Sherlock Holmes Cultura
Colégio Regente Feijó

Arquivo DC
Arquitetura eclética com pitadas em estilo clássico e art noveau

Quem rege, quem conduz? Quem faz e acontece, o minuto antecede? Quem veio, quem ficou, quem na regência marcou, vive como uma prece. Violinos, flautas doces e transversas, violoncelo, trompetes, a alguém compete orquestrar e reger talentos que se tecem. Na vida, na arte e na educação, uma existência só pode ser singular quando o coletivo enobrece.

A entrada é suntuosa, grades e vigas abrigam a escada convidativa. Corrimão imponente, nem sente a vertigem com o tempo em curva ascendente. Apenas poucos degraus que, nos passos, transcendem em história magistral. Em fevereiro de 1924, finalizava a construção do prédio que abrigaria a primeira Escola Normal de Ponta Grossa. Anos mais tarde, convertido no Colégio Estadual Regente Feijó, homenagem à célebre individualidade de expressão nacional Diogo Antônio Feijó, homem versátil em conceitos e capacidades, preconizando o ideal democrático. Sob o selo da regência, a edificação se insculpiria em marca, vértice e eloquência. A porta central, ingresso principal não hesita em clamar aos que a mente incita à aprendizagem, nas versões mais eruditas através grandes personalidades. Vultos como Bruno Enei e Faris Antônio Michaele prestaram suas privilegiadas habilidades e inteligências ao corpo docente da instituição. Mestres de mestres que se sucedem em sacerdócio educacional. Há música nesta regência? Sim, só não há maledicência em afirmar que instrumentos simbólicos encontram seus pares congregados a cotejar signos da ignorância malsã, que do pensamento humano, tentam abarcar.

No coração da escola que rege, madeira escura em degraus firmes, dos passos permite adentrar as convicções no átrio da educação. As mãos deslizam na mesma madeira antiga, bailando entre braços e pernas. E quantas outras mãos já acariciaram este mesmo corrimão? Quantas ainda acalentarão? Quantos vislumbres batem forte na madeira consorte a sonhar por melhor sorte. Sonho que é pensamento motriz para o alicerce de futuras carreiras. Inda hoje, professores distintos em seus guarda-pós alvos projetam-se em sabedoria e inspiração para além dos elevados pés-direitos das salas de aula. Como nas clássicas catedrais, uma intenção nobre que se eleva buscando os céus, orações que extrapolam cadernos e papéis.

Na paisagem urbana, a casa sapiente é ponto de referência, na arquitetura eclética em pitadas de estilo clássico e art noveau. Insculpido na Rua do Rosário, até o endereço remete ao relicário que se deixa engrandecer. Edificação tombada como Patrimônio Cultural do Paraná desde 1990, segue a encantar quem por ali passa. Se deslumbra pela formosura também desvela a leitura que, em décadas, presenteia a educar. Sob o signo de peixes, sensibilidade e gentileza anseiam, antes de tudo, por ensinar. Força e forma, conteúdo e embalagem, presente refinadamente ornamentado, espera que jamais, pelo descaso, se deixe perpassar. Uma regência não é concedida sem méritos, em características nobres, com a cidade, se fez associar.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Professor Faris Michaele.

Obelisco industrial

Renata Regis Florisbelo
Chaminé das Indústrias Wagner, marco industrial e cultural na paisagem de Ponta Grossa

Onde antes os olhares se ancoravam, agora nem barcos à deriva se escondem. Um lamento na fronte, querela que não sai do ventre, adormecido como a paisagem que já vai longe, que se transforma e se conforma às novas épocas instauradas, porquanto a vida passa. A nostalgia, com as imagens alteradas, é fruto e síntese das perguntas recorrentes e reformuladas. O que é feito do que foi desfeito? Lembrança é vivência revisitada ou vida embalsamada? Quanto mais drástica a transformação, maior a angústia dos olhos sem morada.

