Sherlock Holmes Cultura
A Praça da Matriz e a Capoeira

Novamente abrimos as janelas da Coluna Sherlock Holmes Cultura para o Projeto Crônicas dos Campos Gerais, projeto desenvolvido pela Academia de Letras dos Campos Gerais, do qual somos parceiros, com o objetivo de fomentar e divulgar percepções sobre os Campos Gerais do Paraná, estimulando o relato escrito (crônicas) de vivências da população regional ou visitantes. A crônica desta semana Intitulada "A Praça da Matriz e a Capoeira” é de autoria do escritor Jeferson do Nascimento Machado, agricultor, São João do Triunfo.

 

A Praça da Matriz e a Capoeira

Encontro-me na Praça da Matriz, um pequeno espaço de lazer, localizado no centro da cidade de Imbituva. O local é composto por elementos naturais – árvores, gramados, flores e arbustos­ – e não-naturais, produtos do trabalho humano – bancos, calçadas e a Paróquia Santo Antônio. Nesta praça nasceram amizades, namoros... mas fora esses acontecimentos cotidianos, o lugar também serviu de palanque para fascistas, repressores... Aqui discursou Plínio Salgado, foram realizadas passeatas e marchas militares durante a Ditadura. Por outro lado, este mesmo lugar foi ponto de encontro de jovens, que por diversas vezes reuniram-se para discutirem as mazelas sociais e buscarem alternativas ao velho mundo.

Agora, dirijo-me para o outro lado da praça. Noto que várias pessoas, vestidas de branco e algumas segurando instrumentos, aglomeram-se abaixo de algumas árvores. Aos poucos se forma um círculo. Em seguida, passam a tocar e a cantar. Aqueles que não empunham instrumentos caem nas palmas e respondem o coro. Sem demora, duas pessoas se dirigem sob os que tocam os instrumentos, agacham-se, tocam a mão um do outro e adentram o círculo, realizando uma cambalhota. Agora eles estão no centro do círculo e realizam movimentos em grande sincronia. Parece uma luta! Parece uma dança! Trata-se de uma tradicional roda de capoeira, que ocorre aqui desde a década de noventa. Aliás, as primeiras aulas de capoeira da cidade foram realizadas nesse local.

Não tarda e a roda começa a seduzir os transeuntes. Homens, mulheres, crianças e casais que estavam passando agrupam-se em torno da roda. Imediatamente, mesmo que de forma tímida, passam a bater palmas e a responder o coro. Isso anima os capoeiristas, que aceleram o jogo e começam a realizar movimentos cada vez mais complexos. Alguns dos transeuntes, mais extrovertidos, chegam a entrar na roda e arriscar algumas pernadas.

Todavia, se hoje a capoeira é tão querida na cidade, antigamente ser capoeirista era estar deslocado da identidade “verdadeira”, a de imigrante europeu. Naquele tempo, tudo era mais difícil e existiam vários estereótipos atribuídos àquele que jogasse a capoeira. Chamar o berimbau de “cachimbo de preto”, o capoeirista de macumbeiro, de vadio ou bandido, eram alguns dos modos de o preconceito se manifestar.

Entretanto, os capoeiristas não desistiram, não arredaram o pé. E foi por terem resistido ontem que podemos desfrutar hoje desta expressão nacional e regional.

 

Crônicas dos Campos Gerais

“... a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas – sobretudo porque quase sempre utiliza o humor.”

Estas palavras de Antonio Candido de Mello e Souza, renomado sociólogo e crítico literário brasileiro, nos revelam ser a crônica um gênero literário próximo do despojamento do dia a dia, com enorme possibilidade de traduzir na cultura e na arte literária a realidade social. Antonio Candido ainda nos diz que “Na sua despretensão, a crônica humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.”

Cultura e arte, no caso a arte literária, são essenciais para o florescimento da empatia. A empatia é a essência da compreensão, da tolerância, da esperança. Um povo sem cultura e arte é um povo triste, rude, intransigente. A arte aproxima, humaniza, desfaz as barreiras da incompreensão e da intolerância, revela a beleza do mundo e a grandeza da alma humana. E a crônica, um gênero da literatura próximo da pessoa comum e do dia a dia, adquire assim enorme possibilidade de transformação.

