Sherlock Holmes Cultura
Nostalgia polonesa

Renata Regis Florisbelo
Prédio referência na história da imigração polonesa nos campos gerais

O mundo é azul. O céu é da cor azul. A nostalgia na saudade e na beleza é azul como as águas profundas que emergem da alma e submergem em lembranças. Será que voltam? Nas mentes saudosas a esperança é como barco no remanso sobre águas plácidas e em dias bravios, sob a fúria intempestiva dos ânimos e dos corações inquietantes.

Azuis também as paredes, peito aberto que mostra o coração. Na arquitetura de 1934, um detalhe instiga, graciosamente, corações entalhados deitados. Será que tombaram de amores? Será que se curvaram diante dos dissabores? Memórias melancólicas das danças polonesas em assoalho raro, madeira que não há mais donde tirar, tampouco onde pisar. Povo que imiscuiu de branco e vermelho as cores que guardavam nossos anseios.

Discretamente as construções falam. Têm voz ativa que cala vivências, dores, histórica que ficou, presença que marcou. Quando os primeiros imigrantes poloneses chegaram à Ponta Grossa, em 1878, pincelaram na cultura local sua identidade multidisciplinar na arquitetura, na dança, na religiosidade. Quanto da cidade se revestiu em sinais polônicos? Difícil precisar, as tradições são fluídas qual água e, como tal, ocupam recônditos sinuosos e aparentemente ocultos. O prédio, sede da antiga Sociedade Polonesa Renascença, à Rua Pinheiro Machado, é referência polonesa nos Campos Gerais. Quem, como eu, passa em frente à edificação, abalada pela ação do tempo, não fica indiferente à venustidade nos traços marcados em cores apagadas. Como a face da bela anciã, a passagem dos anos inscreve na expressão, mas não esmorece a beldade original. Testemunha silente, resiste e persiste aguardando quem lhe queira bem, quem se disponha a trilhar na contramão do pensamento vulgar e dê espaço ao valor imaterial. Memória tem preço? Sabemos que sim. Quem paga? Abdicaríamos nós um pouco das prioridades para salvaguardar o que é de todos? Quem perde? Suplantaríamos nós, das verdades, o patrimônio posto à frente, pautado como preciosidade? Só sei que este prédio me chama, sussurra, não quer causar alarde, na nobreza de propósito, sabe que cumpre com a sua parte. Se cupins corroem, corrompem assim nossa melhor sorte.

 

Mosteiro da Ressurreição

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Desde 1981 o Mosteiro da Ressurreição faz parte da cultura ponta-grossense

Um canto, uma emoção, a alma que se purifica em oração. Só o recolhimento basta? Creio que é preciso seguir a caminhada e compartilhar cada empreitada. Desde antes dos tempos medievais, homens e mulheres se organizam em ordens de natureza espiritual e religiosa. Vivências disciplinadas, nem por isto deixam de se enternecer na prática irmanada.

Vozes, sons harmoniosos ocupam a construção estilizada. Há gentileza em cada expressão, há cortesia em cada gesto. Onde, antigamente, se imaginaria apenas a clausura e uma comunicação proibitiva, hoje são portas abertas. Hábitos e vestes ancestrais discorrem com fidalguia moderna e recursos multimídia. A benéfice de nossos tempos repaginando o passado e preservando sua essência em utilidade atualizada. Insisto nas vozes que enlevam e cadenciam na liturgia das horas. Casa aberta, não discrimina e nem segrega em araucárias, bosques e hospedaria singela.

Em 1981, um grupo de monges beneditinos veio à Ponta Grossa e aqui se instalou, construindo um mosteiro e formando um espaço de beleza multicultural, perpassando com graça e desenvoltura às disciplinas religiosa litúrgica, através dos ofícios abertos ao público, os produtos artesanais e as artes plásticas desenvolvidas, o canto gregoriano e os artigos gastronômicos. Apesar de tão discreta, sua presença fincou laços marcantes na cidade, parecendo que aqui sempre estiveram tomando parte.

