Cultura & Vida
O falso sequestro

 

            Aquele jovem convivia cotidianamente com notícias de falso sequestro. Aliás, quem nunca ouviu pelo menos umas dez histórias de falso sequestro? O que ele nunca havia imaginado era que em algum dia pudesse ser uma vítima.

            O jovem a cada notícia dessas falava com peito estufado que jamais cairia em um golpe semelhante porém, numa véspera de feriado recebe uma ligação de um número desconhecido. No ímpeto atende! Com uma voz rouca ouve:

- Alô, aqui é o Lúcifer. Sei quem é você, conheço sua família! Estou com sua irmã aqui ao meu lado, caso não aceite minha proposta sua vida irá virar um inferno.

Naquele instante ouve gritos com choro engasgado ao telefone.

O jovem desespera-se e por um momento percebe-se negociando com o Lúcifer.

- Qual sua proposta? Afirma com voz trêmula.

- Quero que deposite na agência tal, conta tal, R$ 5.000,00 reais. Caso contrário, sua irmã morre!

Gritos frenéticos, choro alucinante. O jovem então teve uma ideia, uma espécie de insight e percebe que sua única irmã estava em casa em um outro cômodo.

            Corre até lá e constata que sua irmã estava tranquilamente fazendo as unhas e ouvindo “Ausência” de Maria Mendonça. Alivia-se, mas finge desespero. Busca uma boa negociação.

- Por favor, misericórdia, não tenho todo esse dinheiro.

- R$ 3.000,00 reais e não se fala mais nisso!

            A ligação fica cada vez mais tensa. Os gritos e choros continuam.

- Meu Deus senhor Lúcifer! Só tenho R$ 1.500,00. Solte minha irmã, por favor!

- A última proposta é R$ 2.000,00 reais, caso contrário nunca mais verá sua irmãzinha querida.

            Naquele instante, o jovem cansado e estressado com o papo entediante, respira fundo e enfatiza ironicamente:

- Sabe de uma coisa Lúcifer? Minha irmã na verdade não vale nem R$ 500,00 reais, pode levá-la para o Quinto dos Infernos!

            O senhor Lúcifer desliga o celular e o jovem sentem-se aliviado após essa ligação demoníaca.

O andarilho e o cachorro

 

Naquela grande cidade, o homem acordava cedo com as buzinas ensurdecedoras dos carros logo pela manhã. Seu endereço era qualquer cantinho onde houvesse espaço para ele e para seu cachorro, Bob, que nunca o abandonava.

A rotina do homem era calma. Após levantar, lavava o rosto com a água que guardava consigo em uma garrafa de refrigerante. Dava uma enxaguada na boca, arrumava seus alfarrábios, suas trouxas de roupa e ia preparar seu café da manhã em uma velha e enferrujada lata de doce de pêssego. O Bob latia, lambia seu rosto e aguardava seu querido companheiro para a jornada diária.

Depois, o homem seguia com uma gaiota, recolhendo papelão, papel, latinhas de refrigerantes e tudo que pudesse ser reciclado. Ao final da tarde, ia até o Reciclados Nação Brasileira e vendia tudo que havia juntado. O Bob sempre ao lado da gaiota.

Atrás da gaiota uma placa amarela, daquelas antigas. Também havia a frase “Nunca pergunte o porquê”, escrita com tinta vermelha, que intrigava as pessoas, porém, ninguém ousava perguntar o motivo daquele estranho "conselho".

Uma refeição era garantida. Tratava-se do café da manhã. O almoço às vezes conseguia quando alguém de bom coração ofertava. O homem apertava a campainha das casas ou dos apartamentos e quando alguém aparecia, pedia comida. Não insistia. Vida que segue.

Certa vez, ao chegar numa casa, não percebeu que tratava-se de um seminário de padres. Como sempre fazia, apertou a campainha e aguardou ser atendido. A gaiota estacionada e ao lado o Bob sentado.

