Cine & TV no DC
Arquitetos do Poder

Arquitetos do Poder (Alessandra Aldé e Vicente Ferraz, 2010). Quem acompanha a coluna sabe da minha opinião: é impossível dissociar arte e realidade. E o cinema que mais abraça tal noção é o documentário. Assim, diante do atual cenário político – tão surreal e tão fidedigno da nossa miséria –, irei analisar nesta e na próxima coluna dois documentários para (tentarmos) compreender um pouco da barbárie que nos ronda.

Ao abordar a simbiose entre mídia e política, Arquitetos do Poder comprova por que ambas as esferas são tão malvistas pela sociedade. Afinal, tanto os meios de comunicação quanto os políticos têm instrumentos para deturpar os fatos em benefício próprio, cabendo ao povo buscar mídias e candidatos transparentes. Mas esta tarefa não é fácil, já que o próprio Duda Mendonça (marqueteiro envolvido no mensalão) confirma: "Todo mundo tem um lado bom e um lado ruim. Numa campanha, é preciso ressaltar o lado bom e tentar neutralizar o ruim". E, apesar de focar mais no período democrático, o filme nos lembra que, já no tempo do rádio, o marketing político era fundamental para as eleições.

Em 1989, ocorre a primeira eleição popular direta em mais de duas décadas no Brasil, e Ronald de Carvalho, então editor de política da TV Globo, afirma, sem pudor, que: "Em 89, as elites influíram nas empresas de comunicação para evitar que Brizola fosse eleito. Era ele quem colocava medo nas elites, e não Lula". Por um lado, a campanha deste último cria o jingle “Lula lá, brilha uma estrela” e tenta a transferência de votos de Brizola para Lula, do 1º para o 2º turno. Já pelo lado de Collor, havia o (ainda atual) "medo de teses marxistas”, e a criação do factoide “caçador de marajás”, muito a partir das atuações da Revista Veja e da TV Globo.

E tal auxílio comprova-se inegável, quando Ronald confessa que, ao editar o debate entre Collor e Lula, para o Jornal Nacional, favoreceu o primeiro: "Eu fiz uma edição na qual dei pesos diferentes a desempenhos diferentes". Mas analisar os desempenhos é algo subjetivo, e o próprio Ronald emenda: "Ações com o objetivo de alterar o resultado das eleições, pelos meios de comunicação, têm que ser feitas com sutileza e habilidade". Seria isto uma confissão? O fato é que, em agosto de 92, Collor sofre impeachment, agora com apoio da Globo, que já não se beneficiava com tal governo.

O pleito de 94 também antagonizou direita e esquerda, desta vez FHC e Lula, com a vitória do sociólogo, que seria reeleito em 98 diante da possibilidade criada pela Emenda nº16, com seus votos comprados. Sobre isso, aponta Fernando Barros (publicitário do PFL): "Quando passou a emenda e foi permitido fazer campanha enquanto estivesse no poder, isso pra mim foi uma delícia, confesso pra você".

As eleições de 2002 e 2006 comprovaram, ainda mais, a força do marketing político. Na primeira, a campanha “Lulinha paz e amor” junto à “Carta aos brasileiros” torna o candidato do PT menos avesso ao mercado. Já na segunda, mesmo diante do mensalão, Lula é reeleito, muito em função de uma economia aquecida e dos programas sociais que implantou, mas também pela campanha feita a partir da máquina política.

Infelizmente, o filme não aborda pós-2009, o que será feito na próxima coluna. Mas isso não significa que não possamos realizar algumas conexões com o período atual. Se antes a televisão e as revistas comandavam as eleições, hoje tal protagonismo é da internet e, portanto, é preciso desconfiar das informações que nela encontramos, checando a veracidade das mesmas. O que não mudou, porém, é a eterna polarização entre esquerda e direta; a constante reeleição de políticos; as promessas fáceis de campanha; e a idolatria a certos representantes. E como todas estas características são vistas na maioria das propagandas no horário eleitoral, é de se perguntar: seu voto é mais orientado pelo marketing político ou pela análise das propostas do(a) candidato(a)?

* ARQUITETOS DO PODER, NO YOUTUBE: https://bit.ly/2NipaLO ou https://bit.ly/2xkDn0J

Ferrugem

- Ferrugem (Aly Muritiba, 2018).

Vencedor dos prêmios de melhor filme e melhor roteiro no Festival de Gramado, além de ter sido nomeado para o grande prêmio do júri do Festival de Sundance, o novo filme de Aly Muritiba, em exibição no Lumière do Total, é um fabuloso estudo das relações sociais pós-modernas.

No século XXI, a vida passa pela internet que, por sua vez, é acessada de forma ininterrupta pelo celular. Tudo é compartilhado, as paisagens são classificadas como “instagramáveis” e as conversas se dão muito mais via aplicativos do que pessoalmente. Assim, sentimentos são expostos por meio de curtidas e outras interações virtuais e, não por acaso, os personagens do filme têm muita dificuldade para dialogar entre si.

