Sherlock Holmes Cultura
Estação Chega de Saudade

Cássio Murilo
Legenda

Nas câmaras do coração um sentimento se instalou. Lembranças de outras épocas, memórias que instigam as imagens antigas a se sobrepor sobre a paisagem. Nos bancos da estação aguardei pelos momentos que, na imaginação, ainda esperam pelo trem. Será que vem? Nostalgia não pede passagem, apenas remete à viagem. Como o viúvo, que há mais de vinte anos, coloca delicadas flores junto ao retrato e reza pela alma de sua amada; apesar da partida, jamais cessou em despedida. Saudade que assumiu compromisso de vida e cinge na lembrança contemplativa.

No final dos anos 50, surgia no Brasil um estilo musical novo, origens no samba com influência do jazz, a bossa nova fazia abre-alas com a canção Chega de Saudade. Passados quase sessenta anos, será que a saudade se extinguiu? O desenvolvimento tecnológico trouxe aparatos e recursos mil em comunicação, velocidade, imagens e telas líquidas de altíssima resolução. Nas mãos da criança disparam em informação. O que vem do passado escoa até nós? Ou, em saltos hightech, pulamos de volta, saudosamente, ao que já passou? A própria tecnologia reacende em digitalização e cores as fotos do nosso legado. Quanta letargia, a parafernália moderna só tem sentido se auxiliar o ser humano a lidar com o seu tempo. Com a mesma fluidez das águas, a emoção da memória vem como rio caudaloso que aflui do passado. A saudade de quem vai, a nostalgia de quem fica, a falta, a perda e a distância, de tanto pesar a alma conforma-se à míngua.

Nas épocas de auge do transporte ferroviário, abrigava a cidade de Ponta Grossa a estação São Paulo - Rio Grande, carinhosamente chamada de Estação Saudade. Na poesia e na música popular, em língua portuguesa, a saudade figura de forma lírica e emblemática. Em poucos idiomas, encontra similar em significado, quase sempre, combalidos pela saudade apaixonada. No embarque e desembarque da estação, primeira classe em arquitetura francesa, movimentava passageiros e cargas, requinte de referência internacional por meio da linha Itararé - Uruguai. Vidas que seguiam em viagem, evoluindo no ritmo das paragens, do trem que apita e convida às novas investidas. Nos trilhos um arquétipo da vida que acorre em rota certa, não desvia e nem se dispersa. O caminho tranquilo e sinuoso, tanto nas curvas alusivas, quanto na imagem metafórica da coluna vertebral, alicerce humano. Sustentação e destino para a vida nas terminações nervosas que irradiam e espargem pelo corpo. Nos pátios do complexo ferroviário de Ponta Grossa trilhos e linhas de trem que irradiavam pela cidade qual organismo que anseia pelo sangue em irrigação.

Veias e artérias que secaram, recolhidas ou afogadas em pedras e asfalfo, piche negro que aplacou os trilhos. Da efervescente vida ferroviária restou a Estação Saudade, os prédios da Estação Arte e da Casa da Memória, isolados, desconectados, como nós. Tanto deslumbramento pela tecnologia, disfarça e realça a saudade que se esvai em despedida. Vontade de fazer morada na Estação Saudade até que o próximo trem aporte em alegria.

 

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Igreja São José

Quantas pedras haveríamos de encontrar no meio do caminho? Mais do que percalços, um álibi para o próprio destino. Matéria a ser amalgamada, marco na construção de um novo peregrino. O reino mineral também moldando nossos corpos, esculpindo a base para a vida em suas manifestações mais itinerantes. Fortaleza em ossos e músculos capaz de fazer alçar os passos pelo caminho. Desde a pré-história, enquanto o homem inda pervagava, o contato com as pedras como força aliada nas ferramentas confeccionadas.

