Sherlock Holmes Cultura
A passista do Carnaval de 1979 (I)

Ben-Hur Demeneck *

Carnaval de 1979, Ponta Grossa. A passista da escola de samba Princesa dos Campos posa para a fotografia. Ela olha para a câmera de cabeça erguida, ornada com uma grinalda de lantejoulas. Jussara ajeita nos ombros o manto branco recortado de babados, depois segura entre as mãos um cetro contornado por fita dourada. O vestido longo possui uma tonalidade clara semelhante a uma parede de berçário e seu manequim acomoda com folga a gestação em curso. Gleison demoraria meses para conhecer o mundo aqui de fora, mas já simbolizava a potência do Carnaval em combinar beleza, afeto e arte. Véspera de Carnaval de 2020. Tanto a moça da foto quanto outros personagens dos bairros de Ponta Grossa seguem fora do radar da universidade e dos meios de comunicação. O silêncio que lhes imposto impede que nos expliquem quais são os enredos e quem são os personagens que fazem a maior festa popular do Brasil nos Campos Gerais. Jornalistas, historiadores, cineastas, professores e gestores culturais precisam mudar este quadro e começar a documentar e dar visibilidade às memórias de nossos passistas, ritmistas, compositores e carnavalescos. É urgente registrar tudo aquilo que os súbitos de Momo mais experientes lembrarem dos Carnavais do

século XX. A passista de 1979 se chama Jussara de Fátima Ribeiro Batista. Ela nasceu em 1957 e como o leitor confere na foto que ilustra a coluna do grupo Sherlock Holmes Cultura, sequer a gravidez e o comentário de abelhudos demoveram Jussara de seu desejo em desfilar na avenida, naquela época pela escola de samba Princesa dos Campos. A participação dela no Carnaval de rua se estenderia em agremiações que permanecem vivas graças a sua lembrança. Ela foi passista na Princesa dos Campos (anos 1970), destaque na Gralha Azul, rainha de bateria na Baixada Princesina (anos 1990) e porta-estandarte na Nova Princesa de Olarias (anos 2000). Também, por seis anos, desfilou na União da Mocidade de Olarias. Enquanto Jussara mergulha em décadas passadas, menciona o nome das escolas de samba e logo sublinha o nome de seus líderes carnavalescos. Relaciona Princesa dos Campos com Toninho Gordo, União da Mocidade de Olarias com Luiz Guitarra, Baixada Princesina com Luiz Preto, Nova Princesa de Olarias com Miguel Mazurek. Via de regra, tais personalidades “viajaram fora do combinado” sem deixarem o devido relato de suas vidas e obras para a posteridade em texto, áudio ou vídeo. Falha de todos nós.

(CONTINUA NA SEMANA QUE VEM)

* Ben-Hur Demeneck é jornalista e doutor em Ciências da Comunicação (ECA-USP). Ao lado de Fabrício Cunha, criou o projeto Samba do Trilho - roda de sambas autorais ganhadora do Prêmio Jacob Holzmann 2016. É autor do livro “PG de A a Z & outras crônicas” (Todapalavra Editora, 2013).

 



 

 A XV do amanhã!

Alberto Portugal

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A rua XV de Novembro faz parte da identidade dos ponta-grossenses. É incontestável. Todo mundo tem ou sabe alguma história da rua estreita, repleta de senhores que, depois de aposentados, se reúnem a qualquer hora do dia para conversar. Aliás, era o que todos deveríamos fazer. Pelo menos em alguma hora do dia. Evidentemente, a correria do dia a dia não nos permite observar as peculiaridades da via, que em um primeiro olhar parece ter apenas cartórios e tabelionatos. Pouco se comenta sobre o passado deste trecho da cidade, mas a XV já foi meio de tudo, em ambos os sentidos. Meio no sentido urbano, porque talvez para muita gente fosse o verdadeiro centro de Ponta Grossa, com

comércio ativo, tendo inclusive o primeiro “shopping” da região (pelo menos para algumas pessoas): a Casa Lange. Em outro período, foi ponto de anarquistas, de gente que se reunia pras badernas, e embora a afirmação pareça machista, o pesadelo de muitas esposas. No tempo dos bares e das noitadas, era na XV que quem queria se divertir estaria ao anoitecer. Mas em contraponto, ali já passou procissão, já teve manifesto político, já teve elegância nos trajes e nos carros que passeavam lentamente.

