Janela Poética dos Campos Gerais
Ação Poética do Dia da Mulher

Em 2014, nasceu a Ação Poética do Dia da Mulher, uma iniciativa que visa homenagear as mulheres em seu dia e divulgar os autores da região dos Campos Gerais. A cada ano, no dia 8 de março, escolhemos um local, de preferência com grande circulação de pessoas, e abordamos as mulheres, oferecendo-lhes flores e poemas. A divulgação prévia inclui o convite aos autores para que interajam junto ao grupo, apresentando seu trabalho. Trazemos também poemas de autores de outras épocas, lembrando que a linguagem da poesia perpassa o tempo e o espaço. Ao longo das várias edições, recebemos relatos comovidos de mulheres que nunca antes haviam recebido flores. A Ação Poética, em suas seis edições anteriores, foi realizada em diversos espaços: Estação Saudade, Parque Ambiental, Terminal Central de Ponta Grossa, Rodoviária de Ponta Grossa, Praça Barão de Guaraúna e UEPG. Em cada ambiente, um charme e um público diferente fazendo os versos e a poesia se espargirem pela cidade.


 

 


Autoria: Renata Regis Florisbelo

As bruxas da noite

A bruxa é a mulher intuitiva, aquela sensível ao mundo que a cerca e aos próprios sentidos, de percepção aguçada, sentimentos e sentidos aflorados. Em várias culturas e arquétipos, a bruxa não é uma mulher má, longe de ser um atributo para o qual se pondere uma qualificação moral, mas sim que exprime a atitude sensível com o mundo que a rodeia. Na Idade Média, no afã da insanidade religiosa, antes disso, por conveniência política, muitas mulheres foram atiradas à fogueira, rotuladas do que conhecemos, hoje, por sensibilidade aguçada e não de atuação deliberada a favor do mal. Pejorativamente o termo ficou, desenterrado vez em quando e utilizado a fim de denegrir ou atingir alguém.

 

Lançada em 2018 pela Adriano Salani Editore, na Itália, e em 2019, no Brasil, pela Editora Pensamento-Cultrix, a obra “As bruxas da noite”, da escritora e jornalista italiana Ritanna Armeni, traz a história do Regimento Aéreo Feminino Russo que atuou durante a Segunda Guerra Mundial. Com imensa riqueza de detalhes, ao mesmo tempo em que impressiona pelo desconhecimento do público em geral, a história, independente do contexto trágico da guerra, comove pela rudeza dos enfrentamentos e pela grandeza de alma que as protagonistas demonstram.

 

“Irina pega uma coberta e se deita debaixo das asas de um avião. Larissa lhe oferece um pequeno travesseiro. Alguém bordou nele miosótis com linha azul. Coloca-o debaixo da cabeça e adormece no mesmo instante”. Ritanna Armeni.

 

Meninas. O que se observa na narrativa são jovens mulheres, a maioria estudantes ainda solteiras, atendendo ao apelo de convocação para atuação na guerra a favor de seu país. Não julgo, e nem a autora, quanto às razões ou ao posicionamento na guerra, interessa apenas o fato histórico e incomum de um grupo, um regimento inteiro formado exclusivamente por mulheres. Boa parte do sucesso desta iniciativa deve-se ao mito Marina Raskova, uma bela jovem russa, destinada pela família a tornar-se uma cantora lírica que, entretanto, decide estudar química e acaba por ser admitida no Laboratório da Academia da Força Aérea Russa, tornando-se também piloto. Segundo a jornalista, é a Marina quem convence Stalin a autorizar o regimento feminino ante as crescentes demandas da guerra e escassez de homens.

 

“Marina é jovem, é mulher, mas é competente. É que lhe dizem ao final do curso com um esplêndido buquê (...)” Ritanna Armeni.

 

Insisto na riqueza de imagens que um livro é capaz de provocar, despertar e mesmo atiçar. Não é possível aquilatar o valor intangível em construir, a partir da própria identidade, as imagens oferecidas por meio da narrativa, em tempos de poluição visual, de excesso de virtualidade, jogos, filmes a nos infectar com suas cenas preconcebidas e idealizadas. Enquanto permanecia lendo e sorvendo das palavras do texto e construindo absolutamente e por completo as cenas que meu conteúdo pessoal pode abarcar, tanto mais recebia o impulso de compreensão de um mundo diferente, de uma realidade completamente fora da minha vida, entretanto, com a qual infinitas pequenas afinidades encontrei. Magia, loucura, bruxaria (elas são bruxas!)? Não, apenas sintonia com as mesmas qualidades emocionais que nos permeiam.