Nas catedrais góticas, o símbolo da perfeição em obras que nos aproximam dos céus. Concepção erigida por meio da força e da sabedoria humana que, em contrapartida, eleva ainda mais este ser em alma embevecida, passos para um espírito igualmente enlevado. Também como fortalezas militares, inteligentemente arquitetadas, obtendo, através das pedras, um baluarte que avista e protege contra os perigos. Ao norte da Ilha de Santa Catarina, a Fortaleza de São José da Ponta Grossa era um dos vértices do triângulo de fogo, que juntamente com as fortalezas de Santa Cruz de Anhatomirim e Santo Antônio de Ratones protegiam o norte da ilha contra investidas estrangeiras interessadas em aviltar o território nacional, a partir da graciosa orla arabescada da região Sul. A construção do harmonioso conjunto arquitetônico, iniciada em 1740, foi finalizada e posta em marcha, na poesia agressiva dos 31 canhões que guarneciam suas muralhas. O Brasil tem, de Norte a Sul, histórias contadas e fortificadas em pedras.

Quase 200 anos depois, em 1941, finalizava a construção da Igreja São José, a igreja de pedra, em Ponta Grossa. Mas que agradável combinação de elementos similares, São José, honrada individualidade de valor reconhecido entre povos; Ponta Grossa, referência geográfica como cidade na região dos campos paranaenses e como encosta do mar catarinense; as pedras, novamente aquelas que nos acompanham na vontade de fortificar proteção, ideias e convicções. Forte e destemida, ao mesmo tempo frágil e subjetiva, a fortaleza, elemento a ornamentar e a salvaguardar na mente e nas sensações o que vai pelas redondezas, nas cercanias do indivíduo. Na Ilha de Santa Catarina, uma função clara de proteção física e territorial da colônia a ser mantida. Na Igreja de São José, uma fortaleza que se expressa no simbolismo do "erguer templos às virtudes e cavar masmorras aos vícios". O desejo de se tornar um ser verdadeiramente humano levando-nos a marcar em pedras suntuosas edificações que nos rememorem que esta necessidade, inda hoje, urge. Uma referência que aponta e indica para a conduta humana que se espelha em atitudes éticas. A beleza arquitetônica, ornada em pedras, nunca é fútil, numa harmonia que remonta à perfeição divina, encontra a alma humana similaridade e motivação para também alcançar a elevação. Desde as mais antigas culturas, nos primórdios da civilização, já se conhecia o sagrado que vem da geometria, construções em equilíbrio que inspiram e motivam a uma conduta integrativa.

 

A escritora é integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Usina do Conhecimento

Arquivo DC

Na Usina do conhecimento foram promovidas diversas atividades culturais

É preciso criar para transformar, ou a transformação cinzela a criação? Na mão do artista as cores ganham vida, o som orquestra-se em melodia, as palavras tecem em forma de poesia. Na metamorfose da concepção tudo é matéria-prima para a inspiração.

As águas represadas, em fluxo caudaloso, passam pelas turbinas que convertem a energia potencial em cinética. A partir de um gerador, transformam-se em energia elétrica. Uma trama fluídica de fios, redes e pontos de distribuição que alimentam das maiores metrópoles às menores comunidades. As usinas hidrelétricas, tão abundantes no Brasil quanto as próprias águas, bombeando energia ao coração das cidades.

Pelas rodovias, alegóricas na paisagem, circulam frondosas cargas especiais transportando pás para as usinas eólicas. Quem diria que a força dos ventos, quando se esparge abundantemente, é capaz de mover turbinas e se converter em energia elétrica. Cataventos gigantes, coisa de gente grande, que espetam nos campos com a mesma graça que a criança sopra no papel.

Restos de madeira, sobras de óleo combustível, tudo que pode se oferecer à queima e gerar vapor através das caldeiras, acionando as pás da turbina que converte em energia elétrica. As fogosas termelétricas não poupam fôlego na ardência metabólica que tudo transforma. Energia que vem do calor, a favor de inflar a chama da vontade que se consome em ação humana.