Na pluralidade moderna, os espaços culturais, empresariais e organizacionais em geral, conversam entre si e versam em atribuições. A paz é elemento a ser cultivado no coração de cada indivíduo, com ressonância sustentada pelos que oficiam de forma ordenada. Em locais como o Mosteiro da Ressurreição, a paz, o estudo, o trabalho, a disciplina e a oração são cultivados e irradiados, tendo na rotina regrada a ferramenta de consolidação destas qualidades. A arte multidisciplinar apresentada pela vida monástica não exime nosso papel, mas inspira tanto quanto a canção entoada.

Entristece perceber que ainda tanta rudeza entre nós, em atos vândalos, viola, ataca e agride um espaço sagrado que só ousa o melhor de si, oferecer.

Maria sem Fumaça

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Parte da história de Ponta Grossa, a Maria Fumaça nº 250, aguarda restauração

Maria de quem? Fumaça de onde vem? Nevoeiro desce sobre a cidade, como efeito nubiloso encobre o que se avista. Então não há vista? Não sem que se insista olhando de través. Nos céus, em forma de asteroides, o ferro cósmico desce à Terra. No sangue humano, a boa vontade tem cor vermelha. Vermelho sangue carrega na força a marca de quem não se cansa.

A cidade tem raízes ferroviárias? Sim. Braços, pernas e tronco em ação e coragem férrea. Em mãos dispostas a malhar o ferro e mente em elevada competência técnica, Germano Krüger construiu e fez funcionar, em 1942, a Maria Fumaça nº 250. Terra carregada do mineral abundante que no sangue corre e abastece os vagões do coração em disposição para o trabalho, ânimo escarlate. Ponta Grossa se tornou gente grande, amadurecida e integrativa, desde que seu corpo foi marcado, em tatuagem etérea, pelos trilhos e ferros em via das ferrovias.

Peculiarmente, no Brasil, as locomotivas a vapor, características da mecanização de idos tempos, foram apelidadas de "Maria Fumaça", óbvia alusão à densa camada de fumaça e fuligem expelidas de seu mecanismo combustível. Ainda assim, um charme inocente de épocas em que a poluição não era contundente. Sem, contudo, melhorar as condições de emissão atmosférica, a romântica e trabalhadora Maria Fumaça 250 foi substituída, em 1972, por uma locomotiva movida a diesel, deixando às margens da ferrovia sua ainda plena capacidade de operação. A praça do complexo ambiental que guarda, submersa, a memória dos ferros em trilhos da cidade é cenário e depositário da estimada 250, hoje quase uma carcaça, mas que ainda pode ser restaurada.

Na obra "A Divina Comedia", de Dante Alighieri, inferno, purgatório e céu são descritos com requintes de imaginação (real?). Nos punitivos círculos do inferno, um dos mais temidos é onde os falsários de moedas são condenados à hidropisia, tornando-se eternamente imóveis. Qual crime capital a Maria Fumaça, ponta-grossense de nascimento, condenada a tal desalento, aplacaria por nós?

 

Autora: Renata é integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Corina Maria da Penha Portugal

 

Santidade, animosidade, malignidade, em qual magnitude se apoia a identidade? Vítima inocente, maldade ascendente? Quanta oposição em polos que se ressentem. A literatura popular, os ditos e contos que guardam histórias insólitas, verdades tristes e trágicas transformando vidas em lendas, causos que ganham a crença e a simpatia. Vilões e vítimas no cotejo que afronta e polemiza.

 

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Túmulo da Corina Portugal, no Cemitério São José, local de visitação e de agradecimentos.

Em 1983, a biofarmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes dormia quando uma bala diretiva acertou suas costas. O algoz, Marco Antônio Heredia Viveros, o próprio marido, simulava, da cozinha, minutos depois, o susto pelo ataque por supostos assaltantes. Meses depois, em segunda investida, no mesmo ímpeto de covardia, tentou eletrocutar Maria, paraplégica em decorrência do tiro.

