PENSAR SEM MEDO
Novo Governo, Velha Política!

Após instalar três generais e ter apenas o Ministro-Chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni como político no Planalto o novo governo, na tentativa de acelerar sua agenda no Congresso, lança mão dos velhos afagos para cabular votos. Liberou R$ 1 bilhão de reais em emendas parlamentares. O que mudou?

Há muitas coisas únicas neste governo. Há atitudes que apenas podem acontecer no governo do Jair. Onyx no momento mais importante de negociações para a construção de uma base política que torne o governo viável, resolveu fazer uma viagem à Antártida.

Na mesma semana o despachante do Posto Ipiranga resolveu mandar uma nova PEC para o legislativo propondo a desvinculação orçamentária da União, Estados e Municípios. Se for compreendida na sua relação com a legislação proposta para a reforma previdenciária, ambas as medidas têm apenas o objetivo de extinguir a correção dos salários pela inflação e assim, com o achatamento da classe média e dos servidores públicos, fazer sobrar maior fatia do orçamento para que os políticos de plantão promovam a farra estatal que vivemos desde o advento da República.

O General Isidoro Dias Lopes líder e comandante da revolução de 1924 em São Paulo no seu primeiro manifesto à nação perorava:

“O Exército quer a pátria como a deixou o Império. Com os mesmos princípios de integridade moral, consciência patriótica, probidade administrativa e alto descortino público. O Brasil está reduzido a verdadeiras satrapias, desconhecendo-se completamente o merecimento dos homens e estabelecendo-se como condição primordial, para o acesso às posições de evidência, o servilismo contumaz.”

O diagnóstico do ilustre general é absolutamente correto para o Brasil de 2019. A questão que não quer calar é por que os militares fizeram a república para depois, como Ruy Barbosa, lamentarem os males do regime imposto pelas armas?

Há uma pletora e uma prodigalidade de fatos negativos que vêm pesando sobre a população brasileira, fruto dos desmandos e do despreparo dos governos eleitos, segundo um sistema político corrupto, pouco transparente e com reconhecido déficit democrático.

Assim, temos novo governo, mas a prática da velha política. Busca o governo comprar votos no Congresso com a liberação de emendas parlamentares. Mas o staff é tão incompetente que libera emendas da oposição e consegue revoltar a base parlamentar enquanto o ministro da Casa Civil está a discursar para Pinguins, Focas e Baleias!

Numa semana em que o presidente da República, sem qualquer pejo ou respeito à dignidade do cargo divulgou vídeo com cenas “escatológicas”, mentiu sobre o conteúdo de reportagem de uma jornalista do Estadão, forçou a demissão de conselheira indicada pelo Ministro da Justiça, teve divulgada foto em que está ao lado de milicianos que participaram do assassinato de Marielle Franco, temos de concordar que há pouco, ou nada, para se comemorar.

Para além de tudo isso, a velha política para se manter no poder e para que tudo mude para permanecer como está, ampara-se nos mesmos Setembrinos da década de 20, que determinaram o bombardeio indiscriminado de São Paulo para que a República Velha resistisse aos tenentes.

Temos agora centenas de militares ocupando o poder, sua influência começa a fazer grande desarrumação burocrática, com vivos enfrentamentos entre pupilos do guru e elementos fardados.

Passados mais de 130 anos da república só nos resta lamentar e repetir o que o General Isidoro implorou já no início do século XX. Queremos a pátria como a deixou o Império!

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 29 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.