Janela Poética dos Campos Gerais
Livre escolha

Tempos de lidar com escolhas, com o exercício de estabelecer e assumir os próprios critérios e seguir, mediante eles, em todas as decisões. Cada dia mais o ser humano adquire novas facetas de individualização e treina, ininterruptamente, sua individualidade, determinando claro posicionamento a respeito de cada assunto. Em tudo, desde a mera escolha de um cardápio, um hábito, esporte, até as mais excelsas esferas filosóficas que determinam o propósito de vida. Em tempos remotos, já fomos muito mais massa de manipulação do que somos hoje, crassa falta de liberdade e de maturidade para livre arbítrio e decisão. Os faraós, os césares, os antigos sacerdotes decidiam por nós. Qual crianças pequenas incapazes de gerir a si mesmos já fomos assim, um amontoado de qualidades em potencial num ser frágil, inseguro e incompleto para uma decisão pessoal. Gosto da imagem que algumas linhagens espirituais trazem, que observam a humanidade ao longo da existência e traçam uma trajetória comparando-a ao caminho percorrido por um indivíduo. Enquanto humanidade, já fomos bebês, crianças, jovens, adultos e, se tudo der certo, seremos anciões para, um dia, ascender nesta dimensão. É clara a existência de um processo evolutivo, perceptível, quase literalmente, no ar que nos rodeia. Basta ver a facilidade com a qual as crianças aprendem a utilizar as novas tecnologias, parece que já nascem prontos para o que lhes anteveem. Curiosamente, tal efeito indica também que há um processo de assimilação individual a partir do coletivo. Mas que ironia, de tanto que as pessoas do mundo todo se viciaram em parafernálias tecnológicas, que cada criança que aqui “desce” e vem, já absorve, antes da chegada, tais vivências em aprendizagem também. O fato é que tudo para o qual atribuímos importância, adquire valor para nós mesmos.

“Nada existe ‘em si’ ou ‘para si’, o mundo é um tecido de relações; não se pode apanhar a mínima coisa se não for na rede e nos nós das interdependências que a constituem. Isto é verdadeiro para a matéria e isto é verdadeiro também para a natureza do homem, seu corpo, e os pensamentos que o animam...”

Jean-Yves Leloup

Seja qual for o pensamento espiritual que tenhamos, acorre que a evolução no desenvolvimento das potencialidades humanas ao longo do tempo é fato. Para os que compactuam com uma premissa reencarnatória, justifica-se pelas sucessivas vivências e passagens pelo mundo físico. Para os que atentam à apenas uma única existência, encontra justificativa, tal evolução, na genética transmitida à cada geração que compartilha, via DNA, o aprendizado de cada linhagem familiar.

O ser humano passou pelo desenvolvimento do corpo físico, da vitalidade, sua alma refinada e complexa, como um diapasão, já vivenciou a fase de aprender a educar suas sensações e sentidos. Conquistamos, graças à atuação da civilização grega, saber lidar com a filosofia, com o raciocínio, com a inteligência, com as artes. Agora, somos postos à prova através do que de mais desafiador poderíamos encontrar, o desenvolvimento da alma da consciência, ética e moral testados e aquilatados a todo instante. Nunca tantos apelos materiais estiveram disponíveis a nós, tampouco com tantos requintes de riqueza, luxo e ostentação. Nunca estivemos tão preparados para acepção e volição sobre a escolha dos preceitos de liberdade, igualdade e fraternidade por meio da arte social, a trama das relações humanas colocando o respeito mais primordial em pauta. Não obstante todo este contexto, nunca nos acometeram, antes, tantas dificuldades em colocar todos estes princípios em prática.

 

“O apego é aquilo que nos impede de estar em harmonia com tudo o que é; ele estabelece uma relação de posse e de dependência que é o contrário de uma relação verdadeira”.

Jean-Yves Leloup

Ante tal cenário, no âmbito político, temos percebido um verdadeiro festival no qual impera a falta de respeito e de capacidade de um olhar minimamente amoroso para com o processo do outro. Nossas escolhas são individuais, embora jamais deixem de ter efeito no coletivo, o que não justifica o desrespeito com elas. O mínimo que se espera do indivíduo cônscio é deixar prevalecer o direito ao livre arbítrio do outro sem inculcar-lhe o próprio pensamento. Novamente, a exemplo do pleito anterior para presidência da república, neste ano, um rol acirrado de agressões ao pensamento alheio, ironias contra a escolha do outro, e um profundo descaso para com o processo evolutivo e de decisão dos demais indivíduos, prevalece. Um número assustador de pessoas não se contenta com suas preferências e força seu pensamento aos demais. Isto faz recordar que a primeira lei espiritual é “jamais invadir a vontade alheia”. Jamais um ser espiritual forçaria um indivíduo a alguma atitude. Nem mesmo nosso anjo pessoal é capaz disso, ele aguarda serenamente por nossas escolhas. O respeito ao livre arbítrio humano está acima de tudo. Se o indivíduo é jovem e está iniciando sua trajetória pessoal, igualmente tem todo direito de acertar e errar seus passos por livre escolha.

“Toda evolução é um retorno, um retorno que não é uma regressão. Retorno não quer dizer retorno para trás, mas retorno para “Adiante”, retorno e este lugar que é nossa origem e nosso fim, nosso alfa e nosso ômega: este lugar que é ‘fora do tempo’. Trata-se bem de Origem a não de começo”.

Jean-Yves Leloup

Anseio pelo momento no qual o olhar de cada um toque a alma dos demais e desperte, como um raio delicado, porém fulgurante, um imenso sentimento de gratidão e amor por revelar que existem outras searas, diferentes das minhas, a serem desveladas e, principalmente, respeitadas e acolhidas.