 

Quase 100 anos antes, na noite de 26 de abril de 1889, a jovem Corina Antonieta Portugal era violentamente assassinada pelo próprio marido, com trinta e duas facadas. Que resistência o corpo oferece contra a apunhalada? O pulso, alavanca com o antebraço, na força cerrado, descarrega a fúria em corpulência masculina, quem dera fosse empregado em causa altruísta. Corina, moça carioca de família de posses e excelente educação formal, veio à Ponta Grossa, com o marido farmacêutico em situação financeira instável. Com a ajuda do médico João Menezes Dória, abriu a farmácia Campos, preterida pelo proprietário, assíduo em mesas de jogo e prostíbulos. O assassino escapou da condenação alegando defesa da honra. A opinião popular sempre creditou inocência à Corina, inferindo-lhe o bônus da santidade.

 

Maria da Penha, após incansáveis esforços, obteve a condenação de Viveros, e mais do que isto, também o Estado brasileiro foi condenado a criar uma legislação para prevenir e punir crimes de natureza doméstica e intrafamiliar. Nada mais justo que associá-la irremediavelmente à própria lei. A "Santinha dos Campos Gerais", Corina Portugal, conquistou um séquito de fiéis seguidores, sendo seu túmulo local de afamada visitação e incontáveis agradecimentos por graças recebidas. Curiosa e bela a trama que enlaça a desgraça, alçando-a à graça, o drama pessoal em socorro de outros.

Brasileirismos a Paranaense

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A paisagem paranaense ilustrada na obra de Sidney Mariano.

 

Um vocábulo, vernáculo, receptáculo qual cálice do saber. O que se sabe? Tão pouco o que cabe no compreender. Foram entendidas as expressões ou o gesto porta, na mímica do verso, significado certo em atender a demanda de um povo? Expressão que se soma ao decoro que permite reconhecer. A identidade também assume a forma da fala. Força das ideias em vestimenta ornada de particularidades. As peculiaridades como laçadas finais que arrematam a costura étnica. E quando o étnico é a mescla resultante do mosaico de etnias? Ainda mais bela a arregimentação das palavras.

 

Nos campos gerais, o lajeado por onde as águas correm e a beleza aflui não se esconde em cada curva, em cada volta donde tomba o anseio por contemplar. Desde as antigas invernadas quem agora inverna é o desejo pelo remanso, encanto que ousa mergulhar na sanga e adormecer. Junto às águas, as pirambeiras são mansas e não se importam em pitoquear o medo, fazendo alçar a imaginação. Se o pinheiro é do Paraná, esqueceu-se de desaguar na descida que escoa até Paranaguá e vai se deleitar na paisagem defronte não mais os pinheiros cobrem. Capelista? Do mar o campeiro não conhece paragem, parece miragem na vista sem fundo. Cadê a canhada, que na onda, longe do capão, não se deixa campear? O cavalo se moldou ao lombo do homem, na carreira ou no carreiro é um novo causo a cada puxirão. Quando a casa Paranista se avista, de lambrequim na fachada e grimpa no chão, é alegria de se reunir para a sapecada. Pinhão de pinha, a vontade adivinha que é hora de pinicar. Belisco ou petisco? Do feijão tropeiro ao lambisco a fome é de congregar, aquentar o fogo, chamar e reunir no meu Paraná. Abraca no coração um gosto e um carinho que aqui veio para ficar.

 

Do livro Vocabulário Paranista, de Eno Theodoro Wanke, algumas expressões como: lajeado, invernada, sanga, pirambeira, pitoquear, pinicar, sapecada, canhada, dentre tantas que convidam para garimpar.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Professor Faris Michaele.

