Cine & TV no DC
Os incríveis 2

- Os incríveis 2 (Brad Bird, 2018).

Há 14 anos, os filmes de super-herói ainda não tinham dominado os cinemas. Mesmo assim – ou, talvez, exatamente por isso, a Pixar resolveu desenvolver sua sexta animação neste universo. E o grande acerto de Os Incríveis foi não se resumir a esta realidade super-humana, sendo, antes de tudo, um filme sobre a família Pêra. Cujos membros, por acaso, têm poderes.

Para tanto, o diretor e roteirista (tanto do original como da sequência) Brad Bird relacionou as habilidades dos personagens às suas características. Segundo o próprio, "Espera-se que os pais sejam fortes; por isso, o criei superforte. Mães são puxadas para 10 direções ao mesmo tempo, então fiz com que ela se esticasse. Adolescentes são inseguros e defensivos, então a garota cria campos de força e tem invisibilidade. E o menino tem super velocidade, porque crianças de 10 anos são bolas de energia".

A continuação de Os Incríveis, em exibição nos dois cinemas de Ponta Grossa, começa de onde o filme de 2004 terminou, aproveitando as características dos personagens, mas agora sob novo enfoque. Se no primeiro filme, os familiares aprendiam a trabalhar em grupo com o auxílio de seus traços definidores, agora a eficácia destes é colocada à prova.

Impedidos de atuar como heróis, porque suas ações causam muitos danos materiais, os protagonistas buscam melhorar sua imagem pública, e já que as ações da Mulher-elástico são menos danosas, é ela quem sai para salvar o mundo, enquanto o Sr. Incrível fica responsável pela família. Assim, por mais que Helena (literalmente) se desdobre para cuidar de seus vários afazeres, não consegue combater o mal e encontrar a roupa do filho, precisando que Beto assuma suas responsabilidades. Mas dentro de casa, a força do esposo não tem muita serventia, especialmente para cuidar do bebê Zezé, que é o destaque do filme! Seus inúmeros poderes, que se manifestam sem aviso, são uma representação hilária (e quase fidedigna, diriam alguns pais) do que é um recém-nascido: seres imprevisíveis, capazes de fazer o inesperado a qualquer momento.

Diante desta dinâmica da mãe “saindo para trabalhar” (que, na verdade, é a mais comum nos lares brasileiros), o pai Beto tem que ensinar matemática para o filho Flecha e lidar com as desilusões amorosas da filha Violeta, aprendendo que "poucas coisas são mais heroicas que ser pai".

E como não bastasse desenvolver muito bem os seus personagens principais (à exceção de Flecha, que não tem um arco bem definido), Os Incríveis 2 vai além, debatendo a responsabilidade pessoal de cada um diante de leis injustas, como aquela que impede atos de heroísmo. Helena argumenta: "Se as leis são injustas, existem leis para muda-las. Se não vira o caos!”, no que Beto, desejando voltar à ativa, pontua: “Mas o caos é exatamente onde estamos". Possíveis danos colaterais são esperados, é claro, mas o próprio filme também aponta uma consequência adversa: "As pessoas querem heróis para protege-los, e se tornam ainda mais passivas".

Ou seja, esta sequência de Os Incríveis aborda, em simultâneo, temas familiares, políticos, sociais (o machismo é o mais proeminente), tudo isso envolto numa bela trilha sonora jazzística de Michael Giacchino, sem se descuidar da ação (a cena na qual a Mulher-elástico, de moto, persegue um trem é de cair o queixo).

Enfim, é uma animação tão boa quanto a original, sendo até melhor que alguns super-filmes atuais, por nos fazer sentir empatia pelos personagens. Afinal, muito mais fácil se reconhecer em um herói que pai ou filho com problemas humanos, do que um herói bilionário (Homem-de-ferro), deus (Thor) ou extraterrestre (Superman).

Unsolved: os assassinatos de Tupac e Notorious B.I.G (1ª temporada)

A ideia da coluna sempre foi analisar tanto obras populares como obscuras, seja do cinema ou da TV. Assim, o foco da vez é esta série da qual pouco se falou no Brasil. Disponível na Netflix desde a semana passada, esta é uma obra sincera. Para começar, o título (não traduzido na plataforma) significa “não resolvido”. Além disso, ao final de cada episódio, há estas frases: "O programa se baseia em fatos, com cenas de ficção. Após 20 anos, a polícia não prendeu nem acusou ninguém". Ou seja, desde o início, o espectador sabe que não verá a resolução dos crimes, mas um panorama geral dos mesmos, que são abordados a partir de três períodos temporais, sempre mostrados em paralelo:

- Em 1993, os rappers norte-americanos Tupac Shakur e Christopher Wallace (este também conhecido por Notorious B.I.G e BiggieSmalls) se encontram. Enquanto Biggie, vindo da costa leste, começava sua carreira, Tupac já era um famoso rapper da costa oeste. E, apesar da rivalidade entre as regiões, se tornam amigos, porque reconhecem um no outro certas bases da cultura hip hop: o fato de pertencerem a uma minoria (no caso, negra, num país racista), e terem tido infâncias pobres. Sem contar o talento de ambos, que fez nascer uma admiração mútua.

