Sherlock Holmes Cultura
Antagonismo que faz tombar

Cássio Murilo

A foto do antigo Cine Império (demolido), causou nostalgia nas redes sociais na última semana

Caminhava pelas ruas da cidade e observava construções que vinham abaixo. Guindastes, máquinas modernas em hidráulica pesada, versão sofisticada das quase românticas bolas de demolição, edificações tombadas. Um pouco adiante, em arabescos sinuosos a beleza preservada, memória recém-restaurada, valor histórico, patrimônio tombado. Quanto antagonismo, o mesmo verbo que põe abaixo é aquele que mantém de pé, em pé e a postos, em pé e à ordem, entre colunas aguardando ordens.

No antigo xamanismo, cultura ancestral, através da qual o ser humano reconhecia e lidava, habilmente, tanto com o mundo físico quanto com os mundos sutis, o xamã possuía quatro arquétipos: o guerreiro, o mestre, o curandeiro e o visionário. E quem não precisaria destas habilidades? Aprender, com o guerreiro, a se posicionar diante dos oponentes e dos desafios; saber, como o mestre, ensinar e orientar os que iniciam a caminhada; remediar e curar seus próprios males, como faz o curandeiro; e desenvolver, como o visionário, visão acurada para enxergar em meio ao nubiloso o que, normalmente, ninguém mais vê.

Tal qual o guerreiro que se posiciona e apenas mostra suas armas, com base na coragem, sem necessariamente precisar lutar, assim se posicionam nossos prédios tombados. São guerreiros que se permitem visualizar e vislumbrar em glória ao passado. Também ensinam escola viva, aos que neles respiram e as memórias incitam. Seriam capazes de curar a si? Creio que sim, como fortalezas na arquitetura e na história encerram poder inerente que permite curar até os que neles adentram, curando a outros curam em si em dádiva altruística. E, sem dúvida, são visionários. Ao contemplá-los, a porção atemporal das formas e dos princípios construtivos permite desventrar um porvir que vem. Como um xamã, lutam contra forças físicas e contra forças astrais, vertentes ocultas que insistem em demolir. A demolição começa velada, nos mais tênues pensamentos e discretos murmúrios que sussurram e confabulam. Os motivos, sempre os mesmos, aspirações financeiras e as oportunidades de negócios. Pensam os algozes: Para que prédios velhos em vez de novas e lucrativas edificações? Alguém paga o preço da memória perdida? Temo que sejamos todos nós como contrapartida. Quem acalenta a história transmitida em construção exaurida? O passado, o presente e o futuro vislumbrados e projetados em visão atual. O moderno e o antigo que, juntos, conversam, compactuam, conservam e preparam o futuro que vem. Imagem que deveríamos encontrar em reincidência pelas ruas, praças e avenidas na cidade.

Mas, os tempos são outros, as culturas ancestrais ficaram como conserva dos idos tempos. Nossa época requer consciência moderna e ética. Assumem agora, nossos prédios tombados, uma alma que ainda se posiciona respeitando altivamente até o livre arbítrio de quem decreta pôr abaixo. Prédios tombados? Quais? Os destruídos ou os que foram a tombo? Ambos, cada um a seu modo, carregam altivez na memória ou na glória física.

 

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes

Cartão-postal

Acervo de Cássio Murilo

Cartão-postal de Ponta Grossa do ano de 1946

Na mente sempre uma lembrança, mesmo a infância, tão pouco perene, carrega na memória, imagem tênue, fresca recorrência. Décadas atrás, afluíam nos correios imensos volumes de postais, cartões-postais vindos de todos os lugares do mundo, incluindo a própria cidade do destinatário, levando pedaços de paisagens, locais e monumentos às mentes mais interessadas e às mais desavisadas. Coleções completas como os arenitos do Parque Vila Velha. A "taça" vista sob diferentes olhares, no ângulo mais privilegiado, a procura de um instante inusitado. Uma curitibana contou que, em sua primeira viagem à Ponta Grossa, ainda na adolescência, fez questão de enviar postais aos familiares assim que desceu na Princesa dos Campos. Os postais chegaram ao destino muito depois, ainda assim, o afã pelo registro impregnou as imagens na lembrança.

