iam chegando o tios, primos e agregados que também haviam trabalhado o dia todo na lida do campo. Amarravam seus cavalos na cerca em frente à casa e se juntavam ao meu avô, sentados em bancos forrados com peles de ovelha curtidas, na sala de chão batido. Um deles fazia um fogo de chão no meio da sala, o que afastava o frio do inverno e iam todos se reunindo, passando de mão em mão uma cuia de chimarrão bem quente. A presença das crianças (que eles chamavam de “piruás”) era proibida.

LAVA-PÉS

Ao redor daquela fogueira iam conversando sobre os acontecimentos do dia e os planos para o futuro, enquanto a tia Elísia fazia o jantar no fogão a lenha. Em um determinado momento da conversa meu avô escolhia um dos netos pequenos para que este lavasse os seus pés. Quando chegava perto desse horário era a oportunidade que eu tinha de me juntar aos adultos e ouvir suas histórias, então eu sempre ficava por perto para ser escolhido para a nobre missão e ter permissão para entrar na roda. Era uma cerimônia bastante rebuscada. Preparar a água, que devia ser quente na temperatura certa. Colocar um pelego no chão e uma gamela de madeira em cima. Despejar água quente em seu interior. Tirar as botas e as meias dos pés do meu avô, lavar um pé e depois o outro e secar os dois, e para finalizar, dar a ele o calçado para usar em casa. Todo esse processo levava em torno de 40 minutos. Tempo suficiente para aprender muita coisa, principalmente a humildade de, sem reclamar ou me sentir explorado, lavar os pés do mais velho da casa, em sinal de respeito. Dessa época para cá se passaram 40 anos e eu cheguei ao meio século de vida. Lembro claramente de quando minha mãe completou 50 anos e eu pensava: meu Deus como minha está velha.

A IDADE NÃO É O PROBLEMA

Desde que completei 50 anos tenho vivido um conflito interno, pois tenho consciência que estou caminhando fisicamente para a 3ª idade, mas internamente meu espírito continua jovem. Os pensamentos, planos, projetos e atitudes, que são coisas que vêm de dentro, não enxergam a idade que tenho externamente. O corpo acaba não mais acompanhando o pensamento. Vendo o desenho animado do Pequeno Príncipe (isso mesmo), em um dado momento é dito que crescer não é o problema, o problema é esquecer que foi criança, e isso é o que te envelhece. Isso me trouxe um grande alento, pois tenho em minha memória fatos quentinhos e gostosos de quando eu era criança. Lembro como se fosse hoje dos amigos da escola, dos jogos da inspetoria, dos colegas de trabalho (comecei com 11 anos), dos times de futebol da Rua Tomazina, dos carrinhos de rolimã e das festas de garagem da adolescência. Lembrar da infância e da juventude, sem saudosismo, mas com carinho, nos refresca a alma e nos amolece o coração. Olhe para a sua história e o seu passado sem muitos filtros ou autocrítica, afinal somos o que somos por conta de tudo que vivemos, fizemos, aprendemos e ensinamos durante a nossa caminhada.