Grupo Nanoita
Quanto Vale?

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

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São considerados metais pesados aqueles elementos químicos que possuem uma densidade superior a 4,0 g/cm³. A densidade é obtida quando dividimos o valor da massa de uma quantidade de substância pelo volume que essa massa ocupa.

No organismo, os metais podem combinar-se com as enzimas e proteínas inibindo o funcionamento delas podendo levar até a morte, ou ainda, os metais podem aderir às paredes das células, prejudicando a passagem e, consequentemente, o transporte dos nutrientes.

Vamos identificar alguns deles:

O cádmio (Cd, d = 8,65 g/cm3) atua nos pulmões, no fígado e nos rins. Pode ser inalado pela fumaça do cigarro e ingerido por alimentos ou água contaminados quando são utilizados recipientes contendo esse metal.

O chumbo (Pb, d = 11,34 g/cm3) pode causar fraqueza e dores inicialmente nos membros inferiores, que podem se generalizar; pode causar também insônia alternada com sonolência diurna, cólicas abdominais, impotência sexual, gosto amargo na boca, orla gengival de Burton, má digestão, inapetência, diarreia e obstipação alternadas. É responsável pela doença conhecida como saturnismo que se manifesta por cefaleia, alucinações e manifestações esquizofrênicas. Pode ser inalado por via respiratória através de vapores do metal, absorvido pela pele ou via oral. As fontes mais comuns de contaminação podem ser através de tintas e alimentos contaminados por pesticidas à base do elemento e água contaminada. Já se relatam contaminações através de projéteis de arma de fogo.

O mercúrio (Hg, d = 13,595 g/cm3) pode causar falta de ar, febre e calafrios, tosse, náusea, vômito, diarreia, paladar metálico, dores de cabeça, fraqueza e visão embaçada, depressão, perda de memória, nos casos mais extremos pode desenvolver lesão pulmonar aguda, insuficiência renal aguda, cegueira, deficiência auditiva, entre outras consequências. Pode ser inalado principalmente pelo vapor do metal ou pela ingestão de peixes contaminados com os resíduos provenientes dos garimpos.

O cromo (Cr, d = 7,14 g/cm3) pode causar úlceras, inflamação nasal e câncer de pulmão. As formais mais comuns de contaminação são através dos resíduos na indústria de curtição de couros e por águas contaminadas.

Poderíamos citar muitos outros elementos químicos, como o níquel, a platina, a prata, o cobalto, o cobre, o ferro, o manganês, o zinco, o estanho e muitos outros.

Apesar da Samarco não extrair metais pesados, foram encontrados nos sedimentos do desastre de Mariana metais como o ferro, o chumbo, o arsênio e o mercúrio, possivelmente gerado pelos garimpos ilegais. O fato é que, com o rompimento da barragem, esses contaminantes foram espalhados ao longo do percurso.

Em Brumadinho, acredita-se que estejam presentes o ferro, o cromo, o chumbo e o arsênio.

Na segunda quinzena de fevereiro a Vale tinha valor de mercado de R$ 223,4 bilhões, perdendo R$ 72 bilhões em valor de mercado. No entanto, passado mais de um mês da tragédia, os papéis voltaram a subir e a empresa já teve um ganho de R$ 24 bilhões.

Para o desastre de Brumadinho, a Vale propôs indenizações por danos materiais, morais, além de planos médicos, auxílio-creche, auxílio-educação, despesas de funeral, verbas rescisórias, além de atendimento psicológico e uma doação de R$ 100 mil para famílias de trabalhadores que perderam suas vidas com o rompimento da barreira e que não será deduzida de qualquer indenização.

No caso de danos morais, que não são cumulativos, o valor proposto a cônjuge e filhos é de R$ 300 mil; para pai e mãe é de R$ 150 mil; a irmãos, R$ 75 mil.

A Vale propõe ainda pagar aos familiares 2/3 de um salário mensal do trabalhador até a data que ele completaria 75 anos.

Fora isso, qual foi o prejuízo do impacto ambiental? Das subsistências ribeirinhas? Dos animais mortos? Do custo operacional para minimizar o resultado de uma “não” fatalidade? Do tempo de recuperação natural? Quanto Vale?