Criado no século XIX, o cartão-postal ou bilhete-postal chegou ao Brasil em 1880, através do Decreto nº 7695. O que mais impressiona os olhos, a paisagem ou a consagração pelo apoderar-se das cenas? Falar de cartões-postais é evocar a nostalgia? Da prática em desuso o que a tecnologia resguardaria? Um retângulo com um lado em imagem impressa e do outro espaço para endereço, selo e mensagem. Estive aqui? Lembrei-me de você? Carreguei tua saudade comigo nesta estonteante paisagem? Saudades da vovó? Meus primeiros dias longe de casa? A beleza do postal está na universalidade de sua forma, conteúdo sintético e facilidade de linguagem. Na comunicação direta e barata, uma viagem pelo mundo em mosaicos remetidos. A delicadeza no gesto, a espera de quem anseia e a imaginação de quem recebe e ativamente insere a imagem do remetente na paisagem inerte.

Os postais tornaram-se lentos ante os recursos modernos de comunicação instantânea. No mesmo segundo em que se tira uma foto em frente às pirâmides do Egito, chega a imagem ao destino pretendido, o charme da espera substituído pela pressa aflitiva.

Nas visitas às cidades, praças, monumentos e edificações reconhecidas pelo valor histórico e cultural, as fotos dos postais a manter firme a paisagem real. Em tempos de rapidez e velocidades nunca dantes alcançadas, a memória parece não se preocupar em fixar a paisagem. Ao contrário, parece querer superá-la em novas imagens. Mas se os terabytes transitam tão velozmente, não segue a mente, junto, sem perceber o que sente? A paisagem se deforma para caber no fluxo intermitente? Quanta proatividade pode ser comportada no gesto ativo em escolher e enviar o postal. Temo pelo esquecimento dos monumentos e construções significativas, tanto quanto se fez veloz a tecnologia expansiva. Se as imagens procuradas e recolhidas para compor o acervo da memória de um lugar espraiado entre os queridos, agora são esquecidas, haveria espaço na mente para abrigar o gosto por sua preservação?

Sei que os postais são quase símbolo de um hábito perdido, mudança que o aporte em novas tecnologias, silenciosamente, nos roubou da rotina. No entanto, qual novo gesto ativo, permeia em ação a valorização do patrimônio mantido?

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

Patrimônio acadêmico

Divulgação

Lema da ALCG: Conserva a pureza da linguagem

Machado de Assis, o primeiro presidente, símbolo de inteligência e iniciativa. Membros fundadores e patronos escolhidos pela escrita e pela vida. No ano de 1897, nascia a Academia Brasileira de Letras, instituição que reúne escritores em obras que elevam o pensamento, a criatividade e a cultura nacional. O que significa congregar intelectuais em torno de uma agremiação? O pensamento erudito encontra eco até a voz do povo? Essa mesma voz popular alça reflexo nas produções literárias? Os objetivos de congregar pessoas estão sempre relacionados à promoção do bem comum. Neste caso, na forma de estímulo e fomento à produção literária e a promoção da livre compreensão e do desenvolvimento de ideias. A escrita e a leitura como excelsas ferramentas de compreensão da mente humana, expressa em literatura, história, biografia e através das forças poéticas.

No cenário estadual, ecoam as ações e publicações da Academia Paranaense de Letras. Instituição semelhante, em princípios de funcionamento, à Academia Brasileira de Letras. O Paranismo fez seus representantes acadêmicos na instituição e tantos outros a perpetuarem e valorizarem a literatura estadual.

