PENSAR SEM MEDO
A Biruta Ministerial

A biruta é um aparelho para indicar a direção dos ventos. Por isso ela muda, ao sabor das correntes, a direção que indica de forma inconstante e aleatória.

Desde que eleito o presidente, capitão reformado, vem se comportando como uma biruta. Começou anunciando 15 ministérios, depois 17, então 19, agora qualquer coisa que signifique um enxugamento. Já foram extintos os ministérios do Meio Ambiente e do Trabalho, para então renascer com desculpas e salamaleques verbais.

Não obstante estas dificuldades que bem demonstram o açodamento e a falta de um plano que dê consistência e norte para o futuro governo, a pletora de indicados egressos das forças armadas por suas patentes militares, demonstra um desserviço à compreensão da democracia como um governo civil.

O Ministério da Defesa criado por FHC é uma instituição política e deveria ser ocupado por um civil como a tradição reforçou até fevereiro de 2018. Então um presidente, rejeitado por mais de 80% da população e sob a ameaça de ser processado pelo Congresso, indicou um General da Reserva para a pasta num mal disfarçado casuísmo.

Agora, o presidente eleito, indicou um general para vice-presidente, indicou outro general para o Gabinete de Segurança Institucional, outro para a área de infraestrutura e, por fim, o assessor do presidente do STF, general Azevedo e Silva para o Ministério da Defesa.

Inicialmente a equipe de transição chegou a apontar a escolha de um oficial general da Marinha para a posição, numa chocante semelhança com os revezamentos na Chefia do Estado Maior das Forças Armadas da época da Ditadura Militar em que as armas se sucediam. Fica apenas o mal-estar de uma pletora de fardas verde oliva na esplanada dos ministérios.

O representante da aeronáutica, como se tal fosse necessário, é o astronauta aposentado Marcos Pontes. Ocorre que Pontes tão logo pôs os pés no Brasil, pediu a reforma para privatizar lucros de um imenso investimento público feito no envio de um astronauta brasileiro ao espaço.

A indicação de um general para o Ministério da Defesa é um claro retrocesso institucional. A indicação de algo como 30% dos ministros egressos das forças armadas é inequívoco desapreço às instituições civis do Estado e uma perigosa manobra trazendo para o centro das decisões políticas autoridades militares.

Os encontros e desencontros dos discursos de indicados para o ministério, bem como de sua organização, da importância, da existência e da efetividade de órgãos que devem dar sustentação às instituições da república são um grave sintoma de que não discutimos nada na eleição que garantisse um projeto, uma forma de gestão do Estado que seja compreensível e que garanta estabilidade.

Os recuos de Bolsonaro provavelmente inflarão a eleição de Renan Calheiros para a presidência do Senado e então, todo o esforço realizado pela população brasileira para reformar o sistema político terá sido em vão.

Não se trata aqui de fazer oposição por oposição. Não se trata aqui de estar à esquerda ou ao centro em relação ao presidente eleito. Está-se apontando que o governo eleito se comporta como uma biruta de aeroporto, que muda de direção conforme batem os ventos, não há programa, não há plano, não há consistência. Tal é a receita do fracasso.

Com Renan Calheiros no Senado, com Rodrigo Maia na Câmara, com 5 generais e um astronauta na esplanada dos Ministérios é bom nos acostumarmos com a ideia de fazer trincheiras em nome da Liberdade e da Constituição!

Liberalismo, uma defesa da sociedade civil!

O Brasil nasceu sob o signo do Liberalismo e do Constitucionalismo. Seu primeiro imperador era um estudioso das modernas doutrinas políticas concebidas na França pós-revolucionária, tendo como condutor o pensamento de Benjamin Constant.

O recente pleito mostrou, de maneira escancarada, o redescobrimento do amor pelo autoritarismo, do ressurgimento da predileção por aquilo que De La Boétie chamou de servidão voluntária.

Essa ascensão do autoritarismo não é outra coisa que a crise do liberalismo. As incoerências que desde o nascimento a sociedade brasileira e apesar da Constituição liberal de 1824, que conviveu durante 66 anos com a escravatura, denunciam um déficit de humanidade, de direitos e de civilidade que marcou profundamente nossa história.

Esse é o momento de deslegitimação da ideia liberal. Questionam-se a igualdade das mulheres, dos direitos de transgêneros, de homossexuais, as afirmações de raça, as políticas voltadas para as minorias, o combate ao abuso das armas.

