Cultura & Vida
A PANELA DE DINHEIRO NO PÉ DE IMBUIA II – O DESPERTAR

 Ao olhar o velho relógio de pulso, um oriente três estrelas, seu Chiquinho deu-se conta de que ainda era cedo para levanta-se, então, mesmo sem sono aproveitou mais uns momentinhos em seu colchão de palha. Não tardou, ouviu o galo cantar anunciando o amanhecer.

Com o corpo dolorido, não pela cama que estava acostumado, mas pela noite e pelos longos pesadelos confusos, levantou-se e preparou um belo café tropeiro. O cheirinho do café espalhava-se por toda a fazenda. Talvez foi isso que atraiu o compadre Joãozinho ao ranchinho.

Seu Chiquinho, sem cerimônia ofereceu uma xícara de café quentinho ao compadre Joãozinho que já estava sentado num banquinho de madeira e disse angustiado ao compadre:

- Compadre do céu! Está noite quase morri de susto. Uma “visage” apareceu e me falou de uma panela de dinheiro. Falou que ela está enterrada no pé de imbuia, perto do arroio e que poderia ser retirado hoje à meia noite...

O compadre Joãozinho entusiasmado disse:

- Meu Deus compadre Chico! Então tá combinado! Vou em casa preparar a lanterna de carbureto, as ferramentas e vamos desenterrar essa panela.

            Apesar da empolgação do compadre Joãozinho, seu Chiquinho não estava muito animado para empreitada, mas acabou topando o desafio. À noite chegou rápido e lá estava o compadre Joãozinho com todos os apetrechos para a retirada da panela. Ambos, seguiram apressadamente para o pé de imbuia.

Ainda durante o caminho notaram coisas estranhas, como barulhos sinistros, uivos, gemidos, mas continuaram a caminhar. O pé de imbuia parecia mais longe do que realmente era. Passaram pelo pasto, pelo curral e em seguida avistaram o imenso pé de imbuia centenário e vistoso.

Chegaram, rezaram e decidiram quem iria cavoucar. Compadre Joãozinho foi escolhido. Seu Chiquinho segurava o carbureto iluminando o local. Não demorou muito tempo e as “novidades” começaram aparecer.

Os gritos intensificara-se, choros de crianças, vendaval enorme e o medo aproximou-se. À medida que o buraco ficava mais fundo, apareciam aranhas, morcegos e até cobras. O compadre Joãozinho logo verificou que havia bastante carvão. Foi o momento em que o um arrepio tomou conta de seu corpo. Seu Chiquinho também já queria abandonar o serviço. E foi o que decidiram!

Cada um saiu apressadamente em direção aos seus ranchos. O sonho aparentemente havia acabado.

Seu Chiquinho ainda sem saber exatamente o que havia acontecido foi preparar um cafezinho. Já se passava das 3 horas da manhã, quando ouviu latidos dos cachorros. Pensou que fosse o compadre Joãozinho chegando para tomar o cafezinho, porém não viu nada. Quis espiar melhor e percebeu que os latidos viam do pé de imbuia. Rapidamente sentiu-se movido por uma coragem imensa e tomado de um ímpeto foi até o pé de imbuia.

Ao chegar próximo somente viu os cachorros latindo sem parar. Iluminou com o carbureto o buraco e viu que havia sido retirado algo. Subitamente ao olhar para os lados viu ao longe o compadre Joãozinho correndo com uma espécie de caldeirão à mão esquerda.

Seu Chiquinho, agachou-se, rezou, apanhou as ferramentas que haviam sido deixadas por ali, chamou os cachorros e seguiu para seu ranchinho juntamente com o som dos galos cantando anunciando o amanhecer do dia.

A PANELA DE DINHEIRO NO PÉ DE IMBUIA I – O SONHO

 

            Seu Chico ouvirá muitos causos de panela cheia de dinheiro enterradas. Nos seus mais de 60 anos de idade, porém, ainda ninguém havia o convidado para retirar nenhuma delas, das muitas que contavam existir. Ele dizia que nunca nenhuma assombração o escolheu.

            A panela de dinheiro devia ser destinada realmente às pessoas escolhidas e essa escolha acontecia através dos sonhos. Alguém em forma de assombração, ou “visage” como ele falava, apareceria e descreveria o lugar, o dia e o horário certo para retirar a riqueza geralmente em forma de moedas de ouro.

