Cine & TV no DC
Alguma coisa assim

- Alguma coisa assim (Esmir Filho, 2018). Em boa parte, o cinema de hoje é sinônimo de escapismo. Mas, cuidado. Isso não significa dizer que filmes escapistas (que se desviam da realidade, em busca de diversão) não possam ser de qualidade. Os exemplares de Guerra nas estrelas, o clássico Tubarão e a animação Alladin, por exemplo, são filmes que têm como propósito primeiro o entretenimento, e nem por isso são ruins. O problema é que, por definição, o filme escapista retrata uma realidade muito distante daquela vivida pelo espectador comum. Dê uma olhada nos filmes em exibição: um é sobre a carreira de Freddie Mercury, o outro conta a história de quatro reinos com um rei rato como personagem, e um terceiro tem como enredo os homicídios de um mascarado. Isso para não mencionar uma obra com zumbis nazistas...

Vejam, eu assisto (e adoro!) filmes de herói, de fantasia, de ficção científica e outros absurdos divertidos. Mas, um pouco entediado com histórias maiores que a própria vida – pelo menos, maiores que a minha, porque faz tempo que não me deparo com um zumbi, muito menos nazista –, fiz questão de escolher um filme “pé-no-chão”, o nacional Alguma coisa assim. Segundo a própria vendedora de ingressos, é “aquele nacional que quase ninguém está vendo”. De fato. Entrei no cinema, e só tinha eu de espectador. Uma pena, porque o filme é ótimo!

Mais de dez anos depois de ter lançado um curta-metragem sobre os amigos Mari e Caio, o diretor Esmir Filho desenvolve aquela narrativa básica de modo surpreendente. Se na obra antiga, até pelo tempo reduzido de projeção, a amizade entre os personagens era focada no período de apenas algumas horas, contando com tão somente algumas supostas implicações, aqui ela ganha proporções bem mais complexas. Primeiro, a história é entrecortada por três linhas temporais – passado mais remoto, com os protagonistas na adolescência; passado mais recente, no casamento de Caio com o marido; e presente, quando Caio visita Mari, em Berlim.

Esta narrativa entrecortada no tempo permite ao espectador enxergar os personagens de modo tridimensional, e como eles foram evoluindo ao longo dos anos. Ou não, porque, em verdade, Caio permanece um romântico em busca de alguma solidez, e Mari continua à vontade na sua instabilidade. Nas suas contradições, os protagonistas acabam convergindo na completude. Ele gay, quase separado, prefere “ir descobrindo a pessoa” e acha que “a segunda é melhor que a primeira, a terceira é melhor que a segunda, e assim por diante”. Ela, por outro lado, vive “acumulando experiências” nos apartamentos que decora e depois revende, sem qualquer intenção de casar, porque “casamento não tem a ver com amor, é só um contrato”.

E quando algo inesperado acontece, a amizade, tão bem construída, sofre um revés, culminando numa ótima cena, de uns cinco minutos, filmada sem cortes e com uma trepidante e realista câmera na mão. Esta cena, aliás, comprova que o filme conta com atuações dignas de premiação, numa excelente química entre os protagonistas, além de virtuosa direção – à exceção da cena na floresta, com uma péssima trilha sonora, que entrega, de antemão, o surgimento de consequências inesperadas.

A única outra deficiência do filme, na verdade, comprova suas virtudes, porque os seus 80 minutos passam rápido demais. No fim, percebi que gostaria de ficar mais um pouco na companhia de Mari e Caio, de também ser amigo deles, mesmo que sozinho no cinema. Porque, afinal, o cinema nos ensina que não é preciso escapar da realidade mundana para vivenciarmos algo primoroso.

Ele está de volta (David Wnendt, 2015)

Nas últimas colunas, tratei sobre filmes políticos (Arquitetos do poder; e O processo), porque entendia que a eleição era um bom momento para colocar em debate os temas daquelas obras. Com as eleições terminadas, porém, decidi analisar uma comédia (do catálogo da Netflix), para “sossegar os ânimos”. É um filme inusitado, que parte de uma situação absurda e cômica: o que aconteceria se Hitler voltasse?

O filme começa com Hitler acordando no meio de um jardim, com fumaça ao redor e o uniforme rasgado. Seria o próprio? Os trejeitos, realmente, lembram os do Führer, com uma voz forte e empostada, e gestos decididos. Andando pela Berlim atual, acaba encontrando Sawatzki, um jornalista que tem a ideia de levar este sósia do Hitler numa viagem pelo país, filmando tudo com uma câmera.

Assim, o “novo Hitler” passa a conhecer mais da Alemanha atual, e se decepciona. Os judeus continuam por todo o lado, “o governo está nas mãos de uma mulher robusta, que tem o carisma de uma pedra”, e ninguém crê que ele é o Hitler verdadeiro. Duas são as principais reações: ou dão risada, não acreditando que alguém está, de fato, imitando o genocida, ou simpatizam com as ideias representadas por aquela figura.