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Helena para sempre Kolody

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Uma dama, uma diva, uma poeta divina, mulher que de muitas formas inspira. Símbolo da poesia do Paraná, sinônimo da universalidade da poesia. Existência atenta aos detalhes mais insignificantes até os magistrais, do trivial à magnitude do universal. Nela, o talento teve a ousadia de se espraiar e se aquilatar em infinitos versos. Uma mulher que, desde menina, ousou sonhar muito e segundo ela mesma: “O sonho é um voo. E o que digo é a sombra do que sonhei”.

Quando leio Helena Kolody, uma reflexão sobre o sonho torna-se inevitável. Aos olhos de qualquer pessoa, sonhar pode parecer um simples devaneio, um gosto que vira um desejo recorrente, até um fútil e egotista pensamento. Entretanto, quando se observa, lê e vislumbra o fulgir do sonho desta Helena, percebe-se nela algo infinitamente maior, como uma imaginação ativa e inspiração de natureza divina para captar e coadunar novas compreensões, visão privilegiada do universo e suas concepções.

 

“Gravitação

 

Fia o novelo oblongo das galáxias.

Tange o disperso rebanho dos astros.

Timoneira da Lua.

Domadora dos mares

rege o ritmo dançante

dum esvoaçar de pluma”.

Helena Kolody

 

De suas palavras, produto direto do sonho, uma magnitude que encontra e atribui a mesma grandeza a um grão de areia e, simultaneamente, ao maior astro no sistema solar exposto. Da menina religiosa, na fé caseira em hábitos de tradição da descendência europeia, à visionária, cósmica, curandeira pelas letras, sem jamais deixar de afluir sobre os alicerces do universo inteiro. O sonho lhe propicia a coesão sem jamais pervagar em tresvario.

 

“Areia

 

Da estátua de areia,

nada restará,

depois da maré cheia”.

Helena Kolody

 

Quando cheguei ao Paraná, frequentemente escutava seu nome que, em pouco tempo, se tornaria cada vez mais recorrente. Uma referência para estes tempos e quaisquer outros, poetisa polivalente. Nos momentos mais improváveis e nos mais oportunos, eis que alguém sempre fala ou a cita, não sem antes acalmar a própria respiração, esboçar um sorriso quase enigmático de admiração e de contemplação. Exagero? Não! Quando se fala da Helena, nada alcança, dela, a volição. Assim como Portugal tem seu poeta Camões, a Inglaterra tem Shakespeare, o Paraná tem esta senhora maior em lembrança e identidade na escrita, Helena Kolody. Nascida em Cruz Machado, de pai e mãe ucranianos, aprendeu piano e pintura que por certo possibilitaram em sua mente fértil uma trama ainda mais harmoniosa e bem escrita aos seus poemas, obras de sonoridade e serenidade qual a tecitura dos bordados tão cultivados em sua tradição familiar. Atuou como professora e foi independente e autônoma em ideias, versos, percepções e expressão sobre a vida. Sonhos e imagens privilegiados que brotavam em versos. A sua poética está para os sentidos humanos como a fenomenologia de Goethe está para a compreensão sobre a natureza. A Helena como desbravadora da atribuição mais refinada e cônscia dos sentidos em forma de palavras, aquilo que o pensamento, a intuição, e o gosto pela existência souberam erigir.

 

“Distância

 

Minúscula estrela,

pirilampo azul na fímbria do horizonte

a palpitar muito além do mais longe...”

Helena Kolody

 

E nesta sincronicidade do universo que ela tanto soube reconhecer, sua vinda a este mundo tem como portal de chegada a data de doze de outubro, dia no qual o Brasil honra sua padroeira, símbolo do feminino mais virtuoso. Sem exageros, esta Helena, virtuosa como só ela, faz jus a tão delicada data.

 

“Luz e sombra

 

Luz e sombra

lutam n’alma.

 

Só depois do sol ausente,

impera a noite.

 

Derrotadas

terra e treva,

reina a luz eternamente”.

Helena Kolody

Livros em feira

*Autoria: Renata Regis Florisbelo

Na edição 2018 da Feira do Livro, estiveram reunidas as instituições literárias da cidade, Academia de Letras dos Campos Gerais, Academia Ponta-Grossense de Letras e Artes e o Centro Cultural Professor Faris Michaele e o grupo de contadores de histórias Conta Ponta Conta. Esta integração proporcionou um estande com intensa programação que envolveu desde lançamento de livros até oficinas de escrita e de artes plásticas, passando por palestras e contação de histórias. O resultado foi a satisfação do público, destaque para as crianças, encantadas com histórias e livros. Uma interação bem-disposta entre autores e público oportunizando que cada um compartilhasse o seu melhor. A alegria foi a tônica dos encontros em enlevo e fina sintonia.

 

Cidades gêmeas

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Nascimento e morte parecem tão individuais, momentos íntimos e exclusivos. Por certo são, na maioria dos casos. Contudo, algumas vezes se chega e, em outras, se vai embora junto com alguém. Um mistério tão profundo quanto o próprio nascimento e a morte. Quando da chegada juntos, ainda mais instantes são compartilhados, todas as, pelo menos trinta e seis semanas, dividindo uma única barriga. Uma aura misteriosa se atribui aos casos dos nascidos, naturalmente, gêmeos.

Nossa amada Princesa dos Campos, em setembro, é sempre ainda mais festejada. Inspiração para poetas, cronistas, artistas plásticos, musicistas, esta diva do Paraná tem como marca de sua emancipação a assinatura, num mesmo decreto, com o surgimento do município de Jaguariaíva, outra terra encantada sem fim, também lindamente incrustada nos Campos Gerais paranaenses. Não posso entender de outra forma, tal peculiar associação do que o nascimento de cidades gêmeas, vindas ao mundo na mesma data.