Os pescoços se espicham para ver de perto e alcançar o alto da chaminé das Indústrias Wagner, bem precioso, que já teve sua aplicação fabril. Longe de encontrar o ócio, serve como ponto de sustentação de um pedaço do passado bem preservado em obelisco estruturado.

Os processos produtivos, a partir da revolução industrial, mostram uma trajetória seguida pelas cidades, povos e comunidades, além do conhecimento tecnológico desenvolvido. A arqueologia industrial busca conhecer as transformações técnicas e materiais relativas à industrialização que extrapolam o trabalho executado, refletindo em contribuição para o patrimônio cultural.

Em Olarias, bairro cuja vocação na produção cerâmica nominou, instalou-se na década de 40 as Indústrias Wagner, grande laminadora de madeira, que no auge chegou a orquestrar 600 colaboradores, contribuição que transcende à paisagem e infere na vida e nos hábitos tornando o bairro trabalhador por excelência.

A confecção das chaminés de tijolos confere tanta beleza às estruturas erigidas que perpassa a esfera industrial para se tornar arte. Tijolos, provenientes das abundantes olarias, eram intertravados em disposição circular. A baixa resistência à tensão, nos ventos bem soprados dos campos gerais, requeria uma base em diâmetro excessivamente dimensionado, atribuindo força ao conjunto através do peso. Na prática, nestas edificações, a chaminé resultava muito mais imponente e grandiosa que os demais prédios. Cintas metálicas rodeiam e comprimem os elementos e escadas espiraladas atendem a pequenos segmentos estrategicamente pensados.

Em décadas de crescente demanda industrial, as chaminés ganharam fama de vilãs ambientais, emitindo materiais particulados e outros poluentes no derredor das instalações. Na solitária chaminé Wagner, na ponta da formosura tombada como patrimônio municipal, não mais se espargem vapores e gases, apenas nossa mente flui e se dissipa em indagações e gostos pelas memórias e especulações sobre o futuro. Na base da chaminé o olhar ganha corpo, fortalece em conceitos, segue no fluxo ascendente e alcança o topo, para se lançar ao ar em ideias depuradas e renovadas. Fumaça branca esperando para anunciar as boas novas.

No Antigo Egito, o obelisco era uma agulha a perfurar as nuvens, dissipando forças negativas visíveis e invisíveis. Protegia magicamente locais sagrados. O poder atribuído na decisão que conserva ou que põe ao chão também precisa ser amadurecido. Chaminé-obelisco, arrisco erguer os olhos ante a incúria de não mais preservar.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele

Cine Teatro Ópera - Fênix mítica
Cássio Murilo
Cine Teatro Ópera, valioso espaço cultural de Ponta Grossa

Diante da perspectiva da morte, uma esperança que acende em chamas, fogo que consome a carne e, das cinzas, surge, renovada, a fênix mítica. Como o próprio sol que morre no poente para ressurgir na manhã nascente. A continuidade da vida, que se transforma, renova e sempre vigora.

O coração bate no alto, na porção superior do corpo, acima da fornalha onde ardem os processos metabólicos alimentares. Na cidade, onde bate o coração? Em Ponta Grossa, na década de 40, o coração batia entre as ruas XV de Novembro e Augusto Ribas. No ápice do centro comercial onde foi erigido o Edifício Ópera, marco, em art-deco, da verticalização que chegava aos Campos Gerais. O primeiro veículo de elevação instalado no município. O mesmo nome atribuído ao cinema, junto ao prédio e inaugurado em 1950, década que adentrava requintada e vibrante em transformações sociais, tecnológicas e culturais.

No filme e no espetáculo, quem é mais atuante, o ator ou o espectador? Quanto do movimento interpretado marca na mente de quem assiste? De tão comovente a imagem incita para além do que está latente.

O final da década de 90 trouxe o fechamento do Cine Ópera, tanto quanto se extinguiram diversos outros cinemas por todo o país. O casamento perfeito entre a música e o teatro, a ópera, fazia jus, agora, a uma composição dramática vivenciada pela casa homônima. A poltrona senta-se e espera. Conforta-se a si mesma em tão longa reserva. Teme pelo silêncio, aterroriza-lhe a ideia de uma vida só em lamentos, em anseios que não tomam tento. Espera é passiva? Ação se espraia na espera? O vão dos tormentos.

