Janela Poética dos Campos Gerais
DENTRO DA CABEÇA

Convidada que fui pela querida confreira e amiga Renata para apresentar este seu 13° filho, fiquei muito lisonjeada e ao mesmo tempo apreensiva com encargo de tal magnitude. 
Apresentar uma obra já é por si uma grande responsabilidade, mas apresentar um livro de uma amiga-irmã, escritora das mais atuantes e com tantas palavras carregadas em significados, extrapola qualquer pretensão. 
Um carinho natural e instantâneo ocorreu quando do nos conhecemos, na nossa posse na Academia de Letras dos Campos Gerais, no dia 31 de março de 2014. De lá para cá, a admiração pela pessoa e pela escrevente só aumentou, dia a dia.
 E como foi gratificante e construtivo trabalharmos juntas nas diversas atividades as quais desenvolvemos em nome da Cultura, seja em nome da Academia de Letras dos Campos Gerais, seja pelo Centro Cultural Professor Faris Michaele, do qual ela foi minha Vice-Presidente, muito colaborando no desenvolvimento dos projetos. 
Além do que, não posso me furtar a mencionar a extrema generosidade da pessoa Renata, quando aceita a participação de tantos quantos queiram participar de suas iniciativas, como, por exemplo, no Dia da Poesia, em que usa o espaço público para disseminar a palavra poetizada.

      DENTRO DA CABEÇA provoca a imaginação, o sonho, a criatividade, a diferença e o respeito pela diferença, pelo eu único e exclusivo que mora em cada indivíduo. Desde que ouvi o título deste livro, quando da divulgação do concurso para selecionar textos com este tema, o meu imaginário imediatamente começou a se manifestar. O que vai pela minha cabeça? Como peneirar o que vale ser levado em consideração do que deve ser relegado? O que vai dentro da cabeça das pessoas com as quais convivo? Até onde esses mundos se encontram, se tangenciam ou se repelem?
      E agora, com o contato físico com o DENTRO DA CABEÇA, confirmo a diversidade de assuntos que viajam pelas cabeças do mundo. Diversidade esta que nos transportam a outros lugares, outros mundos, outros pensamentos.


É um fio condutor ilimitado, que possibilita viagens mil. Justamente por sentir este reclame, fiz uma imensa viagem literária interior, que passo a compartilhar a seguir.
DENTO DA CABEÇA, de modo sensível, revela sentimentos ligados a objetos, coisas e situações aparentemente inertes (casa, sombrinha, rua, paredes, espelho, capacete e tantas outras) e nos fazem refletir como esses objetos/coisas/situações transbordam significados e experiências que complementam e efetivamente (res)significam nossa existência. Não é (super)valorizar esses elementos, mas antes dar a eles um lugar de importância imaterial, de valor existencial que reflete uma vida para além da própria matéria e sua finalidade prática de servir a humanidade.
É sentir o porto seguro de que precisamos, quando tomamos consciência dos molhes sempre ali (texto n. 3, Molhes) como também o sentimento de impotência que algumas vezes nos assalta: Já que não posso esmurrar a quem gostaria (Tijolo) e fui eu que andei um tanto sem rumo, com o fio do prumo desalinhado (Caixa de passagem e Emboscada).
A vida se nos apresenta de vários modos, às vezes colorida e outras vezes cinza e preta; deste modo os pensamentos também podem ter matizes variados (Capacete laranja). E nos mostra que tamanho e/ou força não são referenciais exatos, radicais (Guaiquica). Tudo é relativo. 
O pensamento, que sempre me causou curiosidade, começa aqui e vai até lá, pula para acolá, e quando nos damos conta, esquecemos onde ele teve início e nos faz forçar a mente a refletir o caminho percorrido, pois a cabeça é generosa na fertilidade dos pensamentos (Lavanderia), estimulando passeios por lugares que a cabeça nos leva, mesmo com o corpo não saindo do lugar (Bicicleta). Mais generosa a cabeça se apresenta, ao propiciar conversas tardias, com pessoas que não mais conosco convivem, pelos mais diversos motivos (Consultório) como também dá asas ao pensamento, que literalmente voa quando estamos desenvolvendo algum trabalho mecânico, que não exige uma atenção mais concentrada (Costas).
A mente humana efetivamente é única e instigante, pois é capaz de criar um mosaico de possibilidades ao tentar resolver um conflito ou um problema (Grades) e possibilita remexer em memórias escondidas, dadas como esquecidas ou eliminadas, quando em contato com fotografias antigas (Dentro da cabeça).
E assim viajei por esta obra, sentindo um suave momento quando a mente silencia, e nem rastro fica de pensamento (Tirania); pensamento que algumas vezes segue e persegue, se enrola em fio contínuo sem que o problema em si se resolva (Assombração), mas, por outro lado, cada fala/pensamento pode ser colocada(o) dentro da cabeça cada um em um lugar próprio, qual as repartições de uma marmita, para serem utilizados na momento em que sejam buscados e necessários (Marmita).
Poderia aqui, discorrer muito mais e cada texto em particular, pois cada um deles permitiu a mim uma experiência singular, que conduziu meu pensamento a outras paragens literárias, poéticas. Estimulou minha imaginação, cutucou meu coração com vara curta, proporcionou uma imersão dentro de muitas cabeças. 
Mas deixo aos leitores o convite de permitir-se empreender esta viagem individual, que poderá tomar rumos impensáveis de acordo com o momento em que esses pequenos grandes textos sejam lidos. Vejo-os como um oceano sem fim, onde as cores de suas águas se apresentam de acordo com a nuance do céu do momento, que reflete a si próprio nessas águas infinitas.
E lanço um desafio dentro da cabeça de cada leitor: o que é o tempo DENTRO DA CABEÇA tão díspare da realidade?

