Sherlock Holmes Cultura
O Badalar dos Sinos

Desde o início desta coluna, Sherlock Holmes Cultura vem procurando trazer a história das badaladas dos sinos, elas ficaram na memória de muitos, que viveram e conviveram na Santa Casa de Misericórdia de Ponta Grossa. Simbolicamente, as badaladas dos sinos deixaram uma memória de sentimentos, ora de dor, ora de gratidão, ora de um tempo marcado pela sensibilidade de estar em um hospital – espaço de misericórdia.

Lembro Dr. Luiz Conrado Mansani, viveu maior parte de sua vida naquele local de respeito pela vida humana, médico humanitário, toda manhã lá estava para aqueles que necessitavam, ele amava a Santa Casa de Misericórdia, e admirava o local geograficamente posto, mas também, existencial, onde as pessoas precisavam umas das outras e, assim, conseguiam trabalhar com amor e solidariedade.  Certa vez, disse - me: - Se hoje não voltar para casa, estarei sentado na torre do Hospital, pois estão falando em tirar o relógio da torre, ficarei lá plantado, mas não vão conseguir tirar , do lugar devido, um dos símbolos dessa casa. E, realmente, o relógio continua na torre para contar o tempo da história; assim, dizia ele, também os sinos, símbolos sonoros do hospital, deveriam permanecer no mesmo local, badalando sempre. Mas, não aconteceu, os sinos desapareceram e deram lugar, talvez, às novas tecnologias. Mas, Sherlock Holmes Cultura conseguiu saber que os sinos estão lá, num determinado lugar, dormindo o sono eterno. As pistas levaram Sherlock Holmes Cultura a acordar os sinos, e aí estão as fotos, os sinos vivos, pedindo socorro para trazê-los de volta ao lugar, do qual nunca deveriam ter saído.

São as pessoas e os objetos que dão vida aos locais públicos ou privados, trazer de volta o passado para uma resignificação, característica da hiper-modernidade, eis o trabalho de Sherlock Holmes Cultura: Mostrar, às novas gerações, um pouco do nosso cultural  e apagar, do imaginário coletivo, a triste frase: “Ponta Grossa, a cidade do já tinha...”

Que possamos, quem sabe, ouvir novamente as badaladas da               

                                                                              Misericórdia! 

 

Sherlock Holmes Cultura agradece às pessoas que colaboraram na busca das pistas.

Atenção: Sherlock Holmes Cultura está em busca de pistas para encontrar o Monumento Araucária. Acesse nosso e-mail para contatos.

Sr Lídio dos Santos, presidente do Clube da Colina

Sherlock Holmes Cultura continua na pista de objetos culturais e de pessoas que contribuíram de uma forma ou outra para o cultivo de nossa cultura, e desapareceram sem deixar pistas, para que pudéssemos referenciar a pessoa e seu trabalho.

Assim, gostaríamos de solicitar aos nossos leitores para que ao lado de Sherlock Holmes Cultura, seguissem na busca de dados sobre o Sr Lídio dos Santos que, no período de 1932 a 1933, passou pela presidência do Clube da Colina, hoje, Clube Ponta-Lagoa. Há registro de sua participação, como presidente, mas não consta uma foto sua na galeria de fotos dos ex-presidentes.

Nessa galeria, um painel, que se encontra logo na entrada da secretaria do Clube, há um espaço vazio ao lado de fotos dos ex-presidentes, fato esse, que chama a atenção dos associados e visitantes.

Então, fica aí a solicitação de pistas, para que Sherlock Holmes Cultura traga, para o hoje, uma referência do cidadão Sr. Lídio dos Santos, e possamos complementar a história do Clube Ponta-Lagoa, que há anos vem contribuindo de diferentes formas para a cultura ponta-grossense.

Vamos às pistas... Sherlock Holmes Cultura aguarda.

Desfile do amor

“Ó Pátria Amada por onde andarás?

Seus filhos já não aguentam mais!

Você que não soube cuidar

Você que negou o amor

Vem aprender na Beija-Flor.”

