Grupo Nanoita
Molhadores de dedos e o aspartame

Giovani Marino Favero

Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UEPG

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Recentemente entrei em uma loja de materiais de escritório para olhar o que havia de novo, passar um tempo sem compromisso, e me deparei com a promoção de Molhadores de Dedos ao custo de 6 reais. Pensei rapidamente em várias coisas, primeiro na burocracia e nos inúmeros profissionais, principalmente de cartórios e do sistema judiciário, que vivem ilhados em papéis diariamente. Com certeza uma espuma com água e glicerina poupariam a língua desses e de vários outros que trabalham folheando páginas e mais páginas rotineiramente.

Na minha cadeia de pensamentos constatei que nunca vi esse tipo de instrumento na casa ou no escritório de indivíduos leitores assíduos, essa é a turma do lambe-dedo mesmo. Realmente, lamber o dedo para virar as páginas é um gesto pouco higiênico, mas o pior é a abertura dos sacos de compras por empacotadores com o mesmo hábito.

No livro e filme “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, alguns monges foram assassinados por venenos colocados nas pontas das páginas de alguns livros proibidos e o costume de lamber o dedo foi o grande impulsionador para esse efeito fulminante.

Na década de 1960, um projeto que visava a descoberta de um novo inibidor para a gastrina e, consequentemente, o tratamento de úlceras estomacais, pela empresa G.D. Searle and Company, necessitava de uma série de reações químicas. Um dos principais químicos executores do projeto era James M. Schlatter.

Durante um dos processos químicos, Schlatter aquecia um composto em um recipiente contendo metanol, quando, devido ao calor, a mistura borbulhante caiu sobre as bordas do frasco e na mão do pesquisador.

Passado algum tempo, James levou os dedos à boca para folhear um livro e sentiu um sabor extremamente doce, a substância que provocava essa sensação de doçura era o aspartame, uma substância edulcorante que dava a percepção mais de cem vezes doce do que a sacarose.

Esse costume foi o fator de acaso na geração de um produto que arrecada cerca de 2 bilhões de dólares por ano, o aspartame.

 

Pesquisa e Eleição

Gilberto Baroni

Professor do Departamento de Medicina e diretor técnico do Hospital Universitário da UEPG

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Durante o período eleitoral um assunto é trazido ao noticiário: a pesquisa. Quase diariamente o assunto é abordado na imprensa. Conceitos da estatística, como tamanho da amostra, margem de erro e intervalo de confiança, são comentados pelos apresentadores e comentaristas políticos. O tema pesquisa figura junto com os temas da economia e passa a fazer parte do dia a dia de todos os brasileiros. Passamos a discutir a confiabilidade das mesmas, se são válidas ou não, se foram feitas de modo correto, se representam verdadeiramente a opinião dos eleitores. Será que somente sobre este tipo de pesquisa é que deveríamos discutir?

Nas entrevistas com os candidatos os temas predominantes são Economia, Segurança, Saúde e Educação. Neste quesito sempre se pergunta sobre acesso e qualidade do ensino, remuneração dos professores, ensino gratuito. Nas matérias de jornais, nas entrevistas com os candidatos, nas perguntas dos eleitores, no entanto, falta um tema primordial: a Pesquisa Científica. Perguntas sobre este assunto nunca são feitas, seja pela população geral, o que é facilmente compreensível, seja pelos jornalistas, o que seria espantoso, não fosse a baixa compreensão, generalizada no Brasil, do que é a Pesquisa Científica e sua importância.

Sem a ciência e seus métodos estaríamos vivendo em condições muito próximas daquelas da Idade Média. Televisão, telefones celulares e internet, por exemplo, não surgiram do nada. A criação destas ferramentas só foi possível pela conjunção de esforços de centenas, quiçá milhares de pesquisadores.

O Brasil não será um país de futuro se não investir em pesquisa, pois o mundo de amanhã é construído em Laboratórios de Pesquisa, ligados ou não, às Universidades. Fontes de financiamento, integração de instituições, ética em pesquisa, seriam itens fundamentais a serem discutidos, não apenas por candidatos, mas por todo o país, e não somente no período eleitoral, mas de modo permanente.

