Sherlock Holmes Cultura
Operário das ferrovias verdes

 

Peterson Strack
O Operário Ferroviário tem seu nome ligado à pujança econômica da cidade

 

Simetria, espelhamento, metade para cá, metade para lá, completa a alegoria. Remete a outros tempos, na contagem dos momentos que passam pelo campo. Verde das matas, verde nos encantos e na abundância vegetal, analogia que esparge do pavilhão nacional. A vontade também corre sobre um tapete verde, pés e pernas com sede de ir adiante. Sempre a imagem da habilidade que remonta a coordenação cinzelada em boa vontade. Cena que se impregnou no imaginário da memória da localidade. Verdade de quando os homens eram fortes na vida ferroviária.

Em cada município, espaço cultural, uma identidade que perpassa a economia e segue marcando a característica de seu povo. Do alto de uma colina, vista de hoje, uma linha imaginária corta a paisagem dos campos. Desde a Vila de Ponta Grossa, independente do montante da atividade, há linhas e ferrovias no espaço imaginal da cidade. Fundado em maio de 1912, o Operário Ferroviário Esporte Clube adentrou e fez morada na cultura das ferrovias impregnada. Raízes que remontam ao que já foi, sem jamais abandonar o que não esmoreceu. Dos anos centenários, os clubes lançavam seus hinos. Românticas versões para uma visão idealizada. Um ode aos próprios ímpetos nos desejos contemplados. Curiosamente, em nossos tempos de tecnologia e sonoridade digital, soam bucólicos e distantes, quase não se podendo mais da modernidade abarcar. Seriam os gestos, os anseios, a se remediar? Um aglutinado de identidades que se associam a uma forma comum de gostar.

O cenário sofre gritantes modificações em cada tempo, à sua passagem. O que fixa em nós o prumo da seguridade? Se sei quem sou, estaria certo do que não sou? Quem é e quem está? Quem veio para ficar e quem abandona sem alardear? Sempre as mesclas que se imiscuem sem parar. Como os trilhos que cortam, que vão e que voltam, mesmo que nunca mais voltem, sempre se confortam na nostalgia a lembrar. Inda hoje, na representação esportiva, carinho preferencial da comunidade, se assenta em nós a identidade que tem raiz ferroviária. É um trilho que corta, que apita e informa, mesmo longe da estação,há um espaço onde também embarca o coração.

Ciranda de Natal

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A decoração de Natal remete à esperança e à renovação

Meninos correm pelo pátio. No chão batido em pés e mãos descalços o pião rodopia e baila sem parar. Percorre ligeiro, ousado, transgride buracos, pedras, deformidades na areia, na terra e prossegue rumo ao infinito. Atrás de casa, sob árvores em copa, crianças em roda, circulam volta e meia, meia volta, viram e reviram no redemoinho da vida, jamais em revolta. O homem, que era moço franzino, franze a testa, ancião, nos anos recorridos. O tempo espiralou de novo e foi ensinar velhos caminhos. O vento soprou espiando pelos ombros do presente, espichando o pescoço para ver o que vem para frente. A ciranda trouxe o Natal, em cabelos brancos como a neve da sabedoria que vem do Norte. Desde os tempos do povo Celta, a magia do ano traz, em dezembro, a criança da promessa, símbolo, arquétipo solar do que de melhor pode nascer em nós. Consciência que se renova. Cada feito requer preparação, doses de dedicação do próprio indivíduo para forjar de si, com inspiração no firmamento. Da atualidade, a cultura do instantâneo que desconhece o poder construtivo no gesto que edifica. Quem dera colher dos antepassados a calma ante os momentos e ser intransigente apenas com a falta de espera que não conhece o que nutre o tempo. Qualidades a cultivar? No rol das demandas a esperança que enlaça, tece e nos permite humanizar. O ser que se faz humano pela vontade de humanar. Peito amigo que zela com devoção e reconhece cada irmão. Na luminosidade das ruas enfeitadas é o coração que acende, vela pelo amor e ascende além do que se desvela. Volta à roda, braços dados, criança-adulto-pião-ciranda, a existência é branda quando a alma é mansidão. Do Espírito encontra a paz e exala a força da criação. A cultura que nos alça à expansão, em prece, em sinonímia, qual lira celestial adornando a canção.

