Grupo Nanoita
O início da história das pontes de hidrogênio

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

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No verão de 1611, um calor intenso atingiu a região da Toscana, na Itália. Diante disso, Galileo Galilei junto com seus colegas Vincenzo di Grazia e Giorgio Coresio, professores da Universidade de Pisa, começaram a divagar nas conversas sobre o frio. As ideias estavam relacionadas aos conceitos físicos de Aristóteles e também sobre conhecimentos de termodinâmica.

Por que o gelo, que é mais frio do que a água, armazena uma menor quantidade de calor? Por que quando a água passa ao estado sólido em baixas temperaturas há redução de densidade?

 O fiorentino Lodovico delle Colombe, forte combatente de Galileo, provou que bolinhos de ébano, ao serem colocados em água, não afundavam. Justificou que a flutuação de sólidos em líquidos era devido à forma da matéria, e não da densidade da matéria.

Mesmo que não conseguindo rebater o experimento do bolinho de ébano, Galileo acreditava que o fenômeno estava relacionado à interação entre partículas. Aí surgia o seu escrito “Discorso intorno alle cose che stanno in su l'acqua o che in quella si muovono” que era direcionado a Lodovico delle Colombe.

Este foi o primeiro livro da história que menciona a interação entre átomos, ou, mais especificamente, a ligação de átomos de hidrogênio.

A partir daí vários cientistas postularam sobre a interação entre os átomos, dentre vários, destaco Joseph Louis Proust, John Dalton, Lorenzo Romano Amedeo Carlo Avogadro, Gilbert Newton Lewis.

Recentemente, em 2012, Patrick Goymer, divulgou o artigo na Nature Chemistry intitulado “100 years of the hydrogen bond", afirmando que os estudos sobre as ligações de hidrogênio já completavam um século. Sua referência dizia respeito à publicação do trabalho realizado por Tom Sidney Moore e Thomas Field Winmill chamado de “The state of amines in aqueos solution” e que foi publicado em 1912.

O professor da Universidade da Califórnia, William C. Bray, reconheceu a importância dos estudos sobre as ligações de hidrogênio, realizados por seu aluno de graduação Maurice Huggins, porém, foi categórico ao afirmar que ele nunca iria convencer a comunidade química da ideia que um átomo de hidrogênio poderia se ligar simultaneamente a dois outros átomos.

Assim, o conceito da ligação de hidrogênio foi proposto pela primeira vez na literatura por Wendell Latimer e Worth Rodebush em 1920. Na publicação deste artigo, colocaram uma nota de rodapé conferindo os créditos do conhecimento ao Sr. Huggins que havia desenvolvido este estudo anos antes, mas que não veio a ser publicado.

Mas afinal, para que tanta história a respeito de uma ligação química? No próximo artigo do Grupo Nanoita, entenderemos a intimidade dessas “ligações” e o quanto elas são responsáveis pela vida na Terra.

O equilíbrio é a chave natural

 

Robson Couto da Silva

Doutor em Engenharia de Produção pela UTFPR

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Em nosso último artigo falamos sobre a Pirâmide de Maslow e utilizamos sua hierarquia para analisarmos as diferenças entre as últimas gerações em função das necessidades das quais foram ou ainda são submetidas. Nesse artigo discutiremos sobre diferentes aspectos que podem contribuir para entendermos melhor nosso comportamento.

 Dentre as perspectivas que foram levantadas percebemos que a partir das novas gerações houve uma maior busca por etapas relacionadas a fatores sociais da Pirâmide, em que se almejam ganhos em relação a autoestima e respeito. Conseguimos constatar isso quando verificamos que comportamentos antes vistos como brincadeiras hoje são tratados como abusos. Porém, a procura excessiva das conquistas sociais também traz alguns malefícios.