A pesquisa científica tem a capacidade de transitar através dos conceitos básicos até os mais tecnológicos. Com ela, se desenvolve do básico ao mais refinado, do mais simples ao mais complexo. Pode ser desenvolvida em um único conhecimento até mesmo na multidisciplinaridade. Faz o elo entre o passado, o presente e o futuro e somente a pesquisa científica é capaz de trazer o futuro para o presente.

Pesquisa científica é a ferramenta estratégica de soberania de uma nação frente às nações que pouco investem neste quesito. Por este motivo, o investimento em pesquisa científica é o resultado de uma política inteligente, basta olhar para os “TOP 10” em investimentos: Israel, Finlândia, Coreia do Sul, Japão, Suécia, Dinamarca, Suíça, Alemanha, EUA e Áustria.

Recentemente perdemos um grande museu, morto pela falta de zelo com nosso passado. Se quisermos mesmo ser um país de futuro, temos que discutir a Pesquisa no Brasil. O que seremos se não cuidarmos do passado e não construirmos o futuro?

 

OS JETSONS

Thiago Sequinel

Doutor em Química pela UNESP

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Em 1964, a edição de “The Chemical Industry Facts” foi publicada pela “Manufacturing Chemists’ Association” e trazia uma espécie de previsões científicas para o futuro dos Estados Unidos da América.

Passaram-se 54 anos e já podemos nos considerar no futuro. Mesmo não estando nos EUA o leitor pode avaliar se as previsões se concretizaram ou não. Foram elas:

− Poderão ser geradas imagens televisivas e sua transmissão ocorrerá para o mundo todo.

− Será possível controlar o tempo e o clima no mundo.

− Aparecerão muitos alimentos sintéticos.

− As casas, em sua maioria, serão construídas de plásticos e adesivos.

− As vigas feitas de calcário, água do mar e ar serão mais fortes do que as de aço.

− As roupas serão leves e receberão tratamento para proteger do frio, calor e agentes tóxicos.

− A agricultura poderá ser feita em terras pobres.

− Serão desenvolvidas substâncias químicas para controlar a hereditariedade e o comportamento animal.

− Haverá a descoberta de medicamentos para cura e prevenção de muitas doenças comuns na infância e na velhice.

− Serão desenvolvidos produtos químicos para adicionar no solo tornando-os à prova de água e com resistência para permitir a passagem de vários tipos de transporte.

− Os alimentos poderão ser obtidos do oceano.

− Criarão tintas neutras, automotivas, de cor branca, e com pigmento sensível à luz que adquire a cor que se deseja quando exposto à radiação eletromagnética.

− As casas serão iluminadas, aquecidas ou refrigeradas por intermédio de painéis plásticos especiais.

− Haverá reproduções fiéis de esculturas com espécies de plásticos.

− Existirão plásticos bons condutores de eletricidade para muitos usos especiais.

− Os automóveis não terão motor. A potência será fornecida por cilindros abastecidos de hidrogênio e oxigênio fixados diretamente nas rodas.

− Terão analgésicos que não viciam e mais poderosos que a morfina.

− Existirão revestimentos em plástico tão oleosos para máquinas que não haverá a necessidade de lubrificá-las.

− As coberturas plásticas para as casas e quintais permitirão um controle do clima durante todo o ano.

− As cargas de canetas terão um sólido químico que, combinado com o nitrogênio presente no ar, produzirá um fluido com as propriedades da tinta.

− Existirão rádios funcionando com a energia solar e do tamanho de um relógio.

− Nos relógios existirão um circuito eletrônico e pilhas em miniaturas.

Não é de se duvidar que essas previsões tenham sido inspiradas no desenho animado “Os Jetsons” da produtora Hanna-Barbera. Porém, podem ter sido uma diretriz para o rumo da ciência.

 

Um jovem cientista

Evaldo Toniolo Kubaski

Doutor em Engenharia pela Escola Politécnica da USP

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Algum tempo atrás (13/03/2018) publicamos uma matéria neste espaço intitulada Bandeira roxa (Mauro César Cafundó de Morais, pós-doutor pela medicina da USP).

Vamos agora abordar sobre outro ponto de vista o mesmo tema central.

Este texto remete para o ano de 1856 e trata de um jovem cientista com 17 anos apenas chamado William Henry Perkin.

