Guzzo
"Quem é o inimigo", por J.R. Guzzo

Por J.R. Guzzo 

"A única arma contra a peste é a honestidade".

Albert Camus, em A Peste


Eis aí o que mais está faltando ao Brasil destes tempos de epidemia, morte e miséria. Há gestores que não acaba mais - um em cada esquina, do Oiapoque ao Chuí. Há a multiplicação geométrica de palpites que se transformam em decisão de governo. Há autoridades que querem acabar com o vírus produzindo feriados, filas de ônibus ou congestionamentos de trânsito.

Rodízios de carro são feitos, desfeitos e refeitos; a única certeza que deixam é que as autoridades que decidem sobre eles não têm ideia do que estão fazendo. A cada meia hora aparece alguma nova facção obcecada em defender alguma coisa, ou em guerrear contra ela - da cloroquina à proibição da abertura dos armarinhos. Mas a coragem de assumir posições honestas está desaparecida há três meses no Brasil. Nunca foi muito presente. Hoje em dia sumiu de vez.

Entra de tudo neste cozido. O público teve direto, inclusive, à uma declaração realmente extraordinária do ex-presidente Lula, que se juntou à multidão de celebridades com algum manifesto essencial a lançar sobre a covid-19. "Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus", disse Lula.

O lado bom da tragédia, segundo ele, seria o efeito didático do vírus. "Esse monstro está permitindo que os cegos comecem a enxergar que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises", disse Lula. Que solução? Se a covid está provando alguma coisa nesse País, é justamente a incapacidade terminal do Estado em lidar com o problema. Basta olhar para a lista de mortos que cresce desde março - ou o que acontece dentro dos hospitais públicos onde a epidemia é tratada

E a roubalheira, então? A primeira consequência da majestade do "Estado" perante a covid foi a suspensão das licitações públicas para despesas relacionadas com o combate ao vírus; a partir daí, rouba-se com inédita ousadia nos 27 Estados e 5.500 municípios, sem que o Ministério Público incomode realmente ninguém. Mas é nisso mesmo que está a verdadeira alma do atual debate: a realidade que vá para o diabo. A única coisa que interessa é aproveitar o vírus para vender o seu peixe ideológico, político ou financeiro.

A população brasileira precisa, mais do que nunca, de uma trégua; só então se abriria mais espaço para a competência, a eficácia e a seriedade científica no trato da calamidade que está arruinando o País.

Mas nenhuma trégua será possível sem honestidade - mesmo com toda as declarações de bons propósitos como as que foram feitas outro dia pelo presidente da República, os 27 governadores e os presidentes do Senado e da Câmara, em sua reunião virtual através da televisão.

O problema real é que os políticos - e milhões de cidadãos - acham que hoje só existe um tipo de fato: o que confirma as suas próprias opiniões, crenças ou convicções sobre a epidemia. Mas não é assim. Há fatos independentes entre si que convivem ao mesmo tempo; a existência de um não anula a existência de outro. O medo de morrer é um fato que está acima de dúvida. O medo de ficar sem dinheiro para sobreviver é outro, do mesmo tamanho.

Na maioria dos países do mundo há um inimigo comum - o vírus. No Brasil o inimigo é quem defende um ponto de vista diferente do seu. O resultado é essa aberração que está aí, na qual o confinamento deixou de ser um meio para combater a epidemia e se transformou numa meta política que divide o poder público em dois campos opostos. É o ideal para fazer o que estão fazendo: matar cada vez mais gente e, ao mesmo tempo, destruir o País.

"É proibido pensar", por J. R. Guzzo

Por J. R. Guzzo

 

Faz sentido o cidadão brasileiro ser proibido de trabalhar e, ao mesmo tempo, continuar obrigado a pagar impostos, até o último centavo e nem um minuto depois do prazo? É claro que não faz. Mas no Brasil de hoje é cada vez mais perigoso ter a lógica do seu lado - não tente ter razão, porque você será punido. Experimente, a propósito, pedir ao prefeito Bruno Covas que não cobre a parcela de junho do IPTU, porque há dois meses não entra um tostão no seu bolso. Só a ele? Não: a Covas ou a qualquer outro dos 5.000 prefeitos que há por aí. Vão chamar o guarda municipal, dizer "fique em casa" e lhe socar uma multa no lombo.