É nesta realidade hiper-conectada que a estudante Tatiana (Tifanny Dopke) tem um vídeo íntimo seu compartilhado na internet. Em pouco tempo, toda escola já o assistiu e Tati se torna, de um dia para o outro, conhecida e rejeitada por todos, inclusive por Renê (Giovanni De Lorenzi), seu “crush”, para utilizar uma gíria atual. Nas redes sociais, surgem escritos depreciativos, vários deles reconhecíveis por qualquer internauta que já tenha acessado uma seção de comentários – o que não os torna menos absurdos.

O filme, contudo, reconhece que tais julgamentos sociais não são uma exclusividade deste século. No ano de 1850, por exemplo, Nathaniel Hawthorne publicou o clássico “A Letra Escarlate”, narrando uma história passada no século XVII na qual Hester Prynne era publicamente rejeitada por ter tido uma filha fora do casamento. Não muito diferente de hoje, infelizmente. Passam-se os anos, a sociedade desenvolve novas tecnologias e uma realidade até então inimaginável se molda diante dos nossos olhos. O que não muda é o preconceito, provindo da nossa visão de mundo. E no banheiro da escola de Tati, quase não se veem as paredes, tão cheias de ofensas e julgamentos depreciativos. Lembro que na minha escola pré-celular, os banheiros eram bem parecidos.

Em nossa realidade, tão desenvolvida e tecnológica, Tati não é obrigada a vestir uma roupa bordada com um grande e escarlate “A” de adúltera, tal qual Hester Prynne fora pela sociedade “atrasada” de então, porque seu “pecado” foi virtualizado. Está, portanto, ao acesso imediato de todos e pode ser reproduzido eternamente. Sintomático notar que, a partir de então, a escola da protagonista impede que celulares adentrem na instituição, como se fossem armas, enquanto que uma literal arma de fogo acaba sendo utilizada naquele recinto.

Como se percebe, o filme trata de uma temática presente em qualquer sociedade, mas remodelada para os dias de hoje e envolta por dois protagonistas adolescentes. Eles fumam, bebem, fazem sexo, mas, talvez pela falta de vivência, não parecem perceber as consequências de suas ações ou reconhecer seus próprios vícios. Mas seria esta uma falha exclusiva da adolescência? Em uma determinada cena, quando terminam de comer algo num restaurante, os adolescentes logo tiram seus celulares do bolso, no que o pai de Renê (Enrique Diaz, ótimo como sempre) profere um típico “ê, olha esse vício”, recebendo apenas sorrisos condescendentes. Percebendo que ninguém ali está interessado numa conversa, emenda um “vou ali dar uma fumada e já volto". Não me parece coincidência que todos os jovens do filme também fumem.

Enfim, vícios e julgamentos sociais são típicos de qualquer sociedade, fato que o filme reconhece ao não demonizar seus personagens, mas mostrar as consequências negativas de seus atos. Neste sentido, direção, roteiro e atuações se unem para mostrar que a internet ou a tecnologia não são os verdadeiros inimigos, mas apenas amplificam a sordidez daqueles que a utilizam. Paradoxalmente, o virtual faz do real algo mais palpável.

Missão Impossível - Efeito Fallout

Missão Impossível - Efeito Fallout (Christopher McQuarrie, 2018)

Neste sexto capítulo de uma das franquias de ação mais amadas do cinema, há um diálogo um tanto quanto clichê, mas que o resume bem. Certa mulher pergunta a Luther Stickell (Ving Rhames) – o único outro personagem que participou de todos os seis filmes da série além de Ethan Hunt (Tom Cruise) – como este último estava indo. De resposta, recebe aquele típico “Ah, está o velho Ethan de sempre”. No segundo seguinte, o filme corta para o protagonista aprendendo a pilotar um helicóptero. Em pleno voo! Enquanto foge de rajadas de metralhadora, segundo antes de mergulhar o helicóptero em nuvens, sem saber o que irá encontrar depois delas.

Mas eu sei de uma coisa. E você, sua avó e qualquer pessoa que for assistir ao filme também sabe do seguinte: a missão não é realmente impossível, como o nome indica, certo? Não é spoiler algum, e sabemos o que irá acontecer. Ethan irá sobreviver no final, comprovando a possibilidade da missão. Huuum, não exatamente. Porque este é um dos pontos em que a série se destaca. Hunt não é assim tão infalível.

Já nos primeiros 10 minutos, a equipe dele perde uma carga de plutônio para um grupo terrorista. E, ao longo do filme, ele precisa de (muita!) ajuda para uma luta no banheiro, bate a moto num carro, escorrega numa subida de corda, dentre várias outras ocasiões em que Hunt se mostra minimamente humano. Inclusive na famosa cena vazada no YouTube e aproveitada no filme, na qual ele quebra (de verdade!) a perna, pulando de um prédio para o outro. Em verdade, tudo isso reforça o modo como outra personagem caracteriza a Fundação Missão Impossível: “É como Halloween, com adultos fazendo travessuras”.