Nos idos de 1996, o governo do Paraná, em parceria com a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, criou a Usina do Conhecimento, local destinado a fomentar as artes, a cultura, a saúde e a integração entre alunos, professores e comunidade. Foram oferecidas e realizadas oficinas de teatro, de confecção de fantoches, de brochuras e de poesia, cursos de pintura em tela, desenhos, aulas de violão, dança, balé. Palestras sobre leitura e cidadania, energias alternativas, mostras de fotos e concursos de contos. Um amplo portfólio cultural capaz de propulsionar turbinas mentais e gerar energia cultural de compreensão e de habilidades, produzindo o mais puro conhecimento. Força motriz que alavancava conceitos e consciências.

A cabeça teme em pensar, no reator da usina nuclear um susto que persiste em intimidar, se da fissão os efeitos vierem a vazar para fora da área da reação e da razão. Algumas descobertas humanas parecem insanas, ainda assim um instante para reagrupar ideias e, a exemplo do átomo, buscar a compreensão sobre o que faz desestabilizar. Força nuclear, tão incisiva quando o perigo da mente também se desagregar.

Nossa usina do conhecimento acabou perdendo sua força de geração e cedendo à estagnação e à inércia. Um gosto de nostalgia vai pela melodia que não se deixa mais cantar. Nas paredes pichadas outros ensejos fizeram morada. O conhecimento ficou para o era uma vez, na próxima história a ser contada. Cessou o movimento das turbinas, gerador que cala onde o conhecimento advinha. Poderia o sol curar? Em placas de uma nova usina, vida que se espalha em raios a fortificar.

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Papel-jornal

 

Fábio Matavelli

O Jornal está presente no dia a dia da população

 

Os dedos tocaram de leve, queriam sentir, queriam sorver na cinestesia toda forma de se transmitir. Olhos atentos, itinerantes na vontade de emergir. Sorver das páginas efêmeras e recicladas e ressurgir, renascidos em novos saberes. Nas folhas diárias dos jornais, a vontade de mergulhar na vida cada dia mais. Nos cafés, nos escritórios, nas salas de espera dos consultórios onde delas o que se espera é a esperança na cura, na consulta em que se oculta o gosto que a alma ausculta. Sutis na paisagem, nas bancas das praças pendurados, óbvios nas manchetes, curiosos no que entretém, os jornais sempre se reeditam e seguem mais além. Quem ousaria acompanhar fielmente a realidade da vida humana mesmo nas absurdidades? Testemunhas silenciosas, oculares e distais, de onde a vida também se distrai.

Na Roma Antiga a Acta diurna, boletim onde eram publicadas as notícias do governo, insculpidas em pedra e metal. Antes da vinda do Cristo os Césares já se anunciavam.

Notícia vende ou vende-se a vontade estampada e impressa no que é noticiado? Desde que o mundo aprendeu a imprimir, imprimiu a si como um ser que se reedita. Os antigos escrivães produziam 40 páginas por dia, a partir da invenção da prensa-móvel, um único equipamento era capaz de imprimir 3.600 unidades no mesmo período, antes da era industrial o prenúncio da mecanização que extingue e recria empregos. A universalidade das informações onde qualquer um, por mais culto ou mais desavisado, sempre encontra eco num pensamento impresso. Impossível não se deixar embevecer ao folhear as páginas quando diante do exemplar diário. É o indivíduo quem folheia o jornal ou o jornal escamoteia o indivíduo, chafurdando nele a porção que se deixa noticiar? Tragédias, política, variedades mil no fio do resumo do dia. Se a vida fosse uma janela seria o jornal a arandela a se imiscuir em luzes convidando à espiadela.

O Notizia Scritte, publicado em 1556, pela República de Veneza, era distribuído às cidades italianas pela charmosa quantia de uma moeda chamada gazetta. Ainda não acessível às grandes massas, não obstante uma semente a pressentir, no cerne, uma revolução social e cultural. Na economia, nos fatos políticos, nos acontecimentos do cotidiano um armistício que não oculta a sofreguidão. Quem matou quem? Quem roubou outrem? De flagra em flagra, nas notícias, o que se procura e do que se abstêm?