Sua descoberta trouxe um benefício à humanidade e uma riqueza agregada que pode ser comparada a todas as descobertas de ouro no mundo.

Vamos à história:

Nas férias de Páscoa de 1856, em um pequeno laboratório caseiro fora da cidade de Londres, estava terminando mais um dia de árduo trabalho e que, aparentemente, seria apenas mais um dia infrutífero para o jovem assistente de laboratório Perkin e para o químico alemão August Wilhelm von Hofmann.

Eles estavam tentando obter o quinino do alcatrão da hulha. Na época, o alcatrão da hulha era considerado um resíduo inútil de fabricação do coque e do gás de hulha.

Em determinado momento, Perkin pegou um vidro com uma mistura de diversos produtos químicos de cor escura, viscosa e com cheiro muito ruim e estava levando para jogar fora, quando resolveu antes completar o frasco com álcool.

O resultado foi uma solução de cor púrpura intensa. Estava descoberto o primeiro corante da anilina, a “malva”.

A malva foi precursora de uma série de diferentes correntes, de perfumes, explosivos, bálsamos medicinais, remédios, cosméticos, antissépticos, corantes de alimentos, de um substituto do açúcar, reagentes fotográficos, e uma série de outros produtos.

Era o refugo sendo transformado em riquezas.

A descoberta de Perkin não foi um simples golpe de sorte. Mesmo antes de ser admitido no Royal College of Chemistry, quando tinha apenas 14 anos, em todos os seus momentos de lazer, Perkin se dedicava à química.

Mas, voltando à anilina, logo após a descoberta da malva Perkin descobriu outro corante, em tom de vermelho e, em seguida criou também o anil.

Aliás, a descoberta da síntese artificial do anil, muito mais barato que o natural, causou um dano econômico irreparável para a Índia que dependia da comercialização deste produto obtido a partir do cultivo da planta em vastos campos.

Desta forma, Perkin estabeleceu um marco na química sintetizando produtos de carbono para fazer companhia à síntese artificial da ureia de Friedrich Wöhler.

Era o indicativo de que uma nova ramificação da química estaria surgindo – a química orgânica.

E se o seu filho gostar de laboratório? Lembre-se da história de sir Willian Perkin!

 

O mito de Narciso e o Dr. Bumbum

Gilberto Baroni

Professor do Departamento de Medicina e diretor técnico do Hospital Universitário da UEPG

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Há alguns séculos antes de Cristo, na Grécia antiga, vivia Narciso. Um jovem muito belo, filho do Cefiso e de Liríope. Ao nascer, sua mãe consultou um adivinho, Tirésias, que previu que Narciso teria uma longa vida, desde que nunca visse a própria imagem. À medida que crescia ficava mais bonito, despertando amor em todas as meninas. Um dia, enquanto Narciso descansava, a ninfa Eco se apaixonou por ele, sem que ele correspondesse a esta paixão. Foi por isso amaldiçoado: "Que Narciso ame com intensidade, sem possuir o amado". Um dia, ao tentar beber água numa fonte muito límpida, Narciso viu a própria imagem refletida e, ficando encantado com o que viu, não percebeu que era o próprio reflexo. Em várias ocasiões, Narciso tentou alcançar essa imagem, mas em vão. Desesperado, sem poder alcançar o objeto do desejo, acabou se suicidando. Como ele estava deitado num gramado, pouco a pouco seu corpo desapareceu. Em seu lugar, uma flor surgiu, a qual foi chamada de Narciso.

Na interpretação grega clássica, tudo o que excede a medida e o limite ocasiona desconforto e desequilíbrio. O culto excessivo à beleza não era bem aceito, uma vez que a perfeição era atributo dos deuses.

No Brasil, em 2018, uma linda mulher, procurando manter a juventude, busca o auxílio de um profissional que vende a beleza suprema e a juventude prolongada. Sendo submetida a procedimento estético, sofre uma complicação, indo a óbito apenas algumas horas após a intervenção. Seu corpo não virou flor.

Obviamente o caso descrito refere-se à Lilian Quezia Calixto, mulher de 46 anos, que foi submetida à injeção de PMMA (polimetilmetacrilato), também chamado de metacril, pelo autodenominado Dr. Bumbum. A sua morte, que não parece ter sido acidental, é tratada pela polícia como homicídio. Ela foi vítima, aparentemente, de erro médico.