Hoje em dia muitas pessoas ficam tão envolvidas por sua vida virtual que não percebem que estão deixando de viver sua vida real. Não é incomum ver pessoas mais preocupadas em fazer uma foto para postagem em redes sociais do que em apreciar o lugar onde estão ou as suas companhias. Os perigos de se ter muitos amigos virtuais e pouquíssimos amigos reais somente são percebidos em momentos de grande dificuldade em que se têm uma sensação de vazio e solidão, uma porta aberta para a depressão.

O maior apego material das gerações passadas atualmente se tornou em uma total falta de prioridades e descontrole financeiro. Um fato que chamou atenção ocorreu com um conhecido que certa vez pediu auxílio por estar sem energia por não conseguir quitação da conta de luz em função no novo iPhone que tinha comprado...

É possível que um dos grandes problemas que tivemos foi que em um espaço de poucas gerações saltamos da base para o meio da pirâmide sem estarmos preparados para tanto. Ou seja, a falta da hierarquia das necessidades acabou fazendo com que nos perdêssemos em alguns pontos.

Não estamos afirmando que precisamos passar fome para podermos valorizar o que temos, porém, é necessário que na criação de nossos filhos cumpramos a difícil tarefa de dizer “não” e impor limites para os desejos do jovem imperador. Com isso, faremos com que essas crianças se posicionem em uma categoria um pouco mais baixa na pirâmide e assim se tornem mais preparadas para as dificuldades que passarão quando adultas.

Outro dia ao conversar com um grande amigo sobre a necessidade das pessoas estarem se medicando para remediar tristezas e decepções da quais são submetidas ficamos em dúvida se muitas vezes não estamos criando um novo problema. Obviamente respeitam-se os casos nos quais as pessoas se encontram em quadros avançados de depressão ou ansiedade. Porém, naqueles que não atingiram tais quadros, temos que entender que infelizmente passar por algum tipo de sofrimento e perda faz parte de nosso amadurecimento psicológico.

Da mesma maneira, não podemos tentar criar nossos filhos em redomas de vidro para que nunca sofram, pois se fizermos isso estaremos impedindo que eles se desenvolvam em condições de suportar as pressões e desilusões que provavelmente terão no futuro.

Em suma, conforme aprendemos em nossas aulas de termodinâmica: “na natureza tudo tende ao equilíbrio”. Por isso, temos que adotar essa postura em nossas vidas. Todos os recursos e cuidados em falta ou excesso podem ser prejudiciais.

Assim, temos que enfrentar nossas dificuldades, persistir após os fracassos e sempre impor metas em nossas vidas, só assim teremos motivação para evoluirmos. Analogamente, devemos entender que nossos filhos terão que vencer suas próprias batalhas. Com essas atitudes, quem sabe no futuro possamos alcançar o equilíbrio e então pleitear o tão sonhado topo da pirâmide!

 

As lições de Maslow e o pequeno imperador

Robson Couto da Silva

Doutor em Engenharia de Produção pela UTFPR

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            Abraham Maslow (1908-1970) foi um psicólogo humanista norte-americano responsável pela Teoria da Hierarquia das Necessidades Humanas, também conhecida como Pirâmide de Maslow.

Nessa teoria as necessidades humanas são divididas em cinco categorias, que vão desde nossos anseios mais básicos (relacionados à nossa sobrevivência) na base da pirâmide até a autorrealização, em seu topo. Segundo Maslow, cada indivíduo somente tende a desejar um novo estágio quando satisfaz os desejos da categoria onde se encontra.

Primeiramente, as principais necessidades a serem atendidas são as fisiológicas, tais como: sono, alimentação, sexo e excreção. Nessa fase a pessoa procura evitar a fome, a sede, a falta de moradia e outros fatores que colocam em risco sua sobrevivência. A segunda categoria se remete à segurança (emprego, saúde, bem-estar da família).

As duas próximas etapas são relacionadas às necessidades psicológicas: sociais (elevar o nível de relacionamento com outras pessoas) e estima (procura-se a aceitação, respeito, reconhecimento, admiração, prestígio e poder).