            Seu Chico vivia encabulado e contando para todo mundo da fazenda que queria ser que indicado para uma panela de dinheiro. Dizia que era corajoso, que essas panelas só eram destinadas aos medrosos e de pouca fé. Espera ansiosamente um sonho revelador.

            Era uma quinta- feira da semana santa e depois de um longo dia de trabalho árduo na Fazenda da Bocaina, pressentia que a noite seria chuvosa e com surpresas. Após chegar em seu ranchinho e tomar um belo banho de caneca, saborear uma jantinha especial feita no fogão a lenha, colocou-se como um morto na cama de palha para repousar. Noite escura, chuvosa, com fartura de relâmpagos e raios não o atrapalhou para dormir rapidamente.

            Durante seu terceiro sono, lá pelas três horas da manhã, subitamente foi cometido por uma estranha sensação. Primeiramente, notou seu corpo trêmulo e em seguida, sentiu um arrepio enorme. A impressão foi de que estava acordado. Percebeu um zumbido no ouvido. Viu-se como se estivesse fora de seu corpo. Sentiu medo. Tentou acordar, mas não conseguiu. Quis gritar, no entanto a voz não saia.

            Naquele momento, sem conseguir voltar ao normal, apenas entregou-se ao destino. Ouviu um voz estranha que vinha de uma luz intensa ao longe. Aquele som, embora um tanto inaudível, foi suficiente para compreender que tratava-se da oferta de uma panela cheia de dinheiro. Ao tentar pensar em perguntas, a assombração adiantou-se, detalhando o local, o dia e o horário que ele deveria retirar uma panela cheia de dinheiro.

            Seu Chiquinho naquele momento nem pensava em riqueza tamanho era seu medo, queria mais era voltar daquele pesadelo horripilante e inexplicável. Pouco a pouco a luz foi apagando-se, percebeu apenas a sombra de um monge com algo na mão que foi também desaparecendo em uma nuvem branca.

Subitamente sentiu seu corpo ficando mais leve e voltando ao normal. O zumbindo foi diminuindo. Começou a mentalizar a carta do céu, pois, era uma oração forte. Imediatamente acordou, suado e sem entender direito o que aconteceu. Levantou-se, acendeu um velho lampião e sentou-se ao lado da cama. Agradeceu a Deus e a Nossa Senhora Aparecida pela vida, perguntando-se se aquilo era algo de sua imaginação ou realidade.

Continua....

A confusão no formigueiro

Havia um pequeno formigueiro na floresta e nele habitavam amigavelmente as formigas. Todas buscavam o bem comum, viviam felizes e confiavam umas nas outras. Algumas trabalhavam durante o dia e outras durante à noite para manter o formigueiro provido de alimento, conforto e proteção, especialmente contra os grande insetos devoradores.

Certa noite, a formiga rainha descontente com o modo de organização das suas amigas operárias, saiu em disparada do formigueiro e foi a outras colônias vizinhas, para juntos com outras formigas, arquitetar estrategicamente um modo diferente de administrar o seu formigueiro.

No outro dia quando as formigas operárias do turno do dia começaram sua labuta, notaram que a colônia encontrava-se organizada de modo diferente. As formigas sentinelas, responsáveis pela guarida da colônia já não eram as mesmas. As barreiras do formigueiro contra a invasão inimiga haviam sido trocadas por cercas vulneráveis.

A formiga rainha, juntamente com suas amigas de outros formigueiros, na calada da noite, formou uma nova comissão colonial para zelar do formigueiro e sem consulta prévia da comissão das operárias elaborou um novo regimento. Paulatinamente, as demais formigas operárias, que também não sabiam o que estava acontecendo, ficaram surpresas, assustadas e indecisas, afinal, tratava-se de uma situação inédita.

Alguma coisa precisava ser feita, afinal a rainha feriu o código de lealdade da colônia, colocando em risco a vida de todas as formigas. Foi então que algumas operárias organizaram-se para pedir explicações a rainha; porém, usando de sua inteligência maquiavélica a rainha impugnou a organização de suas amigas que sempre foram leais.

O formigueiro estava uma balburdia. As formigas operárias reuniram-se secretamente no Centro de Convenções do formigueiro, a fim de organizarem uma estratégia para que a ordem e a paz voltassem a reinar no formigueiro. Algumas formigas choravam, lamentavam e perguntavam-se o que havia acontecido com a rainha que sempre mostrou-se cordial, justa e democrática. Não encontraram respostas!