Teatro ancestral

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Eliss de Castro, autora de esquetes teatrais impecáveis

O homem primitivo, desde tempos ostensivos, mantinha-se atento às manifestações da natureza. Tempestades, trovões e torrentes atormentando e inculcando ao abrigo das cavernas. Intuição artística apaziguando as forças elementais em episódios teatrais rudimentares. Também inspirando as danças miméticas, ilustrando façanhas. Bingo! O teatro como ritualística para cultivar a si enquanto agente natural, honrando o sacro, salvaguardando em gestos o bônus pela alusão às forças divinas. Dança da chuva? Celebração ao sol? A pujança da Grécia Antiga inovando com os diálogos e a interpretação do outro, quando Téspis ousou subir no tablado, e afirmar: "Eu sou Dionísio", durante as procissões encenadas à colheita da uva, em homenagem ao deus do vinho. Neste instante, trouxe o sagrado ao profano. O agradecimento completando o rol das emoções que inspiraram as marcações de cena. Desde então, não mais tiramos o pé do tablado, assumindo as diversas porções humanas, das reproduções dos mitos no antigo Egito à sátira, sempre pouco frugal, à decadência social nos formatos "stand up" atuais. Na Roma dos tempos de perseguição aos cristãos, os espetáculos abandonam os aspectos sacrossantos para dar vez à diversão. Os instigantes saltimbancos surgem na época medieval. Temas existenciais são legados do Romantismo, homens inquietos que mostram seus revezes em faces incertas. Rumo certo?

A contemporaneidade, com demandas crescentes de tempo e velocidade, moldou as esquetes teatrais, pequenas peças em parcos minutos de duração, orientadas para um seleto público-alvo. Tiro certo? Talvez, em pequenas doses de poética cênica a chance de sensibilizar e ressoar do coração que encena para a emoção que respalda a cena. Quem é o agente, quem é o expectador, se a própria vida é uma obra helênica?

Padrão sexual no universo pop

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O corpo feminino retratado com sedução e cobiça

Pitadas de comportamento apregoado são vistas sob a ótica musical pop. Meio internacionalmente divulgado, fala por pensamentos e hábitos, mesmo que não percebidos, sequer compreendidos por nós. Divas pop teen se esforçam vigorosamente em mostrar uma imagem erótica, provocando expectadores em coitos insinuados e simulados.

Miley Cyrus, ex-Hannah Montana, no palco, em versão roupa despida, simula sexo com um rapper igualmente influente. Rihanna e Shakira "oferecem" seus traseiros polpudos em, novamente, imagem de coito. Não há julgamento nestas palavras, apenas a leitura a partir das imagens divulgadas de seus protagonistas. No sexo, enquanto expressão individual, um "quê" do coletivo carregado, por vezes, extirpado, ora hiper valorizado. Jason Derulo afirma em vídeo clipe traduzido: "Não conheço sua língua (idioma), mas sua bunda não precisa de explicação".

O amor parece mais mitológico do que compreendido em essência por nós, quiçá praticado. Mescla-se às nuanças das preferências, incluindo ciúmes e reflexos do que se almeja ser, vislumbrado no outro, dentre tantas facetas. Seria autoafirmação reforçar apenas o ato como nos tempos bárbaros? Enquanto a alma almeja a consciência, o corpo se rebela em autonomia impessoal? Alguém realmente crê na interação entre pessoas sem afetividade?

Não cabe o olhar que condena, apenas aquele que observa atenta e cuidadosamente, com gosto por compreender o que pelos olhos passa. O feminino idolatrado através das musas adolescentes do mundo da música vem em rótulo de transgressão, de edificar a imagem de diva pela desconstrução, em roupas sem elegância, visual agressivo e atitudes menos refinadas do que as das protagonistas dos bordéis. A liberação sexual já aconteceu há décadas. O que ainda há para desmoronar na expressão sexual humana?

Enquanto isso, alguns afirmam que os animais podem amar. Estranha oposição, pessoas amam como animais e animais "amam". Pseuda humanidade? Quem inverteu? Quem prega uma intimidade decaída? Urge atentar que a vivência corporal intensa expande ou resigna o emocional conforme a mente consegue abarcar. Ousadia e risco recorrentes.

Nostalgia polonesa

Renata Regis Florisbelo
Prédio referência na história da imigração polonesa nos campos gerais

O mundo é azul. O céu é da cor azul. A nostalgia na saudade e na beleza é azul como as águas profundas que emergem da alma e submergem em lembranças. Será que voltam? Nas mentes saudosas a esperança é como barco no remanso sobre águas plácidas e em dias bravios, sob a fúria intempestiva dos ânimos e dos corações inquietantes.

Azuis também as paredes, peito aberto que mostra o coração. Na arquitetura de 1934, um detalhe instiga, graciosamente, corações entalhados deitados. Será que tombaram de amores? Será que se curvaram diante dos dissabores? Memórias melancólicas das danças polonesas em assoalho raro, madeira que não há mais donde tirar, tampouco onde pisar. Povo que imiscuiu de branco e vermelho as cores que guardavam nossos anseios.