 

Com esse refrão arrebatador, sob o enredo “Monstro é aquele que não sabe amar  (Os filhos abandonados da pátria que os pariu)”, a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis, no Rio de Janeiro, levou, merecidamente, o primeiro lugar no desfile do Carnaval 2018. A façanha rendeu, além de elogios e críticas, o que sempre acontece com as campeãs, a reflexão sobre o teor do tema. Normalmente, os assuntos escolhidos dizem respeito a fatos históricos, personalidades homenageadas e conteúdo de natureza mais palpável. Privilegiar o anseio pelo cuidado e a necessidade da atenção para com os outros ou mesmo abordar um sentimento é algo pitoresco. A subjetividade é difícil de ser mensurada em todos os aspectos. Por isso mesmo, maior valor ainda tal escolha adquire. Num mundo cercado por unidades de medida relativas às inúmeras tecnologias e grandezas, tais como bites, pixes, nanogramas, watt e outras, como se mensura o amor? Como se poderia medir a falta que um sentimento faz, ou o contrário, quanto de carinho seria necessário receber para alguém decretar interesse pela vida? A rica oferta de coisas tangíveis não abarca o apelo ao intangível que, por certo, havemos de requerer. Como o tema já sugere, “Monstro é aquele não sabe amar”. Porquanto a falta de desvelo e de afeto, inda hoje, não deveria nos pertencer. Por outro lado, a letra do samba enredo fala em aprender, verbo igualmente pouco comum na temática carnavalesca muito mais afeita a outros, como brincar, pular, sambar. Que delicadeza, logo conclui-se que é possível aprender a cuidar e a amar.

Forte apelo se tem percebido, nos últimos tempos, ao social, em demandas de questões difíceis que requerem a prática e a escolha por uma nova ordem, um pensamento diferenciado. A compreensão sobre a responsabilidade que nos liga aos demais no zelo por aqueles que nos cercam, mais do que isso, por todas as pessoas que aqui também vivem. Um senso vivo de responsabilização. Não fechar os olhos diante do sofrimento alheio.

Não bastasse o feito da Beija-Flor, inda vem a escola de samba vice-campeã 2018, do desfile do Rio de Janeiro, a Paraíso do Tuiuti, arrepiar em alto e bom som, em vozes poderosas, incluindo o belíssimo e harmonioso timbre da Grazzi Brasil, em forma de prece:

“Meu Deus! Meu Deus!

Se eu chorar não leve a mal

Pela luz do candeeiro

Liberte o cativeiro social.”

O que comove nas duas letras é a súplica, são praticamente orações nas quais se pede por um olhar amoroso e cuidadoso, gentileza no social que se aperceba por aqueles que sofrem. Obviamente, a tônica da crítica social, em especial na Beija-Flor, contra a corrupção e os desmandos no país é contundente. Entretanto, prevalece o apelo real pelo senso de humanidade:

“Sou eu

Espelho da lendária criatura

Um mostro

Carente de amor e de ternura

O alvo na mira do desprezo e da segregação.”

Na Beija-Flor um clamor para observarmos aquilo que nos tornamos e que, no fundo, o que nos falta é o amor e a ternura. Em alusão a Frankenstein, personagem da autora Mary Shelley, o que mais se encontra fragmentado, esfacelado, em alguns casos, é o coração.

“Mas falta em seu peito um coração

Ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz.”

Na mazela da escravidão, mácula eterna em nosso país, a Tuiuti implora por um coração e pergunta se a escravidão realmente acabou.

Na sensibilidade dos compositores, a injustiça social adquire contorno melancólico, trazendo a poética e até mesmo a beleza do sofrimento inspirando e moldando alegorias reais em forma de desfile. Muito claro me parece que, neste Carnaval, uma verdade do fundo de nossas almas carentes veio à tona, venceu e reinou o anseio que uma nação inteira viva o ato de amar.

“Refém da intolerância dessa gente

Retalhos do meu próprio criador

Julgado pela força da ambição

Sigo carregando a minha cruz

À procura de uma luz, a salvação!”

Onde se julgava só haver luxo, ostentação e a imagem de um Brasil “tipo exportação”, agora brada, de modo retumbante, um grito por igualdade, liberdade e amor que se permeiem no social. A beleza também sabe ser real.

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Oração a Ponta Grossa

Oração a Ponta Grossa

 

 

Cidade nascente

sejas tu a pureza que vitaliza.

Casa que nos acolhe

e que pulsa no coração

dos Campos Gerais Paranaenses.

Tua vibração

em prol da vida que aqui,

inda mais se vigoriza.

Teus nativos e os acolhidos em ti

encontrem um rumo firme

no desenvolvimento de suas qualidades.

Sob a proteção do teu solo

nos inspire a sabedoria universal,

colocando-nos a serviço do bem maior.

