Janela Poética dos Campos Gerais
365 frases

Há seis anos, vinha ao mundo uma obra cujo olhar refletia o carinho e a vontade de prover alguns poucos minutos que permitissem o contato de cada um com um tempo livre de excessivas atribulações, de penosos pensamentos, capaz de oportunizar e fazer reinar um pouco de paz, instantes nos quais nossa respiração deixasse de ser tão autômata para nos alçar a uma esfera realmente humana. Sempre ouvi queixas de falta de tempo para leituras e até da falta de qualquer momento pessoal de reflexão e acalento. Pensando nesta trágica condição de impossibilidades, escrevi o livro “365 Frases”, uma pequena oportunidade de nutrição diária em frases que pudessem ressoar e trazer inspiração para além do ínfimo tempo tomado para leitura, clara alusão ao ano, ao ciclo primordial disposto a nos ensinar a reverenciar a vida. Hoje, esta Janela Poética dos Campos Gerais se abre para mostrar um pouco destas ideias e frases:

 

08 – A ordem e a harmonia no mundo físico espelham a ordem e a harmonia do mundo espiritual.

 

20 – As ideias carregam substâncias capazes de transformação a partir do potencial humano.

 

21 – Os pensamentos são matérias primas a serem vivificadas através de nossas boas ações.

 

22 – O futuro nos reserva o que formos capazes de cultivar hoje com consciência e determinação.

 

32 – A vida não é o resultado de uma coincidência bioquímica, mas sim de uma sabedoria e de uma benevolência alquímica.

 

33 – O ser humano é um cálice capacitado para portar em si a grandiosidade do universo.

 

39 – Cada boa ação no mundo é uma mão estendida em apoio às próximas boas ações.

 

44 – A gratidão constrói pontes indeléveis entre a alegria da realização e do compartilhar das ideias.

 

45 – O tempo é vivificado por aqueles que honram o passado, atuam no presente e preparam o futuro.

 

46 – A atuação neste mundo define quem somos e para onde nos encaminhamos.

 

52 – A alegria pelo trabalho bem feito vigoriza a alma que se predispõe para novas tarefas.

 

60 – A criatividade gera ideias tão permeáveis que perpassam a atenção e a rotina daqueles que estão desatentos.

 

61 – Vida e morte caminham juntas, alternando entre vitalidade e consciência atuando no ser humano com um propósito maior.

 

65 – Não sabemos quais serão as demandas humanas para o futuro, mesmo assim podemos nos preparar para elas.

 

67 – A criação é um processo de atenção sem tensão permitindo identificar e captar as ideias que passam de maneira fugaz pela mente.

 

68 – Os mistérios do universo estão presentes em nós e movem secretamente nossa vontade de atuar no mundo.

 

69 – Cada ser humano carrega em si uma representação do universo com toda sua perfeição e potencialidade.

 

74 – A pergunta reside na base da resposta. A resposta reside no merecimento.

 

77 – A verdade é um ser profundamente sábio que convidamos para viver conosco através da prática.

 

90 – Nosso mundo parece desordenado e caótico, mas atua nele uma ordem maior que desafia nossa compreensão.

 

93 – A oração é um corpo sutil capaz de se elevar aos céus.

 

94 – A coragem está presente em quem já aprendeu a não temer mais do que a si mesmo.

 

97 – O sábio pergunta a si mesmo e é tolerante com as respostas.

 

105 – O bom gosto reflete o grau de afinidade com as forças criadoras do universo.

 

106 – As pessoas felizes não buscam a felicidade, apenas não causam perturbação a ponto de afastá-la.

 

107 – A poesia é a beleza convertida em palavras.

 

113 – O universo está constantemente em transformação, mas nada se transforma sem obedecer às leis do universo.

 

123 – O homem só é feliz se trabalha em prol do bem comum.

 

130 – Tudo que termina carrega em si o potencial do recomeço.

 

134 – A fertilidade busca solos capazes de darem frutos.

 

150 – A palavra é um ser espiritual que habita a divindade humana.

 

154 – O que contemplo no outro adquire valor na humanidade.

 

160 – Quando julgo os outros atribuo a mim mesmo a impossibilidade da flexibilidade.

 

166 – O difícil e o fácil são diferentes olhares sobre a mesma situação.

 

173 – O remédio para aplacar o ego é colocar-se a serviço.

 

189 – A esperança requer atuação em prol do que se espera.

 

196 – A morte não é um único momento de passagem, mas sim um exercício de desapego durante toda a vida.

 

218 – É próprio da saudade fazer morada no coração e apontar para as pessoas mais queridas.

 

234 – Por trás da inocente beleza rimada da poesia há a perfeição matemática do universo. 

 

245 – Ideias são seres espirituais que anseiam por serem acessados.

 

249 – Dentro de cada problema há o germe de sua solução.

 

270 – Tudo o que toca o coração não pode ficar sem resposta e atenção.

 

282 – Solidão significa nutrir-se de pensamentos de isolamento.

 

284 – Nossa maior sombra reside em nós e usa o outro como reflexo.

 

307 – As qualidades praticadas repetidamente tornam-se virtudes.

 

316 – Nosso mundo não está pronto, é construído diariamente.

 

325 – A lei de causa e efeito inclui a benevolência.

 

349 – Quando não há solução surge um vazio de onde emergem novas possibilidades.

361 – A generosidade é o atributo mais próximo ao amor.

 

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Um livro, uma obra, uma vida

 

“Ao mar

E que venha o amanhecer,

Porque estou partindo

Mas, ao encontro da lua.

Imagem tua,

Meu viver,

Sorrindo”.

