Cultura & Vida
O maior mentiroso que já existiu

“Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” (Jo 8,44).

 

No vilarejo, todos já conheciam a fama daquele homem tido como mentiroso. As crianças que há um tempo atrás ouviam e aprendiam com a fábula do “Jovem pastor e o lobo” de Esopo, paulatinamente foram agregando ao seu repertório a história verídica do farsante da vila.
Ninguém ousava mensurar suas farsas, pois todas corroboravam para o desatino daquilo que é mais degradante aos valores humanos. A lábia do larapio das verdades era tanta que as mentiras iam multiplicando-se vertinosamente.
 Certamente, depois de uma boa trajetória como mentiroso perderia a credibilidade daquilo que era sagrado no povoado, as palavras. Foi o que aconteceu.
Depois disso, todos ousaram contabilizar as mentiras do homem e classificá-las em pequenas, médias e grandes. As histórias do mentiroso foram virando antologia na vizinhança. O qual mais o qual queria contar qual era a maior mentira que já havia ouvido.
Como ninguém acreditava mais no homem, qualquer desgraça que viesse de seus lábios seria desacreditada. A amizade com ele manteve-se. Apesar das suas mentiras era trabalhador, devoto de Santo Onofre e querido pela sua bondade. Afinal, somente Um foi perfeito entre nós.
O mentiroso, como era conhecido, vivia sempre alegre, sorridente, cantarolando e buscando uma sombra e algum ser para ser protagonista de suas estórias, tornou-se a personificação da própria mentira. Mas houve um dia que suas palavras inspiraram confiança!
O tempo estava carregado, certamente viria uma tormenta. Ventava muito, quando apareceu o mentiroso do nada. Desta vez chorava. Todos ficaram encabulados e logo perguntaram para ele o que havia acontecido. Triste e choroso exclamou:
- Minha mamãe morreu! Coitadinha, não poderá ver os festejos de São João este ano!
Dona Iazinha, mãe do mentiroso, contava com noventa primaveras e era a rezadeira mais conhecida e querida daquele povoado. Imediatamente todos enveredaram-se para a humilde casinha de Dona Iazinha ao pé da serra. Ao longe, assustados gritaram:
- Meu Deus, só pode ser assombração! É a visagem de Dona Iazinha picando lenha.
Aquela imensa comitiva de gente parou no caminho à espera de algum corajoso que fosse ao encontro da visagem. Todos paralisados foi a dita visagem que venho ao encontro deles. Imediatamente todos fizeram o sinal da cruz, quando ouviram uma voz forte adiantar-se:
- Só falta vocês me disserem que meu querido filhinho mentiu que eu morri. Morri sim! Foi de vergonha desse infeliz! Jamais fui casada com o pai dele!
Sem palavras, o povo ficou parado e indignado. A Dona Iazinha, voltou ao seu oficio, enquanto cada um buscava voltar ao normal da vida. O mentiroso que nessas alturas estava em busca de alguma sombra, chorava amargamente o falecimento de sua mãezinha.

Os três sonhos de um menino que amava futebol

Comecei a colecionar as figurinhas da Copa do Mundo de 1986 entusiasticamente. Correspondiam a duas paixões de menino. Uma o futebol e a outra ser colecionador. A cada moedinha que ganhava, nas idas ao boteco para meu tio e para meu pai, investia na compra das figurinhas. Os primeiros pacotinhos foi uma alegria só, pois quase sempre aquelas 4 figurinhas de cada embalagem ainda não estavam em meu álbum.

A sensação de surpresa foi sendo substituída pela decepção. Perguntava-me o motivo de vir nos pacotinhos sempre as figurinhas com a foto dos jogadores que já estavam em meu álbum. Eu estava com algumas repetidas, entre elas a do Zico, do Sócrates, uma do Júlio César e outra do goleiro da França Joel Bats.