Os Campos Gerais do Paraná têm singularidades naturais e históricas que os destacam no cenário nacional e mesmo internacional. Eles se estendem desde Rio Negro a sul, na fronteira com Santa Catarina, até Jaguariaíva e Sengés a norte, nos limites com São Paulo. São marcados por escarpados, cânions e pelo degrau topográfico da Escarpa Devoniana, que separa o Planalto de Curitiba do Planalto de Ponta Grossa. Ali rochas arenosas geraram solos propícios para a vegetação de campos nativos, pastos naturais que facilitaram que no tempo do Império a região fosse o caminho principal das tropas provenientes do Rio Grande do Sul com destino a São Paulo.

O tropeirismo originou o rosário de cidades que se sucedem marcando os antigos pousos ao longo da marcha. Com o tempo, a ferrovia, a agricultura, a industrialização vieram acrescentar suas marcas à identidade regional. Estas particularidades criam um cenário muito propício para a criação literária: a vida nas cidades com um histórico peculiar ou nos campos e matas com araucária proporcionam muitas situações pitorescas e inusitadas que motivam inspirados textos.

O projeto “Crônicas dos Campos Gerais”, iniciativa da Academia de Letras dos Campos Gerais, tem a intenção de estimular a criação e a vivência literária da população da região e dos visitantes que por aqui passaram e foram marcados pelas singularidades de nosso território. Divulgando as crônicas escritas muitas vezes por quem está se descobrindo escritor(a) e promovendo encontros literários para troca de experiências, o projeto espera incentivar a cultura regional.

Toda a população acima de dezesseis anos é convidada a participar. Orientações sobre as crônicas e o projeto podem ser conferidas no sítio https://cronicascamposgerais.blogspot.com/. As crônicas, textos curtos com até 2.500 caracteres, devem ser enviadas por e-mail para o endereço [email protected].

 

 

A FONTE LUMINOSA

Nesta semana a história do item número 1 do nosso inventário: A fonte luminosa e seu mecanismo que tornava seu funcionamento um espetáculo inusitado para a cidade. Vamos conhecer mais sobre a fonte luminosa que existia na Praça Barão do Rio Branco através do texto da pesquisadora da história ponta-grossense e membro do Sherlock Holmes Cultura, Denise Ernlund Metynoski. A praça hoje não tem mais qualquer sinal da fonte. Na praça a presença de fontes e chafarizes foi eliminada. O repuxo com a cornucópia que funcionava como chafariz ao lado do Ponto Azul teve a peça decorativa destruída recentemente, substituída por umas mangueiras com esguicho. E encontra-se desativado. O chafariz do Ponto Azul também sofreu descaracterização, sendo aterrado.

Carlos Mendes Fontes Neto (administrador).

 

A FONTE LUMINOSA

Denise Ernlund Metynoski

O projeto da fonte foi do mineiro Antonio Corrêa Beraldo, criador desse tipo de fonte, que ele batizou de “Fonte Independência”. Seu primeiro projeto data de 1930 e foi construído na cidade mineira de Pouso Alegre. Ele instalou fontes em muitas cidades brasileiras, entre elas Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Rio Branco, Erexim. Algumas dessas fontes ainda existem.

Foi o prefeito Albary Guimarães que teve a iniciativa de construir a fonte. O projeto constava de uma bacia circular que ficava abaixo do nível do chão, com envergadura de pouco mais de três metros, com uma mureta ao seu redor, a qual era reservatório de água. No centro tinha bacias em três níveis, onde estava instalado encanamento. Um único motor impulsionava engrenagens artesanais que produziam jatos de água. Os jatos do alto, com movimento circular e efeito de espiral, chegavam a quase 4 metros de altura e podiam formar 18 desenhos diferentes. As duas bacias inferiores tinham 6 jatos estáticos cada. A fonte tinha iluminação colorida que usava vermelho, verde, azul e branco, criando automaticamente 72 combinações usando jatos e cores. Na bacia inferior havia quatro pequenas construções com uma cabeça de leão, de cuja boca também jorrava água. Na parte de trás de uma delas havia uma porta de metal que dava acesso ao mecanismo para ligar a fonte e as luzes.

A fonte foi terminada e testada por seu construtor no dia 20 de março de 1938 e foi inaugurada no dia 27 do mesmo mês, um domingo.