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

Algumas dezenas ou centenas de folhas de papel de orelha a orelha, discretas ou não. Entre este ínterim, um universo abrangendo o que se possa imaginar de mais cotidiano, trivial alçando até fantasiosas e excelsas concepções. Tudo cabe no espaço sagrado de um livro, igualmente naqueles que se apresentam apenas na versão virtual. Aquilo que se chama e se concebeu como livro manterá sua característica de uniformidade e integridade, embora possa ser tomado nos mais variados meios disponíveis. Para as obras de produção independente, não fazem ideia, os leitores, do rol de emoções dispensadas e agregadas ao projeto desde o primeiro pensamento em insight de inspiração para o tema até sua finalização e vinda ao plano físico. Sonho, fantasia, árdua concretização, trabalho duro para espargir de si mesmo o que lhe habita de melhor. Os pensamentos em profusão de muitas novas ideias a serviço de uma vida, que em muitos aspectos espelha a de todo mundo. Assim sendo, as obras costumam refletir um pouco da vida e do estilo do próprio autor, imiscuindo tais características ao teor e propósito do livro.

 

“Interrogando

Gosto de interrogações.

Elas incrementam a alma.

Trazem questões.

Ilusões.

Pensar.

Tudo.

Até porque eu não disse nada”.

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

Em poucos casos, uma obra chega ao mundo tão completamente sendo uma forma de leitura intimista da própria vida do autor, como em: “De onde vim, onde estou, e para onde volto”, do integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais José Altevir Mereth Barbosa da Cunha, publicado em agosto de 2018, pela Editora Estúdio Texto. O livro, que já nasceu com ares de literatura clássica, pode ser uma via de mão dupla entre o autor e sua obra, quem não o conhece pode passar a conhecê-lo a partir da obra, e quem o conhece de outras plagas, pode se surpreender, ou não, com a consistência da expressão poética real trazida à tona no livro. A obra contém poemas, crônicas, causos e discursos pertencentes a diferentes fases da vida do autor, desde o final da década de 60 em sua amada terra natal, pátria Pitanga, capital do mundo, como o próprio carinhosamente menciona.

 

“Em silêncio

Parto em silêncio,

Na mesma mudez vivida.

Se fiz, se não fiz,

Não sei.

Parto, com alma sentida,

Se fui feliz,

Nada do que sonhei”.

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

De escrita essencialmente poetizada, o que chama a atenção nos poemas do Altevir é sua afinidade com a poesia em expressão peculiar, a capacidade de abordar múltiplos temas, o passeio no tempo e no espaço e a fidelidade ao estilo pessoal de escrita ao longo de toda a sua existência. Mesmo nos discursos, o autor lança mão de falas e formas tão poéticas que elevam tais textos ao refinamento de outras esferas. Uma ousadia sem tamanho revelar a si mesmo em obra praticamente biográfica, mas Altevir o faz com serenidade pois tem uma alma grandiosa como poucos, além de um belo percurso de vida. Ao leitor, o contato com seus poemas revela anseios, temores e amores no mais fiel retrato das vivências e emoções reais humanas, sem, contudo, deixar de revelar certa pureza e nostalgia intrigante, impossível não se sensibilizar e descobrir afinidades em meio a tantas falas. Os Campos Gerais reivindicam e precisam desta expressão, fruto de um coração sensível e irmanado com tudo que o cerca. As memórias, as lembranças, recordações dos tempos de meninice lhe pertencem e a todos nós em gosto compartilhado e ampliado que tão deliciosa leitura proporciona.

 

“Sorte com você,

Triste, se longe,

Da vida à mercê”.

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

A melancolia pertence aos poetas, nela se mesclam as emoções e as frustrações que se permutam qual semântica da vida. No rol dos sentimentos, Altevir é um autor hábil, com a destreza que sua própria substância imaterial lapidou, atributo que só os grandes alcançam. Da alma de menino é o lugar de onde ele veio, aqui onde está fez morada, vida e trajetória, para onde volta inclui o espaço que sua arte de compor versos compartilha e oportuniza. É a mesma alma doce de menino, na grandeza do escritor que a tudo eterniza.

 

“Canoa sem ninguém

Veio e se foi

Sem mim também.”

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

O livro irretocável do escritor José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

Autoria: Renata Regis Florisbelo

 

Perfis da cidade - Mosaico de textos de Vieira Filho - Parte II

Um mosaico, colagem carinhosa de pequenos trechos da obra, de valor inestimável, de Guaracy Paraná Vieira, Vieira Filho, em seu “Perfis da cidade”. O autor produziu cerca de dezesseis mil crônicas em dedicação e bons olhos para com a cidade. Dezesseis mil maneiras de declarar seu amor por Ponta Grossa. Completados cem anos de nascimento desse memorável escritor, nossos agradecimentos e parabéns, honrando-o com trechos de suas próprias crônicas.

 

29 de julho de 1952

 

O nome de Nova Rússia tem profundo significado na vida de nossa cidade. Ele representa a chegada e a fixação entre nós dos colonos russos-alemães que para aqui vieram em busca da liberdade que lhes faltava na sua terra natal. E esse episódio histórico teve profunda significação para o progresso de nossa cidade. Nesse pugilo de imigrantes que se radicava no planalto princesino estava o embrião de um movimento renovador e progressista que daria novos rumos ao crescimento e enriquecimento de Ponta Grossa. Ao influxo dessa gente trabalhadora, persistente e honrada, o panorama de nossa cidade recebeu modificações promissoras e começou a ensaiar com êxito a sua experiência de industrialização.

 

4 de julho de 1952

 

Uma cidade que progride e se moderniza vai deixando traços indeléveis dos diversos ciclos de sua evolução. Estes marcos que atestam o caminho percorrido na senda do progresso geralmente são representados pelos edifícios da cidade. Os diversos estilos de construção, desde o rústico casarão colonial feito de taipa até os modernos arranha-céus feitos de cimento armado, vão demarcando em escalas sucessivas os diversos períodos por que passou a cidade na sua vida evolutiva.

 

23 de setembro de 1954

 

Foi numa das ondulantes ruas da nossa cidade que encontramos a estranha caravana. Confundidos no burburinho agitado e nervoso da cidade construída pelos que se dizem civilizados, um grupo de índios, brasileiros da mais pura raça, caminhava lentamente como seres estranhos e deslocados que de uma hora para outra viessem alterar o panorama humano da cidade. Um casal de velhos e outros mais jovens, agrupados como a se protegerem de mais algum ataque usurpador dos civilizados, os donos da terra, os senhores desse imenso patrimônio territorial, cosiam-se à parede como que desejando usar o menos possível o espaço que por direito devia lhes pertencer na totalidade.

