Janela Poética dos Campos Gerais
Pés

Na técnica de striptease, o calçado a ser usado precisa ser descomplicado, sem amarras, fivelas ou cadarços. Um sapato modelo escarpim, por exemplo, simples de ser arrancado, seria o mais indicado. Curioso! É para seduzir, enfeitiçar e, ao mesmo tempo, tirar. O que se usa nos pés incrementa a beleza da dança, do rebolado e depois desnuda no ato ensaiado. Parte do corpo, normalmente desprezada, tão pouca atenção recebem os pés, mas que firmemente nos sustentam, movem e servem de guia à cabeça, turista dessa vida. Uma imagem pitoresca e surreal poderia abarcar a cabeça como a grande expectadora e observadora de tudo, mas que não move a si, eterna dependente da boa vontade do conjunto do corpo em ossos e músculos. Em 25 de outubro é comemorado o Dia do Sapateiro, ou seja, aquele profissional, tão raro, que se dedica a confeccionar sapatos. A origem da data remonta aos irmãos Crispim e Crispiniano, na França do século III, que durante o dia pregavam o Cristianismo e à noite trabalhavam no ofício de artesões sapateiros. Durante a perseguição aos cristãos, à época, ambos foram mortos. Muito intrigante a relação possível de se estabelecer entre a vida prática, física e a de natureza espiritual na inspiração para a data, por meio da pregação os irmãos ensinavam um caminho espiritual e como suporte auxiliavam, durante a caminhada, protegendo os pés confeccionando sapatos. Aliás, a profissão de sapateiro é das mais antigas do mundo, existindo praticamente desde que o ser humano passou a sentir necessidade de proteger seus pés de toda sorte de perigos e desconfortos.

Para muitos um símbolo de fetiche, de despertar atração e desejo sexual em tomar o resto do corpo iniciando pelos pés. Nesse raciocínio voltaríamos ao striptease, desnudando e revelando esses serviçais corporais que nos sustentam. Na visão da Antroposofia, filosofia que estuda o desenvolvimento do ser humano ao longo de toda a sua jornada de existência e as interfaces com o mundo espiritual, a cabeça é um monumento ao passado, nela se guardam as memórias, as vivências mais antigas, do próprio indivíduo e de toda a coletividade, praticamente só reflexo, inerte, requerendo um esforço ativo de cada pessoa para iluminá-la por meio de um pensar vivificado. Aos ágeis pés cabe a simpática missão de percorrer o mundo, correr, procurar, desbravar novos locais e modos de vida, donos de uma sabedoria instintiva que sempre indica para onde ir. Porquanto acarinhar e proteger os pés é acarinhar e “abrir alas” positivamente, ao futuro, na simbologia dos pés que sabem o caminho e se lançam destemidos. O andar firme, confiante, postura ereta, remete a alguém bem posicionado e bem encaminhado na vida. Na materialidade que nos acomete em requintes de marketing e propaganda excessivos, há marcas de sapatos estrategicamente relacionadas ao status e ao poder social, outra forma, materialmente distorcida, de associar os pés (sapatos) a um caminhar de sucesso, inda assim corretamente remetendo os pés à ideia do modo de andar na vida.

E eis que a Cinderela, aquela moça graciosa do conto de fadas, é reconhecida pela singularidade na delicadeza dos pés. Arriscaria aqui o palpite da associação dos pés com a qualidade da máxima virtude e refinamento femininos. O que veste nossos pés também é alvo constante da moda, em ditames que, ora denotam firmeza, força, em botas pesadas e de estilo militar ou country, ou ainda sandálias “troianas” que vão ao passado chamar pela força dos grandes guerreiros, ora clamam por malícia e jogo do poder de sedução em saltos altíssimos. A mulher do alto de poderosos saltos sempre como uma sedutora, igualmente, poderosa, pairando sobre o mundo masculino como uma bailarina das nuvens.