Da formosa cidade de Ponta Grossa, se destaca, além de sua indiscutível beleza, a grandiosidade que a faz soberana, a forma carinhosa como acolhe as cidades vizinhas, tornando-se referência em pujança em região já imensamente pujante. A lindeza de suas construções, prédios antigos como os que abrigam o Centro de Cultura, o Cine Teatro Opera, a Mansão Vila Hilda. Dos tempos áureos das ferrovias, a Estação Saudade, a Estação Arte e a Casa da Memória, são representantes e guardiãs em memória. Em geografia privilegiada não poderia ser mais bem adornada do que a portadora do Parque Vila Velha, a Cidadela de Pedras, paisagem de inspiração medieval e ancestral, Lagoa Dourada, Furnas, o Buraco do Padre, a Cachoeira da Mariquinha. São tantos nichos de ambientes pitorescos que custa crer em tamanha bonança para um único município. É sua beleza, em patrimônio natural e cultural, honrosamente cantada e decantada, perfilada em inúmeros atributos. Ponta Grossa é destas cidades que, tal qual o amor verdadeiro, quando maior o convívio mais intenso o sentimento nutrido. Porquanto tal amor pode ser despertado naqueles que nesta terra aportam, como a mim ocorreu há vinte e três anos. Por aqui cheguei para fins de trabalho, tão assoberbada que somente me atentaria apenas à nova empreitada profissional. Contudo, não foi possível não me encantar e, tão logo, à primeira vista não me apaixonar. Um mistério, um caminho traçado por mãos invisíveis que, generosamente, conduzem nossos pés aos destinos a serem percorridos.

Jaguariaíva, cidade que também tem suas origens ligada ao tropeirismo, ponto de parada no caminho de Viamão à Sorocaba. Terra de cultura exuberante em seu patrimônio bem cuidado, o Memorial Ferroviário, a própria Estação Agente Durvalino de Azevedo, espaço que abriga com detalhes a história viva da vida ferroviária. Suas igrejas e imagens, seus sinos bem confeccionados e customizados, o Museu Histórico Municipal Conde Francisco Matarazzo, as belezas naturais. Terra de causos sem fim em personagens que encantam e alegram na simplicidade e genialidade de suas existências. Naquele mesmo quinze de setembro de 1823, um mesmo Decreto Imperial que concede nova condição às duas importantes cidades. A paisagem típica dos Campos Gerais torna a ambas ainda mais irmanadas. Uma qualidade pode se encontrar presente num único local, no caso das duas beldades, encantos e belezas se potencializaram e igualmente se distribuíram. Sempre pensei nas cidades, estados e países como entidades vivas e reais, portadoras de identidade e características próprias, tão individuais quanto as de uma pessoa. Dos gêmeos se espera, a partir da vida adulta, que se encaminhem e sigam seus caminhos honrando e potencializando as qualidades e atributos por meio de bons feitos. Ponta Grossa e Jaguariaíva são adultas, amadurecidas e plenas do alto de seus 195 anos. E cada uma segue sua vida, sua trajetória e papel de contribuição. Como uma casa que nos acolhe, e um agente real e ativo, as cidades se revelam em interação e construção de uma relação diária com seus habitantes. Em seu aniversário o que nossas anfitriãs esperam de nós? Como nosso amor pode ser revelado de forma verdadeira? Como acarinhar, em gesto, a terra que nos acolhe e abriga? Quando lembro do sentimento que esta cidade me despertou, uma aceleração do coração se renova, um palpitar salutar, sinonímia de amor e paixão se mostra, e a pergunta fustiga: Como contribuir com ela e para ela? Nos mistérios dos laços que nos unem, uma sintonia por meio de habitar o mesmo solo nos conserva. Penso em honrar, enaltecer e revelar seus encantos através da escrita, valorizar, em ações culturais, o que aqui se tem de especial e exclusivo. Impossível não desejar atuar a favor dela, a cidade que nos arrebata.

Na sina das vidas, na trajetória de cada pessoa, a passagem e fixação em novos locais jamais seriam em vão. Jamais um acidente de percurso a nos encaminhar de modo leviano a qualquer lugar. Por certo que não. Uma trama invisível me trouxe a esta amorosa terra, cidade que como eu é gêmea, tem origem compartilhada. Terra que emociona na grandeza, terra que é irmã na realeza, terra em par.

 

365 frases

Há seis anos, vinha ao mundo uma obra cujo olhar refletia o carinho e a vontade de prover alguns poucos minutos que permitissem o contato de cada um com um tempo livre de excessivas atribulações, de penosos pensamentos, capaz de oportunizar e fazer reinar um pouco de paz, instantes nos quais nossa respiração deixasse de ser tão autômata para nos alçar a uma esfera realmente humana. Sempre ouvi queixas de falta de tempo para leituras e até da falta de qualquer momento pessoal de reflexão e acalento. Pensando nesta trágica condição de impossibilidades, escrevi o livro “365 Frases”, uma pequena oportunidade de nutrição diária em frases que pudessem ressoar e trazer inspiração para além do ínfimo tempo tomado para leitura, clara alusão ao ano, ao ciclo primordial disposto a nos ensinar a reverenciar a vida. Hoje, esta Janela Poética dos Campos Gerais se abre para mostrar um pouco destas ideias e frases:

 

08 – A ordem e a harmonia no mundo físico espelham a ordem e a harmonia do mundo espiritual.

 

20 – As ideias carregam substâncias capazes de transformação a partir do potencial humano.

 

21 – Os pensamentos são matérias primas a serem vivificadas através de nossas boas ações.

 

22 – O futuro nos reserva o que formos capazes de cultivar hoje com consciência e determinação.

 

32 – A vida não é o resultado de uma coincidência bioquímica, mas sim de uma sabedoria e de uma benevolência alquímica.

 

33 – O ser humano é um cálice capacitado para portar em si a grandiosidade do universo.

 

39 – Cada boa ação no mundo é uma mão estendida em apoio às próximas boas ações.

