PENSAR SEM MEDO
Liberalismo, uma defesa da sociedade civil!

O Brasil nasceu sob o signo do Liberalismo e do Constitucionalismo. Seu primeiro imperador era um estudioso das modernas doutrinas políticas concebidas na França pós-revolucionária, tendo como condutor o pensamento de Benjamin Constant.

O recente pleito mostrou, de maneira escancarada, o redescobrimento do amor pelo autoritarismo, do ressurgimento da predileção por aquilo que De La Boétie chamou de servidão voluntária.

Essa ascensão do autoritarismo não é outra coisa que a crise do liberalismo. As incoerências que desde o nascimento a sociedade brasileira e apesar da Constituição liberal de 1824, que conviveu durante 66 anos com a escravatura, denunciam um déficit de humanidade, de direitos e de civilidade que marcou profundamente nossa história.

Esse é o momento de deslegitimação da ideia liberal. Questionam-se a igualdade das mulheres, dos direitos de transgêneros, de homossexuais, as afirmações de raça, as políticas voltadas para as minorias, o combate ao abuso das armas.

O combate ao liberalismo surgido com o PT na década de 80 instalou-se no planalto e produziu um reavivamento do pensamento de direita reacionário, alimentado pelo mesmo preconceito contra as ideias liberais.

A descrição desse pensamento como um mal é o maior desserviço à cidadania e é em extremo mendaz. O resultado são mensagens de retrocesso político que não se calam, plasmando-se em imagens de mau agouro.

Bolsonaro, presidente eleito, tem repetidamente dado sinais do seu desapreço pela sociedade liberal, pelos seus valores. O Ministério da Defesa nasceu no governo FHC como a instituição comandada por civis, colocando sob a égide dos poderes constitucionais as Forças Armadas, afastando-as do proscênio e ressignificando sua atuação na sociedade. A designação de um General para o ministério por Temer e agora de Augusto Heleno pelo eleito são um imenso retrocesso, um desserviço à sociedade.

Num de seus discursos justificou, o presidente eleito, a indicação de oficiais generais para os ministérios e a do astronauta Marcos Pontes com a necessidade de trazer para o centro da política as Forças Armadas.

Mas foi exatamente contra isso que se fez a redemocratização, para simplesmente romper com a tutela das Forças Armadas, que usurparam o poder moderador em 1889, foi isso que a sociedade brasileira buscou e alcançou na elaboração da Constituição de 1988 - a volta dos militares à caserna. Agora, o retrocesso.

A subserviência dos poderes civis ao pensamento antiliberal e militarista se mostra de maneira aterradora na indicação que Gilberto Kassab, ministro das Comunicações de Temer fez com a indicação de um General para comandar os Correios, num mal disfarçado estratagema para impedir sua privatização.

Bolsonaro diz que a Constituição é o norte de toda democracia. Mas quando não temos mais que um simulacro de democracia, quando os poderes civis da república cedem passo ao militarismo escancarado, quando o pensamento liberal, agastado pelo progressismo é então derrotado, aniquilado pelo reacionarismo, o que será o norte do Estado nascido de concepções tão empobrecidas?

Esse é o momento em que todos os brasileiros, com um sentido de dever genuíno para com os grandes princípios que constituem sua tradição liberal, devem resistir aos ataques tanto do socialismo quanto do fascismo.

Resistir em defesa da sociedade plural, rica em tradições culturais, prenhe de diversidade, impedir que nos rendamos à unanimidade burra, ao som abafado dos coturnos, ao discurso monótono do atraso.

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.