Discretamente as construções falam. Têm voz ativa que cala vivências, dores, histórica que ficou, presença que marcou. Quando os primeiros imigrantes poloneses chegaram à Ponta Grossa, em 1878, pincelaram na cultura local sua identidade multidisciplinar na arquitetura, na dança, na religiosidade. Quanto da cidade se revestiu em sinais polônicos? Difícil precisar, as tradições são fluídas qual água e, como tal, ocupam recônditos sinuosos e aparentemente ocultos. O prédio, sede da antiga Sociedade Polonesa Renascença, à Rua Pinheiro Machado, é referência polonesa nos Campos Gerais. Quem, como eu, passa em frente à edificação, abalada pela ação do tempo, não fica indiferente à venustidade nos traços marcados em cores apagadas. Como a face da bela anciã, a passagem dos anos inscreve na expressão, mas não esmorece a beldade original. Testemunha silente, resiste e persiste aguardando quem lhe queira bem, quem se disponha a trilhar na contramão do pensamento vulgar e dê espaço ao valor imaterial. Memória tem preço? Sabemos que sim. Quem paga? Abdicaríamos nós um pouco das prioridades para salvaguardar o que é de todos? Quem perde? Suplantaríamos nós, das verdades, o patrimônio posto à frente, pautado como preciosidade? Só sei que este prédio me chama, sussurra, não quer causar alarde, na nobreza de propósito, sabe que cumpre com a sua parte. Se cupins corroem, corrompem assim nossa melhor sorte.

 

Mosteiro da Ressurreição

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Desde 1981 o Mosteiro da Ressurreição faz parte da cultura ponta-grossense

Um canto, uma emoção, a alma que se purifica em oração. Só o recolhimento basta? Creio que é preciso seguir a caminhada e compartilhar cada empreitada. Desde antes dos tempos medievais, homens e mulheres se organizam em ordens de natureza espiritual e religiosa. Vivências disciplinadas, nem por isto deixam de se enternecer na prática irmanada.

Vozes, sons harmoniosos ocupam a construção estilizada. Há gentileza em cada expressão, há cortesia em cada gesto. Onde, antigamente, se imaginaria apenas a clausura e uma comunicação proibitiva, hoje são portas abertas. Hábitos e vestes ancestrais discorrem com fidalguia moderna e recursos multimídia. A benéfice de nossos tempos repaginando o passado e preservando sua essência em utilidade atualizada. Insisto nas vozes que enlevam e cadenciam na liturgia das horas. Casa aberta, não discrimina e nem segrega em araucárias, bosques e hospedaria singela.

Em 1981, um grupo de monges beneditinos veio à Ponta Grossa e aqui se instalou, construindo um mosteiro e formando um espaço de beleza multicultural, perpassando com graça e desenvoltura às disciplinas religiosa litúrgica, através dos ofícios abertos ao público, os produtos artesanais e as artes plásticas desenvolvidas, o canto gregoriano e os artigos gastronômicos. Apesar de tão discreta, sua presença fincou laços marcantes na cidade, parecendo que aqui sempre estiveram tomando parte.

Na pluralidade moderna, os espaços culturais, empresariais e organizacionais em geral, conversam entre si e versam em atribuições. A paz é elemento a ser cultivado no coração de cada indivíduo, com ressonância sustentada pelos que oficiam de forma ordenada. Em locais como o Mosteiro da Ressurreição, a paz, o estudo, o trabalho, a disciplina e a oração são cultivados e irradiados, tendo na rotina regrada a ferramenta de consolidação destas qualidades. A arte multidisciplinar apresentada pela vida monástica não exime nosso papel, mas inspira tanto quanto a canção entoada.

Entristece perceber que ainda tanta rudeza entre nós, em atos vândalos, viola, ataca e agride um espaço sagrado que só ousa o melhor de si, oferecer.

Maria sem Fumaça

Arquivo DC
Parte da história de Ponta Grossa, a Maria Fumaça nº 250, aguarda restauração

Maria de quem? Fumaça de onde vem? Nevoeiro desce sobre a cidade, como efeito nubiloso encobre o que se avista. Então não há vista? Não sem que se insista olhando de través. Nos céus, em forma de asteroides, o ferro cósmico desce à Terra. No sangue humano, a boa vontade tem cor vermelha. Vermelho sangue carrega na força a marca de quem não se cansa.