- Em 1996, Tupac, aos 25 anos, é assassinado a tiros, em Las Vegas. No ano seguinte, o agora também famoso Biggie é morto de forma similar, a 400km dali, em Los Angeles. Tinha só 24 anos. Com isso, passamos a acompanhar a investigação dos detetives Russel Poole e Fred Miller, sobre este último crime. Eventualmente, as duas mortes irão se cruzar, mostrando que a rivalidade rapper entre a costa leste e oeste não se limitou à música, concretizando-se numa disputa por poder, alimentada por boatos e, principalmente, testosterona.

- Uma década depois, a mãe de Biggie entra com um processo contra a polícia de Los Angeles, pela sua inércia, já que, depois de todo este tempo, não havia resolvido o crime. Assim, em 2006, uma força-tarefa, comandada por Greg Kading, é montada para resolver, de vez, o homicídio. Ou, ao menos, retirar um pouco da responsabilidade da polícia, já que Poole havia recolhido, na sua época, vários indícios de corrupção policial no caso, mas sem conseguir prova definitiva.

O ponto positivo da série é costurar, em paralelo, as três narrativas, sem deixar o roteiro confuso. A direção dos episódios, em especial os comandados por Hemingway, também é muito boa, assim como as atuações em geral. Há que se destacar a caracterização de WavyyJonez e Marcc Rose,que ficaram muito parecidos com os rappers.

Por outro lado, a série perde pontos ao não detalhar melhor a história de suas próprias estrelas: as vítimas Tupac e Biggie. O que definia a cultura hip-hop da época? Por que a correlação entre violência e suas letras? Pouquíssimo da realidade de ambos é mostrada, nos fazendo acompanhar as (desinteressantes) vidas dos policiais Poole e Kading. Ademais, são poucos os momentos em que a série mostra as músicas de seus astros, como se tivesse vergonha delas, apesar de fazerem parte desta história.

Enfim, por focar muito mais na investigação, a série se assemelha à 1ª temporada de American Crime Story, que se debruçava somente sobre o julgamento de O.J. Simpson. Não que sejam séries ruins, porque conferem tensão e divertimento. Mas não chegam perto do excelente OJ: Made in America, da ESPN, muito mais rico por não abordar só os crimes, mas toda a realidade em volta. Porque um crime nunca é somente isso, mas, sim, a consequência de uma realidade muito mais complexa.Que, desta vez, não fica clara qual é.

Festival Varilux de Cinema Francês 2018

A maioria dos filmes lançados no Brasil é provinda dos EUA. Não sou eu quem diz isso, mas o último Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro, de 2016. Segundo ele, desde de 2009, foram lançados no país 2.894 filmes. Destes, 1.049 (35%) eram dos EUA. É verdade que o Brasil não fica muito atrás, pois encontra-se em segundo lugar, com 858 (29%). Contudo, há um outro fator a se considerar: moramos numa cidade de porte médio com apenas dois cinemas, e os filmes que aqui chegam são mais populares. Daí que, em se tratando de Ponta Grossa e região, os filmes dos EUA “ganham de lavada”. Por isso, iniciativas como a do Festival Varilux de Cinema são fundamentais, já que promovem uma diversificação cultural.

Mas, afinal, o que é o Festival Varilux? Basicamente, é uma mostra que, este ano, conta com 20 filmes franceses e ocorre em 88 cidades (!) do Brasil, de 07 a 20 de junho. Em Ponta Grossa, o Festival ocorre no Cinema Lumière do Shopping Total, e a programação encontra-se neste link: http://variluxcinefrances.com/2018/cidade/ponta-grossa-pr/

A variedade de gêneros é o chamativo da mostra, contando com dramas, comédias, animação e, até mesmo, um terror com zumbis! Por serem, à exceção do clássico Z, todos lançamentos, ainda não tive oportunidade de conferir os filmes, mas tenho três apostas, e um bônus, que gostaria de dividir com vocês:

- O amante duplo: suspense psicológico que trata do conceito de “duplo”, tendo como protagonista uma jovem que se apaixona por seu psicoterapeuta. Já seria o bastante para me fisgar, porque a temática do duplo é das minhas favoritas, responsável ou por obras-primas, como Um corpo que cai (1958), ou de filmes, ao menos, criativos, como Lunar (2009). Mas, além disso, o diretor é François Ozon, dos mais inventivos da nova geração francesa, três vezes indicado à Palma de Ouro, a última por esta obra.