Há nestes tempos de covid-19 uma quantidade cada vez maior de coisas que não fazem o menor nexo - mas são consideradas perfeitamente normais pelos que mandam nas 27 repúblicas mais ou menos independentes em que o país foi dividido após a decisão do STF de abolir a federação brasileira em nome da saúde pública. A epidemia parece ter tornando ilegal a tarefa de pensar. O resultado é não apenas a destruição do sistema de produção, do trabalho e da vida social, mas da liberdade. Quem não concorda com o pensamento único está errado em princípio. Quando as coisas ficam assim, é inevitável a vitória do disparate.

Sinceramente: você acha possível confiar, de verdade, em figuras como João Dória ou Wilson Witzel? A mesma pergunta poderia ser feita em relação à maioria dos demais governadores, ou aos prefeitos, deputados e senadores. Não é preciso fazer nenhuma pesquisa de Ibope para saber a resposta. Mas o fato é que foi entregue aos políticos o poder de decidir o que é essencial ou não para você. Esqueça o que está escrito na Constituição; são eles que resolvem no momento quais são os seus direitos e quais são suas obrigações. É 100% irracional.

Acaba de ser aprovado na Câmara dos Deputados, com mais de 250 votos, uma lei vinda do Senado que dá ao síndico do prédio o poder de proibir que os moradores façam festas ou recebam amigos em seus apartamentos - ou deixem os convidados usar o estacionamento de visitas.

Nem na Alemanha de Hitler ou na Rússia de Stalin há registro de algo parecido. Leitos são retirados de hospitais públicos e transferidos para "hospitais de campanha" - onde passam a ser explorados por ONGs privadas, que recebem dinheiro do erário para fazer isso. Não se pede comprovação para qualquer coisa que é dita por um militante do "distanciamento social" - o governador Doria, por exemplo, disse que salvou "25.000 vidas" com as medidas que tomou. Fica por isso mesmo.

Passou a valer no Brasil a ideia de que a atividade econômica mata pessoas. O cidadão é proibido de circular de carro, ir à academia de ginástica ou cortar o cabelo no barbeiro, mas permite-se que ônibus e metrôs circulem superlotados. O prefeito Covas ameaça repetidamente os paulistanos com as proibições maciças de um lockdown (tem preguiça, até, de pensar em português) sem fornecer a mais remota demonstração científica de que isso sirva para alguma coisa útil.

Ao contrário: em Nova York, a cidade mais atingida pela epidemia em todo o mundo, mais de 80% das vítimas da covid-19 estavam em casa, cumprindo quarentena, quando foram infectadas. Os políticos que passaram a dar ordens na sua vida são os mesmos que se recusam a suspender os salários do funcionalismo público. Não só isso: acabam dar aumento à polícia do DF, onde um soldado ganha a partir de agora 6.500 reais por mês.

Num país onde o presidente já teve três ministros da Saúde em dois meses e exibe a cada dia sua incapacidade de governar em meio a dificuldades, não poderia haver combinação pior.

Sob medida para tumultuar

Por J. R. Guzzo

É curioso o que está acontecendo hoje no Brasil. A cada dia que passa, o presidente da República faz alguma coisa que parece desenhada sob medida para tumultuar o seu próprio governo, como se tivesse certeza de que o pior desastre que pode lhe acontecer é viver quinze minutos de paz. (Neste momento de confusão extrema, acredite se quiser, conseguiu achar espaço para arrumar uma briga com a sua ministra-secretária da Cultura, a atriz Regina Duarte, cuja relevância no meio das calamidades atuais oscila ao redor do zero. Justo agora? Não poderia ficar para um pouco mais tarde? Não: ninguém aqui vai perder uma oportunidade para sair no braço.) Ao mesmo tempo, as forças que querem tirá-lo de lá antes da hora prevista na Constituição parecem cada vez mais incapazes de armar uma ação coerente, lógica e eficaz para conseguir isso.

