Grupo Nanoita
Ex-voto, Esculápio, Hipócrates e a medicina

Giovani Marino Favero

Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UEPG

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Recentemente lendo um livro da década de 1950 do século passado sobre Gigantes da Ciência, me deparei com um afresco sobre os templos de Esculápio na Grécia antiga, em que membros do corpo humano eram pendurados no santuário. Imediatamente me lembrei de uma visita ao Santuário em Aparecida e em algumas igrejas de Salvador onde essa prática é feita até os dias de hoje.

Curioso, como sempre, fui procurar no Dr. Google sobre o assunto. Esses objetos são os Ex-Votos, de acordo com essa definição literária: “Quadro, imagem, inscrição ou órgão de cera ou madeira, etc., que se oferece e se expõe numa igreja ou numa capela em comemoração a um voto ou promessa cumpridos” (FERREIRA apud OLIVEIRA, 2009).

Antes de Hipócrates (460 a.C.) o exercício da medicina estava diretamente ligado aos sacerdotes de Esculápio (700 a.C.), o semideus grego da cura. Segundo a lenda, Esculápio foi um hábil médico que, acreditavam, tinha a capacidade de ressuscitar os mortos. Até aquele momento as doenças eram vistas como a zanga dos deuses com os homens, portanto, a saúde dependia de sacrifícios e oferendas aos deuses. O símbolo da atividade médica, o cajado com uma cobra enrolada, se deve a Esculápio, a lenda conta que em uma visita a um de seus pacientes no templo, uma serpente enrolou-se no cajado, permanecendo nele.

O templo de Esculápio na ilha de Cós, na Grécia, e em outros locais era forrado por ex-votos. E hoje, quase três mil anos depois, essa prática continua viva.

Ainda nessa relação mística com a saúde até Hipócrates, os estudantes de medicina eram obrigados a estudar Astronomia, pois por meio dela determinavam-se as estações e as doenças de cada época. Essa relação de planetas, saúde, futuro e presente era habitual à medicina do período pré-hipocrático.

Pensando bem, se você vê o seu mapa astral, ou faz um ex-voto para o tornozelo curado, fique tranquilo, há um grupo muito grande de pessoas pelo mundo confiantes nas metodologias dos devotos de Esculápio.

 

REFERÊNCIA

 

FERREIRA, A. B. H. Novo Aurélio século XXI. 3. ed. São Paulo: Nova Fronteira, 1999. In: OLIVEIRA, J. C. A. Forma e conteúdo. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v. 1, p. 30-31, n. 1, 2009.

Empatia: o que eu tenho a ver com isso?

Lucimara Maeda

Médica radiologista formada pela Unicamp

Trabalha na Clínica Sabedotti e Hospital Geral da Unimed de Ponta Grossa

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O que aconteceria se você pudesse estar no lugar do outro, ouvir o que o ele ouve, ver o que ele vê, sentir o que ele sente, pensar o que ele pensa? Você o trataria diferente?

Ao longo da minha vida profissional como médica radiologista, deparei-me com inúmeros casos de câncer de mama. Tomada de um forte pensamento acadêmico, no início da minha carreira, ou talvez porque naquela época as pacientes que examinava tinham pelo menos duas décadas de vida a mais que eu, confesso que, muitas vezes, acabei valorizando mais o diagnóstico de câncer do que a paciente que o carregava.

Mas o tempo passa, e a idade também.

Até o dia em que me vi fazendo o diagnóstico de câncer de mama em uma grande amiga. Tínhamos a mesma idade, e ela me ligou pedindo que eu a examinasse, pois tinha percebido um "caroço" em sua mama. A mamografia revelou uma lesão com características muito suspeitas para um tumor maligno. Ao fim do exame de ultrassom, ela me perguntou:

— Meu nódulo é maligno?

Diante de uma pergunta tão franca e direta, não havia como me omitir. A única resposta foi:

— Sim, seu nódulo apresenta características muito suspeitas e teremos que fazer uma biópsia.

Naquele momento, nos abraçamos e choramos juntas. Impossível permanecer indiferente frente a essa situação.

Em menos de duas semanas, ela foi encaminhada ao mastologista. Fizemos a biopsia e tivemos a confirmação do câncer. Resolveram que ela faria a quimioterapia neoadjuvante – quando se faz quimioterapia antes da cirurgia. Na terceira sessão de quimioterapia, seu cabelo já havia caído. Encontramo-nos para um café num domingo frio e chuvoso. Durante o encontro, ela retirou a boina e começou a explicar o quão difícil era se "expor" careca.