Não demorou muito, apareceu uma alma para atendê-los. O homem apresentou-se e apresentou o cachorro. O seminarista que o atendeu achou estranho, visto seu semblante. Ao ver o homem, não o esperou falar, logo voltou. Encontrou outro colega no caminho, que quis saber quem era o sujeito. O seminarista falou:

- É um mendigo. Coitado! Vou pegar um prato de comida para ele.

Voltou com um prato cheio. Arroz, feijão, batata frita, um bife e uns pedacinhos de tomate com pepino. Ao ver o seminarista com o prato, o homem disse:

- Meu senhor, você não trouxe um prato de comida para meu amigo?

- Não! Como assim?

- Então gostaria de esclarecer duas coisas com o senhor: a primeira é que não sou mendigo, pois, tenho casa para morar e não peço esmola. A segunda é que, se não tem comida para meu amigo, eu não aceito sua oferta.

            O seminarista, sem jeito, não sabia o que fazer naquele momento. Apenas observou o homem pegar sua gaiota, assobiar para o Bob, dar meia volta e seguir viagem. O seminarista com o prato na mão apenas observava. A frase na gaiota chamou sua atenção. Deixou o prato no chão e correu ao encontro do homem e do Bob. Perguntou:

- O senhor pode me explicar essa frase em sua gaiota?

- Todo mundo quer saber os motivos de tudo na vida, como se tudo tivesse resposta. Mas a verdade, meu jovem, é que nem tudo na vida tem resposta. Portanto, nunca pergunte o porquê, mas para quê.

O futuro padre, sem palavras e cheio ainda de perguntas em seu íntimo, voltou ao seminário.

O andarilho e seu cachorro seguiram seu caminho.

 

 

Os Corpos Santos e os Corpos Secos: uma escolha pessoal

    No mundo há mais almas boas do que malévolas. Ainda bem, pois, caso contrário, os cemitérios seriam muito mais movimentados, especialmente no dia de finados. Explico-me.
    Reza uma história que, às pessoas que durante suas vidas praticaram o amor, a fé e a esperança, souberam perdoar a si mesmas e aos outros, que deram de comer a quem teve fome, água a quem teve sede, acolhimento ao estrangeiro, roupa ao nu, visitou ao enfermo e ao encarcerado; ao morrerem tornam-se Corpos Santos. Suas ações tornaram-se eternidade e suas obras continuam a ecoar por todos os mínimos cantos da Terra.  O exemplo de suas vidas ficou registrado com pena de ouro no Livro da Vida.
    Por outro lado, aquelas que foram maledicentes, impuras, libertinas, idolatras, ciumentas, invejosas e que, usurparam os bens dos outros, envolveram-se em operações fraudulentas, aquelas que, mesmo possuindo altos salários usaram sua inteligência para ampliar suas riquezas roubando e furtando dos pobres, o que negaram-se a discernir, arrepender-se, perdoarem-se e optaram por uma vida desenfreada; ao morrerem tornam-se Corpos Secos.
    As almas pecaminosas também serão lembradas, mas pelas suas “espertezas”, “imoralidades” e ética diabólica que, as consumiu durante a vida toda. Suas trajetórias ficaram registradas com sangue no Livro da Morte.
    Os Corpos Santos emanam luzes e intercedem aos desvalidos, aos arrependidos, aos puros de coração, aos justos, aos éticos e morais e seus corpos estão incorruptíveis no cemitério.
    Os Corpos Secos são seres deteriorados, diabólicos, na escuridão, horripilantes, tristes e ainda estão ligados a matéria. Assim, seus cabelos, suas unhas e a barba, crescem o tempo todo e necessitam que uma pessoa da família durante 3 vezes por ano, vá ao campo santo, dirija-se até a cruz grande, reze pedindo perdão e remissão dos pecados daquele ser e depois, abra o túmulo corte seus longos cabelos, barba e unhas. Essa ação precisa ser feita durante 7 anos consecutivos para limpeza da alma.
    Ambos os Corpos, convivem pacificamente. Os Santos entusiasmados, alegres, felizes e sedentos de novos membros para compor a orquestra celestial. Os Secos, estão empenhados na reparação dos seus erros, do arrependimento e cada vez que percebem que chega mais uma lama para compor a legião infernal, lamentam-se profundamente.