- Primavera em Casablanca: eu já havia gostado deste filme quando um amigo me disse que ele fazia referência ao clássico de 1942. Porém, ao ver que foi dirigido por Nabil Ayouch, responsável pelo ótimo Os cavalos de Deus (2012), e saber que o filme trata sobre a Primavera Árabe e suas consequências, a partir de uma narrativa multifacetada com cinco personagens bastante diversos entre si, fiquei ainda mais interessado.

- O Retorno do Herói: para não ficarmos apenas em dicas de filmes sérios, aqui vai uma comédia da época napoleônica que, como a maioria das obras ambientadas no passado, acaba por reexaminar o nosso próprio tempo. É a velha guerra dos sexos, no caso sobre um falastrão, o capitão Neuville, e uma moça séria, Elisabeth. Se a sinopse não lhe chamou a atenção, sugiro procurar o trailer, que me ganhou com a ótima dupla de atores Mélanie Laurent e Jean Dujardin.

Poderia, ainda, falar dos outros 16 filmes, mas, por falta de espaço (e, provavelmente, paciência dos leitores), me atenho ao clássico do Festival: o filme Z, dirigido por Costa-Gavras em 1969. Inegável, e infelizmente, atualíssima, a obra foi realizada sob o clima de maio de 68 (analisado na coluna anterior), e tem como assunto o assassinato de um político democrático, contrário ao regime ditatorial da época. Ocorrido no meio de uma manifestação popular, inicia-se uma investigação sobre o crime, que irá abalar as estruturas políticas de então e sua “narrativa oficial”. Interessante observar que, no filme, a esperança da retomada democrática residia na Justiça, que, por meio de seu procurador (isento e apolítico), buscava apenas e tão somente a verdade, sem eventuais favorecimentos às supostas “esquerda” ou “direita”. Se utópico ou realista, fica aos espectadores o debate, junto com um pedido: seja vendo os filmes aqui indicados ou quaisquer outros, prestigie o Festival Varilux de 2018!

'O amante duplo' é um dos destaques do Festival em 2018

 

Maio de 68 (não só) no cinema

Maio de 2018 ficará marcado na história. Não sei por quanto tempo, mas, por alguns anos, lembraremos como a paralisação (locaute ou greve?) dos caminhoneiros mostrou a dependência de um país para com esta categoria tão desvalorizada, mas com enorme potencial cooperativo. Como tal acontecimento afetará as eleições, políticas públicas e/ou nosso modo de pensar e agir, não faço ideia, mas é inegável que haverá uma repercussão social a acompanhar tais atos. Sempre há.

Vide as Jornadas de Junho de 2013 e a Primavera Estudantil de 2016, que promoveram debates sobre política, direitos e cidadania, mais profícuos que qualquer sala de aula pode proporcionar, com reflexos (negativos ou positivos?) ainda hoje sentidos. Mas o que o cinema tem a ver com isso? Ora, ao reinterpretar a realidade, os filmes acabam por integrar o debate. Por exemplo, Branco sai, preto fica (2014); Que horas ela volta? (2015); e Aquarius (2016), cada qual a seu modo, amplificaram as questões do período.

Mas nenhuma outra manifestação repercutiu tanto no mundo – e, por certo, no cinema – como a que faz 50 anos este mês: o Maio de 1968 na França. O contexto histórico, sem dúvida, ajudou. No campo social, surgia a 2ª onda do movimento feminista – em 65, as mulheres francesas casadas recebiam o direito de trabalhar sem permissão do marido; no mesmo ano, a Suécia se torna o primeiro país capitalista a criminalizar o estupro marital; já em 66, Yves Saint Laurent cria o smoking feminino –, e o movimento negro sofreria dois revezes – Malcolm X é assassinado em 65, e Martin Luther King em 68. Na esfera política, a Guerra Fria trazia reflexos nefastos para o mundo, inclusive milhões de mortos no Vietnã. No Brasil, a repressão surgia dos atos institucionais outorgados pela ditadura. Combativa, a cultura respondia e, enquanto no Brasil Caetano Veloso cantava “Eu digo não ao não. Eu digo: é proibido proibir!”, o musical Hair estreava na Broadway dos EUA. E o cinema lançava obras-primas como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964); A batalha de Argel (1966); e Bonnie e Clyde (1967).