A indústria e a produção em série, massificada, já arrebatou para si a confecção e disponibilização de milhares de pares de sapatos, fazendo do velho sapateiro uma figura rara, quase um ser fadado ao passado, como já ocorreu com tantos outros profissionais. No Brasil, até a chegada da corte portuguesa, os sapatos apenas protegiam os pés, passando, a partir desse evento, a sofrerem influência da moda. Os escravos não podiam usar sapatos, contudo, quando alforriados, compravam sapatos como sinal de status. Ironicamente, como não possuíam o hábito do uso, acabavam fazendo deles objeto de decoração da casa ou carregavam nas mãos ou nos ombros. Ainda mais irônico, carregar nas mãos o objeto que deveria carregar os pés. Isso só pode ser obra da cabeça, que presa ao passado, não reconhece quem mais fiel lhe seja. Por certo essa não foi a última peça desse striptease, entretanto, desnudou, mais um pouco, nossos pés e nossa mente.

A simbologia associada aos pés
(Foto: Renata Regis Florisbelo)

 

FACETAS DO FEMININO - Vulnerável

Tinha medo do mar. Olhava para as ondas e temia ter seu corpo arremessado longe, atirado contra os rochedos. À mercê do sabor e do capricho das águas. Quando menino, diziam-lhe que ele tinha que ser forte, jamais esmorecer, demonstrar coragem, irrestrita e sempre. Entretanto, contrário às expectativas, não era assim com tanta segurança que ele se percebia diante na vida. Às vezes, era muito difícil dar passos sem saber ao certo para onde o encaminhariam. De suas próprias escolhas toda a sorte de bifurcações e ramificações em novas e imprevisíveis perspectivas.

 

Olhava para o mar, via ao longe aparente calmaria, um horizonte azul e cinza, mescla delicada entre céu e mar. Por mais grandiosa que fosse a beleza da paisagem, jamais garantiria o retorno seguro. Doce imersão na vida, quem dera fosse! Tinha seus pés na areia da praia, as ondas mais afoitas vinham tentar lhe banhar as pernas e ele, impávido, recuava, fitava ao longe, mais perto do imponderável. Até que num momento abaixou-se, pegou um punhado de areia, segurou com as mãos em concha e avançou. Deixou que a água transbordasse sobre o punhado de grãos, levando-os de suas mãos. O que permanece e o que se vai? O que nunca volta atrás? A tez séria indicava preocupações, não queria tornar-se torrente de lamentações. Foi quando, num rompante de vitalidade e graça, eis que a quebra do marasmo veio rápida e vibrante na forma de uma menina que correu, sorriu e mergulhou na água. Maiô vermelho, não se conteve, foi além da arrebentação e vibrou com as intensas espumas. O homem se desmanchou em sorrisos, contudo a testa recuou e voltou a franzir:

- Priscila, cuidado com as ondas!

A pequena ainda mais sorriu, gargalhou, olhou para ele, sem nenhum resquício de preocupação, e disse:

- Não se preocupe papai, sou peixe que nasceu no mar.

A vida é mesmo misteriosa, qualquer medo se aplaca quando o amor vem brincar.

 

Trança

Ela atravessou a rua. A avenida movimentada no centro da cidade. Não havia sinaleiro, uma faixa simples que não era elevada. Alguns carros paravam generosos e conscientes, outros, completamente a ignoraram. Moça de aparência humilde, sapatilhas nos pés, saia comprida, casaco leve, ainda não chegara o frio em sua lide. Nos braços seu maior relicário, um bebê recém-nascido. Carregava com jeito, com cuidado, com total zelo. Daria sua vida por ele. Aliás, já dera seu corpo, sua alma, seu espírito, que solidariamente se ofertou em nobre tarefa. Sabe, intuitivamente, que a mulher é o veículo que faz a esse mundo vir toda gente.