Muitas pessoas que estão ao seu redor se afastam, outras lançam sobre você um olhar de piedade. Contou-me que não era fácil usar lenços. Lenços de seda são lindos, mas de tão lisos escorregam por não mais ter o cabelo para segurá-lo. Lenços sintéticos, muitas vezes, são muito ásperos, e acabam incomodando o couro cabeludo, que é tão sensível. Alguns tecidos esquentam tanto que tornam o seu uso insuportável. Ainda, contou-me algo que eu não sabia: durante a quimioterapia, a paciente sente uma fraqueza muscular tão grande que, muitas vezes, não consegue levantar o braço – impossível imaginar que é possível sustentá-lo erguido para amarrar um lenço na cabeça.

Além de médica, sou artesã e adoro costurar. Após o encontro, não saía da minha cabeça a ideia sobre a dificuldade de se usar um lenço. No dia seguinte, fui em busca do tecido ideal e consegui costurar um turbante: fácil de vestir, macio e fresco, mas estava muito longe de ser bonito. Percebi porque o câncer de mama assusta tanto as mulheres. Além do risco de morte, o câncer de mama mexe com a feminilidade, com a vaidade, com a autoestima. Então, além de confortável, macio e fresco, meu lenço teria – também – que ser bonito.

Foram inúmeros os modelos por mim costurados até que me contentasse com o resultado. Amei o resultado: confortável, fácil de vestir, e com duas pontas que, se unidas na lateral, faziam a vez do cabelo que a paciente perdeu. Além disso, permitia diferentes amarrações.

Experimentava cada lenço que eu costurava e a sensação era sempre a mesma: "Se eu estivesse com câncer, eu estaria assim."

A partir dessa história, e de um simples "lenço", pude exercer minha empatia.

Empatia não é piedade nem compaixão. Empatia não é fazer ao outro o que você quer que façam a você. Empatia não é ver os problemas do outro com os nossos olhos.

Empatia é pararmos, por um momento, de sermos nós mesmos e tentarmos enxergar o problema com o olhar do outro.

Exercício físico e câncer: qual sua relação?

Larissa Louise Campanholi

Doutora em Oncologia pela A. C. Camargo Cancer Center

Fisioterapeuta do Instituto Sul Paranaense de Oncologia (ISPON)

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Você sabia que exercício físico ajuda a prevenir o câncer? Um estudo realizado em 2015 em um importante centro de tratamento do câncer de Nova York mostrou que indivíduos saudáveis que fazem exercício físico apresentam uma alteração favorável em numerosos componentes do sistema imunológico e diminuição da inflamação crônica, o que faz com que o organismo fique mais forte para combater células que possam vir a desenvolver um tumor.

Não é novidade para ninguém que todo mundo deve fazer exercícios físicos, mas e para as pessoas que já desenvolveram o câncer? Esta regra é válida também?

A resposta é SIM!

Pacientes em tratamento oncológico ou que já terminaram o tratamento devem fazer exercícios físicos, com exceção no período do pós-operatório recente da retirada do tumor, mas assim que tiverem a liberação do médico, devem retornar a praticar exercícios, mesmo durante a quimioterapia ou radioterapia.

Antes de nos aprofundarmos melhor no assunto, devemos entender a diferença entre atividade física X exercício físico:

  • atividade física engloba qualquer movimento com o corpo que aumente o gasto energético como, por exemplo: atividades domésticas, uma corrida até o ponto de ônibus, um passeio com o cachorro, uma caminhada até o supermercado, etc.
  • exercício físico consiste em movimentos corporais organizados, com determinada duração, intensidade, ritmo e frequência, cujo objetivo é melhorar o condicionamento físico. Exemplo: caminhada diária de intensidade moderada, corrida, natação, musculação, etc. O exercício físico auxilia na redução do percentual de massa gorda, aumento da massa magra e preservação da massa óssea.

Em 2010 foi publicado um Guideline de Exercícios para sobreviventes de câncer do Colégio Americano de Medicina Esportiva, que incentiva a prática de exercícios, visto que historicamente pacientes oncológicos eram desencorajados a se exercitar.

Mais recentemente, em 2018 a Sociedade de Oncologia Clínica da Austrália lançou uma declaração de posicionamento em que confirma que o exercício em pacientes oncológicos é seguro e eficaz e deve ser realizado semanalmente por no mínimo 150 minutos de exercício aeróbico de intensidade moderada, acrescido de 2 ou 3 treinamentos resistidos de intensidade moderada por semana. Ainda ressalta que o exercício deve ser incorporado como parte do tratamento padrão do câncer, assim como outros tratamentos oncológicos (quimioterapia, radioterapia). O exercício físico ajuda a neutralizar os efeitos adversos do câncer e seu tratamento, devendo ser prescrito por fisiologista ou fisioterapeuta com experiência em oncologia.