Finalmente, a última categoria é ligada à realização pessoal, em que se busca aproveitar todo o seu potencial para fazer o que se gosta e alcançar o autocontrole. Nessa fase também se atinge a maior moralidade e se busca resolver problemas relacionados à injustiça e desonestidade.

Apesar da Teoria de Maslow ser criticada por alguns estudiosos, os quais defendem que cada indivíduo atua de maneira distinta ou que não se necessita satisfazer uma necessidade para que se busque a seguinte, muitos trabalhos na área de recursos humanos e gestão de pessoas ainda se baseiam em suas contribuições.

A partir da pirâmide de Maslow podemos gerar um paralelo entre os diferentes comportamentos das pessoas ao longo das nossas gerações mais recentes. Por exemplo, a população que viveu antes da metade do século XX passou por guerras e consequentemente escassez de recursos, inclusive de alimentos. Grande parte dessas pessoas se encontrava na base da pirâmide e a necessidade de garantir as necessidades fisiológicas e posteriormente a busca por segurança financeira para a família criou indivíduos muito fortes psicologicamente e comprometidos.

Até hoje percebemos nas indústrias pessoas com idades mais avançadas que são extremamente responsáveis quanto às suas obrigações e ao mesmo tempo com receio da perda do emprego, o que levaria a não se poder arcar com o orçamento familiar. O grande efeito colateral dessa geração foi que se criou um excessivo apego aos bens materiais e acúmulo de riquezas e muitas vezes o lazer e a socialização ficavam em segundo plano.

Com o avanço da tecnologia e da industrialização, a facilidade de se obter bens de consumo e também informação aumentou. Com isso, as novas gerações não tiveram que passar por problemas da base da pirâmide e muitas vezes o comprometimento dos pais impediu que tivessem também qualquer insegurança financeira ao longo de sua infância. Dessa forma, esses indivíduos frequentemente já ingressaram de forma direta no centro da pirâmide, onde se procura maior inter-relacionamento e aceitação na sociedade. Com isso, vemos pessoas com maior sensibilidade e menor apego financeiro.

Porém, talvez por essas pessoas não terem passado por estágios anteriores da hierarquia elencada por Maslow, não estão preparadas psicologicamente para grandes pressões e responsabilidades da vida adulta. É aí que vemos nos últimos anos o crescente número de pessoas com depressão e crise de ansiedade, além da falta de motivação para realização de atividades que não são atrativas.

O psicoterapeuta brasileiro Leo Fraiman em seu livro A Síndrome do Imperador relata que estamos tão engajados em satisfazer as vontades de nossos filhos, que estamos criando, de certa forma, pequenos imperadores que não aprendem a esperar, negociar e principalmente a se frustrar. Com isso, criam-se pessoas que no futuro tendem a ser gastonas, ansiosas e às vezes até neuróticas. Dessa forma, esses indivíduos não estão preparados para lidar com rejeições em relacionamentos, cobranças por resultados em seu emprego e com negativas vindas de outras pessoas.

É a partir desse ponto que temos a crescente procura por drogas lícitas e ilícitas, além do suicídio como soluções para os problemas atuais. Mas então, qual seria a maneira de enfrentarmos e tratarmos essas situações tão delicadas em nossos dias? Discutiremos isso em nosso próximo artigo. Até lá!

A transição energética

Daiane Maria De Genaro Chiroli

Doutora em Engenharia de Produção pela UFSC

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Václav Smil é um cientista e analista político. Ele tem 75 anos e é professor emérito da Faculdade de Meio Ambiente da Universidade de Manitoba, no Canadá.

Ele nasceu durante a Segunda Guerra Mundial em Plzeň, atualmente pertencente à República Checa.

Conta que necessitava cortar madeira diariamente para manter a casa aquecida, talvez daí o seu interesse pela energia.

No livro Energy Transitions: History, Requirements, Prospects, Smil descreve a transição da utilização da madeira e da energia humana para a dependência da energia à forma dos combustíveis fósseis.

Seus estudos estão ancorados em dados estatísticos bastante fundamentados.