Mas não apenas disto. Foi vítima também de uma sociedade que cultua excessivamente o belo, que deseja a juventude eterna. Uma sociedade que perdeu a capacidade de viver a beleza de cada uma das idades do homem. A valorização da adolescência permanente e a busca desenfreada pela beleza fazem diariamente muitas vítimas. Não apenas os submetidos a procedimentos estéticos não aprovados, realizados por profissionais não capacitados. Também são vítimas as pessoas que não possuem o ideal de beleza propagado pela mídia. Baixa autoestima e bullying são outras consequências do mesmo distúrbio social.

Sim, Lilian foi vítima de um procedimento estético, mas também foi morta por esta doença social. Como fez a escolha pelo tratamento, acabou por ser algoz de si mesma.

A busca pela beleza inatingível une o Mito de Narciso e o caso do Dr. Bumbum, ambos terminando em mortes trágicas. Que a morte de Lilian não tenha sido em vão. Que os responsáveis respondam por seus atos, e que todos nós repensemos nossas prioridades nesta vida.

 

 

Seu cocô vale ouro

 

 

Marcos Pileggi

Pós-Doutorando em Genética pela Universidade de Minnesota, E.U.A.

[email protected]ta.com.br

 

Conforme já definimos no artigo “Conversando com bactérias”, podemos agora afirmar que as bactérias intestinais se organizam em comunidades, os microbiomas intestinais. Essas comunidades fazem com que as bactérias e o leitor tenham uma vida tranquila a partir do seu nascimento, tal como foi com seus pais e seus avós, com a espécie humana e com todos os outros animais e seus importantes intestinos.

E com todos os seres sem intestinos também, mas aí já serão outras histórias!

O que trago aqui tem como personagem o médico infectologista Gerson Czelusniak, que realizou o primeiro transplante fecal no Hospital Universitário Regional dos Campos Gerais (HU-UEPG), para combater a diarreia causada pela bactéria Gram positiva Clostridium difficile. Aproximadamente 90% dos casos de diarreia são causados por C. difficile,

A visão médica corrente é que se trata de uma bactéria patogênica responsável por uma colite, uma inflamação do revestimento do intestino grosso.

A questão é que esta bactéria patogênica não é sempre patogênica. Ela pode ser encontrada em 66% de crianças e em 3% dos adultos sem causar problemas. Sabemos que o microbioma intestinal tem mudanças em sua composição em espécies desde o momento em que nascemos, mas esta evolução depende das escolhas que fazemos ou que fazem por nós. Você pode ter uma história microbiológica se tiver nascido de parto normal, sendo colonizado pelos microbiomas vaginais e intestinais de sua mãe, ser amamentado corretamente e por um tempo adequado, e ter uma alimentação com fibras, sem muitos carboidratos, e por aí vai...

Se você nasceu de cesárea, já vai ter uma história microbiológica diferente, pois sua colonização inicial foi diferente. E o uso de antibióticos irá mudar esta história em qualquer ponto da sua vida, não porque somente a bactéria patogênica será combatida, mas porque bactérias normais e importantes de seu microbioma intestinal também serão combatidas, mudando a composição de espécies. Este contexto pode ser o da C. difficile.

Imagine que esta bactéria seja um cunhado bacana que sempre que está na presença do sogro, sogra, cunhadas e da família em geral, é um anjo, mas quando fica sozinho com você, é um ogro interesseiro. Sem a presença de bactérias do microbioma intestinal, que irão controlar a quantidade e a expressão gênica do C. difficile, via o processo que já discutimos de quorum sensing, esta poderá produzir as toxinas que irão provocar a diarreia. Evidente que esta situação pode ser controlada por opções mais simples. Por exemplo, parar com o uso do antibiótico que trouxe esta situação de desequilíbrio poderá permitir a retomada do microbioma que controla o C. difficile.

É a estratégia de “chamem o sogrão e a sogrona”. Se o desequilíbrio estiver consolidado, pode-se administrar um antibiótico para combater o C. difficile, só que você já deve ter percebido que, com esta atitude, você poderá selecionar bactérias patogênicas, que eu prefiro chamar de oportunistas e que são resistentes e alteram o microbioma.