Com todas as operárias reunidas no Centro de Convenções, convocaram a rainha para esclarecimentos. A rainha sentou-se calmamente e justificou cada uma de suas ações, que aparentemente estavam em consonância com o código da colônia, mas que na verdade não passavam de estratagemas para manter-se no poder e controlar o formigueiro.

Após muita confusão as operárias expulsaram a rainha da colônia e estabeleceram uma Comissão para reorganizar a bagunça que havia sido decretada. Foram meses e meses de muito empenho para que a paz voltasse a reinar no formigueiro.

A formiga rainha nunca mais foi vista na floresta, muito menos no formigueiro. Ninguém tem saudades daquele tempo amargo e sombrio vivido na colônia, muito menos da formiga rainha. 

 

 

 

 

 

O MENINO QUE QUERIA SER MÁGICO

 

A primeira vez que apreciei um espetáculo de mágicas fiquei encantado. Foi através de uma televisão em preto e branco, que meu pai havia comprado em várias parcelas. Meus olhos brilhavam ao vislumbrar o mágico fazer desaparecer lenços, transformar a varinha em flores, adivinhar cartas ou naipes de baralho que haviam sido escolhidas pelo público.

            Duas perguntas persistiam em minha cabeça: como aquele mágico realizava aqueles truques e passes de modo tão perfeito e espetacular? E, o que eu deveria fazer para torna-me um mágico de verdade?

            A vida continuava a seu ritmo, escola, brincadeiras, convivência com meus dois irmãos. Um deles nervoso e briguento e o outro calmo ao ponto de ficar catando moscas ao ar. Aquelas perguntas existências persistiam...

Assisti diversos espetáculos pela televisão, movida a bateria de automóvel e sem luxo em nossa sala e cozinha, que ocupava um mesmo espaço. Um sofá vermelho de três lugares acomodava ao menos cinco pessoas, das quais vizinhos que não possuíam televisão e iam até nossa casa para assistir.

Eu sabia que podia apreciar além do mágico, outros artistas como palhaços, bailarinas e malabares em um circo, porém, apesar de ter visto várias companhias chegarem em nosso bairro, fazerem convites promocionais na escola, nunca meus pais tiveram condições de adquirir uma mísera entrada, infelizmente.

O tempo ia passando e parecia que o sonho de ser mágico de verdade ia tornando-se cada vez mais distante. Porém, após uma mudança triste e inesperada do nosso bairro, pois, eu adorava aquele lugarzinho, conheci o Paraíso. Casa nova, escola nova, amigos novos!

Parecia um momento triste em minha vida, até eu encontrar o seu Zé, um senhor bem sucedido financeiramente e além disso com uma sabedoria enorme. Grande leitor de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Cora Coralina, Clarice Lispector, entre uma plêiade de outros escritores e escritoras. Diariamente eu ia em sua casa para longamente conversamos sobre a vida, a morte, a esperança, o mundo e tantos outros assuntos.

Além de começar a encantar-me cada vez mais com a leitura, especialmente com a Coleção Vaga-Lume, gibis do Tex e autores como Monteiro Lobato, logo lhe revelei o meu encantamento com as mágicas. Para minha surpresa ele foi até a sua enorme cozinha, trouxe três grãos de feijões. Primeiro, moeu em seus dentes cada um daqueles 3 feijões e jogou fora. Logo em seguida, pediu que eu estendesse a mão. Num passe de mágica fez aparecer os três feijões que haviam sido destruídos. Como se não bastasse, com algumas palavras mágicas, os fez desaparecer novamente.

Eu que já estava encantado com aquela sabedoria em pessoa, tornei-me verdadeiramente seu fã. Aquele era o momento para retirar do baú aquelas perguntas que quase havia esquecido. Como o mágico realizava aqueles truques e passes de modo tão perfeito e espetacular? E o que eu deveria fazer para ser um mágico de verdade? Mas agora eu podia perguntar ao próprio mágico. E foi o que fiz.

            Sabiamente ele respondeu-me que iria ensinar-me primeiramente algumas regras do mágico, depois a mágica do feijão e calmamente disse que o destino me mostraria outras mágicas e os palcos da vida. O momento foi mágico.

            Comecei a realizar espetáculos na escola, na sala de aula, em casa, para os amigos na rua. Fiquei conhecido como o menino mágico da rua. Meu show era apenas uma mágica, mas logo aprendi outras.

            Conquistei amigos, ganhei doces, conheci pessoas com a mágica. A mágica mudou minha vida. Nunca mais abandonei a arte de encantar crianças, jovens, adultos e idosos com espetáculos simples e encantadores. A sabedoria daquele senhor continua comigo.