Uma revisão sistemática e meta-análise de estudos epidemiológicos publicada em 2015 com 123.754 participantes que tiveram câncer de mama, demonstrou que exercício físico pode reduzir em 24% a chance do câncer voltar e diminui a mortalidade em 34%, sendo que há uma relação inversa entre exercício físico e mortes por câncer de mama.

Portanto, exercício faz bem para qualquer pessoa, tanto para prevenir o câncer como para tratá-lo. Se você ainda não se exercita, não deixe para depois. Que tal começar hoje mesmo? Não ache uma desculpa, ache tempo para se exercitar.

 

O N-(fosfonometil)glicina é o dicloro-difenil-tricloroetano de amanhã!

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

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Durante o período da Segunda Guerra Mundial foi criado o dicloro-difenil-tricloroetano, mais conhecido como DDT. De custo barato e acessível, este foi o primeiro pesticida moderno largamente usado durante e após a Segunda Guerra Mundial para eliminar mosquitos transmissores de doenças como malária, tifo, febre amarela e dengue.

Levando 30 anos para se degradar na natureza e, associado aos seus efeitos cumulativos, o DDT causa muitos estragos nas contaminações de solos, lençóis freáticos, eliminação de colmeias de abelhas e na morte de pessoas em virtude do câncer. Por isso a comercialização foi extinta na década de 1970.

Atualmente, o produto recordista de venda é o N-(fosfonometil)glicina, mais conhecido como glifosato.

Identificado em 1950 pelo químico suíço Henri Martin, era produzido pela indústria farmacêutica Cilag e, até a década de 1970, o glifosato também foi utilizado para limpeza de metais.

A partir de 1974, a Monsanto iniciou a comercialização dos herbicidas à base de glifosato na Malásia e no Reino Unido.

Detectou-se que as sementes transgênicas de algodão, milho e soja são resistentes ao glifosato e o herbicida passou a ser usado em larga escala no Brasil a partir de 2005.

A patente do glifosato foi quebrada em 2000 e, atualmente, o glifosato é o princípio ativo de mais de 2 mil produtos. No Brasil, são comercializados por volta de 110 agrotóxicos à base de glifosato.

Em 2015 estudos da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), alertam para um possível desenvolvimento de câncer a partir do glifosato, todavia, a OMS e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) são favoráveis à utilização do glifosato quando a exposição é limitada e controlada.

No ano de 2018 a Bayer incorporou a Monsanto por R$ 248 bilhões e, no mesmo ano, foi condenada nos EUA a pagar R$ 1,1 bilhão ao jardineiro Dewayne Johnson, por ter contraído câncer devido à exposição prolongada ao glifosato e, neste ano, foi condenada novamente à indenização de R$ 315 milhões a Edwin Hardeman, por não alertar sobre os riscos do produto.

Recentemente a Anvisa liberou a utilização do glifosato no Brasil, afirmando que a substância não apresenta características mutagênicas e carcinogênicas.

Em 2017 foram comercializados no Brasil 173 mil toneladas de produtos à base de glifosato.

Um novo estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences realizou estudos da influência do glifosato quando ingerido pelas abelhas. Os resultados foram conclusivos que o microbioma intestinal dos insetos é reduzido, diminuindo a capacidade de combater infecções e que, devido a um parasita, as abelhas morrem, o que não ocorreria se as abelhas não tivessem sido expostas ao glifosato.

Na plantação, este herbicida é aplicado nas folhas de plantas daninhas, impedindo a capacidade da planta de absorver alguns nutrientes. Isto não ocorre nos cultiváveis devido às suas modificações genéticas. O glifosato também pode ser usado como dessecante, uma vez que a soja ainda esteja verde, o herbicida uniformiza a lavoura e permite antecipar a colheita.

Não há dúvida que a produção aumenta exponencialmente com a utilização deste herbicida e que o Brasil é um grande beneficiário destes resultados na balança comercial. Nossa economia é extremamente dependente desses resultados.

Na Europa, o glifosato está liberado até 2022 e a Alemanha já antecipa que irá procurar meios alternativos para extinção do uso deste produto.

Entretanto, precisamos ter em mente que vivemos no mundo dos negócios dominado pelo jogo industrial. Pode ser uma coincidência ou não, mas, justo a Alemanha, que é um dos países de maior industrialização química do mundo? Já existe outro produto para substituir este herbicida atual?

A verdade é que o glifosato é o DDT de amanhã!

Pilha: um produto do bem ou do mal?

