Cultura & Vida
NINA A TRAPEZISTA DA VIDA

Com os olhos cheios de lágrimas, Nina mostra-me seus braços e parte do corpo marcado pelas chamas daquele ardente fogo. Com reservas, causada pela sua história de sofrimentos de uma trajetória de assaltos à sua dignidade relata suas memórias.

Minha admiração aumentava gradativamente à medida que percebia que sua história era marcada não apenas por uma tragédia, mas por várias.

A primeira, foi ter visto a invasão do “homem branco” em sua aldeia para traficar ouro, madeira e pessoas. 

            Nina suspirou e disse:

- Levaram parte de nós em ouro e vida!

A segunda foi a sua retirada da tribo, abrupta e inescrupulosamente. Ao ser arrancada da sua aldeia por um grupo do Gran Circo teve sua infância destruída, sua vida assolada.

O tempo no circo foi um exílio. Porém, a marca mais triste de sua vida estava por vir. Nina suspirou... Supostamente estava reunindo forças para descrever os horrores que viveu em sua estreia no Rio de Janeiro. Seria a sua terceira tragédia.

Após a organização de toda a estrutura do circo, venda de muitos ingressos, restara apenas preparar-se para a estreia.

“Respeitável público, com vocês o Gran Circo Norte Americano!”.  Foram as palavras que deram início às apresentações para as mais de 3000 pessoas daquela triste tarde de 17 de dezembro de 1961.

Emocionada, sentiu seu coração pulsar mais forte, o mundo parou naquele momento. Antes de lançar-se para a acrobacia viu uma pequena luz ao longe brilhando no cantinho da lona de nylon do circo, tratava-se de uma pequena labareda. Gritou desesperadamente. FOGO! Por um instante a multidão, a maioria crianças, pensou que o grito ecoado fosse parte do espetáculo, foi sim; mas do “espetáculo mais triste da história”.  

A partir daquele instante a velocidade com que espalhando-se o fogo foi surpreendente, da mesma forma, o desespero da multidão que loucamente procurava fugir.

- O desespero fechou todas as saídas do circo e abriu-as à morte. Às pessoas pisoteavam-se com o corpo todo em chamas, crianças gritavam freneticamente, umas caiam sobre as outras, empilhavam-se aos montes.

Viu um senhor retirar do bolso um canivete e rasgar a lona. Nina ajudava às pessoas, principalmente os anjos a saírem daquele inferno.

A trapezista suspirou mais uma vez e disse que no momento que a lona caiu, ninguém que lá estava conseguiu sobreviver. Sentiu sua alma e seu corpo latejar e latejar ardentemente.

            Foi ao hospital ao lado de outras vidas deformadas que gritavam. Ficou no corredor da morte. Não era um sonho era um pesadelo. Sentia arder o coração, as vísceras. O Brasil estava em luto!

O espetáculo havia terminado!

            Sendo apenas uma artista na cidade grande, viu-se obrigada a mais uma vez sujeitar-se a escravidão. Lavava, passava, cozinhava, cuidava da casa. Mal falava a língua portuguesa. Lembrava do circo com certa nostalgia.

            Lançou-se a própria sorte. Sem dignidade e apenas com a roupa do corpo, empreendeu uma retirada do Estado do Rio de Janeiro. Já na rodovia, pediu carona. Triste sina! Seria uma nova vida?

            E foi. Até encontrar um anjo. Tratava-se de uma escritora. A sua liberdade renasceu ali. A escritora ofereceu mais que uma casa, ofereceu um lar.

- Filho, a vida continua, não importa o que fizeram contigo mas sim, o que irá fazer com o que fizeram! Pois, há coisas que não podemos escapar, mesmo que queiramos.

- Minha vida teve muitas cores que me fizeram reaprender a caminhar, a falar, a alimentar-se, ter gentileza, a dormir e a saborear um pouquinho do que é ser livre e feliz!

           

 

 

 

 

 

A BOLA DENTE DE LEITE

 

Assim como toda criança tive brinquedos, ainda que simples. Talvez a maior diferença foi a de que não foram muitos. Além disso, de modo especial o que mais ganhei na infância foi bola de futebol. Futebol foi meu vício na infância. Não tínhamos campo de futebol no bairro, somente a rua, dois pares de chinelos para construir os gols, eram suficientes para uma partida eletrizante que só terminava após os jogadores não aguentarem mais a corrida.