Os nanobastões peludos

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

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O pesquisador Zhiqun Lin, do Instituto Tecnológico da Georgia, e seus colaboradores, desenvolveram uma nova rota para criar nanobastões unidimensionais a partir de diferentes materiais precursores. A pesquisa publicada na Science relata que a partir de uma “espinha dorsal” de celulose ocorre o crescimento de apêndices de polímeros que atuam como um reator químico em escala nanométrica. As partes externas desses apêndices impedem a aglomeração de nanobastões.

Formam-se, então, estruturas de minúsculos bastões cobertos de "pelos" de polímero na superfície. Essas estruturas podem medir desde algumas centenas de nanômetros até alguns micrômetros de comprimento por algumas dezenas de nanômetros de diâmetro.

Quando esses nanobastões não crescem, ficando achatados, são denominados de nanorrodas e, neste caso, as nanorrodas peludas.

A técnica desenvolvida por Lin permitiu um rigoroso controle em todas as dimensões desses bastões tornando esses materiais com interessantes propriedades ópticas, elétricas, magnéticas e catalíticas, dependendo dos materiais precursores utilizados e das dimensões dos nanobastões ou das nanorrodas.

Com essa técnica já foram produzidos nanocristais metálicos, ferroelétricos, semicondutores e termoelétricos uniformes, bem como as suas combinações.

Para o controle das dimensões dos nanobastões foram utilizados diferentes solventes, podendo ser o tolueno, o clorofórmio ou a água.

A fabricação dos nanobastões inicia-se controlando os comprimentos individuais da celulose, que é um polímero de cadeia longa e de baixo custo, extraído de árvores. Cada unidade de celulose possui três grupos hidroxila, que são quimicamente modificados com um átomo de bromo. A celulose bromada serve então como macroiniciadora para o crescimento dos apêndices na espinha dorsal da celulose através de um processo de polimerização radical de transferência de átomos.

Com isso forma-se um nanorreator que iniciará a nucleação e o crescimento dos nanobastões onde a falta de espaço evita a agregação e o crescimento dos nanobastões. A agregação e o crescimento dos nanobastões podem ser comparados ao crescimento de um macarrão espaguete que se enrolaria em torno de si próprio.

A potencialidade de aplicações para esses materiais é muito ampla e nobre.

Por exemplo, os nanobastões de ouro podem permitir absorção plasmônica, que nada mais é do que a interação da luz com a superfície eletrônica desses nanomateriais, fazendo com que esse metal, na forma coloidal, apresente colorações diferentes conforme o campo de observação ou de acordo com a incidência da luz.

Outra aplicação seria a formação dos nanofios capazes de coletar alguns pacotes de energia luminosa do sol gerando uma energia extra para células solares.

Os nanotubos e nanorrodas podem ainda ser usados como rótulo biológico devido à sua baixa toxicidade, estabilidade química e intensa luminescência. Quando excitados por radiação de infravermelho, os nanotubos podem penetrar no tecido muito melhor do que radiação de alta energia, como a ultravioleta.

Ou ainda, os nanobastões de óxido de ferro-ouro ativados com ressonância magnética geram um aquecimento local criado pelo efeito fototérmico no núcleo de nanobastões de ouro, matando as células cancerígenas.

Equipamentos cada vez mais potentes e precisos aceleram a evolução da nanotecnologia.

Em agosto deste ano (2019), o grupo de pesquisa Nanoita iniciará uma série de pesquisas e a produção de nanomateriais através de outra metodologia inovadora.

A química da loucura

Evaldo Toniolo Kubaski

Doutor em Engenharia pela Escola Politécnica da USP

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O filme “Melhor é Impossível”, produzido em 1998, conta a história de Melvin Udall, interpretado por Jack Nicholson, que é um escritor de romances de sucesso em Nova Iorque. Melvin tem transtorno obsessivo compulsivo (TOC), é racista, homófobo, antissemita e misantropo, fato que o isola de qualquer pessoa à sua volta. Frequenta o mesmo restaurante todos os dias e senta-se sempre na mesma mesa, usando seus próprios talheres descartáveis. A única pessoa que suporta seu comportamento abusivo e que desperta seu interesse é a garçonete Carol Connelly, interpretada por Helen Hunt.