 

Na trama real, a simplicidade nos comove com gestos simples, contudo carregados de dor no desapego: “O comando ordena que as futuras pilotas cortem os cabelos imediatamente. As belas tranças que trazem nas costas, cruzadas na cabeça ou enroladas na nuca não são adequadas aos gorros militares, à guerra, aos aviões, às batalhas; não se conciliam com suas novas tarefas.” Ritanna Armeni.

 

Os surpreendentes detalhes reais na obra foram possíveis porque a autora teve contato e realizou inúmeras conversas e entrevistas com a última das bruxas ainda viva: Irina Rakobolskaja, que atuou como vice-comandante do regimento e à época do contato com a Ritanna estava com 96 anos, total lucidez e memória invejáveis. Apesar da firmeza nas descrições da Irina, evitando afãs sentimentais, pequenas marcas impregnadas na alma feminina surpreendem: “Gastei 11 rubros em um creme. Para que, afinal? Só para me lembrar de que sou uma mulher...” Ritanna Armeni.

“As bruxas estão acostumadas a voar com os temporais. Sabem muito bem que não há escolha: entre a tempestade e os tanques da Wehrmacht, vence a primeira.” Ritanna Armeni.

 

O espírito de colaboração, mesmo em situações tão extremadas, se fez presente e não somente as pilotos, mas todo o conjunto do regimento, composto ainda por mecânicas e armeiras, atuava de forma sincrônica, colaborativa e extremamente funcional. “À noite, preparavam e revisavam os aviões antes da decolagem e, durante o dia, consertavam as avarias. Podem dormir apenas algumas horas, quando é possível, enroladas em uma coberta perto do aeroplano.” Ritanna Armeni.

Apesar dos rigores extremos da guerra, os atributos e a sensibilidade feminina não se deixaram sucumbir, ao contrário, tornaram-se mais presentes, amparando e fazendo uma contrapartida às rudezas impostas: “Naqueles momentos terríveis em que se sabia que o perigo era grande, quando a tensão era tanta que ninguém conseguia fechar os olhos, nem mesmo nas horas em que isso era possível, todo o regimento bordava.” Ritanna Armeni.

 

O apelido “Bruxas da noite” surgiu atribuído pelos alemães, quando, admirados, descobriram que aqueles aviões Polikarpov que atacavam somente à noite, de modo sutil e disciplinado, eram pilotados exclusivamente por mulheres.

 

Novamente e sempre o exemplo. Dentre elas, uma piloto em especial era o exemplo, Zhenya  tornou-se o símbolo do regimento: “Todas ficavam encantadas com sua indistinta indiferença à fealdade e ao mal; com o amálgama profundo entre competência, disciplina, abnegação e o mundo fantástico das estrelas e dos astros, no qual continuava a viver, com a convivência, no mesmo caráter, de um espírito romântico e poético e um patriotismo férreo.” Ritanna Armeni.

 

“As bruxas viviam à noite, quando subiam em seus aviões e começavam a voar.” Ritanna Armeni.

 

 

 

Autoria: Renata Regos Florisbelo

 

Provisoriedade

A provisoriedade nos acomete, insiste em se fazer presente, em nos revelar a todo instante o quanto tudo é fugaz. A própria vida se esvai, às vezes, de modo completamente inadvertido. As emoções e os pensamentos humanos como grandes sentinelas, testemunhas e algozes da efemeridade das coisas. O amor, uma das maiores vítimas dos efeitos da passagem do tempo, das circunstâncias, dos momentos, novamente, da volúpia dos afãs sentimentais, ora permeando corações tocados pela audácia em se expressar, ora pela falácia em menosprezar. Os laços entre pessoas, vitalizados por sentimentos nobres e verdadeiros, também acabam por se fortalecer pela ação do tempo.

 

“Provisório é o humano. Sendo, pois, o heroísmo um atributo humano, já vem marcado pela provisoriedade.” Etel Frota.