   É a velha história da vida política: quando todo mundo diz que “agora não dá mais” e, ao mesmo tempo, não se faz nada de concreto além de falar, é sinal de que ninguém está conseguindo agir no mundo das coisas práticas. Se realmente não “dá mais”, então por que continua dando? Não se trata de falta de vontade – é falta de meios. Como tantas vezes ao longo da História, a questão se resume na inesquecível pergunta de Lenin: “Que fazer?” O Revolucionário Número 1 de todos os tempos sabia muito bem que, sem responder a essa pergunta, o Czar continuaria sentado até hoje no trono da Rússia. Em sua volta, todos faziam os discursos mais devastadores, ano após ano - e continuavam no exílio. Lenin, em vez disso, só pensava em sair do exílio e ir para o governo. Não queria ficar indignado. Queria agir.

   É o que está faltando hoje para as múltiplas camadas de opositores do presidente Jair Bolsonaro: saber com precisão o que devem fazer para ele sair do Palácio do Planalto antes de 1º. de janeiro de 2023, quando acaba o seu mandato legal na presidência. Nada parece funcionar. Havia muita esperança, por exemplo, no depoimento do ex-ministro Sergio Moro no inquérito que apura as circunstâncias de sua demissão. Mas depois de oito horas de declarações, o que realmente sobrou de concreto foi a afirmação de que ele, Moro, nunca disse que Bolsonaro cometeu algum crime nos quinze meses de relacionamento que tiveram no governo. Um ministro do STF proibiu Bolsonaro de nomear um diretor para a Polícia Federal; ele nomeou outro, igual ao primeiro, e ficou por isso mesmo, pois não dá para continuar vetando todos os nomes que o presidente escolher. Esperava-se que o Supremo se unisse para acertar alguma maneira legal de deter ou depor Bolsonaro; mas os ministros não estão de acordo entre si. 

A questão, no fim das contas, não é estabelecer, numa escala de zero a dez, o quanto Bolsonaro é um mau presidente; seus inimigos acham que é onze. A questão é saber quantos dos 513 deputados federais e 81 senadores, exatamente, vão votar a favor de um impeachment – o único caminho disponível para depor o chefe de Estado sem violar a Constituição, coisa que requer força armada e não é possível neste momento no reino das realidades. A “sociedade” não tem voto aí. Ninguém mais, além dos parlamentares, está autorizado a julgar o presidente: ou dois terços dos membros do Congresso concordam em depor o homem, ou ele não sai.

    Para quem não quer mais a situação que está aí, a prioridade talvez devesse ser outra - em vez de ficar tentando tirar Bolsonaro agora, que tal começar a trabalhar de verdade para que ele não seja reeleito? O fato é que vai ser preciso ganhar uma eleição em 2022. Se vierem com candidatos parecidos com os de 2018, vamos continuar na mesma.

Sem defesa

Por J. R. Guzzo

Democracias, para existirem de verdade, têm de merecer a própria existência. Não basta escrever uma Constituição com 250 artigos (e mais de 100 emendas, desde que passou a valer em 1988), e declarar que o Brasil, por exemplo, é uma democracia na qual o poder pertence ao povo. Não basta afirmar que os direitos e deveres do cidadão são estes e mais aqueles, dizer que no Brasil há Três Poderes "separados e harmônicos" e jurar que isso aqui é um "estado de direito". Não basta, em suma, fazer um desenho mostrando como o país deve funcionar.

Uma democracia, para sobreviver, precisa antes de tudo que os cidadãos a defendam - e eles só vão defender o sistema democrático se estiverem convencidos de que há razões claras para fazer isso, ou seja, se julgarem que as instituições merecem realmente ser defendidas. No caso do Brasil, pouca gente acha que essa pasta que está aí merece algum tipo de defesa. Porque haveria de merecer, quando se olha o que os donos da nossa democracia fazem no seu dia a dia? Todo mundo já cansou de ouvir que as "instituições" são uma coisa, e as "pessoas" são outra. Pode até ser assim no mundo das ideias. No mundo das coisas reais não é.

Se a conduta pública e objetiva das pessoas que operam o sistema democrático é um insulto diário ao cidadão, não adianta ler para ele um tratado de ciência política escrito na Sorbonne. O sujeito simplesmente perde o interesse na coisa toda. Quando acha, depois de anos a fio de desapontamento, que não recebe nada de útil da democracia, também não vai dar nada por ela. O Brasil está assim já há um bom tempo. Sempre vão dizer, é claro, que "o povo brasileiro" não permitirá "nenhuma ruptura com as instituições". Mas alguém acha, a sério, que a população irá para a rua defender esses deputados, senadores e ministros do Supremo que estão aí?

