PENSAR SEM MEDO
Reacionarismos

No Brasil confundimos conservadorismo com reacionarismo.Confundimos defesa da democracia com reacionarismo. O pensamento obtuso e antidemocrático é reacionarismo. Mas, quais os reacionarismos políticos hoje vicejando no país?

O pensamento reacionário surge, como o seu próprio nome diz, de uma reação aos movimentos revolucionários que dominaram os séculos XVIII a XX. O Iluminismo desencadeia o furor revolucionário no final do XVIII na França e como resistência àquela ensandecida destruição do Estado, da Cultura, dos Valores e da própria vida humana, nasce a reação.

Um conceito superficial de reacionário entende o estreito vínculo existente com o termo "revolucionário", ambos à margem do fluxo temporal, desvalorizando o presente para invocar o passado nostálgico (reacionário) ou um devir idealizado (revolucionário).

Reacionário enxerga o ideal no passado, no que foi e não será mais, salvo se retomarmos os antigos valores. Não se confunde com a manutenção do status quo político e social diante de propostas de mudança ou de ideias voltadas para a transformação da sociedadeo que é conservadorismo.

Assim, confundidos com conservadores, que, ao contrário, valorizam o presente e admitem mudanças que respeitem a história (reformas), os valores sociais, bem como a tradição, responsabilizando-se pelo devir, os reacionários sempre foram considerados de direita, já que os revolucionários se constituíam na esquerda.

Ocorre que com a falência do ímpeto revolucionário no terceiro quartel do século XX, o pensamento reacionário passou a abranger também um reacionarismo de esquerda. Uma utopia de voltar aos bons tempos da existência da União Soviética, do comunismo de Estado, da ditadura do proletariado.

Hoje vemos saudosistas da URSS guardando em suas casas flâmulas, bandeiras, pins, discos, pequenas estátuas de líderes comunistas, imagens de Trotsky e Guevara, quando não de Lenin, Marx e Engels, numa pantomima simétrica daqueles que idealizam Mussolini, Hitler, a cruz gamada, fascio e outros sinais contrarrevolucionários.

São reacionários de esquerda os saudosistas dos regimes criminosos do século XX que liquidaram milhões de pessoas em nome de mentiras que não deram certo. A falência do “socialismo real” não é casual, mas absolutamente determinada pela sua impossibilidade lógica, já que tem como elemento construtor o humano.

Quando vemos Ciro Gomes, Manuela d’Avila e Guilherme Boulos fazendo discursos reacionários de esquerda, emulando um mundo ideal inexistente, mobilizando sem tetos e sem terras, apesar de mais de treze anos de governos irresponsáveis de esquerda, que levaram o Brasil ao caos político e à beira do caos social, perguntamo-nos, até quando, impunemente, poderão fazer a apologia do fracasso?

Assim também, quando vemos os reacionários de direita alardeando mentiras, repetindo fórmulas desgastadas e fracassos atestados, como é o caso de Jair Bolsonaro e companhia, percebemos que a sociedade brasileira foi educada longe dos valores da democracia liberal, valores estes que foram abandonados quando do golpe militar que instalou a república de bananas no Brasil em 1889.

A situação bizarra de estarmos caminhando para o precipício, divididos entre reacionarismos de esquerda e de direita, porque incapazes de reconhecer que a era das Revoluções foi um fracasso e de que a reação é uma distopia medonha é reflexo de nossa imaturidade política, de nosso desapreço pela democracia liberal, de nossa triste sina de reprodutores do erro, para ver se dá certo! Enquanto adoradores do demônio, não há como chegar ao céu! E no céu só há democratas liberais!

O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.