No papel reciclado do jornal de imprensa o apelo ao ciclo de vida que roda, finda e reinicia em nova vinda. O papel-jornal carrega em seus ciclos um fragmento da vida qual tronco de árvore a se expandir nos círculos concêntricos. A cada ano incita aos novos tempos e não finda em acabrunhamento pelo que não desmente em cenas do porvir. Das sobras de madeira da indústria de móveis erige em letras, em múltiplos vernáculos aguardando leitura. A feitura não traz versos, cogita o destino incerto que nos cerca em futuro certo. Se um dia for descoberto, um excerto terá preservado nosso modo de ser.

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Cocar multifuncional

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Legenda

Quantas penas cabem num cocar? Quantos atos de bravura coroam uma vida? Muito além da beleza estética, o cocar, do cocare, em francês, representa a dignidade atribuída através de grandes feitos, liderança altiva reconhecida. Quem está apto a portar um cocar? Do alto da cabeça, tão nobre quanto uma coroa real, quem mereceria um cocar ancestral?

A pluralidade cultural abarca nossos tempos. Nas cidades cosmopolitas, mundo afora, habitam representantes das diversas etnias, povos que guardam, por vezes reeditam, a cultura alusiva. E na miscelânea de povos, qual recipiente integrativo permite a mistura? Há individualidades que vêm ao mundo sem conhecer barreiras comunicativas. Neste caso, da Babel antiga sobram somente ruínas, em páginas traduzidas. Qual o valor da leitura nos idiomas de qualquer época, qual página comum escrita? São chaves que abrem portas e decifram enigmas, quem encontrou e desvelou a forma erudita, desvenda os mistérios advindos. Cultivar a quem cultivara, reconhecer a quem reconhecera, a cultura tem, sim, inúmeras serventias.

Na memória ponta-grossense, a figura exclusiva, em habilidades e legados, do professor, poliglota, Faris Antônio Salomão Michaele, ícone da pluralidade de talentos, espargindo ao mundo suas obras. A vida cultural da cidade se divide em antes e depois de Faris Michaele? O fato contundente é do trabalho sem precedentes em multidisciplinaridade cultural, evocada através da educação, antropologia, ecologia, línguas, literatura, projetando-se além da província. Formação do Centro Cultural Euclides da Cunha, atuação na fundação das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras e de Direito de Ponta Grossa, participação em inúmeras instituições, em diversos países. Os olhos ávidos em ler o mundo, conhecendo e compreendendo um amplo espectro de idiomas vigentes e línguas antigas. Uma busca implacável por desvendar os mistérios da porção indígena, velados, na população brasileira, a esta mesma população. No resgate da cultura do ameríndio, muito dos equívocos desqualificativos acabou por desmistificar, enobrecendo a origem indígena, à luz do conhecimento.

Capacidade individual tornada ferramenta de trabalho em prol da cultura. Todo ofício que tem valor essencial revela esta valoração na porção intangível. Verdade que faz justiça, na vida de pesquisas que encontra a cepa esquecida. O que nos compete agora é parte da missão de vida, reconhecer e perpetuar a quem reconhecia. O Centro Cultural Professor Faris Michaele, fundado há 28 anos, em homenagem ao intelectual, perpetua a linhagem dos que encontram na cultura forma viva de expressão e cultivo das qualidades sensíveis de um povo. Uma cabeça, uma inteligência, um trabalho dedicado à revelação da verdade, de chafurdar até encontrar as origens de uma nação. No professor Michaele uma capacidade tão impressionante quanto altiva e altruísta, legado a todos. Um nome que se associou ao mundo através da cultura. Uma cabeça a ser coroada com um cocar expressivo.

 

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Achados e perdidos

 

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Prédio que abriga o Centro Europeu, exemplo de conservação

 

O que achei? O que perdi? O que achei que perdi? Guarda-chuva no ônibus, livros e cadernos num balcão qualquer, chave na calçada, óculos na escola, coração na madrugada. O cultural e o social que deixam marcas nos amores em revoada. A neve que nunca mais caiu, ficou na foto amassada. No álbum do colecionador a figurinha que nunca encontrara. Moeda antiga, selo, na memória que nunca foi cunhada.