Também se pode optar pela utilização de probióticos, ou seja, bactérias controladoras do microbioma normal, como várias espécies de Lactobacillus, que você encontra em vários iogurtes e outros produtos.

Quando nada disso dá resultados satisfatórios, tem-se a opção pelo transplante de microbiota fecal, no qual é necessário encontrar um doador de fezes saudável.

Esta condição é determinada por uma série de exames clínicos.

Se as fezes deste sujeito recebem o selo “cocô bacana”, serão diluídas em soro fisiológico e poderão ser inseridas no paciente pela cavidade nasal, oral ou anal. Ui!

Outras técnicas, como a utilização de bactérias do microbioma intestinal purificadas, sem os componentes “cocozianos”, estão sendo desenvolvidas pelo meu orientador de pós-doutorado e amigo Michael Jay Sadowsky, da Universidade de Minnesota. Estamos conversando com pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa e da Universidade Federal do Paraná para conseguir financiamentos e desenvolver esta técnica no Brasil. Sinto-me estimulado, ainda mais sabendo do trabalho em andamento do Gerson Czelusniak e do potencial destas abordagens, uma vez que começamos a entender melhor o quanto o microbioma está associado com um nível de vida saudável. Problemas como obesidade mórbida, diabetes, autismo, Alzheimer, poderão ser tratadas com estas abordagens. Seu cocô, neste contexto, pode valer ouro.

Por outro lado, conforme o que você fez ou fizeram por você, alterando sua história microbiológica, seu cocô pode não valer porcaria nenhuma.

A CIÊNCIA É PROVISÓRIA, O EXEMPLO DAS MEIAS DE NÁILON E O CÂNCER

Giovani Marino Favero

Professor Associado do Departamento de Biologia Geral da UEPG

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A relação do consumo do cigarro com diferentes tipos de câncer, em especial o de pulmão, é de nosso conhecimento há aproximadamente cem anos, porém foi ignorado ou subvalorizado até o final da década de 1970 do século passado. Uma declaração que demonstrava a má vontade inicial de aceitar que o consumo irrestrito do tabaco estava associado a doenças foi feita por um dos renomados cirurgiões americanos, pioneiro da pneumectomia, a retirada de um dos pulmões, Evarts Graham, de Saint Louis, EUA: “O cigarro faz tão mal assim como o uso de meias de náilon.”

Apenas como contextualização histórica, em 1920 a indústria do cigarro e a de náilon estavam em expansão em seu uso na sociedade americana.

A ideia aqui não é escrever sobre câncer de pulmão e cigarro, e sim sobre a provisoriedade da ciência.

Um bom exemplo é o do consumo de ovo. Minha família sempre foi uma grande consumidora desse alimento, meu avô paterno, num momento de sua vida em que morava sozinho devido ao trabalho, tinha o costume de compactar as cascas de ovos em uma grande lata retangular e quando ela estava cheia ele se sentia orgulhoso pelo feito. Por outro lado, desde pequeno meus pais acompanhavam o noticiário escrito e televisivo que satanizava o alimento, em especial as gemas, como grande vilão do aumento do colesterol. Essas notícias acabaram com as boas gemadas com vinho de minha infância.

A verdade é que sim, a gema tem gordura, e não, não faz mal, obviamente se você consumir em uma quantidade extremamente absurda fará algum tipo de malefício. Em 1999, a escola de Saúde Pública de Harvard avaliou um estudo de 10 anos, com mais de 120 mil homens e mulheres, o consumo do ovo e seus efeitos sobre os níveis de colesterol e constataram que o consumo de 7 a 10 ovos por semana não acarretava nenhum efeito sobre a concentração do colesterol circulante. Um estudo mais recente com acadêmicos de uma universidade inglesa, onde esses estudantes foram submetidos a uma dieta com mais de 4 ovos por dia, mostrou um efeito mais benéfico de uma maneira geral sobre o organismo do que os indivíduos de dieta de controle sem ou com pouco consumo desse alimento.