Morávamos numa região de morro, que além de dificultar as nossas partidas, para nossa tristeza quando alguém forçava o chute, a bola não raras vezes sumia no meio do matagal. Por mais que procurássemos morro abaixo, o matagal nos tirava o prazer do encontro. Isso era um tédio.

Havia uma turminha da rua que era fiel e parceira nas peladas diárias. Batíamos bola antes de ir à escola, na hora do recreio, nas aulas de educação física e na saída das aulas. Ao chegarmos em casa, pausa para um descanso da aula, lanche e futebol que ia noite adentro.

O nosso problema básico persistia. Constantemente perdíamos nosso principal instrumento de trabalho, a bola. Eu a considerava um bem coletivo, no entanto, o dono verdadeiro era eu. Depois de um longo tempo com uma bola dente de leite mágica, pois, sempre acabávamos, algum tempo depois, mesmo que demorasse, encontrando a bichinha bem escondida, descansando no meio do matagal. Mas houve um momento que ela virou estrelinha! Naquele instante nasceu em mim um sonho: ter uma bola de futebol oficial.

Todo mês, após o recebimento do salário de meu pai, íamos ao supermercado para fazermos o “pedido”, que previamente estava numa “nota” ditada cuidadosamente pela minha mãe e registrada pelo meu pai em uma folha de caderno. Meu desejo foi realizado depois da compaixão de meu pai ao saber que nossa bola dente de leite havia virado estrelinha.

Não demorou muito e minha primeira bola rolou desesperadamente morro abaixo. Mais desesperados fomos nós que a vimos cair num esgoto a céu aberto e seguir apressadamente navegando sem fim. Fora a primeira perda, mas infelizmente vieram outras.

Como praticamente todo mês perdíamos nosso principal instrumento de trabalho, o que eu focava antes do quick de morango, era sem dúvida a bola, pois, como meus amigos diziam eu era fominha. Meu pai generosamente, às vezes contrariado por minha mãe, manteve após breves comentários me aconselhando, a compra de seis bolas de capotão oficial, uma por mês.

No sétimo mês, foi diferente. O barraco, como costumávamos falar estava aramado! A hora do pedido, do meu pedido estava tenso. Não era para menos, afinal foram seis bolas de capotão oficial literalmente perdidas. O choro foi imediato, não teríamos mais o futebol diário. Chorei tanto, mas tanto, que a proposta de meu pai foi a seguinte: Será a última bola que eu irei comprar pra você, mas não será de capotão e sim de borracha! Trate de cuidar, pois é a última!

Tive ao mesmo tempo alegria e tristeza. Alegria de apesar da minha birra de piá, ter conquistado a sétima bola porém, a tristeza de ser de borracha, pois ela saltava demais.

Além do batismo dos nossos quichutes, tínhamos o batismo das bolas novas também. Mas esse ritual foi diferente. Após o minuto de silêncio antes da nossa tradicional partida para inauguração da bola nova de borracha, recomendei encarecidamente aos meus colegas que caprichássemos no cuidado com aquela doçura. Chutes fortes estavam terminantemente proibidos.

Primeira partida, bola rolando, emoções à flor da pele, sol a pino e meus colegas atendendo prontamente a minha solicitação. Generosos nos chutes, carinhosos com a pelota, categoria ao finalizar os gols.

Parada técnica antes do final da partida para descanso, água fresquinha, comentários dos lances e imediatamente voltamos a campo. No primeiro lance, após essa parada, chega a bola aos meus pés como uma luva, domino com categoria, faço um drible, avanço e deixo o segundo pra trás, o gol estava livre, bastava um pequeno toque, entretanto, a tentação foi tanta que no ímpeto, arregacei uma bimba de três dedos direto ao gol. Nunca mais vimos aquela bola ou outra em casa! O choro se fez ouvir pelo resto das nossas perdidas infâncias. Sem bola, parecia que já éramos rapazes, adultos quase.

Terra dos buritizais sussurrantes: na voz de Geraldinho Nogueira

O tamanho de uma cidade não se mede pela quantidade de seus prédios ou de casas e construções, mas pela grandeza cultural de seus cidadãos. De fato, assim constata-se em algumas municipalidades desse “imenso almanaque, chamado Brasil”, como diria Oswaldo Montenegro. Tornam-se patrimônio mundial pela maestria de seus filhos e continuam a encantam viajantes em suas diversas rotas pela vida.