Que saibamos reconhecer a irmandade,

desde o singelo senso de humanidade.

 

Cidade serena

sejas tu a escolha pelo livre arbítrio

que a tudoempreende no caminho

de nos tornarmosplenamente humanos,

somando com os seres espirituais

que nos inspiram em devoção.

Nossos corações não encontrem

desânimo nem lamentações.

Tornemo-nos fiéis ao plano espiritual em exemplo,

às forças celestiais que tecem

a trama do mundo e da vida.

Cada fio da existência se desenrole na sabedoria

que encontra consonância com nossos atos.

 

Cidadeplena

Sejas tu uma chama infinita

que estimula nossa consciência.

Sem penúrias, nem desresponsabilização,

na fé com sabedoria reveleadireção

de ascensão ao ser humano livre.

Confiança arrebatadora

e pujante em harmonia

com as ideias sanantes.

Um alicerce onde ancora

o respeito, a gratidão,

o reconhecimento e o amor,

que impulsionam o organismo social.

Inspiração para encontrar e cumprir

o propósito para nossas vidas.

 

Novigor dos teus campos e prados

renasça a coragem e a vocação

naquilo que construiremos de melhor.

 

Nossos corpos encontrem gosto no trabalho útil,

somando com o fazer coletivo que edifica.

Tua santificada paisagem toque o sagrado em nós

ensinando-nos a preservar e honrar

a natureza vivificada.

 

Tua geografia recortada e encachoeirada

erija a coragem em nós,

espelho dos enfrentamentos

com os quais precisamos ressurgir,

fortes e habilidosos no ato de servir.

 

Ponta Grossa dos capões abundantes,

no respeito a cada irmão

com os quais compartilhamos teu solo,

sejas como um laço que une e engrandece.

 

Ao final de cada dia a bonança

do repouso justo nas trocas,

durante o sono, com o mundo espiritual.

Na vigília, sob as bênçãos do sol fulgurante,

em tuas manhãs,

a clareza de despertar para o ato desprendido

de a cada irmão aprender a honrar.

 

Em teus dias e em tuas noites, cidade pátria,

a força masculina se una à leveza feminina,

no conjunto que pratica a justiça e a ética.

Uma nova ordem, uma nova moral, sem julgamento,

mas plena de compreensão e de entendimento

de que aqui se retribui ao firmamento.

 

Nossos anjos pessoais percorram conosco

tuas ruas e bairros,

iluminando os pensamentos e as boas ideias

que também se encontram.

Neste ponto da Terra se configure

a boa vontade em boas ações.

 

A respiração no alento de teus campos

remonte ao recordar e ao reconhecer dos atos do passado,

integre a meditação necessária aos tempos presentes

e permita contemplar o futuro no porvir,

harmonizando e tornando congruentes o pensar,

o sentir e o querer em cada indivíduo que,

ora aqui, ora no mundo espiritual, soma contigo.

 

Cidade canção do tempo,

és aqui, em pensamento que

fertiliza os sentimentos,

um espaço sagrado,

para que o calor emane

do centro da circunferência,

na qualnos encontramos,

aos mais altos propósitos

irmanados e a favor.

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Fotos: Cássio Murilo

 

O Garimpo (de Lourival Santos Lima) – Parte I

O Tibagi é o rio dos garimpeiros. Rio que corre com pressa, de medo que lhe roubem a riqueza dos cascalhos. Às vezes, formando largos remansos, espraiando-se morosamente, a abraçar ilhotas de mato escasso. Quase sempre, encachoeirado, crespo de espumas, bufando nas “águas fortes”, que desgastam as lajes extensas e os caldeirões irregulares com as pedras corredias.

Rio belo e famoso! E traiçoeiro aos que lhe confiam a vida...

O garimpo. Que é o garimpo?

Desbravação da natureza submersa. Ambição fazendo bravura. Bandeirismo subaquático. Loteria dos diamantes. E dos bilhetes sem prêmio...