 

44 – A gratidão constrói pontes indeléveis entre a alegria da realização e do compartilhar das ideias.

 

45 – O tempo é vivificado por aqueles que honram o passado, atuam no presente e preparam o futuro.

 

46 – A atuação neste mundo define quem somos e para onde nos encaminhamos.

 

52 – A alegria pelo trabalho bem feito vigoriza a alma que se predispõe para novas tarefas.

 

60 – A criatividade gera ideias tão permeáveis que perpassam a atenção e a rotina daqueles que estão desatentos.

 

61 – Vida e morte caminham juntas, alternando entre vitalidade e consciência atuando no ser humano com um propósito maior.

 

65 – Não sabemos quais serão as demandas humanas para o futuro, mesmo assim podemos nos preparar para elas.

 

67 – A criação é um processo de atenção sem tensão permitindo identificar e captar as ideias que passam de maneira fugaz pela mente.

 

68 – Os mistérios do universo estão presentes em nós e movem secretamente nossa vontade de atuar no mundo.

 

69 – Cada ser humano carrega em si uma representação do universo com toda sua perfeição e potencialidade.

 

74 – A pergunta reside na base da resposta. A resposta reside no merecimento.

 

77 – A verdade é um ser profundamente sábio que convidamos para viver conosco através da prática.

 

90 – Nosso mundo parece desordenado e caótico, mas atua nele uma ordem maior que desafia nossa compreensão.

 

93 – A oração é um corpo sutil capaz de se elevar aos céus.

 

94 – A coragem está presente em quem já aprendeu a não temer mais do que a si mesmo.

 

97 – O sábio pergunta a si mesmo e é tolerante com as respostas.

 

105 – O bom gosto reflete o grau de afinidade com as forças criadoras do universo.

 

106 – As pessoas felizes não buscam a felicidade, apenas não causam perturbação a ponto de afastá-la.

 

107 – A poesia é a beleza convertida em palavras.

 

113 – O universo está constantemente em transformação, mas nada se transforma sem obedecer às leis do universo.

 

123 – O homem só é feliz se trabalha em prol do bem comum.

 

130 – Tudo que termina carrega em si o potencial do recomeço.

 

134 – A fertilidade busca solos capazes de darem frutos.

 

150 – A palavra é um ser espiritual que habita a divindade humana.

 

154 – O que contemplo no outro adquire valor na humanidade.

 

160 – Quando julgo os outros atribuo a mim mesmo a impossibilidade da flexibilidade.

 

166 – O difícil e o fácil são diferentes olhares sobre a mesma situação.

 

173 – O remédio para aplacar o ego é colocar-se a serviço.

 

189 – A esperança requer atuação em prol do que se espera.

 

196 – A morte não é um único momento de passagem, mas sim um exercício de desapego durante toda a vida.

 

218 – É próprio da saudade fazer morada no coração e apontar para as pessoas mais queridas.

 

234 – Por trás da inocente beleza rimada da poesia há a perfeição matemática do universo. 

 

245 – Ideias são seres espirituais que anseiam por serem acessados.

 

249 – Dentro de cada problema há o germe de sua solução.

 

270 – Tudo o que toca o coração não pode ficar sem resposta e atenção.

 

282 – Solidão significa nutrir-se de pensamentos de isolamento.

 

284 – Nossa maior sombra reside em nós e usa o outro como reflexo.

 

307 – As qualidades praticadas repetidamente tornam-se virtudes.

 

316 – Nosso mundo não está pronto, é construído diariamente.

 

325 – A lei de causa e efeito inclui a benevolência.

 

349 – Quando não há solução surge um vazio de onde emergem novas possibilidades.

361 – A generosidade é o atributo mais próximo ao amor.

 

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Um livro, uma obra, uma vida

 

“Ao mar

E que venha o amanhecer,

Porque estou partindo

Mas, ao encontro da lua.

Imagem tua,

Meu viver,

Sorrindo”.

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

Algumas dezenas ou centenas de folhas de papel de orelha a orelha, discretas ou não. Entre este ínterim, um universo abrangendo o que se possa imaginar de mais cotidiano, trivial alçando até fantasiosas e excelsas concepções. Tudo cabe no espaço sagrado de um livro, igualmente naqueles que se apresentam apenas na versão virtual. Aquilo que se chama e se concebeu como livro manterá sua característica de uniformidade e integridade, embora possa ser tomado nos mais variados meios disponíveis. Para as obras de produção independente, não fazem ideia, os leitores, do rol de emoções dispensadas e agregadas ao projeto desde o primeiro pensamento em insight de inspiração para o tema até sua finalização e vinda ao plano físico. Sonho, fantasia, árdua concretização, trabalho duro para espargir de si mesmo o que lhe habita de melhor. Os pensamentos em profusão de muitas novas ideias a serviço de uma vida, que em muitos aspectos espelha a de todo mundo. Assim sendo, as obras costumam refletir um pouco da vida e do estilo do próprio autor, imiscuindo tais características ao teor e propósito do livro.

 

“Interrogando

Gosto de interrogações.

Elas incrementam a alma.

Trazem questões.

Ilusões.

Pensar.

Tudo.

Até porque eu não disse nada”.

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

Em poucos casos, uma obra chega ao mundo tão completamente sendo uma forma de leitura intimista da própria vida do autor, como em: “De onde vim, onde estou, e para onde volto”, do integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais José Altevir Mereth Barbosa da Cunha, publicado em agosto de 2018, pela Editora Estúdio Texto. O livro, que já nasceu com ares de literatura clássica, pode ser uma via de mão dupla entre o autor e sua obra, quem não o conhece pode passar a conhecê-lo a partir da obra, e quem o conhece de outras plagas, pode se surpreender, ou não, com a consistência da expressão poética real trazida à tona no livro. A obra contém poemas, crônicas, causos e discursos pertencentes a diferentes fases da vida do autor, desde o final da década de 60 em sua amada terra natal, pátria Pitanga, capital do mundo, como o próprio carinhosamente menciona.