O fato, que ninguém gosta de comentar, é que as Forças Armadas, hoje em dia, são a única garantia efetiva que o Congresso, o STF e o resto das instituições têm para permanecerem em funcionamento. Tomara que continuem assim, porque a maioria dos brasileiros, neste lamentável ano de 2020, não daria nem uma volta no quarteirão para salvar a democracia que sustenta com seus impostos. Pelo contrário, quem se dispõe a ir para a praça pública tem feito exatamente o contrário: pede o fechamento de tudo.

Qual a surpresa, aí? Vivemos num país em que 55.000 indivíduos se beneficiam de uma aberração, inédita no mundo, chamada "foro privilegiado" - ou seja, a lei brasileira diz, com todas as letras, que essa gente tem mais direitos que os outros 200 milhões de brasileiros. Não podem, simplesmente, ser julgados perante a Justiça comum pelos crimes que cometem. Um projeto para suprimir esse privilégio está parado há 500 dias na Câmara dos Deputados; não é colocado em votação, simplesmente. A nova lei para o saneamento básico, que permitiria às empresas privadas investirem num setor onde 50% das pessoas não tem esgoto, não vai adiante. Os políticos querem manter as estatais que mandam na área, e continuar pedindo verbas para elas; se o problema for resolvido, as verbas param.

O STF, onde há ministros que conduzem inquéritos criminais secretos, censuram órgãos de imprensa ou absolvem donos de empresas de ônibus que roubam o erário, impõe ao País um estado de insegurança jurídica permanente; está destruindo a possibilidade de se prever o que é certo e o que é errado. O poder executivo manda sua polícia agredir cidadãos, algemar mulheres e prender crianças, com a cumplicidade do legislativo, do Ministério Público e da Justiça, a por aí se vai. Que defesa isso tudo merece?

 

 

Inimigos do presidente

O presidente Jair Bolsonaro não está satisfeito, nem um pouco, com os inimigos que já tem fora do governo; quer guerra, cada vez mais, com os inimigos que imagina estarem dentro. Como não pode demitir os primeiros, sai à caça dos segundos. Lá se foi para o espaço, agora, o ministro Sérgio Moro, o homem mais popular do seu governo e do Brasil. É um choque.

Há muito tempo, é verdade, todo mundo sabe da implicância crescente, das cismas e dos ciúmes mal resolvidos de Bolsonaro em relação a seu ex-ministro da Justiça. Mas, com o passar do tempo e a chegada do coronavírus, parecia que a ideia do "Mata Moro" tinha caído no arquivo morto. Não tinha.

De todas as calamidades que o presidente vem empilhando para si próprio, uma em cima da outra, nada se compara ao que acaba de fazer com o fuzilamento público de Sérgio Moro. Ele vinha sendo nestes últimos 16 meses, bem ou mal, o principal fiador do governo junto à opinião pública; enquanto estivesse lá, nada estaria perdido. Não era o único - um núcleo de ministros competentes tem sido uma espécie de certificado de garantia para a gestão Bolsonaro. Mas o nome presente na mente e no coração do eleitorado, no dia a dia, é Moro.

Bolsonaro dispensa, assim, quase todo o apoio que poderia ter fora do bolsonarismo raiz, das "redes sociais" e da praça pública. Agora é o "eu e a minha turma; vocês vão ter de me engolir".

Detonar o seu principal avalista já seria ruim o suficiente, mas o ato que forçou a saída de Moro - a demissão do diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo - conseguiu jogar mais gasolina na fogueira. O decreto de exoneração publicado no Diário Oficial diz que a demissão de Valeixo foi a pedido. Não foi. Traz o nome de Moro abaixo do de Bolsonaro. Moro disse que não assinou nada. Para completar, as declarações do ministro ao anunciar sua saída foram a pior acusação já feita até agora sobre o caráter destrutivo com que o presidente age no exercício do cargo.