Como todo garimpeiro, João Caxangá é constante e esperançoso, e alimenta o sonho pomposo das “pedras grossas” com o achado corriqueiro dos chibios. A vida lhe é epopéia no rio e monotonia em terra, habitando rancho improvisado à beira do “serviço”. Subalimentado e inculto, é milagrosamente forte, trabalhador e corajoso. Três, quatro, cinco horas, pra baixo e pra cima, ficava a respirar no escafandro pesado, através da bomba de ar; mas agora estava mergulhando a fôlego, como peixe, de  alavanca em punho, “desmontando” a ganga, trincando, perfumando, dinamitando o leito do rio, para chegar ao cascalho virgem encravado no solo duro. Enchendo o saquinho de cascalho, vezes e vezes, até sentir-se exausto. A semana inteira assim, nessa luta. Sábado, finalmente, faria a garimpagem do montículo de cascalho com as peneiras, a sururuca, a do meio e a fina.

O cascalho amontoado é espólio sagrado de cada garimpeiro, quando não há o “bozó”, trabalho coletivo de todos, cujo lucro é repartido entre os garimpeiros e o dono da “máquina”, o qual os alimenta durante o período de exploração de um “serviço”. Embora às vezes não haja lucro, nem “pedra grossa”, apesar da “forma”. Só trabalho, despesa e risco em vão, quando tudo é “corrido”. É a ruína... Mas também não há desânimo. Procura-se, tateando, outro lugar.  Vareja-se o rio, pra lá e pra cá. Estica-se, margem à margem, outra vez o cabo de aço, indicativo de novo “serviço”. E recomeça-se a luta. A luta do homem contra as águas indomáveis, perigosas, revolucionárias. A luta pelo diamante.

Mas aquela vez, João Caxangá, garimpando sozinho, não tinha o estímulo dos companheiros. Era só ele e Deus.

 

O Tibagi, cada vez em menor volume, descobria a multidão de pedras negras e reluzentes, nas cachoeiras e nos lajeados.Enfraquecido pela seca, o rio tornava-se presa fácil dos garimpeiros afoitos.E antes que se alastrasse a maleita, o trabalho do garimpo intensificava-se como se fosse a última oportunidade, antes da cheia do rio.

A maleita! Só esse inimigo preocupava a lida incessante, com fatalidade invencível, ante a extrema falta de recursos.Como noutros anos, a febre acordava do sono periódico.Pelos recantos do rio abaixo,começava a devastar vidas, como sevia pelas redes de defunto que passavam embaladas num pau.Todo mundo caindo na tarimba, a tremer no calor de dezembro!Sem médico, sem remédio, no abandono...

Nos arredores da cidade Tibagi, ainda não tinha chegado amaligna. João Caxangá achara uma “mancha” e começara um pequeno serviço com seu irmão Pedro.Gente morena e rude, mas rija como cerne,no trabalho do rio.Milagres da natureza, numa população subalimentada e doente. Já estavam cansados de catar chibios; coisa que não gostam de fazer naquelas paragens, onde a “pedra grossa” sempre anima a aventura. O mais velho dos irmãos jogava o cascalho no lavadouro para, pouco a pouco, separá-lo.O outro ajudava-o, substituindo-o.Num dado momento, os olhos de João arregalaram-se em direção à bica de lavagem, onde Pedro peneirava:

-  Mano! Óia ali, óia! - com o dedo apontava uma grande pedra a luzir como aço aos raios de sol.  Óia que “pedra grossa” mano!  Nossa Senhora dos Remédios!...

- É mêmo!... é mêmo!... - e nada mais dizia, com a emoção a sufocar-lhe a voz.

Tudo aquilo queria dizer que ambos estavam ricos.A“pedra grossa” era a desejada sorte grande.Às vezes, anos e anos, espera uma família de garimpeiros por aquela oportunidade que, amiúde, nunca vinha...Os Caxangás, porém, encontraram-na.Estava ali, ante seus olhos ávidos e incrédulos.

Saíram os dois irmãos às pressas.E tocaram para a cidade.Como dizem os garimpeiros, diamante fala...E o boato logo se espalhou.Com os irmãos Caxangás chegava à cidade notícia.Talvez antes...

Achada uma “pedra grossa”, os capangueirosos põem-se no encalço do garimpeiro felizardo, para a compra.O negócio exige esperteza e perícia, de ambas as partes, senão uma delas cai no logro.E os irmãos Caxangás foram buscados como agulha no palheiro.

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Escrito pelo autor Lourival Santos Lima e publicado em 1973, no livro “Samburá”, o conto “O Garimpo” mostra um antigo contexto do Rio Tibagi. A prática é obsoleta, a temática das atitudes, do oportunismo, da falta de ética e de senso de justiça, contudo, são absolutamente atuais, no mundo. Apresentamos, em duas partes, esta “pedra preciosa” da literatura dos Campos Gerais.