            Bela Vista de Goiás, há poucos quilômetros da capital Goiânia, chamada pelo seu maravilhoso povo, acolhedor e gentil, de terra dos buritizais sussurrantes, dentre os diversos ilustres que a terra gentilmente ofereceu e continua a oferecer está o contador de causos muito famoso, especialmente em Goiás, mais conhecido como Geraldinho Nogueira.

            Nele encontra-se uma riqueza de adjetivos, registrados por diversas pesquisas, ou pelo próprio povo que o chamava carinhosamente de Geraldinho Nogueira. Geraldo Policiano Nogueira, nasceu no dia 18 do último mês do ano de 1918 e faleceu em 1993 e na terra que o viu nascer encontra-se um busto para sua justa homenagem.

            Geraldinho Nogueira, conforme biógrafos e inúmeras reportagens foi o mais famoso contador de causos que Goiás já teve. Descoberto pelo publicitário Hamilton Carneiro, apresentador de um programa chamado “Frutos da Terra”, que o “descobriu” na década de 1980. De um talento peculiar, simples, além dos causos, fez publicidade e tornou-se um ícone da cultura popular em todo Brasil, especialmente quando ocupou os palcos do Som Brasil, apresentado por Lima Duarte, nos domingos pela manhã.

            No CD “Trova, prova e viola”, Geraldinho Nogueira, conta diversos causos, entre eles “A namoradinha”, “O osso”, “Dez Marias”, “O causo do marimbondo” e um dos seus mais famosos intitulado de “O causo da bicicleta”, em que ele conta como aprendeu a “domar” uma bicicleta. Com uma linguagem simples e típica da região, a história é permeada pelo jeito singelo e o sorriso inconfundível desse personagem, que provoca alegria da plateia.

              Não é somente a cidade que tem adjetivo de bela, a biblioteca pública pela preciosidade de suas obras, também pode ser considerada bela. Lá é possível encontrar diversas fontes de pesquisa de Geraldinho Nogueira e de uma plêiade na área cultural, como Gilberto Mendonça Teles, grande escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, que enriqueceu ainda mais a biblioteca com obras de sua autoria. Gentilmente Claudia Jeanne do Nascimento, outra riqueza cultural da cidade e talentosíssima artista disponibiliza consulta e mostra o acervo que abriga também a história do povo de Bela Vista de Goiás. Suzana Martins de Oliveira, colaboradora da área cultural da prefeitura é uma exímia incentivadora da leitura e da valorização da história e da trajetória de vidas, trabalha incansavelmente para que a cultura de Bela Vista de Goiás seja também apreciada, conhecida e divulgada.

            Conhecer a história e as histórias de Geraldinho Nogueira nos ajudam a perceber quanta riqueza há em nosso “grande almanaque chamado Brasil”. Do Oiapoque ao Chuí há muita beleza, histórias e causos que podem ser considerados um “relicário de histórias” conforme o título da obra de alguns dos contadores de história de Ponta Grossa, terra paranaense, publicado em 2018 e organizado por Alana Águida Berti.

 

Eu, senha

 

                Drummond de Andrade em uma de suas obras poéticas escreveu um belíssimo texto intitulado: “Eu, etiqueta”. Naquele momento, talvez não tivesse a mínima ideia de que, com os avanços da tecnologia, concomitante às ameaças do mundo virtual, bem como os assaltos online, os ataques virtuais e tantas outras mazelas, a estampa em nós seriam as senhas.

                Levanto pela manhã, e logo em seguida, preciso de uma senha para abrir o celular e verificar as mensagens no whatsapp. Como de costume ao entrar no e-mail pessoal uso uma outra senha. Bem, tenho no mínimo uns 5 correios eletrônicos. Explico-me. Possuía apenas um que no meu entendimento seria suficiente, mas alguém certa vez enviou-me uma mensagem importante e essa ficou num tal de spam. A pessoa enlouquecida quis saber os motivos da não visualização de seu recado. Foi uma saga descobrir o que havia acontecido. Sugeriu-me desta forma, criar outro correio eletrônico que não aconteceria isso. Segui o seu conselho.