Moro revelou que Bolsonaro estava exigindo dele a demissão de Valeixo porque queria colocar no comando da PF uma pessoa de sua confiança, com quem pudesse despachar pessoalmente, falar ao telefone e pedir relatórios sobre investigações. Para que isso? O presidente pode chamar qualquer dos seus ministros quantas vezes quiser, mas não pode tratar diretamente com um subordinado deles. Se for assim, para o que serve o ministro?

Moro lembrou uma realidade devastadora: imaginem se durante a Lava Jato a então presidente Dilma Rousseff ligasse para o diretor da PF, ou para o superintendente em Curitiba. Não pode - está na cara que não pode. Mas Bolsonaro quer fazer o que Dilma nunca fez. Em matéria de fundo do poço, é realmente o que há.

Bolsonaro, segundo Moro, disse que estava fazendo, sim, uma "interferência política" na PF - ou seja, deu a entender que a partir de agora a polícia não tem de fazer o que é certo, mas o que o presidente manda. As consequências disso são "imprevisíveis", disse Moro.

Ele mesmo confessou ao ex-ministro que estava preocupado com investigações em andamento no Supremo - e que por isso era "oportuna" uma troca na PF. Pior: disse que pretende demitir e nomear superintendentes da PF nos Estados. Citou, especificamente, o caso de Pernambuco. De novo: porque? O que está acontecendo em Pernambuco?

Bolsonaro, em seu discurso de explicações, disse que nada do que Moro conta é bem verdade, e que perdeu a confiança nele; o público vai decidir, a seu tempo, em quem acredita. Nada disso, é claro, melhora a qualidade dos inimigos do presidente. Mas Bolsonaro não precisa deles. Seu problema é sobreviver a si mesmo.

 

"Opção pela vida", por J.R. Guzzo

Por J. R. Guzzo

Ninguém nunca imaginou uma coisa dessas, nem poderia mesmo imaginar, mas aí está: a epidemia trazida pelo coronavírus revelou uma súbita paixão das autoridades, políticos e elites pela solução dos problemas de saúde pública no Brasil. Saúde pública, para encurtar a conversa, significa uma coisa só: doença de pobre. E por que os barões que decidem as coisas neste país iriam se preocupar com dores que não doem neles? Para essa gente, saúde significa planos médicos cinco estrelas, cobertos pelo dinheiro que você paga de impostos, doutores que cobram acima de R$ 1 mil a consulta e transporte de helicóptero para os hospitais mais caros do Brasil. São até capazes, de vez em quando, de fazer algum discurso piedoso sobre o assunto. Mas as suas lágrimas secam bem depressa.

O desprezo pela saúde por parte dos governantes brasileiros é uma questão de fatos que estão acima de dúvida; não pode ser disfarçado por nenhuma devoção repentina "pela vida", como eles descobriram em sua cruzada contra a covid-19. Vamos aos testes práticos. Em pleno ano de 2020, cerca de 50% da população brasileira continua sem ter saneamento básico. A culpa disso não é dos marcianos. É dos que governam o Brasil, em todos os níveis - e de mais ninguém, pois só eles têm a autorização legal para agir na área. Político brasileiro, como se sabe, tem horror a fazer esgoto: é obra que fica embaixo da terra, que ninguém vê e que não rende voto.

O pior é que eles não resolvem e não deixam ninguém resolver. Jaz há mais de um ano no Congresso, sendo pouco a pouco desfigurada, a nova Lei do Saneamento Básico que abre o setor à iniciativa privada. Por que não anda? Porque governadores e prefeitos detestam a ideia - querem manter vivos, pelo máximo de tempo possível, os atuais "contratos" com as estatais que nada fazem para melhorar aqueles horrendos 50%, mas são um dos seus mais queridos cabides de emprego e focos de influência política. A desgraça não é apenas a falta de esgotos. Continuam operando no Brasil cerca de 3 mil "lixões" ao ar livre. Por lei, já deveriam estar fechados há quatro anos; a lei "não pegou". Como acreditar, diante desses monumentos em honra à doença, em qualquer governante brasileiro que agora faz discurso em defesa da "saúde pública"?