O combate ao liberalismo surgido com o PT na década de 80 instalou-se no planalto e produziu um reavivamento do pensamento de direita reacionário, alimentado pelo mesmo preconceito contra as ideias liberais.

A descrição desse pensamento como um mal é o maior desserviço à cidadania e é em extremo mendaz. O resultado são mensagens de retrocesso político que não se calam, plasmando-se em imagens de mau agouro.

Bolsonaro, presidente eleito, tem repetidamente dado sinais do seu desapreço pela sociedade liberal, pelos seus valores. O Ministério da Defesa nasceu no governo FHC como a instituição comandada por civis, colocando sob a égide dos poderes constitucionais as Forças Armadas, afastando-as do proscênio e ressignificando sua atuação na sociedade. A designação de um General para o ministério por Temer e agora de Augusto Heleno pelo eleito são um imenso retrocesso, um desserviço à sociedade.

Num de seus discursos justificou, o presidente eleito, a indicação de oficiais generais para os ministérios e a do astronauta Marcos Pontes com a necessidade de trazer para o centro da política as Forças Armadas.

Mas foi exatamente contra isso que se fez a redemocratização, para simplesmente romper com a tutela das Forças Armadas, que usurparam o poder moderador em 1889, foi isso que a sociedade brasileira buscou e alcançou na elaboração da Constituição de 1988 - a volta dos militares à caserna. Agora, o retrocesso.

A subserviência dos poderes civis ao pensamento antiliberal e militarista se mostra de maneira aterradora na indicação que Gilberto Kassab, ministro das Comunicações de Temer fez com a indicação de um General para comandar os Correios, num mal disfarçado estratagema para impedir sua privatização.

Bolsonaro diz que a Constituição é o norte de toda democracia. Mas quando não temos mais que um simulacro de democracia, quando os poderes civis da república cedem passo ao militarismo escancarado, quando o pensamento liberal, agastado pelo progressismo é então derrotado, aniquilado pelo reacionarismo, o que será o norte do Estado nascido de concepções tão empobrecidas?

Esse é o momento em que todos os brasileiros, com um sentido de dever genuíno para com os grandes princípios que constituem sua tradição liberal, devem resistir aos ataques tanto do socialismo quanto do fascismo.

Resistir em defesa da sociedade plural, rica em tradições culturais, prenhe de diversidade, impedir que nos rendamos à unanimidade burra, ao som abafado dos coturnos, ao discurso monótono do atraso.

 

Laércio Lopes de Araujo

[email protected]

 

 

O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.

 

Tem que ver isso daí, tá Ok?

Passaram-se três dias da eleição mais imprevisível da história e apesar da campanha eleitoral, os brasileiros simplesmente não têm a menor ideia do que será o governo eleito! Nem poderiam ter, a campanha foi apenas um show de horrores!

Enquanto o candidato derrotado com 31% dos votos, 44% dos votos válidos só soube prometer o congelamento do preço do botijão de gás e 20% de aumento no valor do bolsa família. O candidato que fez 39% dos votos, 55% dos válidos, fez apenas prometer 13º para o bolsa família e mandou todo mundo ir procurar uma resposta para os problemas no “Posto Ipiranga”!

A primeira constatação é que 30% dos brasileiros votaram branco, nulo ou abstiveram-se pela simples impossibilidade de escolher entre a “cruz e a caldeira”! As discussões que se travam pela mídia impressa e pela internet demonstram de forma inequívoca, despreparo, descoordenação e falta de consistência política para tratar dos assuntos mais relevantes de um país de dimensões continentais, com problemas ameaçadores de administração e governabilidade.

Bolsonaro é um capitão reformado do exército que permaneceu durante 27 anos no Congresso sem fazer nada de relevante. Integrante do baixo clero, tinha posições nacionalistas, reacionárias e estatizantes. Uma visão de mundo limitada e obtusa que se traduziu em discursos exaltados de apologia às armas, à intolerância, à violência, sem jamais alinhar-se com ideias liberais e progressistas.

Apontou de maneira absolutamente irresponsável para Paulo Guedes, Onyx Lorenzoni e Augusto Heleno como os arquiduques de uma monarquia pessoal voltada para o voluntarismo escapista. Mas enquanto Onyx Lorenzoni quer fazer uma reforma da Previdência mais radical o ano que vem, sem dizer claramente ao eleitor brasileiro qual é a proposta e qual a repercussão social, Paulo Guedes o Czar da Economia, reúne os ministérios da Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio Exterior e quer aprovar a proposta Temer num Congresso no ocaso.