            Após cada apresentação o que eu mais ouço é a pergunta: como eu realizo os passes de mágica de modo tão perfeito e espetacular? Sem hesitar, digo que o maior truque é o encantamento e a imaginação proporcionados pelo segredo do mágico.

NINA A TRAPEZISTA DA VIDA

Com os olhos cheios de lágrimas, Nina mostra-me seus braços e parte do corpo marcado pelas chamas daquele ardente fogo. Com reservas, causada pela sua história de sofrimentos de uma trajetória de assaltos à sua dignidade relata suas memórias.

Minha admiração aumentava gradativamente à medida que percebia que sua história era marcada não apenas por uma tragédia, mas por várias.

A primeira, foi ter visto a invasão do “homem branco” em sua aldeia para traficar ouro, madeira e pessoas. 

            Nina suspirou e disse:

- Levaram parte de nós em ouro e vida!

A segunda foi a sua retirada da tribo, abrupta e inescrupulosamente. Ao ser arrancada da sua aldeia por um grupo do Gran Circo teve sua infância destruída, sua vida assolada.

O tempo no circo foi um exílio. Porém, a marca mais triste de sua vida estava por vir. Nina suspirou... Supostamente estava reunindo forças para descrever os horrores que viveu em sua estreia no Rio de Janeiro. Seria a sua terceira tragédia.

Após a organização de toda a estrutura do circo, venda de muitos ingressos, restara apenas preparar-se para a estreia.

“Respeitável público, com vocês o Gran Circo Norte Americano!”.  Foram as palavras que deram início às apresentações para as mais de 3000 pessoas daquela triste tarde de 17 de dezembro de 1961.

Emocionada, sentiu seu coração pulsar mais forte, o mundo parou naquele momento. Antes de lançar-se para a acrobacia viu uma pequena luz ao longe brilhando no cantinho da lona de nylon do circo, tratava-se de uma pequena labareda. Gritou desesperadamente. FOGO! Por um instante a multidão, a maioria crianças, pensou que o grito ecoado fosse parte do espetáculo, foi sim; mas do “espetáculo mais triste da história”.  

A partir daquele instante a velocidade com que espalhando-se o fogo foi surpreendente, da mesma forma, o desespero da multidão que loucamente procurava fugir.

- O desespero fechou todas as saídas do circo e abriu-as à morte. Às pessoas pisoteavam-se com o corpo todo em chamas, crianças gritavam freneticamente, umas caiam sobre as outras, empilhavam-se aos montes.

Viu um senhor retirar do bolso um canivete e rasgar a lona. Nina ajudava às pessoas, principalmente os anjos a saírem daquele inferno.

A trapezista suspirou mais uma vez e disse que no momento que a lona caiu, ninguém que lá estava conseguiu sobreviver. Sentiu sua alma e seu corpo latejar e latejar ardentemente.

            Foi ao hospital ao lado de outras vidas deformadas que gritavam. Ficou no corredor da morte. Não era um sonho era um pesadelo. Sentia arder o coração, as vísceras. O Brasil estava em luto!

O espetáculo havia terminado!

            Sendo apenas uma artista na cidade grande, viu-se obrigada a mais uma vez sujeitar-se a escravidão. Lavava, passava, cozinhava, cuidava da casa. Mal falava a língua portuguesa. Lembrava do circo com certa nostalgia.

            Lançou-se a própria sorte. Sem dignidade e apenas com a roupa do corpo, empreendeu uma retirada do Estado do Rio de Janeiro. Já na rodovia, pediu carona. Triste sina! Seria uma nova vida?

            E foi. Até encontrar um anjo. Tratava-se de uma escritora. A sua liberdade renasceu ali. A escritora ofereceu mais que uma casa, ofereceu um lar.

- Filho, a vida continua, não importa o que fizeram contigo mas sim, o que irá fazer com o que fizeram! Pois, há coisas que não podemos escapar, mesmo que queiramos.

- Minha vida teve muitas cores que me fizeram reaprender a caminhar, a falar, a alimentar-se, ter gentileza, a dormir e a saborear um pouquinho do que é ser livre e feliz!

           

 

 

 

 

 

A BOLA DENTE DE LEITE

 

Assim como toda criança tive brinquedos, ainda que simples. Talvez a maior diferença foi a de que não foram muitos. Além disso, de modo especial o que mais ganhei na infância foi bola de futebol. Futebol foi meu vício na infância. Não tínhamos campo de futebol no bairro, somente a rua, dois pares de chinelos para construir os gols, eram suficientes para uma partida eletrizante que só terminava após os jogadores não aguentarem mais a corrida.

