Sherlock Holmes Cultura
Patrimônio laboral

Acervo de Cássio Murilo/Divulgação

Trabalhadores da Cervejaria Adriática na década de 30

Indústria, serviços, terceiro setor, onde o ser humano aplica seu labor? Trabalho, tão sagrado quanto a vida. Nas imagens medievais a figura do executor de um ofício que requeria conhecimento, habilidade e experiência. Ferreiros, carpinteiros, tecelões, os artesões aprendiam cedo, como aprendizes, a fazer do trabalho a própria identidade. Só é trabalho o que constrói vida. Até o carrasco, na face ocultada, tinha seu papel reconhecido, valor temido em tarefa a ser cumprida. Paradoxo? No Japão, "nokanshi" é a pessoa que prepara os mortos para o velório e a cremação, através de gestos respeitosos e precisos, diante dos familiares. Profissionalismo e poesia apresentados no filme A Partida. A forma de viver remete ao trabalho.

Para empunhar a mais letal dentre as armas medievais, o arco longo inglês, os ensinamentos começavam ainda criança; uma lei determinava que cada homem, da região de Gales, entre 16 e 60 anos, tivesse seu próprio arco. Um arqueiro recebia pagamento 150% superior a um trabalhador qualificado.

A história do trabalho é a própria história do ser humano, retratando nas interações e nas ocupações a atribuição de valor. Cada passo edifica a obra pessoal. Em tempos de sociedade escravagista, os escravos eram propriedade de seus donos, como objetos. Na alta Idade Média imperava a servidão. Não muito distante da escravidão, observando-se que os camponeses "ofereciam" parte significativa do fruto do seu trabalho, em troca da proteção do senhor feudal. Na antiga Roma, a classe servil era tão vasta que havia músicos, poetas e até filósofos escravos. Quanto antagonismo, considerando que, em outras épocas, na Europa, riqueza e ócio eram premissa para obter cultura.

O reconhecimento do mérito do outro é benção tripla. O valor atribuído ao labor humano confunde-se com o valor ponderado ao próprio ser humano. O trabalho artesanal já foi capaz de suprir as demandas nas comunidades. A partir do advento da cultura mecanicista, passando a fazer parte de nossas vidas, irremediavelmente, as máquinas, também o homem começa a ser visto sob a ótica da administração científica. O estudo de tempos e movimentos determinando ao corpo a forma ideal de atuação. Homem não é máquina, mas para fazer frente à tamanha demanda de consumo, coube à indústria automotiva, através de Henry Ford, a invenção da linha de montagem, obtendo a produção em larga escala. A produção criou o consumo? O caminho da vida é ação de trabalho. A pergunta permeia a humanidade: a quem o trabalho serve? Na visão antroposófica, a atuação profissional remete à evolução e ao desenvolvimento pessoal, colocando-se a serviço da coletividade. A alma leva em si a construção que eterniza.

Com a globalização dos negócios e ao mesmo tempo a necessidade de uma estratégia de logística, os Campos Gerais despontam com localização privilegiada e diversificada atividade industrial e de serviços. As mãos só podem abençoar, dom da vida a revelar. Fonte primordial faz aliança com o trabalho humano. A pergunta permanece, a quem o trabalho serve?

 

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

 

Caldeirão Cultural

Divulgação

Na Bandeira do Paraná o Cruzeiro do Sul e os ramos do pinheiro e da erva-mate

Panela no fogo, borbulhando em fervura, adiciona os ingredientes, aguarda a cozedura, baixa o fogo, põe temperos e especiarias, serve com fartura. Quem fez do Paraná um caldeirão em sabor e alegoria? Seria o povo um prato original onde se misturaram as culturas? Quem adicionou as pitadas coloridas, imaginaria a iguaria? O olhar do espectador não tarda em admirar, da miscelânea uma identidade foi abarcar?

Quando os escravos finalmente foram libertos, nas fazendas de café do norte do Paraná eclodiram as demandas em mão de obra. A ex-província de São Paulo obtinha sua independência, o recém-criado Estado do Paraná, tão jovem, hoje, com pouco mais de 160 anos. Era necessário formar povo, fertilizar a terra primeira, com sementes humanas auspiciosas. O convite para outros povos, da Europa, do velho mundo, com sua força ancestral, interagirem nas novas terras em colonização. Como se plantam mãos? Quem seleciona mudas em forma de mãos? Corações e mentes desejosos em construção. Dos braços promissores surgia toda a riqueza em volição.