 

21 de outubro de 1954

 

Quando as primeiras árvores se engalanaram florescidas anunciando a festa colorida e perfumada da primavera, houve também uma radiosa transformação na moda feminina.

A mulher princesinha, chique e graciosa, abandonou os pesados tecidos de inverno, deixou a elegância dos “tailleurs” e começou a alegrar festivamente nossas ruas, exibindo a exuberância de sua beleza envolta nos finos e delicados tecidos de náilon, gaze, organdi, tule e mais esta infinidade de fazendas de algodão e seda que nossos tecelões sabem colorir em maravilhosos desenhos e padronagens. As tardes, na Avenida Vicente Machado, passaram novamente a oferecer um espetáculo magnífico de graça, beleza e bom gosto, numa profusão deliciosa de vaporosos trajes, rivalizando em harmonia e colorido com as árvores vestidas pela mão caprichosa e delicada da primavera.

 

Sem data

 

Na tarde que vai esmaecendo no horizonte, marcada pela aragem fria que lembra outono, os pássaros irrequietos cantam a derradeira melodia e se recolhem ao abrigo de frondosa jabuticabeira, para o repouso da noite.

Este canto vai aos poucos desaparecendo da paisagem da cidade, que se brutaliza numa fisionomia agressiva de cimento e pedra. O espaço para o verde benfazejo das árvores vai diminuindo e com isso a morada dos pássaros se torna mais rara e difícil.

Talvez por isso, neste fim de tarde, o seu canto seja assim nervoso e triste, como um canto de adeus ou de queixa pela imprevidência do homem que está destruindo o reino vegetal sem prever as consequências nefastas, não para os cantores alados, mas também para si mesmo.

 

27 de setembro de 1965

 

Árvores enfeitadas de luz colorida, cordões de lâmpadas multicoloridas circundando a concha acústica - agora transformada em presépio - pintam naquele canto da praça um cromo de Natal que tem sido o encanto das crianças e adultos, numa festa permanente e gratuita da qual todos podem participar, alegrando o coração nestes dias em que a fraternidade nos fala mais de perto.

 

9 de julho de 1983

 

Lá longe, apenas um perfil em silhueta, recortado no poente que vira noite no horizonte. Aqui, o cronista tentando rever a cidade de ontem, perdido nos caminhos novos da cidade de hoje. E a melancólica conclusão de que, enquanto a Princesa se renova e remoça nos roteiros do progresso, a gente vai regredindo nos caminhos da velhice que vai chegando inexorável. Apenas fica a esperança de renascermos nos filhos que crescem e retornarmos amanhã na edição renovada de uma nova vida com novos rumos a vencer.

E no coração da gente o amor pela cidade Princesa dos Campos vai aumentando, porque amor velho não morre nunca e cresce com o tempo nos caminhos da eternidade.

Vieira Filho apresentava cenas cotidianas da cidade através de crônicas

Organização: Renata Regis Florisbelo.

 

Perfis da cidade - Mosaico de textos de Vieira Filho - Parte I

Quando a escrita assume o papel indelével de registro do cotidiano, do invisível, do que seria fugaz ao olhar comum, torna-se matéria prima das mais ricas aos olhos do escritor atento. Guaracy Paraná Vieira, patrono da cadeira nº20 da Academia de Letras dos Campos Gerais, escreveu por quase quarenta anos consecutivos, usando o pseudônimo de Vieira Filho, crônicas diárias radiofonizadas sob o título de “Perfis da Cidade”. Aquela singular percepção que só pode ser despertada pelo refinado propósito de quem se detém e se demora na escrita, porquanto a vida urge em pequenas partes, imagens miraculosas a cada dia. Conheça um pouco da obra e do talento do saudoso autor, através de trechos extraídos do livro “Perfis da Cidade – Crônicas de Vieira Filho”.

 

16 de maio de 1957

A cidade se desdobra em seus inúmeros perfis e todos eles são desenhados com a cor forte dos contrastes, tendo por fundo a paisagem impassível das casas e por personagens todos nós com nossas virtudes negativas e positivas. No aglomerado de almas que se agitam com o nome de povo, não existem dois dramas iguais, dois espíritos idênticos em todos os sentidos. Cada um é um ser à parte com seu programa íntimo e individual. No entanto, somos todos irmãos. O sol amigo que nos visita nesse verãozinho de maio nasceu igualmente para todos na mais perfeita justiça.

 

16 de março de 1978

A “galinha de máquina” é aquele pobre pintinho que não conheceu mãe, que foi gerado na chocadeira em promiscuidade com outros filhos de outras galinhas, que foi franguinha num galinheiro de tela, que nunca ciscou e jamais soube o que é o calor protetor das asas de uma galinha, que viveu a vida inteira no claro para não dormir e comer ração noite e dia para engordar e crescer mais rápido, para mais cedo chegar embalada em plástico nos frigoríficos e geladeiras para o nosso consumo. É essa “galinha de máquina”, como disse o freguês. Uma galinha quase artificial.

 

4 de janeiro de 1966

Um pedaço de pão com manteiga ou um bife de filé mignon não conseguem curar uma angústia espiritual, não trazem calma e bem-estar ao coração aflito e desesperado. Todavia, olhar para o céu azul, sentir Deus na imaculada e grandiosa visão azul do firmamento, identificar uma nuvem alva como alma sem pecado, dançando suave na matinal mensagem da grandiosidade da criação, são tônicas para a alma aflita, bênção para o coração angustiado, mostrando aos homens ansiosos que a vida não se resume na posse efêmera das coisas materiais e que, muito além de tudo isso, as virtudes de espírito são as únicas que contam para a aquisição da paz e da felicidade.