Como é de se esperar, sua rotina é carregada de manias e repetições.

Um determinado dia, seu vizinho, o artista plástico homossexual Simon Bishop (Greg Kinnear) precisou ser internado em um hospital devido a um assalto que sofreu em sua casa. Melvin então se viu forçado a cuidar de Verdell, o cachorro que ele odiava do seu vizinho Simon. No entanto, a relação com o cachorro finda por criar uma amizade com o animal e ele passa a receber mais atenção de Carol. Quando Simon retorna do hospital, suas vidas começam a se misturar.

O filme foi contemplado com dois Oscar (melhor ator e melhor atriz), recebeu três Globo de Ouro e mais uma dúzia de outros prêmios.

Falando de outra doença, foi relatado em 2014 por pesquisadores brasileiros que a esquizofrenia está associada a níveis elevados de zinco (Zn) e potássio (K) nas células cerebrais.

O melhor entendimento dessa síndrome oportuniza a possibilidade de novos tratamentos para cura ou melhoria na qualidade de vida do paciente.

Já se sabe que as altas taxas de Zn e K podem ser revertidas com o uso de medicamentos.

A publicação no periódico Schizophrenia Research não foi a primeira tentativa de se chegar ao entendimento dessa causa. Pesquisadores desta área de conhecimento já supunham que o organismo humano necessita de certas quantidades desses elementos e também de outros, como o cobre (Cu), o selênio (Se) e o manganês (Mg).

O grande feito foi constatar a presença dos elementos químicos Zn e K nas células neurais cerebrais de pacientes vivos, uma vez que os estudos anteriores limitaram-se aos tecidos não neurais, como o sangue, ou nas análises das células cerebrais de pacientes mortos, sem que se atingissem resultados conclusivos.

Analisando os resultados (difratogramas) da técnica de espectroscopia por raios X realizadas no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas, pôde-se determinar as quantidades precisas de Zn e K presentes em alguns neurônios vivos.

O pesquisador Stevens Rehen, da UFRJ e do Instituto D’Or é um dos autores deste estudo. De acordo com Rehen, as análises mostraram que o estresse oxidativo fez com que as células cerebrais derivadas do paciente esquizofrênico atingissem uma quantidade de zinco cerca de três vezes superior à considerada padrão.

Essas são pesquisas que abrem a porta para o entendimento do autismo, Parkinson, Alzheimer, síndrome de Down, problemas no coração e diabetes.

Da pesquisa relatada só podemos concluir que melhor é impossível!

Comunicação, atendimento médico virtual e o código Morse

 

Giovani Marino Favero

Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UEPG

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Recentemente, o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou a consulta médica virtual, com algumas especificações como a necessidade de uma consulta física prévia e o retorno presencial a cada seis meses quando necessário. As plataformas utilizadas também serão distintas, sendo o Skype uma das ferramentas de possível utilização.

Em uma procura rápida na internet já podemos conferir a oferta desse tipo de serviço, aparentemente sem as regras do CFM na maioria dos casos. O uso de mídias interativas e de comunicação virtual já tem sido rotina quando há um relacionamento antigo entre paciente-médico.

A modernização da comunicação aproximou pessoas e, nesse caso, indivíduos de profissionais específicos. Essa efetividade da interação e troca de informações me lembrou a história do código Morse.

Geralmente, quando lemos sobre esse código binário, as primeiras informações são associadas a um pintor que gostava de eletromagnetismo, Samuel Finley Breese Morse. Sim, Samuel era pintor e gostava de eletromagnetismo, mas o que o motivou a buscar por mais de quarenta anos uma maneira de comunicação instantânea foi um evento traumático.

Em 1825, Morse morava com a esposa Lucretia e seus dois filhos pequenos em New Haven, nos Estados Unidos. Depois de um grande aprimoramento nas artes, passando inclusive pela Real Academia de Londres, ele era conhecido pelo seu talento na pintura. Nessa época, Morse foi convidado pelo prefeito de Nova Iorque a pintar um retrato do marquês de Lafayette, um dos heróis da revolução americana.