A cidade tem raízes ferroviárias? Sim. Braços, pernas e tronco em ação e coragem férrea. Em mãos dispostas a malhar o ferro e mente em elevada competência técnica, Germano Krüger construiu e fez funcionar, em 1942, a Maria Fumaça nº 250. Terra carregada do mineral abundante que no sangue corre e abastece os vagões do coração em disposição para o trabalho, ânimo escarlate. Ponta Grossa se tornou gente grande, amadurecida e integrativa, desde que seu corpo foi marcado, em tatuagem etérea, pelos trilhos e ferros em via das ferrovias.

Peculiarmente, no Brasil, as locomotivas a vapor, características da mecanização de idos tempos, foram apelidadas de "Maria Fumaça", óbvia alusão à densa camada de fumaça e fuligem expelidas de seu mecanismo combustível. Ainda assim, um charme inocente de épocas em que a poluição não era contundente. Sem, contudo, melhorar as condições de emissão atmosférica, a romântica e trabalhadora Maria Fumaça 250 foi substituída, em 1972, por uma locomotiva movida a diesel, deixando às margens da ferrovia sua ainda plena capacidade de operação. A praça do complexo ambiental que guarda, submersa, a memória dos ferros em trilhos da cidade é cenário e depositário da estimada 250, hoje quase uma carcaça, mas que ainda pode ser restaurada.

Na obra "A Divina Comedia", de Dante Alighieri, inferno, purgatório e céu são descritos com requintes de imaginação (real?). Nos punitivos círculos do inferno, um dos mais temidos é onde os falsários de moedas são condenados à hidropisia, tornando-se eternamente imóveis. Qual crime capital a Maria Fumaça, ponta-grossense de nascimento, condenada a tal desalento, aplacaria por nós?

 

Autora: Renata é integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Corina Maria da Penha Portugal

 

Santidade, animosidade, malignidade, em qual magnitude se apoia a identidade? Vítima inocente, maldade ascendente? Quanta oposição em polos que se ressentem. A literatura popular, os ditos e contos que guardam histórias insólitas, verdades tristes e trágicas transformando vidas em lendas, causos que ganham a crença e a simpatia. Vilões e vítimas no cotejo que afronta e polemiza.

 

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Túmulo da Corina Portugal, no Cemitério São José, local de visitação e de agradecimentos.

Em 1983, a biofarmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes dormia quando uma bala diretiva acertou suas costas. O algoz, Marco Antônio Heredia Viveros, o próprio marido, simulava, da cozinha, minutos depois, o susto pelo ataque por supostos assaltantes. Meses depois, em segunda investida, no mesmo ímpeto de covardia, tentou eletrocutar Maria, paraplégica em decorrência do tiro.

 

Quase 100 anos antes, na noite de 26 de abril de 1889, a jovem Corina Antonieta Portugal era violentamente assassinada pelo próprio marido, com trinta e duas facadas. Que resistência o corpo oferece contra a apunhalada? O pulso, alavanca com o antebraço, na força cerrado, descarrega a fúria em corpulência masculina, quem dera fosse empregado em causa altruísta. Corina, moça carioca de família de posses e excelente educação formal, veio à Ponta Grossa, com o marido farmacêutico em situação financeira instável. Com a ajuda do médico João Menezes Dória, abriu a farmácia Campos, preterida pelo proprietário, assíduo em mesas de jogo e prostíbulos. O assassino escapou da condenação alegando defesa da honra. A opinião popular sempre creditou inocência à Corina, inferindo-lhe o bônus da santidade.

 

Maria da Penha, após incansáveis esforços, obteve a condenação de Viveros, e mais do que isto, também o Estado brasileiro foi condenado a criar uma legislação para prevenir e punir crimes de natureza doméstica e intrafamiliar. Nada mais justo que associá-la irremediavelmente à própria lei. A "Santinha dos Campos Gerais", Corina Portugal, conquistou um séquito de fiéis seguidores, sendo seu túmulo local de afamada visitação e incontáveis agradecimentos por graças recebidas. Curiosa e bela a trama que enlaça a desgraça, alçando-a à graça, o drama pessoal em socorro de outros.

Brasileirismos a Paranaense

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A paisagem paranaense ilustrada na obra de Sidney Mariano.

 

Um vocábulo, vernáculo, receptáculo qual cálice do saber. O que se sabe? Tão pouco o que cabe no compreender. Foram entendidas as expressões ou o gesto porta, na mímica do verso, significado certo em atender a demanda de um povo? Expressão que se soma ao decoro que permite reconhecer. A identidade também assume a forma da fala. Força das ideias em vestimenta ornada de particularidades. As peculiaridades como laçadas finais que arrematam a costura étnica. E quando o étnico é a mescla resultante do mosaico de etnias? Ainda mais bela a arregimentação das palavras.