Bom, não dá pra discordar muito, já que nenhuma ação é planejada com antecedência. E um dos elementos mais recorrentes da série são as máscaras de disfarce, o que me faz confessar algo: eu, simplesmente, adoro quando elas são utilizadas! Porque quase sempre servem de ferramenta em algumas das reviravoltas. E há várias no caminho, mas nunca excessivas, porque a direção é objetiva o bastante para não perder o foco diante delas. Este sexto episódio de MI, aliás, é o primeiro em que um diretor volta à franquia. McQuarrie foi o responsável pelo anterior, Nação Secreta, e novamente mostra-se competente nas cenas de ação, que têm aquele tom de verossimilhança, porque sabemos que o próprio Tom Cruise é quem está atuando na maioria delas, já que dispensa dublês.

Contudo, o filme decepciona um pouco no desenvolvimento dos personagens, um tanto estereotipados. Enquanto o herói se martiriza porque coloca aqueles à sua volta em perigo, o vilão quer matar milhões para que o sofrimento leve à cooperação internacional e, por fim, à paz. Já vimos isso algumas dezenas de vezes, senão centenas. Sem contar que Tom Cruise até pode ter um desempenho físico invejável, porém não é exatamente conhecido por seus dotes artísticos. Mas dá pra relevar tudo isso, porque, concordando com o que Luther disse lá em cima, este é o velho Ethan de sempre. E isso é ótimo!

Sua missão, caso decida aceitá-la, é ir até o cinema mais próximo e assistir Tom Cruise correndo como um doido, cenas de ação desenfreada, várias reviravoltas, máscaras de disfarce e personagens apenas razoavelmente bem desenvolvidos, mas com a garantia de uma série que entrega sempre um ótimo divertimento (à exceção do segundo episódio, de 2000, que é um lixo). Bom filme, leitor(a). Esta mensagem servirá de embrulho para peixe ou de banheiro para o cachorro nos próximos cinco segundos. 5, 4, 3...

Hannah Gadsby: Nanette

Hannah Gadsby: Nanette (Jon Olb, Madeleine Parry, 2018).

Autoria: Bianca Pereira Sarmento e Pedro Miranda

O texto de hoje é sobre um “stand-up” cômico da Netflix. Mas que também é trágico. E, pior, assustadoramente real. E, melhor, capaz de fazer o espectador enxergar outras perspectivas. Tal como Pablo Picasshole (traduzido como “Pica sem aço”) fez na arte; mas não na própria vida, conforme Hannah nos explicará.

Graduada em História da Arte, Hannah Gadsby é gorda, lésbica e comediante. Se tais rótulos já a colocam à margem, ela explica ser ainda mais marginal. "O problema é que eu não fico 'lesbicando' muito." Ela não vai a festas, não é extrovertida e nem sequer gosta da bandeira do orgulho gay. "Eu faço mais jantares do que 'lesbico', mas ninguém me apresenta como a 'comediante chef', não é?". Por um tempo, as piadas são meio autodepreciativas, e ela faz questão de explicar de onde vêm: "Esconder-se no armário só impede que te vejam, não esconde sua vergonha. Você internaliza a vergonha e aprende a se odiar. E assim, eu transformei tudo em piada, como se nada importasse. Autodepreciação não é humildade. É humilhação."

Só fui ver o show nesta quinta, depois de ler, na internet, o texto de uma amiga, Bianca Pereira Sarmento. Fiquei duplamente arrasado e envergonhado (por meus atos e dos demais homens, especialmente brancos héteros). Representatividade importa e, daqui até o final, as palavras* são de Bianca:

Assim como Hannah, sou uma mulher gorda. Com 4 anos de idade, já ouvia todas as “brincadeiras” em relação a isso. Ser gordo é uma característica, como ter cabelo preto, mas está posto para o mundo que isso é ruim. Assim como Hannah aos 17 anos apanhou de um homem, eu apanhei na escola por ser gorda. Assim como Hannah foi abusada quando criança, aos 13 anos eu também fui abusada por três colegas de classe. Aos 14, usava blusa de frio todos os dias, mesmo com um sol escaldante, pois tinha vergonha dos meus braços e dos meus quadris. Ela também se escondeu por muito tempo, e não conseguiu se assumir gay para sua avó até hoje.

O pior é que isso faz com que eu acredite, até hoje, que não mereço as coisas boas que acontecem na minha vida. O fato de ser uma mulher gorda me faz acreditar que sou inferior, feia e que não possuo inteligência e nem potencial para conseguir o que quero. Há pelo menos 10 anos, não consigo me olhar no espelho sem roupa sem perceber um defeito meu. Às vezes, simplesmente não me olho no espelho. Apesar de racionalmente saber que isso tudo é algo construído nos últimos séculos, ou talvez desde antes do homem ser homem e da mulher ser mulher, dentro do meu coração não consigo tirar tudo de ruim que me foi imposto durante os últimos 20 anos da minha vida.