A aura elevada de "imortal" confere charme e glamour especial aos integrantes destas agremiações. O sentido da lembrança perpétua remonta ao espaço e cargo ocupado de forma vitalícia. Uma academia de letras apresenta, em sua formação clássica, no modelo francês, quarenta cadeiras, contendo quarenta fundadores e quarenta patronos. As vagas são vitalícias, sendo eleitos novos integrantes apenas quando um membro efetivo falece. Os novos ocupantes são eleitos e passam a integrar o histórico de cada cadeira. Os atuais ocupantes perpetuam em lembrança e divulgação os nomes associados às cadeiras, considerando todos os seus antecessores.

Nas diversas regiões do estado, novas instituições, similares à Academia Brasileira de Letras e à Academia Paranaense de Letras, nasceram. A Academia de Letras dos Campos Gerais, fundada em 1999, congrega escritores dos diversos municípios dos Campos Gerais. Em tempos de multiplicidade de ideias e valores globalizados, a ALCG tem identidade nossa e ao mesmo tempo esparge o que possui valor universal. Se não houver reconhecimento do que acontece ao nosso lado, como compreender esferas maiores? O pensamento aprende a se concatenar ao mundo, partindo de onde se encontra. Dos Campos Gerais para o mundo e do mundo para os Campos Gerais, um vertedouro, que não verga às responsabilidades e qualidades assumidas. Nomes como o do intelectual Faris Michaele, do escritor e músico Bento Mossurunga, e da escritora Anita Philipovsky serão perpetuamente lembrados, inspirando fundadores e integrantes de suas cadeiras. Historiadores como Aída Mansani Lavalle e Isolde Maria Waldmann compõem o perfil investigativo da academia. Edmundo Schwab, Carol Ferreira e outros adicionam notas poéticas. Pensadores como Égdar Zanoni e Fidelis Bueno apresentam o mundo em facetas bem escritas.

Poucos escrevem, menos ainda somam seus escritos a bem do espírito literário de uma região. Cada agremiação literária um ladrilho, fragmento de um mosaico onde reluz o pensar da humanidade.

 

 

 

 

 

Taj Mahal à moda ponta-grossense

Divulgação

Detalhe da Rosa dos Ventos no piso de uma das salas da Villa Hilda

Uma obra imponente, da Índia antiga, persiste ao tempo, inspira e insiste, ode ao amor. Este mesmo amor tão estranho à mentalidade ocidental contemporânea, tão decantado em vontade, tão pouco manifestado em gesto. O imperador Shah Jahan, que diante da dor da saudade pela amada, Mumtaz Mahal, que partiu, lança mão de erigir a mais bela construção fincada no mundo em nome do amor. O mármore branco, os lápis-lazúlis incrustados e as cúpulas em forma de mausoléu, o Taj Mahal. Castelo, templo, sepulcro, mansão eterna.

Escadaria frondosa, janelas com vista vasta, porta em chave, macetaria no piso-arte, arquitetura estilo art nouveau. Uma casa, um lar, uma vila. A Villa Hilda, obra que leva o nome da amada de seu construtor. Os Campos Gerais também homenageiam o amor. Em forma de vida, não um mausoléu, construção para abrigar ainda em vida uma história de amor. Do Taj Mahal à Villa Hilda, exagero? Não. Heresia? Muito menos. Apenas poesia permissiva, poesia que eleva a vida.