Casa Santa

É possível aquilatar o imponderável? Paciente terminal, neonato precoce, quem deixa o mundo e quem mal chega, intertece a mesma sorte? É a casa quem cura ou o enfermo que, na acrimônia, um dia, se deixa depurar? Passos apressados no corredor, vida e morte que ardem com o mesmo fervor onde a urgência é a senhora das horas. "Fiz tudo certo e ele se foi!". "Não havia mais esperança alguma e, mesmo assim, o doente resistiu!". O mar da vida é sempre bravio, também calmaria em remansos doces. A misericórdia como alvo das virtudes humanas, caridade no coração latente. A percepção sobre a dor do outro ensinando a lapidar emoções, compreensões, vidas sem distar. É Deus quem perdoa ou no homem ressoa a ânsia por se enlevar? O amor é primevo e dos gêneros, na dor, se faz equiparar.

 

Construção antiga e posterior fundação remetem ao ano de 1912, em patrimônio, agora, tombado pelo município de Ponta Grossa. A beleza se deixa revelar na assinatura das datas. Pavilhão lateral mais novo também se anuncia em referência ao ano de 1927. Os espaços culturais são locais sempre apreciados na promoção de eventos diversificados e vívidos, contudo, o que dizer quando o ambiente abriga os enfermos, os acidentados e, principalmente, os que requerem os cuidados mais delicados... Felizmente a casa que cuida também é cuidada e mantém sua arte em edificação bem preservada.

 

No ato de misericórdia sempre estiveram à frente os mais nobres exercícios humanos. Em seu livro "O significado oculto do perdão", Sergei O. Porkofiejj discorre que a essência espiritual humana só pode ser influenciada positivamente por um elemento espiritual ainda maior. Um ato de perdão verdadeiro provoca, no fluxo da memória do indivíduo que perdoa, uma "interrupção" ou "esquecimento" através do qual podem afluir forças espirituais superiores, processo contínuo de purificação e espiritualização. Raro momento capaz de erigir um novo ser humano elevado aos princípios do amor ao próximo, sinonímia de valor cristão.

 

O ambiente do hospital, para muitos, abriga, dos que já partiram, os lamentos e os sofrimentos impregnados em paredes abnegadas. Carrega, contudo o portal do nascimento aberto aos bem-vindos que chegam nos momentos mais precisos. No fluxo de vinda e partida, na Casa Santa, afortunadamente, o passado e a arquitetura não precisaram implorar por clemência, mantendo graça e memória entre dores, mazelas e superações.

 

Na atualidade, no derredor bem urbanizado, custa pensar que, no passado, a Casa Misericordiosa ficava longe do centro, oferecendo nostálgico afastamento àqueles resguardados em doenças nubilosas por vezes de diagnósticos incertos. O que sempre afligiu o homem segue como substância para a melancolia poética. No eu lírico, todo o vigor estético de conteúdo subjetivo e gótico, clamando para o que se projeta além do corpo abatido e sofrido nas agruras. A arquitetura da Casa Santa cura os olhos e a alma que dançam e pousam entre suas janelas.

 

Colégio Regente Feijó

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Arquitetura eclética com pitadas em estilo clássico e art noveau

Quem rege, quem conduz? Quem faz e acontece, o minuto antecede? Quem veio, quem ficou, quem na regência marcou, vive como uma prece. Violinos, flautas doces e transversas, violoncelo, trompetes, a alguém compete orquestrar e reger talentos que se tecem. Na vida, na arte e na educação, uma existência só pode ser singular quando o coletivo enobrece.

A entrada é suntuosa, grades e vigas abrigam a escada convidativa. Corrimão imponente, nem sente a vertigem com o tempo em curva ascendente. Apenas poucos degraus que, nos passos, transcendem em história magistral. Em fevereiro de 1924, finalizava a construção do prédio que abrigaria a primeira Escola Normal de Ponta Grossa. Anos mais tarde, convertido no Colégio Estadual Regente Feijó, homenagem à célebre individualidade de expressão nacional Diogo Antônio Feijó, homem versátil em conceitos e capacidades, preconizando o ideal democrático. Sob o selo da regência, a edificação se insculpiria em marca, vértice e eloquência. A porta central, ingresso principal não hesita em clamar aos que a mente incita à aprendizagem, nas versões mais eruditas através grandes personalidades. Vultos como Bruno Enei e Faris Antônio Michaele prestaram suas privilegiadas habilidades e inteligências ao corpo docente da instituição. Mestres de mestres que se sucedem em sacerdócio educacional. Há música nesta regência? Sim, só não há maledicência em afirmar que instrumentos simbólicos encontram seus pares congregados a cotejar signos da ignorância malsã, que do pensamento humano, tentam abarcar.