                Comecei a trabalhar em uma rede de escolas que necessita ter um correio eletrônico próprio da instituição. Já acumulava mais de 3 contas de e-mails com senhas diferentes. Para cada e-mail havia exigências diferentes para criação da senha de acesso, de modo que não poderia usar uma mesma senha em todas as contas. Para uma bastava 4 números, para outra precisava letras e números, já para uma terceira conta precisava de letras maiúsculas e minúsculas e para uma quarta, letra maiúscula mesclada com números.

                Entrei num curso de pós graduação em uma Instituição que necessitava de um correio eletrônico com senha também, obviamente. Lá vai mais um e-mail. Estava sossegado afinal era apenas mais uma senha!

                Um alívio se não fosse um dos bancos que tenho conta, enviar mensagem que eu precisaria mudar a minha senha de 6 dígitos para 8. Mudei a senha, logo em seguida, recebo notificação no celular que precisaria criar uma nova senha para realizar operações no celular, mas necessitava ser com nome diferente ao meu de identidade. Resolvido! Senha alterada com sucesso. Sucesso para quem campeão?

                Ao chegar ao residencial onde moro, deparo-me com algumas correspondências. Entre elas da operadora de celular, da tv por assinatura, da Netflix, da empresa dos serviços de internet. Pasmem! Não encaminhariam mais as faturas por correio, bastava eu criar um login e senha para ter acesso a toda uma gama de serviços, que facilitariam a minha vida de cliente, certamente.

                A saga das senhas continuaria. A escola de minha filha aderiu a novidade das novas plataformas virtuais com senhas. Tem login e senha para acessar com facilidade notas, ocorrências, avisos, atividades escolares, situação financeira, entre outros. Agilidade enorme.

                Nessas brincadeirinhas, já contava com um turbilhão de senhas que foram ampliadas quando comprei um carro, fui trabalhar em outra escola, entrei em outra instituição, adquiri um novo celular, negociei um computador, abri um conta...

                Perdi as contas, de quantas vezes perguntei de senhas para minha esposa, para minha filha, para meus colegas de trabalho, para meus alunos...Minha segurança é apenas dizer a senha e não o local a qual ela destina-se...É uma estratégia minha!

Minha mãe e meu pai assustados com minha atitude de esquecer as senhas e perguntar a tantas pessoas, pois, elas seriam também as detentoras delas, questionaram-me se eu não teria medo de tanta gente saber os segredos.

                Ao que respondi: São tantas senhas, tantos números e letras, tantos nomes que nem eu mesmo lembro... até eles descobrirem o local exato de determinada senha tentando acessar alguma conta, ela já foi bloqueada! Segurança é fundamental.

A BACIA DE MANDIOCAS

A vida no interior, especialmente no sítio, é cercada por um modo de vida simples, humilde, alegre e acolhedor. Essa vidinha não foi diferente da dos meus avós, que habitavam uma choupana rústica, coberta de telha de barro, sem forro no teto e com um assoalho invejável de madeira nobre do Paraná. Às visitas que chegavam diariamente, deixavam suas alpargatas do lado de fora. Caso estivesse chovendo, limpavam o excesso de barro no limpa pé, próximo à porta.

            Certa feita, na casinha de minha avó, vieram algumas comadres para o chimarrão vespertino. Fogãozinho a lenha a todo vapor, esquentava a água ao mesmo tempo que o bate papo sobre a vida da vizinhança corria solto. A partilha da vida era a alegria daquela gente simples.

            Minha avó, logo encilhou o chimarrão que seria servido na sequência. O zumbido da chaleira no fogo ardia, anunciando que a água estava no ponto pra rodada de chimarrão.

             Generosamente a vovó ia enchendo a cuia e passando às comadres que ocupavam parte da cozinha. Duas chaleiras cheias foram servidas, com muita conversa boa da roça.

Como de costume, ainda antes do término da segunda rodada, a vovó correu ao armário e trouxe uma bacia farta de mandioca frita para servir às visitas, após o chimarrão.

            A vovó imediatamente iniciou a entrega da baciada de mandioca à primeira comadre da roda, que na lógica pegaria uma e passaria à pessoa seguinte, mas isso não aconteceu...para surpresa de minha vó.

            A comadre Mariazinha, primeira da fila, encantada com a bacia repleta de mandioca, imediatamente a segurou e entusiasmada exclamou:

            Comadre Laura, será que consigo comer tudo isso?

