Cultura & Vida
A BACIA DE MANDIOCAS

A vida no interior, especialmente no sítio, é cercada por um modo de vida simples, humilde, alegre e acolhedor. Essa vidinha não foi diferente da dos meus avós, que habitavam uma choupana rústica, coberta de telha de barro, sem forro no teto e com um assoalho invejável de madeira nobre do Paraná. Às visitas que chegavam diariamente, deixavam suas alpargatas do lado de fora. Caso estivesse chovendo, limpavam o excesso de barro no limpa pé, próximo à porta.

            Certa feita, na casinha de minha avó, vieram algumas comadres para o chimarrão vespertino. Fogãozinho a lenha a todo vapor, esquentava a água ao mesmo tempo que o bate papo sobre a vida da vizinhança corria solto. A partilha da vida era a alegria daquela gente simples.

            Minha avó, logo encilhou o chimarrão que seria servido na sequência. O zumbido da chaleira no fogo ardia, anunciando que a água estava no ponto pra rodada de chimarrão.

             Generosamente a vovó ia enchendo a cuia e passando às comadres que ocupavam parte da cozinha. Duas chaleiras cheias foram servidas, com muita conversa boa da roça.

Como de costume, ainda antes do término da segunda rodada, a vovó correu ao armário e trouxe uma bacia farta de mandioca frita para servir às visitas, após o chimarrão.

            A vovó imediatamente iniciou a entrega da baciada de mandioca à primeira comadre da roda, que na lógica pegaria uma e passaria à pessoa seguinte, mas isso não aconteceu...para surpresa de minha vó.

            A comadre Mariazinha, primeira da fila, encantada com a bacia repleta de mandioca, imediatamente a segurou e entusiasmada exclamou:

            Comadre Laura, será que consigo comer tudo isso?

Minha avó surpresa, como não seria diferente, disfarçadamente olhou as demais comadres que discretamente escondiam um sorriso amarelado, mas não falaram nada, apenas observaram.

   A curiosidade ao que seguiria foi grande. Não sabia-se ao certo se a comadre Mariazinha estava brincando ou a coisa realmente era séria. Seguiu-se o bate papo gostoso da vida do sítio, enquanto a dona Maria ia vagarosamente saboreando as mandiocas.

Passando um bom tempo, depois de muitos causos, quando quase já haviam esquecido a comadre das mandiocas, ouviu-se um chamado:

- Dona Laura! Olha aqui a bacia de mandiocas!

Minha avó surpresa, levantou-se e foi ao encontro da comadre para recolher a bacia. Ao ver a bacia praticamente pela metade de mandiocas, ainda humildemente perguntou:

            -A comadre não quer mais?

Ao que a comadre Mariazinha respondeu:

            -Mil desculpas Dona Laura, não pude comer todas as mandiocas!!!!

Minha avó, admirada com a façanha da comadre, olhou para demais que não contiveram-se! A gargalhada se fez ouvir ao longe.

 

[1]Texto em homenagem à minha mãe Maria Elzita de Oliveira, mais conhecida como Dona Zita.

A Editora FTD de pé direito na literatura infantil e a obra “Lambe o dedo e vira a página”

Em 25/9/2018, o professor Giovani Marino Favero publicou neste Diário, um texto interessantíssimo intitulado: “Molhadores de dedo e o aspartame”, mostrando que a descoberta desse produto esteve associado ao costume de molhar os dedos e levar à boca para folhear os livros.

            Após a leitura do texto do professor Favero, recordei-me da primeira obra do escritor Ricardo da Cunha Lima, justamente com o título de “Lambe o dedo e vira página: para ler as histórias de um garoto traquina chamado U”, com desenhos de Angela Lago, publicado pela Editora FTD na década de 1980 e que fez enorme sucesso à época.

            A obra de Ricardo Cunha Lima, fez parte de um dos primeiros catálogos da FTD no gênero literatura infantojuvenil, numa coleção chamada “Segundas Histórias”. O autor fez uma estreia brilhante, ao mesmo tempo que seu livro conquistou o prêmio Jabuti na categoria autor revelação em 1986, tendo também, lugar na 9ª Bienal do Livro realizada em São Paulo.

            Além da coleção Segundas Histórias, o catálogo, contou com as seguintes coleções: Primeiras Histórias, Roda Pião, Acalanto, Salamê Minguê, Nossa História, Nossa Gente, Canto Jovem e Setecontos: setentacantos. A Editora FTD que já possuía uma longa trajetória no campo editorial de didáticos desde o início do século XX, buscou autores e editores para ampliação de seus títulos. Os editores da década de 1960 em diante, Irmãos Savério Ronchi, João de Deus e depois João Tissi, deste modo, proporcionaram condições para que a FTD entrasse definitivamente no campo de literatura infantil nos anos de 1980 com obras de grande destaque como o caso de Lambe o dedo e vira a página, entre outros.

Tratava-se da “estreia” da FTD de modo esplêndido no mundo da literatura infantojuvenil. Contou naquele momento com a coordenação editorial de personalidades competentíssimas como Isalino Silva de Albergaria, mais conhecido como Lino de Albergaria e Ione Nassar num primeiro momento e depois com Ceciliany Alves que ainda continua na editora, além de uma constelação de outros autores e editores.