Não é difícil encontrar referências estrangeiras: há um quê de Wall Street, principalmente no período em que, antes dos páreos do Jockey Clube, se faziam apostas, se guardava dinheiro no velho banco e se faziam grandes negócios. Quem olha, sem muito esforço pra ser sensível, hoje enxerga um aglomerado de predinhos com pouco acabamento, um ou outro reformado, e nada, absolutamente nada da suntuosidade dos palacetes princesinos, a exemplo de Villa Hilda, ou dos recém-tombados Banco Bradesco e Casa Biassio. Naturalmente, sem a sensibilidade necessária nas discussões da preservação, prédios são apenas prédios. E erroneamente se relaciona os edifícios tombados com terríveis monstros que impedem o progresso. Não! Pelo contrário. No ano em que a rua XV de Novembro completa 100 anos com este nome, por ironia do destino cumpre-se a lei 8.431/2005 que determina, caso o proprietário de uma unidade solicite retirar do Inventário Cultural (processo anterior ao tombamento), e o Conselho Municipal do Patrimônio Cultural opte por não fazê-lo, que se tombe. E é uma decisão do COMPAC que se interprete a via como um conjunto, ou seja, sem que os edifícios sejam compreendidos como independentes e isolados. É isso: nada na XV é um só. J. Ruskin explica que as obras significativas para um povo não são de uma pessoa, são de todos. E embora se garanta o direito de propriedade aos donos, o que se quer dizer é que fazem parte de uma história coletiva. A rua XV do passado é marcada por fatos, por feitos e por muitos. A do futuro deve novamente fazer história, mas sem ignorar o que existiu para trás. É o que aconteceu com a Rua Riachuelo, o Largo da Ordem, a Calle Florida, o Pelô. Preservar é permitir que se reconheça um pedaço das nossas vidas. Afinal como será o amanhã?

 

 

*Alberto Portugal estudou Turismo e Hotelaria, é Arquiteto e Urbanista, bacharel em Artes Visuais. Atualmente é diretor do Departamento de Patrimônio Cultural e acredita que a preservação da memória, do protagonismo e da identidade são formas de garantir um futuro melhor para a cidade.

**Fotografia : Carlos Mendes Fontes Neto

A TRANSFORMAÇÃO DA URBANIZAÇÃO DA CIDADE DE PONTA GROSSA (Primeira parte)

Carlos Mendes Fontes Neto*

 

É incontestável que a imigração europeia contribuiu para modificar os hábitos na forma de ocupação do espaço urbano causando uma revolução principalmente na segunda metade do século XIX quando um número significativo de alemães, poloneses, italianos e ucranianos aportou na cidade. Segundo o relatório do Presidente da Província, Joaquim d´Almeida Faria Sobrinho, de 30 de outubro de 1886 a população de Ponta grossa havia quase dobrado nos últimos anos com a vinda dos alemães do Volga. Além de outros imigrantes que haviam aportado na cidade na década anterior.

Antes o espaço urbano seguia o modelo urbano colonial vigente, com construções baixas, edificadas com pedras e taipa, sem forro, com a frente no alinhamento da rua, com ocupação do terreno sem se preocupar com aberturas convenientes para iluminação ou ventilação e o espaço comum exclusivamente voltado ao uso das tarefas domésticas. O que de certa forma atendia as necessidades do cotidiano até então. Mas com a chegada dos europeus, principalmente os de origem germânica, naturalmente se imprimiu na forma de edificar e na própria conformação dos espaços e usos das moradias um novo modelo que começou a modificar a urbanização da cidade. A frente das moradias se afastou do arruamento criando espaço para ajardinamento, além de haver preocupação de ocupar os espaços livres do terreno com plantas, hortas e pomares. Antes se relegava a ideia de espaço para cultivo para além do perímetro urbano. Existia então uma sociedade de perfil rural que mantinha propriedades no entorno e logo não se preocupava com esse aspecto no perímetro urbano. Não que os imigrantes também não tivessem esse costume, mas sem abrir mão da forma de ocupação urbana ligada ao aproveitamento de espaço livre por menor que fosse para plantar e ajardinar.