 

Thiago Sequinel

Doutor em Química pela UNESP

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Luigi Galvani dissecou uma rã em uma superfície em que se encontrava uma máquina eletrostática e, em 1791, publicou um artigo descrevendo que o contato de dois metais diferentes com a rã dissecada fazia os músculos da coxa do animal sofrerem contrações. Essa foi a “teoria da eletricidade animal”. A rã armazenava energia e os metais eram apenas os condutores.

 Descrente desta teoria, Alessandro Giuseppe Antônio Anastásio Volta repetiu os experimentos utilizando vários metais diferentes. Na combinação desses metais, percebeu que, quando os fios eram do mesmo metal, as contrações não apareciam. Concluiu que não havia passagem de eletricidade. Os metais geravam eletricidade e a rã era o meio de condução da corrente.

Alessandro Volta (1800) criou a primeira pilha conhecida como pilha de Volta, pilha voltaica ou pilha galvânica. Formada por discos intercalados de dois metais diferentes (zinco e prata) e separados por discos de papelão embebidos em uma solução salina possuíam as extremidades ligadas com um fio condutor externo.

Porém, há mais de dois mil anos havia relatos que os iranianos colocavam pequenos tarugos de cobre junto a um bastão de ferro em jarros de argila. Despejavam ácidos nesse sistema, tais como suco de limão ou vinagre. Pilhas são sistemas que utilizam das reações químicas para movimentar os elétrons em um circuito fechado por meio do processo de oxidação e redução (perda e ganho de elétrons nas substâncias) das reações químicas. Já as baterias são uma série de duas ou mais pilhas.

John Frederic Daniell (1836) revolucionou com a criação da pilha de Daniell. Uma folha de zinco imersa em sulfato de zinco dentro de um frasco de barro poroso. Esse frasco era imerso em um pote de cobre com solução de sulfato de cobre. A vida útil terminava quando o cobre preenchia os poros da vasilha. Foi utilizada até 1960.

William Robert Grove (1844) iniciou experimentos para investigar a energia produzida pelas reações químicas envolvidas com uma pilha galvânica com eletrodos em contato com oxigênio e hidrogênio e mais tarde, demonstrou a primeira pilha a combustível, semelhante à pilha de ácido fosfórico dos dias atuais

Gaston Planté (1859) criou a primeira pilha recarregável. Formada por placa de óxido de chumbo e outra de chumbo metálico imersas em ácido sulfúrico, que produz sulfato de chumbo. Esse sistema pesado é utilizado em baterias de carro, nobreaks e iluminações de emergência.

Monsieur Callaud (1860) criou a pilha de gravidade. Uma peça de cobre colocada no fundo de uma jarra de zinco e suspensa abaixo da borda. Espalhavam-se cristais de sulfato de cobre em volta da peça de cobre e a jarra era preenchida com água destilada. Foi uma melhoria da pilha de Daniell.

Georges Leclanché (1866) criou em um cilindro de zinco envolvido por papel poroso, impregnado de manganês em pó e imersos em uma solução de cloreto de amônio e zinco. A pilha de Leclanché foi a precursora da pilha seca.

Carl Gassner (1886) desenvolveu a primeira bateria seca. Uma mistura de cloreto de amônio com gesso criando uma pasta junto do cloreto de zinco.

Waldemar Jungner (1899) conseguiu agrupar uma placa positiva e outra negativa no mesmo recipiente. A placa negativa composta de cádmio metálico e a positiva coberta de hidróxido de níquel, ambas envoltas por uma solução de hidróxido de potássio ficou conhecida como pilha de níquel-cádmio e é a primeira pilha alcalina, utilizada até hoje.

Finalmente, Manley Stanley Whittingham (1970) criou um dispositivo de placa positiva de alumínio contendo óxidos de cobalto e lítio e uma negativa de cobre contendo carbeto de lítio. Essas placas separadas por uma folha porosa plástica embebida por solução de sais de lítio são enroladas em cilindros ou prismas. São as atuais pilhas e baterias de íon lítio.

Não há dúvida que essas invenções mudaram e facilitaram nosso cotidiano, porém, com elas, temos também seríssimos perigos que, para a maioria das pessoas, são ocultos.

Por outro lado, entre as nacionalidades dos inventores citados temos, dentre eles, vários franceses e um alemão. Parece ironia ao discurso ecológico atual!

Mas, voltamos ao assunto. Nas pilhas encontramos os elementos químicos cádmio, mercúrio e chumbo que interferem diretamente no sistema nervoso central, nos pulmões, rins e fígado. Uma vez dentro do organismo, permanecerão lá. O cádmio é cancerígeno, o chumbo pode provocar anemia, debilidade e paralisia parcial, e o mercúrio pode causar o envenenamento crônico, que, dependendo da quantidade, leva ao óbito em poucas semanas. Tem ainda manganês, cobre, níquel, lítio, cromo e zinco.