Assim como Hannah, não quero me mostrar como vítima ao mundo. Gordofobia e feminismo não são vitimismo. A artista finaliza seu show falando que ninguém mais vai enfrenta-la pois “não há nada mais forte do que uma mulher que foi destruída e conseguiu se reconstruir”. E eu também sinto que estou nesse processo.

Nós mulheres não temos mais tempo a esperar. Nós não podemos mais ter paciência com comentários, atitudes, violações, violência e assassinatos. Não podemos mais acordar de manhã e nos sentirmos um lixo ambulante por não acreditarmos em nós mesmas, pois a sensação de fracasso está tão funda na nossa carne que não conseguimos nos limpar.

No início do show, Hannah explica que Nanette era uma mulher que conheceu e a fez pensar que conseguiria tirar uma boa risada dela contando uma de suas piadas autodepreciativas. Nanette não riu e o mundo também não vai mais rir, pois Hannah ficará em silêncio e não vai aliviar a tensão com uma piada. Eu também não vou aliviar pedindo desculpas por existir. Convivam com essa tensão; arregacem as mangas vocês mesmos para resolver tudo isso rápido.

Ela está cansada.

Eu também estou.

 

*link para o texto completo de Bianca: https://bit.ly/2vvNTRe

Precisamos falar sobre os cinemas de Ponta Grossa

Precisamos falar sobre os cinemas de Ponta Grossa.

Você sai do trabalho e volta pra casa, onde tem que cuidar da família, lavar louça e fazer o jantar. E ainda tem o jornal dizendo que o mundo vai de mal a pior, e vizinhos ouvindo [adicione seu inferno musical aqui] no último volume. Cansado(a) de tudo isso, você pensa em fugir desse mundo caótico, por um tempinho que seja. Ir ao cinema é uma boa pedida. Está passando aquele filme que você queria ver! Porém, um aviso: se você mora em Ponta Grossa, até verá o filme, mas não necessariamente ouvirá o que quer. Vamos ser sinceros e dar nomes aos bois? Ou melhor, aos cinemas.

Caso escolha o Cine Araújo do Palladium, as bocas dos atores não estarão sincronizadas às suas falas. Tom Cruise não dirá “fuck” mas, no máximo, um “diabos” com sotaque paulista. Sim, este cinema exibe apenas filmes dublados. Sabendo disso, você, que prefere legendados, escolhe o Cine Lumière do Total, que ainda tem algumas (pouquíssimas) sessões legendadas. Nesta semana, aliás, apenas uma sessão de um filme estrangeiro é legendada! Mas, felizmente, o horário desta sessão é perfeito para você! E o que acontece? Você até assiste ao filme com legendas. Mas o som que ouve é do filme que está passando ao lado, que insiste em invadir a sua sala! Ridículo, pra dizer o mínimo.

Em resumo, ao ponta-grossense que gosta de filmes, resta escolher entre dublados e legendados com "sonorização dupla". E digo isso porque eu mesmo já tive péssimas experiências em ambos os cinemas. No Cine Araújo do Palladium, ou você assiste a filmes dublados ou a filmes dublados. E a experiência pode ser tão ruim, que ainda lembro de Asterix e os Vikings, de 2006, com as vozes de Sabrina Sato, Vesgo e Ceará. Imagine só... Reconheço, é verdade, que, quando feita por profissionais, a dublagem brasileira é das melhores do mundo; mas, ainda assim, é fato que ela deforma a obra original muito mais que as legendas.

Daí que faço questão de deixar claro o seguinte: não sou a favor de se excluírem todos os filmes dublados. Há pessoas que os preferem, seja porque são deficientes visuais ou têm dificuldade para ler legendas (neste caso, sugiro mais leitura de jornais e livros, coisa que falta à maioria dos brasileiros). Mas se não quero o banimento de filmes dublados, muito menos dos legendados. O que desejo é OPÇÃO! Afinal, a livre concorrência do capitalismo não deveria trazer ao consumidor a possibilidade de escolher entre produtos diferenciados?

Sobre isso, aliás, é preciso dizer que praticamente não há diferença entre os filmes exibidos pelos cinemas em questão. Em ambas as programações atuais, há 5 filmes. E destes, 4 estão passando nos dois locais! Caso o Lumière não exibisse o Festival Varilux mês passado e a mencionada única sessão legendada, algum desavisado poderia confundir as duas cadeias cinematográficas em uma só.

E continuando com minhas experiências (in)esquecíveis nos cinemas daqui, lembro de uma vez que, eu mesmo, me confundi. Não os cinemas, porque sabia estar no Cine Lumière do Total. Fiz confusão entre os filmes, porque enquanto via as imagens do terror Um Lugar Silencioso, ouvia o urro de um Tiranossauro Rex, do Jurassic World. Ou seja, pelo preço de um ingresso aproveitei dois filmes! Não é maravilhoso? Não, longe disso.