 

24 de fevereiro de 1959

Nos seus olhos escuros e quase sem brilho, uma chama de esperança animava a tristeza do olhar, embaçado pelo desencanto de muitas desilusões. A fome é que tangenciava seus passos, rondando com insistência o seu viver cotidiano. Não havia esperança e ânimo nos seus gestos. Sua fisionomia, amadurecida prematuramente pela dor, traduzia um certo fatalismo diante da realidade brutal do desnível da sociedade... A vida não lhe oferecia encantos nem esperanças... Na manhã bonita, enquanto outros garotos se preparavam para ir à escola em busca do alimento intelectual, ele sai mendigar o pão da caridade para o corpo desnutrido e alquebrado pela miséria...

 

24 de julho de 1954

Televisão em Ponta Grossa! A notícia ontem irradiada através do nosso noticiário local estourou como uma bomba, aguçando a curiosidade do nosso povo. Realmente, a sensacional iniciativa da Televisão Paraná Sociedade Anônima de fazer uma demonstração pública de televisão em nossa cidade é cometimento capaz de empolgar entusiasticamente a opinião popular.

 

1° de dezembro de 1952

Mas o fato é que esta história de adiantar uma hora nos relógios não melhora a vida de ninguém e também não resolve nenhum dos muitos problemas que devem ser solucionados em benefício do povo. Uma hora mais ou uma hora menos só serve para lançar mais confusão neste Brasil tão confuso, cujo horário exato ninguém acerta, porque não sabemos se estamos andando para a frente ou para trás.

 

15 de junho de 1957

Quando o plúmbeo céu dos desencantos tolda a nossa existência e parece querer afogar-nos nas nuvens do desespero e da desilusão, quando o inverno da vida permanece conosco zombando da primavera que campeia lá fora em madrugadas de luz e em gorjeios de aves que se amam, quando tudo parece perdido nas amarguras da vida, eis que no horizonte sem fim da existência brilha radioso o sol de uma nova esperança; essa fada cor-de-rosa que jamais fenece em tempo algum vem visitar-nos com o consolo amigo de uns minutos de alegria, renovando nosso alento, aliviando nossas mágoas, cicatrizando velhas e dolorosas feridas do coração. É a primavera da vida que nos aquece a alma, espancando a penumbra do inverno frio que nos castigava impiedosamente.

 

Guaracy Paraná Vieira nasceu em 4 de agosto de 1918. Em 2018, registra-se o centenário de seu nascimento.

 

Organização: Renata Regis Florisbelo.

 

 

Guaracy do Paraná

Autoria: Flávio Madalosso Vieira

Organização: Renata Regis Florisbelo

                    

                   Naquele quatro de agosto de 1918, no distante distrito de Paulo Frontin, a dona Nicolina dava ao mundo um menino que se transformou, pelo trabalho e seriedade, em uma das mais insignes personalidades da literatura, jornalismo e filantropia na região de Ponta Grossa.

                        Há exatos cem anos, nascia Guaracy Paraná Vieira, conhecido nas lides radiofônicas e jornalísticas como Vieira Filho, notável pela sua capacidade de perceber os mínimos detalhes das coisas mais comuns e transformá-las em poesia dentro da prosa.

                        Cresceu, desenvolveu-se, estudou, sempre junto do pai Maurílio, da mãe Nicolina, e dos irmãos Arquimedes e Marialva até que, aos dezoito anos, de trem, veio a Ponta Grossa para apresentar-se ao Exército, desembarcando no local que hoje chamamos de “Estação Saudade” – nome por demais apropriado, sobretudo por este evento que reputamos como relevante, pois recebeu o Guaracy – e dirigindo-se ao 13º Batalhão de Infantaria, donde saiu quando ocupava o posto de Sargento.

                        Iniciou, então, a vida civil, trabalhando em organismos públicos e, concomitantemente, no veterano jornal Diário dos Campos, como redator e, mais tarde, ingressando no contingente exponencial da Rádio Clube Ponta-grossense, dando, então vazão aos seus talentos de radialista e, principalmente, de cronista.

                        Iniciava, assim, uma trajetória marcante, não apenas para ele, mas para toda a comunidade princesina, pois, em 23 de março de 1952, Barros Júnior interpretou a primeira de uma série de cerca de dezesseis mil crônicas, intituladas “Perfis da Cidade”, produção que perdurou por quase quarenta anos, diariamente, e que levava aos receptores as imagens da cidade em forma de palavras bem alinhavadas com o talento aliado à sensibilidade.

                        Falava-se que o “Perfis” podia ser ouvido por quem andava nas ruas, já que todos os rádios de todas as casas estavam sintonizados no Grande Jornal Falado HM, justamente pelo texto do Vieira Filho interpretado por Barros Júnior.

                        Foram 73 anos de vida terrena, aproveitados para construir nome honrado, caráter firme, convicção de que somente pelos caminhos do bem e da paz se faz um mundo melhor. Ao longo destas mais de sete décadas, Guaracy deixou um rastro de sabedoria, de convivência sadia e edificante e, principalmente, deixou bons exemplos e saudades.

                        Hoje, em 2018, vinte e sete anos após a partida, o cidadão Guaracy e o cronista Vieira Filho são lembrados pela comunidade que o acolheu e onde fixou raízes, constituiu família, honrou e amou como se dela fosse fruto, o que, de certa forma, é verdade, pois fez por nossa cidade mais que muitos conterrâneos que tinham estas responsabilidades.

                        Ao longo dos 73 anos em que permaneceu entre nós fisicamente, Guaracy Paraná Vieira exerceu profissionalmente, inúmeros cargos de relevância na administração municipal. Era um homem público, não político, e fez da sua competência um baluarte para o engrandecimento da cultura e da educação. Ocupou cargos equivalentes a secretário municipal de Educação e Cultura, diretor da Biblioteca Pública, dentre outros, e foi um dos alicerces da implantação da nossa Universidade Estadual.

                        Também, pôs-se à disposição da doutrina espírita em Ponta Grossa e em todo o estado, sendo um dos seus mais respeitados difusores.