Com o descarte em lixões ou aterros sanitários todos esses componentes tóxicos são liberados contaminando o solo, os cursos d’água e os lençóis freáticos.

A natureza é sábia e implacável: o preço da falta de consciência chega rápido! Pior que isso, reverte para todos e para nossas futuras gerações.

Por isso, encaminhe as pilhas utilizadas aos postos de coleta e procure utilizar os produtos recarregáveis. Aqui o barato sai muito caro!

 

Microplástico

 

Giovani Marino Favero

Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UEPG

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Talvez você não tenha pensado dessa maneira, mas vivemos a Era do Plástico. Celulares, embalagens, potes, computadores, roupas, olhe ao seu redor e veja quanto de plástico existe.

O que você não sabe é que no ar que respiramos, no sal, na cerveja, em mais de 80% das águas de torneira do mundo estão contaminadas com microplástico.

Essas partículas microscópicas não são visíveis a olho nu e estão em todo o lugar. Estudos apontam que até 2050 o oceano poderá conter mais peso em plástico do que de peixes.

Os microplásticos atuam como captador de Poluentes Orgânicos Persistentes que podem causar disfunções hormonais, imunológicas, neurológicas e reprodutivas, fixando-se no tecido adiposo.

Sugere-se que quem consome frutos do mar regularmente, ingere mais de dez milhões de partículas de microplásticos por ano.

Grande parte das roupas possuem fibras têxteis sintéticas como o poliéster, toda vez que são lavadas em máquinas, o choque mecânico intenso faz com que essas partículas sejam liberadas no esgoto e posteriormente no meio ambiente.

O simples atrito dessas roupas com fibras sintéticas gera e libera no ar os microplásticos. Um recente estudo francês estimou que por ano três toneladas de microplásticos atingem a superfície das cidades.

Outro trabalho realizado na Noruega apontou que o atrito do pneu com o asfalto emite cerca de 20 gramas de microplástico a cada 100 km/ano/pessoa, computando a média rodada anualmente, seria algo em torno de 1 kg de microplástico/pneu/ano/pessoa. Os pneus possuem além da borracha um plástico, o estireno butadieno (SBR).

Some as roupas, pneus, as tintas látex e acrílicas, microesferas de cosméticos, canudinhos, e inúmeros outros objetos que com o atrito emitem essas micropartículas.

A abundância desses compostos gerados chega a um ponto assustador, um exemplo descrito recentemente realizado pelo pesquisador Gregory Wetherbee encontrou fibras plásticas microscópicas coloridas em amostras de chuva recolhidas nas montanhas rochosas americanas.

Então, se conforme, hoje você é feito de carne, osso e plástico.

ISO 56.002

Daiane Maria De Genaro Chiroli

Doutora em Engenharia de Produção pela UFSC

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No cenário econômico mundial o termo inovação vem destacado cada dia mais. Temos a inovação como um dos objetivos de desenvolvimento sustentável e como propulsor da melhoria da produtividade em nosso país, que está muito abaixo da média internacional. Mas, o que efetivamente é inovação? Por que inovar contribui para o desenvolvimento sustentável? E o que é preciso saber para criar a inovação?

Segundo o Manual de Oslo, inovação é um novo produto ou processo, é também entendido como o seu aprimoramento. A inovação pode ser apenas dentro da organização, ou pode ser inovação aberta, onde se buscam ideias e competências externas para aprimorar tecnologias, ou ainda atividades de inovação orientadas ao usuário, ao mercado, à tecnologia e ao design, etc.

Assim, para inovar, não basta que as pessoas desenvolvam ideias sensacionais, é preciso contribuir no processo de criação de valor, numa ação de melhoramento contínuo. As ideias são pontapés iniciais na resolução de problemas reais da organização, e que originam insights inovadores, permitindo melhorias de processos, a mudança de suprimentos/materiais que geram melhores receitas, melhores formas de trabalhar e contribuem para redução de impactos ambientais. E é devido a tantos benefícios que muitas empresas buscam esta inovação. Mas, como inovar se em uma empresa não há abertura para novas ideias e ideais?