Ao mesmo tempo se entrega o Ministério do Meio Ambiente para o da Agricultura e os ruralistas passam a dominar o cenário político nacional. A mesma elite que derrubou o Império para evitar o desenvolvimento de uma democracia plena e da mudança da matriz social do país. Ou seja, mais do mesmo na busca e perseguição do atraso.

Enquanto isso o nosso Gherardo Colombo, que tenta emular a Operação Mãos Limpas, passa à “rasgação” de seda para com o governante de plantão, numa demonstração vergonhosa de beija mão e busca de atingir projetos pessoais às custas da credulidade do povo brasileiro. Moro, ministro da Justiça ou ministro do STF é a confissão da vitória da vaidade pessoal e do projeto carreirista sobre o dever de imparcialidade e de aplicação cívica do direito.

Gherardo Colombo em 2007 renunciou à magistratura porque em suas sábias palavras, entendeu que não era possível combater a corrupção por meio da justiça.

Bolsonaro é a ponta do Iceberg ainda invisível aos incautos de que o Presidencialismo de Coalizão é um sistema político em crise. Essa crise trouxe-nos a um momento particularmente delicado de generais brigando por cargos na equipe de transição. Equipe esta que ainda não tem a menor ideia, nem tem entre eles qualquer consenso sobre o que deve ser feito, faltando apenas 60 dias para a posse do governo.

A redução do número de ministérios para 16 é apenas a constatação de que a estrutura estatal no país é reflexo do sistema político em crise. Mas é necessário que haja pelo menos um capitão, mesmo que reformado, que saiba o que está fazendo, o que não parece o caso.

Tem que ver isso daí, tá Ok?

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.

 

 

 

Fake News e Pós-Verdade

Discute-se intensamente, nessas eleições, o poder e a importância do que se convencionou chamar de fake News. Mas talvez, tenhamos que reconhecer que tratamos das fofocas, aquele velho hábito de falar do que não se sabe.

A fofoca consiste não somente no ato de fazer afirmações que não estão fundamentadas em fatos concretos, especulando em relação à vida alheia, mas também em divulgar fatos verídicos da vida de outras pessoas sem o consentimento das mesmas, independente da intenção de difamação ou de um simples comentário sem fins malignos.

Com o advento das redes sociais qualquer pessoa em qualquer lugar pode gerar conteúdo, gerar informação, disseminar fofocas. Essa ferramenta em que não há qualquer tipo de checagem é o berço para as fake News. O impacto dessas falsas notícias tem efeitos limitados, porque falam para pessoas que já querem ou acreditam naquilo que lhes é repassado.

O Ibope acaba de divulgar que as fake News divulgadas pelo WhatsApp tiveram efeito limitado no primeiro turno da campanha presidencial de 2018. Mais, que os ataques a Bolsonaro e a Haddad aconteceram na mesma proporção. Então, qual o motivo do alvoroço midiático e de todo um ramo do judiciário ficar fazendo tanto alarde com algo tão banal?

Uma notícia falsa compartilhada por milhares de pessoas e ganha peso de verdade, quando muitos dos internautas consomem essa informação somente nesses canais, ou seja, quando eles não checam, ou acreditam não precisar checar, se aquela notícia na timeline é um fato, não é determinante para uma escolha.

É assim que uma fake News ganha corpo. E não há sistema público que possa estabelecer um controle de fato sobre a crença e o desejo das pessoas. Portanto a discussão do que o TSE pode fazer para controlar, mitigar ou impedir tais divulgações é apenas diversionista e busca dar importância e relevância a um órgão mais que inútil.

Quando o receptor daquela informação não se dá ao trabalho de buscar mais informações em fontes diferentes, e em questões de minutos, os compartilhamentos já espalharam uma notícia falsa ao redor do mundo, não há nada, sem violência à liberdade de expressão e de pensamento, que órgãos judiciários possam fazer.

Exemplo acabado disso, foi a falsa estória de que Geraldo Azevedo teria sido torturado em 1969 pelo General Mourão, vice na chapa de Bolsonaro. Naquele ano, Mourão tinha 16 anos e ainda faltavam três para entrar no Exército. No entanto, Haddad não só comprou a estória pelo seu valor de face, não investigou sua veracidade, como saiu divulgando em entrevistas ao vivo!