A Fênix-Ópera, num dia de 2001, acordou com seu nome incluído na lista do programa "Velho Cinema Novo", do governo do Paraná, reformando e fazendo luzir à vida antigos cinemas e teatros. Um voo soberano para arrebatar plateias neófitas extasiadas. As obras duraram quatro anos, sendo o palco, tristemente, de tragédias acidentais, incluindo um incêndio. A majestosa ave, novamente, soube se recompor e, fulgurante, ressurgiu como o mais atuante espaço cultural de Ponta Grossa. O drama se converteu em épico com pompa e circunstância, onde laboriosa música instrumental e canto convergem em palco repaginado.

Fênix, esperançosamente, também foi o nome atribuído à cápsula que retirou, um a um, os 33 mineiros presos na Mina de San José, a 688 metros de profundidade, no Chile, em 2010. Tão profundas as entranhas da terra, que, na imagem de cada homem trazido à superfície, o arquétipo da ressurreição da fabulosa ave, das cinzas.

Hoje, eventos nas mais diversas disciplinas culturais eclodem na casa operesca, apresentações teatrais, musicais, projeções em telas alternativas que fissuram o gosto pela originalidade. Por sorte de teor ascensional o mito do pássaro cultuado entre egípcios, chineses e gregos, tão vivo quanto o próprio sol, insiste em se fazer presente. Apenas uma única ave mítica existe em cada época, Ópera-Fênix, teu canto é doce e melancólico, beleza que ascende.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Casa que recorda

Cássio Murilo
A Casa da Memória preserva o acervo histórico-documental de Ponta Grossa

A velha senhora olhou pela janela, nesgas de sol irrompiam pela sala através das cortinas de renda amareladas pelos anos. Da cadeira, que já fora de balanço, o que agora embala são as lembranças. Os trens de passageiros chegando magnificentes na estação, damas e cavalheiros distintos, nos babados longos e nas calças bem cortadas embarcavam para novas alçadas. As recordações vêm como imagem difusa, ganhando corpo e cores na menina de laçarote e vestido branco. Sim, agora estava claro, era ela, a velha senhora, que volta ao passado dando a mão à mãe, na plataforma de embarque da 1ª Estação Ferroviária de Ponta Grossa. No jornal da capital, a manchete, em março de 1894, anuncia, inaugurada a estação que ao mundo nos remeteria.

Os olhos cansados contemplam do alto, a bisneta ajeita a camisola longa da bisavó que, ainda na cadeira, segura a xícara de chá e pergunta pelos trilhos. A jovem, uma adolescente, mal se lembra dos trilhos, mas sabe da anciã em memória centenária. Chega perto da cadeira, abaixa-se na altura dos ouvidos da senhora e conta que agora a antiga estação, a primeira da cidade, tornou-se a Casa da Memória, local destinado a preservar o acervo histórico-cultural de Ponta Grossa e dos Campos Gerais.

A xícara balança, tão trêmulas as mãos, que às vezes sucumbem ao peso de qualquer objeto. Os braços da Alice vêm em socorro, salvando a porcelana delicada do embate ao chão.

- Quando foi isto que eu não vi?

Alice tem sorriso doce e paciente e conta que, em setembro deste ano, 1995, foi fundada a casa, no suntuoso prédio que já havia sido tombado como patrimônio do Paraná. Na gaveta da mesa da sala, daquelas raras com pregos de madeira, a bisneta apanha o velho álbum de fotos e mostra para a bisa. A praça da antiga catedral, o desfile de Sete de Setembro de 50 anos atrás, a Avenida Vicente Machado, no começo do século XX, com suas árvores, carros e pedestres. Os olhos da senhora, cada dia mais nubilosos em cenas sobrepostas, confunde os momentos, a memória alardeia os idos tempos e sempre volta na estação glamourosa. Num ímpeto, fitou a construção e exclamou:

- Veja o trem! Preciso alcançá-lo, minha hora já chegou.