                        Falar do Guaracy é recordar os bons momentos de uma convivência edificante, pois sempre vinha dele palavras e gestos de ternura, de amizade e a constante intenção de fazer com que o seu interlocutor se sentisse bem e em paz; falar do Vieira Filho é recordar as crônicas que retratavam a cidade com um carinho tão especial sobre as coisas que, parece, somente ele via, e nos dava a exata noção do que é viver em sociedade, do que é viver em paz e, principalmente, enaltecia o valor de tudo e de todos, refletindo o seu olhar sensível às coisas boas que há ao nosso redor, por mais que nem todos as enxergassem; falar do Guaracy é recordar o homem simples, trabalhador, que sempre estava satisfeito com a vida e feliz com o que possuía, pois nunca desejou nada além do necessário para viver com dignidade e ajudar a quem precisava; falar do Vieira Filho é recordar os instantes comoventes que as suas palavras radiofonizadas nos propiciavam, trazendo pedaços da cidade que sequer supúnhamos existir, e com tal riqueza de detalhes que surpreendia; falar do Guaracy é recordar o marido, pai, avô devotado e amoroso, sempre presente, transmitindo confiança, segurança e paz na estrutura familiar.

                        Olá, Guaracy; olá, Vieira Filho! Obrigado por ter sido o meu pai, por ter sido o cronista e por ter sido o homem exemplar para toda a comunidade ponta-grossense!

                        E a data de hoje é especial. Aproveitamos o espaço que ele conquistou na radiofonia e no jornalismo, e nos deixou de herança, para dizer “Feliz Aniversário, meu pai! Que Deus continue a te abençoar para que você possa continuar a ser o nosso Anjo da Guarda!”.

                        Parabéns, Guaracy (Vieira Filho) pelos seus CEM anos de existência!

Guaracy Paraná Vieira escreveu cerca de 16 mil crônicas

 

Pés

Na técnica de striptease, o calçado a ser usado precisa ser descomplicado, sem amarras, fivelas ou cadarços. Um sapato modelo escarpim, por exemplo, simples de ser arrancado, seria o mais indicado. Curioso! É para seduzir, enfeitiçar e, ao mesmo tempo, tirar. O que se usa nos pés incrementa a beleza da dança, do rebolado e depois desnuda no ato ensaiado. Parte do corpo, normalmente desprezada, tão pouca atenção recebem os pés, mas que firmemente nos sustentam, movem e servem de guia à cabeça, turista dessa vida. Uma imagem pitoresca e surreal poderia abarcar a cabeça como a grande expectadora e observadora de tudo, mas que não move a si, eterna dependente da boa vontade do conjunto do corpo em ossos e músculos. Em 25 de outubro é comemorado o Dia do Sapateiro, ou seja, aquele profissional, tão raro, que se dedica a confeccionar sapatos. A origem da data remonta aos irmãos Crispim e Crispiniano, na França do século III, que durante o dia pregavam o Cristianismo e à noite trabalhavam no ofício de artesões sapateiros. Durante a perseguição aos cristãos, à época, ambos foram mortos. Muito intrigante a relação possível de se estabelecer entre a vida prática, física e a de natureza espiritual na inspiração para a data, por meio da pregação os irmãos ensinavam um caminho espiritual e como suporte auxiliavam, durante a caminhada, protegendo os pés confeccionando sapatos. Aliás, a profissão de sapateiro é das mais antigas do mundo, existindo praticamente desde que o ser humano passou a sentir necessidade de proteger seus pés de toda sorte de perigos e desconfortos.

Para muitos um símbolo de fetiche, de despertar atração e desejo sexual em tomar o resto do corpo iniciando pelos pés. Nesse raciocínio voltaríamos ao striptease, desnudando e revelando esses serviçais corporais que nos sustentam. Na visão da Antroposofia, filosofia que estuda o desenvolvimento do ser humano ao longo de toda a sua jornada de existência e as interfaces com o mundo espiritual, a cabeça é um monumento ao passado, nela se guardam as memórias, as vivências mais antigas, do próprio indivíduo e de toda a coletividade, praticamente só reflexo, inerte, requerendo um esforço ativo de cada pessoa para iluminá-la por meio de um pensar vivificado. Aos ágeis pés cabe a simpática missão de percorrer o mundo, correr, procurar, desbravar novos locais e modos de vida, donos de uma sabedoria instintiva que sempre indica para onde ir. Porquanto acarinhar e proteger os pés é acarinhar e “abrir alas” positivamente, ao futuro, na simbologia dos pés que sabem o caminho e se lançam destemidos. O andar firme, confiante, postura ereta, remete a alguém bem posicionado e bem encaminhado na vida. Na materialidade que nos acomete em requintes de marketing e propaganda excessivos, há marcas de sapatos estrategicamente relacionadas ao status e ao poder social, outra forma, materialmente distorcida, de associar os pés (sapatos) a um caminhar de sucesso, inda assim corretamente remetendo os pés à ideia do modo de andar na vida.

E eis que a Cinderela, aquela moça graciosa do conto de fadas, é reconhecida pela singularidade na delicadeza dos pés. Arriscaria aqui o palpite da associação dos pés com a qualidade da máxima virtude e refinamento femininos. O que veste nossos pés também é alvo constante da moda, em ditames que, ora denotam firmeza, força, em botas pesadas e de estilo militar ou country, ou ainda sandálias “troianas” que vão ao passado chamar pela força dos grandes guerreiros, ora clamam por malícia e jogo do poder de sedução em saltos altíssimos. A mulher do alto de poderosos saltos sempre como uma sedutora, igualmente, poderosa, pairando sobre o mundo masculino como uma bailarina das nuvens.

A indústria e a produção em série, massificada, já arrebatou para si a confecção e disponibilização de milhares de pares de sapatos, fazendo do velho sapateiro uma figura rara, quase um ser fadado ao passado, como já ocorreu com tantos outros profissionais. No Brasil, até a chegada da corte portuguesa, os sapatos apenas protegiam os pés, passando, a partir desse evento, a sofrerem influência da moda. Os escravos não podiam usar sapatos, contudo, quando alforriados, compravam sapatos como sinal de status. Ironicamente, como não possuíam o hábito do uso, acabavam fazendo deles objeto de decoração da casa ou carregavam nas mãos ou nos ombros. Ainda mais irônico, carregar nas mãos o objeto que deveria carregar os pés. Isso só pode ser obra da cabeça, que presa ao passado, não reconhece quem mais fiel lhe seja. Por certo essa não foi a última peça desse striptease, entretanto, desnudou, mais um pouco, nossos pés e nossa mente.

