Janela Poética dos Campos Gerais
Helena para sempre Kolody

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Uma dama, uma diva, uma poeta divina, mulher que de muitas formas inspira. Símbolo da poesia do Paraná, sinônimo da universalidade da poesia. Existência atenta aos detalhes mais insignificantes até os magistrais, do trivial à magnitude do universal. Nela, o talento teve a ousadia de se espraiar e se aquilatar em infinitos versos. Uma mulher que, desde menina, ousou sonhar muito e segundo ela mesma: “O sonho é um voo. E o que digo é a sombra do que sonhei”.

Quando leio Helena Kolody, uma reflexão sobre o sonho torna-se inevitável. Aos olhos de qualquer pessoa, sonhar pode parecer um simples devaneio, um gosto que vira um desejo recorrente, até um fútil e egotista pensamento. Entretanto, quando se observa, lê e vislumbra o fulgir do sonho desta Helena, percebe-se nela algo infinitamente maior, como uma imaginação ativa e inspiração de natureza divina para captar e coadunar novas compreensões, visão privilegiada do universo e suas concepções.

 

“Gravitação

 

Fia o novelo oblongo das galáxias.

Tange o disperso rebanho dos astros.

Timoneira da Lua.

Domadora dos mares

rege o ritmo dançante

dum esvoaçar de pluma”.

Helena Kolody

 

De suas palavras, produto direto do sonho, uma magnitude que encontra e atribui a mesma grandeza a um grão de areia e, simultaneamente, ao maior astro no sistema solar exposto. Da menina religiosa, na fé caseira em hábitos de tradição da descendência europeia, à visionária, cósmica, curandeira pelas letras, sem jamais deixar de afluir sobre os alicerces do universo inteiro. O sonho lhe propicia a coesão sem jamais pervagar em tresvario.

 

“Areia

 

Da estátua de areia,

nada restará,

depois da maré cheia”.

Helena Kolody

 

Quando cheguei ao Paraná, frequentemente escutava seu nome que, em pouco tempo, se tornaria cada vez mais recorrente. Uma referência para estes tempos e quaisquer outros, poetisa polivalente. Nos momentos mais improváveis e nos mais oportunos, eis que alguém sempre fala ou a cita, não sem antes acalmar a própria respiração, esboçar um sorriso quase enigmático de admiração e de contemplação. Exagero? Não! Quando se fala da Helena, nada alcança, dela, a volição. Assim como Portugal tem seu poeta Camões, a Inglaterra tem Shakespeare, o Paraná tem esta senhora maior em lembrança e identidade na escrita, Helena Kolody. Nascida em Cruz Machado, de pai e mãe ucranianos, aprendeu piano e pintura que por certo possibilitaram em sua mente fértil uma trama ainda mais harmoniosa e bem escrita aos seus poemas, obras de sonoridade e serenidade qual a tecitura dos bordados tão cultivados em sua tradição familiar. Atuou como professora e foi independente e autônoma em ideias, versos, percepções e expressão sobre a vida. Sonhos e imagens privilegiados que brotavam em versos. A sua poética está para os sentidos humanos como a fenomenologia de Goethe está para a compreensão sobre a natureza. A Helena como desbravadora da atribuição mais refinada e cônscia dos sentidos em forma de palavras, aquilo que o pensamento, a intuição, e o gosto pela existência souberam erigir.

 

“Distância

 

Minúscula estrela,

pirilampo azul na fímbria do horizonte

a palpitar muito além do mais longe...”

Helena Kolody

 

E nesta sincronicidade do universo que ela tanto soube reconhecer, sua vinda a este mundo tem como portal de chegada a data de doze de outubro, dia no qual o Brasil honra sua padroeira, símbolo do feminino mais virtuoso. Sem exageros, esta Helena, virtuosa como só ela, faz jus a tão delicada data.

 

“Luz e sombra

 

Luz e sombra

lutam n’alma.

 

Só depois do sol ausente,

impera a noite.

 

Derrotadas

terra e treva,

reina a luz eternamente”.

Helena Kolody