 

Na premissa da provisoriedade, a escritora Etel Frota empresta seu talento à obra “O herói provisório”, publicada pela Travessa dos Editores em 2017. O contexto se desenvolve no inspirador cenário da Ilha do Mel e de Paranaguá, valorizando belos cartões postais do Paraná e do Brasil. Etel toma por base os fatos reais que envolveram o Episódio Cormoran, ocorrido em 1850, incluindo o agente principal dos acontecimentos históricos, o Tenente Joaquim Ferreira Barboza. O enredo do livro não tem a pretensão de ser uma reprodução dos acontecimentos de natureza militar, entretanto, mergulha no contexto da época e dos fatos reais e é tão feliz na construção da dinâmica emocional e das ações dos integrantes da trama que cada motivo, cada argumento, poderiam perfeitamente ter sido vivenciados. Ironicamente, o contraponto da provisoriedade pode emergir permeado pela atemporalidade.

 

“De certa forma, é disto também, das relações indeléveis, que trata esta narrativa.” Etel Frota.

 

Personalidades distintas, personagens cheios de diferentes e particulares emoções e que conferem, por vezes infectam, a dinâmica das relações com suas motivações e anseios, como a doce escrava Ignácia, personagem que mais parece um arquétipo feminino da beleza, da graça, da leveza e da generosidade, além da amorosa abnegação, nos tempos de hoje parece ter concedido um pouco de si às mulheres do mundo. E quem não carrega e zela por causa ou propósito qual uma criança em seu colo? A Ignácia carrega.

 

Retratando uma sociedade brasileira há mais de 150 anos, é possível reconhecer angústias e temores que ainda hoje nos remetem do conforto ao desassossego na inquietude da alma humana.

 

“Contemplativa e silenciosamente, tratava de economizar o corpo do movimento que invariavelmente lhe trazia, como consequência, culpa, remorso e um inexplicável medo da morte”. Etel Frota.

 

Não consigo imaginar a simples leitura de um livro, qualquer que seja, sem um impacto ao leitor, um choque de realidade ou simples percepção de outros cenários, situações ou demandas ou ainda despretensioso contato de diferentes pensamentos, motivações e anseios. A verdadeira vida não nos possibilita permanecer insensíveis a ela.

 

“- Que Deus me permita esquecer os gritos dos companheiros feridos deixados para trás nos reveses.

Desde que voltara à ilha, o cheiro do mar vinha se mostrando capaz de tirar das suas narinas - por curtos períodos de tempo - o cheiro da morte que lhe fazia companhia há tantos anos.” Etel Frota.

 

Para a maioria de nós que nunca viveu situação de tão estremado rigor, quanto este apresentado no livro, o contato com a sombra da morte, do desespero, do flagelo humano, de que outro modo poderíamos nos tornar empáticos ao sentimento se não por meio da literatura? Não nos é permitido passar por este mundo sem aprender com ele, sem apreender dele o que se tem obrigação de compreender, no mínimo, se solidarizar e internalizar.

 

A leitura de obras desta natureza, aquilatadas pela qualidade real em trazer fragmentos de vidas possíveis e factíveis, sempre me intriga pelo dom abnegado do autor, arregimenta seu talento, oferece seu ímpeto criativo maior, além de pesquisas e consultas inúmeras para ambientação do contexto, ao livro, este sim tornado a causa que lhe abarca os recursos.

 

“Era sua função, essa, de ser carne para o fogo inimigo, a tempo de que o destacamento se salvasse e se reorganizasse, caso o terreno não estivesse propício ao avanço. O medo que sentia nesses primeiros combates o fez, intuitivamente, se aproximar e se interessar pelo funcionamento dos canhões - a artilharia avançava mais resguardada.” Etel Frota.

 

No rol dos assombros que interagem com a ideia da provisoriedade, tão presente nesta obra da Etel, perpassa a mão invisível do destino, o toque do inesperado que vem, não se sabe de onde, e alicerça vidas, interfere, determina, enquanto a cabeça rumina sem nunca, ao certo, entender.

 

“E assim meu amigo, sentei praça e passei vinte e três anos lutando em uma guerra que mal compreendia. Nem pai militar, nem patriotismo, muito menos espírito de aventura. Eu estava lá, quieto no meu canto, veio o destino e traçou uma estrada na minha frente, eu segui esse caminho e pronto, aqui estamos.” Etel Frota.

 

A nossa vida segue repleta de passagens intrigantes ou tão banais que podem se chocar e se confrontar com as reflexões deste herói provisório, posto que igualmente nos assola a provisoriedade.