No coração da escola que rege, madeira escura em degraus firmes, dos passos permite adentrar as convicções no átrio da educação. As mãos deslizam na mesma madeira antiga, bailando entre braços e pernas. E quantas outras mãos já acariciaram este mesmo corrimão? Quantas ainda acalentarão? Quantos vislumbres batem forte na madeira consorte a sonhar por melhor sorte. Sonho que é pensamento motriz para o alicerce de futuras carreiras. Inda hoje, professores distintos em seus guarda-pós alvos projetam-se em sabedoria e inspiração para além dos elevados pés-direitos das salas de aula. Como nas clássicas catedrais, uma intenção nobre que se eleva buscando os céus, orações que extrapolam cadernos e papéis.

Na paisagem urbana, a casa sapiente é ponto de referência, na arquitetura eclética em pitadas de estilo clássico e art noveau. Insculpido na Rua do Rosário, até o endereço remete ao relicário que se deixa engrandecer. Edificação tombada como Patrimônio Cultural do Paraná desde 1990, segue a encantar quem por ali passa. Se deslumbra pela formosura também desvela a leitura que, em décadas, presenteia a educar. Sob o signo de peixes, sensibilidade e gentileza anseiam, antes de tudo, por ensinar. Força e forma, conteúdo e embalagem, presente refinadamente ornamentado, espera que jamais, pelo descaso, se deixe perpassar. Uma regência não é concedida sem méritos, em características nobres, com a cidade, se fez associar.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Professor Faris Michaele.

Obelisco industrial

Renata Regis Florisbelo
Chaminé das Indústrias Wagner, marco industrial e cultural na paisagem de Ponta Grossa

Onde antes os olhares se ancoravam, agora nem barcos à deriva se escondem. Um lamento na fronte, querela que não sai do ventre, adormecido como a paisagem que já vai longe, que se transforma e se conforma às novas épocas instauradas, porquanto a vida passa. A nostalgia, com as imagens alteradas, é fruto e síntese das perguntas recorrentes e reformuladas. O que é feito do que foi desfeito? Lembrança é vivência revisitada ou vida embalsamada? Quanto mais drástica a transformação, maior a angústia dos olhos sem morada.

Os pescoços se espicham para ver de perto e alcançar o alto da chaminé das Indústrias Wagner, bem precioso, que já teve sua aplicação fabril. Longe de encontrar o ócio, serve como ponto de sustentação de um pedaço do passado bem preservado em obelisco estruturado.

Os processos produtivos, a partir da revolução industrial, mostram uma trajetória seguida pelas cidades, povos e comunidades, além do conhecimento tecnológico desenvolvido. A arqueologia industrial busca conhecer as transformações técnicas e materiais relativas à industrialização que extrapolam o trabalho executado, refletindo em contribuição para o patrimônio cultural.

Em Olarias, bairro cuja vocação na produção cerâmica nominou, instalou-se na década de 40 as Indústrias Wagner, grande laminadora de madeira, que no auge chegou a orquestrar 600 colaboradores, contribuição que transcende à paisagem e infere na vida e nos hábitos tornando o bairro trabalhador por excelência.