Os braços caíram ao lado do corpo, os lábios entreabriram-se em expressão de encanto. Exclamação leve de quem da vida só as reminiscências ainda remetem. Os olhos fecharam, para sempre.

Passados vinte anos, Alice passeia pela praça, leva Sofia e Henrique, que nas mãos carregam o precioso pacote de fotos. As crianças são as mais animadas, entram pelo prédio da Casa de Memória e contemplam afoitos e ávidos por tudo.

As belas fotos, memórias da família, agora passarão a contar suas histórias compartilhadas com todos. Acervo que nunca é individual, em cada antepassado o elo entre gerações que se dão as mãos.

No tempo, a cada sobressalto, um vazio no fluxo da memória se forma. A serenidade de quem carrega os fatos com leveza, carreia a qualidade salutar para a lembrança decorrente. Compreensão e engrandecimento que se deixam preencher onde era tormento.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Estação Chega de Saudade

Cássio Murilo
Legenda

Nas câmaras do coração um sentimento se instalou. Lembranças de outras épocas, memórias que instigam as imagens antigas a se sobrepor sobre a paisagem. Nos bancos da estação aguardei pelos momentos que, na imaginação, ainda esperam pelo trem. Será que vem? Nostalgia não pede passagem, apenas remete à viagem. Como o viúvo, que há mais de vinte anos, coloca delicadas flores junto ao retrato e reza pela alma de sua amada; apesar da partida, jamais cessou em despedida. Saudade que assumiu compromisso de vida e cinge na lembrança contemplativa.

No final dos anos 50, surgia no Brasil um estilo musical novo, origens no samba com influência do jazz, a bossa nova fazia abre-alas com a canção Chega de Saudade. Passados quase sessenta anos, será que a saudade se extinguiu? O desenvolvimento tecnológico trouxe aparatos e recursos mil em comunicação, velocidade, imagens e telas líquidas de altíssima resolução. Nas mãos da criança disparam em informação. O que vem do passado escoa até nós? Ou, em saltos hightech, pulamos de volta, saudosamente, ao que já passou? A própria tecnologia reacende em digitalização e cores as fotos do nosso legado. Quanta letargia, a parafernália moderna só tem sentido se auxiliar o ser humano a lidar com o seu tempo. Com a mesma fluidez das águas, a emoção da memória vem como rio caudaloso que aflui do passado. A saudade de quem vai, a nostalgia de quem fica, a falta, a perda e a distância, de tanto pesar a alma conforma-se à míngua.

Nas épocas de auge do transporte ferroviário, abrigava a cidade de Ponta Grossa a estação São Paulo - Rio Grande, carinhosamente chamada de Estação Saudade. Na poesia e na música popular, em língua portuguesa, a saudade figura de forma lírica e emblemática. Em poucos idiomas, encontra similar em significado, quase sempre, combalidos pela saudade apaixonada. No embarque e desembarque da estação, primeira classe em arquitetura francesa, movimentava passageiros e cargas, requinte de referência internacional por meio da linha Itararé - Uruguai. Vidas que seguiam em viagem, evoluindo no ritmo das paragens, do trem que apita e convida às novas investidas. Nos trilhos um arquétipo da vida que acorre em rota certa, não desvia e nem se dispersa. O caminho tranquilo e sinuoso, tanto nas curvas alusivas, quanto na imagem metafórica da coluna vertebral, alicerce humano. Sustentação e destino para a vida nas terminações nervosas que irradiam e espargem pelo corpo. Nos pátios do complexo ferroviário de Ponta Grossa trilhos e linhas de trem que irradiavam pela cidade qual organismo que anseia pelo sangue em irrigação.