 

    
 

Leveza

Por vezes, as costas parecem não aguentar, ombros ameaçam perecer, quando a vida faz esmorecer. O peso que o peso tem e atribui ao transcorrer dos anos como ninguém. É quando tudo pode mudar, um pouco da brisa que sopra de leve e permite os medos atenuar, aos desassossegos aplacar. Basta respirar, deixar o coração suavizar como a onda, doce vaga que balança no mar. Que o alento destes haicais arrefeça os maus ânimos, soprando-lhes como um vento refrescante, bem devagar. Às vezes, o peso do mundo parece se abater implacavelmente sobre nós, derradeiro momento no qual a voz do acalento e da calma interior precisa expressar seu valor.

Leveza
Balança não alcança
a certeza.

Alma leve
Quem anseia
que carregue.

Costas e ombros
A vida sobrepujou
os escombros

Lamparina
Leve lusco-fusco
ensina.

Sabor da brisa
No alento marinho
suaviza.

Coração aflito
Esquece e remete
ao amor abrigo.

Confiança
Feito alma branda
de criança.

Anseio
Chuta o balde
do receio.

Alegria
Bons pensamentos
de noite e de dia.

Saudade
Boa lembrança
invade. 

Doce de colher
O coração está servido
do bem-me-quer.

Brincadeira de criança
Sabedoria vem da fantasia
que acalenta a lembrança.

Bicho de estimação
No pelo do gato
suave sensação.

Travesseiro amigo
Do despertador atrevido
protege os ouvidos.

Água de rio
Suave corredeira
abranda o estio.

Sono reparador
Sonha e acompanha
o pensamento a favor.

Suavidade
Leveza e delicadeza
em qualquer idade.

Poesia
Aplaca a tormenta
do dia a dia.

Doce sorriso
Peito refeito
no gesto amigo.

Candura
Coração guardião
da doçura. 

Vento
Sopra e assopra
o pensamento.

Alma leve
Perfume ao vento
se assemelhe.

Boa disposição
O sorriso amigo
afronta a aflição.

Janela
Bons ventos
passam por ela.

Lamparina
Chama do fogo conclama
sua porção dançarina.

Sombra da árvore
Descanso sob o remanso
que me invade.

Vazio
Por certo está repleto
de alento anil.

Passarinho
Carrega no bico
o gosto do ninho.

Flor do campo
Em cada pétala
um encanto.

Leveza
Mostrou-se à vida
em ágil destreza. 

Bons ventos
Afluem e socorrem
dos maus intentos.

Jardim de inverno
Primavera, verão e outono
seguem por perto.

Melodia
Notas distintas
em harmonia.

Pinheiro
Na altivez a solidez
por inteiro.

Beijo de amor
Gesto modesto
que gera calor.

Alto da colina
Esperança alcança
a vontade divina.

Saúde
O corpo é um templo
em plenitude.

Brisa do mar
Alento discreto
vive a soprar.

Céu noturno
Estrelas são centelhas
em brilho divino.

Calçada
Pedra após pedra
até a morada.

Autoria: Renata Regis Florisbelo


 

As borboletas do Raul

Um movimento, um gesto, a um só encantamento tudo o que é manifesto. A delicadeza da vida em pequenas imagens, o olhar sincrônico do artista que capta e revela em cores cada momento único. O fotógrafo Raul Lagos, mago do movimento, nos presenteia com sua sequência de borboleta em pousos sobre flores. Poderia o artista não ter visto, poderia não ter se encantado. Felizmente viu, afortunadamente registrou e com asas em forma de lentes nos presenteou. Enquanto cada minúsculo acontecimento na natureza for revelado mostrando seu viço e vigor, assim também a vida ganhará corpo, graça e valor. 

Foto: Raul Lagos 

Uma, duas borboletas?
Uma não, parecem um milhão
em múltiplas facetas.

Lente invasiva
Invade ou eterniza?
O olhar mimetiza.

Flor lilás
Se eu fosse borboleta,
dela, iria atrás.

Pouso sútil
Delicadas planam as asas
em universo anil.

Asas para que te quero!
Em pétalas carnudas
te espero.

Toque sútil
Borboleta em flor
espargiu.

Sonho de amor
Borboleta replica
a cada flor.

Pálpebras
Abrem e fecham
feito asas. 

Jardim
Quisera a quimera
morar em mim.


Autoria: Renata Regis Florisbelo