A confecção das chaminés de tijolos confere tanta beleza às estruturas erigidas que perpassa a esfera industrial para se tornar arte. Tijolos, provenientes das abundantes olarias, eram intertravados em disposição circular. A baixa resistência à tensão, nos ventos bem soprados dos campos gerais, requeria uma base em diâmetro excessivamente dimensionado, atribuindo força ao conjunto através do peso. Na prática, nestas edificações, a chaminé resultava muito mais imponente e grandiosa que os demais prédios. Cintas metálicas rodeiam e comprimem os elementos e escadas espiraladas atendem a pequenos segmentos estrategicamente pensados.

Em décadas de crescente demanda industrial, as chaminés ganharam fama de vilãs ambientais, emitindo materiais particulados e outros poluentes no derredor das instalações. Na solitária chaminé Wagner, na ponta da formosura tombada como patrimônio municipal, não mais se espargem vapores e gases, apenas nossa mente flui e se dissipa em indagações e gostos pelas memórias e especulações sobre o futuro. Na base da chaminé o olhar ganha corpo, fortalece em conceitos, segue no fluxo ascendente e alcança o topo, para se lançar ao ar em ideias depuradas e renovadas. Fumaça branca esperando para anunciar as boas novas.

No Antigo Egito, o obelisco era uma agulha a perfurar as nuvens, dissipando forças negativas visíveis e invisíveis. Protegia magicamente locais sagrados. O poder atribuído na decisão que conserva ou que põe ao chão também precisa ser amadurecido. Chaminé-obelisco, arrisco erguer os olhos ante a incúria de não mais preservar.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele

Cine Teatro Ópera - Fênix mítica
Cássio Murilo
Cine Teatro Ópera, valioso espaço cultural de Ponta Grossa

Diante da perspectiva da morte, uma esperança que acende em chamas, fogo que consome a carne e, das cinzas, surge, renovada, a fênix mítica. Como o próprio sol que morre no poente para ressurgir na manhã nascente. A continuidade da vida, que se transforma, renova e sempre vigora.

O coração bate no alto, na porção superior do corpo, acima da fornalha onde ardem os processos metabólicos alimentares. Na cidade, onde bate o coração? Em Ponta Grossa, na década de 40, o coração batia entre as ruas XV de Novembro e Augusto Ribas. No ápice do centro comercial onde foi erigido o Edifício Ópera, marco, em art-deco, da verticalização que chegava aos Campos Gerais. O primeiro veículo de elevação instalado no município. O mesmo nome atribuído ao cinema, junto ao prédio e inaugurado em 1950, década que adentrava requintada e vibrante em transformações sociais, tecnológicas e culturais.

No filme e no espetáculo, quem é mais atuante, o ator ou o espectador? Quanto do movimento interpretado marca na mente de quem assiste? De tão comovente a imagem incita para além do que está latente.

O final da década de 90 trouxe o fechamento do Cine Ópera, tanto quanto se extinguiram diversos outros cinemas por todo o país. O casamento perfeito entre a música e o teatro, a ópera, fazia jus, agora, a uma composição dramática vivenciada pela casa homônima. A poltrona senta-se e espera. Conforta-se a si mesma em tão longa reserva. Teme pelo silêncio, aterroriza-lhe a ideia de uma vida só em lamentos, em anseios que não tomam tento. Espera é passiva? Ação se espraia na espera? O vão dos tormentos.

A Fênix-Ópera, num dia de 2001, acordou com seu nome incluído na lista do programa "Velho Cinema Novo", do governo do Paraná, reformando e fazendo luzir à vida antigos cinemas e teatros. Um voo soberano para arrebatar plateias neófitas extasiadas. As obras duraram quatro anos, sendo o palco, tristemente, de tragédias acidentais, incluindo um incêndio. A majestosa ave, novamente, soube se recompor e, fulgurante, ressurgiu como o mais atuante espaço cultural de Ponta Grossa. O drama se converteu em épico com pompa e circunstância, onde laboriosa música instrumental e canto convergem em palco repaginado.

Fênix, esperançosamente, também foi o nome atribuído à cápsula que retirou, um a um, os 33 mineiros presos na Mina de San José, a 688 metros de profundidade, no Chile, em 2010. Tão profundas as entranhas da terra, que, na imagem de cada homem trazido à superfície, o arquétipo da ressurreição da fabulosa ave, das cinzas.

