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Pequenas histórias da ciência: Helicobacter Pylori, uma descoberta da persistência

Giovani Marino Favero

Doutorado em Alergia e Imunopatologia pela USP

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O homem convive com a gastrite desde os primórdios de sua existência, durante séculos as profundas dores no estômago foram atribuídas ao estresse e à neurose. Os cientistas da Grécia antiga sabiam da relação intensa entre o sistema nervoso e o nosso tubo digestivo. A quantidade de inervação nessa região foi amplamente estudada o que fortaleceu essa ligação entre o cérebro, estômago e intestinos.  Até hoje dispéptico, no popular, ainda refere-se a um irritável e frágil estado psicológico.

            O tratamento da gastrite e úlceras evoluiu absurdamente a partir do início da década de oitenta do século passado, principalmente, devido a duas situações: novos medicamentos e a descoberta da Helicobacter Pylori  pelos médicos australianos Robin Warren e Barry Marshal.

            Warren e Marshal trabalhavam no Royal Hospital de Perth, Austrália, e estavam convencidos que a gastrite poderia ser causada por uma bactéria, fato que na época fez com eles fossem vistos como piada no meio acadêmico. Ao examinar biópsias de pacientes com gastrite sempre encontrava uma camada nebulosa e azulada sobre as crateras ulceradas.

Devido a uma grande dificuldade de isolamento do agente infeccioso Warren era desacreditado, a comunidade era descrente com as bactérias “fantasmas” que sobreviviam em um pH ácido. Marshall coletou amostras e tentou cultivar em placas de Petri, mas nenhuma apareceu. Na microbiologia existe um postulado chamado de Triade de Koch, onde um agente patogênico tem que ser Isolado de um doente, Cultivado e ser capaz de Infectar outro organismo.

Os pesquisadores continuavam a luta na tentativa de provar o que acreditavam, foi quando o acaso interveio. Na páscoa de 1982, com o hospital movimentado, Marshall se esqueceu de examinar as placas com o material extraído de amostras do estômago de pacientes. Quando lembrou, descobriu que havia pérolas minúsculas de colônias bacterianas crescendo no ágar-ágar (um tipo de meio de cultura de bactérias). O longo período de incubação foi essencial. Ao microscópio observou a existência de uma bactéria minúscula, frágil, de crescimento lento com uma cauda helicoidal. Warren e Marshall batizaram de Helicobacter pylori – Hebicobacter, por sua aparência, e pylorus, devido à localização onde foi retirado as amostras no estômago.

Porém havia O Postulado de Koch, acharam, isolaram e cultivaram, faltava a infecção. Tentaram a inoculação em porcos e outros animais que não desenvolveram úlcera.

Em julho de 1984 Barry Marshall fez a experiência definitiva, segue o relato dele:

“No dia seguinte, não tomei café da manhã...Duas horas depois, Neil Noakes, raspou uma placa de cultura bastante inoculada quatro dias antes com H.Pylori e dispersou as bactérias em água alcalina peptonada. Jejuei até as dez horas, quando Neil me entregou uma proveta com duzentos mililitros que continham um quarto do liquido marrom. Bebi-o de um gole, depois jejuei o resto do dia. Ocorreram gorgolejos estomacais. Era a bactéria, ou eu só estava com fome?”

Alguns dias depois, caiu violentamente doente. As biópsias comprovaram uma gastrite ativa. O trabalho foi publicado na forma de artigo em 1984 na revista Medical Journal of Australia. Em 2005 Marshall e Warren foram contemplados com o Prêmio Nobel de Medicina por essa fascinante descoberta.