A viagem demorava um pouco mais de uma semana e Morse aceitou mesmo com a esposa no final da gravidez. Poucos dias após iniciar o trabalho, o pintor recebeu a visita de um mensageiro com um bilhete e quatro palavras: “Esposa mal no parto”.

Da maneira mais rápida possível, sem paradas, após seis dias de viagem, Samuel Morse retornou para casa, de imediato soube que a esposa estava morta, morreu antes do mensageiro chegar até ele.

Essa demora de comunicação, assustadora para os padrões de hoje, motivou o desenvolvimento do sistema de informação mais utilizado no final do século XIX e início do século XX. Acredito que em sua brilhante cabeça Morse sonhava com uma consulta ou uma informação instantânea.

O alerta vem das águas

 

Thiago Sequinel

Doutor em Química pela UNESP

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A falta de água afetará 5 bilhões de pessoas até 2050, afirma a ONU.

Essa notícia parece tratar-se de outro planeta, e não da nossa Terra. Nosso planeta possui 71% da sua superfície coberta por água, ele é azul!

Infelizmente 96,5% dessa água são salgadas e, dessa forma, imprópria para consumo. Sobram ainda 3,5% de água doce que estão distribuídas nos rios, geleiras, lagos e nos lençóis subterrâneos. Porém, a poluição e a falta de acesso inviabilizam grande parte desses 3,5%.

Para se ter ideia, no mundo, apenas 0,007% do total da água do planeta é acessível para o consumo.

O Brasil detém 11,6% de toda a água doce mundial. Desse total, 80% estão na região norte, mas que é representada por 5% da população brasileira.

Nossa dependência da água também está relacionada à produção de alimentos, vegetais e animais e até mesmo na produção industrial.

Alguns países no Oriente Médio e no norte da África têm pouco acesso à água doce e precisam dessalinizar a água salgada para produzir água própria para consumo humano.

Para isso existe uma técnica comum chamada osmose reversa, que usa uma espécie de plástico poroso, melhor falando, uma membrana semipermeável, para filtrar o sal e separar o líquido.

Outra maneira de se extrair da água salgada é evaporar e coletar a água que a torna própria para uso, porém, a salmoura resultante pode criar um desequilíbrio no ecossistema.

A Universidade de Alexandria, no Egito, utiliza membranas e evaporação para separar a água doce do sal em minutos.

Falando em membranas, cientistas da Universidade de Ghent, na Bélgica, desenvolveram um processo, chamado de destilação por membrana, para recuperar 75% de água potável a partir da urina humana e ainda conseguem reaproveitar a amônia. Comprovadamente esse processo é 100% seguro e não tem falhas.

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina criaram um dispositivo com custo inferior a R$ 1.000,00, que através da energia solar é capaz de produzir até 8 litros de água potável a partir da água barrenta ou salgada.

As notícias recentes apontam a tecnologia de Israel para retirar água da umidade do próprio ar, porém, o Brasil já é habilitado para esse desenvolvimento.

O método inovador mesmo está com os pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que conseguem extrair água do ar do deserto. O aparelho desenvolvido foi testado em Tempe, no estado americano do Arizona. O sistema utiliza energia solar, estruturas metálicas e orgânicas sendo capaz de retirar água do ar mesmo com a umidade em torno de 10%. As tecnologias similares só conseguem operar com a umidade do ar superior a 50%.

Existem muitos outros estudos que poderíamos citar aqui, mas, o que dá para perceber é que temos alternativas.

O que não podemos é continuar poluindo e contaminando nossos mananciais.

O que não podemos é aceitar que nossos irmãos nordestinos continuem sendo tratados como reféns dos velhos e conhecidos “coronéis políticos” até mesmo na dependência da água que necessitam para viver.

Já afirmou a ONU, 5 bilhões de pessoas serão afetadas pela falta de água até 2050.

Nossas escolhas

Flavio Trojan

Doutor em Engenharia de Produção pela UFPE

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O leitor já parou para pensar quantas são as escolhas que necessitamos realizar diariamente em nossas vidas?

Muitas vezes tomamos as decisões de forma intuitiva. Mesmo assim, isto envolve uma complexidade que certamente não reconhecemos com os devidos detalhes técnicos.