Minha avó surpresa, como não seria diferente, disfarçadamente olhou as demais comadres que discretamente escondiam um sorriso amarelado, mas não falaram nada, apenas observaram.

   A curiosidade ao que seguiria foi grande. Não sabia-se ao certo se a comadre Mariazinha estava brincando ou a coisa realmente era séria. Seguiu-se o bate papo gostoso da vida do sítio, enquanto a dona Maria ia vagarosamente saboreando as mandiocas.

Passando um bom tempo, depois de muitos causos, quando quase já haviam esquecido a comadre das mandiocas, ouviu-se um chamado:

- Dona Laura! Olha aqui a bacia de mandiocas!

Minha avó surpresa, levantou-se e foi ao encontro da comadre para recolher a bacia. Ao ver a bacia praticamente pela metade de mandiocas, ainda humildemente perguntou:

            -A comadre não quer mais?

Ao que a comadre Mariazinha respondeu:

            -Mil desculpas Dona Laura, não pude comer todas as mandiocas!!!!

Minha avó, admirada com a façanha da comadre, olhou para demais que não contiveram-se! A gargalhada se fez ouvir ao longe.

 

[1]Texto em homenagem à minha mãe Maria Elzita de Oliveira, mais conhecida como Dona Zita.

A Editora FTD de pé direito na literatura infantil e a obra “Lambe o dedo e vira a página”

Em 25/9/2018, o professor Giovani Marino Favero publicou neste Diário, um texto interessantíssimo intitulado: “Molhadores de dedo e o aspartame”, mostrando que a descoberta desse produto esteve associado ao costume de molhar os dedos e levar à boca para folhear os livros.

            Após a leitura do texto do professor Favero, recordei-me da primeira obra do escritor Ricardo da Cunha Lima, justamente com o título de “Lambe o dedo e vira página: para ler as histórias de um garoto traquina chamado U”, com desenhos de Angela Lago, publicado pela Editora FTD na década de 1980 e que fez enorme sucesso à época.

            A obra de Ricardo Cunha Lima, fez parte de um dos primeiros catálogos da FTD no gênero literatura infantojuvenil, numa coleção chamada “Segundas Histórias”. O autor fez uma estreia brilhante, ao mesmo tempo que seu livro conquistou o prêmio Jabuti na categoria autor revelação em 1986, tendo também, lugar na 9ª Bienal do Livro realizada em São Paulo.

            Além da coleção Segundas Histórias, o catálogo, contou com as seguintes coleções: Primeiras Histórias, Roda Pião, Acalanto, Salamê Minguê, Nossa História, Nossa Gente, Canto Jovem e Setecontos: setentacantos. A Editora FTD que já possuía uma longa trajetória no campo editorial de didáticos desde o início do século XX, buscou autores e editores para ampliação de seus títulos. Os editores da década de 1960 em diante, Irmãos Savério Ronchi, João de Deus e depois João Tissi, deste modo, proporcionaram condições para que a FTD entrasse definitivamente no campo de literatura infantil nos anos de 1980 com obras de grande destaque como o caso de Lambe o dedo e vira a página, entre outros.

Tratava-se da “estreia” da FTD de modo esplêndido no mundo da literatura infantojuvenil. Contou naquele momento com a coordenação editorial de personalidades competentíssimas como Isalino Silva de Albergaria, mais conhecido como Lino de Albergaria e Ione Nassar num primeiro momento e depois com Ceciliany Alves que ainda continua na editora, além de uma constelação de outros autores e editores.

            No catálogo daquela época é possível constatar o teor da obra de Ricardo Cunha Lima, cheio de aventuras do menino U, de Ubaldino e de seu cachorro Bu, de Bubalino. O menino e seu cãozinho, vivem histórias extraordinárias, principalmente quando U, consegue se adiantar no tempo e viver tudo mais depressa pois, tem um relógio que corre mais que as horas e os minutos.

O autor da obra nasceu em São Paulo em 1966, depois, seguiu conquistando diversos prêmios, como o Jabuti em 1985 na categoria Jannart Moutinho Ribeiro, prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), em 1988; entre outros, sendo o último em 2017 quando foi vencedor do 1º Festival + Arte + Cultura, na categoria texto, promovido pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo.

De fato, a obra “Lambe o dedo e vira página”, surpreende e emociona. Talvez o título do livro justifica-se pelo anseio do autor em querer provocar no leitor a sede de querer saber o final das traquinagens do menino U e de seu cachorro Bu, satisfeitas à medida que, lambemos o dedo e viramos a página.