            No catálogo daquela época é possível constatar o teor da obra de Ricardo Cunha Lima, cheio de aventuras do menino U, de Ubaldino e de seu cachorro Bu, de Bubalino. O menino e seu cãozinho, vivem histórias extraordinárias, principalmente quando U, consegue se adiantar no tempo e viver tudo mais depressa pois, tem um relógio que corre mais que as horas e os minutos.

O autor da obra nasceu em São Paulo em 1966, depois, seguiu conquistando diversos prêmios, como o Jabuti em 1985 na categoria Jannart Moutinho Ribeiro, prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), em 1988; entre outros, sendo o último em 2017 quando foi vencedor do 1º Festival + Arte + Cultura, na categoria texto, promovido pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo.

De fato, a obra “Lambe o dedo e vira página”, surpreende e emociona. Talvez o título do livro justifica-se pelo anseio do autor em querer provocar no leitor a sede de querer saber o final das traquinagens do menino U e de seu cachorro Bu, satisfeitas à medida que, lambemos o dedo e viramos a página.

A empolgação em vislumbrar as diversas aventuras do menino U e de seu cachorro Bu, desse modo, são realizadas a partir do momento em que, sem pensar na higiene, vamos mergulhando nas histórias de “Lambe o dedo e vira a página”.

 

Os avós são literatura viva

A partir da década de 1980, especialmente com a promulgação da nova Constituição Federal, há maior visibilidade para alguns grupos de pessoas em especial, conforme sua faixa etária. Assim, as crianças que até então eram vistas como adultos em miniatura, terão um Estatuto próprio, garantindo um conceito de infância adequado às suas condições peculiares de desenvolvimento. Da mesma forma, os idosos, mesmo que tardiamente, através do decreto nº 10741 de 1º de Outubro de 2003, que estabeleceu o Estatuto do Idoso tiveram também maior visibilidade.

Certamente esse olhar provocado por políticas públicas, gerou uma produção literária celebrando o valor dos anciãos em nossa cultura. O campo editorial seguiu essa direção, produzindo obras que apregoam o legado dos avós a seus netos. A sociedade neta desses sábios ganhou com isso. Basta uma busca simples na internet e encontraremos sugestões do tipo: seleções especiais para ler com os avós, livros que celebram as relações entre avós e netos, livros para celebrar o dia dos avós, livros para oferecer a avós, livros dos avós, etc. A lista é imensa, sugestiva e interessante.

Além de uma produção literária, houve o crescimento de grupos de pesquisa que realizaram e continuam realizando inúmeros trabalhos tendo como foco a terceira idade e os anos subsequentes com a longevidade crescente. Em Ponta Grossa, temos a Universidade Aberta da Terceira Idade, sob coordenação da professora Rita de Cássia da Silva Oliveira, que juntamente com diversos outros professores e professoras realizam um trabalho excepcional na perspectiva de integração e ampliação da participação do idoso na sociedade, do resgate da dignidade e cidadania, além da produção acadêmica que reflete a dimensão singular desses sujeitos na sociedade.

Dos muitos textos que possibilitam um olhar sobre o idoso, trago presente um de Mia Couto, escritor Moçambicano, intitulado “Sangue da avó, manchando a Alcatifa”. Uma análise feita pela professora Maria Aparecida do Nascimento Dias da Universidade Estadual da Paraíba, mostra como os projetos de modernização de Moçambique, repercutiram na desvalorização do idoso e que acabaram sendo condicionados a outros sujeitos e sem valor simbólico, que possuía, na imagem do idoso uma representação de grande respeito e sabedoria.

A sociedade africana que possuía na figura do idoso, a ideia do transmissor da herança cultural do povo, principalmente às novas gerações, de acordo com Maria Aparecida do Nascimento Dias, com a chegada dos avanços tecnológicos, dos valores do consumismo, da modernização, do ambiente das cidades, infelizmente não carregou mais o símbolo de “autoridade e veneração”, mas peso e incomodo para aqueles que com eles convivem.

O texto de Mia Couto, de fato, mostra como a avó Carolina foi submetida a um sistema que inferiorizou sua palavra, sua sabedoria, suas tradições, seu conhecimento, sua pessoa. Seus filhos interessaram-se apenas com as tecnologias, as quais substituíram o valor inestimável da experiência anciã por outros bens de consumo.

Seja naquela sociedade africana ou nesta sociedade, mesmo com um olhar mais atento ao idoso através de políticas; necessário é valorizar sua sabedoria, sua riqueza de histórias pra contar, a biblioteca viva que é o idoso, a literatura viva e perspicaz que encontra-se desde sua presença, até em seus gestos.

De acordo com dados do IPARDES (2018), colhidos a partir de estatísticas do IBGE (2010), segundo a faixa etária, em Ponta Grossa, havia até a data da pesquisa em torno de 22.320 pessoas com mais de 60 anos.

Cada uma dessas pessoas é uma literatura viva, um mergulho na ancestralidade, um aprofundamento de sabedoria, de riqueza histórica. Quiçá, pudéssemos aproveitar pelo menos um instante com esses avós, reservássemos parte do escasso tempo capitalista, ocupado em certa medida por milhares de mensagens do whatsapp ou redes sociais virtuais, para bebermos dessa literatura viva que são nossos avós!