Morávamos numa região de morro, que além de dificultar as nossas partidas, para nossa tristeza quando alguém forçava o chute, a bola não raras vezes sumia no meio do matagal. Por mais que procurássemos morro abaixo, o matagal nos tirava o prazer do encontro. Isso era um tédio.

Havia uma turminha da rua que era fiel e parceira nas peladas diárias. Batíamos bola antes de ir à escola, na hora do recreio, nas aulas de educação física e na saída das aulas. Ao chegarmos em casa, pausa para um descanso da aula, lanche e futebol que ia noite adentro.

O nosso problema básico persistia. Constantemente perdíamos nosso principal instrumento de trabalho, a bola. Eu a considerava um bem coletivo, no entanto, o dono verdadeiro era eu. Depois de um longo tempo com uma bola dente de leite mágica, pois, sempre acabávamos, algum tempo depois, mesmo que demorasse, encontrando a bichinha bem escondida, descansando no meio do matagal. Mas houve um momento que ela virou estrelinha! Naquele instante nasceu em mim um sonho: ter uma bola de futebol oficial.

Todo mês, após o recebimento do salário de meu pai, íamos ao supermercado para fazermos o “pedido”, que previamente estava numa “nota” ditada cuidadosamente pela minha mãe e registrada pelo meu pai em uma folha de caderno. Meu desejo foi realizado depois da compaixão de meu pai ao saber que nossa bola dente de leite havia virado estrelinha.

Não demorou muito e minha primeira bola rolou desesperadamente morro abaixo. Mais desesperados fomos nós que a vimos cair num esgoto a céu aberto e seguir apressadamente navegando sem fim. Fora a primeira perda, mas infelizmente vieram outras.

Como praticamente todo mês perdíamos nosso principal instrumento de trabalho, o que eu focava antes do quick de morango, era sem dúvida a bola, pois, como meus amigos diziam eu era fominha. Meu pai generosamente, às vezes contrariado por minha mãe, manteve após breves comentários me aconselhando, a compra de seis bolas de capotão oficial, uma por mês.

No sétimo mês, foi diferente. O barraco, como costumávamos falar estava aramado! A hora do pedido, do meu pedido estava tenso. Não era para menos, afinal foram seis bolas de capotão oficial literalmente perdidas. O choro foi imediato, não teríamos mais o futebol diário. Chorei tanto, mas tanto, que a proposta de meu pai foi a seguinte: Será a última bola que eu irei comprar pra você, mas não será de capotão e sim de borracha! Trate de cuidar, pois é a última!

Tive ao mesmo tempo alegria e tristeza. Alegria de apesar da minha birra de piá, ter conquistado a sétima bola porém, a tristeza de ser de borracha, pois ela saltava demais.

Além do batismo dos nossos quichutes, tínhamos o batismo das bolas novas também. Mas esse ritual foi diferente. Após o minuto de silêncio antes da nossa tradicional partida para inauguração da bola nova de borracha, recomendei encarecidamente aos meus colegas que caprichássemos no cuidado com aquela doçura. Chutes fortes estavam terminantemente proibidos.

Primeira partida, bola rolando, emoções à flor da pele, sol a pino e meus colegas atendendo prontamente a minha solicitação. Generosos nos chutes, carinhosos com a pelota, categoria ao finalizar os gols.

Parada técnica antes do final da partida para descanso, água fresquinha, comentários dos lances e imediatamente voltamos a campo. No primeiro lance, após essa parada, chega a bola aos meus pés como uma luva, domino com categoria, faço um drible, avanço e deixo o segundo pra trás, o gol estava livre, bastava um pequeno toque, entretanto, a tentação foi tanta que no ímpeto, arregacei uma bimba de três dedos direto ao gol. Nunca mais vimos aquela bola ou outra em casa! O choro se fez ouvir pelo resto das nossas perdidas infâncias. Sem bola, parecia que já éramos rapazes, adultos quase.

Terra dos buritizais sussurrantes: na voz de Geraldinho Nogueira

O tamanho de uma cidade não se mede pela quantidade de seus prédios ou de casas e construções, mas pela grandeza cultural de seus cidadãos. De fato, assim constata-se em algumas municipalidades desse “imenso almanaque, chamado Brasil”, como diria Oswaldo Montenegro. Tornam-se patrimônio mundial pela maestria de seus filhos e continuam a encantam viajantes em suas diversas rotas pela vida.