A simbologia associada aos pés
(Foto: Renata Regis Florisbelo)

 

FACETAS DO FEMININO - Vulnerável

Tinha medo do mar. Olhava para as ondas e temia ter seu corpo arremessado longe, atirado contra os rochedos. À mercê do sabor e do capricho das águas. Quando menino, diziam-lhe que ele tinha que ser forte, jamais esmorecer, demonstrar coragem, irrestrita e sempre. Entretanto, contrário às expectativas, não era assim com tanta segurança que ele se percebia diante na vida. Às vezes, era muito difícil dar passos sem saber ao certo para onde o encaminhariam. De suas próprias escolhas toda a sorte de bifurcações e ramificações em novas e imprevisíveis perspectivas.

 

Olhava para o mar, via ao longe aparente calmaria, um horizonte azul e cinza, mescla delicada entre céu e mar. Por mais grandiosa que fosse a beleza da paisagem, jamais garantiria o retorno seguro. Doce imersão na vida, quem dera fosse! Tinha seus pés na areia da praia, as ondas mais afoitas vinham tentar lhe banhar as pernas e ele, impávido, recuava, fitava ao longe, mais perto do imponderável. Até que num momento abaixou-se, pegou um punhado de areia, segurou com as mãos em concha e avançou. Deixou que a água transbordasse sobre o punhado de grãos, levando-os de suas mãos. O que permanece e o que se vai? O que nunca volta atrás? A tez séria indicava preocupações, não queria tornar-se torrente de lamentações. Foi quando, num rompante de vitalidade e graça, eis que a quebra do marasmo veio rápida e vibrante na forma de uma menina que correu, sorriu e mergulhou na água. Maiô vermelho, não se conteve, foi além da arrebentação e vibrou com as intensas espumas. O homem se desmanchou em sorrisos, contudo a testa recuou e voltou a franzir:

- Priscila, cuidado com as ondas!

A pequena ainda mais sorriu, gargalhou, olhou para ele, sem nenhum resquício de preocupação, e disse:

- Não se preocupe papai, sou peixe que nasceu no mar.

A vida é mesmo misteriosa, qualquer medo se aplaca quando o amor vem brincar.

 

Trança

Ela atravessou a rua. A avenida movimentada no centro da cidade. Não havia sinaleiro, uma faixa simples que não era elevada. Alguns carros paravam generosos e conscientes, outros, completamente a ignoraram. Moça de aparência humilde, sapatilhas nos pés, saia comprida, casaco leve, ainda não chegara o frio em sua lide. Nos braços seu maior relicário, um bebê recém-nascido. Carregava com jeito, com cuidado, com total zelo. Daria sua vida por ele. Aliás, já dera seu corpo, sua alma, seu espírito, que solidariamente se ofertou em nobre tarefa. Sabe, intuitivamente, que a mulher é o veículo que faz a esse mundo vir toda gente.

Nas costas, descia longamente em dorso e ancas uma trança. Cabelo forte, vitalidade vibrante, essa mãe faz do próprio corpo, em pele, entranhas, calor e ventre, o portador e o caminho para que o amor siga em frente, um pedaço do próprio Cristo quando se doou incondicionalmente.

 

Cadeira de balanço

Na realidade a cadeira não balançava. Era uma poltrona confortável e firme o objeto no qual ela se apoiava. Recostava o corpo, a cabeça, observava todos e deixava a mente vagar. Cabelos completamente brancos havia muitos e muitos anos. Possivelmente um dos poucos tempos de descanso desde a época de menina no trabalho pesado da roça, em especial atenção às vacas e às galinhas. Leite tirado, ovos coletados, serviço nunca finalizado. Algumas fêmeas mais furiosas só se deixavam ordenhar pela Alice, tão forte que os animais de maior porte lhe rendiam respeito e submissão, qualquer ser é capaz de reconhecer quando há real dedicação. Da poltrona, no fim da vida, suas memórias lhe visitavam. E como eram gentis em visitas de vizinhos simpáticos, em roupas simples da lida diária, comadres sorridentes oferecendo produtos das suas lavouras, e mesmo as mães por ela auxiliadas mostravam seus filhos que ela, como parteira, ajudara a fazer vir ao mundo. A cadeira, que não balançava, era um reino completo em amplitude de recordações, lembranças completamente acalentadas e ninadas. Já fora uma menina animada, cheia de vitalidade; cresceu, virou mulher, foi mãe que da menina nunca esqueceu, viu netos e bisnetos, uma linhagem percorreu. Assim que faleceu, carinhosamente, foi o filho mais novo que, em prece, sua alma encaminhou. A imagem dela, qual aquarela, luminosa, faz sorrir de forma singela e generosa.

Expressões do feminino (Foto: Cássio Murilo)

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Cambalhotas no coração

Gaivota

Gaivota Angelina

Que voa tão alto

Ao mundo parece querer dizer

Posso ser feliz voando lá em cima

Ou numa pedra apreciando o entardecer”. Dione Navarro

 

Algumas coisas não têm explicação. Aliás, a magia não requer explanação. Não se precisa de teorias, de conceitos, de ciência especulativa quando o coração é que irradia e faz toda a vida adquirir novo sentido e amplidão. Outras tantas coisas são tão somente o que são, mas quando alguém lhes aplica uma outra diretiva e cria possibilidades além das expectativas, eis o que ainda mais nos dignifica. A escritora, farmacêutica bioquímica e docente da UEPG, Dione Navarro, conseguiu, pela segunda vez consecutiva, um feito raramente visto, lotou um auditório durante o lançamento de um livro de sua autoria. Em 2016, a apresentação ao público da obra “Corina Portugal - Súplicas e Respostas” encheu o auditório do Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa. Em 2018, no mês de maio, nova proeza, lotou o auditório maior da sede da OAB Ponta Grossa com adultos e crianças absolutamente embevecidos e enternecidos com o teor do livro infantil “Cambalhotas de versos”, envolvendo poemas da autora e ilustrações de Rute Yume Onnoda.