A ilustração que mais impressiona em seu livro, talvez seja o gráfico Global fossil fuel consumption.

Nesse gráfico fica muito fácil perceber que o crescimento populacional acompanha a descoberta e a utilização dos combustíveis fósseis, tais como, o carvão, o petróleo e o gás natural.

 

É possível verificar que até o ano de 1900 havia um pequeno crescimento populacional, porém, com o consumo progressivo dos combustíveis fósseis, a população cresceu na mesma razão direta.

Repare que não tratamos aqui do aquecimento global e da poluição que essas fontes combustíveis podem gerar.

Mesmo assim, Smil projeta um retrato sombrio e realista das dificuldades de se afastar dos combustíveis fósseis.

É evidente que um processo de transição energética depende de uma mudança estrutural nos sistemas de energia que só se concretizam a longo prazo. Basta buscar os acontecimentos do passado, acompanhar o presente e esperar pelos acontecimentos futuros.

Para que essas transições energéticas aconteçam faz-se necessário a sinergia da motivação, objetivos, direcionadores e governança. Aí sim acontece a mudança de trajetória necessária do navio, como foi retratado no DC, Grupo Nanoita, em 5/11/2019 (Nos limites do crescimento).

Caso contrário, podemos nos tornar “As renas de Sr. Matthew”, como publicado no DC, Grupo Nanoita, em 12/11/2019.

Nos resta torcer! Iluminação aos cientistas e racionalidades aos governantes!

 

Referência

 

SMIL, V. Energy transitions: history, requirements, prospects. Nova York: Praeger, 2010. 192 p.

As renas de St. Matthew

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

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Em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, a Guarda Costeira dos EUA instalou nas ilhas de St. Matthew, no Alaska, um aparato para auxílio de navegação de longa distância.

A ilha de St. Matthew apresenta uma área de quase 357 km2. Em áreas comparativas, é equivalente aos municípios paranaenses de Planaltina do Paraná (356    km2), Santa Isabel do Ivaí (355 km2), Moreira Sales (353 km2) ou Realeza (353 km2).

A ilha desabitada de St. Matthew tem como bioma a tundra, típico de região fria e inóspita com vegetação esparsa e rasteira e que está a 320 km de distância da vila mais próxima do Alasca.

A ilha costuma ser coberta por uma camada de aproximadamente 10 cm de líquens.

Agora, retomando ao assunto do aparato para auxílio de navegação de longa distância, a Guarda Costeira americana manteve neste período 19 soldados permanentemente na ilha.

Por estarem em operação de guerra, soltaram na ilha 29 renas como fonte alternativa de alimento para aqueles soldados.

Com o fim da Segunda Guerra, os soldados foram retirados da ilha sem que tivessem sacrificado uma rena sequer.

Na teoria, o maior predador havia ido embora. Restaram então, as aves marinhas e seus predadores, as raposas árticas e mais as 29 renas com um banquete generoso de líquens no solo.

Em 1957, o biólogo Dave Klein contabilizou 1.350 renas, gordas e saudáveis. Para Klein, este foi o prenúncio de um desastre.

Em 1963, foram contadas 6.000 renas, porém, o porte desses animais havia diminuído em relação à visita anterior.

Em 1965, alguns caçadores desembarcaram na ilha de St. Matthew, mas encontraram dezenas de esqueletos de renas espalhados pela tundra.

Quando Klein voltou no verão de 1966, ele também encontrou a ilha coberta de esqueletos. Haviam agora 42 renas vivas, sendo 41 fêmeas e um macho, sem nenhum filhote. Durante alguns meses, a população de renas caiu 99%.

A suposição é que as renas passavam fome durante o inverno.

Na década de 1980, já não existia mais população das renas da ilha de St. Matthew.

A história da população de renas da ilha de St. Matthew é um exemplo de um ecossistema em desequilíbrio.

No artigo da próxima semana, mostraremos o paralelo que alguns pesquisadores estabeleceram entre a população de renas da ilha de St. Matthew com a população humana da Terra.