São Paulo, a maior cidade do Brasil, é atravessada ao longo de 25 quilômetros por dois dos mais infames esgotos a céu aberto do mundo, o Rio Tietê e o Canal do Pinheiros. Mananciais de água que abastecem o município estão poluídos por favelas que se instalaram às suas margens, há anos, com a cumplicidade direta da Prefeitura. As autoridades não tocam na Cracolândia do centro da cidade, um dos mais violentos focos de tuberculose do Brasil - ao contrário, chegaram a dar mesada para os drogados que vivem ali, e qualquer tentativa de intervir na área é denunciada como ato de "higienização" (a palavra "higiene" tem sentido pejorativo no mundo oficial - a menos quando aconselham as pessoas a lavar as mãos em época de epidemia).

"Opção pela vida"? Na favela de Paraisópolis, para a qual ninguém dá cinco minutos de atenção sincera, há 45.000 pessoas por quilômetro quadrado - em Taboão da Serra, que tem a maior densidade demográfica do Brasil, são 14.000 e na cidade de São Paulo, cerca de 7.500. Como é possível pensar em saúde pública quando os que mandam e influem são indiferentes à uma usina de doenças igual à essa? Como exigir "distanciamento social" num lugar como Paraisópolis?

O Brasil só descobriu que é preciso cuidar da saúde pública quando o coronavírus chegou à classe média e aos ricos. Vai esquecer isso assim que a tragédia passar.

"Pequenos tiranos", por J. R. Guzzo

Por José Roberto Guzzo

Um dos aspectos mais perversos da violência social imposta ao Brasil com o combate à epidemia trazida pelo coronavírus é o assalto aberto contra as liberdades públicas e individuais. É chocante. Na cascata sem fim de decretos, ordens e regras adotadas todos os dias pelas autoridades para enfrentar a doença, há restrições de primeiro grau aos direitos do cidadão - algo compreensível, e na verdade inevitável, diante da ameaça real à saúde púbica e ao interesse comum.

Em grande parte, também, não há nenhuma dúvida sobre as boas intenções, a dedicação e a competência de muitos agentes do governo e de organizações privadas no trabalho que entendem ser o melhor para combater o vírus.

Nenhum problema, aí - são pessoas que assumem as suas responsabilidades na crise e tentam, honestamente, fazer o que podem. O problema é que muita gente em posição de mandar está se aproveitando da oportunidade, com malícia intencional e premeditada, para criar ditaduras pessoais nos pedaços maiores ou menores em que mandam.

Essas pequenas tiranias não vão durar para sempre, é claro - mas serão aproveitadas até o último suspiro pela surpreendente quantidade de ditadores de quintal que apareceu, de uma hora para outra, em todo o território do Brasil. Eles exibem 24 horas por dia o que têm, realmente, dentro de suas almas: uma hostilidade agressiva, rancorosa e ressentida contra os direitos dos cidadãos que governam - e a paixão sem disfarces em mostrar para o mundo que "aqui quem manda sou eu". Você pode ver, o tempo todo, quem são eles.

Estão entre os 27 governadores, 5.500 prefeitos e milhares de fiscais, para não falar em síndicos de prédio e no guarda da esquina, que se descobriram, de um momento para outro, num limbo legal onde não está claro o que podem ou não decidir. É óbvio que tomaram a opção pela ditadura. Cinco minutos depois de verem que a maior parte da Justiça brasileira abandonou o dever de apreciar a legalidade de seus atos, passaram a agir como quem pode decidir tudo.

É perturbador verificar a rapidez com que a mídia, as entidades encarregadas de vigiar se as liberdades do cidadão estão sendo respeitadas e as personalidades que protestam dia e noite contra qualquer arranhão, real ou imaginário, no estado de direito aceitaram a multiplicação de tiranos por este País afora.

Um bandido, ou outro vagabundo qualquer, que apanha da polícia ao ser preso, vira tema de destaque imediato nas manchetes e nos telejornais; o Ministério Público entra em transe e os governadores exigem a apuração imediata e rigorosa da violência policial. Hoje está tudo permitido. Correram o País as cenas da brutalidade com que a Guarda Municipal de Maringá, cidade do interior do Paraná onde se formou o ministro Sérgio Moro, prendeu, agrediu e algemou o dono de um lava-carros que queria trabalhar. Não houve, fora das redes sociais, a mais tímida objeção a esse crime - que se reproduz, com variações, por toda a parte. Em tempos de peste, qualquer prefeitinho vira o Grande Ditador.