 

“Em silêncio

Parto em silêncio,

Na mesma mudez vivida.

Se fiz, se não fiz,

Não sei.

Parto, com alma sentida,

Se fui feliz,

Nada do que sonhei”.

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

De escrita essencialmente poetizada, o que chama a atenção nos poemas do Altevir é sua afinidade com a poesia em expressão peculiar, a capacidade de abordar múltiplos temas, o passeio no tempo e no espaço e a fidelidade ao estilo pessoal de escrita ao longo de toda a sua existência. Mesmo nos discursos, o autor lança mão de falas e formas tão poéticas que elevam tais textos ao refinamento de outras esferas. Uma ousadia sem tamanho revelar a si mesmo em obra praticamente biográfica, mas Altevir o faz com serenidade pois tem uma alma grandiosa como poucos, além de um belo percurso de vida. Ao leitor, o contato com seus poemas revela anseios, temores e amores no mais fiel retrato das vivências e emoções reais humanas, sem, contudo, deixar de revelar certa pureza e nostalgia intrigante, impossível não se sensibilizar e descobrir afinidades em meio a tantas falas. Os Campos Gerais reivindicam e precisam desta expressão, fruto de um coração sensível e irmanado com tudo que o cerca. As memórias, as lembranças, recordações dos tempos de meninice lhe pertencem e a todos nós em gosto compartilhado e ampliado que tão deliciosa leitura proporciona.

 

“Sorte com você,

Triste, se longe,

Da vida à mercê”.

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

A melancolia pertence aos poetas, nela se mesclam as emoções e as frustrações que se permutam qual semântica da vida. No rol dos sentimentos, Altevir é um autor hábil, com a destreza que sua própria substância imaterial lapidou, atributo que só os grandes alcançam. Da alma de menino é o lugar de onde ele veio, aqui onde está fez morada, vida e trajetória, para onde volta inclui o espaço que sua arte de compor versos compartilha e oportuniza. É a mesma alma doce de menino, na grandeza do escritor que a tudo eterniza.

 

“Canoa sem ninguém

Veio e se foi

Sem mim também.”

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

O livro irretocável do escritor José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

Autoria: Renata Regis Florisbelo

 

Perfis da cidade - Mosaico de textos de Vieira Filho - Parte II

Um mosaico, colagem carinhosa de pequenos trechos da obra, de valor inestimável, de Guaracy Paraná Vieira, Vieira Filho, em seu “Perfis da cidade”. O autor produziu cerca de dezesseis mil crônicas em dedicação e bons olhos para com a cidade. Dezesseis mil maneiras de declarar seu amor por Ponta Grossa. Completados cem anos de nascimento desse memorável escritor, nossos agradecimentos e parabéns, honrando-o com trechos de suas próprias crônicas.

 

29 de julho de 1952

 

O nome de Nova Rússia tem profundo significado na vida de nossa cidade. Ele representa a chegada e a fixação entre nós dos colonos russos-alemães que para aqui vieram em busca da liberdade que lhes faltava na sua terra natal. E esse episódio histórico teve profunda significação para o progresso de nossa cidade. Nesse pugilo de imigrantes que se radicava no planalto princesino estava o embrião de um movimento renovador e progressista que daria novos rumos ao crescimento e enriquecimento de Ponta Grossa. Ao influxo dessa gente trabalhadora, persistente e honrada, o panorama de nossa cidade recebeu modificações promissoras e começou a ensaiar com êxito a sua experiência de industrialização.

 

4 de julho de 1952

 

Uma cidade que progride e se moderniza vai deixando traços indeléveis dos diversos ciclos de sua evolução. Estes marcos que atestam o caminho percorrido na senda do progresso geralmente são representados pelos edifícios da cidade. Os diversos estilos de construção, desde o rústico casarão colonial feito de taipa até os modernos arranha-céus feitos de cimento armado, vão demarcando em escalas sucessivas os diversos períodos por que passou a cidade na sua vida evolutiva.

 

23 de setembro de 1954

 

Foi numa das ondulantes ruas da nossa cidade que encontramos a estranha caravana. Confundidos no burburinho agitado e nervoso da cidade construída pelos que se dizem civilizados, um grupo de índios, brasileiros da mais pura raça, caminhava lentamente como seres estranhos e deslocados que de uma hora para outra viessem alterar o panorama humano da cidade. Um casal de velhos e outros mais jovens, agrupados como a se protegerem de mais algum ataque usurpador dos civilizados, os donos da terra, os senhores desse imenso patrimônio territorial, cosiam-se à parede como que desejando usar o menos possível o espaço que por direito devia lhes pertencer na totalidade.

 

21 de outubro de 1954

 

Quando as primeiras árvores se engalanaram florescidas anunciando a festa colorida e perfumada da primavera, houve também uma radiosa transformação na moda feminina.

A mulher princesinha, chique e graciosa, abandonou os pesados tecidos de inverno, deixou a elegância dos “tailleurs” e começou a alegrar festivamente nossas ruas, exibindo a exuberância de sua beleza envolta nos finos e delicados tecidos de náilon, gaze, organdi, tule e mais esta infinidade de fazendas de algodão e seda que nossos tecelões sabem colorir em maravilhosos desenhos e padronagens. As tardes, na Avenida Vicente Machado, passaram novamente a oferecer um espetáculo magnífico de graça, beleza e bom gosto, numa profusão deliciosa de vaporosos trajes, rivalizando em harmonia e colorido com as árvores vestidas pela mão caprichosa e delicada da primavera.