Várias são as frases que, aliás, parecem mentira, como a do alemão que afirma ser favorável à volta de campos de concentração, e o outro que, ao se referir a muçulmanos, diz o seguinte: “São um povo barbudo, meio suspeito, e o governo deveria mandar todos embora. Alguns nasceram aqui, mas mesmo assim”. Jovens tiram selfies com a lenda, fazem vídeos, lhes dão abraços, e uma menina até declara: “Eu amo o Hitler”. Mas nem todos se mostram favoráveis à reencarnação nazista. Um alemão aponta: “Alguém chega vestido como o Hitler, e ninguém vê nada de errado. Só posso dizer que isso é péssimo para a Alemanha”.

Por ser uma comédia, há os absurdos de sempre, e o diálogo mais engraçado é aquele em que um jovem fala: “O nazismo só estava atrás de justiça. E nós estamos lutando pelos nossos direitos. Precisamos de mais democracia, de alguém que diga: ‘É assim que vai ser. Ponto final. Sem discussão’.”. E, diante disso, Hitler responde: “Tem toda a razão. É o meu tipo de democracia.” Ou seja, é um filme engraçado, porque muito distante da realidade. No século XXI, ninguém em sã consciência daria poder a um governo com inspirações autoritárias.

E, dentre os absurdos desta comédia, o novo Hitler cai, inexplicavelmente, nas graças do povo, só que, desta vez, pela internet. Há certa curiosidade para com aquela figura, que ganha cada vez mais espaço para propagar suas ideias. E ele não perde a oportunidade, tornando-se um dos assuntos mais comentados em todo o país. Entre adoradores e blasfemadores, Hitler só ganha mais audiência, e mais pessoas passam a saber daquele cara “meio engraçado, mas que também fala coisas sérias, que está imitando Hitler”. E o ator principal, vale dizer, está excelente e hilário em sua encarnação nazista!

Como filme, esta é uma obra interessante, porque mistura um tom de documentário, como se aquilo estivesse acontecendo, com algo de ficção, porque sabemos que a volta de Hitler é impossível. Não apenas porque ele está morto, mas também porque a maioria dos países do mundo são democracias bem fundamentadas, com instituições funcionando. E é por isso que é uma comédia tão divertida, para nos aliviar um pouco desse estresse pós-eleição. Agora, finalmente, podemos retomar nossas vidas cinéfilas, e dar risadas à vontade, sem nos preocuparmos com política.

O processo (Maria Augusta Ramos, 2018)

Premiado como o 3º melhor documentário do Festival de Berlim, o filme de Maria Ramos deve ter sido chocante para os estrangeiros que nada conheciam do impeachment da ex-presidente Dilma. Afinal, qualquer um que tenha visto seu desenrolar se deparou com imagens dantescas. Ou kafkianas, pra ficar na comparação com o livro que dá nome ao filme. Editado em ordem cronológica dos fatos, o documentário já começa com aquela que talvez seja a cena mais lembrada do processo: a votação na Câmara.

Nela, poucos são os políticos que levantaram a existência ou não de crime de responsabilidade. Rogério Marinho (PSDB), por exemplo, votou “contra um partido que financia ditaduras bolivarianas sanguinárias, contra aqueles que se utilizam da educação para doutrinar e assediar as nossas crianças”. Por outro lado, Maria do Rosário (PT) afirmou que o fazia “pela democracia, pela soberania do voto popular, pela dignidade humana, pelos que lutaram contra a ditadura militar”, enquanto que Jandira Feghali (PCdoB), ao votar “em homenagem ao povo trabalhador deste país”, mais parecia estar num palanque.

E é neste retrato frio, de um impeachment que acirrou os ânimos brasileiros, que o documentário se faz essencial: mostra o ápice de uma polarização entre petistas e anti-petistas, que mais se norteiam por valores que por fatos. Assim, percebemos que o processo analisado é apenas o sintoma de algo muito maior, de uma conjuntura que tem um sistema político falido, com partidos fisiológicos que colocam interesses econômicos acima dos demais, e uma sociedade extenuada por “tudo isso que está aí”.

Neste sentido, há apontamentos interessantes dos sujeitos envolvidos, a começar pela autocrítica de Gleisi Hoffmann (PT): “A juventude que vai para a rua até pega a bandeira da Dilma, mas nós não temos entrada no movimento. Dilma não é líder das mulheres, porque não foi isso no Governo dela, que teve perfil conservador em algumas lutas”. E Gleisi continua: “Vamos falar sério, aqui entre nós? Se a gente voltar, não tem condição de governar. Ela não tem apoio aqui, não tem estrutura de governo”.