O vírus não é o único perigo para o Brasil de hoje. Tão ruim quanto isso é a cumplicidade do Judiciário, dos meios de comunicação, das classes "liberais" e de tanta gente com os tiranos que a covid-19 trouxe à luz. Quem acha certo trocar liberdade por mais segurança não merece nenhuma das duas coisas. Ser livre exige assumir responsabilidades, e não abandonar sua vida à autoridade - ao contrário, a história da liberdade é a história da limitação do poder no governo, nunca do seu aumento. O diabo é que há gente demais com medo de responsabilidades. É o que estamos vendo neste Brasil da epidemia.

"Pequenos tiranos", Por José Roberto Guzzo

Por José Roberto Guzzo

Um dos aspectos mais perversos da violência social imposta ao Brasil com o combate à epidemia trazida pelo coronavírus é o assalto aberto contra as liberdades públicas e individuais. É chocante. Na cascata sem fim de decretos, ordens e regras adotadas todos os dias pelas autoridades para enfrentar a doença, há restrições de primeiro grau aos direitos do cidadão - algo compreensível, e na verdade inevitável, diante da ameaça real à saúde púbica e ao interesse comum.

Em grande parte, também, não há nenhuma dúvida sobre as boas intenções, a dedicação e a competência de muitos agentes do governo e de organizações privadas no trabalho que entendem ser o melhor para combater o vírus.

Nenhum problema, aí - são pessoas que assumem as suas responsabilidades na crise e tentam, honestamente, fazer o que podem. O problema é que muita gente em posição de mandar está se aproveitando da oportunidade, com malícia intencional e premeditada, para criar ditaduras pessoais nos pedaços maiores ou menores em que mandam.

Essas pequenas tiranias não vão durar para sempre, é claro - mas serão aproveitadas até o último suspiro pela surpreendente quantidade de ditadores de quintal que apareceu, de uma hora para outra, em todo o território do Brasil. Eles exibem 24 horas por dia o que têm, realmente, dentro de suas almas: uma hostilidade agressiva, rancorosa e ressentida contra os direitos dos cidadãos que governam - e a paixão sem disfarces em mostrar para o mundo que "aqui quem manda sou eu". Você pode ver, o tempo todo, quem são eles.

Estão entre os 27 governadores, 5.500 prefeitos e milhares de fiscais, para não falar em síndicos de prédio e no guarda da esquina, que se descobriram, de um momento para outro, num limbo legal onde não está claro o que podem ou não decidir. É óbvio que tomaram a opção pela ditadura. Cinco minutos depois de verem que a maior parte da Justiça brasileira abandonou o dever de apreciar a legalidade de seus atos, passaram a agir como quem pode decidir tudo.

É perturbador verificar a rapidez com que a mídia, as entidades encarregadas de vigiar se as liberdades do cidadão estão sendo respeitadas e as personalidades que protestam dia e noite contra qualquer arranhão, real ou imaginário, no estado de direito aceitaram a multiplicação de tiranos por este País afora.

Um bandido, ou outro vagabundo qualquer, que apanha da polícia ao ser preso, vira tema de destaque imediato nas manchetes e nos telejornais; o Ministério Público entra em transe e os governadores exigem a apuração imediata e rigorosa da violência policial. Hoje está tudo permitido. Correram o País as cenas da brutalidade com que a Guarda Municipal de Maringá, cidade do interior do Paraná onde se formou o ministro Sérgio Moro, prendeu, agrediu e algemou o dono de um lava-carros que queria trabalhar. Não houve, fora das redes sociais, a mais tímida objeção a esse crime - que se reproduz, com variações, por toda a parte. Em tempos de peste, qualquer prefeitinho vira o Grande Ditador.