Hoje, eventos nas mais diversas disciplinas culturais eclodem na casa operesca, apresentações teatrais, musicais, projeções em telas alternativas que fissuram o gosto pela originalidade. Por sorte de teor ascensional o mito do pássaro cultuado entre egípcios, chineses e gregos, tão vivo quanto o próprio sol, insiste em se fazer presente. Apenas uma única ave mítica existe em cada época, Ópera-Fênix, teu canto é doce e melancólico, beleza que ascende.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Casa que recorda

Cássio Murilo
A Casa da Memória preserva o acervo histórico-documental de Ponta Grossa

A velha senhora olhou pela janela, nesgas de sol irrompiam pela sala através das cortinas de renda amareladas pelos anos. Da cadeira, que já fora de balanço, o que agora embala são as lembranças. Os trens de passageiros chegando magnificentes na estação, damas e cavalheiros distintos, nos babados longos e nas calças bem cortadas embarcavam para novas alçadas. As recordações vêm como imagem difusa, ganhando corpo e cores na menina de laçarote e vestido branco. Sim, agora estava claro, era ela, a velha senhora, que volta ao passado dando a mão à mãe, na plataforma de embarque da 1ª Estação Ferroviária de Ponta Grossa. No jornal da capital, a manchete, em março de 1894, anuncia, inaugurada a estação que ao mundo nos remeteria.

Os olhos cansados contemplam do alto, a bisneta ajeita a camisola longa da bisavó que, ainda na cadeira, segura a xícara de chá e pergunta pelos trilhos. A jovem, uma adolescente, mal se lembra dos trilhos, mas sabe da anciã em memória centenária. Chega perto da cadeira, abaixa-se na altura dos ouvidos da senhora e conta que agora a antiga estação, a primeira da cidade, tornou-se a Casa da Memória, local destinado a preservar o acervo histórico-cultural de Ponta Grossa e dos Campos Gerais.

A xícara balança, tão trêmulas as mãos, que às vezes sucumbem ao peso de qualquer objeto. Os braços da Alice vêm em socorro, salvando a porcelana delicada do embate ao chão.

- Quando foi isto que eu não vi?

Alice tem sorriso doce e paciente e conta que, em setembro deste ano, 1995, foi fundada a casa, no suntuoso prédio que já havia sido tombado como patrimônio do Paraná. Na gaveta da mesa da sala, daquelas raras com pregos de madeira, a bisneta apanha o velho álbum de fotos e mostra para a bisa. A praça da antiga catedral, o desfile de Sete de Setembro de 50 anos atrás, a Avenida Vicente Machado, no começo do século XX, com suas árvores, carros e pedestres. Os olhos da senhora, cada dia mais nubilosos em cenas sobrepostas, confunde os momentos, a memória alardeia os idos tempos e sempre volta na estação glamourosa. Num ímpeto, fitou a construção e exclamou:

- Veja o trem! Preciso alcançá-lo, minha hora já chegou.

Os braços caíram ao lado do corpo, os lábios entreabriram-se em expressão de encanto. Exclamação leve de quem da vida só as reminiscências ainda remetem. Os olhos fecharam, para sempre.

Passados vinte anos, Alice passeia pela praça, leva Sofia e Henrique, que nas mãos carregam o precioso pacote de fotos. As crianças são as mais animadas, entram pelo prédio da Casa de Memória e contemplam afoitos e ávidos por tudo.

As belas fotos, memórias da família, agora passarão a contar suas histórias compartilhadas com todos. Acervo que nunca é individual, em cada antepassado o elo entre gerações que se dão as mãos.

No tempo, a cada sobressalto, um vazio no fluxo da memória se forma. A serenidade de quem carrega os fatos com leveza, carreia a qualidade salutar para a lembrança decorrente. Compreensão e engrandecimento que se deixam preencher onde era tormento.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.