A empolgação em vislumbrar as diversas aventuras do menino U e de seu cachorro Bu, desse modo, são realizadas a partir do momento em que, sem pensar na higiene, vamos mergulhando nas histórias de “Lambe o dedo e vira a página”.

 

Os avós são literatura viva

A partir da década de 1980, especialmente com a promulgação da nova Constituição Federal, há maior visibilidade para alguns grupos de pessoas em especial, conforme sua faixa etária. Assim, as crianças que até então eram vistas como adultos em miniatura, terão um Estatuto próprio, garantindo um conceito de infância adequado às suas condições peculiares de desenvolvimento. Da mesma forma, os idosos, mesmo que tardiamente, através do decreto nº 10741 de 1º de Outubro de 2003, que estabeleceu o Estatuto do Idoso tiveram também maior visibilidade.

Certamente esse olhar provocado por políticas públicas, gerou uma produção literária celebrando o valor dos anciãos em nossa cultura. O campo editorial seguiu essa direção, produzindo obras que apregoam o legado dos avós a seus netos. A sociedade neta desses sábios ganhou com isso. Basta uma busca simples na internet e encontraremos sugestões do tipo: seleções especiais para ler com os avós, livros que celebram as relações entre avós e netos, livros para celebrar o dia dos avós, livros para oferecer a avós, livros dos avós, etc. A lista é imensa, sugestiva e interessante.

Além de uma produção literária, houve o crescimento de grupos de pesquisa que realizaram e continuam realizando inúmeros trabalhos tendo como foco a terceira idade e os anos subsequentes com a longevidade crescente. Em Ponta Grossa, temos a Universidade Aberta da Terceira Idade, sob coordenação da professora Rita de Cássia da Silva Oliveira, que juntamente com diversos outros professores e professoras realizam um trabalho excepcional na perspectiva de integração e ampliação da participação do idoso na sociedade, do resgate da dignidade e cidadania, além da produção acadêmica que reflete a dimensão singular desses sujeitos na sociedade.

Dos muitos textos que possibilitam um olhar sobre o idoso, trago presente um de Mia Couto, escritor Moçambicano, intitulado “Sangue da avó, manchando a Alcatifa”. Uma análise feita pela professora Maria Aparecida do Nascimento Dias da Universidade Estadual da Paraíba, mostra como os projetos de modernização de Moçambique, repercutiram na desvalorização do idoso e que acabaram sendo condicionados a outros sujeitos e sem valor simbólico, que possuía, na imagem do idoso uma representação de grande respeito e sabedoria.

A sociedade africana que possuía na figura do idoso, a ideia do transmissor da herança cultural do povo, principalmente às novas gerações, de acordo com Maria Aparecida do Nascimento Dias, com a chegada dos avanços tecnológicos, dos valores do consumismo, da modernização, do ambiente das cidades, infelizmente não carregou mais o símbolo de “autoridade e veneração”, mas peso e incomodo para aqueles que com eles convivem.

O texto de Mia Couto, de fato, mostra como a avó Carolina foi submetida a um sistema que inferiorizou sua palavra, sua sabedoria, suas tradições, seu conhecimento, sua pessoa. Seus filhos interessaram-se apenas com as tecnologias, as quais substituíram o valor inestimável da experiência anciã por outros bens de consumo.

Seja naquela sociedade africana ou nesta sociedade, mesmo com um olhar mais atento ao idoso através de políticas; necessário é valorizar sua sabedoria, sua riqueza de histórias pra contar, a biblioteca viva que é o idoso, a literatura viva e perspicaz que encontra-se desde sua presença, até em seus gestos.

De acordo com dados do IPARDES (2018), colhidos a partir de estatísticas do IBGE (2010), segundo a faixa etária, em Ponta Grossa, havia até a data da pesquisa em torno de 22.320 pessoas com mais de 60 anos.

Cada uma dessas pessoas é uma literatura viva, um mergulho na ancestralidade, um aprofundamento de sabedoria, de riqueza histórica. Quiçá, pudéssemos aproveitar pelo menos um instante com esses avós, reservássemos parte do escasso tempo capitalista, ocupado em certa medida por milhares de mensagens do whatsapp ou redes sociais virtuais, para bebermos dessa literatura viva que são nossos avós!