É justamente o caráter das redes sociais que dificulta ainda mais uma prevenção contra as fake News. Num universo incrivelmente gigantesco de informação, como é possível que alguma ferramenta cheque todas as informações disseminadas?

Apesar das políticas de compartilhamento de conteúdo em diversos aplicativos de redes sociais, no Google, nos sites de imprensa, que nasceram com o intuito de eliminar esse tipo de material na internet ou aponta-los como falsos, a prevenção contra a disseminação não está nem perto de realmente ter algum mecanismo eficiente para acabar com as notícias falsas na web.

Obviamente que não é o Estado Brasileiro, nem a Justiça Eleitoral que vai descobrir o ovo de Colombo para poder mitigar a frequência, a intensidade e a disseminação das ditas fake News.

Então, vamos ser honestos. Essa discussão é apenas para levar ao proscênio instituições que precisam justificar-se. Nada que descida o abismo da escolha que faremos!

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.

 

Rosa Branca

Laércio Lopes de Araujo

Muitos acreditam que a democracia é o governo da maioria. Fosse assim, o nacional-socialismo teria sido um governo absolutamente democrático, na medida em que nas eleições de novembro de 1932 teve 32,6% dos votos e que em março de 1933 chegou a 43,9%. No entanto foi uma das ditaduras mais cruéis e sanguinárias da história da humanidade.

Não falo aqui do regime comunista instalado na Rússia de 1917 a 1991, porque este foi a tirania militar mais devastadora da história. Foi um regime imperialista que dizimou nacionalidades, de forma cruel expropriou, matou, exilou, provocou migrações forçadas e institucionalizou os Gulags, campos de trabalhos forçados que foram a resposta aos Campos de Concentração do Reino Unido contra os Bôeres e depois o modelo para os KZ na Alemanha Nazista.

Na democracia liberal, os governantes nunca têm mais que 35-40% dos votos dos cidadãos. Como no Brasil, espertamente, os votos brancos e nulos não são contados temos que, com pouco mais de 35%, alguém chega aos 50% mais um dos votos válidos. Então, numa democracia temos sempre o governo da maior minoria ou daquela minoria mais organizada.

Quando uma minoria chega ao poder com o espírito de revanchismo, de arrivismo ou de perpetuação e aparelhamento do Estado, começamos a correr o risco de a democracia desfazer-se num regime ditatorial, com a violação da liberdade de expressão, de pensamento, das instituições e da ordem jurídica.

A vontade da maioria, ou melhor, da maior minoria, não expressa o bem comum. Ela nunca fala por todos, nem de maneira a contemplar o direito individual de negar o absurdo da unanimidade burra.

Todo Regime autoritário busca dividir para governar. O autoritarismo é insidioso. Pode ser populista. Pode travestir-se de um pai dos pobres, de um líder operário que convida a não ter medo de ser feliz ou ainda um líder autocrático e militarista que propõe e defende a violência e o desrespeito às instituições democráticas.

Uma ditadura pode começar pelo estabelecimento insidioso do aparelhamento do Estado. Mas pode, também, começar pelo assalto às instituições, sua negação ou suspeição.

Uma ditadura sempre busca reprimir ao máximo a opinião pública, a liberdade de expressão, fazendo com que a população sinta medo de se posicionar contra o regime, através de ameaças e punições exemplares.

Durante o nazismo os que apoiavam o regime viviam sem maiores problemas, desde que se fizessem de mudos, cegos e surdos. Mas como não fazer nada enquanto pessoas inocentes eram escravizadas em campos de concentração? Os irmãos Sophie e Hans Scholl não ficaram calados, foi assim que nasceu o movimento Rosa Branca de resistência ao nazismo.

Nas eleições de 2018 que se avizinha, sobraram apenas duas propostas políticas radicais. Como se posicionar ante o risco de sucumbir a dois futuros igualmente nefastos?

Não é possível escolher entre uma plataforma sexista, homofóbica, racista e anti-democrática e outra que se mostra inconsistente, acrítica, subserviente, herdeira de um projeto de aparelhamento do Estado e de assalto aos cofres públicos para perpetuação no poder, com uma perigosa promessa de venezuelização do Brasil!

Não dá para escolher entre alguém sabidamente incapaz para governar e alguém sabidamente incompetente até para governar uma cidade!

Só nos resta resistir! Como a Rosa Branca ao nazismo, como os brancos na URSS! O preço de fazer uma escolha é reconhecer a legitimidade de duas faces medonhas do Brasil, escolher reconhecendo que não haveria ninguém melhor do que o coisa ruim e o ainda pior!