Do final da década de 20, a mansão Villa Hilda é referência em história e patrimônio de Ponta Grossa. Não abrange só nossa região, carrega um pedaço da história do mundo, hábitos de uma época marcados em paredes sólidas. Tudo começou quando Heinrich Thielen chegou ao Brasil, muito jovem, vindo da Alemanha. Demonstrou gosto e habilidade pela produção de cerveja, tornando-se proprietário da Cervejaria Adriática. Mais tarde proveu ao filho, Alberto, primorosa formação como cervejeiro, na Alemanha. De volta ao Brasil, Alberto constrói a suntuosa casa, nominando-a Villa Hilda. Inda hoje, em letras destacadas, as fachadas exibem o nome. A casa da Hilda? Inscrevendo nas paredes a quem remonta. Na visita aos cômodos, a contemplação pela beleza manifestada em arte; nas paredes foram pintados à mão temas e motivos que aportam das paisagens europeias aos mirantes típicos da geografia paranaense. A riqueza nos detalhes revela o cuidado em expressar, nos traços arabescados, a função de cada cômodo. Na sala de refeições, delicadas figuras com cestos de frutas e cachos de uvas adornam o ambiente; no quarto do casal, uma trama de sofisticado e delicado efeito visual finaliza em diferentes conjuntos de flores. Obras que o artista plástico Paulo Wagner impregnou diretamente nas paredes. Na biblioteca, inusitada borda ornada com corujas e livros. As corujas parecem pinhões inseridos nas pinhas, cenário local? O tour pela casa revela o portal geográfico que desembarca da Europa, e firma corpo nos Campos Gerais, impossível não se enlevar com a viagem no tempo e no espaço. Um torreão no alto da casa possibilita visão da cidade em 360 graus, vista direta para a cervejaria. A indústria foi embora, a casa ficou e ainda procura pela fábrica perdida.

Cada bela construção pertence ao mundo, abarca características que fazem da edificação algo a ser cuidado por todos, portal da história e dos costumes. O Taj Mahal é patrimônio da humanidade, obra colossal sem precedentes. A casa da Hilda, a Villa Hilda é patrimônio nosso, em nome de mulher, em nome do amor, conta um pouco da vida que já passou, elo entre culturas e mundos que nos Campos Gerais marcou.

Patrimônio laboral

Acervo de Cássio Murilo/Divulgação

Trabalhadores da Cervejaria Adriática na década de 30

Indústria, serviços, terceiro setor, onde o ser humano aplica seu labor? Trabalho, tão sagrado quanto a vida. Nas imagens medievais a figura do executor de um ofício que requeria conhecimento, habilidade e experiência. Ferreiros, carpinteiros, tecelões, os artesões aprendiam cedo, como aprendizes, a fazer do trabalho a própria identidade. Só é trabalho o que constrói vida. Até o carrasco, na face ocultada, tinha seu papel reconhecido, valor temido em tarefa a ser cumprida. Paradoxo? No Japão, "nokanshi" é a pessoa que prepara os mortos para o velório e a cremação, através de gestos respeitosos e precisos, diante dos familiares. Profissionalismo e poesia apresentados no filme A Partida. A forma de viver remete ao trabalho.

Para empunhar a mais letal dentre as armas medievais, o arco longo inglês, os ensinamentos começavam ainda criança; uma lei determinava que cada homem, da região de Gales, entre 16 e 60 anos, tivesse seu próprio arco. Um arqueiro recebia pagamento 150% superior a um trabalhador qualificado.

A história do trabalho é a própria história do ser humano, retratando nas interações e nas ocupações a atribuição de valor. Cada passo edifica a obra pessoal. Em tempos de sociedade escravagista, os escravos eram propriedade de seus donos, como objetos. Na alta Idade Média imperava a servidão. Não muito distante da escravidão, observando-se que os camponeses "ofereciam" parte significativa do fruto do seu trabalho, em troca da proteção do senhor feudal. Na antiga Roma, a classe servil era tão vasta que havia músicos, poetas e até filósofos escravos. Quanto antagonismo, considerando que, em outras épocas, na Europa, riqueza e ócio eram premissa para obter cultura.