Por enquanto, só afirmamos que na ilha de St. Matthew restarem apenas as aves marinhas e as raposas do Ártico, como era no início.

 

No limite do crescimento

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

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O Clube de Roma é uma entidade constituída por pessoas bem-sucedidas que se reúnem desde 1968 para discutir assuntos relacionados à política, à economia internacional, ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável.

Esta associação encomendou em 1970 uma pesquisa a uma equipe de pesquisadores do MIT – Massachusetts Institute of Technology.

Em 1972, a pesquisa liderada pela cientista química e biofísica Dr.ª Donella H. “Dana” Meadows foi publicada no emblemático livro The Limits to Growth, um best-seller do conhecimento científico e social e que já foi traduzido para mais de 28 idiomas.

Das dezenas de gráficos que lá aparecem, o gráfico reproduzido neste artigo fala por si só.

 

Uma estimativa prevista mostrou que nosso sistema global não suportaria as taxas atuais de crescimento econômico e populacional muito além do ano 2100.

O colapso mundial foi simulado em computador e diz respeito à relação entre o aumento da população mundial, da produção agrícola, do esgotamento não renovável de recursos, da produção industrial e da geração de poluição.

Esta equipe de pesquisadores ousou na inovação dos métodos para demonstrar o crescimento econômico globalizado.

No momento, não existem subsídios para afirmarmos que estamos atingindo os limites do crescimento.

Mesmo que na prática as curvas do gráfico de Dana e seus colaboradores não sejam tão realistas, não temos nada que comemorar, pois estudos atuais apontam que não caminhamos tão longe dessas curvas.

Atualmente a diferença entre a teoria e a prática é como se estivéssemos em um navio e que, de repente, ele esteja mudando e desviando da sua rota.

É a capacidade que temos de reinventar e procurar permanecer por mais um tempo nesse espaço que nos abriga de forma tão generosa.

 

Referência

 

MEADOWS, Donella H.; MEADOWS, Dennis L.; RANDERS, Jorgen; BEHRENS, William W. The limits to growth. New York: Universe Books, 1972.

Dentífrico

Thiago Sequinel

Doutor em Química pela UNESP

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O dentífrico, também conhecido como creme dental ou pasta de dente, já era utilizado em 550 a.C. pelos povos persas. Naquela época uma solução aquosa de tintura era aplicada nos dentes e nas gengivas.

Por volta de 400 a.C. tem-se relatos de um manuscrito egípcio sobre uma pasta para tornar os dentes mais brancos. Era uma formulação de flores maceradas com sal, folhas de menta e pimenta.

A pasta de dente ficou conhecida e popularizada com esse nome por meio dos romanos. A formulação utilizada era: vinagre, mel, sal e cacos de vidro. Por favor, não repita este experimento!

Um pouco mais “saudável“ que isso era a outra composição: giz, sal, pão queimado, tijolo ou carvão triturado.

Utilizavam também um clareador dental: urina humana. Bem, neste caso é melhor não terceirizar a produção e, mais uma vez, não repita este experimento!

Em 1850, o dentista americano Washington Sheffield criou um pó para a limpeza dos dentes, muito popular com seus pacientes e, com ajuda de seu filho Lucius, também dentista, transformaram no modelo de pasta em creme semelhante aos atuais – o creme dentífrico Dr. Sheffield.

Porém, somente após 42 anos o experimento se tornou viável, quando o Dr. Sheffield criou seu outro invento, o tubo flexível para armazenar e dispersar a pasta de dente.

Em 1896 estas ideias do conjunto de pasta dental e tubo flexível deram início a este fabuloso mercado por meio do produto Colgate Ribbon Dental Cream, no entanto, a generalização da pasta de dente só aconteceu junto à Primeira Guerra Mundial.

Por volta de 1900 tem-se o primeiro registro da incorporação do flúor na forma de fluoreto nas pastas dentais, porém, somente em 1955 constatou-se a incorporação do flúor como segura e aprovada, e a Procter & Gamble lançou a Crest with Fluoristan.