Após a inauguração, que não contou com a presença de seu construtor, o secretário da prefeitura Sr. Fidelis Alves, a pedido do prefeito Albary Guimarães, enviou um telegrama para Beraldo. A fonte era ligada todos os dias das 19 às 22 horas, sendo sem iluminação nos dias de semana e com iluminação aos sábados, domingos e feriados. Os jatos das cabeças de leão nunca eram desligados.

Por volta de 1951/52 o mecanismo de iluminação deixou de funcionar e não foi consertado. Em 1955 os jatos começaram a apresentar problema no lado sul da fonte, esguichando água a uma distância de uns dois ou três metros fora da bacia inferior, impedindo a passagem de pessoas. Alguns jatos simplesmente pararam de funcionar. Em 1960 as construções com as cabeças de leão foram retiradas, juntamente com o motor, e a fonte deixou de funcionar definitivamente. Ela permaneceu no local até 1970, totalmente deteriorada e com problemas na renovação da água, acabando por ser demolida.

 A PRAÇA DA CATEDRAL

Terceira parte: A PRAÇA, AMANHÃ.

 

Carlos Mendes Fontes Neto*

Um elemento preponderante na paisagem urbana. Ambiente agregador de indivíduos dentro de uma linha de tempo. Local de descanso, reunião, contemplação ou de apenas passagem, mas que integra de maneira agradável o ¨viver¨ na cidade. A história da cidade é construída nela, ali sempre se reunia a comunidade, era onde aconteciam as comemorações cívicas e religiosas.

A cidade pode ser reavaliada através dos espaços existentes, principalmente o das praças, conforme propõe o arquiteto e historiador austríaco Sitte (1843-1903).

E é urgente, além de uma revitalização da praça, uma proteção aos elementos que ainda mantem a sua identidade principalmente no sentido que intervenções desastrosas, mesmo com boa intenção, comprometem ainda mais suas características e seu papel histórico.

Para a praça de amanhã resumimos um diagnóstico composto de dez aspectos, sobre a situação da praça, e destacamos elementos que podem ser avaliados e trabalhados no sentido de devolver ao espaço sua significância:

1. Acessibilidade: o tráfego de veículos no seu entorno não é de convergência e sim de passagem, prejudicado pelo fechamento da rua que separava a praça da catedral. A movimentação pedonal é predominante, com deficiências de faixas de pedestres para orientação e segurança.

2. Marcos visuais: a praça tem no seu entorno algumas edificações marcantes na história da cidade, tais como o prédio do Museu Campos Gerais e da Proex, além de outras construções como o Quartel General, Clube Pontagrossense e a moderna catedral. São pontos que concorrem para atrair moradores e turistas.

3. Mobiliário: bancos precisando muito de manutenção e melhor distribuição; lixeiras suficientes e em razoável estado (ponto negativo é a lixeira particular instalada em um canto da praça com lixo doméstico esparramado). Atenção com a preservação do marco geodésico do antigo 2º. DL ainda existente dentro da praça.

4. Iluminação: adequada em estilo e intensidade, mas que poderia ser valorizada com iluminação dirigida aos monumentos existentes (instalada discretamente para não poluir visualmente).

5. Piso: adequado com alguns danos pontuais devido ao tráfego irregular de veículos do poder público; traçado dos caminhos bom e com circulação racional.

6. Obras de Arte: Monumento ao Centenário da Fundação de Ponta Grossa e o Monumento ao Sesquicentenário da Fundação de Ponta Grossa. Ambos merecem uma recuperação e limpeza, sendo que o segundo se encontra parcialmente descaracterizado pela supressão do espelho d’água, a fim de recuperar as características originalmente propostas. Existe ainda um monumento dedicado à bíblia, de menor importância.

7. Paisagismo: passada a época de Jacob Schell, as praças , assim como a cidade, perdeu a elaboração do ajardinamento. É um item que deve ser desenvolvido por profissional habilitado.

8. Áreas sombreadas: até dezembro de 2013 a praça era uma das áreas mais bem arborizadas do centro, porém, graças ao corte indiscriminado de várias espécies ficou bastante prejudicada. Precisam ser prevenidas novas intervenções dessa natureza, sem justificativa real.