Dentre tanta pluralidade cultural presente no Brasil, porta o Paraná um dos mais variados mix de etnias da República Federativa. Quanta elegância! Um berço acolhedor a receber, a valorizar e imiscuir todas as etnias; como um artista plástico, que ousa em cores e, na tela, não teme pincelar do prússia ao limão. Poloneses, ucranianos, japoneses, alemães, holandeses, portugueses, italianos, espanhóis e tantos outros, totalizando 28 etnias. Quando o mix cultural é pouco diversificado predominam as características puras da origem, mesmo que através das peculiaridades das regiões de onde os povos imigraram. O perfil de hábitos e costumes adquire contornos mais rígidos, gerando expressões polarizadas, como no caso dos demais estados do Sul do país, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com predominância de descendência italiana e alemã. Foi "acusado", o Paraná, de possuir pouca identidade devido à grande diversidade de influências e etnias culturais. Como poderia a diversidade e a tolerância à diversidade ser falta de identidade? Porque uma obra de arte utiliza uma paleta maior de cores, expressaria menos arte?

A paisagem se sobrepôs, a nobreza das araucárias, o Pinheiro do Paraná, mitos, lendas e heróis, ajudaram a fortalecer uma identidade. Nas décadas de 20 e 30, o Paranismo tomava corpo, valorizando do estado as belezas naturais e a geografia como cenário para os bons feitos do seu povo. Agora sim, o mix de tantas cores ganha forma em reconhecimento e valorização.

Na bandeira do Paraná, uma elegância e uma nobreza de rara altivez. Do branco da paz ao verde que tudo abarca, um espaço sagrado que acolhe a todos. Não obriga, não força, expressa, em vez disso, um convite distinto para compor uma cultura que tem por graça e benção divina arregimentar todos.

No conceito de cultura um conjunto de conhecimentos, artes, crenças, moral, leis e costumes de uma sociedade. No Paraná um estado de almas coloridas que se revelam na elegância que valoriza e compartilha a vida.

 

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

Patrimônio Hídrico

Renata Regis Florisbelo/Divulgação

Córrego sem nome da bacia do rio Tibagi. Rios anônimos ‘emprestam’ suas águas aos rios maiores

Águas mansas banharam meu corpo, águas turvas assombraram meu espanto, em águas mornas aguardava pelo acalanto. Com quantas águas se faz um ser humano? Na poesia e nas metáforas as emoções são fluídicas, o corpo emocional se comporta como um ser líquido, que se molda em cantos, em córregos, transpassa em arestas, segue firme e por nada se dispersa. Quanta leveza! Para abarcar a rigidez mineral de nossos corpos, é necessária a fluidez em leitos perenes. Sangue (plasma) e todos os líquidos do corpo seguem em suas bacias, afluem em comunicação, carreando nutrientes, dispersando impurezas, irrigando e levando o oxigênio, permitindo a vida. Água é solvente, os fluxos dos líquidos intra e extracelulares regulam os processos fisiológicos da vida. Os fluxos dos rios, afluentes em forma de outros rios, córregos e arroios, seguem e nutrem todo um conjunto de vidas organizadas em sociedades completas e em sistemas biológicos vegetais e animais. Em épocas onde urge a preservação, a pergunta paira no ar qual corpo sobre as águas, de onde vem a escassez? Como se consumiram e se perderam os líquidos meus e teus? Chove novamente o que um dia foi embora, evaporou em pranto? Não adianta chorar pelas águas desperdiçadas ou pelas nascentes mal cuidadas. O clima é de fazer jorrar a compreensão em atitude compartilhada.

Nos Campos Gerais e em Ponta Grossa, somos agraciados com uma refinada rede de rios e bacias que promovem vasta irrigação. O rio Tibagi, segundo maior em extensão no Paraná, tem suas nascentes em Ponta Grossa, Palmeira e Campo Largo, sua certidão de nascimento atesta, é filho dos Campos Gerais. Desbravador, segue no sentido sul - norte e deságua entre os estados do Paraná e de São Paulo. O rio Pitangui, vermelho na inspiração dos índios guaranis, nasce na cidade de Castro e vem encontrar sua foz no rio Tibagi, em Ponta Grossa. Generoso, antes de se imiscuir a outro corpo hídrico, deixa-se represar nos Alagados e fornece água de abastecimento à cidade de Ponta Grossa. Genuinamente ponta-grossense, o rio Verde tem suas nascentes e foz no município de Ponta Grossa; complementar ao vermelho das pitangas do Pitangui, é seu maior afluente. No vão de tantas curvas encontramos o pitoresco e não menos charmoso rio São Jorge, símbolo do encontro entre as belezas hídricas e os arenitos de Ponta Grossa. Dos apenas 0,3% da água doce no mundo que os rios e lagos representam, a natureza foi generosa com os Campos Gerais, presenteando-nos com rios, córregos, riachos, riachuelos, canais e ribeiras. Dos igarapés do norte do Brasil às sangas do sul, um país que mostra sua força no símbolo da vitalidade e da pujança das águas.