Nas costas, descia longamente em dorso e ancas uma trança. Cabelo forte, vitalidade vibrante, essa mãe faz do próprio corpo, em pele, entranhas, calor e ventre, o portador e o caminho para que o amor siga em frente, um pedaço do próprio Cristo quando se doou incondicionalmente.

 

Cadeira de balanço

Na realidade a cadeira não balançava. Era uma poltrona confortável e firme o objeto no qual ela se apoiava. Recostava o corpo, a cabeça, observava todos e deixava a mente vagar. Cabelos completamente brancos havia muitos e muitos anos. Possivelmente um dos poucos tempos de descanso desde a época de menina no trabalho pesado da roça, em especial atenção às vacas e às galinhas. Leite tirado, ovos coletados, serviço nunca finalizado. Algumas fêmeas mais furiosas só se deixavam ordenhar pela Alice, tão forte que os animais de maior porte lhe rendiam respeito e submissão, qualquer ser é capaz de reconhecer quando há real dedicação. Da poltrona, no fim da vida, suas memórias lhe visitavam. E como eram gentis em visitas de vizinhos simpáticos, em roupas simples da lida diária, comadres sorridentes oferecendo produtos das suas lavouras, e mesmo as mães por ela auxiliadas mostravam seus filhos que ela, como parteira, ajudara a fazer vir ao mundo. A cadeira, que não balançava, era um reino completo em amplitude de recordações, lembranças completamente acalentadas e ninadas. Já fora uma menina animada, cheia de vitalidade; cresceu, virou mulher, foi mãe que da menina nunca esqueceu, viu netos e bisnetos, uma linhagem percorreu. Assim que faleceu, carinhosamente, foi o filho mais novo que, em prece, sua alma encaminhou. A imagem dela, qual aquarela, luminosa, faz sorrir de forma singela e generosa.

Expressões do feminino (Foto: Cássio Murilo)

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Cambalhotas no coração

Gaivota

Gaivota Angelina

Que voa tão alto

Ao mundo parece querer dizer

Posso ser feliz voando lá em cima

Ou numa pedra apreciando o entardecer”. Dione Navarro

 

Algumas coisas não têm explicação. Aliás, a magia não requer explanação. Não se precisa de teorias, de conceitos, de ciência especulativa quando o coração é que irradia e faz toda a vida adquirir novo sentido e amplidão. Outras tantas coisas são tão somente o que são, mas quando alguém lhes aplica uma outra diretiva e cria possibilidades além das expectativas, eis o que ainda mais nos dignifica. A escritora, farmacêutica bioquímica e docente da UEPG, Dione Navarro, conseguiu, pela segunda vez consecutiva, um feito raramente visto, lotou um auditório durante o lançamento de um livro de sua autoria. Em 2016, a apresentação ao público da obra “Corina Portugal - Súplicas e Respostas” encheu o auditório do Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa. Em 2018, no mês de maio, nova proeza, lotou o auditório maior da sede da OAB Ponta Grossa com adultos e crianças absolutamente embevecidos e enternecidos com o teor do livro infantil “Cambalhotas de versos”, envolvendo poemas da autora e ilustrações de Rute Yume Onnoda.

Sempre me pus a pensar quando e a partir de quais qualidades uma obra literária extrapola as páginas impressas e alcança o valor social. Especialmente se, logo de estreia, arrebanha a participação e o interesse real das pessoas. Assim fez Dione, seu lindo livro de versos para crianças já chegou a esse mundo dando cambalhotas de alegria e provocando a euforia nas crianças e a alegria nos adultos. No evento de lançamento, vários poemas do livro foram interpretados por alunos da rede estadual de ensino com a vibrante participação do boneco “Chiquinho” personagem de autoria da professora Marivete Souta de Moura repleto de tiradas do universo lúdico infantil. A música também fez parte das apresentações e, por fim, o palhaço “Picolé” fez tanta peraltice no palco que os adultos ficaram confusos achando que estavam malucos ou, simplesmente, teriam voltado e ser pimpolhos, pelo estado de diversão alcançada. Daqueles momentos quando a alma se faz pura e pequenina e mais parece sonho de menina. Aos meninos e homens feitos também uma súbita sensação de que a vida voltara ao mais puro estágio da imaginação.