É neste clima que estudantes franceses, em março de 68, se manifestam por reformas educacionais, evoluindo para uma greve geral que balançou o governo de Charles de Gaulle, fazendo-o renunciar no ano seguinte. No apogeu do movimento, em maio, quase 2/3 dos trabalhadores cruzaram os braços. Já as passeatas – como, infelizmente, parece ser regra nos manifestos populares – tinham a repressão policial como resposta do Governo, deixando inúmeros feridos. E se todos estes fatos já conectam tal período à nossa realidade, os grafites de então deixam isso ainda mais claro: “Consuma mais, viva menos”; “Eleições são uma armadilha para idiotas”; e “Isso diz respeito a todos nós”.

Como nos outros casos, a cultura também entrou na luta. Em Agosto de 68,os Beatles lançavam Revolution, e os Rolling Stones, a muito mais contestadora Street Fighting Man. Já no ano seguinte, ocorreria o Festival Woodstock. No cinema, o Festival de Cannes seria interrompido pela única vez na história; e, no ano seguinte, o filme Se..., inspirado nos atos franceses, ganharia a Palma de Ouro. Aliás, é difícil enumerar todos os filmes que de alguma forma devem àquele maio, como Sem Destino (1969); Tudo vai bem (1972); e A Mãe e a Puta (1973). E mesmo os mais atuais Os Sonhadores (2003); Edukators (2004); e Depois de maio (2012).

Enfim, depois daquele maio, o mundo nunca mais foi o mesmo. E, ainda que de modo totalmente diverso, a situação atual também passa por transformações, debates e instabilidades. Portanto, para quem quiser compreender mais do hoje, fica a dica: acompanhe a cultura, inclusive aquela que não está nas livrarias ou nos cinemas do shopping.

Manifestação em Paris, 1968 (Foto vientosur.info)

 

Um corpo que cai

Um corpo que cai (Alfred Hitchcock, 1958)

Por Pedro Miranda

Não é sem motivo que, 38 anos depois de sua morte, Hitchcock seja conhecido como “mestre do suspense” até por quem nunca assistiu a um filme seu. Porém, nem sempre ele foi considerado assim, pois havia, até meados de 60, um menosprezo da crítica pelo gênero suspense. Isso mudaria com a publicação de “Hitchcock/Trufaut”, revelando ao resto do mundo o que só a França parecia enxergar: Hitch era um gênio.

Desde então, sua obra tem sido objeto de revisões. Em 2012, na sua lista decenal dos melhores filmes de todos os tempos, a revista britânica Sight&Sound rebaixou Cidadão Kane, o campeão desde 1962, para o 2º lugar, elegendo Um corpo que cai em 1º. Uma redenção merecida para um filme que teve recepção morna quando de seu lançamento, em maio de 1958.

Hoje, ao revê-lo com a relativa imparcialidade que o distanciamento histórico nos permite, compreende-se o estranhamento. Não é um filme fácil, contendo elementos de vários gêneros, exigindo do espectador atenção constante. Desde os créditos iniciais, criados por Saul Bass, a obra já se coloca de modo diferenciado, evocando cores e linhas arrojadas, tudo embalado pela sinistra trilha de Bernard Hermann. É um filme sensorial e que não tem receio de alterar sua narrativa e seu tom durante a projeção.

A história começa com o policial John Ferguson percebendo que tem acrofobia (medo de altura), pois, ao pular de um telhado a outro numa perseguição, agarra-se a um parapeito e fica paralisado. E quando um colega tenta salvá-lo, acaba caindo. Por isso, John sai da polícia, e aceita um caso simples como detetive: seguir Madeleine, mulher de um antigo amigo. Não que este desconfie de traição, mas sim que ela esteja possuída pela falecida Carlota Vadez, por quem Madeleine é obcecada, copiando dela os acessórios, as roupas e o penteado – que, num “toque do mestre”, é um coque em espiral, nos remetendo à vertigem do protagonista.

Até então, o filme se mostra como uma história de detetive com toques sobrenaturais, mas depois que John salva Madeleine de um afogamento, os dois acabam se apaixonando, fazendo-nos acompanhar um abreviado romance. Porque, ao levar Madeleine a um mosteiro, que era objeto de alucinações da moça, John não consegue, em função de sua fobia, segui-la até uma alta torre, de onde ela se suicida.