Veias e artérias que secaram, recolhidas ou afogadas em pedras e asfalfo, piche negro que aplacou os trilhos. Da efervescente vida ferroviária restou a Estação Saudade, os prédios da Estação Arte e da Casa da Memória, isolados, desconectados, como nós. Tanto deslumbramento pela tecnologia, disfarça e realça a saudade que se esvai em despedida. Vontade de fazer morada na Estação Saudade até que o próximo trem aporte em alegria.

 

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Igreja São José

Quantas pedras haveríamos de encontrar no meio do caminho? Mais do que percalços, um álibi para o próprio destino. Matéria a ser amalgamada, marco na construção de um novo peregrino. O reino mineral também moldando nossos corpos, esculpindo a base para a vida em suas manifestações mais itinerantes. Fortaleza em ossos e músculos capaz de fazer alçar os passos pelo caminho. Desde a pré-história, enquanto o homem inda pervagava, o contato com as pedras como força aliada nas ferramentas confeccionadas.

Nas catedrais góticas, o símbolo da perfeição em obras que nos aproximam dos céus. Concepção erigida por meio da força e da sabedoria humana que, em contrapartida, eleva ainda mais este ser em alma embevecida, passos para um espírito igualmente enlevado. Também como fortalezas militares, inteligentemente arquitetadas, obtendo, através das pedras, um baluarte que avista e protege contra os perigos. Ao norte da Ilha de Santa Catarina, a Fortaleza de São José da Ponta Grossa era um dos vértices do triângulo de fogo, que juntamente com as fortalezas de Santa Cruz de Anhatomirim e Santo Antônio de Ratones protegiam o norte da ilha contra investidas estrangeiras interessadas em aviltar o território nacional, a partir da graciosa orla arabescada da região Sul. A construção do harmonioso conjunto arquitetônico, iniciada em 1740, foi finalizada e posta em marcha, na poesia agressiva dos 31 canhões que guarneciam suas muralhas. O Brasil tem, de Norte a Sul, histórias contadas e fortificadas em pedras.

Quase 200 anos depois, em 1941, finalizava a construção da Igreja São José, a igreja de pedra, em Ponta Grossa. Mas que agradável combinação de elementos similares, São José, honrada individualidade de valor reconhecido entre povos; Ponta Grossa, referência geográfica como cidade na região dos campos paranaenses e como encosta do mar catarinense; as pedras, novamente aquelas que nos acompanham na vontade de fortificar proteção, ideias e convicções. Forte e destemida, ao mesmo tempo frágil e subjetiva, a fortaleza, elemento a ornamentar e a salvaguardar na mente e nas sensações o que vai pelas redondezas, nas cercanias do indivíduo. Na Ilha de Santa Catarina, uma função clara de proteção física e territorial da colônia a ser mantida. Na Igreja de São José, uma fortaleza que se expressa no simbolismo do "erguer templos às virtudes e cavar masmorras aos vícios". O desejo de se tornar um ser verdadeiramente humano levando-nos a marcar em pedras suntuosas edificações que nos rememorem que esta necessidade, inda hoje, urge. Uma referência que aponta e indica para a conduta humana que se espelha em atitudes éticas. A beleza arquitetônica, ornada em pedras, nunca é fútil, numa harmonia que remonta à perfeição divina, encontra a alma humana similaridade e motivação para também alcançar a elevação. Desde as mais antigas culturas, nos primórdios da civilização, já se conhecia o sagrado que vem da geometria, construções em equilíbrio que inspiram e motivam a uma conduta integrativa.

 

A escritora é integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Usina do Conhecimento

Arquivo DC

Na Usina do conhecimento foram promovidas diversas atividades culturais

É preciso criar para transformar, ou a transformação cinzela a criação? Na mão do artista as cores ganham vida, o som orquestra-se em melodia, as palavras tecem em forma de poesia. Na metamorfose da concepção tudo é matéria-prima para a inspiração.

As águas represadas, em fluxo caudaloso, passam pelas turbinas que convertem a energia potencial em cinética. A partir de um gerador, transformam-se em energia elétrica. Uma trama fluídica de fios, redes e pontos de distribuição que alimentam das maiores metrópoles às menores comunidades. As usinas hidrelétricas, tão abundantes no Brasil quanto as próprias águas, bombeando energia ao coração das cidades.