Trova literária

Dos caprichos da escrita tanto nos encantam, a criatividade, a graça, o universo contido na singeleza. Quando muito se fala com tão pouco escrito. A extensão das palavras expandidas harmoniosamente em longos textos é de uma capacidade invejável; na história da humanidade, imensas, quase infinitas linhas já foram desbravadas a fim de trazer detalhes, acontecimentos, emoções que representem a própria vida, ficção ou não, prosas e versos épicos na habilidade e proeza inquestionáveis dos autores. Contudo, o pitoresco nas minúcias também nos arrebata o encantamento, especialmente quando tanto conteúdo se diz em tão escassos vocábulos. Das modalidades de escrita concisas, em especial a trova assume lugar único, de certa forma aparentemente quase comum, entretanto, magistral no teor e no poder de síntese. Seu efeito é aquele que, numa leitura despretensiosa, de tão fácil construção parece, todavia, não se enganem, nela o genial se reveste do simples.

De origem muito antiga, 700 anos pelo menos, comprovadamente, a modalidade poética da trova ganhou novo impulso a partir da década de 50 com o “trovismo”, desenvolvendo a trova literária moderna, especialmente divulgada pela União Brasileira de Trovadores - UBT, que consiste num poema formado por quatro versos nos quais o primeiro rima com o terceiro e o segundo rima com o quarto, sendo cada um deles formado por sete sílabas. Apenas com essas características, o arsenal das infinitas possibilidades do que se permitiria ser construído sob o nome de “trova” já seria imenso. Para adicionar o toque de maestria, inda há, no verdadeiro exemplar dessa categoria, a necessidade de que os quatro versos construam algo com sentido completo, como nos poemas de seu representante consagrado Luiz Otávio, chamado de: “Príncipe dos Trovadores do Brasil”.

 

“Prossegue a cantar... Insiste,

mesmo a sofrer e a chorar,

que, pior que um canto triste,

é uma vida sem cantar.”

Luiz Otávio

 

Em 1960, dois conhecidos poetas, J G de Araujo Jorge e Gilson de Castro (pseudônimo de Luiz Otávio) ponderaram sobre a possibilidade de astrovas não serem desenvolvidas de modo tão informal, criando a “trova literária”, cujo conceito, além da métrica, tamanho e rimas, trouxe também o sentido completo. As modalidades populares e folclóricas, até então muito conhecidas na prática, davam atenção à rima, aos gracejos, ao humor sem considerar o sentido completo ou o aspecto mais poético. Volto a questionar e refletir sobre o valor dessa completude. Sendo a própria vida a maior fonte de inspiração para as artes, a grandeza de trazer essa inteireza ao pequeno poema torna-se tarefa hercúlea. Isso mesmo, digna da magnitude dos doze trabalhos do próprio Hércules, assumem tal empreitada os ousados autores que não se calam em pensar grande, fazendo caber o mundo em apenas quatro versos.

Em Ponta Grossa, vários escritores obtiveram destaque nessa especialidade poética, conquistando prêmios e publicações,  em especial Eno Theodoro Wanke, que além de produzir trovas em profusão, inda foi um profundo estudioso do tema, pesquisando e mergulhando na história do gosto por essa escrita. Wanke participou ativamente do surgimento do trovismo, inclusive auxiliando Luiz Otávio nas pesquisas para a obra “Meus Irmãos Os Trovadores”, cuja publicação, em 1956, foi considerada o “marco zero” do movimento. Igualmente participou do neotrovismo, movimento de renovação do trovismo que teve início em 1980, angariando e fazendo surgir inúmeros novos autores.

 

Conheça um pouco do vasto e valioso acervo das trovas de Eno Theodoro Wanke:

 

No firmamento infinito

que a lua singra, tristonha,

eu vejo o destino escrito

do meu coração, que sonha.

 

Se meus olhos se dirigem

com ternura, ao teu olhar,

eu sinto a clara vertigem

das ondas verdes do mar.

 

Quem amou e foi querido,

jamais cometeu pecado.

Pecado é alguém ter vivido

sem do amor ter cogitado.

 

O caso é não ter preguiça,

é pesquisar sem caretas:

- Quem colocou dobradiças

nas costas das borboletas?

 

Teve a ideia, tão distinta,

de economizar, feliz,

galões e galões de tinta,

não pingando mais seus is.

 

Com maior velocidade

que a luz alguém voou.