Vou apresentar um exemplo bem simples: ao escolher o caminho mais rápido e seguro a ser percorrido para ir ao trabalho, nosso cérebro considera múltiplos objetivos e muitas possibilidades, então escolhe a alternativa que é mais conveniente para aquele momento específico.

Isso se repete ao longo da nossa vida, diariamente.

Um caminho rápido e seguro sugere algum tipo de conflito. Não é possível conduzir um veículo rapidamente e com segurança, existe um limite que não poderá ser ultrapassado. O risco vai aumentando proporcionalmente à velocidade.

Então, nosso cérebro equilibra esses critérios e objetivos para aumentar a velocidade do veículo, desde que a segurança esteja garantida. Se a via estiver congestionada a velocidade será diferente do que se estivesse livre, e poderia chegar com mais rapidez.

A essas simples escolhas chamamos de “Tomada de Decisão Multicritério”, em que o decisor escolhe a alternativa de melhor compromisso com os objetivos que ele deseja atender e admite um trade-off (escolher uma coisa em detrimento de outra, no caso do exemplo aqui citado, diminuir a velocidade para obter maior segurança, porém aumentando o tempo para a chegada).

No exemplo “chegar rápido e com segurança” não vai atingir o ponto ótimo de velocidade e segurança ao mesmo tempo, porém uma alternativa mais equilibrada que garante níveis aceitáveis para os dois critérios (menor tempo, maior segurança).

Mundialmente, as teorias em torno dessa maneira de escolher alternativas estão evoluindo a fim de solucionar problemas complexos relacionados ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

A referência mais antiga conhecida sobre a Tomada de Decisão com Múltiplos Critérios remonta a Benjamin Franklin (1706-1790), que supostamente tinha um sistema de anotação em papel para decidir questões importantes. Franklin escreveu: “Pegue uma folha de papel. De um lado, escreva os argumentos em favor de uma decisão; do outro lado, escreva os argumentos contra. Elimine argumentos em cada lado do papel que são relativamente de igual importância. Quando todos os argumentos de um lado forem eliminados, o lado que possui os argumentos restantes é o lado do argumento escolhido”. Supostamente, Franklin usou isso para tomar decisões importantes.

A tomada de decisão multicritério tem evoluído para orientar decisões complexas e polêmicas, onde, por exemplo, aspectos sociais e ambientais podem ser inseridos e analisados, proporcionando reconhecer o trade-off em cada processo de escolha. Assim, existe uma grande quantidade de métodos multicritério, que auxiliam a encontrar esse equilíbrio por meio de formulações matemáticas, que reconhecem que o decisor possui preferências específicas que podem influenciar diretamente na sua opção final.

Entre os métodos existentes o AHP (Analytic Hierarchy Process), desenvolvido por Thomas Saaty na década de 1970 e o TOPSIS (Technique for Order Preference by Similarity to an Ideal Solution), desenvolvido por Hwang & Yoon na década de 1980, são os mais utilizados e populares.

As questões centrais no desenvolvimento das teorias da MCDA (Multiple Criteria Decison Analisys) são reconhecer que os decisores influenciam nas escolhas com a sua subjetividade e que existem critérios conflitantes.

Assim, com base no modelamento matemático sobre o comportamento de variáveis de um processo produtivo é possível agregar a intervenção humana, que sem dúvida poderia influenciar nos resultados.

Certamente, o estudo dessas teorias auxilia no reconhecimento do papel humano e subjetivo como parte integrante do processo de tomada de decisão nas várias esferas tecnológicas, o que também impacta no futuro e na evolução da ciência e da tecnologia.

A ecologia em cada um de nós

Gilberto Baroni

Professor do Departamento de Medicina e Coordenador da COREME do Hospital Universitário da UEPG

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Um dos maiores desafios da humanidade é manter-se íntegro, ou em equilíbrio, com os diversos sistemas ecológicos existentes. Quase diariamente somos informados sobre danos os causados pelo homem, sejam aos mares, sejam às florestas tropicais, ou à Amazônia. Sem dúvida trata-se de um assunto de importância vital. A preservação destes sistemas é fundamental para a biodiversidade e para a sobrevivência da própria humanidade.