O reconhecimento do mérito do outro é benção tripla. O valor atribuído ao labor humano confunde-se com o valor ponderado ao próprio ser humano. O trabalho artesanal já foi capaz de suprir as demandas nas comunidades. A partir do advento da cultura mecanicista, passando a fazer parte de nossas vidas, irremediavelmente, as máquinas, também o homem começa a ser visto sob a ótica da administração científica. O estudo de tempos e movimentos determinando ao corpo a forma ideal de atuação. Homem não é máquina, mas para fazer frente à tamanha demanda de consumo, coube à indústria automotiva, através de Henry Ford, a invenção da linha de montagem, obtendo a produção em larga escala. A produção criou o consumo? O caminho da vida é ação de trabalho. A pergunta permeia a humanidade: a quem o trabalho serve? Na visão antroposófica, a atuação profissional remete à evolução e ao desenvolvimento pessoal, colocando-se a serviço da coletividade. A alma leva em si a construção que eterniza.

Com a globalização dos negócios e ao mesmo tempo a necessidade de uma estratégia de logística, os Campos Gerais despontam com localização privilegiada e diversificada atividade industrial e de serviços. As mãos só podem abençoar, dom da vida a revelar. Fonte primordial faz aliança com o trabalho humano. A pergunta permanece, a quem o trabalho serve?

 

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

 

Caldeirão Cultural

Divulgação

Na Bandeira do Paraná o Cruzeiro do Sul e os ramos do pinheiro e da erva-mate

Panela no fogo, borbulhando em fervura, adiciona os ingredientes, aguarda a cozedura, baixa o fogo, põe temperos e especiarias, serve com fartura. Quem fez do Paraná um caldeirão em sabor e alegoria? Seria o povo um prato original onde se misturaram as culturas? Quem adicionou as pitadas coloridas, imaginaria a iguaria? O olhar do espectador não tarda em admirar, da miscelânea uma identidade foi abarcar?

Quando os escravos finalmente foram libertos, nas fazendas de café do norte do Paraná eclodiram as demandas em mão de obra. A ex-província de São Paulo obtinha sua independência, o recém-criado Estado do Paraná, tão jovem, hoje, com pouco mais de 160 anos. Era necessário formar povo, fertilizar a terra primeira, com sementes humanas auspiciosas. O convite para outros povos, da Europa, do velho mundo, com sua força ancestral, interagirem nas novas terras em colonização. Como se plantam mãos? Quem seleciona mudas em forma de mãos? Corações e mentes desejosos em construção. Dos braços promissores surgia toda a riqueza em volição.

Dentre tanta pluralidade cultural presente no Brasil, porta o Paraná um dos mais variados mix de etnias da República Federativa. Quanta elegância! Um berço acolhedor a receber, a valorizar e imiscuir todas as etnias; como um artista plástico, que ousa em cores e, na tela, não teme pincelar do prússia ao limão. Poloneses, ucranianos, japoneses, alemães, holandeses, portugueses, italianos, espanhóis e tantos outros, totalizando 28 etnias. Quando o mix cultural é pouco diversificado predominam as características puras da origem, mesmo que através das peculiaridades das regiões de onde os povos imigraram. O perfil de hábitos e costumes adquire contornos mais rígidos, gerando expressões polarizadas, como no caso dos demais estados do Sul do país, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com predominância de descendência italiana e alemã. Foi "acusado", o Paraná, de possuir pouca identidade devido à grande diversidade de influências e etnias culturais. Como poderia a diversidade e a tolerância à diversidade ser falta de identidade? Porque uma obra de arte utiliza uma paleta maior de cores, expressaria menos arte?

A paisagem se sobrepôs, a nobreza das araucárias, o Pinheiro do Paraná, mitos, lendas e heróis, ajudaram a fortalecer uma identidade. Nas décadas de 20 e 30, o Paranismo tomava corpo, valorizando do estado as belezas naturais e a geografia como cenário para os bons feitos do seu povo. Agora sim, o mix de tantas cores ganha forma em reconhecimento e valorização.

