PENSAR SEM MEDO
Rosa Branca

Laércio Lopes de Araujo

Muitos acreditam que a democracia é o governo da maioria. Fosse assim, o nacional-socialismo teria sido um governo absolutamente democrático, na medida em que nas eleições de novembro de 1932 teve 32,6% dos votos e que em março de 1933 chegou a 43,9%. No entanto foi uma das ditaduras mais cruéis e sanguinárias da história da humanidade.

Não falo aqui do regime comunista instalado na Rússia de 1917 a 1991, porque este foi a tirania militar mais devastadora da história. Foi um regime imperialista que dizimou nacionalidades, de forma cruel expropriou, matou, exilou, provocou migrações forçadas e institucionalizou os Gulags, campos de trabalhos forçados que foram a resposta aos Campos de Concentração do Reino Unido contra os Bôeres e depois o modelo para os KZ na Alemanha Nazista.

Na democracia liberal, os governantes nunca têm mais que 35-40% dos votos dos cidadãos. Como no Brasil, espertamente, os votos brancos e nulos não são contados temos que, com pouco mais de 35%, alguém chega aos 50% mais um dos votos válidos. Então, numa democracia temos sempre o governo da maior minoria ou daquela minoria mais organizada.

Quando uma minoria chega ao poder com o espírito de revanchismo, de arrivismo ou de perpetuação e aparelhamento do Estado, começamos a correr o risco de a democracia desfazer-se num regime ditatorial, com a violação da liberdade de expressão, de pensamento, das instituições e da ordem jurídica.

A vontade da maioria, ou melhor, da maior minoria, não expressa o bem comum. Ela nunca fala por todos, nem de maneira a contemplar o direito individual de negar o absurdo da unanimidade burra.

Todo Regime autoritário busca dividir para governar. O autoritarismo é insidioso. Pode ser populista. Pode travestir-se de um pai dos pobres, de um líder operário que convida a não ter medo de ser feliz ou ainda um líder autocrático e militarista que propõe e defende a violência e o desrespeito às instituições democráticas.

Uma ditadura pode começar pelo estabelecimento insidioso do aparelhamento do Estado. Mas pode, também, começar pelo assalto às instituições, sua negação ou suspeição.

Uma ditadura sempre busca reprimir ao máximo a opinião pública, a liberdade de expressão, fazendo com que a população sinta medo de se posicionar contra o regime, através de ameaças e punições exemplares.

Durante o nazismo os que apoiavam o regime viviam sem maiores problemas, desde que se fizessem de mudos, cegos e surdos. Mas como não fazer nada enquanto pessoas inocentes eram escravizadas em campos de concentração? Os irmãos Sophie e Hans Scholl não ficaram calados, foi assim que nasceu o movimento Rosa Branca de resistência ao nazismo.

Nas eleições de 2018 que se avizinha, sobraram apenas duas propostas políticas radicais. Como se posicionar ante o risco de sucumbir a dois futuros igualmente nefastos?

Não é possível escolher entre uma plataforma sexista, homofóbica, racista e anti-democrática e outra que se mostra inconsistente, acrítica, subserviente, herdeira de um projeto de aparelhamento do Estado e de assalto aos cofres públicos para perpetuação no poder, com uma perigosa promessa de venezuelização do Brasil!

Não dá para escolher entre alguém sabidamente incapaz para governar e alguém sabidamente incompetente até para governar uma cidade!

Só nos resta resistir! Como a Rosa Branca ao nazismo, como os brancos na URSS! O preço de fazer uma escolha é reconhecer a legitimidade de duas faces medonhas do Brasil, escolher reconhecendo que não haveria ninguém melhor do que o coisa ruim e o ainda pior!

Que fazer? Votar em Branco e fazer Resistência!

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.