No entanto, menos percebido, é que cada um de nós é em si mesmo, um complexo sistema ecológico. Nós carregamos uma variedade enorme de espécies em nossa pele, em nossas mucosas e, principalmente, em nossos intestinos. São trilhões de bactérias que convivem conosco, e que têm papel fundamental na manutenção de nossa saúde.

Variações nesta flora, que apenas agora se começa a estudar, podem estar relacionadas com muitas doenças. Obesidade, diabetes, síndrome do intestino irritável, entre outras, podem ser influenciados pela flora intestinal.

A preservação de uma flora normal é extremamente importante, e sua desregulação pode ter consequências muito graves. É bem conhecido que o uso de antibióticos, ao mesmo tempo em que destrói um germe patogênico, também altera a flora bacteriana normal, aumentando o risco de infecções oportunistas. Um dos casos mais comuns é a ocorrência de infecções genitais femininas por fungos do gênero Candida, quando se usam antibióticos para tratamento de infecções urinárias.

Em ambientes hospitalares é extremamente preocupante a ocorrência de infecções gastrointestinais graves, especialmente a colite pseudomembranosa, que é causada pela bactéria Clostridium difficile, e que ocasiona uma diarreia grave, de difícil tratamento que pode levar o paciente a óbito. Esta doença tem sido mais frequente nos últimos anos, causada exatamente pela destruição da flora normal do intestino, o que permite o crescimento de uma flora patogênica.

Por mais estranho que pareça, o melhor tratamento para esta situação é se conseguir o restabelecimento da flora normal do indivíduo, o que é feito através da realização de um transplante de fezes, ou seja, com o uso de fezes de um doador normal, parente do doente em questão, que possibilita recolonizar o intestino do paciente, levando à cura da infecção pelo Clostridium. Isto é feito usando-se fezes de um, ou de dois doadores, que sejam compatíveis, saudáveis, e que não tenha usado antibióticos, geralmente um membro da família. As fezes são obtidas por uma evacuação normal, sendo o material processado e posteriormente infundido no paciente, seja por sonda nasogástrica, ou pelo ânus, via colonoscopia ou enema. É um procedimento rápido, sem efeitos colaterais, e que cura a colite pseudomembranosa em 90% dos casos.

Como outras doenças sistêmicas podem estar relacionadas à flora intestinal, talvez no futuro o transplante de fezes, ou outros modos de manipular a flora intestinal, sejam usados em tratamentos médicos.

De todo modo, preservar a flora normal de nosso organismo, seja na pele ou mucosas, é muito importante. Manter uma alimentação saudável, evitar o uso abusivo e desnecessário de antissépticos, usar antibióticos apenas quando necessário é fundamental. Cuidar tanto da ecologia do planeta como individualmente só faz bem, mantendo-nos íntegros e em equilíbrio com nós mesmos.

Os agrotóxicos são mesmo vilões?

F.M.T.

 

Aluno do 8º Ano do Ensino Fundamental do Colégio Positivo Master

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O leitor já parou para se perguntar como seria o mundo atual sem os agrotóxicos?

Esses produtos químicos altamente tóxicos e perigosos são os mesmos que acabam com as pragas agrícolas, ervas daninhas, entre outros problemas que afetam a agricultura.

Muitas pessoas defendem, sem pensar, o desuso dos agrotóxicos, mas não apresentam argumentos fortes, falando, apenas, sobre a saúde e o meio ambiente que ele pode acometer. É evidente que isso é verdade. Mas, e sem eles?

Precisaríamos de mais espaço para plantar. Digo muito espaço mesmo, pois incontáveis toneladas de alimento estragariam antes mesmo de sair do solo, então, a área desmatada seria muito maior, acometendo biomas inteiros.

Estamos falando apenas para suprir a necessidade da sobrevivência humana.

Por outro lado, em se tratando de saúde, há muitos problemas que podem ser causados devido à utilização dos pesticidas. Mas, qual o maior estrago, algumas alergias causadas pelo uso dos agrotóxicos ou um planeta com mais de 7 bilhões de pessoas passando por problemas relacionados à escassez de alimentos?