Enfim, o texto de hoje é dedicado aos dois cinemas de Ponta Grossa, cuja qualidade abaixo do aceitável me faz sair cada vez menos de casa para ver um filme. Se a sua indignação é a mesma que a minha, reclame com os gerentes. Ou compartilhe esta coluna, e marque ambos os cinemas junto às hashtags #cinemacomlegenda #cinemacomsomcerto. Caso não dê em coisa alguma, ao menos este “barulho” (mesmo que virtual) não nos incomodará.

 

Os incríveis 2

- Os incríveis 2 (Brad Bird, 2018).

Há 14 anos, os filmes de super-herói ainda não tinham dominado os cinemas. Mesmo assim – ou, talvez, exatamente por isso, a Pixar resolveu desenvolver sua sexta animação neste universo. E o grande acerto de Os Incríveis foi não se resumir a esta realidade super-humana, sendo, antes de tudo, um filme sobre a família Pêra. Cujos membros, por acaso, têm poderes.

Para tanto, o diretor e roteirista (tanto do original como da sequência) Brad Bird relacionou as habilidades dos personagens às suas características. Segundo o próprio, "Espera-se que os pais sejam fortes; por isso, o criei superforte. Mães são puxadas para 10 direções ao mesmo tempo, então fiz com que ela se esticasse. Adolescentes são inseguros e defensivos, então a garota cria campos de força e tem invisibilidade. E o menino tem super velocidade, porque crianças de 10 anos são bolas de energia".

A continuação de Os Incríveis, em exibição nos dois cinemas de Ponta Grossa, começa de onde o filme de 2004 terminou, aproveitando as características dos personagens, mas agora sob novo enfoque. Se no primeiro filme, os familiares aprendiam a trabalhar em grupo com o auxílio de seus traços definidores, agora a eficácia destes é colocada à prova.

Impedidos de atuar como heróis, porque suas ações causam muitos danos materiais, os protagonistas buscam melhorar sua imagem pública, e já que as ações da Mulher-elástico são menos danosas, é ela quem sai para salvar o mundo, enquanto o Sr. Incrível fica responsável pela família. Assim, por mais que Helena (literalmente) se desdobre para cuidar de seus vários afazeres, não consegue combater o mal e encontrar a roupa do filho, precisando que Beto assuma suas responsabilidades. Mas dentro de casa, a força do esposo não tem muita serventia, especialmente para cuidar do bebê Zezé, que é o destaque do filme! Seus inúmeros poderes, que se manifestam sem aviso, são uma representação hilária (e quase fidedigna, diriam alguns pais) do que é um recém-nascido: seres imprevisíveis, capazes de fazer o inesperado a qualquer momento.

Diante desta dinâmica da mãe “saindo para trabalhar” (que, na verdade, é a mais comum nos lares brasileiros), o pai Beto tem que ensinar matemática para o filho Flecha e lidar com as desilusões amorosas da filha Violeta, aprendendo que "poucas coisas são mais heroicas que ser pai".

E como não bastasse desenvolver muito bem os seus personagens principais (à exceção de Flecha, que não tem um arco bem definido), Os Incríveis 2 vai além, debatendo a responsabilidade pessoal de cada um diante de leis injustas, como aquela que impede atos de heroísmo. Helena argumenta: "Se as leis são injustas, existem leis para muda-las. Se não vira o caos!”, no que Beto, desejando voltar à ativa, pontua: “Mas o caos é exatamente onde estamos". Possíveis danos colaterais são esperados, é claro, mas o próprio filme também aponta uma consequência adversa: "As pessoas querem heróis para protege-los, e se tornam ainda mais passivas".

Ou seja, esta sequência de Os Incríveis aborda, em simultâneo, temas familiares, políticos, sociais (o machismo é o mais proeminente), tudo isso envolto numa bela trilha sonora jazzística de Michael Giacchino, sem se descuidar da ação (a cena na qual a Mulher-elástico, de moto, persegue um trem é de cair o queixo).

Enfim, é uma animação tão boa quanto a original, sendo até melhor que alguns super-filmes atuais, por nos fazer sentir empatia pelos personagens. Afinal, muito mais fácil se reconhecer em um herói que pai ou filho com problemas humanos, do que um herói bilionário (Homem-de-ferro), deus (Thor) ou extraterrestre (Superman).