Para essas questões eu utilizava duas estratégias. Uma era bater bafo e a outra fazer a permuta das figurinhas. No bafo era necessária muita habilidade, algo que nunca tive. Ao contrário de meus amigos que iam ao jogo com duas figurinhas e voltavam com 50, eu era o que ia com 50 e voltava com duas. Isso quando estava com sorte, pois às vezes nem mesmo duas restavam. Pensei bem e decidi que a permuta seria mais justa. Eu daria uma figurinha em troca de outra, mas também isso nunca funcionou comigo.

Eu estava com meu álbum praticamente completo, faltava apenas uma ou outra figurinha para preencher especialmente a seleção brasileira. Foi naquele momento que um amigo apareceu por lá, e me disse que estava com as figurinhas do Branco e do Casagrande sobrando.

Meus olhos brilharam e contive-me em fazer uma proposta de imediato. No bafo com certeza eu perderia. Optei pela segunda opção estratégica. Propus a troca. Meu “amigo” disse que, sendo as figurinhas dos jogadores que ele possuía muito difíceis de conseguir queria 2 figurinhas em troca de uma. Fiquei triste com a proposta, pois eu adorava especialmente o Sócrates e o Zico e diante dessa situação fiquei mais uma vez pensativo.  

Era dia 21 de junho de 1986 e eu menino de 10 anos de idade. Eu estava ansioso por dois motivos: um porque vibrava com o Brasil nas quartas de final disputando com a França e outro, pela promessa de meu pai de dar-me um jogo de camisas da seleção brasileira caso o Brasil fosse campeão. Pense em um piá empolgado!

Diante do jogo que logo iniciaria combinei com meu amigo fazermos a negociação depois, assim daria tempo para eu refletir no negócio durante o jogo. Que sofrimento foi aquela partida entre a França e o Brasil. O empate da partida no tempo normal levou o jogo aos pênaltis e nos causou infelizmente o luto. Indescritível foi a tristeza e o choro depois que o Sócrates e o Júlio César erraram o gol! Ao final da partida, com o coração inacreditavelmente gelado, meu amigo me perguntou se fecharíamos o negócio.

Peguei as 4 figurinhas que a mim estavam sobrando, uma do Zico, uma do Sócrates, uma do Júlio César e uma Joel Bats e entreguei-as a ele. Quando ele alegremente foi me entregar as do Branco e do Casagrande, com lágrimas nos olhos afirmei:

- Pode ficar com elas, são todas suas!

Sem o título de campeão do Brasil e sem o jogo de camisas já não fazia mais sentido o terceiro sonho de completar o álbum de figurinhas da Copa.   

 

 

 

 

Mães: protagonistas da história do autismo

No ano de 1943 o psiquiatra infantil Leo Kanner publicou o artigo Autistic disturbances of affective contact que mudaria os estudos sobre a criança. Nesse apresentou a análise do comportamento de 11 crianças que possuíam em comum a ausência de contato com outras pessoas, apego a rotina e obsessão comportamental associada com interesses muito específicos (memorização de nomes de compositores e discos, por exemplo). Essas características não poderiam ser compreendidas pelas categorias de diagnósticos até então conhecidas. Nascia, assim, o “distúrbio autístico do contato afetivo”.

Em 1967 outro livro marcaria a história do autismo. Trata-se de A Fortaleza Vazia escrito pelo psicanalista Bruno Bettelheim. A ideia central da obra era defender que o autismo seria um mecanismo de defesa elaborado pela criança como forma de se preservar diante da hostilidade familiar (em especial das mães). Enquanto Kanner compreendia que o autismo era uma condição inata, para Bettelheim era uma condição adquirida além de acreditar que as mães adoeciam seus filhos.

Ao longo de décadas mães de autistas foram chamadas de “mães-geladeiras”, ou seja: mulheres pouco amorosas, frias e que privavam seus filhos de carinho, além de serem comparadas pelo psicanalista com os guardas dos campos de concentração nazista.

Em resposta, mães e outros familiares criaram associações visando incentivar pesquisas que observassem as causas orgânicas do autismo, formular e conhecer terapias que possibilitassem o desenvolvimento e uma melhor qualidade de vida para seus filhos e também combater os preconceitos em relação a esses e a suas mães.

