Cine & TV no DC
Um lugar silencioso

Um lugar silencioso (John Krasinski, 2018).

O cinema é, à provável exceção dos documentários, uma arte mais visual do que auditiva. Quando um filme coloca na boca dos personagens algo que já está ocorrendo na tela, a fala torna-se expositiva, quase um pleonasmo. Qualquer um que tenha assistido alguns filmes de ação já ouviu, provavelmente, alguma derivação daquela fala batida: “Se você fizer isso, eu vou acabar com a sua vida!”. Ora, muito mais eficiente seria apenas focar no rosto cheio de ódio do personagem, ao perceber que seu antagonista fez, de fato, o indesejável. Nos demais gêneros cinematográficos, a regra “mostre, não diga” também é, em geral, a melhor escolha.

Já no cinema de terror, podemos invocar ainda outra regra, que poderia ser traduzida em algo como “menos é mais”. Imagine uma cena na qual uma criança encontra-se parada, num lugar fechado e pouco iluminado, quando começa a ouvir passos se aproximando, mas não consegue perceber de onde vêm. Se bem construída, a cena deixará o espectador “grudado na poltrona”, com uma tensão que irá se dissipar apenas depois que a criatura andarilha aparecer. Sim, ela pode ser assustadora e te fazer gritar no cinema, mas agora, ao menos, a tensão já desapareceu. Não por coincidência, Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, dizia o seguinte: “Não há terror em um estrondo, apenas na expectativa dele”.

Toda esta (longa) introdução serve a um motivo: pontuar que “Um lugar silencioso” segue rigorosamente as duas regras acima, pois, logo nos primeiros minutos, o filme já entrega o pouco que precisamos saber: qualquer som ou barulho, por menor que seja, atrai monstros indesejáveis, que fizeram da Terra um planeta apocalíptico. De onde vieram? O que são? Não importa, porque, de qualquer modo, a família Abbott precisa sobreviver. Contudo, por não poderem sequer gritar um “Ai!” se, digamos, um prego entrar no calcanhar de um deles, os membros desta família passam a se comunicar por sinais, levando ao limite máximo a regra do “mostre, não conte”.

Neste sentido, a direção de John Krasinski surpreende, tensionando o filme desde o primeiro minuto, ao focar no cotidiano familiar quase mudo. Ator mais conhecido pelo personagem Jim Halpert do seriado The Office, este é apenas o terceiro filme de Krasinski como diretor, e sua primeira incursão no gênero de terror. E é invejável como ele consegue, principalmente com a ajuda da extraordinária atuação de Emily Blunt, manter o espectador em constante tensão pelos 90 minutos de filme – que, inclusive, parecem bem mais, mas nunca ficam cansativos.

Assim, a presente obra coloca-se como um novo exemplar na excelente nova safra de filmes de terror, baseada menos em sustos fáceis e mais em enredos bem construídos, como O orfanato (2007); Babadook (2014); Corrente do Mal (2014); Boa noite, mamãe (2014); A Bruxa (2015); O Convite (2015) e, claro, Corra! (2017). Que o cinema continue nesta toada, de assustar mas com qualidade.