A ciência está sempre à procura de conhecimento, seja em um simples consumo de ovo ou em agentes nocivos à saúde como em nossos exemplos. Karl Popper, o maior filósofo da ciência no século XX, afirmava sempre que a teoria científica será sempre conjectural e provisória. Não é possível confirmar a veracidade de uma teoria pela simples constatação de que os resultados de uma previsão efetuada com base naquela teoria se verificaram. Essa teoria deverá gozar apenas do estatuto de uma teoria não (ou ainda não) contrariada pelos fatos. Resumidamente em suas palavras: “Se os cientistas acreditassem demais em suas próprias teorias, poderiam parar de procurar a verdade.”

 

FALSA CIÊNCIA É MÁ CONSELHEIRA

O Brasil está vivendo um retorno de doenças que estavam quase extintas. Poliomielite e sarampo passaram a frequentar o noticiário nacional. Casos foram relatados no norte do país, em parte pela chegada maciça de imigrantes venezuelanos. No entanto, chama a atenção os relatos de sarampo ocorridos no Rio de Janeiro, em populações que já deveriam estar imunizadas.

Uma parte disto se deve à falta de ações públicas e dificuldades de oferecer ampla cobertura vacinal num país tão grande, e com enormes variações de renda, hábitos e cultura. Talvez pudéssemos culpar apenas estes fatores como responsáveis pelo ressurgimento de doenças que nossos avós conheceram bem, mas que os pais atuais, e mesmo profissionais de saúde, quase que desconhecem a existência delas.

No entanto, um fator muito intrigante colabora para estas ocorrências. Trata-se de recusa à vacinação.

Esta “moda” surgiu entre pessoas razoavelmente informadas, ou que teriam condições plenas de se informarem, e não está limitada ao Brasil. Por incrível que pareça, a cobertura vacinal nos Estados Unidos da América é pior que no nosso país. Lá existe um forte movimento antivacinal, baseado em falsas crenças e em pseudociência. Infelizmente, algumas famílias passaram a rejeitar a prática à vacinação, por temer complicações do uso destas.

Claro que vacinas oferecem riscos e não podem nem devem ser utilizadas sem indicações e critérios científicos, mas a recusa à vacina implica em riscos muito maiores que não só àqueles que não recebem as vacinas recomendadas na época e com as doses corretas, mas também à população em geral, pois a baixa cobertura vacinal faz com que os vírus, antes quase extintos, passem a ter circulação novamente.

A cada dia que passa, tem-se tornado cada vez mais fácil obter informações a respeito de qualquer assunto através das ferramentas das mídias eletrônicas, porém, grande parte dessas informações não apresenta respaldo científico, mesmo que as notícias nos pareçam lógicas e fundamentadas.

As fake news podem estar em qualquer tipo de assunto, política, esporte, vida dos famosos, ciência e medicina.

As fake news na saúde podem ir desde as “curas milagrosas” para o câncer como para emagrecimentos rápidos e sem esforço. São as informações do uso de produtos naturais para a solução de problemas na saúde ou na estética.

Muitas das falsas notícias não interferem em nossa vida, porém, quando se trata de saúde os cuidados devem ser redobrados.

Informe-se corretamente, use fontes científicas confiáveis e escute seu médico. A falsa ciência é má conselheira e seus ensinamentos podem ser fatais.

 

Gilberto Baroni é Professor do Departamento de Medicina e diretor técnico do Hospital Universitário da UEPG

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A reciclagem e o desenvolvimento sustentável: os caminhos para o futuro

Robson Couto da Silva

Doutorando em Engenharia de Produção pela UTFPR

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Em artigos anteriores foi discutido o mundo dos materiais, onde se falou das propriedades, estrutura e processos de fabricação das principais classes de materiais. Além disso, foi introduzido outro conceito no desenvolvimento de inovações tecnológicas: a sustentabilidade. Com a sustentabilidade, além do desempenho e do caráter econômico, também são considerados os aspectos sociais e ambientais do produto.

Assim, com a crescente escassez de energia e geração de um enorme volume de produtos descartáveis, além de resíduos de processo, uma nova prática passa a ser adotada para se criar uma rota alternativa para os passivos ambientais gerados: o desenvolvimento sustentável. A partir dele, visa-se criar os elementos necessários para o consumo humano sem comprometer ou ao menos minimizando os efeitos para as novas gerações. Dessa forma, agora a preocupação não é somente com a fabricação de um produto, mas também seu destino após o uso e de qual maneira ele será reciclado.