A terceira parte, desta clássica estrutura de três atos, se inicia com John culpando-se pelas duas mortes. Até que conhece Judy, e ela é, tal e qual, uma sósia de Madeleine. A partir daí, Judy torna-se objeto da obsessão (quase necrófila, como Hitch viria a confessar) de John, que a obriga a se vestir, a se maquiar e, claro, se pentear como Madeleine. A anulação por qual John faz Judy passar nos mostram uma faceta assustadora dele, quase enlouquecido em “reviver” sua amada, convertendo esta última parte da história em um suspense inigualável.

O final ainda nos reserva várias surpresas, porém sem, necessariamente, dar todas as respostas, sempre utilizando o caráter psicológico dos personagens para nos entregar um filme que ainda influencia, tanto narrativa quanto tecnicamente, o cinema atual. Mas que, dificilmente, será superado por ele.

Os Vingadores: Guerra Infinita

- Os Vingadores: Guerra Infinita (Anthony Russo, Joe Russo, 2018).

Em abril de 2008, estreava o Homem de Ferro, por meio do qual a Marvel iniciou seu universo cinematográfico. Dez anos e dezoito filmes depois, surge o ápice deste planejamento, um longa-metragem que tem mais de 70 personagens em tela, entre (super)heróis e vilões provindos dos quadrinhos. Em outras palavras, não se trata de um filme, mas de um evento. Dito isso, Guerra Infinita é uma obra feita para os fãs que acompanharam as histórias deste universo, não se preocupando em apresentar novamente personagens já tão familiares ou referenciar acontecimentos passados. Por isso, sugiro ao leitor não iniciar sua “experiência marvética” com este filme.

Aliás, Guerra Infinita não faz sequer questão de começar uma história própria, iniciando do final de Thor: Ragnarok e já reintroduzindo Thanos, que, até então, havia aparecido muito pouco nos filmes anteriores. Contudo, tal ausência é compensada aqui, porque, apesar de juntar dezenas de personagens, este é, sem dúvida, um conto de Thanos. O que é incrível, pois, mesmo sendo um vilão, ele é, sem dúvida, o protagonista do filme, demonstrando muito mais complexidade e, quem diria, até mesmo mais humanidade que alguns heróis conhecidos há mais tempo (alô, Viúva Negra!). Sem contar que seu plano, felizmente, não se resume a uma justificativa simplória, do tipo “dominar o mundo porque sou o melhor”, mas sendo algo completamente insano e, ao mesmo tempo, dotado de uma lógica que deixaria o economista Thomas Malthus orgulhoso.

Guerra Infinita, contudo, não desenvolve bem outros personagens novos, em especial os quatro membros da Ordem Negra, que não ganham camadas adicionais além de servos de Thanos. De qualquer forma, reconheço que seria impossível garantir arcos bem definidos a todos e, mesmo com falhas pontuais, a história nunca se perde nos vários núcleos e tramas paralelas, simultaneamente bem desenvolvidas, seja no espaço ou na Terra.

Assim, se por um lado, os irmãos Russo e a dupla Jeffrey Ford e Matthew Schmidt merecem todos os aplausos, respectivamente, pela direção e montagem deste épico, é preciso reconhecer que o roteiro deixa um tanto a desejar. Sim, no meio do filme, há um plano que dá errado somente porque certo herói age raivosamente do modo mais clichê possível, mas este é um problema menor diante do fato de Guerra Infinita conter, obviamente, acontecimentos que terão uma resolução só no próximo filme dos Vingadores.

Na realidade, esta é uma prática recorrente nos filmes da Marvel que, tal qual seus quadrinhos, quase sempre encerram com um “gancho” para a próxima obra, sem apresentar um final propriamente dito. Ocorre que, no presente caso, as (inúmeras) consequências negativas apresentadas são imensamente devastadoras. Só que não! Porque sabemos que serão revertidas, simplesmente por já existirem anúncios de certos filmes deste universo para os próximos anos (Homem-Aranha 2, por exemplo). E também, é claro, pela grande e “estranha” dica que os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely deixam um certo herói escapar.

O veredito? Um coração partido em dois, de fã satisfeito por presenciar uma reunião de heróis, até então, vista apenas nos quadrinhos; mas de cinéfilo que, no fim das contas, assistiu a um filme sem começo nem fim e acabou por se lembrar de uma canção escrita por Vinicius de Moraes, na qual ele dizia “Se foi pra desfazer, por que é que fez?”.