            Bela Vista de Goiás, há poucos quilômetros da capital Goiânia, chamada pelo seu maravilhoso povo, acolhedor e gentil, de terra dos buritizais sussurrantes, dentre os diversos ilustres que a terra gentilmente ofereceu e continua a oferecer está o contador de causos muito famoso, especialmente em Goiás, mais conhecido como Geraldinho Nogueira.

            Nele encontra-se uma riqueza de adjetivos, registrados por diversas pesquisas, ou pelo próprio povo que o chamava carinhosamente de Geraldinho Nogueira. Geraldo Policiano Nogueira, nasceu no dia 18 do último mês do ano de 1918 e faleceu em 1993 e na terra que o viu nascer encontra-se um busto para sua justa homenagem.

            Geraldinho Nogueira, conforme biógrafos e inúmeras reportagens foi o mais famoso contador de causos que Goiás já teve. Descoberto pelo publicitário Hamilton Carneiro, apresentador de um programa chamado “Frutos da Terra”, que o “descobriu” na década de 1980. De um talento peculiar, simples, além dos causos, fez publicidade e tornou-se um ícone da cultura popular em todo Brasil, especialmente quando ocupou os palcos do Som Brasil, apresentado por Lima Duarte, nos domingos pela manhã.

            No CD “Trova, prova e viola”, Geraldinho Nogueira, conta diversos causos, entre eles “A namoradinha”, “O osso”, “Dez Marias”, “O causo do marimbondo” e um dos seus mais famosos intitulado de “O causo da bicicleta”, em que ele conta como aprendeu a “domar” uma bicicleta. Com uma linguagem simples e típica da região, a história é permeada pelo jeito singelo e o sorriso inconfundível desse personagem, que provoca alegria da plateia.

              Não é somente a cidade que tem adjetivo de bela, a biblioteca pública pela preciosidade de suas obras, também pode ser considerada bela. Lá é possível encontrar diversas fontes de pesquisa de Geraldinho Nogueira e de uma plêiade na área cultural, como Gilberto Mendonça Teles, grande escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, que enriqueceu ainda mais a biblioteca com obras de sua autoria. Gentilmente Claudia Jeanne do Nascimento, outra riqueza cultural da cidade e talentosíssima artista disponibiliza consulta e mostra o acervo que abriga também a história do povo de Bela Vista de Goiás. Suzana Martins de Oliveira, colaboradora da área cultural da prefeitura é uma exímia incentivadora da leitura e da valorização da história e da trajetória de vidas, trabalha incansavelmente para que a cultura de Bela Vista de Goiás seja também apreciada, conhecida e divulgada.

            Conhecer a história e as histórias de Geraldinho Nogueira nos ajudam a perceber quanta riqueza há em nosso “grande almanaque chamado Brasil”. Do Oiapoque ao Chuí há muita beleza, histórias e causos que podem ser considerados um “relicário de histórias” conforme o título da obra de alguns dos contadores de história de Ponta Grossa, terra paranaense, publicado em 2018 e organizado por Alana Águida Berti.

 

Eu, senha

 

                Drummond de Andrade em uma de suas obras poéticas escreveu um belíssimo texto intitulado: “Eu, etiqueta”. Naquele momento, talvez não tivesse a mínima ideia de que, com os avanços da tecnologia, concomitante às ameaças do mundo virtual, bem como os assaltos online, os ataques virtuais e tantas outras mazelas, a estampa em nós seriam as senhas.

                Levanto pela manhã, e logo em seguida, preciso de uma senha para abrir o celular e verificar as mensagens no whatsapp. Como de costume ao entrar no e-mail pessoal uso uma outra senha. Bem, tenho no mínimo uns 5 correios eletrônicos. Explico-me. Possuía apenas um que no meu entendimento seria suficiente, mas alguém certa vez enviou-me uma mensagem importante e essa ficou num tal de spam. A pessoa enlouquecida quis saber os motivos da não visualização de seu recado. Foi uma saga descobrir o que havia acontecido. Sugeriu-me desta forma, criar outro correio eletrônico que não aconteceria isso. Segui o seu conselho.

                Comecei a trabalhar em uma rede de escolas que necessita ter um correio eletrônico próprio da instituição. Já acumulava mais de 3 contas de e-mails com senhas diferentes. Para cada e-mail havia exigências diferentes para criação da senha de acesso, de modo que não poderia usar uma mesma senha em todas as contas. Para uma bastava 4 números, para outra precisava letras e números, já para uma terceira conta precisava de letras maiúsculas e minúsculas e para uma quarta, letra maiúscula mesclada com números.