Na bandeira do Paraná, uma elegância e uma nobreza de rara altivez. Do branco da paz ao verde que tudo abarca, um espaço sagrado que acolhe a todos. Não obriga, não força, expressa, em vez disso, um convite distinto para compor uma cultura que tem por graça e benção divina arregimentar todos.

No conceito de cultura um conjunto de conhecimentos, artes, crenças, moral, leis e costumes de uma sociedade. No Paraná um estado de almas coloridas que se revelam na elegância que valoriza e compartilha a vida.

 

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

Patrimônio Hídrico

Renata Regis Florisbelo/Divulgação

Córrego sem nome da bacia do rio Tibagi. Rios anônimos ‘emprestam’ suas águas aos rios maiores

Águas mansas banharam meu corpo, águas turvas assombraram meu espanto, em águas mornas aguardava pelo acalanto. Com quantas águas se faz um ser humano? Na poesia e nas metáforas as emoções são fluídicas, o corpo emocional se comporta como um ser líquido, que se molda em cantos, em córregos, transpassa em arestas, segue firme e por nada se dispersa. Quanta leveza! Para abarcar a rigidez mineral de nossos corpos, é necessária a fluidez em leitos perenes. Sangue (plasma) e todos os líquidos do corpo seguem em suas bacias, afluem em comunicação, carreando nutrientes, dispersando impurezas, irrigando e levando o oxigênio, permitindo a vida. Água é solvente, os fluxos dos líquidos intra e extracelulares regulam os processos fisiológicos da vida. Os fluxos dos rios, afluentes em forma de outros rios, córregos e arroios, seguem e nutrem todo um conjunto de vidas organizadas em sociedades completas e em sistemas biológicos vegetais e animais. Em épocas onde urge a preservação, a pergunta paira no ar qual corpo sobre as águas, de onde vem a escassez? Como se consumiram e se perderam os líquidos meus e teus? Chove novamente o que um dia foi embora, evaporou em pranto? Não adianta chorar pelas águas desperdiçadas ou pelas nascentes mal cuidadas. O clima é de fazer jorrar a compreensão em atitude compartilhada.

Nos Campos Gerais e em Ponta Grossa, somos agraciados com uma refinada rede de rios e bacias que promovem vasta irrigação. O rio Tibagi, segundo maior em extensão no Paraná, tem suas nascentes em Ponta Grossa, Palmeira e Campo Largo, sua certidão de nascimento atesta, é filho dos Campos Gerais. Desbravador, segue no sentido sul - norte e deságua entre os estados do Paraná e de São Paulo. O rio Pitangui, vermelho na inspiração dos índios guaranis, nasce na cidade de Castro e vem encontrar sua foz no rio Tibagi, em Ponta Grossa. Generoso, antes de se imiscuir a outro corpo hídrico, deixa-se represar nos Alagados e fornece água de abastecimento à cidade de Ponta Grossa. Genuinamente ponta-grossense, o rio Verde tem suas nascentes e foz no município de Ponta Grossa; complementar ao vermelho das pitangas do Pitangui, é seu maior afluente. No vão de tantas curvas encontramos o pitoresco e não menos charmoso rio São Jorge, símbolo do encontro entre as belezas hídricas e os arenitos de Ponta Grossa. Dos apenas 0,3% da água doce no mundo que os rios e lagos representam, a natureza foi generosa com os Campos Gerais, presenteando-nos com rios, córregos, riachos, riachuelos, canais e ribeiras. Dos igarapés do norte do Brasil às sangas do sul, um país que mostra sua força no símbolo da vitalidade e da pujança das águas.

Poesia aflui com a vida, como no leito dos rios em vida. Nossa estimada escritora Helena Kolody assim o sabia, bióloga de formação, poetiza de coração. Qual a diferença? Nenhuma. Vida aflui para mais vida, em todas as formas, na expressão mais rica.

Emoção e gratidão pedem vazão. Um sangradouro na consciência, torniquete às avessas, deixa seguir o curso, sem extravasar em excesso.