 

Um lugar silencioso

Um lugar silencioso (John Krasinski, 2018).

O cinema é, à provável exceção dos documentários, uma arte mais visual do que auditiva. Quando um filme coloca na boca dos personagens algo que já está ocorrendo na tela, a fala torna-se expositiva, quase um pleonasmo. Qualquer um que tenha assistido alguns filmes de ação já ouviu, provavelmente, alguma derivação daquela fala batida: “Se você fizer isso, eu vou acabar com a sua vida!”. Ora, muito mais eficiente seria apenas focar no rosto cheio de ódio do personagem, ao perceber que seu antagonista fez, de fato, o indesejável. Nos demais gêneros cinematográficos, a regra “mostre, não diga” também é, em geral, a melhor escolha.

Já no cinema de terror, podemos invocar ainda outra regra, que poderia ser traduzida em algo como “menos é mais”. Imagine uma cena na qual uma criança encontra-se parada, num lugar fechado e pouco iluminado, quando começa a ouvir passos se aproximando, mas não consegue perceber de onde vêm. Se bem construída, a cena deixará o espectador “grudado na poltrona”, com uma tensão que irá se dissipar apenas depois que a criatura andarilha aparecer. Sim, ela pode ser assustadora e te fazer gritar no cinema, mas agora, ao menos, a tensão já desapareceu. Não por coincidência, Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, dizia o seguinte: “Não há terror em um estrondo, apenas na expectativa dele”.

Toda esta (longa) introdução serve a um motivo: pontuar que “Um lugar silencioso” segue rigorosamente as duas regras acima, pois, logo nos primeiros minutos, o filme já entrega o pouco que precisamos saber: qualquer som ou barulho, por menor que seja, atrai monstros indesejáveis, que fizeram da Terra um planeta apocalíptico. De onde vieram? O que são? Não importa, porque, de qualquer modo, a família Abbott precisa sobreviver. Contudo, por não poderem sequer gritar um “Ai!” se, digamos, um prego entrar no calcanhar de um deles, os membros desta família passam a se comunicar por sinais, levando ao limite máximo a regra do “mostre, não conte”.

Neste sentido, a direção de John Krasinski surpreende, tensionando o filme desde o primeiro minuto, ao focar no cotidiano familiar quase mudo. Ator mais conhecido pelo personagem Jim Halpert do seriado The Office, este é apenas o terceiro filme de Krasinski como diretor, e sua primeira incursão no gênero de terror. E é invejável como ele consegue, principalmente com a ajuda da extraordinária atuação de Emily Blunt, manter o espectador em constante tensão pelos 90 minutos de filme – que, inclusive, parecem bem mais, mas nunca ficam cansativos.

Assim, a presente obra coloca-se como um novo exemplar na excelente nova safra de filmes de terror, baseada menos em sustos fáceis e mais em enredos bem construídos, como O orfanato (2007); Babadook (2014); Corrente do Mal (2014); Boa noite, mamãe (2014); A Bruxa (2015); O Convite (2015) e, claro, Corra! (2017). Que o cinema continue nesta toada, de assustar mas com qualidade.

2001: uma odisseia no espaço

2001: uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick, 1968).

Autor: Pedro Miranda

 

Há 5 décadas, no dia 02 de abril, um novo filme de Kubrick estreava. Desde então, 50 anos se passaram, mas 2001 continua objeto de debates. Outros filmes, até mais antigos, também permanecem relevantes, como Tempos Modernos (1936), Casablanca (1942) ou Cantando na Chuva (1952). Contudo, nenhum deles agrega opiniões tão destoantes.

Quando de seu lançamento, Pauline Kael, das mais respeitadas críticas de cinema, escreveu: “Kubrick fez todo aquele troço idiota, encenou uma espécie de superfantasia de ficção científica”, que só é boa “quando o filme não se encara com tão idiota solenidade”. E no New York Times, Renata Adler concluía que ele “fica em algum lugar entre o hipnótico e imensamente chato”. Outros críticos, porém, já prediziam o lugar de destaque de 2001. De início, a recepção na bilheteria foi morna, mas o filme foi conquistando audiência e, com a inflação ajustada, é hoje o 148º mais rentável da história, mesmo com a discordância sobre sua qualidade.Particularmente, eu o considero uma obra-prima, não apenas do cinema, mas de toda a história da Arte, porém compreendo as opiniões negativas, seja pela estética ou conteúdo do filme, ambos elementos que exigem atenção redobrada do espectador.