E o preço? Ter alimentos orgânicos na mesa pode ser considerado um luxo. A diferença de preço entre um produto orgânico e um convencional ainda é muito grande. Agora, imaginemos o preço dos alimentos mais básicos sem os agrotóxicos em um planeta onde se passa fome, qual a fatia da população teria acesso a eles?

Lembramos que não podemos pensar somente no ciclo de produção dos vegetais vendidos em mercados, uma vez que os agrotóxicos são utilizados também na produção da soja, que serve de base para a alimentação bovina e óleo, no trigo que é utilizado para fazer o pão, enfim, em muitas coisas.

Além dos problemas mencionados, os agrotóxicos também geram empregos e grandes empresas. Em minha opinião, o desenvolvimento e uso dos agrotóxicos fazem parte da evolução humana e devem ser incentivados.

Para isso, a pesquisa científica tem um papel muito importante no desenvolvimento e aprimoramento dos agrotóxicos, uma vez que muitos pesquisadores buscam substâncias mais eficazes no combate às pragas e menos agressivas à saúde e ao meio ambiente.

Constantemente a Anvisa proíbe a utilização de alguns produtos devido à sua toxicidade, alguns deles são o endossulfam, a cihexatina, o tricloform, o monocrotofós, o pentaclorofenol, o lindano, o metamidofós, a parationa metílica e o procloraz.

Paralelamente, a ciência tem investigado os agentes degradantes de agrotóxicos, que podem ser mediante os catalisadores ativados pela luz, calor ou outro meio, ou ainda através de alguns microrganismos capazes de se alimentarem dessas substâncias.

Desta maneira, os agrotóxicos podem trazer grandes benefícios para todos, mas, para isso, o uso deles deve ser feito de maneira correta e dentro dos limites. Os equipamentos de proteção individual (EPIs), o descarte correto, a quantidade certa de uso e o estudo sobre as substâncias que estão sendo usadas são ações essenciais para o bem de todos.

Até quando seremos tão complacentes com nós mesmos?

 

Robson Couto da Silva

Doutorando em Engenharia de Produção pela UTFPR

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Um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde informou que em 2018 o número de mortes registradas no trânsito atingiu 1,35 milhão de pessoas. Nosso país, infelizmente, se encontra entre os cinco países recordistas nesse quesito ao lado de Índia, China, Estados Unidos e Rússia. Para se ter uma ideia da magnitude desse dado, o portal do trânsito em um de seus artigos informou que cerca de 60% dos leitos hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS) e 50% das ocupações em centros cirúrgicos são utilizados por vítimas de acidentes de trânsito. Outro número que impressiona é dado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária, onde o custo anual dos acidentes de trânsito em 2016 atingiu a cifra de 52 bilhões de reais.

A gravidade da situação é tão expressiva quanto os problemas que temos em segurança pública. Porém, parece que não damos tanta importância para esses números, visto que as maiores causas dos acidentes ocorrem devido ao excesso de velocidade, embriaguez e uso de celulares enquanto se dirige.

Será que nossa complacência com esse problema não vem do fato de que quase todos nós somos recorrentes em cometer esses crimes e preferimos tratá-los como “pequenas infrações” e que nossos atos nunca causarão danos a ninguém?

Acredito que já passou da hora de refletirmos sobre as consequências de nossa educação no trânsito, pois o que ocorre não está vinculado à desinformação, e sim à imprudência e irresponsabilidade.

Mas, então, não posso tomar a minha cervejinha quando saio? Ora, se você for dirigir, não pode mesmo! Sei que a maioria dos leitores torce o nariz ao ler essa última frase, porém a reeducação de nossos costumes se faz necessária e às vezes demora mais de uma geração para surtir efeito. Recordo-me que a cerca de trinta anos atrás se iniciou uma grande campanha pelo uso de cinto de segurança e em 1997 essa prática se tornou lei. Atualmente já tivemos algum êxito, visto que o uso do cinto é algo natural para os passageiros dos bancos da frente, apesar de ainda ser uma prática ignorada nos bancos traseiros. Da mesma maneira, as pessoas deverão se acostumar que aquele que vai dirigir não poderá consumir bebida alcoólica e caso o faça, que utilize outros meios de transporte. É incômodo para maioria, mas precisa se tornar um hábito.