Unsolved: os assassinatos de Tupac e Notorious B.I.G (1ª temporada)

A ideia da coluna sempre foi analisar tanto obras populares como obscuras, seja do cinema ou da TV. Assim, o foco da vez é esta série da qual pouco se falou no Brasil. Disponível na Netflix desde a semana passada, esta é uma obra sincera. Para começar, o título (não traduzido na plataforma) significa “não resolvido”. Além disso, ao final de cada episódio, há estas frases: "O programa se baseia em fatos, com cenas de ficção. Após 20 anos, a polícia não prendeu nem acusou ninguém". Ou seja, desde o início, o espectador sabe que não verá a resolução dos crimes, mas um panorama geral dos mesmos, que são abordados a partir de três períodos temporais, sempre mostrados em paralelo:

- Em 1993, os rappers norte-americanos Tupac Shakur e Christopher Wallace (este também conhecido por Notorious B.I.G e BiggieSmalls) se encontram. Enquanto Biggie, vindo da costa leste, começava sua carreira, Tupac já era um famoso rapper da costa oeste. E, apesar da rivalidade entre as regiões, se tornam amigos, porque reconhecem um no outro certas bases da cultura hip hop: o fato de pertencerem a uma minoria (no caso, negra, num país racista), e terem tido infâncias pobres. Sem contar o talento de ambos, que fez nascer uma admiração mútua.

- Em 1996, Tupac, aos 25 anos, é assassinado a tiros, em Las Vegas. No ano seguinte, o agora também famoso Biggie é morto de forma similar, a 400km dali, em Los Angeles. Tinha só 24 anos. Com isso, passamos a acompanhar a investigação dos detetives Russel Poole e Fred Miller, sobre este último crime. Eventualmente, as duas mortes irão se cruzar, mostrando que a rivalidade rapper entre a costa leste e oeste não se limitou à música, concretizando-se numa disputa por poder, alimentada por boatos e, principalmente, testosterona.

- Uma década depois, a mãe de Biggie entra com um processo contra a polícia de Los Angeles, pela sua inércia, já que, depois de todo este tempo, não havia resolvido o crime. Assim, em 2006, uma força-tarefa, comandada por Greg Kading, é montada para resolver, de vez, o homicídio. Ou, ao menos, retirar um pouco da responsabilidade da polícia, já que Poole havia recolhido, na sua época, vários indícios de corrupção policial no caso, mas sem conseguir prova definitiva.

O ponto positivo da série é costurar, em paralelo, as três narrativas, sem deixar o roteiro confuso. A direção dos episódios, em especial os comandados por Hemingway, também é muito boa, assim como as atuações em geral. Há que se destacar a caracterização de WavyyJonez e Marcc Rose,que ficaram muito parecidos com os rappers.

Por outro lado, a série perde pontos ao não detalhar melhor a história de suas próprias estrelas: as vítimas Tupac e Biggie. O que definia a cultura hip-hop da época? Por que a correlação entre violência e suas letras? Pouquíssimo da realidade de ambos é mostrada, nos fazendo acompanhar as (desinteressantes) vidas dos policiais Poole e Kading. Ademais, são poucos os momentos em que a série mostra as músicas de seus astros, como se tivesse vergonha delas, apesar de fazerem parte desta história.

Enfim, por focar muito mais na investigação, a série se assemelha à 1ª temporada de American Crime Story, que se debruçava somente sobre o julgamento de O.J. Simpson. Não que sejam séries ruins, porque conferem tensão e divertimento. Mas não chegam perto do excelente OJ: Made in America, da ESPN, muito mais rico por não abordar só os crimes, mas toda a realidade em volta. Porque um crime nunca é somente isso, mas, sim, a consequência de uma realidade muito mais complexa.Que, desta vez, não fica clara qual é.

Festival Varilux de Cinema Francês 2018

A maioria dos filmes lançados no Brasil é provinda dos EUA. Não sou eu quem diz isso, mas o último Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro, de 2016. Segundo ele, desde de 2009, foram lançados no país 2.894 filmes. Destes, 1.049 (35%) eram dos EUA. É verdade que o Brasil não fica muito atrás, pois encontra-se em segundo lugar, com 858 (29%). Contudo, há um outro fator a se considerar: moramos numa cidade de porte médio com apenas dois cinemas, e os filmes que aqui chegam são mais populares. Daí que, em se tratando de Ponta Grossa e região, os filmes dos EUA “ganham de lavada”. Por isso, iniciativas como a do Festival Varilux de Cinema são fundamentais, já que promovem uma diversificação cultural.

Mas, afinal, o que é o Festival Varilux? Basicamente, é uma mostra que, este ano, conta com 20 filmes franceses e ocorre em 88 cidades (!) do Brasil, de 07 a 20 de junho. Em Ponta Grossa, o Festival ocorre no Cinema Lumière do Shopping Total, e a programação encontra-se neste link: http://variluxcinefrances.com/2018/cidade/ponta-grossa-pr/

A variedade de gêneros é o chamativo da mostra, contando com dramas, comédias, animação e, até mesmo, um terror com zumbis! Por serem, à exceção do clássico Z, todos lançamentos, ainda não tive oportunidade de conferir os filmes, mas tenho três apostas, e um bônus, que gostaria de dividir com vocês:

- O amante duplo: suspense psicológico que trata do conceito de “duplo”, tendo como protagonista uma jovem que se apaixona por seu psicoterapeuta. Já seria o bastante para me fisgar, porque a temática do duplo é das minhas favoritas, responsável ou por obras-primas, como Um corpo que cai (1958), ou de filmes, ao menos, criativos, como Lunar (2009). Mas, além disso, o diretor é François Ozon, dos mais inventivos da nova geração francesa, três vezes indicado à Palma de Ouro, a última por esta obra.

