Grupo Nanoita
Até quando seremos tão complacentes com nós mesmos?

 

Robson Couto da Silva

Doutorando em Engenharia de Produção pela UTFPR

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Um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde informou que em 2018 o número de mortes registradas no trânsito atingiu 1,35 milhão de pessoas. Nosso país, infelizmente, se encontra entre os cinco países recordistas nesse quesito ao lado de Índia, China, Estados Unidos e Rússia. Para se ter uma ideia da magnitude desse dado, o portal do trânsito em um de seus artigos informou que cerca de 60% dos leitos hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS) e 50% das ocupações em centros cirúrgicos são utilizados por vítimas de acidentes de trânsito. Outro número que impressiona é dado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária, onde o custo anual dos acidentes de trânsito em 2016 atingiu a cifra de 52 bilhões de reais.

A gravidade da situação é tão expressiva quanto os problemas que temos em segurança pública. Porém, parece que não damos tanta importância para esses números, visto que as maiores causas dos acidentes ocorrem devido ao excesso de velocidade, embriaguez e uso de celulares enquanto se dirige.

Será que nossa complacência com esse problema não vem do fato de que quase todos nós somos recorrentes em cometer esses crimes e preferimos tratá-los como “pequenas infrações” e que nossos atos nunca causarão danos a ninguém?

Acredito que já passou da hora de refletirmos sobre as consequências de nossa educação no trânsito, pois o que ocorre não está vinculado à desinformação, e sim à imprudência e irresponsabilidade.

Mas, então, não posso tomar a minha cervejinha quando saio? Ora, se você for dirigir, não pode mesmo! Sei que a maioria dos leitores torce o nariz ao ler essa última frase, porém a reeducação de nossos costumes se faz necessária e às vezes demora mais de uma geração para surtir efeito. Recordo-me que a cerca de trinta anos atrás se iniciou uma grande campanha pelo uso de cinto de segurança e em 1997 essa prática se tornou lei. Atualmente já tivemos algum êxito, visto que o uso do cinto é algo natural para os passageiros dos bancos da frente, apesar de ainda ser uma prática ignorada nos bancos traseiros. Da mesma maneira, as pessoas deverão se acostumar que aquele que vai dirigir não poderá consumir bebida alcoólica e caso o faça, que utilize outros meios de transporte. É incômodo para maioria, mas precisa se tornar um hábito.

A naturalidade com que os crimes de trânsito são tratados chega a ser tão estridente que vemos diariamente nos jornais dezenas de casos de acidentes com vítimas fatais e mesmo assim esse assunto é tratado de maneira banal, pois a grande maioria dos infratores prefere enxergar aquilo como mais uma fatalidade do que um crime. Lamentavelmente, essa mentalidade faz com que tenhamos complacência, pois como também podemos cometer tais “deslizes” é melhor tentar fingir que foi um erro que não deve mais ser cometido da próxima vez em vez de constatar que estamos assumindo o risco de causar um grave dano a outrem.

A conclusão final desse texto paira na tentativa de nos colocarmos agora não no lugar de possíveis infratores, mas sim de uma vítima de um acidente de trânsito. Como seria sua complacência se ficasse inválido ou perdesse um filho ou ente querido em virtude da irresponsabilidade de outra pessoa? Pense nisso na próxima vez que pegar a chave do carro, consumir álcool, pisar no acelerador ou utilizar celular enquanto dirige.