2001 é relativamente longo, com 150 minutos, e menos de um terço dele contém diálogos. Sua trilha sonora é composta, majoritariamente, por música clássica que se harmoniza com um balé espacial, no qual se movimentam planetas, espaçonaves e astronautas. Por outro lado, mesmo os críticos mais ferrenhos se rendem aos apelos visuais, o que, em verdade, se deve mais à direção que propriamente os efeitos especiais. A cena do astronauta Frank Poole se exercitando dentro da nave, por exemplo, é inesquecível, assim como as sequências inicial e final.

O início do filme, passado na pré-história, já indica parte de sua temática, ao trazer macacos defronte a um monólito negro, por meio do qual descobrem o poder de vida e morte sobre seus semelhantes. Ao final, um dos macaco joga um osso (sua arma mortal) para cima, que se “transforma” numa nave espacial, concluindo a maior elipse temporal do cinema.

O tempo presente de 2001 nos mostra uma realidade na qual viagens para a Lua são rotineiras, e é nela que foi encontrada a primeira evidência de vida extraterrestre: o segundo monólito visto no filme, que passa a emitir sinais para Júpiter. Tem-se, deste modo, a viagem que ocupará boa parte da narrativa, na qual os astronautas Dave Bowman e Gary Lockwood, junto ao computador HAL-9000, levam três cientistas à Júpiter. Iniciada na pré-história, com aquele osso mortal, a tecnologia agora se “personifica” numa inteligência artificial. O verbo entre aspas, apesar de parecer, não é contraditório com um computador, pois ele se mostra bastante humano ao longo do filme, inclusive quando, num momento, diz: "Estou com medo, Dave. Posso sentir isso. Minha mente está se esvaindo.”

A meia hora final de 2001, mesmo não tendo um diálogo sequer, o leva a uma dimensão filosófica que teria deixado Nietzsche orgulhoso, afinal Dave renasce como uma criança-estrela, o super-homem que representa o próximo estágio evolutivo, ainda que impulsionado por forças extraterrenas. Se, desta vez, representa a morte ou a esperança da humanidade, fica ao espectador a pergunta, dentre tantas outras que o filme(a ser revisto sempre) levanta.

Ela quer tudo

AUTOR: PEDRO MIRANDA

Em 1986, Spike Lee lançou seu segundo longa-metragem, Ela quer tudo, que abordava tanto questões raciais como de gênero, ao contar a história de uma mulher negra e seus relacionamentos (simultâneos!), com três homens e outra mulher. Filmado em preto e branco, o filme é hoje lembrado por sua deslocada e inútil cena de estupro. Não porque estupros não possam ser filmados, mas pelos reflexos que tal ato trazia à personagem, não condizentes com o restante da história, destruindo o terceiro ato do filme.

Não obstante as falhas daquela obra, os temas abordados continuam atuais e, portanto, mais de três décadas depois, Lee reinventa sua história, desta vez para uma série da Netflix, lançada em novembro de 2017, mas que só conferi agora. As linhas gerais do longa permanecem, com Nola Darling, uma protagonista forte que não tem receio de ser aquilo que deseja, ainda que, paradoxalmente, não saiba exatamente o que quer.

Mars Blackmon, Jamie Overstreet e Greer Childs são seus amantes, que não se conhecem de início, mas sabem que Nola não é exclusiva de nenhum deles. Porém, tal situação precisa de um reforço e quando, no episódio “pretinho básico”, todos reclamam do vestido curto com o qual ela sai, Nola rebate: "Não sou louca, não sou viciada em sexo e, com certeza, não pertenço a ninguém". De fato, ela nega estereótipos, mas é preciso reconhecer que os próprios amantes não se desvencilham inteiramente de seus rótulos. O primeiro é um rapper hilário; o segundo, um investidor casado; e o último, um modelo arrogante. Opal Gilstrap, a mulher amante de Nola, que aparece mais adiante, também ganha um desenvolvimento aquém do necessário.

A abordagem de múltiplas temáticas, como gentrificação, aplicação caseira de botox, assédio e objetificação, além das já citadas, não ajuda na retomada de foco para os personagens, até porque os episódios duram, em média, apenas 30 minutos. Mas tal perda de foco é atenuada tanto pela qualidade geral da história (no time de roteiristas estão Eisa Davis e Lynn Nottage, respectivas indicada e vencedora do Pulitzer), como do ótimo elenco (DeWanda Wise e Anthony Ramos, que interpretam Nola e Mars, estão impecáveis). E, afinal, a protagonista tem um desenvolvimento tridimensional bastante satisfatório para uma primeira temporada (com a segunda já confirmada!).