Esta falta de sustentação fica bem comprovada pelo famoso diálogo entre Romero Jucá (PMDB) e Sérgio Machado, no qual é vocalizado o “grande acordo nacional, com Supremo, com tudo”. E, mesmo sabendo do acordo, em 31 de agosto de 2016, cantando o Hino nacional brasileiro, os senadores votam pelo impeachment. Derrotada, Dilma faz o seguinte discurso: “Políticos que buscam escapar do braço da Justiça tomarão o poder, unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições. O projeto que represento é interrompido por uma poderosa força, conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa”.

Dois anos depois, qual realidade temos posta nas eleições deste domingo? Não muito diversa. Dos 594 membros do Congresso, 77% buscam a reeleição. Romero Jucá é candidato ao quarto mandato como Senador, tendo 25% das intenções de voto de Roraima. Mas isso não é exclusividade do Norte ou Nordeste, afinal são os candidatos à reeleição que contam com o favoritismo dos eleitores. Tanto Dilma como Aécio têm ótimos números em suas respectivas candidaturas ao Senado e à Câmara. Até Eduardo Cunha pede votos, de dentro da cadeia, à sua filha, dizendo: “Votem como se fossem em mim”.

Em uma das cenas mais emblemáticas do filme, enquanto a votação do impeachment acontece no Congresso, do lado de fora, há dois grupos separados por um muro, torcendo como se estivessem num estádio de futebol, com raiva uns dos outros, cada um com a certeza de estar do “lado certo”. Eu, particularmente, não tenho muitas certezas, a não ser a de que se continuarmos na política polarizada da raiva, da exclusão do outro, o muro só tende a aumentar.

 

*Link para o filme no YouTube: https://bit.ly/2xRx44Z

Arquitetos do Poder

Arquitetos do Poder (Alessandra Aldé e Vicente Ferraz, 2010). Quem acompanha a coluna sabe da minha opinião: é impossível dissociar arte e realidade. E o cinema que mais abraça tal noção é o documentário. Assim, diante do atual cenário político – tão surreal e tão fidedigno da nossa miséria –, irei analisar nesta e na próxima coluna dois documentários para (tentarmos) compreender um pouco da barbárie que nos ronda.

Ao abordar a simbiose entre mídia e política, Arquitetos do Poder comprova por que ambas as esferas são tão malvistas pela sociedade. Afinal, tanto os meios de comunicação quanto os políticos têm instrumentos para deturpar os fatos em benefício próprio, cabendo ao povo buscar mídias e candidatos transparentes. Mas esta tarefa não é fácil, já que o próprio Duda Mendonça (marqueteiro envolvido no mensalão) confirma: "Todo mundo tem um lado bom e um lado ruim. Numa campanha, é preciso ressaltar o lado bom e tentar neutralizar o ruim". E, apesar de focar mais no período democrático, o filme nos lembra que, já no tempo do rádio, o marketing político era fundamental para as eleições.

Em 1989, ocorre a primeira eleição popular direta em mais de duas décadas no Brasil, e Ronald de Carvalho, então editor de política da TV Globo, afirma, sem pudor, que: "Em 89, as elites influíram nas empresas de comunicação para evitar que Brizola fosse eleito. Era ele quem colocava medo nas elites, e não Lula". Por um lado, a campanha deste último cria o jingle “Lula lá, brilha uma estrela” e tenta a transferência de votos de Brizola para Lula, do 1º para o 2º turno. Já pelo lado de Collor, havia o (ainda atual) "medo de teses marxistas”, e a criação do factoide “caçador de marajás”, muito a partir das atuações da Revista Veja e da TV Globo.

E tal auxílio comprova-se inegável, quando Ronald confessa que, ao editar o debate entre Collor e Lula, para o Jornal Nacional, favoreceu o primeiro: "Eu fiz uma edição na qual dei pesos diferentes a desempenhos diferentes". Mas analisar os desempenhos é algo subjetivo, e o próprio Ronald emenda: "Ações com o objetivo de alterar o resultado das eleições, pelos meios de comunicação, têm que ser feitas com sutileza e habilidade". Seria isto uma confissão? O fato é que, em agosto de 92, Collor sofre impeachment, agora com apoio da Globo, que já não se beneficiava com tal governo.

O pleito de 94 também antagonizou direita e esquerda, desta vez FHC e Lula, com a vitória do sociólogo, que seria reeleito em 98 diante da possibilidade criada pela Emenda nº16, com seus votos comprados. Sobre isso, aponta Fernando Barros (publicitário do PFL): "Quando passou a emenda e foi permitido fazer campanha enquanto estivesse no poder, isso pra mim foi uma delícia, confesso pra você".

As eleições de 2002 e 2006 comprovaram, ainda mais, a força do marketing político. Na primeira, a campanha “Lulinha paz e amor” junto à “Carta aos brasileiros” torna o candidato do PT menos avesso ao mercado. Já na segunda, mesmo diante do mensalão, Lula é reeleito, muito em função de uma economia aquecida e dos programas sociais que implantou, mas também pela campanha feita a partir da máquina política.