 

“Quando se chega de uma guerra, as pessoas que não estavam lá, que só ficaram sabendo dos feitos, dos acontecidos, quando vêm falar sobre o assunto o fazem como se as vitórias e derrotas não tivessem tido cheiro, sons, dores. Cada batalha que se ganha ou que se perde é um pedaço de si próprio que se larga para trás.” Etel Frota.

 

Usando-se da voz de um poeta quase moribundo, a autora lança mão falas ácidas e cheias de verdades disfarçadas no afã do recorrente excesso de álcool do seu emissor.

 

“A boca do poeta é a fogueira onde os cidadãos de bem jogam a lenha das suas inconsistências e sopram.” Etel Frota.

 

A provisoriedade também permite um mergulho na vida alheia com bons olhos, com benevolência, com gesto de quem anseia se redimir, perdoar a si mesmo por ser tão infalivelmente provisório. Obrigada, Etel, quando de nossa conversa em 2018, não poderia imaginar o teor perene da provisoriedade de tua obra em minha vida.

 

“Em silêncio, sentar-se-á, na soleira da cozinha, tendo por testemunhas apenas as galinhas criadas no quintal. Sorverá, aos pequenos goles, sua sopa. Depois, de olhos fechados, raspará até o fundo, entre suspiros de prazer, o pote de ambrosia.” Etel Frota.

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Autoria: Renata Regis Florisbelo

Museu do Treze

Os Campos Gerais foram presenteados, em 2018, com um novo espaço cultural, o Museu do Treze, ou ainda Espaço Cultural Marechal Tristão de Alencar Araripe. Inaugurado em junho de 2018, o museu conta com um rico acervo temático de objetos e documentos do 13º Batalhão de Infantaria Blindado (BIB), entidade criada em 1923, desde o início instalada na Avenida General Carlos Cavalcanti, no Bairro Uvaranas, em Ponta Grossa. A feliz e oportuna organização do material, que contou com o empenho e dedicação pessoal do Sargento Edson Lopes, apresenta os objetos dispostos em assuntos específicos, tais como comunicação, uniformes, armamento, participação feminina, além da impressionante linha de tempo com a evolução das armas. Durante o tour pelo museu, o visitante pode experimentar uma alegria real em constatar que parte de nossa história se encontra primorosamente preservada e aberta à visitação ao público. Notável exemplo e generosidade.

 

 

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

 

Mergulho fotográfico

No finalzinho de dezembro, pude contemplar uma exposição fotográfica de rara sensibilidade de olhar. O jornalista e fotógrafo Alberto Cesar Russi, o Betinho Russi, passou a registrar, despretensiosamente, as belas cenas com as quais era presenteado durante suas caminhadas no trajeto compreendido entre a Baía Afonso Wippel e o Canal da Barra de Itajaí, na cidade de Itajaí, SC. Betinho também compartilha, diariamente, com os internautas, suas fotos nas redes sociais. O trajeto, apesar de curto, permite rica possibilidade de registros por meio dos variados nuances do céu e da dinâmica das embarcações que circulam pelo local. A poesia revela-se presente de modo brilhante na mostra deste artista, apresentada no Sandri Palace Hotel, uma prova de que a arte está a serviço do refinamento dos sentidos. Em especial as águas, elemento recorrente nas imagens captadas pelo fotógrafo, remetem às emoções que nos pertencem, provocam e arrebatam.

 

 

 

 

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

 

 

A Obra – Parte II

Renata Regis Florisbelo

Olho para o futuro do trabalho e vejo uma missão que se revela. Uma tarefa compreendida, aceita livremente e assumida com compromisso.

Como pode o ser humano elevar-se sem a prática consciente do trabalho? Dos olhos que se encantam pela missão, tarefa diária. Das mãos que se tornam hábeis em praticar. Da alma que se refina ao empregar em seu ser a boa vontade, ao impregnar neste mesmo ser a capacidade. De habilitar-se em ser provedor de soluções. Das demandas do mundo saber atender.

Em cada trabalho, atribuição, uma miniatura de uma faceta do mundo a ser resgatada em atuação humana. Somente o ser humano é capaz de curar e de ensinar a si mesmo a capacitar-se. A liberdade total apregoada não existe, apenas o exercício da livre escolha, que anseia converter-se em liberdade.