Para inovar, o primeiro processo é organizacional, é direcionar comportamentos, é exercer liderança motivadora, em que as pessoas compreendam que elas são parte integrante e necessária do processo. Cultura de inovação consiste no desenvolvimento de pequenas iniciativas, que são constantemente analisadas e dirigidas para a implementação de forma mais eficaz. Numa analogia, a cultura de inovação é como uma horta que precisa ser adubada e constantemente regada, na qual as boas sementes permitirão uma colheita frutífera. Só que se plantarmos inovações ruins, não teremos horta, assim, para ter um bom resultado, se faz necessário gerenciamento.

Para ter uma horta ou pomar, é preciso estabelecer planos de adubação e irrigação. Para ter inovação, é preciso estabelecer um planejamento organizacional sistêmico, alinhado em todas as áreas, a fim de conseguir desenvolver ações de melhorias, é preciso ter cultura, estratégias, processos e impacto. Para ajudar neste processo gerencial, a International Organization for Standartization (ISO) desenvolveu um padrão de inovação, com a norma ISO 56.002:2019 – Gestão da inovação – Sistema de gestão da inovação – Orientação. As normas ISO dão um direcionamento do que uma empresa ou startup deve possuir para obter um modelo de gestão de inovação. Nesta norma, todos os aspectos da gestão da inovação são especificamente abordados, orientando o estabelecimento, a implementação, a manutenção e perspectivas de melhoria organizacional, destinada a ser aplicável a todos os tipos de inovações, de produto, serviço, processo, modelo e método, variando de incremental a radical.

Então, se quer saber como criar uma gestão de inovação, com o documento da ISO 56.002 será possível compreender como agir, a fim de melhorar o potencial da organização, maximizando seu desempenho de maneira estruturada, e com a colaboração de todos.

Oportunizar aos alunos

Guilherme Rodrigo Teitge

Assessor pedagógico da área de Biologia do Centro de Inovação Pedagógica do Colégio Positivo (CIPP) e professor do Ensino Médio nas escolas do grupo

Lucimeire Leduc Peixoto Fedalto

Coordenadora Pedagógica do Ensino Médio do Centro de Inovação Pedagógica do Colégio Positivo (CIPP)

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Por que devo inscrever meu aluno ou minha escola em Olimpíadas do Conhecimento? Esta competitividade instigada pelo processo é saudável? Vale a pena?

Essas são algumas inquietações que podem permear a mente do docente no momento de inscrever o aluno em uma Olimpíada. O fato é que é preciso arriscar. Muitos alunos acabam se revelando e se descobrindo em atividades como essas.

O Colégio Positivo é um incentivador. Nos últimos anos, a participação da instituição vem aumentando significativamente nas mais diversas Olímpiadas do Conhecimento, isso se deve ao fato de a escola acreditar que as mais diferentes Olímpiadas, tais como a de Matemática, Física, Química, Astronomia, Biologia, História, entre outras têm muito a contribuir na formação social e científica dos alunos.

Por quê? Porque as Olimpíadas estimulam os alunos a pensar criticamente e não apenas a replicar o conhecimento adquirido, em sala de aula, na realização de provas ou tarefas. Dessa forma, eles se tornam protagonistas dos seus conhecimentos. Além disso, o estímulo competitivo que esses eventos trazem legitimam o processo, pois desafiam esses estudantes a irem além.

Quanto à estrutura, algumas permitem a participação individual, em uma primeira parte, e depois uma colaborativa. É o caso da de Biologia (OBB), já que ela se efetiva não apenas na realização de provas isoladas, mas também pelo trabalho em grupo. Durante a terceira fase, por exemplo, os alunos passam a produzir em grupos. Isso oportuniza o protagonismo e a habilidade de saber trabalhar coletivamente, afinal é preciso lidar com a diversidade, com a escuta ativa e com a empatia.

Além disso, o trabalho em grupo exigirá a integração das disciplinas, pois as Olimpíadas contemplam, de forma mais enfática, a área de maior conhecimento para aquele processo, porém se apropria de outras áreas na elaboração de questões, hipóteses, experimentos ou simulações de diversas situações. Desse modo, o aluno percebe que os conteúdos são conectados e que o aprendizado não se dá de forma isolada e desconexa.

Outra questão interessante são as discussões trazidas durante o processo, já que são muito mais complexas que as vivenciadas pelos estudantes ao longo do ano letivo. E essa é a surpresa, um novo grau de dificuldade, antes desconhecido por eles, que torna o desafio ainda maior, pois estimula o pensamento crítico e aplicação de conhecimentos na prática, com simulações de casos que podem acontecer no laboratório ou em campo, por exemplo.

Tendo em vista a experiência que temos na participação de nossos alunos nas Olimpíadas do Conhecimento e alguns resultados bastantes significativos, podemos dizer que sim, vale a pena! Vale a pena dar a esse jovem a oportunidade de desenvolver uma habilidade e de, por vezes, sair do anonimato.