As moradias então começaram a sair do rés do chão, ganhando telhados com inclinação acentuada, mansardas, águas furtadas, lembrando as origens de terras onde o acumulo de neve devia ser evitado. Ainda considero que mesmo sendo um elemento dispensável no nosso clima, esse espaço criado sob o telhado ocupava uma função útil na divisão do espaço doméstico. Era o sótão,

onde eram acomodadas as crianças da casa. Quem não identifica como um elemento ¨sui generis¨ nas edificações que ainda vemos pela cidade, as casas com sótão (e era muito comum os alemães provenientes da região do Volga chamarem de ¨soti¨).

*Mestrando em Planeamento e Projecto Urbano na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Portugal.

As fotos que ilustram o texto são do acervo pessoal do autor.

Feliz Natal!

Neuza Helena Postiglione Mansani

[email protected]

[email protected]

                                                       

                                                      Feliz Natal!

 

   Nas paralelas dos trilhos

                No apito do trem

Nas lembranças de alguém

Nas batidas de um coração

                 Sejamos canção.

                          

                         

Há cinco anos, em 27 de junho de 2014, pelas janelas do Jornal Diário dos Campos, Ponta Grossa ganhava a coluna Sherlock Holmes Cultura; voltada para defender a identidade e a cultura  de nossa cidade de Ponta Grossa, passando a reunir pessoas, sem qualquer vínculo partidário, interessadas em destacar o não conformismo da sociedade com os rumos que nossa cidade vinha tomando frente a não preservação histórica e ambiental. Sensível à intuição, após a enésima vez lendo Sherlock Holmes, desperta uma alma para cutucar outras tantas, e trazer de volta marcas de algo que foi e será sempre a história de uma cultura, de uma identidade perdida; faz nascer Sherlock Holmes Cultura, espaço esse, na busca de pistas de uma “Ponta Grossa já tinha.”

Quase como marco de um “boom” que está a acontecer nos dias de hoje, aqui, ali, acolá, desperta-se, como que pelo badalar dos sinos, pelo som do apito do trem e pelas imagens, o amor pela Princesa dos Campos Gerais, e vamos retomando aos poucos a nossa identidade. O Universo conspira a favor de Sherlock Holmes Cultura.

                                           

 

Conto um conto... um casal, ele médico, ela professora, ao voltar da “Lua de Mel”, após longa viagem de São Paulo a Ponta Grossa, viagem de trem, chegam à Estação Saudade, saudados pelos parentes mais próximos. Muita emoção, avô ferroviário, que orgulho! Enquanto alguns, viajavam de avião, de carro “último tipo”, a viagem de trem marcou a felicidade do jovem casal, que estava por vir. As lembranças estão nas coisas, lá está, hoje, a estação linda, (re)significada! A história do casal sob os céus de nossa história nos conduz ao passado e nos trás ao presente – Presente embrulhado numa cultura enlaçada pelo apreço e louvor dos moradores desse pedaço histórico da nossa cidade, e de alguém que ouve, em seu coração, o soar do trem da vida.

Com essas lembranças, Sherlock Holmes Cultura agradece a atenção aos seus colaboradores, aos seus leitores, ao editorial do Diário dos Campos, que vêm nutrindo uma cidade com a seiva da cultura; deseja um Natal de paz, de amor, de solidariedade e oferece uma cantata de sons pelos trilhos da vida, evocados pela Maria Fumaça, pela beleza do monumento Unidade Cultural do Sesc, pelos encantos de cada canto – em cada canto, uma saudade.

 

 

Ontem, a noiva e o trem

Hoje, Sherlock Holmes Cultura

Amanhã, reinventemos 2020!

 

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A autora Neuza Helena Postiglione Mansani

Responsável pela Coluna Sherlock Holmes Cultura

Mamãe Noel 2019     

À PROCURA DA MEMÓRIA FERROVIÁRIA

O relógio do frontão da estação volta a marcar o tempo!

Carlos Mendes Fontes Neto*

Marco no desenvolvimento da cidade, a ferrovia surgiu no esteio da revolução de 1893 sendo protagonista da nossa história antes da inauguração da linha que chegava de Curitiba, sendo utilizada pelas forças revolucionárias.