O vírus não é o único perigo para o Brasil de hoje. Tão ruim quanto isso é a cumplicidade do Judiciário, dos meios de comunicação, das classes "liberais" e de tanta gente com os tiranos que a covid-19 trouxe à luz. Quem acha certo trocar liberdade por mais segurança não merece nenhuma das duas coisas. Ser livre exige assumir responsabilidades, e não abandonar sua vida à autoridade - ao contrário, a história da liberdade é a história da limitação do poder no governo, nunca do seu aumento. O diabo é que há gente demais com medo de responsabilidades. É o que estamos vendo neste Brasil da epidemia.

 

Só uma aberração

Por J. R. GUZZO

Que tal parar de fingir só por uns três ou quatro minutos, digamos, o tempo suficiente para ler um artigo como esse, e voltar logo depois à hipocrisia permanente em que vive a política brasileira? Não vai machucar ninguém - e, ao mesmo tempo, talvez ajude o leitor comum a se lembrar que a sua única função nos cálculos, nas estratégias e no palavrório da vida pública nacional é fazer o papel do palhaço.

Francamente: que outra utilidade ele poderia ter, por exemplo, no último grande evento criado no horário nobre do noticiário político? Esse evento, que serviu de tema para análises mais complicadas que um teorema de Pascal sobre os conceitos de pressão e de vazio, é a "aproximação", ou "aliança", etc., entre o governador João Doria e o ex-presidente Lula.

Tudo bem: cada um é livre, por lei, para escolher suas ligações pessoais. É também o responsável por elas. O que não dá é para tratar essa coisa de Doria-Lula como se o passado não existisse - e como se fosse a coisa mais natural do mundo ver os dois de mãos dadas, em nome da súbita necessidade que sentiram de salvar juntos o Brasil. Não é natural. É apenas uma aberração - e aberrações, como ensina a experiência da vida, raramente aparecem para ajudar você.

Para resumir essa ópera, e o papel que reservaram para o cidadão dentro dela: até outro dia, Lula e toda a esquerda brasileira, com o apoio das classes intelectuais e de nove entre dez jornalistas, tratavam a Doria com o respeito que se dá a uma barata. Hoje, subitamente, ele é descrito por essa mesma gente como um homem "de valor". E você? De você, esperam que acredite no que estão dizendo.

Poucos políticos brasileiros foram desprezados pela esquerda com tanta náusea quanto João Doria. Não dá para dizer que não foi bem assim, porque foi exatamente assim - está tudo escrito, filmado e gravado, e não dá mais para apagar.

O rancor explodiu quando ele derrotou Fernando Haddad, o candidato do PT, nas eleições de 2016 para a Prefeitura de São Paulo. Chegou ao ponto máximo em 2018, quando, depois de abandonar seu cargo de prefeito e se ver ameaçado de perder a eleição de governador para um ex-prefeito da simpática cidade de São Vicente, se agarrou no apoio a Jair Bolsonaro com um desespero de quem é capaz de tudo. Criou o truque do "BolsoDoria". Chamou Lula de ladrão abertamente. Prometeu um "Padrão Rota" para o seu governo, no melhor estilo "bandido bom é bandido morto". Graças a Bolsonaro, e só a ele, ganhou a eleição.

Veio, então, o milagre. Assim que não precisou mais de Bolsonaro, virou casaca, assumiu o papel de "homem de oposição" e começou a enxergar-se como a grande esperança do Brasil que tem pavor da "reeleição". Deixou, em cinco minutos, de ser bombardeado com Detefon pela mídia, virou um sujeito sério (tipo Rodrigo Maia, por aí) e agora, vejam só, está lado a lado com Lula. "Virada histórica", chegaram a dizer, porque querem "combater juntos o coronavirus". Como imaginam que alguém acredite num negócio desses?

Doria acha que Lula é um cadáver eleitoral; não será candidato em 2022 e, segundo seus sonhos, passará para ele os votos do PT. Lula, nas suas próprias fantasias, acha que Doria pode ser-lhe útil atraindo os votos da "direita" para o candidato do PT. Uma coisa, nisso tudo, é certa: quem mudou nessa história toda não foi Bolsonaro. Está igualzinho ao que era na sua campanha. É o mesmo sujeito, antes e depois do coronavirus. Tem, hoje, exatamente os mesmos pecados que tinha ontem. Se era o herói de Doria, por que não é mais? E se Doria era o bandido de Lula, e se Lula era bandido de Doria, quem mudou o quê?