Passando-se em Fort Greene, no Brooklyn, Spike Lee invoca a história daquele lugar em paralelo às de seus personagens, contando com uma sensacional trilha sonora e várias referências cinematográficas, que resultam numa narrativa interessante, mas não isenta de falhas, sobre uma mulher negra. Ocorre que, mesmo em pleno século XXI, é sabido que a série será julgada em termos de “certo e errado”, pois as atitudes de Nola não são as de uma mulher “bela, recatada e do lar”. Ora, mas elas são consensuais para com seus parceiros, numa busca pela própria felicidade. Contudo, estando eu (homem cis-hétero, branco e de classe média) longe do meu lugar de fala, deixo que a protagonista defenda a si mesma: "Tudo o que a mulher negra quer é ser livre". Não seria isso o suficiente para evitar as vindouras críticas?

E o Oscar 2018 foi para...

Por Pedro Miranda

 

E o Oscar 2018 foi para... um cinema em aprimoramento! Na última coluna, tentei comprovar que o Oscar (ou qualquer prêmio com critérios subjetivos) não é, necessariamente, sinônimo de qualidade. Porém, reconheço que os indicados deste ano eram muito bons e, mesmo dentre os vencedores, não houve nenhum do qual discordei totalmente, ainda que tenha certas ressalvas.

Mas, para falar do Oscar, é preciso ter em mente que, tal qual a arte que lhe serve de referência, ele é influenciado pela realidade, seja contestando-a ou servindo de apoio a ela, tendo, portanto, um caráter político. Lembremos que, em 2015 e 2016, nenhum ator ou atriz negro ou latino figurou entre os 20 indicados nas categorias de atuação, não obstante ótimas performances em filmes como Selma, Creed e Beasts of no nation. Já em 2017, houve inúmeras denúncias de assédio em Hollywood, com figurões da indústria relegados ao limbo.

Diante disso, a Academia de Artes dos EUA adicionou à sua composição mais de 700 novos votantes, boa parte provinda de minorias e/ou outros países, inclusive o Brasil. Isso não significa premiar filmes só porque são politizados ou promovem a igualdade, mas que é melhor que a arte represente a realidade, sempre tão heterogênea. Assim, além de certas premiações certeiras, boas surpresas ocorreram no Oscar, como o momento no qual três atrizes assediadas por Harvey Weinstein falaram sobre este momento de mudanças. Quanto às premiações, seguem alguns apontamentos:

- Melhor Fotografia: não havia como bater Roger Deakins nesta, pois o gênio foi indicado 12 vezes antes de levar o primeiro Oscar, neste ano, por Blade Runner (que merecia mais nomeações). Mas vale apontar Rachel Morrison, a primeira mulher a ser indicada em melhor fotografia, por Mudbound;

- Melhor Filme Estrangeiro: a obra Mulher Fantástica, sobre uma mulher transgênero, foi o vencedor, além de ter sua protagonista (Daniela Veiga) como a primeira apresentadora transgênero do evento;

- Melhores atuações: nas quatro categorias de atuação, os vencedores (Frances McDormand – com um discurso retumbante; Gary Oldman; Allison Janney; e Sam Rockwell) já eram cartas marcadas. Mas Willem Dafoe esteve perfeito em Projeto Flórida (outro filme que deveria ter mais nomeações), merecendo um tantinho a mais que Rockwell;

- Melhor roteiro original: Jordan Peele, o primeiro negro indicado, simultaneamente, para melhor filme, direção e roteiro, tornou-se o primeiro roteirista negro vencedor, por Corra!, uma história ao mesmo tempo realista e fantasiosa, farsesca e horrenda, sobre racismo;

- Melhor Diretor(a): todos os indicados à direção, exceto Paul T. Anderson, eram novatos na categoria, inclusive a quinta mulher nomeada ao prêmio, Greta Gerwig. O mexicano Guillermo del Toro foi o vencedor, pelo filme que também levou o prêmio da noite;

- Melhor Filme: com a exceção de O Destino de uma Nação (e sua pavorosa cena do metrô), todos indicados eram bons. Porém, A Forma de Água, vencedor deste ano, é um daqueles filmes “bonitinhos”, mas que, em termos artísticos, fica devendo para Lady Bird, Três anúncios, e Corra! Se há um prêmio do qual discordo um pouco, é este. Ainda assim, é uma fábula interessante, com um discurso atual sobre alteridade. Com ele, nos despedimos do Oscar, e que este seja mais um ano de ótimos filmes!