Foi oficialmente inaugurada em 1894, com a abertura da Estação Paraná na Rua Benjamin Constant, ligando Curitiba à Ponta Grossa. Em 1898 começou a construção da estação que seria conhecida como Saudade, com o nome de Roxo de Rodrigues, a qual foi inaugurada na virada do século e ampliada já em 1908. Em estilo neoclássico e detalhes art noveau foi considerada uma estação de primeira classe e recebeu o reconhecimento de sua importância como Patrimônio Cultural do Paraná no ano de 1990. Foi símbolo do maior entroncamento ferroviário do sul do país, cuja importância se efetivou com a ligação São Paulo-Rio Grande do Sul, e que teve seu auge no período de 1943-1954 com o trem internacional (Itararé- Uruguai).

Palco de acontecimentos históricos, ao mesmo tempo em que representava o principal meio de transporte de passageiros de boa parte do século XX, registrou a passagem de várias personalidades. Em sua plataforma pisaram, por exemplo, o Presidente Afonso Pena (1909), Santos Dumont (1916), Getúlio Vargas (1930 e 1943) e Monteiro Lobato (1938).

Depois de anos abandonada, agora ressurge na vida da cidade como Unidade Cultural do Sesc, após primorosa restauração que devolve sua imponente beleza original. A proposta, além de um centro cultural, café e restaurante-escola, se destaca pela iniciativa proposta pelo Sistema Fecomercio Sesc Senac do Paraná pela abertura de uma sala-museu, com o intuito de devolver a memória das ferrovias que cruzaram a região.

Como anteriormente o patrimônio ferroviário foi ignorado, a tarefa agora é coletar elementos, fotografias, objetos e tudo que remeta à ferrovia. E recuperar a memória dos que construíram esse patrimônio e que durante décadas o operaram. Nomes como o do alemão Roberto Heling, primeiro chefe de tráfego, Egydio Pilloto, José Cunha, Ewaldo Kruger, Germano Kruger e outros.

Nós, do Sherlock Homes Cultura, estamos iniciando a campanha para que todos que tenham algo ligado a essa página histórica contribuam para recompor o acervo perdido. Precisamos valorizar e destacar essa iniciativa.

*engenheiro civil e pesquisador do espaço urbano.

** as fotos que ilustram o artigo são do acervo particular do autor.

A Praça da Matriz e a Capoeira

Novamente abrimos as janelas da Coluna Sherlock Holmes Cultura para o Projeto Crônicas dos Campos Gerais, projeto desenvolvido pela Academia de Letras dos Campos Gerais, do qual somos parceiros, com o objetivo de fomentar e divulgar percepções sobre os Campos Gerais do Paraná, estimulando o relato escrito (crônicas) de vivências da população regional ou visitantes. A crônica desta semana Intitulada "A Praça da Matriz e a Capoeira” é de autoria do escritor Jeferson do Nascimento Machado, agricultor, São João do Triunfo.

 

A Praça da Matriz e a Capoeira

Encontro-me na Praça da Matriz, um pequeno espaço de lazer, localizado no centro da cidade de Imbituva. O local é composto por elementos naturais – árvores, gramados, flores e arbustos­ – e não-naturais, produtos do trabalho humano – bancos, calçadas e a Paróquia Santo Antônio. Nesta praça nasceram amizades, namoros... mas fora esses acontecimentos cotidianos, o lugar também serviu de palanque para fascistas, repressores... Aqui discursou Plínio Salgado, foram realizadas passeatas e marchas militares durante a Ditadura. Por outro lado, este mesmo lugar foi ponto de encontro de jovens, que por diversas vezes reuniram-se para discutirem as mazelas sociais e buscarem alternativas ao velho mundo.

Agora, dirijo-me para o outro lado da praça. Noto que várias pessoas, vestidas de branco e algumas segurando instrumentos, aglomeram-se abaixo de algumas árvores. Aos poucos se forma um círculo. Em seguida, passam a tocar e a cantar. Aqueles que não empunham instrumentos caem nas palmas e respondem o coro. Sem demora, duas pessoas se dirigem sob os que tocam os instrumentos, agacham-se, tocam a mão um do outro e adentram o círculo, realizando uma cambalhota. Agora eles estão no centro do círculo e realizam movimentos em grande sincronia. Parece uma luta! Parece uma dança! Trata-se de uma tradicional roda de capoeira, que ocorre aqui desde a década de noventa. Aliás, as primeiras aulas de capoeira da cidade foram realizadas nesse local.