Por muito tempo o sabão de coco foi uma boa alternativa para escovar os dentes. Atualmente os cremes dentais agregam várias funcionalidades.

Alguns palestrantes motivacionais apresentam em suas palestras uma história ou uma lenda. Não se pode afirmar se isto realmente existiu ou não, todavia, o contexto é bastante interessante:

Fala-se que uma grande empresa do setor tinha detectado um problema sério em sua linha de produção: no processo de embalagem algumas das caixas seguiam para venda sem o tubo de creme dental dentro delas.

Contam que no processo de engenharia adaptaram esteiras multifuncionais na ordem de 8 milhões de reais. Nelas continham balanças de precisão e sensores, que, quando uma caixa vazia passava na linha de produção o sistema parava e a caixa era eliminada.

Mas parece que os problemas persistiam e, três meses depois, adaptaram um ventilador direcionado para a esteira. Então, quando o vento atingia as caixas vazias elas eram “sopradas” para fora da esteira e o problema havia sido resolvido. Esse ventilador custou menos de mil reais.

Verdade ou não, nos passa a ideia de que a inteligência é superior à tecnologia.

Agora, vamos a um fato verdadeiro:

Em 1960, um fabricante americano de creme dental reuniu uma equipe de marketing para criar estratégias de elevar as vendas do produto.

Um dos integrantes questionou: “E se aumentar a boca do tubo da pasta de dentes?”

Com isso ele arrancou risos dos colegas, porém insistiu: “As pessoas iriam consumir mais, o produto acabaria antes e venderia mais. Não faz sentido?”

A partir desse momento nós passamos a gastar mais pasta do que necessitamos para escovar os dentes.

Mas não fique aborrecido por esse motivo. Já perceberam que alguns cremes dentais estão vindo mais líquidos dentro dos tubos?

Esta também é uma forma de consumirmos mais o produto.

Pesquisador ou Cientista?

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

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No dia 19 do mês passado, publicamos neste espaço um artigo com o título “Pilha: um produto do bem ou do mal?” e no dia 9 deste mês foi anunciado em Estocolmo, na Suécia, os ganhadores do Nobel de Química de 2019.

Qual a relação existente entre nosso artigo e o Nobel de Química? Bingo! O prêmio foi para os três cientistas, John Goodenough (EUA) com 97 anos, Stanley Whittingham (Reino Unido) com 77 anos e Akira Yoshino (Japão) com 71 anos, que criaram a bateria de íons de lítio para o celular.

Recordemos que bateria é um conjunto de pilhas associadas.

Substituindo o cádmio, metal altamente contaminante para o meio ambiente, as baterias em miniaturas foram viabilizadas pela substituição das de chumbo-ácido, que eram muito grandes para serem usadas em eletrônicos portáteis.

As nanoestruturas de lítio potencializaram a corrente das baterias em até três vezes e passou a ser viável para utilização em automóveis, além de poderem ser carregadas com a energia eólica ou a energia solar.

Agora, fica uma pergunta: qual a competência que levou esses três senhores a chegarem a esse reconhecido resultado? A resposta é que os três são cientistas.

Cientista é aquele que exerce atividades contínua e sistematicamente para obter conhecimentos. Desses conhecimentos obtidos a ciência avança e novos produtos, compostos, objetos, dentre outras coisas são criados.

Por outro lado, existe também o pesquisador, que é aquele que busca uma resposta para um problema.

No mundo existem muitos pesquisadores que leem os artigos científicos que são publicados, reproduzem os experimentos em laboratório e criam, muitas vezes, um pequeno diferencial, o que permite publicar novos artigos em revistas de impacto.

Já os cientistas estão por aí, aos poucos, achando soluções para novos problemas. São verdadeiros desafiadores!

Um cientista não consegue criar algo novo todos os dias e, muitas vezes, os cientistas não estão fazendo ciência, e sim pesquisa, logo, eles estão exercendo o papel de pesquisadores.