Quando alguém se capacita, cria no emocional compartilhado por todos o embrião da aprendizagem, um germe, uma semente ainda em estado microscópico, um óvulo a ser fecundado. Vida e obra fundem-se, interligando-se para sempre.

O que nos contos de fada e fábulas víamos expressar simbolizando reis e rainhas, em nossos tempos, transformou-se em capacidade de converter-se em reis e rainhas pelo exercício do trabalho. Soberania e magnitude na própria alma lapidadas. Aqueles que simplesmente atendem às demandas de seu trabalho de forma autômata serão eternamente identificados como escravos. Reis e rainhas cuidam de todos, organizam e preparam o futuro de forma visionária. Mas essa soberania não é hereditária, é conquista galgada individualmente, a serviço de todas as outras individualidades.

 

“Que missão essa: encaixar vozes, dar-lhes volume, convergi-las para a afinação e por fim deixar que um belo som seja apresentado ao mundo. Reflito: se uma voz alcança a primazia na técnica em afinação e beleza, por certo o portador desta também se transforma, tornando-se melhor”.  Mércia – Notas a entoar.

 

“A foice curvada, ferramenta difícil de manusear, exige precisão e coragem de apontar para o que se quer e desferir-lhe o golpe certo. Quem tem coragem de empunhar uma foice fazendo deitar o capim ao chão, não tem medo de nada. Irina era pessoa forte e determinada, na mente a precisão que ocupava a ponta da foice. Colher os frutos da terra”. Irina – Tamancos da roça.

Num único livro muitas vidas que se fazem honrar.

 

Filosofia Natural

Em 20 de novembro de 2015, a obra “Filosofia Natural”, de minha autoria, era lançada em Ponta Grossa, pela Editora Estúdio Texto, sob o selo da Série Humanar. O conteúdo apresenta setenta e duas afirmações e seus complementos distribuídos em temas tratados como “chaves”, sendo: ser humano, vida, tempo, ideias, contemplação, ação, verdade e amor. As questões pertinentes às chaves são desenvolvidas não com respostas fechadas ou conceitos conclusivos, mas com reflexões que ampliam o campo de visão e o ponto de vista de percepção sobre estes mesmos temas. Como “Filosofia Natural” entendo o olhar sobre a vida buscando compreensão. O mundo em seus acontecimentos permite leitura, pois se trata de sabedoria revelada diariamente. Esta leitura está disponível a todos, bastando a boa vontade e a admiração pela grandeza dos momentos em cada pequeno evento dos quais tomamos parte ou que nos margeiam. A proposta também é de compartilhar este olhar, distribuindo um pouco dele para aqueles que compactuam com ele ou carecem dele, demonstrando interesse em desenvolvê-lo. As chaves são ilustradas por fotos de autoria de Nelson Real Junior.

 

 

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

 

 

 

 

DENTRO DA CABEÇA

Convidada que fui pela querida confreira e amiga Renata para apresentar este seu 13° filho, fiquei muito lisonjeada e ao mesmo tempo apreensiva com encargo de tal magnitude. 
Apresentar uma obra já é por si uma grande responsabilidade, mas apresentar um livro de uma amiga-irmã, escritora das mais atuantes e com tantas palavras carregadas em significados, extrapola qualquer pretensão. 
Um carinho natural e instantâneo ocorreu quando do nos conhecemos, na nossa posse na Academia de Letras dos Campos Gerais, no dia 31 de março de 2014. De lá para cá, a admiração pela pessoa e pela escrevente só aumentou, dia a dia.
 E como foi gratificante e construtivo trabalharmos juntas nas diversas atividades as quais desenvolvemos em nome da Cultura, seja em nome da Academia de Letras dos Campos Gerais, seja pelo Centro Cultural Professor Faris Michaele, do qual ela foi minha Vice-Presidente, muito colaborando no desenvolvimento dos projetos. 
Além do que, não posso me furtar a mencionar a extrema generosidade da pessoa Renata, quando aceita a participação de tantos quantos queiram participar de suas iniciativas, como, por exemplo, no Dia da Poesia, em que usa o espaço público para disseminar a palavra poetizada.