Infelizmente, o filme não aborda pós-2009, o que será feito na próxima coluna. Mas isso não significa que não possamos realizar algumas conexões com o período atual. Se antes a televisão e as revistas comandavam as eleições, hoje tal protagonismo é da internet e, portanto, é preciso desconfiar das informações que nela encontramos, checando a veracidade das mesmas. O que não mudou, porém, é a eterna polarização entre esquerda e direta; a constante reeleição de políticos; as promessas fáceis de campanha; e a idolatria a certos representantes. E como todas estas características são vistas na maioria das propagandas no horário eleitoral, é de se perguntar: seu voto é mais orientado pelo marketing político ou pela análise das propostas do(a) candidato(a)?

* ARQUITETOS DO PODER, NO YOUTUBE: https://bit.ly/2NipaLO ou https://bit.ly/2xkDn0J

Ferrugem

- Ferrugem (Aly Muritiba, 2018).

Vencedor dos prêmios de melhor filme e melhor roteiro no Festival de Gramado, além de ter sido nomeado para o grande prêmio do júri do Festival de Sundance, o novo filme de Aly Muritiba, em exibição no Lumière do Total, é um fabuloso estudo das relações sociais pós-modernas.

No século XXI, a vida passa pela internet que, por sua vez, é acessada de forma ininterrupta pelo celular. Tudo é compartilhado, as paisagens são classificadas como “instagramáveis” e as conversas se dão muito mais via aplicativos do que pessoalmente. Assim, sentimentos são expostos por meio de curtidas e outras interações virtuais e, não por acaso, os personagens do filme têm muita dificuldade para dialogar entre si.

É nesta realidade hiper-conectada que a estudante Tatiana (Tifanny Dopke) tem um vídeo íntimo seu compartilhado na internet. Em pouco tempo, toda escola já o assistiu e Tati se torna, de um dia para o outro, conhecida e rejeitada por todos, inclusive por Renê (Giovanni De Lorenzi), seu “crush”, para utilizar uma gíria atual. Nas redes sociais, surgem escritos depreciativos, vários deles reconhecíveis por qualquer internauta que já tenha acessado uma seção de comentários – o que não os torna menos absurdos.

O filme, contudo, reconhece que tais julgamentos sociais não são uma exclusividade deste século. No ano de 1850, por exemplo, Nathaniel Hawthorne publicou o clássico “A Letra Escarlate”, narrando uma história passada no século XVII na qual Hester Prynne era publicamente rejeitada por ter tido uma filha fora do casamento. Não muito diferente de hoje, infelizmente. Passam-se os anos, a sociedade desenvolve novas tecnologias e uma realidade até então inimaginável se molda diante dos nossos olhos. O que não muda é o preconceito, provindo da nossa visão de mundo. E no banheiro da escola de Tati, quase não se veem as paredes, tão cheias de ofensas e julgamentos depreciativos. Lembro que na minha escola pré-celular, os banheiros eram bem parecidos.

Em nossa realidade, tão desenvolvida e tecnológica, Tati não é obrigada a vestir uma roupa bordada com um grande e escarlate “A” de adúltera, tal qual Hester Prynne fora pela sociedade “atrasada” de então, porque seu “pecado” foi virtualizado. Está, portanto, ao acesso imediato de todos e pode ser reproduzido eternamente. Sintomático notar que, a partir de então, a escola da protagonista impede que celulares adentrem na instituição, como se fossem armas, enquanto que uma literal arma de fogo acaba sendo utilizada naquele recinto.

Como se percebe, o filme trata de uma temática presente em qualquer sociedade, mas remodelada para os dias de hoje e envolta por dois protagonistas adolescentes. Eles fumam, bebem, fazem sexo, mas, talvez pela falta de vivência, não parecem perceber as consequências de suas ações ou reconhecer seus próprios vícios. Mas seria esta uma falha exclusiva da adolescência? Em uma determinada cena, quando terminam de comer algo num restaurante, os adolescentes logo tiram seus celulares do bolso, no que o pai de Renê (Enrique Diaz, ótimo como sempre) profere um típico “ê, olha esse vício”, recebendo apenas sorrisos condescendentes. Percebendo que ninguém ali está interessado numa conversa, emenda um “vou ali dar uma fumada e já volto". Não me parece coincidência que todos os jovens do filme também fumem.

Enfim, vícios e julgamentos sociais são típicos de qualquer sociedade, fato que o filme reconhece ao não demonizar seus personagens, mas mostrar as consequências negativas de seus atos. Neste sentido, direção, roteiro e atuações se unem para mostrar que a internet ou a tecnologia não são os verdadeiros inimigos, mas apenas amplificam a sordidez daqueles que a utilizam. Paradoxalmente, o virtual faz do real algo mais palpável.