Por que guardar, para que manter, se o tempo voraz insiste em obsoletar? O que envelhece? A lembrança que amarelou ou o papel da foto que deteriora a face? Se preservo, salvo a mim mesmo em fragmento que não perece.

Uma senhora colecionava as folhinhas destacadas do calendário diário. Redundância literária e matemática, os dias não vêm em duplicata. Quando morreu, gavetas cheias com os dias acrisolados, ao mundo revelara. Aquele outono antigo que nunca mais volta, nos monumentos e nas construções das praças, memória que revolta e revisita, quando a lembrança revigora.

No metrô de São Paulo, o maior centro urbano do país, uma infinidade dos mais impessoais e pessoais objetos largados, abandonados, desesperados e incognitamente esquecidos. Procurados? Quem procura encontra de volta? Quando não encontra, pensa em finalmente abandonar? Quem perde entende o que perdeu? Quando encontra, a perda arrefeceu? Em qualquer coração habitam achados e perdidos.

O patrimônio cultural encontra-se perdido, esquecido, em achados e perdidos desmentido? Uma porção da mente em cérebro sulcado quer reforçar, reincidir em hábitos, valorizar a identidade que se apoia no objeto. Da sombrinha colorida ao ingresso e seu carimbo. Pedaços de valor pessoal colados, respaldados no coletivo rememorado.

Um cachorro filhote apareceu perdido. Machucado na cabeça, corpo doente, em febre ardido. Quem bate num filhote é capaz de preservar o coletivo? Um laço comum, nó na garganta, nas ruas centrais cachorros e construções abandonadas em paulada na cabeça. A fronte resiste, quer persistir, quer sobreviver e viver em união com a paisagem, com a miragem no oásis urbano em paz. O carro luxuoso parou na rua e largou filhotes recém-paridos na esquina sem alaridos. Alguém encontrou, instinto de vida que se preservou. No terminal urbano a denúncia avisa, gatos maltratados e largados à revelia.

Lá nos achados e perdidos, toda a sorte de coisas esquecidas, largados nas calçadas animais exauridos. Monumentos pichados e depletados revelam, nada se preserva quando a alma é fugidia.

 

Balcão de informações

- Onde foi parar a casa antiga que aqui havia?

O moço sonolento responde desatento:

- Não vi passar, nem avisou que estava de saída. Se fosse para continuar, receberia reserva de estadia.

 

Quando criança, via transportarem casas de madeira, puxadas em reboque, com destino a um novo logradouro, nova serventia. Quem dera pelo menos isto encontrasse, sobre rodas, edificações de valor cultural reconhecidas, rumo a uma estrada infinda. Estranho, desconexo? Insisto que sim, tanto quanto construímos nossa sina.

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

Antagonismo que faz tombar

Cássio Murilo

A foto do antigo Cine Império (demolido), causou nostalgia nas redes sociais na última semana

Caminhava pelas ruas da cidade e observava construções que vinham abaixo. Guindastes, máquinas modernas em hidráulica pesada, versão sofisticada das quase românticas bolas de demolição, edificações tombadas. Um pouco adiante, em arabescos sinuosos a beleza preservada, memória recém-restaurada, valor histórico, patrimônio tombado. Quanto antagonismo, o mesmo verbo que põe abaixo é aquele que mantém de pé, em pé e a postos, em pé e à ordem, entre colunas aguardando ordens.

No antigo xamanismo, cultura ancestral, através da qual o ser humano reconhecia e lidava, habilmente, tanto com o mundo físico quanto com os mundos sutis, o xamã possuía quatro arquétipos: o guerreiro, o mestre, o curandeiro e o visionário. E quem não precisaria destas habilidades? Aprender, com o guerreiro, a se posicionar diante dos oponentes e dos desafios; saber, como o mestre, ensinar e orientar os que iniciam a caminhada; remediar e curar seus próprios males, como faz o curandeiro; e desenvolver, como o visionário, visão acurada para enxergar em meio ao nubiloso o que, normalmente, ninguém mais vê.