 

Moldura

Hoje quando acordei

A vida resolveu me presentear

Olhei para a moldura da minha janela

Flores amarelas no ipê a desabrochar”. - Dione Navarro

 

A própria autora declarou, sobre sua infância: “Eu era feliz. A maior alegria era quando, uma vez por mês, ganhava, dos meus pais, um livrinho de histórias”, aludindo ao fato de que, no contexto da sua infância, não havia classificação entre ser pobre ou rico, havia sim a felicidade infinita em ser imaginativo. Quando se lê Dione Navarro, bem se vê que ali habita um coração pleno e abundante, alguém que irradia, na própria alquimia, tudo que lhe sensibiliza.

 

Penso no coração que pulsa e na motivação para a vida, sempre, como algo que se compartilha. Se não há amor, se a obra não vem como uma contrapartida do que nutre a vida, não encontra sintonia, tampouco o acalento no peito enternecido do público. O livro traz poemas simples, contudo carregados de profundo significado e metáforas do universo infantil que se harmonizam com os preceitos de qualquer vida. Dione revela um talento arrebatador para assumir a pele de qualquer bicho ou mesmo de seres, em princípio, inanimados, como um chinelo ou um porta-retratos e, por meio deles revelar qualidades e propósitos humanos, despertando e sensibilizando pela essência da criança. Uma vez já chamei a Dione de “mulher medicamento”, muito mais do que isso, ela é uma curandeira, uma bruxa boa, uma fada madrinha, que ensina desde criança a saber honrar cada instante da vida.

 

“No portão

www... quantas viagens fiz pela internet

Em cada barco... uma emoção

Nenhuma delas se compara

À ansiedade de esperar o carteiro no portão”. - Dione Navarro

 

Tal qual esse pequeno poema, igualmente já viajei pelo mundo. Nenhum lugar me trouxe maior revelação de a poesia que nasce do amor universal mais profundo. Corações como o da Dione, pleno em cambalhotas de emoção.

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Quando um livro alcança o coração (Foto: Deise Machado)

 

 

HOMENAGEM A EDMUNDO SCHWAB

Autora: Dione Navarro

Organização: Renata Regis Florisbelo

Ponta Grossa é uma cidade que, através de inúmeros poetas, respira poesia. Em prosa e verso. E dentre muitos que deixaram suas marcas em nossas calçadas, Edmundo Schwab, falecido em 2017, também deixou seu expressivo legado literário. No dia 05 de maio último, tendo por cenário a Biblioteca Pública Municipal Professor Bruno Enei, numa reunião da Academia Ponta-Grossense de Letras e Artes - APLA, muitos escritores e artistas estiveram presentes para prestar um tributo a Edmundo Schwab por meio de sua família, presente no local. As três entidades culturais de Ponta Grossa, APLA, Academia de Letras dos Campos Gerais - ALCG e Centro Cultural Professor Faris Michaele – CCFM, através de seus presidentes Dione Navarro, Luiz Fernando Cheres e Alana Águida Berti, respectivamente, numa homenagem conjunta, passaram às mãos das filhas e neta do homenageado, um diploma de agradecimento pelos relevantes serviços prestados à cultura de nossa cidade. Edmundo, além de sua atuação particular como poeta, colaborou significativamente com as três entidades, sendo integrante da ALCG, e tendo atuado como vice-presidente da APLA e presidente do Centro Cultural Faris Michaele. Num evento onde a emoção esteve em pauta durante toda a tarde, houve algumas apresentações artísticas como a do músico Allefer Rocha, ao violino, declamações de poesias do livro “Contrastes” de Edmundo Schwab, com esmero, conduzidas pela Profª. Maria Helena Costa e suas alunas Julia Gabriel Schenberger e Gabriela R. Luporini. Outros poetas também declamaram poesias de autoria do homenageado, como José de Bortoli Filho, Renata Florisbelo que realizou linda intervenção poética, e Dione Navarro que apresentou uma poesia de sua autoria como reconhecimento ao autor.  Luiz Fernando Cheres ressaltou a rica forma literária de Edmundo e Alana Berti, a importância do autor como esteio para a continuidade do CCFM.  As filhas de Edmundo Eliane e Edna Schwab, sob forte emoção, compartilharam relatos sobre momentos vividos ao lado de seu querido pai. A cerimônia finalizou com a comovente interpretação da música “Gracias a la vida” por Cristina Donasolo e Silvestre Alves, seguida de um coquetel. A reunião contou com a presença de integrantes da APLA, ALCG e CCFM, além de outros convidados.  As fotos registradas sob o olhar de Deise Machado completaram a sutileza de um momento inesquecível. 