9. Conforto ambiental: apesar de tudo, no futuro, se apresenta como lugar convidativo, agradável e tranquilo na paisagem árida da região.

10. Estado de conservação: investir em conservação é a proposta para o futuro da praça, pois é garantia de manter esse espaço com qualidade e perpetuar sua significância na história da cidade.

É preciso devolver a praça às pessoas!

 

*Engenheiro Civil, Mestrando em Planeamento Projecto Urbano na Universidade do Porto, Portugal, Presidente da Associação Germânica dos Campos Gerais e membro do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

 A PRAÇA DA CATEDRAL

 

 

Primeira parte: A PRAÇA, ONTEM.

Carlos Mendes Fontes Neto

A nossa Praça Mal. Floriano Peixoto, ponto emblemático da cidade, marco do local onde a cidade surgiu e que até hoje ocupa um lugar de destaque na vida dos cidadãos ponta-grossenses. E quando quatro anos atrás nosso olhar caiu sobre o sumiço de uma placa do obelisco do centenário, despertou em nós a curiosidade sobre vários aspectos.

Se, de início, era uma área frontal à antiga igreja matriz onde os animais eram soltos, à medida que a cidade evoluiu sofreu as transformações que acompanhavam o desenvolvimento social e econômico. Foi palco de acontecimentos, festividades e ajudou a escrever nossa história. Foi ali que se erigiu um portal festivo por onde o imperador foi recepcionado em 1880. Foi palco de retretas no seu coreto desaparecido, local das festividades religiosas, marcou o centenário e o sesquicentenário de nossa fundação. No seu entorno, a cidade foi se desenvolvendo. Ali ao seu lado, a antiga casa comercial de Juca Pedro (a mais antiga da cidade). A casa do Barão de Guaraúna, mais tarde da casa da Baronesa no outro lado. Do centenário Clube Pontagrossense e do Tribunal de Justiça...

Ao mesmo tempo ficou marcada como a praça da catedral, cuja imagem, sempre esteve ligada à arquitetura da edificação que durante boa parte do século XX dominou a cidade até sua triste demolição. Através das fotos percebemos e evolução e a riqueza singela da praça da catedral. Elementos que pouco a pouco foram sendo suprimidos e substituídos até sua conformação atual. Mas isso é uma consideração para a segunda parte onde avaliamos uma possível revitalização do espaço.

*Mestrando em Planeamento e Projecto Urbano na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

**Fotos do acervo do autor

O PROPÓSITO DO GRUPO SHERLOCK HOLMES CULTURA

 

Neusa Helena Postiglione Mansani e Carlos Mendes Fontes Neto

[email protected]

O propósito do Grupo Sherlock Holmes é de resgatar objetos, bens, curiosidades, historias e até mesmo coisas desconhecidas da maioria da ponta-grossenses que remetem a todo imaginário que constrói a nossa memoria. Tanto histórica quanto afetiva.

É assim que conseguimos rememorar pessoas, acontecimentos, enfim tudo que através de um simples objeto ou de uma fotografia nos transporta para fatos e acontecimentos relegados ao esquecimento e até mesmo ao desconhecimento.

Nosso inventário começou com algumas coisas que estavam na memoria de algumas pessoas e por meio de relatos ou lembranças começamos a relacionar em uma lista. Começamos com coisas que se perderam há pouco tempo passando até coisas que não se tinha noticia há muito, muito tempo.

Já de inicio conseguimos informações de muitas pessoas que zelosamente cuidavam de alguns dos objetos alvos de procura. Sempre é pertinente observar que o resultado mais significativo é o de constatar quantas pessoas que estão imbuídas em preservar um patrimônio que de outra forma teria se perdido.

Nosso desafio é, além de procurar esses itens elencados, também agregar novas sugestões que ajudem a contar nossa história. Já contamos com mais de 700 pessoas e esperamos que todos que se interessem participem.