 

Nos campos gerais, o lajeado por onde as águas correm e a beleza aflui não se esconde em cada curva, em cada volta donde tomba o anseio por contemplar. Desde as antigas invernadas quem agora inverna é o desejo pelo remanso, encanto que ousa mergulhar na sanga e adormecer. Junto às águas, as pirambeiras são mansas e não se importam em pitoquear o medo, fazendo alçar a imaginação. Se o pinheiro é do Paraná, esqueceu-se de desaguar na descida que escoa até Paranaguá e vai se deleitar na paisagem defronte não mais os pinheiros cobrem. Capelista? Do mar o campeiro não conhece paragem, parece miragem na vista sem fundo. Cadê a canhada, que na onda, longe do capão, não se deixa campear? O cavalo se moldou ao lombo do homem, na carreira ou no carreiro é um novo causo a cada puxirão. Quando a casa Paranista se avista, de lambrequim na fachada e grimpa no chão, é alegria de se reunir para a sapecada. Pinhão de pinha, a vontade adivinha que é hora de pinicar. Belisco ou petisco? Do feijão tropeiro ao lambisco a fome é de congregar, aquentar o fogo, chamar e reunir no meu Paraná. Abraca no coração um gosto e um carinho que aqui veio para ficar.

 

Do livro Vocabulário Paranista, de Eno Theodoro Wanke, algumas expressões como: lajeado, invernada, sanga, pirambeira, pitoquear, pinicar, sapecada, canhada, dentre tantas que convidam para garimpar.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Professor Faris Michaele.

Casa Santa

É possível aquilatar o imponderável? Paciente terminal, neonato precoce, quem deixa o mundo e quem mal chega, intertece a mesma sorte? É a casa quem cura ou o enfermo que, na acrimônia, um dia, se deixa depurar? Passos apressados no corredor, vida e morte que ardem com o mesmo fervor onde a urgência é a senhora das horas. "Fiz tudo certo e ele se foi!". "Não havia mais esperança alguma e, mesmo assim, o doente resistiu!". O mar da vida é sempre bravio, também calmaria em remansos doces. A misericórdia como alvo das virtudes humanas, caridade no coração latente. A percepção sobre a dor do outro ensinando a lapidar emoções, compreensões, vidas sem distar. É Deus quem perdoa ou no homem ressoa a ânsia por se enlevar? O amor é primevo e dos gêneros, na dor, se faz equiparar.

 

Construção antiga e posterior fundação remetem ao ano de 1912, em patrimônio, agora, tombado pelo município de Ponta Grossa. A beleza se deixa revelar na assinatura das datas. Pavilhão lateral mais novo também se anuncia em referência ao ano de 1927. Os espaços culturais são locais sempre apreciados na promoção de eventos diversificados e vívidos, contudo, o que dizer quando o ambiente abriga os enfermos, os acidentados e, principalmente, os que requerem os cuidados mais delicados... Felizmente a casa que cuida também é cuidada e mantém sua arte em edificação bem preservada.

 

No ato de misericórdia sempre estiveram à frente os mais nobres exercícios humanos. Em seu livro "O significado oculto do perdão", Sergei O. Porkofiejj discorre que a essência espiritual humana só pode ser influenciada positivamente por um elemento espiritual ainda maior. Um ato de perdão verdadeiro provoca, no fluxo da memória do indivíduo que perdoa, uma "interrupção" ou "esquecimento" através do qual podem afluir forças espirituais superiores, processo contínuo de purificação e espiritualização. Raro momento capaz de erigir um novo ser humano elevado aos princípios do amor ao próximo, sinonímia de valor cristão.

 

O ambiente do hospital, para muitos, abriga, dos que já partiram, os lamentos e os sofrimentos impregnados em paredes abnegadas. Carrega, contudo o portal do nascimento aberto aos bem-vindos que chegam nos momentos mais precisos. No fluxo de vinda e partida, na Casa Santa, afortunadamente, o passado e a arquitetura não precisaram implorar por clemência, mantendo graça e memória entre dores, mazelas e superações.

 

Na atualidade, no derredor bem urbanizado, custa pensar que, no passado, a Casa Misericordiosa ficava longe do centro, oferecendo nostálgico afastamento àqueles resguardados em doenças nubilosas por vezes de diagnósticos incertos. O que sempre afligiu o homem segue como substância para a melancolia poética. No eu lírico, todo o vigor estético de conteúdo subjetivo e gótico, clamando para o que se projeta além do corpo abatido e sofrido nas agruras. A arquitetura da Casa Santa cura os olhos e a alma que dançam e pousam entre suas janelas.