Sempre me pus a pensar quando e a partir de quais qualidades uma obra literária extrapola as páginas impressas e alcança o valor social. Especialmente se, logo de estreia, arrebanha a participação e o interesse real das pessoas. Assim fez Dione, seu lindo livro de versos para crianças já chegou a esse mundo dando cambalhotas de alegria e provocando a euforia nas crianças e a alegria nos adultos. No evento de lançamento, vários poemas do livro foram interpretados por alunos da rede estadual de ensino com a vibrante participação do boneco “Chiquinho” personagem de autoria da professora Marivete Souta de Moura repleto de tiradas do universo lúdico infantil. A música também fez parte das apresentações e, por fim, o palhaço “Picolé” fez tanta peraltice no palco que os adultos ficaram confusos achando que estavam malucos ou, simplesmente, teriam voltado e ser pimpolhos, pelo estado de diversão alcançada. Daqueles momentos quando a alma se faz pura e pequenina e mais parece sonho de menina. Aos meninos e homens feitos também uma súbita sensação de que a vida voltara ao mais puro estágio da imaginação.

 

Moldura

Hoje quando acordei

A vida resolveu me presentear

Olhei para a moldura da minha janela

Flores amarelas no ipê a desabrochar”. - Dione Navarro

 

A própria autora declarou, sobre sua infância: “Eu era feliz. A maior alegria era quando, uma vez por mês, ganhava, dos meus pais, um livrinho de histórias”, aludindo ao fato de que, no contexto da sua infância, não havia classificação entre ser pobre ou rico, havia sim a felicidade infinita em ser imaginativo. Quando se lê Dione Navarro, bem se vê que ali habita um coração pleno e abundante, alguém que irradia, na própria alquimia, tudo que lhe sensibiliza.

 

Penso no coração que pulsa e na motivação para a vida, sempre, como algo que se compartilha. Se não há amor, se a obra não vem como uma contrapartida do que nutre a vida, não encontra sintonia, tampouco o acalento no peito enternecido do público. O livro traz poemas simples, contudo carregados de profundo significado e metáforas do universo infantil que se harmonizam com os preceitos de qualquer vida. Dione revela um talento arrebatador para assumir a pele de qualquer bicho ou mesmo de seres, em princípio, inanimados, como um chinelo ou um porta-retratos e, por meio deles revelar qualidades e propósitos humanos, despertando e sensibilizando pela essência da criança. Uma vez já chamei a Dione de “mulher medicamento”, muito mais do que isso, ela é uma curandeira, uma bruxa boa, uma fada madrinha, que ensina desde criança a saber honrar cada instante da vida.

 

“No portão

www... quantas viagens fiz pela internet

Em cada barco... uma emoção

Nenhuma delas se compara

À ansiedade de esperar o carteiro no portão”. - Dione Navarro

 

Tal qual esse pequeno poema, igualmente já viajei pelo mundo. Nenhum lugar me trouxe maior revelação de a poesia que nasce do amor universal mais profundo. Corações como o da Dione, pleno em cambalhotas de emoção.

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Quando um livro alcança o coração (Foto: Deise Machado)

 

 

HOMENAGEM A EDMUNDO SCHWAB

Autora: Dione Navarro

Organização: Renata Regis Florisbelo

Ponta Grossa é uma cidade que, através de inúmeros poetas, respira poesia. Em prosa e verso. E dentre muitos que deixaram suas marcas em nossas calçadas, Edmundo Schwab, falecido em 2017, também deixou seu expressivo legado literário. No dia 05 de maio último, tendo por cenário a Biblioteca Pública Municipal Professor Bruno Enei, numa reunião da Academia Ponta-Grossense de Letras e Artes - APLA, muitos escritores e artistas estiveram presentes para prestar um tributo a Edmundo Schwab por meio de sua família, presente no local. As três entidades culturais de Ponta Grossa, APLA, Academia de Letras dos Campos Gerais - ALCG e Centro Cultural Professor Faris Michaele – CCFM, através de seus presidentes Dione Navarro, Luiz Fernando Cheres e Alana Águida Berti, respectivamente, numa homenagem conjunta, passaram às mãos das filhas e neta do homenageado, um diploma de agradecimento pelos relevantes serviços prestados à cultura de nossa cidade. Edmundo, além de sua atuação particular como poeta, colaborou significativamente com as três entidades, sendo integrante da ALCG, e tendo atuado como vice-presidente da APLA e presidente do Centro Cultural Faris Michaele. Num evento onde a emoção esteve em pauta durante toda a tarde, houve algumas apresentações artísticas como a do músico Allefer Rocha, ao violino, declamações de poesias do livro “Contrastes” de Edmundo Schwab, com esmero, conduzidas pela Profª. Maria Helena Costa e suas alunas Julia Gabriel Schenberger e Gabriela R. Luporini. Outros poetas também declamaram poesias de autoria do homenageado, como José de Bortoli Filho, Renata Florisbelo que realizou linda intervenção poética, e Dione Navarro que apresentou uma poesia de sua autoria como reconhecimento ao autor.  Luiz Fernando Cheres ressaltou a rica forma literária de Edmundo e Alana Berti, a importância do autor como esteio para a continuidade do CCFM.  As filhas de Edmundo Eliane e Edna Schwab, sob forte emoção, compartilharam relatos sobre momentos vividos ao lado de seu querido pai. A cerimônia finalizou com a comovente interpretação da música “Gracias a la vida” por Cristina Donasolo e Silvestre Alves, seguida de um coquetel. A reunião contou com a presença de integrantes da APLA, ALCG e CCFM, além de outros convidados.  As fotos registradas sob o olhar de Deise Machado completaram a sutileza de um momento inesquecível. 