Missão Impossível - Efeito Fallout

Missão Impossível - Efeito Fallout (Christopher McQuarrie, 2018)

Neste sexto capítulo de uma das franquias de ação mais amadas do cinema, há um diálogo um tanto quanto clichê, mas que o resume bem. Certa mulher pergunta a Luther Stickell (Ving Rhames) – o único outro personagem que participou de todos os seis filmes da série além de Ethan Hunt (Tom Cruise) – como este último estava indo. De resposta, recebe aquele típico “Ah, está o velho Ethan de sempre”. No segundo seguinte, o filme corta para o protagonista aprendendo a pilotar um helicóptero. Em pleno voo! Enquanto foge de rajadas de metralhadora, segundo antes de mergulhar o helicóptero em nuvens, sem saber o que irá encontrar depois delas.

Mas eu sei de uma coisa. E você, sua avó e qualquer pessoa que for assistir ao filme também sabe do seguinte: a missão não é realmente impossível, como o nome indica, certo? Não é spoiler algum, e sabemos o que irá acontecer. Ethan irá sobreviver no final, comprovando a possibilidade da missão. Huuum, não exatamente. Porque este é um dos pontos em que a série se destaca. Hunt não é assim tão infalível.

Já nos primeiros 10 minutos, a equipe dele perde uma carga de plutônio para um grupo terrorista. E, ao longo do filme, ele precisa de (muita!) ajuda para uma luta no banheiro, bate a moto num carro, escorrega numa subida de corda, dentre várias outras ocasiões em que Hunt se mostra minimamente humano. Inclusive na famosa cena vazada no YouTube e aproveitada no filme, na qual ele quebra (de verdade!) a perna, pulando de um prédio para o outro. Em verdade, tudo isso reforça o modo como outra personagem caracteriza a Fundação Missão Impossível: “É como Halloween, com adultos fazendo travessuras”.

Bom, não dá pra discordar muito, já que nenhuma ação é planejada com antecedência. E um dos elementos mais recorrentes da série são as máscaras de disfarce, o que me faz confessar algo: eu, simplesmente, adoro quando elas são utilizadas! Porque quase sempre servem de ferramenta em algumas das reviravoltas. E há várias no caminho, mas nunca excessivas, porque a direção é objetiva o bastante para não perder o foco diante delas. Este sexto episódio de MI, aliás, é o primeiro em que um diretor volta à franquia. McQuarrie foi o responsável pelo anterior, Nação Secreta, e novamente mostra-se competente nas cenas de ação, que têm aquele tom de verossimilhança, porque sabemos que o próprio Tom Cruise é quem está atuando na maioria delas, já que dispensa dublês.

Contudo, o filme decepciona um pouco no desenvolvimento dos personagens, um tanto estereotipados. Enquanto o herói se martiriza porque coloca aqueles à sua volta em perigo, o vilão quer matar milhões para que o sofrimento leve à cooperação internacional e, por fim, à paz. Já vimos isso algumas dezenas de vezes, senão centenas. Sem contar que Tom Cruise até pode ter um desempenho físico invejável, porém não é exatamente conhecido por seus dotes artísticos. Mas dá pra relevar tudo isso, porque, concordando com o que Luther disse lá em cima, este é o velho Ethan de sempre. E isso é ótimo!

Sua missão, caso decida aceitá-la, é ir até o cinema mais próximo e assistir Tom Cruise correndo como um doido, cenas de ação desenfreada, várias reviravoltas, máscaras de disfarce e personagens apenas razoavelmente bem desenvolvidos, mas com a garantia de uma série que entrega sempre um ótimo divertimento (à exceção do segundo episódio, de 2000, que é um lixo). Bom filme, leitor(a). Esta mensagem servirá de embrulho para peixe ou de banheiro para o cachorro nos próximos cinco segundos. 5, 4, 3...

Hannah Gadsby: Nanette

Hannah Gadsby: Nanette (Jon Olb, Madeleine Parry, 2018).

Autoria: Bianca Pereira Sarmento e Pedro Miranda

O texto de hoje é sobre um “stand-up” cômico da Netflix. Mas que também é trágico. E, pior, assustadoramente real. E, melhor, capaz de fazer o espectador enxergar outras perspectivas. Tal como Pablo Picasshole (traduzido como “Pica sem aço”) fez na arte; mas não na própria vida, conforme Hannah nos explicará.

Graduada em História da Arte, Hannah Gadsby é gorda, lésbica e comediante. Se tais rótulos já a colocam à margem, ela explica ser ainda mais marginal. "O problema é que eu não fico 'lesbicando' muito." Ela não vai a festas, não é extrovertida e nem sequer gosta da bandeira do orgulho gay. "Eu faço mais jantares do que 'lesbico', mas ninguém me apresenta como a 'comediante chef', não é?". Por um tempo, as piadas são meio autodepreciativas, e ela faz questão de explicar de onde vêm: "Esconder-se no armário só impede que te vejam, não esconde sua vergonha. Você internaliza a vergonha e aprende a se odiar. E assim, eu transformei tudo em piada, como se nada importasse. Autodepreciação não é humildade. É humilhação."