Um dos exemplos dessa união familiar é a NSAC (Nacional for Autistic Children) criada em 1965 nos Estados Unidos. No Brasil tais associações surgiram a partir da década de 1980 e tinham como foco a união para que, juntas, construíssem e divulgassem informações sobre autismo. As ações desses objetivos referiam-se a organização de eventos sobre a temática, oferta de serviços terapêuticos e educacionais, além da reivindicação de políticas públicas para os autistas brasileiros.

A primeira dessas associações foi a AMA (Associação Amigos do Autista) criada em São Paulo em 1983. Logo em seguida, também tivemos em 1985 a criação da APARJ (Associação dos pais de autistas do Rio de Janeiro) e a ASTECA em 1986 (Associação Terapêutica e Educacional para Crianças Autistas) fundada em Brasília. Em Ponta Grossa uma importante instituição é a APROAUT (Associação de Proteção dos Autistas), fundada em 28 de agosto de 1996 e que tem desenvolvido importante papel em torno de ações em prol dos autistas e familiares.

Esta união familiar, tendo como protagonistas as mães, possibilitou inúmeras conquistas para a construção da cidadania dos autistas no Brasil. Destacamos a criação da lei 12.764/2012, conhecida popularmente como Lei Berenice Piana, que passou a reconhecer legalmente os autistas como pessoas com deficiência garantindo-lhes os mesmos direitos assegurados a esse grupo. A inserção do autismo no Censo 2020 também pode ser apontado como uma conquista dessas mulheres, uma vez que a partir dos dados gerados poderemos ter um perfil de quem são os autistas brasileiros e assim, delinearmos políticas públicas que melhor se adequem às suas necessidades.

Tudo o que sabemos sobre o autismo, desde a definição dessa enquanto um distúrbio do neurodesenvolvimento, até o conhecimento sobre as terapias adequadas, devemos ao engajamento das mães. Cabe a nós escutá-las e nos juntarmos a elas nesta luta para que os direitos de seus filhos, e os seus enquanto mães, sejam respeitados.

Agnus Dei

Havia um pequeno povoado numa cidadezinha do interior do Paraná. Esse era constituído de gente simples, trabalhadora da roça possuía apenas uma opção para suas compras, fosse de alimentos, roupas, calçados, materiais de construção ou utensílios domésticos. A venda “Três Pinheiros: secos e molhados” operava raramente com venda à vista, pois as compras em sua maioria eram marcadas no caderno.

Depois da igreja e rodoviária essa venda era o local mais movimentado do lugarejo. Diariamente nos finais de tarde, os amigos encontravam-se para tomarem sua pinguinha, jogar conversa fora e comprar alguma precisão ou doce ou pirulito para seus filhos. No dia 1ª de cada mês era uma movimentação louca no Três Pinheiros. Tratava-se do dia de pagamento tanto dos aposentados, como dos recebimentos dos trabalhadores.

Com poucas novidades por lá, qualquer pessoa diferente que aparecesse, ou acontecimento fora do comum, bastavam poucos passos e todos já sabiam. Além disso, chamava atenção do povo os vendedores que raramente por lá aventuravam-se. Não tanto os vendedores em si, mas os produtos, especialmente se tivessem utilidade ou fossem curiosos e intrigantes.

Uma das pessoas que obteve muito sucesso por lá foi um vendedor de ursos de pelúcia gigante. Aliás, na verdade esse jovem trocava os ursos por cordões amarelos, brincos ou alianças. Aconteceu que bastou uma criança ver aquele enorme bicho nas costas do negociante e já quis para si. Os pais fizeram pouco caso até sua filhinha fazer um escândalo que queria aquele bicho enorme. Ninguém aguenta criança choramingando e seus pais aproximaram-se do homem.

- Quanto custa esse urso?

- Não estou vendendo senhor. Estou trocando. Imediatamente o pai da menina quis saber o que teria que dar em troca do urso. O comerciante sorridente afirmou:

- Pode ser brinco, anel, aliança ou qualquer coisa desde que seja amarelo. Eu só preciso dar uma olhada antes e aí negociamos. A mãe da menina adiantou-se e disse que havia um velho anel que há muito tempo havia guardado, parece que havia sido de seu falecido pai.