Homenagem ao saudoso poeta Edmundo Schwab
Fotos: Deise Machado

 

 

 

19 anos da ALCG em 19 x 3 autores – Parte I

A Academia de Letras dos Campos Gerais - ALCG completa, em 2018, 19 anos. Quase duas décadas de encantamento, de produção textual nos mais variados estilos e, principalmente, de vida, haja vista que a arte nunca é produto isolado de seu autor, mas sim a expressão de uma existência, as motivações, os gostos, o que enternece e desperta os olhos do protagonista ou mero expectador escritor. Trago aqui, em três partes, uma pequena amostra do talento de alguns dos nomes que compõem nossa amada academia.

 

“Ídílio

 

Teus olhos são lindos

Como iguais nunca vi...

Desde que me olhaste,

Eu gosto de ti.

 

No mar desta vida

São farol, teus olhos,

Indicam-me o porto,

Me livram de escolhos.

 

Mas para esta dita,

Nunca se acabar,

Dá-me sempre a graça

Do teu doce olhar.”

Anita Philipovsky

 

“Generaliza-se a respeito do índio, aponta-se o índio como primitivo e brutal, encobrindo-se o formoso mundo espiritual de certas tribos, seguindo os nossos demagogos ‘civilizados’ as trilhas execrandas de outros séculos!”

Faris Antônio Salomão Michaele

 

“Um olhar, uma promessa insinuando leve carinho...

Um palpitar de sentimentos que confortam, envolvem e inebriam.

No palco – em apoteose – a juventude, a elegância e a beleza desfilam

e contracenam com o Senhor Bom Jesus do Monte, cristalizado pelo magistral

espírito de Bento Luis da Costa, entre anjos guardiões de insólitas capelas.

Em tais instantes o Olimpo é aqui, emoldurado pela graça, como aura a

instigar a natureza em seu encantamento, enovelando-se entre aplicações

sutis e delicadas, de cor única, a evocar insistente candura, entretanto

apta a jorrar arco-íris/sete cores.

Extasiado, o poeta desce das nuvens e, ousado, almeja

o mais puro abraço da deusa prometida!”

José Ruiter Cordeiro

 

“Creio que as pessoas devem escrever. Escrever poesias, crônicas, falar de sentimentos, pensar em que gostariam de deixar como conselho ou lição de vida para seus herdeiros, registrar como as pessoas vivem na sua época, como elas veem o mundo, falar do impacto das novas descobertas ou sobre como o passado de seus antecedentes as influenciaram. É a história perpetuada, é a chance de imortalidade que só precisa de disposição para escrever.”Lucia do Valle

 

“Do mar veio para a areia

a estrela jogada ao léu;

olhando-a assim tão alheia

penso que veio do céu.”

Amália Max

 

“Nas lembranças, em cadeia,

a verdade me angustia:

ver luzir a lua cheia

na varanda tão vazia.”

Fernando Vasconcelos

 

“As gralhas daqui semeiam

pinheiros no Paraná;

As aves acolá anseiam,

ter pinheiros como cá!”

Odenir Follador

 

“Cansa o vadio de seguir à toa,

pois derrotar o tempo é jogo insano;

cansa o rei de ostentar, com a coroa,

o tolo emblema do poder humano...”

Edmundo Schwab

 

“Mar revolto de tanta tristeza,

alegrias como ondas se foram.

Ficaram marcas na areia branca,

marcas no branco da vida, crueza.”

Neuza Helena Postiglione Mansani

 

“Canoa sem ninguém

Veio e se foi

Sem mim também.”

José Altevir Mereth Barbosa da Cunha

 

“Biblioteca

sem uso são

muitos faróis,

porém...

- todos apagados!”

Égdar Zanoni

 

“Amada minha eu quero retratar-te

Assim como és: belíssima... Mais bela

Que tudo que eu consiga na minha arte

Dizer, ou não dizer, por meio dela.”

Gabriel de Paula Machado

 

“Abandonei meus versos dissonantes

Sobre o cascalho agreste das estradas,

Palcos ideais de antigas caminhadas,

No encalço de castelos e gigantes.”

Sérgio Monteiro Zan

 

“Brilho

 

Vindo ao longe

Tal luz infinita

Com calor inebriante

Necessário à vida.

 

Galga os montes

A força implícita

No olhar brilhante

A paz querida.

 

Reluz fulgurante

Durante a caminhada

Mas finalmente o relance

Da reta da chegada.”

Alana Águida Berti

 

“Pinhão é castanha nobre

que só o pinheiro nos dá,

mas que até mesmo o mais pobre

pode ter no Paraná.”

Nylzamira Cunha Bejes

 

“Cheguei à esquina da vida

em busca de direção,

encontrei, então, guarida

dentro do seu coração.”

Antônio Queiroz Barbosa

 

“Viver sozinho é pouco.

Formar um ninho é sozinho.

Estar contigo é um ninho

Olhar o mundo é contigo.”

Renata Regis Florisbelo

 

“Cada vez...

 

Cada vez que me lembro de você

os meus olhos cintilam de alegria,

pois, não há neste mundo, bem se vê,

outro que mais feliz a mim faria.

 

Cada vez que me lembro de você

minha alma sorri e a cada dia

que passa mais amor sinto porque

sempre mais cresce a mútua simpatia...

 

Cada vez que me lembro de você

milhões de estrelas brilham com fulgor

no céu límpido, azul do coração.

 

Cada vez que me lembro de você

meu coração desprende tanto amor

que adquiro genial inspiração!”

Hilda Koller

 

“Lenda da mulher

 

Certo dia uma mulher estava passando pela estrada próxima da localidade de Pedra Grande, quando viu de repente surgir entre os escombros da mata um homem que flutuava no ar. Ele estava vestido de preto e calçava sandálias. Ao vê-lo aproximar-se a mulher perdeu os sentidos. Quando acordou estava na gruta diante do tesouro. Mas não conseguiu tocar em nenhum objeto, pois foi logo advertida e retirada de lá por um índio seminu, que desceu lentamente a rocha e desapareceu na vegetação.”

Isolde Maria Waldmann

 

Organização: Renata Regis Florisbelo