PENSAR SEM MEDO
Testando os limites.

O novo governo que se instala em 1º de janeiro começa com muitos generais, poucos planos e muita conversa controvertida, sinalizando algumas reformas para então, voltar atrás sem nenhum pejo.

Esta semana o presidente eleito tem se encontrado com as bancadas partidárias e o discurso é sempre o mesmo. Não faremos parte do bloco de sustentação do governo, não faremos oposição sistemática e votaremos os projetos importantes para o Brasil. Para bom entendedor, fica certo que os partidos apresentarão a conta no momento em que Bolsonaro necessitar 308 votos para aprovar emendas constitucionais.

Além destas questões, uma das pautas importantes é a questão da segurança, que como as outras necessidades do país são muito faladas, mas um plano concertado, uma discussão séria é exigir demais do grupo levado ao poder.

Moro, o novo ministro da Justiça, entrou no bloco do incenso ao generalato da reserva e indicou para a Secretaria de Segurança Pública do ministério mais um General da Reserva, Guilherme Teóphilo, candidato derrotado ao governo do Ceará pelo PSDB. De onde vem esta crença infundada de que o Exército tem alguma expertise no combate à criminalidade?

Para desfazermos este mito, basta olhar para o Rio de Janeiro. No dia 27 de novembro próximo passado, um caminhão que transitava do Rio para Belo Horizonte, com obras de arte do artista português Isaque Pinheiro, foi simplesmente roubado. O veículo foi achado mais tarde tendo sumido todas as obras nele transportadas. A informação só veio a público no dia 4 de dezembro. Ou seja, em plena intervenção militar no Estado, na área de segurança pública, um caminhão com obras de arte de um artista estrangeiro foi simplesmente roubado e os órgão de segurança do Rio simplesmente não sabem o que aconteceu?

Temos ministérios que desaparecem e reaparecem ao sabor dos gritos e esperneios de grupos de preção, como é o caso dos do Trabalho, da Cidadania e do Meio Ambiente. Em que pese já ter passado a hora de extinguir o cartório do peleguismo chamado Ministério do Trabalho, mais uma das tristes heranças da ditadura Vargas, Cidadania e Meio Ambiente são áreas de interesse da humanidade e demonstram bem a completa falta de sincronia do pensamento reacionário escolhido nas urnas com a realidade do mundo contemporâneo.

O novo governo vem assim, testando os limites do sistema político, “falando grosso” com os partidos, e como disse o presidente eleito que não sabe como fazer para dar certo, mas sabe que o modelo político que o trouxe até o poder não funciona. Defende não fazer barganhas para obter votos, não trocar apoio por cargos na esplanada, mas também não tem absolutamente nada a oferecer, nem mesmo um plano de governo que possa ser discutido de maneira transparente com a sociedade brasileira.

A unanimidade burra em torno da Reforma da Previdência persiste como elemento de divisão da sociedade brasileira e ainda não ficou claro se o problema é a previdência geral ou a previdência do setor público. Não se tem nem um consenso sobre a idade mínima. Talvez o governo Bolsonaro siga a orientação da Sociedade de Geriatria da Itália que redefiniu idoso para aquele que tem mais de 75 anos. Tal redefinição se fundamenta no fato que hoje um homem de 65 anos teria a energia de outro de 45 anos na década de 70, e de que a velhice só poderia ser entendida como o período de vida dos últimos 10 anos da expectativa de vida média da população.

Verdade, na Itália as pessoas vivem mais de 85, enquanto no Brasil?

 

Laércio Lopes de Araujo

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O autor é médico e bacharel em direito formado pela Universidade Federal do Paraná, atua em psiquiatria há 28 anos, Mestre em Filosofia e especialista em Magistério Superior.