                Entrei num curso de pós graduação em uma Instituição que necessitava de um correio eletrônico com senha também, obviamente. Lá vai mais um e-mail. Estava sossegado afinal era apenas mais uma senha!

                Um alívio se não fosse um dos bancos que tenho conta, enviar mensagem que eu precisaria mudar a minha senha de 6 dígitos para 8. Mudei a senha, logo em seguida, recebo notificação no celular que precisaria criar uma nova senha para realizar operações no celular, mas necessitava ser com nome diferente ao meu de identidade. Resolvido! Senha alterada com sucesso. Sucesso para quem campeão?

                Ao chegar ao residencial onde moro, deparo-me com algumas correspondências. Entre elas da operadora de celular, da tv por assinatura, da Netflix, da empresa dos serviços de internet. Pasmem! Não encaminhariam mais as faturas por correio, bastava eu criar um login e senha para ter acesso a toda uma gama de serviços, que facilitariam a minha vida de cliente, certamente.

                A saga das senhas continuaria. A escola de minha filha aderiu a novidade das novas plataformas virtuais com senhas. Tem login e senha para acessar com facilidade notas, ocorrências, avisos, atividades escolares, situação financeira, entre outros. Agilidade enorme.

                Nessas brincadeirinhas, já contava com um turbilhão de senhas que foram ampliadas quando comprei um carro, fui trabalhar em outra escola, entrei em outra instituição, adquiri um novo celular, negociei um computador, abri um conta...

                Perdi as contas, de quantas vezes perguntei de senhas para minha esposa, para minha filha, para meus colegas de trabalho, para meus alunos...Minha segurança é apenas dizer a senha e não o local a qual ela destina-se...É uma estratégia minha!

Minha mãe e meu pai assustados com minha atitude de esquecer as senhas e perguntar a tantas pessoas, pois, elas seriam também as detentoras delas, questionaram-me se eu não teria medo de tanta gente saber os segredos.

                Ao que respondi: São tantas senhas, tantos números e letras, tantos nomes que nem eu mesmo lembro... até eles descobrirem o local exato de determinada senha tentando acessar alguma conta, ela já foi bloqueada! Segurança é fundamental.

A BACIA DE MANDIOCAS

A vida no interior, especialmente no sítio, é cercada por um modo de vida simples, humilde, alegre e acolhedor. Essa vidinha não foi diferente da dos meus avós, que habitavam uma choupana rústica, coberta de telha de barro, sem forro no teto e com um assoalho invejável de madeira nobre do Paraná. Às visitas que chegavam diariamente, deixavam suas alpargatas do lado de fora. Caso estivesse chovendo, limpavam o excesso de barro no limpa pé, próximo à porta.

            Certa feita, na casinha de minha avó, vieram algumas comadres para o chimarrão vespertino. Fogãozinho a lenha a todo vapor, esquentava a água ao mesmo tempo que o bate papo sobre a vida da vizinhança corria solto. A partilha da vida era a alegria daquela gente simples.

            Minha avó, logo encilhou o chimarrão que seria servido na sequência. O zumbido da chaleira no fogo ardia, anunciando que a água estava no ponto pra rodada de chimarrão.

             Generosamente a vovó ia enchendo a cuia e passando às comadres que ocupavam parte da cozinha. Duas chaleiras cheias foram servidas, com muita conversa boa da roça.

Como de costume, ainda antes do término da segunda rodada, a vovó correu ao armário e trouxe uma bacia farta de mandioca frita para servir às visitas, após o chimarrão.

            A vovó imediatamente iniciou a entrega da baciada de mandioca à primeira comadre da roda, que na lógica pegaria uma e passaria à pessoa seguinte, mas isso não aconteceu...para surpresa de minha vó.

            A comadre Mariazinha, primeira da fila, encantada com a bacia repleta de mandioca, imediatamente a segurou e entusiasmada exclamou:

            Comadre Laura, será que consigo comer tudo isso?

Minha avó surpresa, como não seria diferente, disfarçadamente olhou as demais comadres que discretamente escondiam um sorriso amarelado, mas não falaram nada, apenas observaram.