A naturalidade com que os crimes de trânsito são tratados chega a ser tão estridente que vemos diariamente nos jornais dezenas de casos de acidentes com vítimas fatais e mesmo assim esse assunto é tratado de maneira banal, pois a grande maioria dos infratores prefere enxergar aquilo como mais uma fatalidade do que um crime. Lamentavelmente, essa mentalidade faz com que tenhamos complacência, pois como também podemos cometer tais “deslizes” é melhor tentar fingir que foi um erro que não deve mais ser cometido da próxima vez em vez de constatar que estamos assumindo o risco de causar um grave dano a outrem.

A conclusão final desse texto paira na tentativa de nos colocarmos agora não no lugar de possíveis infratores, mas sim de uma vítima de um acidente de trânsito. Como seria sua complacência se ficasse inválido ou perdesse um filho ou ente querido em virtude da irresponsabilidade de outra pessoa? Pense nisso na próxima vez que pegar a chave do carro, consumir álcool, pisar no acelerador ou utilizar celular enquanto dirige.

 

 

Chegou 2019!

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

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Quando criança observava antes dos almoços a panela tampada sobre a boca do fogão e, de repente, com a fervura do líquido, muitas vezes ele transbordava. Minha atenção era voltada à bagunça que fazia, mas, principalmente, à chama que parecia ficar “rebelde” e com uma coloração amarela intensa.

Dentre alguns efeitos que ocorriam para mim o principal era a interação sódio do sal de cozinha com o fogo. Qual a explicação para isso?

Sabemos que as radiações eletromagnéticas deslocam-se à velocidade da luz no vácuo, que é de 1.079.252.848 km/h. As radiações eletromagnéticas possuem características ondulatórias e estão relacionadas ao comprimento de onda e a frequência. Essas duas propriedades estão relacionadas, ou seja, quanto maior for o comprimento de onda menor será a sua frequência e vice-versa.

Os olhos humanos detectam as diferentes cores devido às diferentes frequências da luz desde que os comprimentos de ondas estejam compreendidos entre 400 e 700 nanômetros.

Quando um objeto é aquecido ele emite radiação com uma cor característica. Esta faixa de frequência da luz pode ser identificada pela cor.

Sobre o ponto de vista atômico, a energia não pode ser absorvida ou emitida por um elétron de maneira contínua, somente na forma de “pacote definido de energia” denominado “quantum”.

Quando um elétron, que está numa camada distante do núcleo de um átomo, recebe o quantum de energia, ele salta para uma camada mais externa, o que chamamos de estado excitado. O estado excitado de um elétron não é estável e imediatamente o elétron retorna à sua órbita estacionária liberando a mesma energia que havia recebido, porém, na forma de luz, o que chamamos de fóton.

Quando colocamos um elemento químico na chama ele absorve a energia (quantum) e, em seguida, libera na forma de fóton.

Os fótons podem ser amarelos quando o elemento for o sódio, laranja-púrpura quando for o potássio, verde-limão quando for o bário, vermelho-carmim quando for o lítio, verde quando for o cobre, vermelho/laranja quando for o cálcio e vermelho-púrpura quando for o estrôncio.

Mas, imagino que neste momento o leitor esteja se questionando: Para que tanta informação científica?

Quem ler esse artigo vai lembrar a passagem de ano novo e ficará tão animado quanto a excitação dos elétrons dos átomos no céu tornando os fogos com as diversas cores diferentes.

Lá em casa sempre é assim. Fora o tradicional Feliz Ano Novo, meus filhos também falam: olha pai, agora foi sódio, agora níquel, potássio, etc.

Como somos egoístas por natureza, reservemos esta alegria apenas para nós, uma vez que nossos animais de estimação se assustam e sofrem com o barulho causado para gerar toda essa excitação eletrônica.

Então, podemos combinar o seguinte, como somos inteligentes, nos próximos anos vamos conhecer novos conceitos científicos e, quem sabe, assistir a uma passagem de ano com projeções no céu em 3D, de filmes gerados por feixes de laser, por exemplo. Aí o barulho fica em razão de nossa alegria e dos espumantes.

O grupo Nanoita deseja um Feliz 2019 a todos!