Que fazer? Votar em Branco e fazer Resistência!

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.

 

Venezuela ou Alemanha

Laércio Lopes de Araujo

 

 

Os brasileiros foram às urnas em 7 de outubro de 2018 e decidiram que no segundo turno farão a escolha entre dois futuros prováveis: o Brasil será uma Grande Venezuela ou uma Grande Alemanha?

O ministro Dias Toffoli, herança dos últimos minutos do lulismo, ao assumir a presidência do STF foi correndo visitar o General Villas Bôas, Comandante do Exército, pedir um assessor para o seu gabinete. Nada mais natural para quem acha que o Golpe Militar de 1º de abril de 1964 foi um “movimento” e não o ponta pé inicial de uma ditadura. Também é natural, na medida em que, não tendo nenhum dos pré-requisitos constitucionais para ocupar uma cadeira na mais alta Corte, que o dito ministro necessite de uma assessoria militar para auxiliar na chefia de um dos poderes da República.

De notar que Michel Temer, o vice-presidente escolhido duas vezes pelo PT e por Lula, tenha indicado um militar para Ministro da Defesa, rompendo com a tradição sadia inaugurada no Governo FHC de manter tal pasta com os civis.

Bolsonaro e Haddad estão estendendo tapetes vermelhos às altas patentes militares. Haddad depois do beija-mão a Lula em Curitiba, após ter passado para o segundo turno, foi pedir a benção aos militares.

Assim, os militares que deveriam estar zelando pela sua imagem e se distanciando das disputas políticas, estão sendo arrastados para o proscênio e passam a ser os mediadores, os moderadores do processo político numa demonstração estapafúrdia da fragilidade e da debilidade das instituições no Brasil. E isso quando se comemora apenas 30 anos da constituição.

Com a escolha que o povo fez nas urnas no primeiro turno, coloca-se então, uma opção clara aos brasileiros. Desejamos ser no futuro uma Grande Venezuela de 2016, com miséria, inflação, caos econômico, social e político, controle da liberdade de expressão e faremos uma constituinte fake, instituindo um socialismo bolivariano ou seremos uma Grande Alemanha de 1933, com um sujeito incapaz, governando com amparo na elite econômica e militar, produzindo miséria, inflação, falta de liberdade de expressão, com um nacionalismo xenofóbico, controle do judiciário e uma constituição ditada pelos mandarins de plantão?

Não há alternativa saudável para o país com as escolhas que se apresentam. O desalento, o desespero, a angústia de viver num Estado cujo futuro é sombrio, qualquer que seja a alternativa para governá-lo, não permite ao cidadão de bem fazer uma seleção consciente e segura.

Bolsonaro só existe porque o período lulo-petista produziu esta grotesca imagem da parcela mais reacionária da sociedade brasileira. Haddad é meramente uma criatura, um poste, um boneco de ventríloquo de um líder sem grandeza, de um político carismático que pouco está preocupado com a felicidade do povo. Que só pensa em sua projeção e poder sobre a triste história de um país desalentado.

Os militares nunca foram solução para o Brasil. Desde que por um golpe perjuro derrubaram a Monarquia têm ocupado sub-repticiamente o poder e nos legam sempre um sistema político pior do que aquele que encontraram ao assumir inconstitucionalmente o poder.

Os militares não são os salvadores da pátria. São aqueles que comprometem nosso futuro, que obscurecem nossa história sob o manto da violência, da desonra, do perjúrio e da falta do dever cumprido.

Uma escolha. Duas perspectivas mais que sombrias. Nenhuma chance de acertar!

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.

 

Introdução ao Desalento

Parafraseando Julio Cortázar em “Histórias de Cronopios e de famas” há que reconhecer que a tarefa de se levantar todos os dias, a tarefa de abrir caminho ante uma massa que não reflete sobre seu futuro todos os dias, de cada manhã topar-se com o mesmo desalentador futuro, com os mesmos juízes, com os mesmos políticos, com a mesma tristeza e miséria do povo, é um fardo doloroso e desalentador.

Não há mais porque nos atermos aos motivos que temos para chorar nossas mágoas ou nossas tristezas. Vivemos um período longo e sombrio de uma ditadura que perseguia seus oponentes, manipulava as instituições e também os juízes. Que silenciava a alteridade, mas que era eficiente na propaganda dos feitos nunca realizados.