 

Sem data

 

Na tarde que vai esmaecendo no horizonte, marcada pela aragem fria que lembra outono, os pássaros irrequietos cantam a derradeira melodia e se recolhem ao abrigo de frondosa jabuticabeira, para o repouso da noite.

Este canto vai aos poucos desaparecendo da paisagem da cidade, que se brutaliza numa fisionomia agressiva de cimento e pedra. O espaço para o verde benfazejo das árvores vai diminuindo e com isso a morada dos pássaros se torna mais rara e difícil.

Talvez por isso, neste fim de tarde, o seu canto seja assim nervoso e triste, como um canto de adeus ou de queixa pela imprevidência do homem que está destruindo o reino vegetal sem prever as consequências nefastas, não para os cantores alados, mas também para si mesmo.

 

27 de setembro de 1965

 

Árvores enfeitadas de luz colorida, cordões de lâmpadas multicoloridas circundando a concha acústica - agora transformada em presépio - pintam naquele canto da praça um cromo de Natal que tem sido o encanto das crianças e adultos, numa festa permanente e gratuita da qual todos podem participar, alegrando o coração nestes dias em que a fraternidade nos fala mais de perto.

 

9 de julho de 1983

 

Lá longe, apenas um perfil em silhueta, recortado no poente que vira noite no horizonte. Aqui, o cronista tentando rever a cidade de ontem, perdido nos caminhos novos da cidade de hoje. E a melancólica conclusão de que, enquanto a Princesa se renova e remoça nos roteiros do progresso, a gente vai regredindo nos caminhos da velhice que vai chegando inexorável. Apenas fica a esperança de renascermos nos filhos que crescem e retornarmos amanhã na edição renovada de uma nova vida com novos rumos a vencer.

E no coração da gente o amor pela cidade Princesa dos Campos vai aumentando, porque amor velho não morre nunca e cresce com o tempo nos caminhos da eternidade.

Vieira Filho apresentava cenas cotidianas da cidade através de crônicas

Organização: Renata Regis Florisbelo.

 

Perfis da cidade - Mosaico de textos de Vieira Filho - Parte I

Quando a escrita assume o papel indelével de registro do cotidiano, do invisível, do que seria fugaz ao olhar comum, torna-se matéria prima das mais ricas aos olhos do escritor atento. Guaracy Paraná Vieira, patrono da cadeira nº20 da Academia de Letras dos Campos Gerais, escreveu por quase quarenta anos consecutivos, usando o pseudônimo de Vieira Filho, crônicas diárias radiofonizadas sob o título de “Perfis da Cidade”. Aquela singular percepção que só pode ser despertada pelo refinado propósito de quem se detém e se demora na escrita, porquanto a vida urge em pequenas partes, imagens miraculosas a cada dia. Conheça um pouco da obra e do talento do saudoso autor, através de trechos extraídos do livro “Perfis da Cidade – Crônicas de Vieira Filho”.

 

16 de maio de 1957

A cidade se desdobra em seus inúmeros perfis e todos eles são desenhados com a cor forte dos contrastes, tendo por fundo a paisagem impassível das casas e por personagens todos nós com nossas virtudes negativas e positivas. No aglomerado de almas que se agitam com o nome de povo, não existem dois dramas iguais, dois espíritos idênticos em todos os sentidos. Cada um é um ser à parte com seu programa íntimo e individual. No entanto, somos todos irmãos. O sol amigo que nos visita nesse verãozinho de maio nasceu igualmente para todos na mais perfeita justiça.

 

16 de março de 1978

A “galinha de máquina” é aquele pobre pintinho que não conheceu mãe, que foi gerado na chocadeira em promiscuidade com outros filhos de outras galinhas, que foi franguinha num galinheiro de tela, que nunca ciscou e jamais soube o que é o calor protetor das asas de uma galinha, que viveu a vida inteira no claro para não dormir e comer ração noite e dia para engordar e crescer mais rápido, para mais cedo chegar embalada em plástico nos frigoríficos e geladeiras para o nosso consumo. É essa “galinha de máquina”, como disse o freguês. Uma galinha quase artificial.

 

4 de janeiro de 1966

Um pedaço de pão com manteiga ou um bife de filé mignon não conseguem curar uma angústia espiritual, não trazem calma e bem-estar ao coração aflito e desesperado. Todavia, olhar para o céu azul, sentir Deus na imaculada e grandiosa visão azul do firmamento, identificar uma nuvem alva como alma sem pecado, dançando suave na matinal mensagem da grandiosidade da criação, são tônicas para a alma aflita, bênção para o coração angustiado, mostrando aos homens ansiosos que a vida não se resume na posse efêmera das coisas materiais e que, muito além de tudo isso, as virtudes de espírito são as únicas que contam para a aquisição da paz e da felicidade.

 

24 de fevereiro de 1959

Nos seus olhos escuros e quase sem brilho, uma chama de esperança animava a tristeza do olhar, embaçado pelo desencanto de muitas desilusões. A fome é que tangenciava seus passos, rondando com insistência o seu viver cotidiano. Não havia esperança e ânimo nos seus gestos. Sua fisionomia, amadurecida prematuramente pela dor, traduzia um certo fatalismo diante da realidade brutal do desnível da sociedade... A vida não lhe oferecia encantos nem esperanças... Na manhã bonita, enquanto outros garotos se preparavam para ir à escola em busca do alimento intelectual, ele sai mendigar o pão da caridade para o corpo desnutrido e alquebrado pela miséria...

 

24 de julho de 1954

Televisão em Ponta Grossa! A notícia ontem irradiada através do nosso noticiário local estourou como uma bomba, aguçando a curiosidade do nosso povo. Realmente, a sensacional iniciativa da Televisão Paraná Sociedade Anônima de fazer uma demonstração pública de televisão em nossa cidade é cometimento capaz de empolgar entusiasticamente a opinião popular.