- Pode ser! Posso ver? O pai da menina, pândego, correu sorridente dizendo que as coisas do falecido sogro sabia direitinho onde estavam. E de fato, encontrou aquele robusto anel com uma pedra azul que fez os olhos do barganhista brilharem. Negócio fechado! Ambos felizes. Seguiram seus caminhos.

Paulatinamente o povoado tornou-se alvo de diversos comerciantes que levavam apetrechos interessantes por lá. Um outro vendedor que lançou sua sorte por lá foi um negociador de bijuterias.

Logo que chegou a rodoviária que era numa velha garagem da cidadezinha, o vendedor chamou atenção das pessoas. Não estava bem vestido, mas possuía um dente de ouro, os braços cheios de correntes e um relógio que reluzia tamanho seu brilho.

Assim como os demais novatos seguiu até o Três Pinheiros. Logo pediu uma branquinha e abriu sua mala com o mostruário de suas peças. Os pinguços que estavam por lá perguntaram o que tinha de especial naqueles produtos. O vendedor colocou o copo na mesa, limpou a boca com a mão e disse o seguinte:

- Observem que nessas correntinhas têm um coração como pingente que está escrito Agnus Dei. E dentro dele há um segredo muito especial. Ao dizer isso, os homens quiseram saber o que significava Agnus Dei e que segredo era aquele. O vendedor disse:

- Agnus Dei, significa Cordeiro de Deus, ou Jesus Cristo, mas o segredo nem eu sei o que é. A única coisa que posso afirmar é que as pessoas que comprarem essa maravilhosa peça somente poderão abri-lá quando estiverem diante de uma situação extremamente difícil, pois dentro do coração terá a resposta para qualquer problema.

Um dos que estavam na venda Três Pinheiros, casado de novo, interessou-se pelo produto. Daria como presente a sua jovem esposa. Os outros homens fizeram piadas com ele, quiseram convencê-lo a não acreditar naquela bobagem, mas não adiantou, ele a comprou mesmo assim.

Ao chegar em casa, sua esposa veio ao seu encontro e o beijou como sempre fazia. O jovem então pediu a mulher para fechar os olhos e logo em seguida, carinhosamente colocou o presente embaixo de seus cabelos cheirosos e encaracolados. A jovem ficou emocionada com o presente. O marido explicou detalhadamente o significado do coração.

A moça que ainda estava na lua de mel, jamais imaginaria grandes problemas em sua vida, assim, nem precisaria abrir aquele lindo e meigo coração daquele presente. Mas, infelizmente problemas acontecem em nossa vida e cada um o encara com de um tamanho. Passados 7 anos de casados eis que surge um grande problema na vida dessa jovem.

Por noites e noites chorava em silêncio. Durante dias e dias passava horas e horas angustiada. O que faria? Como solucionaria aquele problema? Precisava resolvê-lo!

Procurou de todas as maneiras solucioná-lo, sem sucesso. Pensou e repensou. Refletiu e meditou. Lembrou-se enfim, do lindo pingente em forma de coração com a inscrição Agnus Dei que havia ganhado do amado marido. Lá estaria a solução do problema.

A princípio hesitou em abrir o lindo coração prateado. Esperou o marido ir à roça e silenciosamente a tirou do pescoço. Depois, pegou o coração e o segurou firmemente em suas mãos suadas e trêmulas. Mentalizou que ali estaria a solução.

Calmamente, forçou e forçou a abertura do pequeno coração. Finalmente o pingente transformou-se em duas partes e em seu interior saltou um pequeno papel enrolado que caiu no chão. Ela subitamente o segurou e desenrolado rapidamente queria ver o que havia escrito. Com letras itálicas havia três palavras: “você é capaz”.

A moça abriu um sorriso no rosto, colocou a correntinha sem o coração em seu pescoço e seguiu feliz sua vida.