Foi tão eficiente na manipulação do sistema político, que em 1946 criou dois partidos, o PTB e o PSD para exercer o domínio sobre uma constituinte não exclusiva, que foi eleita sobre os ditames e as regras do ditador. Uma constituição nascida já com sua vontade viciada e pronta para a legitimação da volta do salvador da pátria, que fazia apenas condenar o país ao atraso.

Um período de turbulência, inflação, desemprego, desalento e insanidade, levou a mais um golpe militar em 1964, instituindo um regime civil-militar cuja lógica, inserida na Guerra Fria, fazia a vez do nós contra eles, limitando a liberdade, limitando a escolha, legando-nos um sistema político corrupto, comprometido, coronelista, que se perpetuou, no falso Congresso constituinte eleito sob as regras do regime que se desintegrava.

Vieram eleições diretas para a presidência da república, eleições não vividas por pessoas que já tinham mais de 45 anos e nunca haviam votado para a primeira magistratura da nação. A novidade do segundo turno, colocou no primeiro confronto, do que se prometia ser a inauguração da democracia, um jovem tresloucado, “caçador de marajás” e um sapo barbudo, sem qualquer competência para o exercício da governação.

Difícil fazer acreditar a este povo dividido, dilacerado, imbuído da certeza de várias mentiras, contadas todos os dias, até que percebidas como verdades, que a imensa crise que destrói o tecido econômico e social do país foi gestado durante os governos mais corruptos da república. Que não são outros os responsáveis pela queda do PIB, pela disparada do dólar, pelos imensos déficits orçamentários, pela desesperadora desindustrialização, que não os governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Que o próprio Temer, presidente rejeitado por mais de 80% dos brasileiros, nos foi legado, nos foi imposto pelo PT e seus conchavos políticos para perpetuar-se no poder e aparelhar o Estado brasileiro.

Que um deputado absolutamente inexpressivo, representante do que há de pior no pensamento reacionário, que mesmo tendo ficado mais de 18 anos no exército nunca passou, na ativa, da patente de primeiro tenente é a criação monstruosa do pensamento esquerdista que quis impor-se ao povo brasileiro e agora nos coloca na situação de escolher entre o ruim e o pior.

Há pouco mais de 10 dias das eleições para a presidência da República, o desalento, o desespero, a tristeza, a falta de esperança, oprimem o coração dos brasileiros que gostariam de viver num país sem divisões de classe, de cor, de gênero, de direitos e deveres.

Confirmadas as pesquisas eleitorais, que colocam no segundo turno da eleição a perspectiva dantesca de termos de escolher entre o poste e a baioneta, teremos escrito as mais insólitas páginas de introdução ao desalento de um povo sem esperança.

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.

 

Deserto Eleitoral

As últimas pesquisas eleitorais para o Senado no Paraná apontam Roberto Requião com 40% e Beto Richa com 33% das intenções de voto! Será que nosso Estado não tem outras opções para sua representação que as velhas elites oligárquicas que se repetem?

Quando vemos a dificuldade de a democracia se consolidar no país, invariavelmente acusamos os políticos corruptos e os partidos como responsáveis pelo descalabro. Mas, esquecemos que, se as urnas eletrônicas forem efetivamente seguras, o quadro espantoso de falta de renovação, de políticos que se perpetuam e de corrupção e descaminho do Estado, são apenas reflexo dos votos dos brasileiros.

Renan Calheiros voltará ao senado com o voto dos alagoanos, Edison Lobão com os votos dos maranhenses e assim, podemos sem susto, constatar que o pior do sistema político se repete. Será que o brasileiro não sabe votar? Se sabe, por que as figuras mais rejeitadas da sociedade continuam a perpetuar-se nas instituições?

Roberto Requião elegeu-se governador e reelegeu-se apoiado na onda petista da década de 2000. De forma oportunista deu seu apoio ao PT e fez a oposição dentro do MDB nacional ao grupo de Romero Jucá e Eliseu Padilha, estando a reboque de Gleise Hoffmann e Lindberg Farias do PT no Impeachment de Dilma Rousseff e depois aliado na dissidência interna do partido a Renan Calheiros.

O Senador, ora candidato a nova reeleição, desde sua eleição a Deputado Estadual em 1983, nunca mais deixou de exercer cargo público. Interessante notar que vemos nos parachoques dos automóveis, alertas de que a política não deveria ser profissão, mas, a 35 anos esta “raposa da política” não faz outra coisa que estar comandando o seu feudo eleitoral, o MDB do Paraná, e liquidando toda e qualquer possibilidade de renovação política no estado.