- Primavera em Casablanca: eu já havia gostado deste filme quando um amigo me disse que ele fazia referência ao clássico de 1942. Porém, ao ver que foi dirigido por Nabil Ayouch, responsável pelo ótimo Os cavalos de Deus (2012), e saber que o filme trata sobre a Primavera Árabe e suas consequências, a partir de uma narrativa multifacetada com cinco personagens bastante diversos entre si, fiquei ainda mais interessado.

- O Retorno do Herói: para não ficarmos apenas em dicas de filmes sérios, aqui vai uma comédia da época napoleônica que, como a maioria das obras ambientadas no passado, acaba por reexaminar o nosso próprio tempo. É a velha guerra dos sexos, no caso sobre um falastrão, o capitão Neuville, e uma moça séria, Elisabeth. Se a sinopse não lhe chamou a atenção, sugiro procurar o trailer, que me ganhou com a ótima dupla de atores Mélanie Laurent e Jean Dujardin.

Poderia, ainda, falar dos outros 16 filmes, mas, por falta de espaço (e, provavelmente, paciência dos leitores), me atenho ao clássico do Festival: o filme Z, dirigido por Costa-Gavras em 1969. Inegável, e infelizmente, atualíssima, a obra foi realizada sob o clima de maio de 68 (analisado na coluna anterior), e tem como assunto o assassinato de um político democrático, contrário ao regime ditatorial da época. Ocorrido no meio de uma manifestação popular, inicia-se uma investigação sobre o crime, que irá abalar as estruturas políticas de então e sua “narrativa oficial”. Interessante observar que, no filme, a esperança da retomada democrática residia na Justiça, que, por meio de seu procurador (isento e apolítico), buscava apenas e tão somente a verdade, sem eventuais favorecimentos às supostas “esquerda” ou “direita”. Se utópico ou realista, fica aos espectadores o debate, junto com um pedido: seja vendo os filmes aqui indicados ou quaisquer outros, prestigie o Festival Varilux de 2018!

'O amante duplo' é um dos destaques do Festival em 2018

 

Maio de 68 (não só) no cinema

Maio de 2018 ficará marcado na história. Não sei por quanto tempo, mas, por alguns anos, lembraremos como a paralisação (locaute ou greve?) dos caminhoneiros mostrou a dependência de um país para com esta categoria tão desvalorizada, mas com enorme potencial cooperativo. Como tal acontecimento afetará as eleições, políticas públicas e/ou nosso modo de pensar e agir, não faço ideia, mas é inegável que haverá uma repercussão social a acompanhar tais atos. Sempre há.

Vide as Jornadas de Junho de 2013 e a Primavera Estudantil de 2016, que promoveram debates sobre política, direitos e cidadania, mais profícuos que qualquer sala de aula pode proporcionar, com reflexos (negativos ou positivos?) ainda hoje sentidos. Mas o que o cinema tem a ver com isso? Ora, ao reinterpretar a realidade, os filmes acabam por integrar o debate. Por exemplo, Branco sai, preto fica (2014); Que horas ela volta? (2015); e Aquarius (2016), cada qual a seu modo, amplificaram as questões do período.

Mas nenhuma outra manifestação repercutiu tanto no mundo – e, por certo, no cinema – como a que faz 50 anos este mês: o Maio de 1968 na França. O contexto histórico, sem dúvida, ajudou. No campo social, surgia a 2ª onda do movimento feminista – em 65, as mulheres francesas casadas recebiam o direito de trabalhar sem permissão do marido; no mesmo ano, a Suécia se torna o primeiro país capitalista a criminalizar o estupro marital; já em 66, Yves Saint Laurent cria o smoking feminino –, e o movimento negro sofreria dois revezes – Malcolm X é assassinado em 65, e Martin Luther King em 68. Na esfera política, a Guerra Fria trazia reflexos nefastos para o mundo, inclusive milhões de mortos no Vietnã. No Brasil, a repressão surgia dos atos institucionais outorgados pela ditadura. Combativa, a cultura respondia e, enquanto no Brasil Caetano Veloso cantava “Eu digo não ao não. Eu digo: é proibido proibir!”, o musical Hair estreava na Broadway dos EUA. E o cinema lançava obras-primas como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964); A batalha de Argel (1966); e Bonnie e Clyde (1967).