O vendedor de livros

Carregava consigo duas enormes malas. Em uma delas já surrada pelas longas viagens que fizera pelo Brasil afora encontrava-se suas roupas, um par de sapatos, uma alpargata e acessórios de higiene pessoal. Em outra, dezenas de livros e almanaques que procurava vender nos lugarejos por onde passava.

Em cada estação que parava, logo tratava de iniciar uma boa conversa com às pessoas, pois seria uma boa oportunidade para ofertar seus livros e almanaques. Fossem crianças, jovens, adultos, homens ou mulheres estava pronto a ofertar suas obras de arte.

Nunca insistiu para que comprassem seus livros. Apresentava-se e gentilmente elencava sobre os produtos que estava vendendo e suas características. O que ele vendia sempre em maior quantidade eram os almanaques. Tratava-se de uma revistinha com calendário de pesca, receitas culinárias, piadas, dicas para curar diversas doenças, simpatias para espantar pragas da lavoura, biografias de santos, cruzadinhas, trava-línguas que os netos adoravam fazer com os avôs, além de espaço para anotações.

Vendia dicionários, histórias de Pedro Malasartes, livros de Monteiro Lobato e a Bíblia Sagrada. De cada exemplar que propagandeava já havia lido na íntegra, isso somado às suas viagens e seus cabelos brancos o tornaram um homem de ampla cultura, também e sabedoria.

Sempre vendia alguma coisa nas estações. Geralmente seus clientes acabavam comprando um almanaque, ou uma bíblia ou histórias de Pedro Malasartes. Nunca ninguém havia adquirido mais de uma obra ao mesmo tempo afinal, os cruzeiros sempre eram contados para não faltar nada durante o mês. Exceção foi de uma senhora que encontrou na estação felicidade próximo a cidade dos anjos.

Essa senhora estava sentada em um dos bancos da estação e observava calmamente o movimento dos transeuntes apressados ao descerem e subirem nos trens que apitavam sinalizando a partida. O vendedor de livros imediatamente sentou-se ao lado daquela mulher.

Ao sentar-se ao lado dela o vendedor ficou mudo. A mulher apresentou-se e parecendo saber que ele lhe ofereceria os livros, comprou uma bíblia e um almanaque. Depois de pagar pelos livros a senhora perguntou o nome do vendedor e ele ainda assustado respondeu que chamava-se Oliveira. A senhora então pediu uma caneta emprestada e fez uma anotação no almanaque.

Admirado com o gesto daquela senhora simples, humilde e cheia de sabedoria o vendedor perguntou o que ela havia escrito no almanaque. Ela sorriu ternamente e afirmou que apenas escreveu seu nome. Ainda curioso quis saber o motivo disso. Novamente com um tom acolhedor, ao mesmo tempo que lhe entregava a caneta, disse que todas as pessoas que conhecia as inseria num círculo de intenções positivas e toda noite antes de deitar-se orava para elas.

Encabulado com tantas perguntas, prometeu a si mesmo que seria a última questão que faria a senhora. Porque um círculo de intenções positivas? A senhora então o abraçou, levantou-se e desapareceu entre a multidão que ouvia o apito do trem.

 

           

Minha caneta sumiu

Quando o prazer de escrever envolveu-me definitivamente. concomitante comecei a ter algumas manias. Uma dela é carregar comigo uma agendinha e uma caneta azul, daquelas da marca bic, uma das mais baratas do mercado.

Essa mania surgiu quando percebi que a inspiração pode aparecer num momento inesperado e se você não a registra ela foge como areia entre os dedos. Às vezes, não é nem tanto a inspiração mas o esquecimento daquela ideia que, mesmo não sendo brilhante pode render ótimos textos! Celular não me atrai muito quando trata-se de escrever!

Não queria perder os insights, as situações peculiares, os atropelos da vida, os fatos inusitados...Para isso, fosse nas reuniões da empresa, nas viagens, nos passeios, em cursos ou palestras; lá estava eu com minha infalível bic e minha agendinha. Afinal, ninguém saberia a hora que algo mirabolante chegaria à cabeça.