      DENTRO DA CABEÇA provoca a imaginação, o sonho, a criatividade, a diferença e o respeito pela diferença, pelo eu único e exclusivo que mora em cada indivíduo. Desde que ouvi o título deste livro, quando da divulgação do concurso para selecionar textos com este tema, o meu imaginário imediatamente começou a se manifestar. O que vai pela minha cabeça? Como peneirar o que vale ser levado em consideração do que deve ser relegado? O que vai dentro da cabeça das pessoas com as quais convivo? Até onde esses mundos se encontram, se tangenciam ou se repelem?
      E agora, com o contato físico com o DENTRO DA CABEÇA, confirmo a diversidade de assuntos que viajam pelas cabeças do mundo. Diversidade esta que nos transportam a outros lugares, outros mundos, outros pensamentos.


É um fio condutor ilimitado, que possibilita viagens mil. Justamente por sentir este reclame, fiz uma imensa viagem literária interior, que passo a compartilhar a seguir.
DENTO DA CABEÇA, de modo sensível, revela sentimentos ligados a objetos, coisas e situações aparentemente inertes (casa, sombrinha, rua, paredes, espelho, capacete e tantas outras) e nos fazem refletir como esses objetos/coisas/situações transbordam significados e experiências que complementam e efetivamente (res)significam nossa existência. Não é (super)valorizar esses elementos, mas antes dar a eles um lugar de importância imaterial, de valor existencial que reflete uma vida para além da própria matéria e sua finalidade prática de servir a humanidade.
É sentir o porto seguro de que precisamos, quando tomamos consciência dos molhes sempre ali (texto n. 3, Molhes) como também o sentimento de impotência que algumas vezes nos assalta: Já que não posso esmurrar a quem gostaria (Tijolo) e fui eu que andei um tanto sem rumo, com o fio do prumo desalinhado (Caixa de passagem e Emboscada).
A vida se nos apresenta de vários modos, às vezes colorida e outras vezes cinza e preta; deste modo os pensamentos também podem ter matizes variados (Capacete laranja). E nos mostra que tamanho e/ou força não são referenciais exatos, radicais (Guaiquica). Tudo é relativo. 
O pensamento, que sempre me causou curiosidade, começa aqui e vai até lá, pula para acolá, e quando nos damos conta, esquecemos onde ele teve início e nos faz forçar a mente a refletir o caminho percorrido, pois a cabeça é generosa na fertilidade dos pensamentos (Lavanderia), estimulando passeios por lugares que a cabeça nos leva, mesmo com o corpo não saindo do lugar (Bicicleta). Mais generosa a cabeça se apresenta, ao propiciar conversas tardias, com pessoas que não mais conosco convivem, pelos mais diversos motivos (Consultório) como também dá asas ao pensamento, que literalmente voa quando estamos desenvolvendo algum trabalho mecânico, que não exige uma atenção mais concentrada (Costas).
A mente humana efetivamente é única e instigante, pois é capaz de criar um mosaico de possibilidades ao tentar resolver um conflito ou um problema (Grades) e possibilita remexer em memórias escondidas, dadas como esquecidas ou eliminadas, quando em contato com fotografias antigas (Dentro da cabeça).
E assim viajei por esta obra, sentindo um suave momento quando a mente silencia, e nem rastro fica de pensamento (Tirania); pensamento que algumas vezes segue e persegue, se enrola em fio contínuo sem que o problema em si se resolva (Assombração), mas, por outro lado, cada fala/pensamento pode ser colocada(o) dentro da cabeça cada um em um lugar próprio, qual as repartições de uma marmita, para serem utilizados na momento em que sejam buscados e necessários (Marmita).
Poderia aqui, discorrer muito mais e cada texto em particular, pois cada um deles permitiu a mim uma experiência singular, que conduziu meu pensamento a outras paragens literárias, poéticas. Estimulou minha imaginação, cutucou meu coração com vara curta, proporcionou uma imersão dentro de muitas cabeças. 
Mas deixo aos leitores o convite de permitir-se empreender esta viagem individual, que poderá tomar rumos impensáveis de acordo com o momento em que esses pequenos grandes textos sejam lidos. Vejo-os como um oceano sem fim, onde as cores de suas águas se apresentam de acordo com a nuance do céu do momento, que reflete a si próprio nessas águas infinitas.
E lanço um desafio dentro da cabeça de cada leitor: o que é o tempo DENTRO DA CABEÇA tão díspare da realidade?