Tal qual o guerreiro que se posiciona e apenas mostra suas armas, com base na coragem, sem necessariamente precisar lutar, assim se posicionam nossos prédios tombados. São guerreiros que se permitem visualizar e vislumbrar em glória ao passado. Também ensinam escola viva, aos que neles respiram e as memórias incitam. Seriam capazes de curar a si? Creio que sim, como fortalezas na arquitetura e na história encerram poder inerente que permite curar até os que neles adentram, curando a outros curam em si em dádiva altruística. E, sem dúvida, são visionários. Ao contemplá-los, a porção atemporal das formas e dos princípios construtivos permite desventrar um porvir que vem. Como um xamã, lutam contra forças físicas e contra forças astrais, vertentes ocultas que insistem em demolir. A demolição começa velada, nos mais tênues pensamentos e discretos murmúrios que sussurram e confabulam. Os motivos, sempre os mesmos, aspirações financeiras e as oportunidades de negócios. Pensam os algozes: Para que prédios velhos em vez de novas e lucrativas edificações? Alguém paga o preço da memória perdida? Temo que sejamos todos nós como contrapartida. Quem acalenta a história transmitida em construção exaurida? O passado, o presente e o futuro vislumbrados e projetados em visão atual. O moderno e o antigo que, juntos, conversam, compactuam, conservam e preparam o futuro que vem. Imagem que deveríamos encontrar em reincidência pelas ruas, praças e avenidas na cidade.

Mas, os tempos são outros, as culturas ancestrais ficaram como conserva dos idos tempos. Nossa época requer consciência moderna e ética. Assumem agora, nossos prédios tombados, uma alma que ainda se posiciona respeitando altivamente até o livre arbítrio de quem decreta pôr abaixo. Prédios tombados? Quais? Os destruídos ou os que foram a tombo? Ambos, cada um a seu modo, carregam altivez na memória ou na glória física.

 

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes

Cartão-postal

Acervo de Cássio Murilo

Cartão-postal de Ponta Grossa do ano de 1946

Na mente sempre uma lembrança, mesmo a infância, tão pouco perene, carrega na memória, imagem tênue, fresca recorrência. Décadas atrás, afluíam nos correios imensos volumes de postais, cartões-postais vindos de todos os lugares do mundo, incluindo a própria cidade do destinatário, levando pedaços de paisagens, locais e monumentos às mentes mais interessadas e às mais desavisadas. Coleções completas como os arenitos do Parque Vila Velha. A "taça" vista sob diferentes olhares, no ângulo mais privilegiado, a procura de um instante inusitado. Uma curitibana contou que, em sua primeira viagem à Ponta Grossa, ainda na adolescência, fez questão de enviar postais aos familiares assim que desceu na Princesa dos Campos. Os postais chegaram ao destino muito depois, ainda assim, o afã pelo registro impregnou as imagens na lembrança.

Criado no século XIX, o cartão-postal ou bilhete-postal chegou ao Brasil em 1880, através do Decreto nº 7695. O que mais impressiona os olhos, a paisagem ou a consagração pelo apoderar-se das cenas? Falar de cartões-postais é evocar a nostalgia? Da prática em desuso o que a tecnologia resguardaria? Um retângulo com um lado em imagem impressa e do outro espaço para endereço, selo e mensagem. Estive aqui? Lembrei-me de você? Carreguei tua saudade comigo nesta estonteante paisagem? Saudades da vovó? Meus primeiros dias longe de casa? A beleza do postal está na universalidade de sua forma, conteúdo sintético e facilidade de linguagem. Na comunicação direta e barata, uma viagem pelo mundo em mosaicos remetidos. A delicadeza no gesto, a espera de quem anseia e a imaginação de quem recebe e ativamente insere a imagem do remetente na paisagem inerte.

Os postais tornaram-se lentos ante os recursos modernos de comunicação instantânea. No mesmo segundo em que se tira uma foto em frente às pirâmides do Egito, chega a imagem ao destino pretendido, o charme da espera substituído pela pressa aflitiva.