Além da mania de carregar a agendinha e a famosa bic, adquiri um medo de perder esses objetos sagrados! Não adiantaria anotar as descobertas e depois perder a agendinha. Ou, ter as ideias, ter a agendinha e perder a bic.

“O que eu mais temia aconteceu-me acidentalmente! ” Foi numa reunião de última hora convocada pela gerência da empresa que trabalho. A correria de todos diante do inesperado levou a maioria a chegar à reunião desprevenidos, ou seja, sem caneta ou papel para anotações. Porém, este que vos escreve estava preparado!

Logo no início da reunião passa uma lista de presenças, obviamente só a lista, sem a bendita da caneta! Eu era o primeiro daquele círculo enorme que formou-se. Depois de assinar a presença, ao passar a lista, meu colega pediu emprestado a minha bic. Sem problemas! Acontece que o seguinte também não havia trazido caneta e o próximo também não e assim, sucessivamente...

A reunião havia começado e a lista continua a rodar. A pauta do encontro não era tenebrosa e portanto, me dei ao luxo de ficar olhando de um lado para outro. Não avistava nem a lista nem a caneta. Em dado momento percebi que, havia muitos colegas com uma bic também. Por um momento acreditei piamente que ela chegaria até mim. Mero engano!

Por incrível que possa parecer foi o dia que pipocavam ideias em minha mente! Infelizmente não pude anotar nem lembrar de nenhuma posteriormente. Restou-me somente desabafar dizendo:

- Minha caneta sumiu!

 

 

 

CATABIO DE AVIÃO

O viajar de Maceió a Japaratinga, perdura cerca de 1 hora e 20 minutos. A estrada não é bem conservada, pois nela tem um tráfego pesado das usinas de cana de açúcar que circundam essa estrada. Mas o viajar por essa, também é muito interessante, pois podemos apreciar a ida para Japaratinga por um parâmetro diferente.  

Certa vez, numa dessas viagens, meu pai ofereceu carona ao delegado da cidade.  Conversa vai, conversa vem, eis que, chegamos num trecho da estrada que tem uma ponte com vários problemas. Um deles é que depois dessa ponte, tinha uma depressão pequena na estrada que chamávamos de catabio de avião, era um dos momentos mais esperado da viagem por nós crianças, pois a sensação era muito boa. Meu pai até avisava “olha o catabio de avião”. Ao passar por esse local, sentíamos um arrepio no estômago e nas costas que era muito bom.

            Em outro trecho, havia uma curva muito perigosa que se alguém errasse a bendita curva cairia lá no fundo, isso no trecho da estrada em Matriz de Camaragibe.  Ao chegarmos naquele trecho o delegado fez um comentário:

- Se um carro escapar por aqui até a alma pia e o retrato cai da parede.

Lembro que fiquei com essa frase na cabeça por muito tempo e só fui entender um pouco mais velha, quando meu pai e eu em outra viagem passávamos pelo mesmo trecho e ele lembrou do delegado e fez o mesmo comentário. Então, meio tímida perguntei o que queria dizer com a alma piar e o retrato cair da parede?  Meu pai com o seu jeito respondeu:

- A alma dá o seu último suspiro, pois seria muito difícil alguém sobreviver a um acidente desses e seu retrato cairia da parede lá na casa dele pela força do impacto.

            Depois disso, todas às vezes que passava por aquela curva lembrava do comentário do delegado. Na minha última viagem no ano de 2018, quando passei pelo mesmo local, percebi que o catabio de avião não mais existia e fiquei um pouco frustrada, pois queria reviver a sensação de infância e quando chegou na bendita curva, fiz o mesmo comentário do delegado e minha sobrinha que não sabia dessa história, fez a mesma pergunta que eu. Por que a alma piava?

 

Rilka Bandeira – Professora de Sociologia      

O menino coletor de açaí

Dizem que o Brasil é o país do futebol. É também. A habilidade dos pés de tantos jogadores e jogadoras percebe-se pela ginga, pelo drible, pelas embaixadinhas caprichadas que mesmo com a bola enorme comparada ao tamanho das crianças, faz-nos brilhar os olhos. Parece que algumas dessas nossas crianças já nascem com a bola nos pés.  