 

1° de dezembro de 1952

Mas o fato é que esta história de adiantar uma hora nos relógios não melhora a vida de ninguém e também não resolve nenhum dos muitos problemas que devem ser solucionados em benefício do povo. Uma hora mais ou uma hora menos só serve para lançar mais confusão neste Brasil tão confuso, cujo horário exato ninguém acerta, porque não sabemos se estamos andando para a frente ou para trás.

 

15 de junho de 1957

Quando o plúmbeo céu dos desencantos tolda a nossa existência e parece querer afogar-nos nas nuvens do desespero e da desilusão, quando o inverno da vida permanece conosco zombando da primavera que campeia lá fora em madrugadas de luz e em gorjeios de aves que se amam, quando tudo parece perdido nas amarguras da vida, eis que no horizonte sem fim da existência brilha radioso o sol de uma nova esperança; essa fada cor-de-rosa que jamais fenece em tempo algum vem visitar-nos com o consolo amigo de uns minutos de alegria, renovando nosso alento, aliviando nossas mágoas, cicatrizando velhas e dolorosas feridas do coração. É a primavera da vida que nos aquece a alma, espancando a penumbra do inverno frio que nos castigava impiedosamente.

 

Guaracy Paraná Vieira nasceu em 4 de agosto de 1918. Em 2018, registra-se o centenário de seu nascimento.

 

Organização: Renata Regis Florisbelo.

 

 

Guaracy do Paraná

Autoria: Flávio Madalosso Vieira

Organização: Renata Regis Florisbelo

                    

                   Naquele quatro de agosto de 1918, no distante distrito de Paulo Frontin, a dona Nicolina dava ao mundo um menino que se transformou, pelo trabalho e seriedade, em uma das mais insignes personalidades da literatura, jornalismo e filantropia na região de Ponta Grossa.

                        Há exatos cem anos, nascia Guaracy Paraná Vieira, conhecido nas lides radiofônicas e jornalísticas como Vieira Filho, notável pela sua capacidade de perceber os mínimos detalhes das coisas mais comuns e transformá-las em poesia dentro da prosa.

                        Cresceu, desenvolveu-se, estudou, sempre junto do pai Maurílio, da mãe Nicolina, e dos irmãos Arquimedes e Marialva até que, aos dezoito anos, de trem, veio a Ponta Grossa para apresentar-se ao Exército, desembarcando no local que hoje chamamos de “Estação Saudade” – nome por demais apropriado, sobretudo por este evento que reputamos como relevante, pois recebeu o Guaracy – e dirigindo-se ao 13º Batalhão de Infantaria, donde saiu quando ocupava o posto de Sargento.

                        Iniciou, então, a vida civil, trabalhando em organismos públicos e, concomitantemente, no veterano jornal Diário dos Campos, como redator e, mais tarde, ingressando no contingente exponencial da Rádio Clube Ponta-grossense, dando, então vazão aos seus talentos de radialista e, principalmente, de cronista.

                        Iniciava, assim, uma trajetória marcante, não apenas para ele, mas para toda a comunidade princesina, pois, em 23 de março de 1952, Barros Júnior interpretou a primeira de uma série de cerca de dezesseis mil crônicas, intituladas “Perfis da Cidade”, produção que perdurou por quase quarenta anos, diariamente, e que levava aos receptores as imagens da cidade em forma de palavras bem alinhavadas com o talento aliado à sensibilidade.

                        Falava-se que o “Perfis” podia ser ouvido por quem andava nas ruas, já que todos os rádios de todas as casas estavam sintonizados no Grande Jornal Falado HM, justamente pelo texto do Vieira Filho interpretado por Barros Júnior.

                        Foram 73 anos de vida terrena, aproveitados para construir nome honrado, caráter firme, convicção de que somente pelos caminhos do bem e da paz se faz um mundo melhor. Ao longo destas mais de sete décadas, Guaracy deixou um rastro de sabedoria, de convivência sadia e edificante e, principalmente, deixou bons exemplos e saudades.

                        Hoje, em 2018, vinte e sete anos após a partida, o cidadão Guaracy e o cronista Vieira Filho são lembrados pela comunidade que o acolheu e onde fixou raízes, constituiu família, honrou e amou como se dela fosse fruto, o que, de certa forma, é verdade, pois fez por nossa cidade mais que muitos conterrâneos que tinham estas responsabilidades.

                        Ao longo dos 73 anos em que permaneceu entre nós fisicamente, Guaracy Paraná Vieira exerceu profissionalmente, inúmeros cargos de relevância na administração municipal. Era um homem público, não político, e fez da sua competência um baluarte para o engrandecimento da cultura e da educação. Ocupou cargos equivalentes a secretário municipal de Educação e Cultura, diretor da Biblioteca Pública, dentre outros, e foi um dos alicerces da implantação da nossa Universidade Estadual.

                        Também, pôs-se à disposição da doutrina espírita em Ponta Grossa e em todo o estado, sendo um dos seus mais respeitados difusores.

                        Falar do Guaracy é recordar os bons momentos de uma convivência edificante, pois sempre vinha dele palavras e gestos de ternura, de amizade e a constante intenção de fazer com que o seu interlocutor se sentisse bem e em paz; falar do Vieira Filho é recordar as crônicas que retratavam a cidade com um carinho tão especial sobre as coisas que, parece, somente ele via, e nos dava a exata noção do que é viver em sociedade, do que é viver em paz e, principalmente, enaltecia o valor de tudo e de todos, refletindo o seu olhar sensível às coisas boas que há ao nosso redor, por mais que nem todos as enxergassem; falar do Guaracy é recordar o homem simples, trabalhador, que sempre estava satisfeito com a vida e feliz com o que possuía, pois nunca desejou nada além do necessário para viver com dignidade e ajudar a quem precisava; falar do Vieira Filho é recordar os instantes comoventes que as suas palavras radiofonizadas nos propiciavam, trazendo pedaços da cidade que sequer supúnhamos existir, e com tal riqueza de detalhes que surpreendia; falar do Guaracy é recordar o marido, pai, avô devotado e amoroso, sempre presente, transmitindo confiança, segurança e paz na estrutura familiar.