Homenagem ao saudoso poeta Edmundo Schwab
Fotos: Deise Machado

 

 

 

19 anos da ALCG em 19 x 3 autores – Parte I

A Academia de Letras dos Campos Gerais - ALCG completa, em 2018, 19 anos. Quase duas décadas de encantamento, de produção textual nos mais variados estilos e, principalmente, de vida, haja vista que a arte nunca é produto isolado de seu autor, mas sim a expressão de uma existência, as motivações, os gostos, o que enternece e desperta os olhos do protagonista ou mero expectador escritor. Trago aqui, em três partes, uma pequena amostra do talento de alguns dos nomes que compõem nossa amada academia.

 

“Ídílio

 

Teus olhos são lindos

Como iguais nunca vi...

Desde que me olhaste,

Eu gosto de ti.

 

No mar desta vida

São farol, teus olhos,

Indicam-me o porto,

Me livram de escolhos.

 

Mas para esta dita,

Nunca se acabar,

Dá-me sempre a graça

Do teu doce olhar.”

Anita Philipovsky

 

“Generaliza-se a respeito do índio, aponta-se o índio como primitivo e brutal, encobrindo-se o formoso mundo espiritual de certas tribos, seguindo os nossos demagogos ‘civilizados’ as trilhas execrandas de outros séculos!”

Faris Antônio Salomão Michaele

 

“Um olhar, uma promessa insinuando leve carinho...

Um palpitar de sentimentos que confortam, envolvem e inebriam.

No palco – em apoteose – a juventude, a elegância e a beleza desfilam

e contracenam com o Senhor Bom Jesus do Monte, cristalizado pelo magistral

espírito de Bento Luis da Costa, entre anjos guardiões de insólitas capelas.

Em tais instantes o Olimpo é aqui, emoldurado pela graça, como aura a

instigar a natureza em seu encantamento, enovelando-se entre aplicações

sutis e delicadas, de cor única, a evocar insistente candura, entretanto

apta a jorrar arco-íris/sete cores.

Extasiado, o poeta desce das nuvens e, ousado, almeja

o mais puro abraço da deusa prometida!”

José Ruiter Cordeiro

 

“Creio que as pessoas devem escrever. Escrever poesias, crônicas, falar de sentimentos, pensar em que gostariam de deixar como conselho ou lição de vida para seus herdeiros, registrar como as pessoas vivem na sua época, como elas veem o mundo, falar do impacto das novas descobertas ou sobre como o passado de seus antecedentes as influenciaram. É a história perpetuada, é a chance de imortalidade que só precisa de disposição para escrever.”Lucia do Valle

 

“Do mar veio para a areia

a estrela jogada ao léu;

olhando-a assim tão alheia

penso que veio do céu.”

Amália Max

 

“Nas lembranças, em cadeia,

a verdade me angustia:

ver luzir a lua cheia

na varanda tão vazia.”

Fernando Vasconcelos

 

“As gralhas daqui semeiam

pinheiros no Paraná;

As aves acolá anseiam,

ter pinheiros como cá!”