Acreditamos que, se o colégio entende o papel dele enquanto formador do senso crítico, social e científico, oportunizar a participação nessas atividades é fundamental.

Pais Olímpicos

Lilian Arai

Médica pela FMUSP

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Ver o filho recebendo uma medalha de ouro em uma olimpíada científica é uma emoção indescritível. Mas o que está por detrás disso?

Existe uma magia que envolve as olimpíadas científicas. O mundo dos olímpicos é fascinante para quem faz parte dele. Só quem vive nesse mundo entende quão viciante, extenuante e excitante é ser aluno olímpico.

É incrível como, em algum momento, nasce uma paixão por estudar. Esses alunos descobrem as olimpíadas ou são descobertos por elas. Aqueles que seguem esse caminho conquistam vagas nas melhores faculdades no Brasil ou mundo afora. Estudar com paixão abre inúmeras portas de oportunidades. No entanto, nem tudo é tão fácil. Aprender exige dedicação e empenho. A medalha representa o prêmio pelo resultado desse esforço. O problema é que, nem sempre, essa medalha chega. Por isso, são muitas medalhas invisíveis nessa trajetória, entendendo como medalha invisível, aquela que só é vista por quem reconhece quanta abnegação e esforço foram necessários, mesmo quando não se obtém as melhores classificações.

Entretanto, essa não é a realidade para a maioria das famílias. É um grande desafio transmitir esses valores aos filhos, dentro do contexto do mundo atual, que dá um valor extremo ao prazer momentâneo. Fotos de viagens, sorrisos, festas e beijos são retratados como sendo a felicidade. Cumpre-se as obrigações da semana apenas para curtir ao máximo os finais de semana e as férias. Vivemos num mundo que valoriza o “espertinho”, mas o nerd é ridicularizado. Os pais se preocupam em dar tudo que não tiveram aos seus filhos, sendo reféns da infantocracia. As crianças não batalham por nada e exigem tudo que querem, sem paciência para esperar.

Por outro lado, existem pais que criam seus filhos para que eles tenham sucesso na vida. Roubam-lhes a infância, preenchendo suas rotinas com aulas e atividades extracurriculares em busca de uma boa preparação para o futuro. Importante ressaltar que, para seu bom desenvolvimento, o que a criança mais precisa é brincar e ser criança. Infelizmente, muitos pais se preocupam mais com a medalha do que com todo o processo envolvido na aprendizagem.

Dessa forma, buscar esse ponto de equilíbrio é o grande segredo. Ensinar que estudar é uma responsabilidade que a própria criança precisa assumir. Se por um lado existem pais que buscam oferecer o mundo embrulhado com um laço de presente, outros exigem resultados e comprometimentos que roubam a magia do mundo infantil.

Vale lembrar que uma caminhada de sucesso no mundo olímpico depende também da relação aluno-família-escola. Escolas que oferecem oportunidades para que seus alunos se despertem para a busca de conhecimento, colocando em evidência os bons alunos para que inspirem os mais novos, conseguem transformar nerds em mitos. Muitos alunos descobrem a paixão por estudar ao serem bem preparados e orientados para conquistarem medalhas em olimpíadas e ao viajar o mundo para representar o Brasil nas olimpíadas internacionais.

 

Nota: “A autora é médica otorrinolaringologista formada pela USP com estágio no Japão e atua em São Paulo (capital) no seu consultório. Possui um casal de filhos, sendo o filho participante de olimpíadas científicas, nas quais ganhou mais de 30 medalhas, dentre elas, as olimpíadas internacionais de Física e Astronomia. Foi aprovado na Caltech, Princeton, Columbia, UC Berkeley, Duke e Poli-USP. Optou em fazer a graduação e mestrado pela Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia, EUA). Atualmente trabalha na Oracle, no Vale do Silício. A filha não participou de olimpíadas. Seus interesses eram mais voltados à patinação artística e voluntariado. Como excelente aluna ingressou na primeira turma de Medicina do Hospital Albert Einstein estando atualmente no 4º ano do curso. A autora é idealizadora de um Grupo no Facebook chamado “Pais Olímpicos” e, idealista no assunto, exerce sua especialidade com foco em distúrbios de aprendizagem, além de orientar aqueles com alto rendimento acadêmico.”