Podemos concluir que todo cientista é um pesquisador, mas, a maioria dos pesquisadores jamais será um cientista.

De tempos em tempos ressurge a discussão sobre os valores investidos em projetos de pesquisa no Brasil. Sem usar da parcialidade por estar neste meio, acredito que quanto mais investimentos melhor para a ciência, para a pesquisa e para a população, desde que os projetos sejam seriamente avaliados e justifiquem sua relevância ou contribuição.

Nossas pesquisas “tupiniquins”, muitas vezes, são tão importantes e de competência quanto as que são executadas em países desenvolvidos.

A diferença que existe entre a nossa pesquisa e a desses países é que lá os recursos são muito maiores e muito mais ágeis que aqui.

O resultado é prático e direto: lá se conquista o Prêmio Nobel e aqui não.

Prêmios como o Nobel, por exemplo, são marcos de soberania de fronteira nacional. Sob este aspecto, não temos fronteira.

A nossa verdade é que nunca tivemos a competência de planejar um Brasil para nossos filhos e netos.

No mais, desejamos aos cientistas do Nobel de Química de 2019, saúde e vida longa para aproveitar o prêmio de R$ 3,7 milhões que receberam. Quanto ao resto? Isso não é problema, eles já deixaram o legado ao mundo e fazem parte do seleto grupo dos imortais!

Ex-voto, Esculápio, Hipócrates e a medicina

Giovani Marino Favero

Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UEPG

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Recentemente lendo um livro da década de 1950 do século passado sobre Gigantes da Ciência, me deparei com um afresco sobre os templos de Esculápio na Grécia antiga, em que membros do corpo humano eram pendurados no santuário. Imediatamente me lembrei de uma visita ao Santuário em Aparecida e em algumas igrejas de Salvador onde essa prática é feita até os dias de hoje.

Curioso, como sempre, fui procurar no Dr. Google sobre o assunto. Esses objetos são os Ex-Votos, de acordo com essa definição literária: “Quadro, imagem, inscrição ou órgão de cera ou madeira, etc., que se oferece e se expõe numa igreja ou numa capela em comemoração a um voto ou promessa cumpridos” (FERREIRA apud OLIVEIRA, 2009).

Antes de Hipócrates (460 a.C.) o exercício da medicina estava diretamente ligado aos sacerdotes de Esculápio (700 a.C.), o semideus grego da cura. Segundo a lenda, Esculápio foi um hábil médico que, acreditavam, tinha a capacidade de ressuscitar os mortos. Até aquele momento as doenças eram vistas como a zanga dos deuses com os homens, portanto, a saúde dependia de sacrifícios e oferendas aos deuses. O símbolo da atividade médica, o cajado com uma cobra enrolada, se deve a Esculápio, a lenda conta que em uma visita a um de seus pacientes no templo, uma serpente enrolou-se no cajado, permanecendo nele.

O templo de Esculápio na ilha de Cós, na Grécia, e em outros locais era forrado por ex-votos. E hoje, quase três mil anos depois, essa prática continua viva.

Ainda nessa relação mística com a saúde até Hipócrates, os estudantes de medicina eram obrigados a estudar Astronomia, pois por meio dela determinavam-se as estações e as doenças de cada época. Essa relação de planetas, saúde, futuro e presente era habitual à medicina do período pré-hipocrático.

Pensando bem, se você vê o seu mapa astral, ou faz um ex-voto para o tornozelo curado, fique tranquilo, há um grupo muito grande de pessoas pelo mundo confiantes nas metodologias dos devotos de Esculápio.

 

REFERÊNCIA

 

FERREIRA, A. B. H. Novo Aurélio século XXI. 3. ed. São Paulo: Nova Fronteira, 1999. In: OLIVEIRA, J. C. A. Forma e conteúdo. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v. 1, p. 30-31, n. 1, 2009.

Empatia: o que eu tenho a ver com isso?