                        Olá, Guaracy; olá, Vieira Filho! Obrigado por ter sido o meu pai, por ter sido o cronista e por ter sido o homem exemplar para toda a comunidade ponta-grossense!

                        E a data de hoje é especial. Aproveitamos o espaço que ele conquistou na radiofonia e no jornalismo, e nos deixou de herança, para dizer “Feliz Aniversário, meu pai! Que Deus continue a te abençoar para que você possa continuar a ser o nosso Anjo da Guarda!”.

                        Parabéns, Guaracy (Vieira Filho) pelos seus CEM anos de existência!

Guaracy Paraná Vieira escreveu cerca de 16 mil crônicas

 

Pés

Na técnica de striptease, o calçado a ser usado precisa ser descomplicado, sem amarras, fivelas ou cadarços. Um sapato modelo escarpim, por exemplo, simples de ser arrancado, seria o mais indicado. Curioso! É para seduzir, enfeitiçar e, ao mesmo tempo, tirar. O que se usa nos pés incrementa a beleza da dança, do rebolado e depois desnuda no ato ensaiado. Parte do corpo, normalmente desprezada, tão pouca atenção recebem os pés, mas que firmemente nos sustentam, movem e servem de guia à cabeça, turista dessa vida. Uma imagem pitoresca e surreal poderia abarcar a cabeça como a grande expectadora e observadora de tudo, mas que não move a si, eterna dependente da boa vontade do conjunto do corpo em ossos e músculos. Em 25 de outubro é comemorado o Dia do Sapateiro, ou seja, aquele profissional, tão raro, que se dedica a confeccionar sapatos. A origem da data remonta aos irmãos Crispim e Crispiniano, na França do século III, que durante o dia pregavam o Cristianismo e à noite trabalhavam no ofício de artesões sapateiros. Durante a perseguição aos cristãos, à época, ambos foram mortos. Muito intrigante a relação possível de se estabelecer entre a vida prática, física e a de natureza espiritual na inspiração para a data, por meio da pregação os irmãos ensinavam um caminho espiritual e como suporte auxiliavam, durante a caminhada, protegendo os pés confeccionando sapatos. Aliás, a profissão de sapateiro é das mais antigas do mundo, existindo praticamente desde que o ser humano passou a sentir necessidade de proteger seus pés de toda sorte de perigos e desconfortos.

Para muitos um símbolo de fetiche, de despertar atração e desejo sexual em tomar o resto do corpo iniciando pelos pés. Nesse raciocínio voltaríamos ao striptease, desnudando e revelando esses serviçais corporais que nos sustentam. Na visão da Antroposofia, filosofia que estuda o desenvolvimento do ser humano ao longo de toda a sua jornada de existência e as interfaces com o mundo espiritual, a cabeça é um monumento ao passado, nela se guardam as memórias, as vivências mais antigas, do próprio indivíduo e de toda a coletividade, praticamente só reflexo, inerte, requerendo um esforço ativo de cada pessoa para iluminá-la por meio de um pensar vivificado. Aos ágeis pés cabe a simpática missão de percorrer o mundo, correr, procurar, desbravar novos locais e modos de vida, donos de uma sabedoria instintiva que sempre indica para onde ir. Porquanto acarinhar e proteger os pés é acarinhar e “abrir alas” positivamente, ao futuro, na simbologia dos pés que sabem o caminho e se lançam destemidos. O andar firme, confiante, postura ereta, remete a alguém bem posicionado e bem encaminhado na vida. Na materialidade que nos acomete em requintes de marketing e propaganda excessivos, há marcas de sapatos estrategicamente relacionadas ao status e ao poder social, outra forma, materialmente distorcida, de associar os pés (sapatos) a um caminhar de sucesso, inda assim corretamente remetendo os pés à ideia do modo de andar na vida.

E eis que a Cinderela, aquela moça graciosa do conto de fadas, é reconhecida pela singularidade na delicadeza dos pés. Arriscaria aqui o palpite da associação dos pés com a qualidade da máxima virtude e refinamento femininos. O que veste nossos pés também é alvo constante da moda, em ditames que, ora denotam firmeza, força, em botas pesadas e de estilo militar ou country, ou ainda sandálias “troianas” que vão ao passado chamar pela força dos grandes guerreiros, ora clamam por malícia e jogo do poder de sedução em saltos altíssimos. A mulher do alto de poderosos saltos sempre como uma sedutora, igualmente, poderosa, pairando sobre o mundo masculino como uma bailarina das nuvens.

A indústria e a produção em série, massificada, já arrebatou para si a confecção e disponibilização de milhares de pares de sapatos, fazendo do velho sapateiro uma figura rara, quase um ser fadado ao passado, como já ocorreu com tantos outros profissionais. No Brasil, até a chegada da corte portuguesa, os sapatos apenas protegiam os pés, passando, a partir desse evento, a sofrerem influência da moda. Os escravos não podiam usar sapatos, contudo, quando alforriados, compravam sapatos como sinal de status. Ironicamente, como não possuíam o hábito do uso, acabavam fazendo deles objeto de decoração da casa ou carregavam nas mãos ou nos ombros. Ainda mais irônico, carregar nas mãos o objeto que deveria carregar os pés. Isso só pode ser obra da cabeça, que presa ao passado, não reconhece quem mais fiel lhe seja. Por certo essa não foi a última peça desse striptease, entretanto, desnudou, mais um pouco, nossos pés e nossa mente.

A simbologia associada aos pés
(Foto: Renata Regis Florisbelo)