Só fui ver o show nesta quinta, depois de ler, na internet, o texto de uma amiga, Bianca Pereira Sarmento. Fiquei duplamente arrasado e envergonhado (por meus atos e dos demais homens, especialmente brancos héteros). Representatividade importa e, daqui até o final, as palavras* são de Bianca:

Assim como Hannah, sou uma mulher gorda. Com 4 anos de idade, já ouvia todas as “brincadeiras” em relação a isso. Ser gordo é uma característica, como ter cabelo preto, mas está posto para o mundo que isso é ruim. Assim como Hannah aos 17 anos apanhou de um homem, eu apanhei na escola por ser gorda. Assim como Hannah foi abusada quando criança, aos 13 anos eu também fui abusada por três colegas de classe. Aos 14, usava blusa de frio todos os dias, mesmo com um sol escaldante, pois tinha vergonha dos meus braços e dos meus quadris. Ela também se escondeu por muito tempo, e não conseguiu se assumir gay para sua avó até hoje.

O pior é que isso faz com que eu acredite, até hoje, que não mereço as coisas boas que acontecem na minha vida. O fato de ser uma mulher gorda me faz acreditar que sou inferior, feia e que não possuo inteligência e nem potencial para conseguir o que quero. Há pelo menos 10 anos, não consigo me olhar no espelho sem roupa sem perceber um defeito meu. Às vezes, simplesmente não me olho no espelho. Apesar de racionalmente saber que isso tudo é algo construído nos últimos séculos, ou talvez desde antes do homem ser homem e da mulher ser mulher, dentro do meu coração não consigo tirar tudo de ruim que me foi imposto durante os últimos 20 anos da minha vida.

Assim como Hannah, não quero me mostrar como vítima ao mundo. Gordofobia e feminismo não são vitimismo. A artista finaliza seu show falando que ninguém mais vai enfrenta-la pois “não há nada mais forte do que uma mulher que foi destruída e conseguiu se reconstruir”. E eu também sinto que estou nesse processo.

Nós mulheres não temos mais tempo a esperar. Nós não podemos mais ter paciência com comentários, atitudes, violações, violência e assassinatos. Não podemos mais acordar de manhã e nos sentirmos um lixo ambulante por não acreditarmos em nós mesmas, pois a sensação de fracasso está tão funda na nossa carne que não conseguimos nos limpar.

No início do show, Hannah explica que Nanette era uma mulher que conheceu e a fez pensar que conseguiria tirar uma boa risada dela contando uma de suas piadas autodepreciativas. Nanette não riu e o mundo também não vai mais rir, pois Hannah ficará em silêncio e não vai aliviar a tensão com uma piada. Eu também não vou aliviar pedindo desculpas por existir. Convivam com essa tensão; arregacem as mangas vocês mesmos para resolver tudo isso rápido.

Ela está cansada.

Eu também estou.

 

*link para o texto completo de Bianca: https://bit.ly/2vvNTRe

Precisamos falar sobre os cinemas de Ponta Grossa

Precisamos falar sobre os cinemas de Ponta Grossa.

Você sai do trabalho e volta pra casa, onde tem que cuidar da família, lavar louça e fazer o jantar. E ainda tem o jornal dizendo que o mundo vai de mal a pior, e vizinhos ouvindo [adicione seu inferno musical aqui] no último volume. Cansado(a) de tudo isso, você pensa em fugir desse mundo caótico, por um tempinho que seja. Ir ao cinema é uma boa pedida. Está passando aquele filme que você queria ver! Porém, um aviso: se você mora em Ponta Grossa, até verá o filme, mas não necessariamente ouvirá o que quer. Vamos ser sinceros e dar nomes aos bois? Ou melhor, aos cinemas.

Caso escolha o Cine Araújo do Palladium, as bocas dos atores não estarão sincronizadas às suas falas. Tom Cruise não dirá “fuck” mas, no máximo, um “diabos” com sotaque paulista. Sim, este cinema exibe apenas filmes dublados. Sabendo disso, você, que prefere legendados, escolhe o Cine Lumière do Total, que ainda tem algumas (pouquíssimas) sessões legendadas. Nesta semana, aliás, apenas uma sessão de um filme estrangeiro é legendada! Mas, felizmente, o horário desta sessão é perfeito para você! E o que acontece? Você até assiste ao filme com legendas. Mas o som que ouve é do filme que está passando ao lado, que insiste em invadir a sua sala! Ridículo, pra dizer o mínimo.

Em resumo, ao ponta-grossense que gosta de filmes, resta escolher entre dublados e legendados com "sonorização dupla". E digo isso porque eu mesmo já tive péssimas experiências em ambos os cinemas. No Cine Araújo do Palladium, ou você assiste a filmes dublados ou a filmes dublados. E a experiência pode ser tão ruim, que ainda lembro de Asterix e os Vikings, de 2006, com as vozes de Sabrina Sato, Vesgo e Ceará. Imagine só... Reconheço, é verdade, que, quando feita por profissionais, a dublagem brasileira é das melhores do mundo; mas, ainda assim, é fato que ela deforma a obra original muito mais que as legendas.