Não tarda e a roda começa a seduzir os transeuntes. Homens, mulheres, crianças e casais que estavam passando agrupam-se em torno da roda. Imediatamente, mesmo que de forma tímida, passam a bater palmas e a responder o coro. Isso anima os capoeiristas, que aceleram o jogo e começam a realizar movimentos cada vez mais complexos. Alguns dos transeuntes, mais extrovertidos, chegam a entrar na roda e arriscar algumas pernadas.

Todavia, se hoje a capoeira é tão querida na cidade, antigamente ser capoeirista era estar deslocado da identidade “verdadeira”, a de imigrante europeu. Naquele tempo, tudo era mais difícil e existiam vários estereótipos atribuídos àquele que jogasse a capoeira. Chamar o berimbau de “cachimbo de preto”, o capoeirista de macumbeiro, de vadio ou bandido, eram alguns dos modos de o preconceito se manifestar.

Entretanto, os capoeiristas não desistiram, não arredaram o pé. E foi por terem resistido ontem que podemos desfrutar hoje desta expressão nacional e regional.

 

Crônicas dos Campos Gerais

“... a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas – sobretudo porque quase sempre utiliza o humor.”

Estas palavras de Antonio Candido de Mello e Souza, renomado sociólogo e crítico literário brasileiro, nos revelam ser a crônica um gênero literário próximo do despojamento do dia a dia, com enorme possibilidade de traduzir na cultura e na arte literária a realidade social. Antonio Candido ainda nos diz que “Na sua despretensão, a crônica humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.”

Cultura e arte, no caso a arte literária, são essenciais para o florescimento da empatia. A empatia é a essência da compreensão, da tolerância, da esperança. Um povo sem cultura e arte é um povo triste, rude, intransigente. A arte aproxima, humaniza, desfaz as barreiras da incompreensão e da intolerância, revela a beleza do mundo e a grandeza da alma humana. E a crônica, um gênero da literatura próximo da pessoa comum e do dia a dia, adquire assim enorme possibilidade de transformação.

Os Campos Gerais do Paraná têm singularidades naturais e históricas que os destacam no cenário nacional e mesmo internacional. Eles se estendem desde Rio Negro a sul, na fronteira com Santa Catarina, até Jaguariaíva e Sengés a norte, nos limites com São Paulo. São marcados por escarpados, cânions e pelo degrau topográfico da Escarpa Devoniana, que separa o Planalto de Curitiba do Planalto de Ponta Grossa. Ali rochas arenosas geraram solos propícios para a vegetação de campos nativos, pastos naturais que facilitaram que no tempo do Império a região fosse o caminho principal das tropas provenientes do Rio Grande do Sul com destino a São Paulo.

O tropeirismo originou o rosário de cidades que se sucedem marcando os antigos pousos ao longo da marcha. Com o tempo, a ferrovia, a agricultura, a industrialização vieram acrescentar suas marcas à identidade regional. Estas particularidades criam um cenário muito propício para a criação literária: a vida nas cidades com um histórico peculiar ou nos campos e matas com araucária proporcionam muitas situações pitorescas e inusitadas que motivam inspirados textos.

O projeto “Crônicas dos Campos Gerais”, iniciativa da Academia de Letras dos Campos Gerais, tem a intenção de estimular a criação e a vivência literária da população da região e dos visitantes que por aqui passaram e foram marcados pelas singularidades de nosso território. Divulgando as crônicas escritas muitas vezes por quem está se descobrindo escritor(a) e promovendo encontros literários para troca de experiências, o projeto espera incentivar a cultura regional.

Toda a população acima de dezesseis anos é convidada a participar. Orientações sobre as crônicas e o projeto podem ser conferidas no sítio https://cronicascamposgerais.blogspot.com/. As crônicas, textos curtos com até 2.500 caracteres, devem ser enviadas por e-mail para o endereço [email protected].

 

 

A FONTE LUMINOSA

Nesta semana a história do item número 1 do nosso inventário: A fonte luminosa e seu mecanismo que tornava seu funcionamento um espetáculo inusitado para a cidade. Vamos conhecer mais sobre a fonte luminosa que existia na Praça Barão do Rio Branco através do texto da pesquisadora da história ponta-grossense e membro do Sherlock Holmes Cultura, Denise Ernlund Metynoski. A praça hoje não tem mais qualquer sinal da fonte. Na praça a presença de fontes e chafarizes foi eliminada. O repuxo com a cornucópia que funcionava como chafariz ao lado do Ponto Azul teve a peça decorativa destruída recentemente, substituída por umas mangueiras com esguicho. E encontra-se desativado. O chafariz do Ponto Azul também sofreu descaracterização, sendo aterrado.