Lucimara Maeda

Médica radiologista formada pela Unicamp

Trabalha na Clínica Sabedotti e Hospital Geral da Unimed de Ponta Grossa

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O que aconteceria se você pudesse estar no lugar do outro, ouvir o que o ele ouve, ver o que ele vê, sentir o que ele sente, pensar o que ele pensa? Você o trataria diferente?

Ao longo da minha vida profissional como médica radiologista, deparei-me com inúmeros casos de câncer de mama. Tomada de um forte pensamento acadêmico, no início da minha carreira, ou talvez porque naquela época as pacientes que examinava tinham pelo menos duas décadas de vida a mais que eu, confesso que, muitas vezes, acabei valorizando mais o diagnóstico de câncer do que a paciente que o carregava.

Mas o tempo passa, e a idade também.

Até o dia em que me vi fazendo o diagnóstico de câncer de mama em uma grande amiga. Tínhamos a mesma idade, e ela me ligou pedindo que eu a examinasse, pois tinha percebido um "caroço" em sua mama. A mamografia revelou uma lesão com características muito suspeitas para um tumor maligno. Ao fim do exame de ultrassom, ela me perguntou:

— Meu nódulo é maligno?

Diante de uma pergunta tão franca e direta, não havia como me omitir. A única resposta foi:

— Sim, seu nódulo apresenta características muito suspeitas e teremos que fazer uma biópsia.

Naquele momento, nos abraçamos e choramos juntas. Impossível permanecer indiferente frente a essa situação.

Em menos de duas semanas, ela foi encaminhada ao mastologista. Fizemos a biopsia e tivemos a confirmação do câncer. Resolveram que ela faria a quimioterapia neoadjuvante – quando se faz quimioterapia antes da cirurgia. Na terceira sessão de quimioterapia, seu cabelo já havia caído. Encontramo-nos para um café num domingo frio e chuvoso. Durante o encontro, ela retirou a boina e começou a explicar o quão difícil era se "expor" careca.

Muitas pessoas que estão ao seu redor se afastam, outras lançam sobre você um olhar de piedade. Contou-me que não era fácil usar lenços. Lenços de seda são lindos, mas de tão lisos escorregam por não mais ter o cabelo para segurá-lo. Lenços sintéticos, muitas vezes, são muito ásperos, e acabam incomodando o couro cabeludo, que é tão sensível. Alguns tecidos esquentam tanto que tornam o seu uso insuportável. Ainda, contou-me algo que eu não sabia: durante a quimioterapia, a paciente sente uma fraqueza muscular tão grande que, muitas vezes, não consegue levantar o braço – impossível imaginar que é possível sustentá-lo erguido para amarrar um lenço na cabeça.

Além de médica, sou artesã e adoro costurar. Após o encontro, não saía da minha cabeça a ideia sobre a dificuldade de se usar um lenço. No dia seguinte, fui em busca do tecido ideal e consegui costurar um turbante: fácil de vestir, macio e fresco, mas estava muito longe de ser bonito. Percebi porque o câncer de mama assusta tanto as mulheres. Além do risco de morte, o câncer de mama mexe com a feminilidade, com a vaidade, com a autoestima. Então, além de confortável, macio e fresco, meu lenço teria – também – que ser bonito.

Foram inúmeros os modelos por mim costurados até que me contentasse com o resultado. Amei o resultado: confortável, fácil de vestir, e com duas pontas que, se unidas na lateral, faziam a vez do cabelo que a paciente perdeu. Além disso, permitia diferentes amarrações.

Experimentava cada lenço que eu costurava e a sensação era sempre a mesma: "Se eu estivesse com câncer, eu estaria assim."

A partir dessa história, e de um simples "lenço", pude exercer minha empatia.

Empatia não é piedade nem compaixão. Empatia não é fazer ao outro o que você quer que façam a você. Empatia não é ver os problemas do outro com os nossos olhos.

Empatia é pararmos, por um momento, de sermos nós mesmos e tentarmos enxergar o problema com o olhar do outro.