É neste clima que estudantes franceses, em março de 68, se manifestam por reformas educacionais, evoluindo para uma greve geral que balançou o governo de Charles de Gaulle, fazendo-o renunciar no ano seguinte. No apogeu do movimento, em maio, quase 2/3 dos trabalhadores cruzaram os braços. Já as passeatas – como, infelizmente, parece ser regra nos manifestos populares – tinham a repressão policial como resposta do Governo, deixando inúmeros feridos. E se todos estes fatos já conectam tal período à nossa realidade, os grafites de então deixam isso ainda mais claro: “Consuma mais, viva menos”; “Eleições são uma armadilha para idiotas”; e “Isso diz respeito a todos nós”.

Como nos outros casos, a cultura também entrou na luta. Em Agosto de 68,os Beatles lançavam Revolution, e os Rolling Stones, a muito mais contestadora Street Fighting Man. Já no ano seguinte, ocorreria o Festival Woodstock. No cinema, o Festival de Cannes seria interrompido pela única vez na história; e, no ano seguinte, o filme Se..., inspirado nos atos franceses, ganharia a Palma de Ouro. Aliás, é difícil enumerar todos os filmes que de alguma forma devem àquele maio, como Sem Destino (1969); Tudo vai bem (1972); e A Mãe e a Puta (1973). E mesmo os mais atuais Os Sonhadores (2003); Edukators (2004); e Depois de maio (2012).

Enfim, depois daquele maio, o mundo nunca mais foi o mesmo. E, ainda que de modo totalmente diverso, a situação atual também passa por transformações, debates e instabilidades. Portanto, para quem quiser compreender mais do hoje, fica a dica: acompanhe a cultura, inclusive aquela que não está nas livrarias ou nos cinemas do shopping.

Manifestação em Paris, 1968 (Foto vientosur.info)

 

Um corpo que cai

Um corpo que cai (Alfred Hitchcock, 1958)

Por Pedro Miranda

Não é sem motivo que, 38 anos depois de sua morte, Hitchcock seja conhecido como “mestre do suspense” até por quem nunca assistiu a um filme seu. Porém, nem sempre ele foi considerado assim, pois havia, até meados de 60, um menosprezo da crítica pelo gênero suspense. Isso mudaria com a publicação de “Hitchcock/Trufaut”, revelando ao resto do mundo o que só a França parecia enxergar: Hitch era um gênio.

Desde então, sua obra tem sido objeto de revisões. Em 2012, na sua lista decenal dos melhores filmes de todos os tempos, a revista britânica Sight&Sound rebaixou Cidadão Kane, o campeão desde 1962, para o 2º lugar, elegendo Um corpo que cai em 1º. Uma redenção merecida para um filme que teve recepção morna quando de seu lançamento, em maio de 1958.

Hoje, ao revê-lo com a relativa imparcialidade que o distanciamento histórico nos permite, compreende-se o estranhamento. Não é um filme fácil, contendo elementos de vários gêneros, exigindo do espectador atenção constante. Desde os créditos iniciais, criados por Saul Bass, a obra já se coloca de modo diferenciado, evocando cores e linhas arrojadas, tudo embalado pela sinistra trilha de Bernard Hermann. É um filme sensorial e que não tem receio de alterar sua narrativa e seu tom durante a projeção.

A história começa com o policial John Ferguson percebendo que tem acrofobia (medo de altura), pois, ao pular de um telhado a outro numa perseguição, agarra-se a um parapeito e fica paralisado. E quando um colega tenta salvá-lo, acaba caindo. Por isso, John sai da polícia, e aceita um caso simples como detetive: seguir Madeleine, mulher de um antigo amigo. Não que este desconfie de traição, mas sim que ela esteja possuída pela falecida Carlota Vadez, por quem Madeleine é obcecada, copiando dela os acessórios, as roupas e o penteado – que, num “toque do mestre”, é um coque em espiral, nos remetendo à vertigem do protagonista.

Até então, o filme se mostra como uma história de detetive com toques sobrenaturais, mas depois que John salva Madeleine de um afogamento, os dois acabam se apaixonando, fazendo-nos acompanhar um abreviado romance. Porque, ao levar Madeleine a um mosteiro, que era objeto de alucinações da moça, John não consegue, em função de sua fobia, segui-la até uma alta torre, de onde ela se suicida.

A terceira parte, desta clássica estrutura de três atos, se inicia com John culpando-se pelas duas mortes. Até que conhece Judy, e ela é, tal e qual, uma sósia de Madeleine. A partir daí, Judy torna-se objeto da obsessão (quase necrófila, como Hitch viria a confessar) de John, que a obriga a se vestir, a se maquiar e, claro, se pentear como Madeleine. A anulação por qual John faz Judy passar nos mostram uma faceta assustadora dele, quase enlouquecido em “reviver” sua amada, convertendo esta última parte da história em um suspense inigualável.

O final ainda nos reserva várias surpresas, porém sem, necessariamente, dar todas as respostas, sempre utilizando o caráter psicológico dos personagens para nos entregar um filme que ainda influencia, tanto narrativa quanto tecnicamente, o cinema atual. Mas que, dificilmente, será superado por ele.