Carlos Mendes Fontes Neto (administrador).

 

A FONTE LUMINOSA

Denise Ernlund Metynoski

O projeto da fonte foi do mineiro Antonio Corrêa Beraldo, criador desse tipo de fonte, que ele batizou de “Fonte Independência”. Seu primeiro projeto data de 1930 e foi construído na cidade mineira de Pouso Alegre. Ele instalou fontes em muitas cidades brasileiras, entre elas Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Rio Branco, Erexim. Algumas dessas fontes ainda existem.

Foi o prefeito Albary Guimarães que teve a iniciativa de construir a fonte. O projeto constava de uma bacia circular que ficava abaixo do nível do chão, com envergadura de pouco mais de três metros, com uma mureta ao seu redor, a qual era reservatório de água. No centro tinha bacias em três níveis, onde estava instalado encanamento. Um único motor impulsionava engrenagens artesanais que produziam jatos de água. Os jatos do alto, com movimento circular e efeito de espiral, chegavam a quase 4 metros de altura e podiam formar 18 desenhos diferentes. As duas bacias inferiores tinham 6 jatos estáticos cada. A fonte tinha iluminação colorida que usava vermelho, verde, azul e branco, criando automaticamente 72 combinações usando jatos e cores. Na bacia inferior havia quatro pequenas construções com uma cabeça de leão, de cuja boca também jorrava água. Na parte de trás de uma delas havia uma porta de metal que dava acesso ao mecanismo para ligar a fonte e as luzes.

A fonte foi terminada e testada por seu construtor no dia 20 de março de 1938 e foi inaugurada no dia 27 do mesmo mês, um domingo.

Após a inauguração, que não contou com a presença de seu construtor, o secretário da prefeitura Sr. Fidelis Alves, a pedido do prefeito Albary Guimarães, enviou um telegrama para Beraldo. A fonte era ligada todos os dias das 19 às 22 horas, sendo sem iluminação nos dias de semana e com iluminação aos sábados, domingos e feriados. Os jatos das cabeças de leão nunca eram desligados.

Por volta de 1951/52 o mecanismo de iluminação deixou de funcionar e não foi consertado. Em 1955 os jatos começaram a apresentar problema no lado sul da fonte, esguichando água a uma distância de uns dois ou três metros fora da bacia inferior, impedindo a passagem de pessoas. Alguns jatos simplesmente pararam de funcionar. Em 1960 as construções com as cabeças de leão foram retiradas, juntamente com o motor, e a fonte deixou de funcionar definitivamente. Ela permaneceu no local até 1970, totalmente deteriorada e com problemas na renovação da água, acabando por ser demolida.

 A PRAÇA DA CATEDRAL

Terceira parte: A PRAÇA, AMANHÃ.

 

Carlos Mendes Fontes Neto*

Um elemento preponderante na paisagem urbana. Ambiente agregador de indivíduos dentro de uma linha de tempo. Local de descanso, reunião, contemplação ou de apenas passagem, mas que integra de maneira agradável o ¨viver¨ na cidade. A história da cidade é construída nela, ali sempre se reunia a comunidade, era onde aconteciam as comemorações cívicas e religiosas.

A cidade pode ser reavaliada através dos espaços existentes, principalmente o das praças, conforme propõe o arquiteto e historiador austríaco Sitte (1843-1903).

E é urgente, além de uma revitalização da praça, uma proteção aos elementos que ainda mantem a sua identidade principalmente no sentido que intervenções desastrosas, mesmo com boa intenção, comprometem ainda mais suas características e seu papel histórico.

Para a praça de amanhã resumimos um diagnóstico composto de dez aspectos, sobre a situação da praça, e destacamos elementos que podem ser avaliados e trabalhados no sentido de devolver ao espaço sua significância:

1. Acessibilidade: o tráfego de veículos no seu entorno não é de convergência e sim de passagem, prejudicado pelo fechamento da rua que separava a praça da catedral. A movimentação pedonal é predominante, com deficiências de faixas de pedestres para orientação e segurança.