Pela relatividade,

na véspera regressou.

 

A minha boca cobiça

a tua, carne em botão,

centelha rubra, que atiça

o fogo em meu coração...

 

A gralha azul, quando canta,

tem razão para cantar!

Pois cada pinhão que planta

se deve comemorar.

 

Agoniza o sol... Delira,

sob as vozes do sertão.

Emociona-se um caipira,

e reza. E pede perdão.

 

Aquela montanha, longe,

ao pôr do sol me parece

o vulto escuro de um monge

ensimesmado na prece...

 

Na tristeza que palpita

no velório, ao fim da tarde,

o sol é a vela infinita

bruxuleante e triste, que arde...

 

Em julho, o frio ameaça,

às vezes, vem, outras não.

A corrida do ano passa,

os dias vem e se vão...

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo, trovas de Eno Theodoro Wanke e Luiz Otávio.

A quantos passos do Paço da Liberdade?

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Paço da Liberdade, exemplo de conservação e uso

 

 

História e beleza que se impõem, sobrepõem na paisagem? No poder de transformar, o encalço por preservar? Um pouco de todos nós como alicerce da memória? Só sei que os olhos de encheram de encantamento e estupefatos contemplaram o Paço. Sim, o Paço da Liberdade, estrutura suntuosa, ares de palacete, no centro de Curitiba, coração que bate em ritmo paranaense. A edificação singular comemora seus cem anos de existência. Inaugurado em 24 de fevereiro de 1916, foi construído para ser a sede da administração pública da capital do Estado. A riqueza arquitetônica forma par com o esmero nos detalhes, estilo eclético com predominância em Art Nouveau, facilmente reconhecido nas formas sinuosas nos ornamentos em portas, colunas e espaços internos. A grandeza se revela ainda pela escadaria em peroba rosa, que circunda os quatro andares do edifício. A histórica construção, tombada pelo patrimônio municipal, estadual e nacional, recebeu o primeiro elevador instalado em Curitiba. Depois que o local deixou de ser o endereço do Palácio da Liberdade, passou por diversos usos, sofrendo deteriorações e reformas, culminando num grande projeto de revitalização e ocupação através de um convênio entre a Prefeitura de Curitiba e o Sistema Fecomércio SESC SENAC Paraná, abrangendo também a área comercial no entorno. Reinaugurado em 2009, passou a abrigar um centro cultural, SESC Paço da Liberdade, promovendo farta agenda de atividades. Inda hoje a arte expressa nos "Hercules", em colunas que sustentam a entrada do prédio e graciosa figura feminina que aludem aos poderes Legislativo, Executivo e a própria cidade, fazem refletir sobre a força necessária para suster e preservar o que nos pertence. A quantos destes passos estaria nossa Rua da Estação Saudade, em Ponta Grossa? Passos sem descompasso, ouso esperar.

Turista imaginário

 

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A beleza pitoresca das construções antigas

 


Andaria pelo centro da cidade. Ansiaria ver e conhecer prédios antigos, histórias contadas de tantas vidas, memórias que remontassem às passagens não esquecidas. Pelas calçadas o fio de tudo o que já existiu, de encontros e de partidas. Imaginaria quem nunca por aqui andou, se visse praças, monumentos, casas centenárias, o que pensaria? Nas fotos antigas um mesmo local, por vezes revisitado, registrado, fotografado. Em cada instante, formas e contornos que se alteram, um mundo a se metamorfosear. Não queria que tudo fosse novo outra vez, do anterior removido sem deixar vestígios. O mundo é como nossas vidas, como causos que se contam com o passar dos anos. De construções que marcam nas cidades a passagem do tempo. Imaginaria que os momentos aceleram e o que hoje existe se congela, capturado e integrado à linha do tempo. Quisera se preservar e registrar em si o que se anseia conservar. No senso comum uma ideia do pôr abaixo tudo o que pertence a um passado que já se foi. E o que dizer da possibilidade de evolução sem destruição? Os ambientes podem ganhar vida, alcançar diferentes usos, que ocupem a chance da transformação requerida. O ser humano também se recicla, assume atribuições que lhe desafia e propicia alçar em sabedoria, em aprendizagem e primazia. As cidades nos espelham como mirantes, nos revelam que somos como elas. Belas ou abandonadas, bem mantidas ou desmanteladas, todo o gosto que se aplica ou no desgosto que fustiga. Transformar o que estava largado à própria sorte requer trabalho, mais moroso e crasso ainda é ver não vingar a identidade, nas edificações urbanas, a vida sempre soberana quando erige do que se reintegrou. Se eu fosse turista em nossa cidade, além da paisagem, geografia exuberante na vegetação e nos capões reinantes, de enlevo me enterneceriam os prédios antigos, bem mantidos, no cenário a nos elevar.