Nas visitas às cidades, praças, monumentos e edificações reconhecidas pelo valor histórico e cultural, as fotos dos postais a manter firme a paisagem real. Em tempos de rapidez e velocidades nunca dantes alcançadas, a memória parece não se preocupar em fixar a paisagem. Ao contrário, parece querer superá-la em novas imagens. Mas se os terabytes transitam tão velozmente, não segue a mente, junto, sem perceber o que sente? A paisagem se deforma para caber no fluxo intermitente? Quanta proatividade pode ser comportada no gesto ativo em escolher e enviar o postal. Temo pelo esquecimento dos monumentos e construções significativas, tanto quanto se fez veloz a tecnologia expansiva. Se as imagens procuradas e recolhidas para compor o acervo da memória de um lugar espraiado entre os queridos, agora são esquecidas, haveria espaço na mente para abrigar o gosto por sua preservação?

Sei que os postais são quase símbolo de um hábito perdido, mudança que o aporte em novas tecnologias, silenciosamente, nos roubou da rotina. No entanto, qual novo gesto ativo, permeia em ação a valorização do patrimônio mantido?

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

Patrimônio acadêmico

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Lema da ALCG: Conserva a pureza da linguagem

Machado de Assis, o primeiro presidente, símbolo de inteligência e iniciativa. Membros fundadores e patronos escolhidos pela escrita e pela vida. No ano de 1897, nascia a Academia Brasileira de Letras, instituição que reúne escritores em obras que elevam o pensamento, a criatividade e a cultura nacional. O que significa congregar intelectuais em torno de uma agremiação? O pensamento erudito encontra eco até a voz do povo? Essa mesma voz popular alça reflexo nas produções literárias? Os objetivos de congregar pessoas estão sempre relacionados à promoção do bem comum. Neste caso, na forma de estímulo e fomento à produção literária e a promoção da livre compreensão e do desenvolvimento de ideias. A escrita e a leitura como excelsas ferramentas de compreensão da mente humana, expressa em literatura, história, biografia e através das forças poéticas.

No cenário estadual, ecoam as ações e publicações da Academia Paranaense de Letras. Instituição semelhante, em princípios de funcionamento, à Academia Brasileira de Letras. O Paranismo fez seus representantes acadêmicos na instituição e tantos outros a perpetuarem e valorizarem a literatura estadual.

A aura elevada de "imortal" confere charme e glamour especial aos integrantes destas agremiações. O sentido da lembrança perpétua remonta ao espaço e cargo ocupado de forma vitalícia. Uma academia de letras apresenta, em sua formação clássica, no modelo francês, quarenta cadeiras, contendo quarenta fundadores e quarenta patronos. As vagas são vitalícias, sendo eleitos novos integrantes apenas quando um membro efetivo falece. Os novos ocupantes são eleitos e passam a integrar o histórico de cada cadeira. Os atuais ocupantes perpetuam em lembrança e divulgação os nomes associados às cadeiras, considerando todos os seus antecessores.

Nas diversas regiões do estado, novas instituições, similares à Academia Brasileira de Letras e à Academia Paranaense de Letras, nasceram. A Academia de Letras dos Campos Gerais, fundada em 1999, congrega escritores dos diversos municípios dos Campos Gerais. Em tempos de multiplicidade de ideias e valores globalizados, a ALCG tem identidade nossa e ao mesmo tempo esparge o que possui valor universal. Se não houver reconhecimento do que acontece ao nosso lado, como compreender esferas maiores? O pensamento aprende a se concatenar ao mundo, partindo de onde se encontra. Dos Campos Gerais para o mundo e do mundo para os Campos Gerais, um vertedouro, que não verga às responsabilidades e qualidades assumidas. Nomes como o do intelectual Faris Michaele, do escritor e músico Bento Mossurunga, e da escritora Anita Philipovsky serão perpetuamente lembrados, inspirando fundadores e integrantes de suas cadeiras. Historiadores como Aída Mansani Lavalle e Isolde Maria Waldmann compõem o perfil investigativo da academia. Edmundo Schwab, Carol Ferreira e outros adicionam notas poéticas. Pensadores como Égdar Zanoni e Fidelis Bueno apresentam o mundo em facetas bem escritas.

