Janela Poética dos Campos Gerais
Livre escolha

Tempos de lidar com escolhas, com o exercício de estabelecer e assumir os próprios critérios e seguir, mediante eles, em todas as decisões. Cada dia mais o ser humano adquire novas facetas de individualização e treina, ininterruptamente, sua individualidade, determinando claro posicionamento a respeito de cada assunto. Em tudo, desde a mera escolha de um cardápio, um hábito, esporte, até as mais excelsas esferas filosóficas que determinam o propósito de vida. Em tempos remotos, já fomos muito mais massa de manipulação do que somos hoje, crassa falta de liberdade e de maturidade para livre arbítrio e decisão. Os faraós, os césares, os antigos sacerdotes decidiam por nós. Qual crianças pequenas incapazes de gerir a si mesmos já fomos assim, um amontoado de qualidades em potencial num ser frágil, inseguro e incompleto para uma decisão pessoal. Gosto da imagem que algumas linhagens espirituais trazem, que observam a humanidade ao longo da existência e traçam uma trajetória comparando-a ao caminho percorrido por um indivíduo. Enquanto humanidade, já fomos bebês, crianças, jovens, adultos e, se tudo der certo, seremos anciões para, um dia, ascender nesta dimensão. É clara a existência de um processo evolutivo, perceptível, quase literalmente, no ar que nos rodeia. Basta ver a facilidade com a qual as crianças aprendem a utilizar as novas tecnologias, parece que já nascem prontos para o que lhes anteveem. Curiosamente, tal efeito indica também que há um processo de assimilação individual a partir do coletivo. Mas que ironia, de tanto que as pessoas do mundo todo se viciaram em parafernálias tecnológicas, que cada criança que aqui “desce” e vem, já absorve, antes da chegada, tais vivências em aprendizagem também. O fato é que tudo para o qual atribuímos importância, adquire valor para nós mesmos.

“Nada existe ‘em si’ ou ‘para si’, o mundo é um tecido de relações; não se pode apanhar a mínima coisa se não for na rede e nos nós das interdependências que a constituem. Isto é verdadeiro para a matéria e isto é verdadeiro também para a natureza do homem, seu corpo, e os pensamentos que o animam...”

Jean-Yves Leloup

Seja qual for o pensamento espiritual que tenhamos, acorre que a evolução no desenvolvimento das potencialidades humanas ao longo do tempo é fato. Para os que compactuam com uma premissa reencarnatória, justifica-se pelas sucessivas vivências e passagens pelo mundo físico. Para os que atentam à apenas uma única existência, encontra justificativa, tal evolução, na genética transmitida à cada geração que compartilha, via DNA, o aprendizado de cada linhagem familiar.

O ser humano passou pelo desenvolvimento do corpo físico, da vitalidade, sua alma refinada e complexa, como um diapasão, já vivenciou a fase de aprender a educar suas sensações e sentidos. Conquistamos, graças à atuação da civilização grega, saber lidar com a filosofia, com o raciocínio, com a inteligência, com as artes. Agora, somos postos à prova através do que de mais desafiador poderíamos encontrar, o desenvolvimento da alma da consciência, ética e moral testados e aquilatados a todo instante. Nunca tantos apelos materiais estiveram disponíveis a nós, tampouco com tantos requintes de riqueza, luxo e ostentação. Nunca estivemos tão preparados para acepção e volição sobre a escolha dos preceitos de liberdade, igualdade e fraternidade por meio da arte social, a trama das relações humanas colocando o respeito mais primordial em pauta. Não obstante todo este contexto, nunca nos acometeram, antes, tantas dificuldades em colocar todos estes princípios em prática.

 

“O apego é aquilo que nos impede de estar em harmonia com tudo o que é; ele estabelece uma relação de posse e de dependência que é o contrário de uma relação verdadeira”.

Jean-Yves Leloup

Ante tal cenário, no âmbito político, temos percebido um verdadeiro festival no qual impera a falta de respeito e de capacidade de um olhar minimamente amoroso para com o processo do outro. Nossas escolhas são individuais, embora jamais deixem de ter efeito no coletivo, o que não justifica o desrespeito com elas. O mínimo que se espera do indivíduo cônscio é deixar prevalecer o direito ao livre arbítrio do outro sem inculcar-lhe o próprio pensamento. Novamente, a exemplo do pleito anterior para presidência da república, neste ano, um rol acirrado de agressões ao pensamento alheio, ironias contra a escolha do outro, e um profundo descaso para com o processo evolutivo e de decisão dos demais indivíduos, prevalece. Um número assustador de pessoas não se contenta com suas preferências e força seu pensamento aos demais. Isto faz recordar que a primeira lei espiritual é “jamais invadir a vontade alheia”. Jamais um ser espiritual forçaria um indivíduo a alguma atitude. Nem mesmo nosso anjo pessoal é capaz disso, ele aguarda serenamente por nossas escolhas. O respeito ao livre arbítrio humano está acima de tudo. Se o indivíduo é jovem e está iniciando sua trajetória pessoal, igualmente tem todo direito de acertar e errar seus passos por livre escolha.

“Toda evolução é um retorno, um retorno que não é uma regressão. Retorno não quer dizer retorno para trás, mas retorno para “Adiante”, retorno e este lugar que é nossa origem e nosso fim, nosso alfa e nosso ômega: este lugar que é ‘fora do tempo’. Trata-se bem de Origem a não de começo”.

Jean-Yves Leloup

Anseio pelo momento no qual o olhar de cada um toque a alma dos demais e desperte, como um raio delicado, porém fulgurante, um imenso sentimento de gratidão e amor por revelar que existem outras searas, diferentes das minhas, a serem desveladas e, principalmente, respeitadas e acolhidas.

Autoria: Renata Regis Florisbelo