 

Libertem o homem forte

Cássio Murilo
Os pais são homenageados no mês de agosto

"Ensinei meus filhos a andarem de bicicleta do mesmo jeito: fixe num ponto, olhe para frente e vá! Deu certo" - conta Miguel entusiasmado. "Tive febre e fiquei doente de vontade de ter uma bicicleta. Quando meu pai chegou, com uma nas costas, sarei na hora" - narrou Elizeu, com lágrimas nos olhos. "Tatiana tirou 1º lugar no concurso de redação do colégio" - Adilson afirma, feliz. Jaime, pai recente, não falta às consultas do filho Benício, um ano. Na obra "Libertem a mulher forte", Clarissa Pinkola Estes narra histórias do feminino sagrado, corajoso e destemido, em episódios de fé e compaixão. E quem libertará o homem forte? Com tamanha dinâmica nas relações, papéis sociais e contextos culturais mesclando hábitos antigos com demandas atuais, o homem vem desempenhando igualmente novas atribuições, sem deixar de ser referência moral e de conduta para aqueles que vêm. Túlio confessou que do primeiro filho nunca trocou uma fralda sequer; do segundo, vinte anos mais tarde, perdeu as contas de tanto limpar, perfumar e cuidar. Quando as gêmeas eram pequenas, Álvaro punha nos ombros, uma de cada vez, apagava as luzes e brincava de "túnel escuro" pelos cômodos da singela habitação. Décadas mais tarde, as moças não têm medo de escuridão. Rogério liga para os filhos, no retorno previsto de cada viagem deles, insiste em velar pelas idas e vindas, guardião que conta e reza por quilômetros infindos. Marlon pública fotos da filhinha nas redes sociais, nunca sem mostrar abraços e afagos, carinhos, na pele marcados. Depois que o câncer do Jorge se alastrou, vieram-lhe feridas pelas pernas; Hélio, o genro, meticulosamente, remédios e curativos aplicou. E quem ousaria libertar o homem forte? Ele mesmo, cada vez que aprende a viver e a sentir o amor que conduz, cultura viva que irradia luz.

 

Casa agropecuária

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O charme pitoresco das casas agropecuárias

No cenário urbano, no centro e nos bairros mais populosos, integrando-se graciosamente ao ambiente, as casas agropecuárias emprestam seu charme pitoresco. Inda hoje, convivendo com comércio de eletrônicos e outras modernices, esses estabelecimentos, em seus produtos a granel e imensa variedade dos mais diversificados itens, por vezes, parecem saltar do passado para o presente, alheios à passagem do tempo. Desde criança, lembro-me de adentrar tais locais, movida pela atração incontrolável em conferir de perto os simpáticos gatos e cachorros, quase sempre filhotes, à venda ou aguardando adoção. Também as exuberantes mudas de plantas a colorir, em seus matizes de verde, estes empórios. Generosa quantidade de sementes de hortaliças e de flores em pacotes sortidos miúdos. Impossível resistir ao apelo de levar para casa os pacotinhos, semear e ver crescerem até alçarem a forma da foto ilustrativa na capa. Desta feita, uma conquista! A seção dos fumos de corda um capítulo à parte em aromas e texturas curiosas a despertar os respectivos sentidos. Insisto que o transcorrer do tempo, nas dinâmicas de modificação nos estilos, prioridades e anseios de vida, costuma ser implacável e põe abaixo prédios e hábitos. Não sem mérito, uma nesga de satisfação e felicidade invade quando costumes antigos resistem à modernidade quase sempre sufocante. Qual percentual da população compra ração para coelho? Nem ouso responder, mas é um encanto que esses animais e outros lá estejam, enlouquecendo de alegria as crianças transeuntes. Nesta semana mesmo, andando pelas ruas do bairro Nova Rússia, caixas com minúsculas espécimes vegetais, pujantes em vitalidade, junto a cachorros tom caramelo e um bando de pintinhos cor de canário, expostos à entrada da loja, brincaram de provocar meus sentidos e memórias.