Odenir Follador

 

“Cansa o vadio de seguir à toa,

pois derrotar o tempo é jogo insano;

cansa o rei de ostentar, com a coroa,

o tolo emblema do poder humano...”

Edmundo Schwab

 

“Mar revolto de tanta tristeza,

alegrias como ondas se foram.

Ficaram marcas na areia branca,

marcas no branco da vida, crueza.”

Neuza Helena Postiglione Mansani

 

“Canoa sem ninguém

Veio e se foi

Sem mim também.”

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

“Biblioteca

sem uso são

muitos faróis,

porém...

- todos apagados!”

Égdar Zanoni

 

“Amada minha eu quero retratar-te

Assim como és: belíssima... Mais bela

Que tudo que eu consiga na minha arte

Dizer, ou não dizer, por meio dela.”

Gabriel de Paula Machado

 

“Abandonei meus versos dissonantes

Sobre o cascalho agreste das estradas,

Palcos ideais de antigas caminhadas,

No encalço de castelos e gigantes.”

Sérgio Monteiro Zan

 

“Brilho

 

Vindo ao longe

Tal luz infinita

Com calor inebriante

Necessário à vida.

 

Galga os montes

A força implícita

No olhar brilhante

A paz querida.

 

Reluz fulgurante

Durante a caminhada

Mas finalmente o relance

Da reta da chegada.”

Alana Águida Berti

 

“Pinhão é castanha nobre

que só o pinheiro nos dá,

mas que até mesmo o mais pobre

pode ter no Paraná.”

Nylzamira Cunha Bejes

 

“Cheguei à esquina da vida

em busca de direção,

encontrei, então, guarida

dentro do seu coração.”

Antônio Queiroz Barbosa

 

“Viver sozinho é pouco.

Formar um ninho é sozinho.

Estar contigo é um ninho

Olhar o mundo é contigo.”

Renata Regis Florisbelo

 

“Cada vez...

 

Cada vez que me lembro de você

os meus olhos cintilam de alegria,

pois, não há neste mundo, bem se vê,

outro que mais feliz a mim faria.

 

Cada vez que me lembro de você

minha alma sorri e a cada dia

que passa mais amor sinto porque

sempre mais cresce a mútua simpatia...

 

Cada vez que me lembro de você

milhões de estrelas brilham com fulgor

no céu límpido, azul do coração.

 

Cada vez que me lembro de você

meu coração desprende tanto amor

que adquiro genial inspiração!”

Hilda Koller

 

“Lenda da mulher

 

Certo dia uma mulher estava passando pela estrada próxima da localidade de Pedra Grande, quando viu de repente surgir entre os escombros da mata um homem que flutuava no ar. Ele estava vestido de preto e calçava sandálias. Ao vê-lo aproximar-se a mulher perdeu os sentidos. Quando acordou estava na gruta diante do tesouro. Mas não conseguiu tocar em nenhum objeto, pois foi logo advertida e retirada de lá por um índio seminu, que desceu lentamente a rocha e desapareceu na vegetação.”

Isolde Maria Waldmann

 

Organização: Renata Regis Florisbelo

Janela Poética

Conta Camila que a caixa de livros era imensamente aguardada, demorava semanas, talvez meses para chegar. Quando finalmente chegavam, eram recebidos com festa, alegria e alarde!

- Os livros chegaram! A mãe de Camila anunciava.

Camila descreve os exemplares como se estivesse recebendo hoje. Não eram coloridos, capas com desenhos grandes e simples, contudo em traços que faziam os olhos percorrerem ávidos. A cigarra e a formiga era um dos seus favoritos e ela chorava de tristeza: “Como assim, a cigarra não vai receber abrigo no inverno? Mas ela cantou para todos o verão inteiro!” E como chorava pela cigarra abandonada! Aqueles livros se tornaram células de seu corpo que respiravam fora dela, renovando o ar e a vida.