Algumas leis já começaram a se importar com o destino final de resíduos, como a recente proibição do uso de canudos de plástico na cidade do Rio de Janeiro, pretendendo com isso reduzir a presença de materiais plásticos em oceanos. Não há dúvida que a iniciativa no sentido de conscientização e redução de plásticos nas praias locais é válida. Porém, ainda se precisa questionar as melhores soluções em relação à eficiência de tal medida em outras cidades não litorâneas, antes que a regra passe a ser tomada de maneira geral, por três razões principais:

A primeira delas é um estudo publicado na revista Environmental Science & Technology em outubro de 2017. Esse estudo realizado pelo Dr. Christian Schmidt do Departamento de Hidrogeologia do Helmhotz Centre for Environmental Research na Alemanha concluiu, após analisar 1.350 rios, que entre 88 e 95% de todo lixo presente nos oceanos são gerados por apenas 10 rios (8 na Ásia e 2 na África).

Assim as medidas realizadas em outros lugares, apesar de importantes, infelizmente trazem um baixo impacto nesse problema. Mas então, não se deve fazer nada por aqui? É nesse ponto que entramos na segunda razão para questionarmos sobre melhores soluções:

Combate-se o uso de canudos para evitar sua presença nos oceanos, mas como esses canudos chegaram até lá? Pelo descarte inadequado dos resíduos. Ou seja, ao invés de considerar o efeito, não seria mais apropriado o tratamento da causa, proibindo o descarte de lixo de maneira irresponsável como é feito? A proibição do uso é um primeiro passo, mas temos que criar uma cultura de descarte seletivo dos resíduos e analisar maneiras de reciclagem que possam reaproveitar esses passivos de modo apropriado.

A fabricação do aço é um exemplo típico do foco que se pretende abordar: você sabia que para se fabricar uma tonelada de aço é emitida mais do que 1,5 tonelada de gás carbônico na atmosfera? Segundo o Instituto Brasileiro do Aço, somente em nosso país produziu-se mais do que 34 milhões de toneladas de aço em 2017. Porém, apesar disso, adotar-se uma postura de não utilização desse material é algo totalmente impossível dentro de nossa atual realidade. Então, o que deve ser feito?

A resposta para a pergunta também é a terceira razão para a argumentação inicial: ao invés de proibição de uso, a maior solução para nossos problemas ambientais ainda pairam sobre o setor de pesquisa e desenvolvimento sustentável, onde a busca por novos processos de fabricação, energia limpa e renovável, além de novas tecnologias de reutilização de passivos ambientais, são a maior esperança para preservação do nosso ecossistema. O setor de aço acima citado tem feito grandes investimentos para redução na emissão de gases poluentes a partir de melhorias de processo e utilização de outras fontes de energia menos poluentes que o convencional coque de carvão mineral. Outro desenvolvimento sustentável quanto à emissão de gases é a utilização de carros híbridos, a qual apesar de ser uma tecnologia ainda cara, já é uma realidade.

E para o problema do canudo de plástico? Nesse caso, a viabilização do uso de plásticos com propriedades biodegradáveis para fabricação de novos canudos e um desenvolvimento para se tentar reciclar os canudos convencionais seriam os primeiros desafios a serem superados. Consequentemente, ainda se tem muito trabalho pela frente, mas o importante é que os primeiros passos dessa longa caminhada já foram dados.

O que você vai ser quando crescer?

A pergunta acima passa pela cabeça de todos os pais quando veem aquela criança correndo inocentemente pela sala, sem preocupações ou maiores responsabilidades. Passados alguns anos, se inicia uma nova etapa na vida desses agora jovens: a busca por uma profissão.

A resposta a essa pergunta geralmente acontece ao se conseguir um emprego no setor privado, no setor público ou ao abrir o próprio negócio. Todas essas opções possuem variantes positivas e negativas, as quais serão discutidas agora.