Daí que faço questão de deixar claro o seguinte: não sou a favor de se excluírem todos os filmes dublados. Há pessoas que os preferem, seja porque são deficientes visuais ou têm dificuldade para ler legendas (neste caso, sugiro mais leitura de jornais e livros, coisa que falta à maioria dos brasileiros). Mas se não quero o banimento de filmes dublados, muito menos dos legendados. O que desejo é OPÇÃO! Afinal, a livre concorrência do capitalismo não deveria trazer ao consumidor a possibilidade de escolher entre produtos diferenciados?

Sobre isso, aliás, é preciso dizer que praticamente não há diferença entre os filmes exibidos pelos cinemas em questão. Em ambas as programações atuais, há 5 filmes. E destes, 4 estão passando nos dois locais! Caso o Lumière não exibisse o Festival Varilux mês passado e a mencionada única sessão legendada, algum desavisado poderia confundir as duas cadeias cinematográficas em uma só.

E continuando com minhas experiências (in)esquecíveis nos cinemas daqui, lembro de uma vez que, eu mesmo, me confundi. Não os cinemas, porque sabia estar no Cine Lumière do Total. Fiz confusão entre os filmes, porque enquanto via as imagens do terror Um Lugar Silencioso, ouvia o urro de um Tiranossauro Rex, do Jurassic World. Ou seja, pelo preço de um ingresso aproveitei dois filmes! Não é maravilhoso? Não, longe disso.

Enfim, o texto de hoje é dedicado aos dois cinemas de Ponta Grossa, cuja qualidade abaixo do aceitável me faz sair cada vez menos de casa para ver um filme. Se a sua indignação é a mesma que a minha, reclame com os gerentes. Ou compartilhe esta coluna, e marque ambos os cinemas junto às hashtags #cinemacomlegenda #cinemacomsomcerto. Caso não dê em coisa alguma, ao menos este “barulho” (mesmo que virtual) não nos incomodará.

 

Os incríveis 2

- Os incríveis 2 (Brad Bird, 2018).

Há 14 anos, os filmes de super-herói ainda não tinham dominado os cinemas. Mesmo assim – ou, talvez, exatamente por isso, a Pixar resolveu desenvolver sua sexta animação neste universo. E o grande acerto de Os Incríveis foi não se resumir a esta realidade super-humana, sendo, antes de tudo, um filme sobre a família Pêra. Cujos membros, por acaso, têm poderes.

Para tanto, o diretor e roteirista (tanto do original como da sequência) Brad Bird relacionou as habilidades dos personagens às suas características. Segundo o próprio, "Espera-se que os pais sejam fortes; por isso, o criei superforte. Mães são puxadas para 10 direções ao mesmo tempo, então fiz com que ela se esticasse. Adolescentes são inseguros e defensivos, então a garota cria campos de força e tem invisibilidade. E o menino tem super velocidade, porque crianças de 10 anos são bolas de energia".

A continuação de Os Incríveis, em exibição nos dois cinemas de Ponta Grossa, começa de onde o filme de 2004 terminou, aproveitando as características dos personagens, mas agora sob novo enfoque. Se no primeiro filme, os familiares aprendiam a trabalhar em grupo com o auxílio de seus traços definidores, agora a eficácia destes é colocada à prova.

Impedidos de atuar como heróis, porque suas ações causam muitos danos materiais, os protagonistas buscam melhorar sua imagem pública, e já que as ações da Mulher-elástico são menos danosas, é ela quem sai para salvar o mundo, enquanto o Sr. Incrível fica responsável pela família. Assim, por mais que Helena (literalmente) se desdobre para cuidar de seus vários afazeres, não consegue combater o mal e encontrar a roupa do filho, precisando que Beto assuma suas responsabilidades. Mas dentro de casa, a força do esposo não tem muita serventia, especialmente para cuidar do bebê Zezé, que é o destaque do filme! Seus inúmeros poderes, que se manifestam sem aviso, são uma representação hilária (e quase fidedigna, diriam alguns pais) do que é um recém-nascido: seres imprevisíveis, capazes de fazer o inesperado a qualquer momento.

Diante desta dinâmica da mãe “saindo para trabalhar” (que, na verdade, é a mais comum nos lares brasileiros), o pai Beto tem que ensinar matemática para o filho Flecha e lidar com as desilusões amorosas da filha Violeta, aprendendo que "poucas coisas são mais heroicas que ser pai".