Inventário proposto:

1. O motor da fonte luminosa da Pç. Barão do Rio Branco (na época considerada a maior

fonte luminosa do sul do país)

2. As imagens da Matriz de Sant’Ana doadas pela família Gasparetto.

3. O altar da antiga catedral entalhado em Munique, Alemanha.

4. Altares laterais (2) entalhados em madeira da antiga catedral (encontrado um deles).

5. O púlpito da antiga catedral.

6. O enorme crucifixo de madeira da antiga catedral.

7. A cruz de ferro da Matriz de Sant’Ana (encontrada no Museu Época).

8. Os quadros do Pavilhão Pastor Fugmann da Igreja Luterana Bom Pastor.

9. Os espelhos de cristal francês do Cine Opera.

10. O sino da Santa Casa (encontrado no acervo da Santa Casa).

11. Relógios e objetos que compunham o acervo do Hospital 26 de Outubro.

12. O guichê original da Estação Saudade.

13. Bebedouro em ferro fundido da Estação Saudade (encontrado no Museu Época).

14. Bebedouro de cavalos da Benjamin Constant (encontrado no Museu Época).

15. As placas comemorativas da visita do imperador na Colônia Tavares Bastos.

16. Mobília da casa da Baronesa de Guaraúna, especialmente a cama em que dormiu o

imperador.

17. Fotos da tinturaria Esperança (carroças de entrega).

18. Peças originais da Maria Fumaça da Casa da Memória.

19. Prensa da Usina do Conhecimento.

20. Seladoras alemãs de garrafas da Cervejaria Oceana.

21. Documentos e registros da SCABI (encontrados no Museu Época).

22. Livros atas da fundação do Clube Guaíra.

23. Biblioteca alemã do Clube Verde.

24. Boneca russa trazida pelos Alemães do Volga (encontrada no Museu Campos Gerais).

25. Peanhas da fachada da antiga catedral ( suporte das imagens). (encontradas duas)

26. Partituras originais de ópera (Sonho de Príncipe) e opereta (A Pequena Cantora)

compostas por Jacob Holzmann e Jorge Holzmann respectivamente.

AS SELADORAS ALEMÃS DE GARRAFAS DA CERVEJARIA OCEANA

Carlos Mendes Fontes Neto

A cidade de Ponta Grossa tem uma tradição cervejeira que remonta ao século XIX quando os imigrantes alemães começaram a se radicar de maneira mais numerosa por aqui. Segundo Francisco Lothar Lange, no final do século XIX a cidade contava já com três cervejarias, além das representantes de marcas curitibanas. Nomes como Thielen, Schetler e Metzenthin colocaram a cidade no mapa do Brasil e até do exterior. A primeira fabrica de cerveja da cidade abriu no ano de 1892: Cervejaria Oceana de Friedrich Wilhelm Metzenthin, alemão vindo de Berlin. Situada na Rua das Tropas (hoje Rua Augusto Ribas) esquina com a Rua Pe. Ildefonso além de fabricar a famosa cerveja Poter produzia gengibirra e outras gasosas. Em 1894 Henrique Thielen abriu uma filial da Cervejaria Grossel de Curitiba na Rua do Chafariz (atual Cel. Cláudio) sendo que em 1911, já como proprietário, fabricava as cervejas Operária, Primor, Brilhante e Cachorrinha. Em 1917 como Companhia Cervejaria Adriática dava inicio a expansão da produção (com equipamento vindo da Alemanha) se consolidando como a principal indústria da cidade, com produtos premiados no Rio de Janeiro e São Paulo, além de abastecer os navios alemães que chegavam ao porto de São Francisco do Sul. No ano de 1920 existia ainda a Cervejaria Providência no Largo São João (Avenida Dr. Vicente Machado esquina com a Rua Dr. Paula Xavier). A Adriática lançou em 1928 a Cerveja Original, que graças ao grau de pureza adotado e, dizem que, também às propriedades das águas do poço d’água existente no seu interior se tornou famosa no Brasil. Essas cervejarias incentivaram e impulsionaram o cultivo de cevada na região, promovendo novas oportunidades para a agricultura dos Campos Gerais.

Infelizmente, dessas cervejarias praticamente nada sobrou, apesar da sua importância histórica. A Cervejaria Providência durou pouco tempo, não restando muitos vestígios. A Cervejaria Oceana fechou em 1920 e seu prédio foi demolido em 2003. A Cervejaria Adriática fechou em 1994, sendo desde 1945 administrada por uma rede nacional, e foi demolida em 1996. A última parte do prédio que restava, e onde havia sido aventado ser instalado um museu da cerveja, foi demolido em 2002. Sua demolição representou uma grande perda patrimonial, da mesma proporção que foi a da antiga catedral. Perda da qual a cidade nunca mais se recuperou, restando uma cicatriz na paisagem urbana, indelével. Basta notar que o fato foi noticia nos jornais de Viena, na Áustria, em tom de incredulidade.