Trabalhar como empregado na indústria, no comércio ou em uma prestadora de serviços é a alternativa inicial da grande maioria. Nesse caso, a principal vantagem está no baixo risco da atividade, ou seja, você vende sua força de trabalho e recebe um salário e benefícios em troca. Se existe alta ou baixa nas vendas, se o dólar oscilou, se o equipamento não funciona, são preocupações que atingem os funcionários de maneira indireta. Dessa forma, após a jornada de trabalho pode-se esquecer sua função e partir para outras prioridades. Outra vantagem dessa escolha é que existe a possibilidade de emprego com pouco preparo ou experiência quando comparado com as outras duas opções propostas. Porém, a grande desvantagem está na baixa remuneração e muitas vezes pouca valorização do mercado, pois conforme a competitividade nos setores aumenta e a carga tributária estrangula a todos, mais essa classe é desfavorecida: infelizmente, a redução do quadro de funcionários e menores reajustes nos salários pagos ainda são as principais medidas tomadas em momentos de crise. A possibilidade de melhoria está em especializar-se e com isso fazer com que seu trabalho tenha maior valor. Isso acontece por meio de estudos e também pela experiência adquirida ao longo dos anos de profissão. Assim, apesar de os primeiros anos serem bastante desmotivadores, cabe a cada um procurar seu crescimento pessoal e isso somente vai acontecer a partir de muito esforço e renúncia de muitas horas de lazer.

A busca por concursos para ingressar no setor público é a escolha de outra fatia da nossa população economicamente ativa. A grande vantagem dessa opção está indubitavelmente no alcance da tão sonhada estabilidade. Crises econômicas frequentes e períodos de recessão atingem essa classe de forma menos impactante, visto que não existe a preocupação com o desemprego. Além disso, pode-se ter um melhor planejamento tanto financeiro quanto dos períodos de folga, os quais são geralmente estipulados em calendário prévio. O trabalho no setor público se subdivide principalmente em duas áreas: administração pública e educação. O grande desafio na administração pública se encontra na vasta concorrência existente para os cargos de melhor remuneração, onde não é difícil ter mais do que 100 candidatos por vaga. Dessa forma, para que se consiga aprovação são necessários vários períodos de estudo direcionado e não são raros os chamados “concurseiros”, que abdicam de seus empregos e vida social para se dedicarem à aprovação em tais vagas. Existem concursos menos concorridos, porém, os cargos ofertados não permitem alçar grandes voos profissionais em longo prazo. Já o trabalho em educação é cada vez mais desafiador em nosso país, principalmente para os profissionais do ensino médio e fundamental. O professor convive diariamente com desvalorização, desinteresse de grande parte dos alunos e um sistema de educação que muitas vezes está mais preocupado em gerar indicadores educacionais positivos do que garantir o verdadeiro aprendizado. No ensino superior ainda existe uma melhor condição de trabalho em relação aos demais professores, mas se formos pensar que são esses profissionais os principais responsáveis pelo crescimento da pesquisa e produção científica do país, aí vemos que ainda estamos muito aquém de países com arrecadações inferiores às nossas.

A opção de ser seu próprio chefe é muito atrativa para grande porção da população, onde se pode trabalhar como profissional autônomo ou empresário. Apesar de ser a melhor opção para geração de riquezas, o empreendedorismo em seus primeiros anos traz muitas dificuldades que vão desde a completa dedicação e entrega (não existe final de semana, feriado ou férias) e desafios que passam por inexperiência administrativa, dependência da política econômica, colaboradores capacitados, além de fornecedores e clientes confiáveis. Não se dorme tranquilo sabendo-se da folha de pagamentos, vencimento de contas, baixas nas vendas, investimentos necessários, etc. É claro que muitas vezes temos a visão do empresário como uma pessoa bem-sucedida e com muitos recursos, porém para chegar a esse nível, muitos obstáculos precisaram ser superados, ou seja, no início foi preciso correr o risco de colocar suas economias em um sonho sem saber se amanhã teria condições de cumprir com seus compromissos. Essa aventura é desgastante e às vezes frustrante se pensarmos que a maioria dos empreendimentos são compostos por micro e pequenas empresas das quais mais da metade fecha as portas nos primeiros anos de atividade.

Assim, todas as alternativas vão oferecer satisfação e também limitações. Não existe uma melhor opção, e sim aquela que melhor se adapta a seu perfil, mas o mais importante de tudo é procurar gostar do que se faz, pois somente assim será possível ser um profissional vitorioso e realizado.