Pelas rodovias, alegóricas na paisagem, circulam frondosas cargas especiais transportando pás para as usinas eólicas. Quem diria que a força dos ventos, quando se esparge abundantemente, é capaz de mover turbinas e se converter em energia elétrica. Cataventos gigantes, coisa de gente grande, que espetam nos campos com a mesma graça que a criança sopra no papel.

Restos de madeira, sobras de óleo combustível, tudo que pode se oferecer à queima e gerar vapor através das caldeiras, acionando as pás da turbina que converte em energia elétrica. As fogosas termelétricas não poupam fôlego na ardência metabólica que tudo transforma. Energia que vem do calor, a favor de inflar a chama da vontade que se consome em ação humana.

Nos idos de 1996, o governo do Paraná, em parceria com a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, criou a Usina do Conhecimento, local destinado a fomentar as artes, a cultura, a saúde e a integração entre alunos, professores e comunidade. Foram oferecidas e realizadas oficinas de teatro, de confecção de fantoches, de brochuras e de poesia, cursos de pintura em tela, desenhos, aulas de violão, dança, balé. Palestras sobre leitura e cidadania, energias alternativas, mostras de fotos e concursos de contos. Um amplo portfólio cultural capaz de propulsionar turbinas mentais e gerar energia cultural de compreensão e de habilidades, produzindo o mais puro conhecimento. Força motriz que alavancava conceitos e consciências.

A cabeça teme em pensar, no reator da usina nuclear um susto que persiste em intimidar, se da fissão os efeitos vierem a vazar para fora da área da reação e da razão. Algumas descobertas humanas parecem insanas, ainda assim um instante para reagrupar ideias e, a exemplo do átomo, buscar a compreensão sobre o que faz desestabilizar. Força nuclear, tão incisiva quando o perigo da mente também se desagregar.

Nossa usina do conhecimento acabou perdendo sua força de geração e cedendo à estagnação e à inércia. Um gosto de nostalgia vai pela melodia que não se deixa mais cantar. Nas paredes pichadas outros ensejos fizeram morada. O conhecimento ficou para o era uma vez, na próxima história a ser contada. Cessou o movimento das turbinas, gerador que cala onde o conhecimento advinha. Poderia o sol curar? Em placas de uma nova usina, vida que se espalha em raios a fortificar.

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Papel-jornal

 

Fábio Matavelli

O Jornal está presente no dia a dia da população

 

Os dedos tocaram de leve, queriam sentir, queriam sorver na cinestesia toda forma de se transmitir. Olhos atentos, itinerantes na vontade de emergir. Sorver das páginas efêmeras e recicladas e ressurgir, renascidos em novos saberes. Nas folhas diárias dos jornais, a vontade de mergulhar na vida cada dia mais. Nos cafés, nos escritórios, nas salas de espera dos consultórios onde delas o que se espera é a esperança na cura, na consulta em que se oculta o gosto que a alma ausculta. Sutis na paisagem, nas bancas das praças pendurados, óbvios nas manchetes, curiosos no que entretém, os jornais sempre se reeditam e seguem mais além. Quem ousaria acompanhar fielmente a realidade da vida humana mesmo nas absurdidades? Testemunhas silenciosas, oculares e distais, de onde a vida também se distrai.

Na Roma Antiga a Acta diurna, boletim onde eram publicadas as notícias do governo, insculpidas em pedra e metal. Antes da vinda do Cristo os Césares já se anunciavam.