Dessas cervejarias só temos conhecimento de poucos itens existentes, tais como barris de chope da Adriática, existentes no Museu Época, e as seladoras de garrafas da Oceana, que segundo contam foram salvas da demolição junto com engradados e garrafas na ocasião da sua demolição.

Nessa procura para resgatar essa importante página da nossa história (tanto a Oceana, quanto a Adriática estão registradas pelo Dicionário Brasileiro da Cerveja) gostaríamos de saber qual foi o destino dessas seladoras. Esperamos que alguém tenha tido a sensibilidade de preservá-las.

196 ANOS DE MEMÓRIAS

 

Carlos M. Fontes Neto e Neusa Helena P. Mansani

[email protected]

Quase duzentos anos de história permeiam nosso cotidiano de maneira muitas vezes imperceptível. É através das ruas, dos prédios, das histórias, das coisas e das pessoas que a nossa identidade é construída.

Quando iniciamos o grupo Sherlock Holmes Cultura, cinco anos atrás, tínhamos o ideal de através do resgate de determinados itens que de maneira emblemática povoavam nossas lembranças, poderíamos comprovar que as pessoas tem um sentimento de afetividade pela nossa história e procuram preservar e guardar tudo aquilo que tem significado. Ao contrário do que se pensa, muitas pessoas trabalham para preservar nossa memória e é significativo que possamos reconhecer através de objetos, documentos e fotos a importância da cidade de Ponta Grossa.

Hoje ao contarmos com mais de 700 participantes na página do facebook percebemos que o interesse vai além de mera curiosidade, mas de reconhecimento e de até encantamento com a possibilidade de rememorar fatos e histórias quase esquecidas através do nosso inventário. Inventário que está em formação, visto que novos itens são sugeridos ou lembrados para reconstruir a percepção da linha de nossa história. E o saldo positivo de tudo isso é compartilhar e valorizar nossa própria identidade ponta-grossense.

E foram surgindo não só o que estávamos procurando, tal como a cruz de ferro da antiga Matriz de Sant’Ana em ferro batido trabalhado, ou o bebedouro de ferro fundido da frente da Estação Saudade, do grande sino da Santa Casa, mas até registros de outros bens que as pessoas preservam.

Nosso presente para a cidade de Ponta Grossa nos seus 196 anos é devolver essa memória afetiva através da localização desses itens que contam nossa história para as novas gerações e destacar aqueles que preservam nossa história.

Inventário proposto até a presente data:

1. O motor da fonte luminosa da Pç. Barão do Rio Branco (na época considerada a maior fonte luminosa do sul do país)

2. As imagens da Matriz de Sant’Ana doadas pela família Gasparetto.

3. O altar da antiga catedral entalhado em Munique, Alemanha.

4. Altares laterais(2) entalhados em madeira da antiga catedral (encontrado um deles).

5. O púlpito da antiga catedral.

6. O enorme crucifixo de madeira da antiga catedral.

7. A cruz de ferro da Matriz de Sant’Ana (encontrada no Museu Época).

8. Os quadros do Pavilhão Pastor Fugmann da Igreja Luterana Bom Pastor.

9. Os espelhos de cristal francês do Cine Opera.

10. O sino da Santa Casa (encontrado no acervo da Santa Casa).

11. Relógios e objetos que compunham o acervo do Hospital 26 de Outubro.

12. O guichê original da Estação Saudade.

13. Bebedouro em ferro fundido da Estação Saudade (encontrado no Museu Época).

14. Bebedouro de cavalos da Benjamin Constant (encontrado no Museu Época).

15. As placas comemorativas da visita do imperador na Colônia Tavares Bastos.

16. Mobília da casa da Baronesa de Guaraúna, especialmente a cama em que dormiu o imperador.

17. Fotos da tinturaria Esperança (carroças de entrega).

18. Peças originais da Maria Fumaça da Casa da Memória.

19. Prensa da Usina do Conhecimento.

20. Seladoras alemãs de garrafas da Cervejaria Oceana.

21. Documentos e registros da SCABI (encontrados no Museu Época).

22. Livros atas da fundação do Clube Guaíra.

23. Biblioteca alemã do Clube Verde.

24. Boneca russa trazida pelos Alemães do Volga (encontrada no Museu Campos Gerais).

25. Peanhas da fachada da antiga catedral (pedestais para suporte das imagens)

26. Partituras originais de ópera (Sonho de Príncipe) e opereta (A Pequena Cantora) compostas por Jacob Holzmann e Jorge Holzmann respectivamente.