2. Marcos visuais: a praça tem no seu entorno algumas edificações marcantes na história da cidade, tais como o prédio do Museu Campos Gerais e da Proex, além de outras construções como o Quartel General, Clube Pontagrossense e a moderna catedral. São pontos que concorrem para atrair moradores e turistas.

3. Mobiliário: bancos precisando muito de manutenção e melhor distribuição; lixeiras suficientes e em razoável estado (ponto negativo é a lixeira particular instalada em um canto da praça com lixo doméstico esparramado). Atenção com a preservação do marco geodésico do antigo 2º. DL ainda existente dentro da praça.

4. Iluminação: adequada em estilo e intensidade, mas que poderia ser valorizada com iluminação dirigida aos monumentos existentes (instalada discretamente para não poluir visualmente).

5. Piso: adequado com alguns danos pontuais devido ao tráfego irregular de veículos do poder público; traçado dos caminhos bom e com circulação racional.

6. Obras de Arte: Monumento ao Centenário da Fundação de Ponta Grossa e o Monumento ao Sesquicentenário da Fundação de Ponta Grossa. Ambos merecem uma recuperação e limpeza, sendo que o segundo se encontra parcialmente descaracterizado pela supressão do espelho d’água, a fim de recuperar as características originalmente propostas. Existe ainda um monumento dedicado à bíblia, de menor importância.

7. Paisagismo: passada a época de Jacob Schell, as praças , assim como a cidade, perdeu a elaboração do ajardinamento. É um item que deve ser desenvolvido por profissional habilitado.

8. Áreas sombreadas: até dezembro de 2013 a praça era uma das áreas mais bem arborizadas do centro, porém, graças ao corte indiscriminado de várias espécies ficou bastante prejudicada. Precisam ser prevenidas novas intervenções dessa natureza, sem justificativa real.

9. Conforto ambiental: apesar de tudo, no futuro, se apresenta como lugar convidativo, agradável e tranquilo na paisagem árida da região.

10. Estado de conservação: investir em conservação é a proposta para o futuro da praça, pois é garantia de manter esse espaço com qualidade e perpetuar sua significância na história da cidade.

É preciso devolver a praça às pessoas!

 

*Engenheiro Civil, Mestrando em Planeamento Projecto Urbano na Universidade do Porto, Portugal, Presidente da Associação Germânica dos Campos Gerais e membro do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

 A PRAÇA DA CATEDRAL

 

 

Primeira parte: A PRAÇA, ONTEM.

Carlos Mendes Fontes Neto

A nossa Praça Mal. Floriano Peixoto, ponto emblemático da cidade, marco do local onde a cidade surgiu e que até hoje ocupa um lugar de destaque na vida dos cidadãos ponta-grossenses. E quando quatro anos atrás nosso olhar caiu sobre o sumiço de uma placa do obelisco do centenário, despertou em nós a curiosidade sobre vários aspectos.

Se, de início, era uma área frontal à antiga igreja matriz onde os animais eram soltos, à medida que a cidade evoluiu sofreu as transformações que acompanhavam o desenvolvimento social e econômico. Foi palco de acontecimentos, festividades e ajudou a escrever nossa história. Foi ali que se erigiu um portal festivo por onde o imperador foi recepcionado em 1880. Foi palco de retretas no seu coreto desaparecido, local das festividades religiosas, marcou o centenário e o sesquicentenário de nossa fundação. No seu entorno, a cidade foi se desenvolvendo. Ali ao seu lado, a antiga casa comercial de Juca Pedro (a mais antiga da cidade). A casa do Barão de Guaraúna, mais tarde da casa da Baronesa no outro lado. Do centenário Clube Pontagrossense e do Tribunal de Justiça...

Ao mesmo tempo ficou marcada como a praça da catedral, cuja imagem, sempre esteve ligada à arquitetura da edificação que durante boa parte do século XX dominou a cidade até sua triste demolição. Através das fotos percebemos e evolução e a riqueza singela da praça da catedral. Elementos que pouco a pouco foram sendo suprimidos e substituídos até sua conformação atual. Mas isso é uma consideração para a segunda parte onde avaliamos uma possível revitalização do espaço.

*Mestrando em Planeamento e Projecto Urbano na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

**Fotos do acervo do autor