            Mas o Brasil não é só isso! O Brasil é também o país dos habilidosos pés de menino que nos encantam com seu hábil modo sincronizado para alçar quase um voo até chegar ao topo de um enorme pé de açaí que aos olhos de quem vê parece infinito. Suas mãos encaixam-se perfeitamente na palmeira fina e exuberante. Seu rosto aconchega-se do tronco a cada novo passo. Menino filho do Brasil, menino filho do Maranhão, menino nosso filho. 

            Sem demora, lá está ele. Bem contabilizadas, talvez tenham sido dez manobras até chegar ao topo. Aquela visão que é somente dele eu jamais terei. Uma pelo medo que tenho de subir tão alto, outra pela habilidade da doce infância que ele tem e de mim já é distante.  

            Como é olhar de cima de um pé açaí? Qual a sensação ao vislumbrar daquelas alturas tudo o que está aqui embaixo? Como é ser apenas um no abraço com a palmeira?

            Descer parece fácil... Para aquele menino, sim... Em sua inocência pueril não sente os perigos que aos olhos dos adultos poderiam ocorrer. Dez passos para subir, sete passos para descer.  Uma bela palmeira que se torna belíssima quando o menino se transforma em parte dela. Uma perfeita harmonia entre o ser humano e a natureza.  Ambos divinos, ambos humanos! E Deus os fez um para o outro.

            A palmeira continua lá, elegante e generosa, oferecendo seu saboroso e rico fruto, encantando os nossos olhos admirados.

            Ambos sentem-se sós estando longe um do outro.

A saudade permanece no coração do menino até o próximo encontro. A palmeira trabalha sua saudade gerando outros frutos. O menino trabalha sua saudade na esperança do reencontro enquanto aguarda o trabalho da natureza no amadurecimento dos frutos que colaboram no seu sustento.

            Sentem-se unidos quando, num abraço cheio de ternura, o menino renovará mais um encontro preparado na natureza pelo Criador dos dois. É um novo ciclo. A saudade foi necessária para que houvesse um novo deslumbramento no reencontro que solidificará a união da natureza com a humanidade.

Devo, não nego, pago quando puder

Depois de uma longa espera pelo meu primeiro emprego, fui convocado para assumir a cobrança de uma loja de confecções numa grande cidade do estado de São Paulo. Logo percebi que o ofício de cobrador não seria nada fácil.

Havia metas a cumprir diariamente. Metas com relação ao número de pessoas às quais faria cobrança e ao retorno dos inadimplentes. Todo dia era um novo desafio. Como as cobranças eram feitas via telefone, transformei-me num investigador de números. Aliás, descobria pessoas sumidas por anos.

Ao ligar, algumas diziam que não era ela quem devia e que eu nunca mais ligasse. Outras, que iriam pagar logo, logo. Umas que nunca pagariam, outras ainda que a dona da conta havia falecido e a lista de opções era enorme.

Essa “rotina” se tornara severamente estressante. O gerente não parava de cobrar metas. Cobrança em cima da cobrança! Coitado! Apenas cumprira as metas que a ele também eram impostas... Um dia, o gerente me disse que o melhor lugar que havia para trabalhar naquela loja era a cobrança!

Raivoso, tornei-me freudiano naquele momento. Disse ao gerente que na loja havia basicamente três profissões, que corresponderiam ao Id, ao Ego e ao Superego. Expliquei:

O Id correspondia aos vendedores e vendedoras que encontram o cliente no momento de maior êxtase! Trata-se do momento em que predominam o desejo de consumir, a vontade de adquirir algo, fosse por necessidade, por prazer ou patologia. Momento mágico.

O Ego, por sua vez, correspondia aos crediaristas. É a hora da verdade. Depois do mundo das nuvens, o cliente percebe que precisa comprovar renda, justificar que consegue pagar, evidenciar que seu nome é bonito na praça. Geralmente o pagamento é parcelado ou no cartão ou no carnezinho mesmo.