 

Olimpíada Paranaense de Matemática

Diego Mano Otero

Doutor em matemática pela USP

Professor Adjunto da UFPR

Membro da Comissão da Olimpíada Paranaense de Matemática

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É muito recorrente a fala de que a matemática está em todo lugar, porém às vezes é difícil a tarefa de convencer as pessoas de como ela está no nosso cotidiano. Para superar essa barreira os professores de matemática, no dia a dia letivo, trazem problemas interessantes mais perto da realidade aproximando a disciplina dos alunos. De todas as ciências básicas, a matemática possui um ponto que a torna ainda mais estimulante, que é o fato dela ser muito desafiadora por possuir um caráter de abstração absoluta. A recompensa de tais desafios é desvendar a beleza que existe por trás da matemática.

Pensando nos desafios e belezas da disciplina, anualmente organizam-se competições matemáticas nacionais e internacionais para estimular ainda mais os alunos e detectar promissores matemáticos e matemáticas. No Brasil temos a maior competição de matemática do mundo a Olimpíada Brasileira de Matemática de Escolas Públicas (OBMEP), organizada pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), que é uma das referências em pesquisas em matemática no nosso país. A partir do sucesso deste projeto, desenvolveram-se vários outros de treinamentos e competições matemáticas. Desta forma, os professores expandiram um círculo de treinamento e/ou competição matemática tornando mais acessível a participação dos alunos interessados.

Um dos projetos de treinamento desenvolvido pelo IMPA para competições matemáticas é o Programa Olímpico de Treinamento Intensivo (POTI) (http://poti.impa.br/). Este projeto visa preparar os alunos do ensino fundamental e médio para competições matemáticas nacionais e internacionais. Atualmente no estado do Paraná existem seis polos onde é possível fazer o treinamento. Para os professores de qualquer rede de ensino que queiram desenvolver o treinamento entre seus alunos, basta solicitar à coordenação do POTI que sua instituição seja um dos polos voluntários do projeto. Cria-se assim o comprometimento de ministrar aulas semanalmente para os interessados. O programa e a estrutura das aulas já estão todas preparadas e o acesso é totalmente gratuito.

Um exemplo de polo no estado do Paraná onde este projeto mostrou bons resultados é o polo do POTI (http://www.mat.ufpr.br/poti/) vinculado ao Departamento de Matemática na UFPR (DMAT-UFPR). No DMAT o curso é oferecido desde 2016 e tem gerado bons frutos para os alunos que acompanham com seriedade até o final. Em 2016, 14 alunos que cursaram o POTI obtiveram medalhas em competições muito disputadas de matemática no país. Nos anos seguintes, onde a divulgação do curso foi maior, este número aumentou e as conquistas foram 30 alunos medalhistas do POTI em 2017, e 22 alunos medalhistas do POTI em 2018.

Uma extensão deste projeto no DMAT, cujo objetivo é aproximar os alunos da matemática do ensino superior em disciplinas como Teoria de Números, Cálculo, Fundamentos de Geometria e Álgebra Linear, está em fase de teste para incentivar ainda mais os maiores destaques no POTI. Ótimos frutos surgiram desta iniciativa e é um desejo que isso seja ampliado nos próximos anos.

Além de treinamentos desenvolvidos pelo IMPA, anualmente são divulgados editais para desenvolvimento de competições regionais matemáticas. A maior competição regional exclusiva do estado do Paraná é a Olimpíada Paranaense de Matemática (OPRM)  (http://www.mat.ufpr.br/oprm/). Este projeto é vinculado também ao DMAT e trata-se de uma competição matemática voltada para alunos do ensino fundamental (6º ao 9º ano) e do ensino médio para alunos de escolas públicas ou privadas do estado do Paraná, que ocorre anualmente desde 2016. Essa competição cresceu muito desde sua primeira edição que contou com cerca de 1.200 participantes em 2016, e em 2018 este número cresceu 10 dez vezes, cerca de 12.000 participantes. O motivo do crescimento foi a forte divulgação entre as instituições de ensino participantes que viram este projeto como uma oportunidade para motivar ainda mais seus alunos no estudo da matemática.

Isso mostra que estes projetos estão atraindo cada vez mais os professores de colégios e universidades e também os alunos. Para os professores de colégios tais projetos são excelentes para mostrar destaque de seus alunos e de suas instituições de ensino. Isso gera prestígio e incentivo através de competição saudável entre as escolas, que vão aperfeiçoando ainda mais o ensino de matemática para seus alunos. Do ponto de vista dos professores de universidades é um caminho para devolver à sociedade o investimento em educação de qualidade e gratuita no ensino superior, tornando mais acessível e motivadora a matemática aos alunos de ensino básico. E por fim a atração para os alunos é ter um reconhecimento ao se aprofundar em matemática, obtendo destaques e prêmios nas diversas competições que participem, de modo a abrir futuros caminhos à universidade, e inclusive aumentar as chances de bolsas de iniciação científica e pós-graduação.