 MEMÓRIAS DO PASSADO

Carlos Mendes Fontes Neto *

As construções que compunham o perímetro urbano da cidade de Ponta Grossa até meados do século passado traduziam de forma expressiva as características dos moradores e da sua composição comercial. Assim é fácil perceber que essas construções, na sua maioria de estilo eclético, procuravam demonstrar a posição social e poderio dos proprietários assim como destacar, no caso das casas de comércio, a importância da atividade. A cidade possuía um ar bastante europeu, com uma influência notadamente germânica. Os artífices e construtores da época demonstravam um conhecimento de técnicas que proporcionavam uma grande riqueza visual. Os elementos que valorizavam essas construções ainda são bastante notáveis e podem ser percebidos nas que foram poupadas.

A cidade tinha também uma urbanização bastante moderna para a época com praças e ruas arborizadas e bem cuidadas, com traçados perfeitos (leia-se aqui o nome da família Schell, que por muito tempo foi responsável pelo ajardinamento público). Até o hoje centenário Cemitério Municipal São José era ajardinado.

É comum observarmos em cidades antigas as diversas fases que elas atravessaram durante seu desenvolvimento pelos arruamentos e edificações. Desde um núcleo central que pode apresentar características urbanísticas de épocas até medievais (comuns em cidades europeias) passando, à medida que nos afastamos para a periferia, por todos os períodos que foram se sucedendo durante as fases de desenvolvimento. Aqui em Ponta Grossa não se consegue mais perceber esse crescimento, talvez por não se ter preservado um centro histórico original. O tecido urbano apresenta descontinuidade na ordenação de estilos e volumes que compõem o conjunto edificado, coexistindo ainda certo desprezo pela conservação de elementos arquitetônicos que valorizam as fachadas originais de outras épocas. Assim podemos observar fachadas que são completamente cobertas com placas, painéis ou até mesmo a retirada de ornamentos e elementos que compõem o estilo original procurando dar um ar de falsa modernidade à edificação, e que acabam por nos oferecer um ambiente sem qualquer significado estético.

O sentimento de pertencimento e até de orgulho pela cidade em que moramos passa definitivamente pela forma como nos relacionamos com ela. E esse sentimento tem sido bastante prejudicado. Talvez seja uma das questões fundamentais para explicar o porquê da noção de preservação do nosso patrimônio cultural não encontrar eco na população.

 

*Engenheiro e mestrando na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em Portugal.

As fotografias, de minha autoria, que ilustram o artigo são detalhes de edificações do centro da cidade e faziam parte de uma exposição chamada Espectros do Passado realizada no Sesc-Ponta Grossa no ano de 2003 sob curadoria de Márcia Sielski.

O desafio é descobrir de quais edificações são e se ainda existem.

 

Ponta Grossa — Cidade do “Já Tinha”

*neuza helena postiglione mansani

 

Palavras ditas e bem ditas por Rafael Greca – 82º Prefeito de Curitiba: “A cidade será sempre eterna enquanto sua memória permanecer.” “A cidade terá tanto mais futuro quanto mais se lembrar do seu grande nome e do seu grande passado.”  Sherlock Holmes Cultura corrobora com o grande curitibano Rafael Greca, estudioso de sua terra e de sua gente.

 

Ponta Grossa aparece na altura

Dominando campanhas natais

Temos crença na glória futura

Da princesa dos campos gerais

                                                            Há na História de nossa cidade

                                                            O destino de um povo feliz

                                                            Dando as mãos em penhor de amizade

                                                            Onde agora se eleva a matriz (E a matriz?)