 

    
 

Leveza

Por vezes, as costas parecem não aguentar, ombros ameaçam perecer, quando a vida faz esmorecer. O peso que o peso tem e atribui ao transcorrer dos anos como ninguém. É quando tudo pode mudar, um pouco da brisa que sopra de leve e permite os medos atenuar, aos desassossegos aplacar. Basta respirar, deixar o coração suavizar como a onda, doce vaga que balança no mar. Que o alento destes haicais arrefeça os maus ânimos, soprando-lhes como um vento refrescante, bem devagar. Às vezes, o peso do mundo parece se abater implacavelmente sobre nós, derradeiro momento no qual a voz do acalento e da calma interior precisa expressar seu valor.

Leveza
Balança não alcança
a certeza.

Alma leve
Quem anseia
que carregue.

Costas e ombros
A vida sobrepujou
os escombros

Lamparina
Leve lusco-fusco
ensina.

Sabor da brisa
No alento marinho
suaviza.

Coração aflito
Esquece e remete
ao amor abrigo.

Confiança
Feito alma branda
de criança.

Anseio
Chuta o balde
do receio.

Alegria
Bons pensamentos
de noite e de dia.

Saudade
Boa lembrança
invade. 

Doce de colher
O coração está servido
do bem-me-quer.

Brincadeira de criança
Sabedoria vem da fantasia
que acalenta a lembrança.

Bicho de estimação
No pelo do gato
suave sensação.

Travesseiro amigo
Do despertador atrevido
protege os ouvidos.

Água de rio
Suave corredeira
abranda o estio.

Sono reparador
Sonha e acompanha
o pensamento a favor.

Suavidade
Leveza e delicadeza
em qualquer idade.

Poesia
Aplaca a tormenta
do dia a dia.

Doce sorriso
Peito refeito
no gesto amigo.

Candura
Coração guardião
da doçura. 

Vento
Sopra e assopra
o pensamento.

Alma leve
Perfume ao vento
se assemelhe.

Boa disposição
O sorriso amigo
afronta a aflição.

Janela
Bons ventos
passam por ela.

Lamparina
Chama do fogo conclama
sua porção dançarina.

Sombra da árvore
Descanso sob o remanso
que me invade.

Vazio
Por certo está repleto
de alento anil.

Passarinho
Carrega no bico
o gosto do ninho.

Flor do campo
Em cada pétala
um encanto.

Leveza
Mostrou-se à vida
em ágil destreza. 

Bons ventos
Afluem e socorrem
dos maus intentos.

Jardim de inverno
Primavera, verão e outono
seguem por perto.

Melodia
Notas distintas
em harmonia.

Pinheiro
Na altivez a solidez
por inteiro.

Beijo de amor
Gesto modesto
que gera calor.

Alto da colina
Esperança alcança
a vontade divina.

Saúde
O corpo é um templo
em plenitude.

Brisa do mar
Alento discreto
vive a soprar.

Céu noturno
Estrelas são centelhas
em brilho divino.

Calçada
Pedra após pedra
até a morada.

Autoria: Renata Regis Florisbelo


 

As borboletas do Raul

Um movimento, um gesto, a um só encantamento tudo o que é manifesto. A delicadeza da vida em pequenas imagens, o olhar sincrônico do artista que capta e revela em cores cada momento único. O fotógrafo Raul Lagos, mago do movimento, nos presenteia com sua sequência de borboleta em pousos sobre flores. Poderia o artista não ter visto, poderia não ter se encantado. Felizmente viu, afortunadamente registrou e com asas em forma de lentes nos presenteou. Enquanto cada minúsculo acontecimento na natureza for revelado mostrando seu viço e vigor, assim também a vida ganhará corpo, graça e valor. 

Foto: Raul Lagos 

Uma, duas borboletas?
Uma não, parecem um milhão
em múltiplas facetas.

Lente invasiva
Invade ou eterniza?
O olhar mimetiza.

Flor lilás
Se eu fosse borboleta,
dela, iria atrás.

Pouso sútil
Delicadas planam as asas
em universo anil.

Asas para que te quero!
Em pétalas carnudas
te espero.

Toque sútil
Borboleta em flor
espargiu.

Sonho de amor
Borboleta replica
a cada flor.

Pálpebras
Abrem e fecham
feito asas. 

Jardim
Quisera a quimera
morar em mim.


Autoria: Renata Regis Florisbelo