Cultura & Vida
A BOLA DENTE DE LEITE

 

Assim como toda criança tive brinquedos, ainda que simples. Talvez a maior diferença foi a de que não foram muitos. Além disso, de modo especial o que mais ganhei na infância foi bola de futebol. Futebol foi meu vício na infância. Não tínhamos campo de futebol no bairro, somente a rua, dois pares de chinelos para construir os gols, eram suficientes para uma partida eletrizante que só terminava após os jogadores não aguentarem mais a corrida.

Morávamos numa região de morro, que além de dificultar as nossas partidas, para nossa tristeza quando alguém forçava o chute, a bola não raras vezes sumia no meio do matagal. Por mais que procurássemos morro abaixo, o matagal nos tirava o prazer do encontro. Isso era um tédio.

Havia uma turminha da rua que era fiel e parceira nas peladas diárias. Batíamos bola antes de ir à escola, na hora do recreio, nas aulas de educação física e na saída das aulas. Ao chegarmos em casa, pausa para um descanso da aula, lanche e futebol que ia noite adentro.

O nosso problema básico persistia. Constantemente perdíamos nosso principal instrumento de trabalho, a bola. Eu a considerava um bem coletivo, no entanto, o dono verdadeiro era eu. Depois de um longo tempo com uma bola dente de leite mágica, pois, sempre acabávamos, algum tempo depois, mesmo que demorasse, encontrando a bichinha bem escondida, descansando no meio do matagal. Mas houve um momento que ela virou estrelinha! Naquele instante nasceu em mim um sonho: ter uma bola de futebol oficial.

Todo mês, após o recebimento do salário de meu pai, íamos ao supermercado para fazermos o “pedido”, que previamente estava numa “nota” ditada cuidadosamente pela minha mãe e registrada pelo meu pai em uma folha de caderno. Meu desejo foi realizado depois da compaixão de meu pai ao saber que nossa bola dente de leite havia virado estrelinha.

Não demorou muito e minha primeira bola rolou desesperadamente morro abaixo. Mais desesperados fomos nós que a vimos cair num esgoto a céu aberto e seguir apressadamente navegando sem fim. Fora a primeira perda, mas infelizmente vieram outras.

Como praticamente todo mês perdíamos nosso principal instrumento de trabalho, o que eu focava antes do quick de morango, era sem dúvida a bola, pois, como meus amigos diziam eu era fominha. Meu pai generosamente, às vezes contrariado por minha mãe, manteve após breves comentários me aconselhando, a compra de seis bolas de capotão oficial, uma por mês.

No sétimo mês, foi diferente. O barraco, como costumávamos falar estava aramado! A hora do pedido, do meu pedido estava tenso. Não era para menos, afinal foram seis bolas de capotão oficial literalmente perdidas. O choro foi imediato, não teríamos mais o futebol diário. Chorei tanto, mas tanto, que a proposta de meu pai foi a seguinte: Será a última bola que eu irei comprar pra você, mas não será de capotão e sim de borracha! Trate de cuidar, pois é a última!

Tive ao mesmo tempo alegria e tristeza. Alegria de apesar da minha birra de piá, ter conquistado a sétima bola porém, a tristeza de ser de borracha, pois ela saltava demais.

Além do batismo dos nossos quichutes, tínhamos o batismo das bolas novas também. Mas esse ritual foi diferente. Após o minuto de silêncio antes da nossa tradicional partida para inauguração da bola nova de borracha, recomendei encarecidamente aos meus colegas que caprichássemos no cuidado com aquela doçura. Chutes fortes estavam terminantemente proibidos.

Primeira partida, bola rolando, emoções à flor da pele, sol a pino e meus colegas atendendo prontamente a minha solicitação. Generosos nos chutes, carinhosos com a pelota, categoria ao finalizar os gols.

Parada técnica antes do final da partida para descanso, água fresquinha, comentários dos lances e imediatamente voltamos a campo. No primeiro lance, após essa parada, chega a bola aos meus pés como uma luva, domino com categoria, faço um drible, avanço e deixo o segundo pra trás, o gol estava livre, bastava um pequeno toque, entretanto, a tentação foi tanta que no ímpeto, arregacei uma bimba de três dedos direto ao gol. Nunca mais vimos aquela bola ou outra em casa! O choro se fez ouvir pelo resto das nossas perdidas infâncias. Sem bola, parecia que já éramos rapazes, adultos quase.