                                                                 Música Maestro J. Rispoli /Letra Dr. Augusto Rocha

  Hino a Ponta-Grossa tocado, como surpresa, no final do Concerto “Uma noite de Chopin”, por Estefan Iatcekiu – gênio do piano no Brasil, curitibano, exemplo de jovem cidadão (15 anos), convidando a plateia para, em pé, acompanhar cantando o nosso Hino. Trazemos esse fato, porque, talvez, a exemplo de Rafael Greca, Estefan valoriza as memórias de sua terra.

 

  Sherlock Holmes Cultura, há cinco anos, abriu janelas no Jornal Diário dos Campos, para deixar entrar o passado; desde o primeiro artigo colocamos uma lista de memórias, buscando pistas para encontrá-las, e poder, assim, socializar um sabor de história às novas gerações. A mesma lista acompanha esse texto, com alguns itens encontrados, trazidos para esta coluna como imagens fotográficas, vistas “in loco” por Sherlock Holmes Cultura e, em textos, registrando as palavras de pessoas que, com respeito, conservam as peças. Porém, longo é o caminho.

  Ponta Grossa não é a cidade do “Já Tinha”, mas a cidade que tem muita história a contar,  Sherlock Holmes Cultura vem contribuindo para que a memória da Princesa dos Campos Gerais permaneça para alçar um grande futuro; por essa razão, busca pessoas para compor um grupo, e trazer de volta algumas memórias culturais, retiradas do contexto da história, como a fonte de água luminosa da Praça Barão do Rio Branco e o coreto da Praça Mal. Floriano Peixoto. Sherlock Holmes Cultura convida historiadores, arquitetos, engenheiros, pessoal da construção civil, empreendedores de nossa cidade para esse movimento. (42 98814 7777)

  Esta semana, Sherlock Holmes Cultura tem acompanhado o evento PG Memória, que celebrará a Semana do Patrimônio Histórico no Brasil, e tem como objetivo promover o sentimento de pertencimento. Pertencimento diz respeito ao que Sherlock vem apregoando, a sensibilização para a produção do homem, ou seja, para a cultura. A cultura de um povo não pertence a essa ou aquela pessoa, nem mesmo a um chefe de Estado, mas pertence a todo cidadão, e deverá ser respeitada, conservada e passada às

novas gerações.

 

Parabéns, à Fundação Cultural pelo 1º Salão do Patrimônio Cultural de Ponta Grossa!

 

 

PROCURA-SE:

O motor da fonte luminosa da praça Barão do Rio Branco

As imagens da Igreja Matriz de Sant’Ana – doadas pela família Gasparetto

O altar da antiga Catedral fabricado em Munique-Alemanha (Encontrado só um, são3)

O púlpito da catedral

Enorme crucifixo de madeira da catedral “demolida”

Os quadros do pavilhão pastor Fugmann da Igreja Luterana Bom Pastor

Os espelhos franceses de cristal do Cine Ópera (Encontrados)

O grande sino da Santa Casa de Misericórdia (Encontrado)

Patrimônio do Hospital 26 de outubro – relógios de parede entre outros objetos

O guichê original da Estação Saudade

Bebedouro em bronze da frente da Estação Saudade (Encontrado)

As placas comemorativas da visita do Imperador do marco existente na Colônia Tavares Bastos

O monumento araucária em frente do Campus da UEPG (Foi demolido)

Mobília da casa da Baronesa de Guaraúna – objetivamente a cama onde dormiu o Imperador e que foi doada para o Instituto Histórico

Fotos da Tinturaria Esperança (Encontradas) – carroça da entrega de roupas

Pedaços da Maria Fumaça

Prensa da usina de conhecimento, pelo estatuto não poderia sair do lugar que lhe foi devido

Seladora de garrafas da 1ª cervejaria de Ponta Grossa, vinda da Alemanha (cervejaria oceana)

Os documentos/registros da SCABI (Museu Época) (Encontrados)

Livros de atas da Fundação do Clube Guaíra

Biblioteca alemã do Clube Verde

Edital de concurso étnico da Fundação de Cultura

 

As imagens das memórias encontradas serão publicadas novamente em uma próxima coluna.

 

 

A coluna está aberta para colaboradores, seja mais um detetive!

 

*Autora do texto: Uma vida dedicada à educação e à cultura.