 

A autora é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

Aportando na Estação Arte

 

Arquivo DC

Estação Arte volta a ser um espaço cultural

 

Outono, inverno, primavera e verão. A arte fez sua estação? Viceja e fenece em cores e introversão. Ousou expressar em tons e em formas as notas da criação? Talentos individuais que informam: é hora de receber de volta o que já foi outrora. Entregue novamente às mãos da área de cultura o charmoso prédio da Estação Arte. O espaço foi construído em 1896, onde, no século XIX, as cargas permaneciam e aguardavam a partida pelas Estradas de Ferro Curitiba - Ponta Grossa e São Paulo - Rio Grande.  Como enamoradas ao complexo, as construções hoje chamadas de Estação Saudade e Casa da Memória. Cem anos depois, em 1996, o prédio se tornava um espaço cultural para receber exposições, oficinas e mostras de artistas. Tamanha a graciosidade e relevância da edificação, que em 2002, foi tombada pelo patrimônio histórico municipal. Estranhos percalços levaram a construção a outros desígnios e atribuições, passando à Secretaria de Abastecimento, em 2007, para abrigar o Mercado da Família. O que significa abastecer? Do que as famílias necessitam nutririam também o gosto pela arte? O alimento do espírito acaso também supriria o corpo?

Do renascentismo, os mestres da história da arte trouxeram a perspectiva, converter em bidimensional o que é tridimensional, a profundidade do espaço redutível ao plano. Engano a olhos vistos ou realismo traduzido? No cubismo, um mundo visto na totalidade das formas possíveis em movimento e dinâmica reais. Na visão bi-ocular de Pablo Picasso, a abrangência visual em ângulos mais amplos. Qual a perspectiva real para a arte em nossos tempos? Se o mundo acabasse com aviso prévio, muitos correriam para tentar salvar, antes de tudo, o acerco cultural nas obras de arte. O quadro Os Jogadores de Carta, de Cézanne, foi comprado em 2011, por 260 milhões de dólares. Arte não tem valor? Dois quadros da série Nenúfares, de Claude Monet, foram arrematados por mais de 50 milhões de dólares cada um. Qual o valor de cada aguapé impressionista pincelado?

Há os que assim se percebem como artistas e os que se envaidecem no parecer ser. Entre o crer ser e o expressar paira a genialidade no talento individual perceptível pelo coletivo. Seria figurativa essa ideia? A tentativa de abarcar a realidade? Um pensamento acadêmico ou uma abstração total? Da reprodução fidedigna ao mote espiritual? Sei que aguardei na estação, esperei pelo trem, espraiei no além-mar. Era a vontade no afã de expressar o que vem da alma, tela viva que faz criar. Nas plataformas, espero o embarque além da saudade, nostalgia e amor convertidos em traços. A arte espera na estação pelo trem que não vem? Após oito anos de reclusão, a Estação Arte abandona a saudade e retoma à arte, vocação primordial e legado maior, acastelando como guardiã do passado dos pioneiros nas artes plásticas e prospectando os passos futuros. "Da mesma maneira que a criança nos imita em seus jogos, o pintor imita o jogo das forças que criaram e criam o mundo" - Paul Klee. Se há valor, é o mesmo que procura e expressa a essência da vida.

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

A jornada do herói cultural

 

Arquivo DC

O Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa foi interditado devido a problemas no telhado

 

 

Era uma vez um residente à rua Dr. Colares, 436. Vivia calmo e plácido, observando os campos, ainda singelos em construção, do alto de suas mais de vinte janelas. O tempo também era plácido, nenhuma sofreguidão a perturbar o ritmo cíclico e estável do desenrolar da vida. Transcorrendo como o novelo da tecelã que urde, sistematicamente, em fios, pontos e tramas. Sua origem foi como a residência do Sr. Amando Cypriano da Cunha, no início dos anos de 1900. Abrigou, depois, o Ginásio Regente Feijó, para posteriormente sediar a Escola Normal de Ponta Grossa e, a partir de 1950 receber o Instituto de Educação César Pietro Martinez. Até então nosso futuro herói já estava acostumado a receber atribuições, mas nada que desafiasse suas estruturas. Num belo dia de 1986, a imponente construção foi designada, através da lei municipal nº 3.929, como o Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa.