Notícia vende ou vende-se a vontade estampada e impressa no que é noticiado? Desde que o mundo aprendeu a imprimir, imprimiu a si como um ser que se reedita. Os antigos escrivães produziam 40 páginas por dia, a partir da invenção da prensa-móvel, um único equipamento era capaz de imprimir 3.600 unidades no mesmo período, antes da era industrial o prenúncio da mecanização que extingue e recria empregos. A universalidade das informações onde qualquer um, por mais culto ou mais desavisado, sempre encontra eco num pensamento impresso. Impossível não se deixar embevecer ao folhear as páginas quando diante do exemplar diário. É o indivíduo quem folheia o jornal ou o jornal escamoteia o indivíduo, chafurdando nele a porção que se deixa noticiar? Tragédias, política, variedades mil no fio do resumo do dia. Se a vida fosse uma janela seria o jornal a arandela a se imiscuir em luzes convidando à espiadela.

O Notizia Scritte, publicado em 1556, pela República de Veneza, era distribuído às cidades italianas pela charmosa quantia de uma moeda chamada gazetta. Ainda não acessível às grandes massas, não obstante uma semente a pressentir, no cerne, uma revolução social e cultural. Na economia, nos fatos políticos, nos acontecimentos do cotidiano um armistício que não oculta a sofreguidão. Quem matou quem? Quem roubou outrem? De flagra em flagra, nas notícias, o que se procura e do que se abstêm?

No papel reciclado do jornal de imprensa o apelo ao ciclo de vida que roda, finda e reinicia em nova vinda. O papel-jornal carrega em seus ciclos um fragmento da vida qual tronco de árvore a se expandir nos círculos concêntricos. A cada ano incita aos novos tempos e não finda em acabrunhamento pelo que não desmente em cenas do porvir. Das sobras de madeira da indústria de móveis erige em letras, em múltiplos vernáculos aguardando leitura. A feitura não traz versos, cogita o destino incerto que nos cerca em futuro certo. Se um dia for descoberto, um excerto terá preservado nosso modo de ser.

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Cocar multifuncional

Divulgação

Legenda

Quantas penas cabem num cocar? Quantos atos de bravura coroam uma vida? Muito além da beleza estética, o cocar, do cocare, em francês, representa a dignidade atribuída através de grandes feitos, liderança altiva reconhecida. Quem está apto a portar um cocar? Do alto da cabeça, tão nobre quanto uma coroa real, quem mereceria um cocar ancestral?

A pluralidade cultural abarca nossos tempos. Nas cidades cosmopolitas, mundo afora, habitam representantes das diversas etnias, povos que guardam, por vezes reeditam, a cultura alusiva. E na miscelânea de povos, qual recipiente integrativo permite a mistura? Há individualidades que vêm ao mundo sem conhecer barreiras comunicativas. Neste caso, da Babel antiga sobram somente ruínas, em páginas traduzidas. Qual o valor da leitura nos idiomas de qualquer época, qual página comum escrita? São chaves que abrem portas e decifram enigmas, quem encontrou e desvelou a forma erudita, desvenda os mistérios advindos. Cultivar a quem cultivara, reconhecer a quem reconhecera, a cultura tem, sim, inúmeras serventias.

Na memória ponta-grossense, a figura exclusiva, em habilidades e legados, do professor, poliglota, Faris Antônio Salomão Michaele, ícone da pluralidade de talentos, espargindo ao mundo suas obras. A vida cultural da cidade se divide em antes e depois de Faris Michaele? O fato contundente é do trabalho sem precedentes em multidisciplinaridade cultural, evocada através da educação, antropologia, ecologia, línguas, literatura, projetando-se além da província. Formação do Centro Cultural Euclides da Cunha, atuação na fundação das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras e de Direito de Ponta Grossa, participação em inúmeras instituições, em diversos países. Os olhos ávidos em ler o mundo, conhecendo e compreendendo um amplo espectro de idiomas vigentes e línguas antigas. Uma busca implacável por desvendar os mistérios da porção indígena, velados, na população brasileira, a esta mesma população. No resgate da cultura do ameríndio, muito dos equívocos desqualificativos acabou por desmistificar, enobrecendo a origem indígena, à luz do conhecimento.