   A curiosidade ao que seguiria foi grande. Não sabia-se ao certo se a comadre Mariazinha estava brincando ou a coisa realmente era séria. Seguiu-se o bate papo gostoso da vida do sítio, enquanto a dona Maria ia vagarosamente saboreando as mandiocas.

Passando um bom tempo, depois de muitos causos, quando quase já haviam esquecido a comadre das mandiocas, ouviu-se um chamado:

- Dona Laura! Olha aqui a bacia de mandiocas!

Minha avó surpresa, levantou-se e foi ao encontro da comadre para recolher a bacia. Ao ver a bacia praticamente pela metade de mandiocas, ainda humildemente perguntou:

            -A comadre não quer mais?

Ao que a comadre Mariazinha respondeu:

            -Mil desculpas Dona Laura, não pude comer todas as mandiocas!!!!

Minha avó, admirada com a façanha da comadre, olhou para demais que não contiveram-se! A gargalhada se fez ouvir ao longe.

 

[1]Texto em homenagem à minha mãe Maria Elzita de Oliveira, mais conhecida como Dona Zita.

A Editora FTD de pé direito na literatura infantil e a obra “Lambe o dedo e vira a página”

Em 25/9/2018, o professor Giovani Marino Favero publicou neste Diário, um texto interessantíssimo intitulado: “Molhadores de dedo e o aspartame”, mostrando que a descoberta desse produto esteve associado ao costume de molhar os dedos e levar à boca para folhear os livros.

            Após a leitura do texto do professor Favero, recordei-me da primeira obra do escritor Ricardo da Cunha Lima, justamente com o título de “Lambe o dedo e vira página: para ler as histórias de um garoto traquina chamado U”, com desenhos de Angela Lago, publicado pela Editora FTD na década de 1980 e que fez enorme sucesso à época.

            A obra de Ricardo Cunha Lima, fez parte de um dos primeiros catálogos da FTD no gênero literatura infantojuvenil, numa coleção chamada “Segundas Histórias”. O autor fez uma estreia brilhante, ao mesmo tempo que seu livro conquistou o prêmio Jabuti na categoria autor revelação em 1986, tendo também, lugar na 9ª Bienal do Livro realizada em São Paulo.

            Além da coleção Segundas Histórias, o catálogo, contou com as seguintes coleções: Primeiras Histórias, Roda Pião, Acalanto, Salamê Minguê, Nossa História, Nossa Gente, Canto Jovem e Setecontos: setentacantos. A Editora FTD que já possuía uma longa trajetória no campo editorial de didáticos desde o início do século XX, buscou autores e editores para ampliação de seus títulos. Os editores da década de 1960 em diante, Irmãos Savério Ronchi, João de Deus e depois João Tissi, deste modo, proporcionaram condições para que a FTD entrasse definitivamente no campo de literatura infantil nos anos de 1980 com obras de grande destaque como o caso de Lambe o dedo e vira a página, entre outros.

Tratava-se da “estreia” da FTD de modo esplêndido no mundo da literatura infantojuvenil. Contou naquele momento com a coordenação editorial de personalidades competentíssimas como Isalino Silva de Albergaria, mais conhecido como Lino de Albergaria e Ione Nassar num primeiro momento e depois com Ceciliany Alves que ainda continua na editora, além de uma constelação de outros autores e editores.

            No catálogo daquela época é possível constatar o teor da obra de Ricardo Cunha Lima, cheio de aventuras do menino U, de Ubaldino e de seu cachorro Bu, de Bubalino. O menino e seu cãozinho, vivem histórias extraordinárias, principalmente quando U, consegue se adiantar no tempo e viver tudo mais depressa pois, tem um relógio que corre mais que as horas e os minutos.

O autor da obra nasceu em São Paulo em 1966, depois, seguiu conquistando diversos prêmios, como o Jabuti em 1985 na categoria Jannart Moutinho Ribeiro, prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), em 1988; entre outros, sendo o último em 2017 quando foi vencedor do 1º Festival + Arte + Cultura, na categoria texto, promovido pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo.

De fato, a obra “Lambe o dedo e vira página”, surpreende e emociona. Talvez o título do livro justifica-se pelo anseio do autor em querer provocar no leitor a sede de querer saber o final das traquinagens do menino U e de seu cachorro Bu, satisfeitas à medida que, lambemos o dedo e viramos a página.

A empolgação em vislumbrar as diversas aventuras do menino U e de seu cachorro Bu, desse modo, são realizadas a partir do momento em que, sem pensar na higiene, vamos mergulhando nas histórias de “Lambe o dedo e vira a página”.