Blog do Canabarro
VOCÊ É NORMAL?

Como se define uma pessoa como sendo normal? Quais são os parâmetros que devem ser usados para essa classificação? No meu ponto de vista não existe nenhuma forma de dizer que alguém é normal, afinal existem tantas variações físicas, psicológicas, comportamentais e intelectuais que torna quase impossível criar uma classificação. O normal é não ser normal. Historicamente as diferenças humanas sempre foram tratadas com estranhamento. Famílias que tinham o “infortúnio” de ter um membro com alguma deficiência/síndrome sofriam preconceito, escondiam a pessoa, trancavam em cômodos isolados da casa como se fossem monstros, ou simplesmente davam “um fim” no indivíduo, para se livrar daquela “vergonha”. Isso aconteceu durante a maior parte da história da humanidade, e possivelmente ainda acontece em algum lugar, inclusive perto de nós. Essa era a fase que a pessoa com deficiência ou alguma síndrome eram simplesmente EXCLUÍDAS DA SOCIEDADE. No início do século passado foram criados locais e instituições específicas para “desovar” a pessoa com deficiência/síndrome. Eram levadas para esses lugares, que em muitos casos pareciam com depósitos do que eram chamados de anomalias, servindo como uma espécie de circo de horrores. Apesar disso foi o primeiro avanço no sentido da inclusão porque em maior ou menor grau acabavam recebendo algum atendimento especializado. Essa é a fase da SEGREGAÇÃO, ou seja, separar da sociedade dita normal, mas não abandonar.

INTEGRAÇÃO E INCLUSÃO

A partir dos anos de 1980 iniciou-se ao redor do mundo uma discussão mais profunda sobre a inclusão e muitos países avançaram bastante nesse sentido, na ideia de que em qualquer circunstância trata-se de um ser humano. Adequar o ambiente para que todos tenham condições de uma vida plena passou a ser a tônica dos debates. Passou-se então da segregação para a fase da INTEGRAÇÃO, criando leis que determinavam a oferta de vagas preferenciais em empresas, escolas e instituições para pessoas com deficiência/síndrome. Os centros que serviam de ambientes de segregação tiveram que passar por uma revisão e reinvenção para se adequar à nova realidade, bem como os espaços e instituições que eram destinados às pessoas ditas normais também tiveram que passar por isso. No Brasil foi criado o estatuto da pessoa com deficiência e a lei de cotas nas vagas de trabalho. A inclusão acabou acontecendo de fora para dentro, por força de lei, e nem as empresas/instituições, nem as pessoas estavam preparadas, criando reclamação, retaliação, mais preconceito e até agressividade. Mas foi um grande avanço. A questão é que a propalada INCLUSÃO ainda não acontece de forma plena. Isso verifica-se na falta de adaptação dos ambientes, da falta de acessibilidade, das diferenças salariais, na subutilização da mão de obra e no despreparo das pessoas e profissionais ao redor para receber, acolher e incluir a pessoa com deficiência/síndrome. Ainda estamos na fase da integração e resistindo bastante a isso.

TUDO CONVERGE PARA A ESCOLA

Síndrome de Down, dislalia, dislexia, déficit de atenção, hiperatividade, alcoolismo, drogradição, autismo, transtornos alimentares, TOC, ELA, paralisia cerebral, depressão, bullying, deficiência motora, auditiva, visual e de fala, dificuldades de aprendizado, dificuldades relacionais, vítimas de abuso... são algumas das situações humanas que acabam convergindo para uma sala de aula. E os profissionais ali devem dar conta de todos, ou seja, é preciso investir pesadamente na formação de professores, porque senão todo o esforço vai para o ralo. A legislação determina a integração de todos ao sistema educacional e às escolas é vedado dizer não à matrícula de qualquer caso de busca de inclusão, sob risco de sofrer sanções legais. Porém pior que as sanções legais são as sanções divinas e da própria consciência do indivíduo que nega a matrícula a alguém pelo simples fato de julgar que aquela pessoa é incapaz e que não pode se misturar com o seu povo perfeito.