Beto Richa não é muito diferente. Perpetua-se. Apesar de recentemente condenado por órgão colegiado em função de passar um “weekend” em Paris com a primeira dama às custas dos cofres públicos, é o forte candidato à segunda vaga ao Senado pelo Paraná.

A democracia liberal no Brasil vem mostrando de forma alarmante os seus limites. Não há renovação política. Richa e Requião se aliaram para liquidar toda e qualquer possibilidade de vicejar campanhas de outros candidatos às cadeiras de Senador, numa aliança espúria, negando aos paranaenses opções de renovação do quadro político.

Ambos articularam para tornar absolutamente deserto o campo eleitoral em torno de si, não permitindo o surgimento de novas lideranças. Gustavo Fruet foi limado na corrida a uma das cadeiras ao senado.

Assim, os paranaenses e os brasileiros não votam em candidatos que escolhem, mas, nas opções extremamente limitadas que o sistema político oferece, o que não permite nem a renovação política, nem a limpeza do estamento governante de agentes corruptos, ineptos e desleais.

Somos reféns das máquinas eleitorais e de leis que foram concebidas para perpetuação das oligarquias no poder. O nosso código eleitoral é herança do Regime Civil Militar de 1964. A própria existência de uma justiça eleitoral cada vez mais ativa no resultado é uma aberração herdada dos tempos de Getúlio Vargas.

Nós paranaenses, como os brasileiros, ficamos repetindo chavões contra os políticos corruptos e contra a situação escabrosa em que o país foi deixado pelo lulo-petismo, mas, insistimos em mais dos mesmos e como os estados do Nordeste, continuamos a eleger os oligarcas que se repetem acriticamente no poder. Por quê?

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.

 

Eleições e a Valsa Brasileira

Recentemente publicado pela Todavia, Laura Carvalho economista da USP publicou o livro Valsa Brasileira, uma excelente avaliação do cenário econômico desde o boom do início dos anos 2000 até o colapso econômico a partir de 2014.

De forma inteligente e acurada a economista apresenta os pilares do que chamou de “Milagrinho” no primeiro e, principalmente, no segundo governos de Lula da Silva. Também reconhece a importância dos ajustes macroeconômicos do período FHC mas, como boa economista de esquerda, minimiza a importância e as conquistas do período tucano.

Vivemos um momento de grande responsabilidade. Aproxima-se a hora do voto, da escolha dos legisladores e dos governantes do país para os próximos quatro anos. Para que se possa escolher com responsabilidade, há que reconhecer os méritos e os defeitos das propostas apresentadas, bem como, a capacidade de governar e a solidez intelectual dos candidatos que torne possível o exercício do poder e o fortalecimento das instituições.

Pesquisa da Folha publicada em 22 de agosto colocam Lula da Silva com 39% das intenções de voto seguido por Jair Bolsonaro com 19%. Não há que se surpreender que o ex-presidente esteja em primeiro lugar nas enquetes em que seu nome se apresenta como candidato.

Lula da Silva deixou o governo com mais de 80% de aprovação e graças a uma gestão econômica exitosa, deixou o governo em meio ao que Laura Carvalho chamou de “Milagrinho”. No período de governo, que se estende de 2005 a 2010, os ricos ficaram mais ricos e houve uma imensa transferência de riquezas para as classes C e D, aproximando estas camadas dos salários médios pagos no país.

A economista aponta, acertadamente, que com o fim do boom das comodities determinada pelo crescimento chinês, pelo aumento da liquidez internacional convertido em capital especulativo e pela mudança dos pilares de gestão econômica, principalmente privilegiando equivocadamente a Agenda Fiesp, todo aquele crescimento foi por fim esgotado e perdido pela recessão pantagruélica de 2015-2016.

 Não há surpresa que o povo perceba Lula da Silva como responsável pelo sucesso econômico e social do período de seu governo. Porque para o cidadão médio, não há como compreender que naquele momento histórico o Brasil se beneficiou de uma expansão mundial dos mercados e do aquecimento da venda de matérias primas, como soja, minério de ferro e petróleo.

Quando começou a desaceleração, após a crise de 2008, o Brasil, apesar dos bons fundamentos econômicos, não tinha um governo capaz de compreender que a crise internacional não era apenas uma “marolinha”, mas antes, um tsunami que permaneceu provocando desajustes no mercado internacional e que não só prolongaram as dificuldades econômicas, como engoliram os países voluntaristas que persistiram nos erros que vinham praticando de forma indolor no período de bonança.