E como não bastasse desenvolver muito bem os seus personagens principais (à exceção de Flecha, que não tem um arco bem definido), Os Incríveis 2 vai além, debatendo a responsabilidade pessoal de cada um diante de leis injustas, como aquela que impede atos de heroísmo. Helena argumenta: "Se as leis são injustas, existem leis para muda-las. Se não vira o caos!”, no que Beto, desejando voltar à ativa, pontua: “Mas o caos é exatamente onde estamos". Possíveis danos colaterais são esperados, é claro, mas o próprio filme também aponta uma consequência adversa: "As pessoas querem heróis para protege-los, e se tornam ainda mais passivas".

Ou seja, esta sequência de Os Incríveis aborda, em simultâneo, temas familiares, políticos, sociais (o machismo é o mais proeminente), tudo isso envolto numa bela trilha sonora jazzística de Michael Giacchino, sem se descuidar da ação (a cena na qual a Mulher-elástico, de moto, persegue um trem é de cair o queixo).

Enfim, é uma animação tão boa quanto a original, sendo até melhor que alguns super-filmes atuais, por nos fazer sentir empatia pelos personagens. Afinal, muito mais fácil se reconhecer em um herói que pai ou filho com problemas humanos, do que um herói bilionário (Homem-de-ferro), deus (Thor) ou extraterrestre (Superman).

Unsolved: os assassinatos de Tupac e Notorious B.I.G (1ª temporada)

A ideia da coluna sempre foi analisar tanto obras populares como obscuras, seja do cinema ou da TV. Assim, o foco da vez é esta série da qual pouco se falou no Brasil. Disponível na Netflix desde a semana passada, esta é uma obra sincera. Para começar, o título (não traduzido na plataforma) significa “não resolvido”. Além disso, ao final de cada episódio, há estas frases: "O programa se baseia em fatos, com cenas de ficção. Após 20 anos, a polícia não prendeu nem acusou ninguém". Ou seja, desde o início, o espectador sabe que não verá a resolução dos crimes, mas um panorama geral dos mesmos, que são abordados a partir de três períodos temporais, sempre mostrados em paralelo:

- Em 1993, os rappers norte-americanos Tupac Shakur e Christopher Wallace (este também conhecido por Notorious B.I.G e BiggieSmalls) se encontram. Enquanto Biggie, vindo da costa leste, começava sua carreira, Tupac já era um famoso rapper da costa oeste. E, apesar da rivalidade entre as regiões, se tornam amigos, porque reconhecem um no outro certas bases da cultura hip hop: o fato de pertencerem a uma minoria (no caso, negra, num país racista), e terem tido infâncias pobres. Sem contar o talento de ambos, que fez nascer uma admiração mútua.

- Em 1996, Tupac, aos 25 anos, é assassinado a tiros, em Las Vegas. No ano seguinte, o agora também famoso Biggie é morto de forma similar, a 400km dali, em Los Angeles. Tinha só 24 anos. Com isso, passamos a acompanhar a investigação dos detetives Russel Poole e Fred Miller, sobre este último crime. Eventualmente, as duas mortes irão se cruzar, mostrando que a rivalidade rapper entre a costa leste e oeste não se limitou à música, concretizando-se numa disputa por poder, alimentada por boatos e, principalmente, testosterona.

- Uma década depois, a mãe de Biggie entra com um processo contra a polícia de Los Angeles, pela sua inércia, já que, depois de todo este tempo, não havia resolvido o crime. Assim, em 2006, uma força-tarefa, comandada por Greg Kading, é montada para resolver, de vez, o homicídio. Ou, ao menos, retirar um pouco da responsabilidade da polícia, já que Poole havia recolhido, na sua época, vários indícios de corrupção policial no caso, mas sem conseguir prova definitiva.

O ponto positivo da série é costurar, em paralelo, as três narrativas, sem deixar o roteiro confuso. A direção dos episódios, em especial os comandados por Hemingway, também é muito boa, assim como as atuações em geral. Há que se destacar a caracterização de WavyyJonez e Marcc Rose,que ficaram muito parecidos com os rappers.

Por outro lado, a série perde pontos ao não detalhar melhor a história de suas próprias estrelas: as vítimas Tupac e Biggie. O que definia a cultura hip-hop da época? Por que a correlação entre violência e suas letras? Pouquíssimo da realidade de ambos é mostrada, nos fazendo acompanhar as (desinteressantes) vidas dos policiais Poole e Kading. Ademais, são poucos os momentos em que a série mostra as músicas de seus astros, como se tivesse vergonha delas, apesar de fazerem parte desta história.

Enfim, por focar muito mais na investigação, a série se assemelha à 1ª temporada de American Crime Story, que se debruçava somente sobre o julgamento de O.J. Simpson. Não que sejam séries ruins, porque conferem tensão e divertimento. Mas não chegam perto do excelente OJ: Made in America, da ESPN, muito mais rico por não abordar só os crimes, mas toda a realidade em volta. Porque um crime nunca é somente isso, mas, sim, a consequência de uma realidade muito mais complexa.Que, desta vez, não fica clara qual é.