- Como assim? pensou em carrancas intrigadas.

- Ser referência em cultura, o espaço que congrega, reúne e fortalece iniciativas?

Mais do que isto, ser a morada e o próprio ventre de onde espargem as iniciativas culturais mais expressivas. Não seria demais? A carga de responsabilidade parecia imensa para tão pacatas e cautelosas paredes. Jamais, em outros tempos, ansiosas em erguer, para si tal título. É natural titubear e relutar em aceitar. Mas a lei não deixava dúvidas, uma publicação selava a sina do novo herói. Valorizando o dia do município, em 15 de setembro de 1988, ocorreu a inauguração oficial do espaço. Daquele dia em diante, o destino da suntuosa construção estaria vinculado aos desígnios culturais da cidade, um templo, um cavaleiro solitário a velar diuturnamente pela cultura. Adentrando o umbral cultural, a edificação sofreu primorosa restauração que a remeteu novamente às características arquitetônicas da época da construção. Seu corpo passara pela iniciação, sagrando-o guardião da cultura.

Ao longo da jornada, nosso prédio herói encontra aliados, inimigos, passa por desafios e embates. De seus espaços são erigidos o Auditório Avelino Vieira e a Galeria João Pilarski. Quantas exposições, recitais musicais, apresentações teatrais, eventos literários, todos sob a salvaguarda do prédio, que dos olhos de suas carrancas, espanta os mal-intencionados, algozes da cultura, vilões traiçoeiros, que não redimem suas culpas em atos vis. O reconhecimento se fez presente quando, em 2002, foi tombado pelo Patrimônio Cultural de Ponta Grossa. Generoso em virtudes perfiladas em nome da cultura, passou a abrigar, desde 2007, a Pinacoteca Cidade de Ponta Grossa.

Passados quase trinta anos da publicação que sagrou seu caminho cultural, nosso herói já deu muitas provas de seu valor. No entanto, as constantes faltas de recursos e de políticas culturais fazem abarcar sobre suas ancas e cabeça carga cada vez mais difícil de ser suportada. Ventos fortes, tempestades e chuvas de granizo atacam, de forma implacável, intempéries verdugas, aplicando sua incúria às valentes edificações.

O caminho seria apenas de glória, de reconhecimento pelos nobres serviços prestados. Em vez disso, inimigos silenciosos se revelam infiltrados nas estruturas do telhado do prédio. Forças ocultas, o lado negro da força em ataque mortal ao ser majestoso. Venceria ele esta nova provação? Algum superpoder a ser despertado? Quem tanto nos representou contaria com nosso apoio e dedicação?

O herói passa por grave provação, portas fechadas diante dos riscos provocados pelo estado de conservação do teto, violentamente atacado por infiltrações e cupins. Quem sempre zelou pela cultura, agora silencia, abatido em necessidade de cura. Nosso Centro de Cultura está doente. Um mal lhe acomete e ataca. Em nós, a certeza de que também nossas células se encontram doentes. Não foram capazes de produzir vontade férrea, hemoglobina cultural, que fizesse frente aos perigos que o nosso herói sofre sozinho.

Joseph Campbell, um dos maiores mitologistas da humanidade, apresenta os passos da "Jornada do Herói", buscando as semelhanças que nutrem o emocional humano no caminho traçado pelos que executam atos heroicos. Na força dos grandes feitos, ouso tratar nosso Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa como um herói a abarcar nossas nuances culturais. O frágil momento de sua depuração pertence a todos nós, em ato real.

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.