Guilherme fez de tudo para que pudesse frequentar as aulas de flauta, prometeu para a mãe prestar atenção na escola, ajudar no serviço de casa e até parar de provocar as crianças mais novas, pirracento como só ele! Treinou os ouvidos, despertou outros sentidos, os sons da amplidão do mundo faziam para ele novo sentido.

Marina, recém-chegada à adolescência, apresentou gosto pelo teatro, ingressou num curso e no grupo do colégio. Em sua primeira atuação, já interpretou uma Catarina, do par romântico Catarina e Petrúquio, da obra “A Megera Domada”, de Willian Shakespeare, de chamar a atenção pelo carisma e desenvoltura. Passados mais de 30 anos, inda lembro daquela atuação vibrante.

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Sempre alguém pergunta “Para que serve a arte?”, num mundo de contundentes carências básicas, como fome, falta de educação, de segurança, segregação racial, violência. Quem escuta o “Coro Cidade de Ponta Grossa”, em suas apresentações, pode não responder formalmente tal pergunta, entretanto, sente na alma o efeito salutar e sanador da existência desta iniciativa. Conseguiríamos imaginar nosso mundo sem as obras dos grandes mestres da música, da pintura, da arquitetura? Em cada cidade, por menor que seja, um acervo em prosa e poesia, outros textos, música e qualquer forma de expressão cultural que cultive talentos e dons locais. A identidade também se fortalece vigorosamente quando encontra par na manifestação artística. Quem somos, como vivemos, quais são nossos anseios, o que esperamos do porvir? Perguntas naturalmente respondidas ou cujas respostas estão permeadas na cultura produzida. O artista, do mais simples ao mais consagrado, traz para a sua obra uma graduação de vivências e de leituras pessoais, tudo que trespassa, toca e alcança seus sentidos, ampliando a própria sensibilidade como antenas sintonizadas com o contexto atual, ou mesmo valorizando e resgatando práticas de tempos passados, uma porção de conserva do que vale a pena guarnecer. Alguns podem reconhecer e atribuir valor ao que tem reconhecimento mundial, entretanto, como poderíamos valorizar o que tem ampla abrangência sem localizar a contrapartida e o fomento da produção regional? Cada povo, em cada época, fala, e a arte registra essa conversa, por vezes até atemporal. Insisto na propriedade de refinamento dos sentidos, completamente inerente às artes. No conto “A Bela Adormecida”, a madrasta vai até o espelho e faz perguntas. Apenas uma imagem para remeter à metáfora da produção cultural, igualmente, funcionar como um espelho, por meio do qual reconhecemos e questionamos nossa própria existência, tão mais elevado o propósito quando alça e tange a esfera espiritual, nisso os grandes mestres mereceram o título pela maestria. Imersos em contextos peculiares conforme a época vivida, sempre, infelizmente, também houve estímulos ao processo autômato, a viver de forma mecanizada, pasteurizada, sem haurir dos sentidos o devido produto do refinamento. Novamente, o alento, o conforto e a esperança nos surgem em forma das artes, que lancem poderosos estímulos à reflexão, ao encantamento e à sensibilização. Em qualquer época, que se faça insculpir nossa identidade mais refinada pelo produto da observação, com os melhores olhos, a tudo que nos cerca e que surge.

Esta janela se abre, a partir de hoje, como um espaço sagrado, um mirante, um nicho aconchegante, em pleno Campos Gerais Paranaenses, de onde olhar para o mundo de forma contemplativa e vivificante é a tônica. Convido a todos para de assentarem por aqui e compartilharmos juntos esta “Janela Poética dos Campos Gerais”, um mergulho na amplidão. Camila, Guilherme e Marina, por certo, inda hoje têm olhos despertos para o que encanta, vitaliza e reanima.

A janela da casa na qual morou a escritora Anita Philipovsky
Autoria da foto: Luísa Cristina dos Santos Fontes