Janela Poética dos Campos Gerais
Pés

Na técnica de striptease, o calçado a ser usado precisa ser descomplicado, sem amarras, fivelas ou cadarços. Um sapato modelo escarpim, por exemplo, simples de ser arrancado, seria o mais indicado. Curioso! É para seduzir, enfeitiçar e, ao mesmo tempo, tirar. O que se usa nos pés incrementa a beleza da dança, do rebolado e depois desnuda no ato ensaiado. Parte do corpo, normalmente desprezada, tão pouca atenção recebem os pés, mas que firmemente nos sustentam, movem e servem de guia à cabeça, turista dessa vida. Uma imagem pitoresca e surreal poderia abarcar a cabeça como a grande expectadora e observadora de tudo, mas que não move a si, eterna dependente da boa vontade do conjunto do corpo em ossos e músculos. Em 25 de outubro é comemorado o Dia do Sapateiro, ou seja, aquele profissional, tão raro, que se dedica a confeccionar sapatos. A origem da data remonta aos irmãos Crispim e Crispiniano, na França do século III, que durante o dia pregavam o Cristianismo e à noite trabalhavam no ofício de artesões sapateiros. Durante a perseguição aos cristãos, à época, ambos foram mortos. Muito intrigante a relação possível de se estabelecer entre a vida prática, física e a de natureza espiritual na inspiração para a data, por meio da pregação os irmãos ensinavam um caminho espiritual e como suporte auxiliavam, durante a caminhada, protegendo os pés confeccionando sapatos. Aliás, a profissão de sapateiro é das mais antigas do mundo, existindo praticamente desde que o ser humano passou a sentir necessidade de proteger seus pés de toda sorte de perigos e desconfortos.

Para muitos um símbolo de fetiche, de despertar atração e desejo sexual em tomar o resto do corpo iniciando pelos pés. Nesse raciocínio voltaríamos ao striptease, desnudando e revelando esses serviçais corporais que nos sustentam. Na visão da Antroposofia, filosofia que estuda o desenvolvimento do ser humano ao longo de toda a sua jornada de existência e as interfaces com o mundo espiritual, a cabeça é um monumento ao passado, nela se guardam as memórias, as vivências mais antigas, do próprio indivíduo e de toda a coletividade, praticamente só reflexo, inerte, requerendo um esforço ativo de cada pessoa para iluminá-la por meio de um pensar vivificado. Aos ágeis pés cabe a simpática missão de percorrer o mundo, correr, procurar, desbravar novos locais e modos de vida, donos de uma sabedoria instintiva que sempre indica para onde ir. Porquanto acarinhar e proteger os pés é acarinhar e “abrir alas” positivamente, ao futuro, na simbologia dos pés que sabem o caminho e se lançam destemidos. O andar firme, confiante, postura ereta, remete a alguém bem posicionado e bem encaminhado na vida. Na materialidade que nos acomete em requintes de marketing e propaganda excessivos, há marcas de sapatos estrategicamente relacionadas ao status e ao poder social, outra forma, materialmente distorcida, de associar os pés (sapatos) a um caminhar de sucesso, inda assim corretamente remetendo os pés à ideia do modo de andar na vida.

E eis que a Cinderela, aquela moça graciosa do conto de fadas, é reconhecida pela singularidade na delicadeza dos pés. Arriscaria aqui o palpite da associação dos pés com a qualidade da máxima virtude e refinamento femininos. O que veste nossos pés também é alvo constante da moda, em ditames que, ora denotam firmeza, força, em botas pesadas e de estilo militar ou country, ou ainda sandálias “troianas” que vão ao passado chamar pela força dos grandes guerreiros, ora clamam por malícia e jogo do poder de sedução em saltos altíssimos. A mulher do alto de poderosos saltos sempre como uma sedutora, igualmente, poderosa, pairando sobre o mundo masculino como uma bailarina das nuvens.

A indústria e a produção em série, massificada, já arrebatou para si a confecção e disponibilização de milhares de pares de sapatos, fazendo do velho sapateiro uma figura rara, quase um ser fadado ao passado, como já ocorreu com tantos outros profissionais. No Brasil, até a chegada da corte portuguesa, os sapatos apenas protegiam os pés, passando, a partir desse evento, a sofrerem influência da moda. Os escravos não podiam usar sapatos, contudo, quando alforriados, compravam sapatos como sinal de status. Ironicamente, como não possuíam o hábito do uso, acabavam fazendo deles objeto de decoração da casa ou carregavam nas mãos ou nos ombros. Ainda mais irônico, carregar nas mãos o objeto que deveria carregar os pés. Isso só pode ser obra da cabeça, que presa ao passado, não reconhece quem mais fiel lhe seja. Por certo essa não foi a última peça desse striptease, entretanto, desnudou, mais um pouco, nossos pés e nossa mente.

A simbologia associada aos pés
(Foto: Renata Regis Florisbelo)