Capacidade individual tornada ferramenta de trabalho em prol da cultura. Todo ofício que tem valor essencial revela esta valoração na porção intangível. Verdade que faz justiça, na vida de pesquisas que encontra a cepa esquecida. O que nos compete agora é parte da missão de vida, reconhecer e perpetuar a quem reconhecia. O Centro Cultural Professor Faris Michaele, fundado há 28 anos, em homenagem ao intelectual, perpetua a linhagem dos que encontram na cultura forma viva de expressão e cultivo das qualidades sensíveis de um povo. Uma cabeça, uma inteligência, um trabalho dedicado à revelação da verdade, de chafurdar até encontrar as origens de uma nação. No professor Michaele uma capacidade tão impressionante quanto altiva e altruísta, legado a todos. Um nome que se associou ao mundo através da cultura. Uma cabeça a ser coroada com um cocar expressivo.

 

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele.

Achados e perdidos

 

Divulgação

Prédio que abriga o Centro Europeu, exemplo de conservação

 

O que achei? O que perdi? O que achei que perdi? Guarda-chuva no ônibus, livros e cadernos num balcão qualquer, chave na calçada, óculos na escola, coração na madrugada. O cultural e o social que deixam marcas nos amores em revoada. A neve que nunca mais caiu, ficou na foto amassada. No álbum do colecionador a figurinha que nunca encontrara. Moeda antiga, selo, na memória que nunca foi cunhada.

Por que guardar, para que manter, se o tempo voraz insiste em obsoletar? O que envelhece? A lembrança que amarelou ou o papel da foto que deteriora a face? Se preservo, salvo a mim mesmo em fragmento que não perece.

Uma senhora colecionava as folhinhas destacadas do calendário diário. Redundância literária e matemática, os dias não vêm em duplicata. Quando morreu, gavetas cheias com os dias acrisolados, ao mundo revelara. Aquele outono antigo que nunca mais volta, nos monumentos e nas construções das praças, memória que revolta e revisita, quando a lembrança revigora.

No metrô de São Paulo, o maior centro urbano do país, uma infinidade dos mais impessoais e pessoais objetos largados, abandonados, desesperados e incognitamente esquecidos. Procurados? Quem procura encontra de volta? Quando não encontra, pensa em finalmente abandonar? Quem perde entende o que perdeu? Quando encontra, a perda arrefeceu? Em qualquer coração habitam achados e perdidos.

O patrimônio cultural encontra-se perdido, esquecido, em achados e perdidos desmentido? Uma porção da mente em cérebro sulcado quer reforçar, reincidir em hábitos, valorizar a identidade que se apoia no objeto. Da sombrinha colorida ao ingresso e seu carimbo. Pedaços de valor pessoal colados, respaldados no coletivo rememorado.

Um cachorro filhote apareceu perdido. Machucado na cabeça, corpo doente, em febre ardido. Quem bate num filhote é capaz de preservar o coletivo? Um laço comum, nó na garganta, nas ruas centrais cachorros e construções abandonadas em paulada na cabeça. A fronte resiste, quer persistir, quer sobreviver e viver em união com a paisagem, com a miragem no oásis urbano em paz. O carro luxuoso parou na rua e largou filhotes recém-paridos na esquina sem alaridos. Alguém encontrou, instinto de vida que se preservou. No terminal urbano a denúncia avisa, gatos maltratados e largados à revelia.

Lá nos achados e perdidos, toda a sorte de coisas esquecidas, largados nas calçadas animais exauridos. Monumentos pichados e depletados revelam, nada se preserva quando a alma é fugidia.

 

Balcão de informações

- Onde foi parar a casa antiga que aqui havia?

O moço sonolento responde desatento:

- Não vi passar, nem avisou que estava de saída. Se fosse para continuar, receberia reserva de estadia.

 

Quando criança, via transportarem casas de madeira, puxadas em reboque, com destino a um novo logradouro, nova serventia. Quem dera pelo menos isto encontrasse, sobre rodas, edificações de valor cultural reconhecidas, rumo a uma estrada infinda. Estranho, desconexo? Insisto que sim, tanto quanto construímos nossa sina.

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.