Poucos escrevem, menos ainda somam seus escritos a bem do espírito literário de uma região. Cada agremiação literária um ladrilho, fragmento de um mosaico onde reluz o pensar da humanidade.

 

 

 

 

 

Taj Mahal à moda ponta-grossense

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Detalhe da Rosa dos Ventos no piso de uma das salas da Villa Hilda

Uma obra imponente, da Índia antiga, persiste ao tempo, inspira e insiste, ode ao amor. Este mesmo amor tão estranho à mentalidade ocidental contemporânea, tão decantado em vontade, tão pouco manifestado em gesto. O imperador Shah Jahan, que diante da dor da saudade pela amada, Mumtaz Mahal, que partiu, lança mão de erigir a mais bela construção fincada no mundo em nome do amor. O mármore branco, os lápis-lazúlis incrustados e as cúpulas em forma de mausoléu, o Taj Mahal. Castelo, templo, sepulcro, mansão eterna.

Escadaria frondosa, janelas com vista vasta, porta em chave, macetaria no piso-arte, arquitetura estilo art nouveau. Uma casa, um lar, uma vila. A Villa Hilda, obra que leva o nome da amada de seu construtor. Os Campos Gerais também homenageiam o amor. Em forma de vida, não um mausoléu, construção para abrigar ainda em vida uma história de amor. Do Taj Mahal à Villa Hilda, exagero? Não. Heresia? Muito menos. Apenas poesia permissiva, poesia que eleva a vida.

Do final da década de 20, a mansão Villa Hilda é referência em história e patrimônio de Ponta Grossa. Não abrange só nossa região, carrega um pedaço da história do mundo, hábitos de uma época marcados em paredes sólidas. Tudo começou quando Heinrich Thielen chegou ao Brasil, muito jovem, vindo da Alemanha. Demonstrou gosto e habilidade pela produção de cerveja, tornando-se proprietário da Cervejaria Adriática. Mais tarde proveu ao filho, Alberto, primorosa formação como cervejeiro, na Alemanha. De volta ao Brasil, Alberto constrói a suntuosa casa, nominando-a Villa Hilda. Inda hoje, em letras destacadas, as fachadas exibem o nome. A casa da Hilda? Inscrevendo nas paredes a quem remonta. Na visita aos cômodos, a contemplação pela beleza manifestada em arte; nas paredes foram pintados à mão temas e motivos que aportam das paisagens europeias aos mirantes típicos da geografia paranaense. A riqueza nos detalhes revela o cuidado em expressar, nos traços arabescados, a função de cada cômodo. Na sala de refeições, delicadas figuras com cestos de frutas e cachos de uvas adornam o ambiente; no quarto do casal, uma trama de sofisticado e delicado efeito visual finaliza em diferentes conjuntos de flores. Obras que o artista plástico Paulo Wagner impregnou diretamente nas paredes. Na biblioteca, inusitada borda ornada com corujas e livros. As corujas parecem pinhões inseridos nas pinhas, cenário local? O tour pela casa revela o portal geográfico que desembarca da Europa, e firma corpo nos Campos Gerais, impossível não se enlevar com a viagem no tempo e no espaço. Um torreão no alto da casa possibilita visão da cidade em 360 graus, vista direta para a cervejaria. A indústria foi embora, a casa ficou e ainda procura pela fábrica perdida.

Cada bela construção pertence ao mundo, abarca características que fazem da edificação algo a ser cuidado por todos, portal da história e dos costumes. O Taj Mahal é patrimônio da humanidade, obra colossal sem precedentes. A casa da Hilda, a Villa Hilda é patrimônio nosso, em nome de mulher, em nome do amor, conta um pouco da vida que já passou, elo entre culturas e mundos que nos Campos Gerais marcou.