O Superego é o cobrador, esse que se comunica com vocês agora. O cliente, depois que satisfez seus desejos e inicia o processo de pagamento do objeto de seus sonhos, percebe-se na desgraça. Não consegue pagar! Gastos não previstos proliferam... doença na família, desemprego, morte são alguns dos infortúnios desses "miseráveis". E, o cobrador, em meu ingrato ofício, entrarei em contato com o infeliz para cobrar, sabendo que na maioria dos casos não se trata de “veiaco” como costuma-se falar em terras de Ponta Grossa, no Paraná.

Após a breve aulinha de psicanálise o gerente pensativo perguntou:

- Mas qual o papel do gerente nesse caso, meu caro funcionário?

- Bem, meu nobre amigo, o papel do gerente é incentivar o Id para que continue realizando todos os desejos dos clientes. Facilitar para que o Ego proporcione possibilidade nos clientes a convicção de que conseguirão pagar toda a fatura sem dramas. E, por fim, exigir que o Superego consiga fazer com que os clientes paguem uma fatura cuja quitação, na realidade, se tornara impossível.

             Depois desse papo psicanalítico, o gerente satisfeito, bate no meu ombro e diz num tom irônico:

- Vamos tomar um cafezinho, Superego?

Meu presépio

            Segundo relatos, a invenção do presépio tem raízes no século XIII pelas caridosas mãos e genialidade de São Francisco de Assis na Itália. Um dos objetivos de São Francisco era ajudar as pessoas a compreender o imensurável mistério do nascimento de Jesus.

            Alguns outros santos na história da Igreja buscaram nessa fonte inspiração para pautar parte de seus ensinamentos sobre o Amor de Deus pela humanidade. Entre eles o santo educador São Marcelino Champagnat, francês que nasceu em 1789 e foi o fundador do Pequenos Irmãos de Maria, ou maristas.

            São Marcelino Champagnat ensinava que há três lugares especiais para nos encontrarmos com Deus. Champagnat teria inspirando-se no evangelho de Mateus, quando a mãe de João e Thiago, primeiros discípulos do mestre, chega para Jesus e pede: “Senhor, quando começar o seu Reino, garante para meus filhos um lugar à direita e outro à esquerda?”. O que eles desejavam era ter uma posição de destaque contrariando a lógica de Jesus. Champagnat ao contrário afirmava que, em vez de apenas um lugar como queria a mãe de João e Thiago, ele almejava três: o presépio, a cruz e o altar.

            Inspirado nessa Espiritualidade franciscana e marista, através da contemplação do mistério do amor de Deus, busquei compreender como foi o meu presépio, o chamado de Deus à vida. Imaginava que o nascimento de uma criança fosse tudo igual, mero engano. É especial a cada um.

            Nos anos de 1970 minha mãe, Maria, ainda adolescente teve sua primeira filha, a Rosana. Gravidez difícil, mais complicado foi depois do seu nascimento. A felicidade pelo nascimento daquele pequeno anjo foi substituído pelas inúmeras noites sem dormir. Rosana ainda nos primeiros meses havia contraído pneumonia ou sarampo e passava noites em claro sofrendo. A vida pobre na fazenda, onde moraram, não contribuiu para que houvesse facilidade e sucesso no tratamento.

            Rosana foi internada no Bom Jesus e lá ficou por alguns dias. Veio a alta, mas a doença persistiu. Minha mãe e meu pai desesperadamente a levaram ao Bom Jesus novamente e lá ela ficou eternamente no colo da Boa Mãe. Chorei ainda no ventre de minha mãe.

            Continuava chorando junto com minha mãe, sem ela saber. Sentia a sua dor e a minha dor. Deus permanecia conosco. No momento do parto o meu encontro com minha mãe e meu pai foi a presença de Deus em forma de presépio. Dali em diante minha vida transformou-se em um sacramento. (Texto em homenagem a minha irmãzinha Rosana – In memoriam).