Jair Bolsonaro é apenas o reflexo do anti-petismo. Um candidato absolutamente despreparado para a imensa tarefa de governar um país complexo, com imensos gargalos de infra-estrutura, com sérios problemas quanto à injustiça tributária e penando de maneira desproporcional para a manutenção e fortalecimento de suas instituições democráticas.

O discurso arrivista e irresponsável de Bolsonaro tem como objetivo, apenas e tão somente, torná-lo a parte visível do descontentamento contra o lulo-petismo, o que nos faz reféns de uma dicotomia inglória.

Lula da Silva e Bolsonaro são duas faces da mesma moeda. São bons exemplos de como apressar o passo para o abismo!

 

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.

 

 

Uma banana para o Brasil

O PT deverá no dia 15 de agosto de 2018, mais uma vez, demonstrar de maneira inquestionável o seu completo desrespeito às instituições e mostrar com eloquente coerência o desapreço pela democracia e pelo Brasil!

Tal demonstração se dará pela insistência em registrar como candidato à Presidência da República a Luís Inácio Lula da Silva, réu condenado pela Lava Jato a 12 anos de prisão, em sentença proferida pelo colegiado do TRF4, tornado inelegível nos termos da Lei Complementar n. 135/2010.

Muitos dos simpatizantes e correligionários do lulo-petismo alardeiam que uma eleição sem Lula é fraude. Ora, se assim é, o que justificaria que, negado o registro ao candidato preso, o PT anuncie um plano B com chapa chefiada por Fernando Hadadd? Se a eleição não tem legitimidade na eventual ausência do caudilho petista, qual o exercício ético que permite o lançamento de um candidato alternativo?

Uma das acusações que se fazem à chapa Alkmin-Ana Amélia é a aliança com o Centrão. Ocorre que os deputados e senadores que compõem o espectro político-partidário  chamado de Centrão foram eleitos pelo povo brasileiro. Se as eleições que deram a vitória por quatro vezes a candidatos petistas em 2002, 2006, 2010 e 2014 foram legítimas, se as urnas eletrônicas são seguras e garantem a idoneidade dos resultados eleitorais, assim também, colocam no Congresso uma maioria de deputados e senadores eleitos pelo povo, sem os quais não é possível governar.

Quando o PT, Bolosonaro, Cabo Daciolo, Ciro Gomes, Marina Silva atacam Alkmin por sua aliança eleitoral, atacam a cidadania, atacam sua própria legitimidade perante o povo brasileiro, porque quem elege é o cidadão que tecla seu voto na urna e escolhe seus representantes.

Podemos criticar o quanto quiser o sistema partidário-eleitoral, no entanto é este mesmo sistema que garantiu que as forças hoje opositoras também tivessem chegado ao poder.

Todos sabemos que sem maioria no Congresso o país é ingovernável. A Constituição de 1988 estabeleceu uma forma de governo que tem recebido o nome de Presidencialismo de Coalisão. Sem maioria parlamentar não há meios de governar o país.

Fernando Collor de Mello e seu partido de aluguel o PRN afundaram numa espiral de disputas políticas que levaram ao impeachment do Presidente sem muitas formalidades.

Lula da Silva transformou o sistema num Presidencialismo de Cooptação, o mensalão foi o mecanismo pelo qual o PT comprou, a peso de ouro, e que teve como preço final a mais devastadora crise econômica que o país viveu, a precária governabilidade com que buscou aparelhar o Estado brasileiro.

Dilma Rousseff, uma das mais inábeis e incapazes governantes do país, isolou o Planalto do Congresso e sua inabilidade política levou a uma crise que determinou o fim do seu governo por novo Impeachment em menos de 25 anos.

Como acreditar possível um governo da Rede, do PSL ou mesmo do isolado PDT, se seus lideres são incapazes de construir alianças que legitimem as políticas públicas que defendem implantar caso alcancem a Presidência da República?

O simples fato de pretender o registro de alguém preso é o mais escandaloso desrespeito às instituições. O discurso deslegitimador das eleições, seja do PT pela ausência de Lula no pleito, seja de Bolsonaro pondo em questão a seriedade do resultado das urnas eletrônicas é um grande desserviço ao Brasil.

O exercício da cidadania se faz pelo voto, respeitar seu resultado é pressuposto básico da Democracia!

 

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.