Poesia aflui com a vida, como no leito dos rios em vida. Nossa estimada escritora Helena Kolody assim o sabia, bióloga de formação, poetiza de coração. Qual a diferença? Nenhuma. Vida aflui para mais vida, em todas as formas, na expressão mais rica.

Emoção e gratidão pedem vazão. Um sangradouro na consciência, torniquete às avessas, deixa seguir o curso, sem extravasar em excesso.

 

A autora é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

Aportando na Estação Arte

 

Arquivo DC

Estação Arte volta a ser um espaço cultural

 

Outono, inverno, primavera e verão. A arte fez sua estação? Viceja e fenece em cores e introversão. Ousou expressar em tons e em formas as notas da criação? Talentos individuais que informam: é hora de receber de volta o que já foi outrora. Entregue novamente às mãos da área de cultura o charmoso prédio da Estação Arte. O espaço foi construído em 1896, onde, no século XIX, as cargas permaneciam e aguardavam a partida pelas Estradas de Ferro Curitiba - Ponta Grossa e São Paulo - Rio Grande.  Como enamoradas ao complexo, as construções hoje chamadas de Estação Saudade e Casa da Memória. Cem anos depois, em 1996, o prédio se tornava um espaço cultural para receber exposições, oficinas e mostras de artistas. Tamanha a graciosidade e relevância da edificação, que em 2002, foi tombada pelo patrimônio histórico municipal. Estranhos percalços levaram a construção a outros desígnios e atribuições, passando à Secretaria de Abastecimento, em 2007, para abrigar o Mercado da Família. O que significa abastecer? Do que as famílias necessitam nutririam também o gosto pela arte? O alimento do espírito acaso também supriria o corpo?

Do renascentismo, os mestres da história da arte trouxeram a perspectiva, converter em bidimensional o que é tridimensional, a profundidade do espaço redutível ao plano. Engano a olhos vistos ou realismo traduzido? No cubismo, um mundo visto na totalidade das formas possíveis em movimento e dinâmica reais. Na visão bi-ocular de Pablo Picasso, a abrangência visual em ângulos mais amplos. Qual a perspectiva real para a arte em nossos tempos? Se o mundo acabasse com aviso prévio, muitos correriam para tentar salvar, antes de tudo, o acerco cultural nas obras de arte. O quadro Os Jogadores de Carta, de Cézanne, foi comprado em 2011, por 260 milhões de dólares. Arte não tem valor? Dois quadros da série Nenúfares, de Claude Monet, foram arrematados por mais de 50 milhões de dólares cada um. Qual o valor de cada aguapé impressionista pincelado?

Há os que assim se percebem como artistas e os que se envaidecem no parecer ser. Entre o crer ser e o expressar paira a genialidade no talento individual perceptível pelo coletivo. Seria figurativa essa ideia? A tentativa de abarcar a realidade? Um pensamento acadêmico ou uma abstração total? Da reprodução fidedigna ao mote espiritual? Sei que aguardei na estação, esperei pelo trem, espraiei no além-mar. Era a vontade no afã de expressar o que vem da alma, tela viva que faz criar. Nas plataformas, espero o embarque além da saudade, nostalgia e amor convertidos em traços. A arte espera na estação pelo trem que não vem? Após oito anos de reclusão, a Estação Arte abandona a saudade e retoma à arte, vocação primordial e legado maior, acastelando como guardiã do passado dos pioneiros nas artes plásticas e prospectando os passos futuros. "Da mesma maneira que a criança nos imita em seus jogos, o pintor imita o jogo das forças que criaram e criam o mundo" - Paul Klee. Se há valor, é o mesmo que procura e expressa a essência da vida.

Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

A jornada do herói cultural

 

Arquivo DC

O Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa foi interditado devido a problemas no telhado

 

 

Era uma vez um residente à rua Dr. Colares, 436. Vivia calmo e plácido, observando os campos, ainda singelos em construção, do alto de suas mais de vinte janelas. O tempo também era plácido, nenhuma sofreguidão a perturbar o ritmo cíclico e estável do desenrolar da vida. Transcorrendo como o novelo da tecelã que urde, sistematicamente, em fios, pontos e tramas. Sua origem foi como a residência do Sr. Amando Cypriano da Cunha, no início dos anos de 1900. Abrigou, depois, o Ginásio Regente Feijó, para posteriormente sediar a Escola Normal de Ponta Grossa e, a partir de 1950 receber o Instituto de Educação César Pietro Martinez. Até então nosso futuro herói já estava acostumado a receber atribuições, mas nada que desafiasse suas estruturas. Num belo dia de 1986, a imponente construção foi designada, através da lei municipal nº 3.929, como o Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa.

- Como assim? pensou em carrancas intrigadas.

- Ser referência em cultura, o espaço que congrega, reúne e fortalece iniciativas?

Mais do que isto, ser a morada e o próprio ventre de onde espargem as iniciativas culturais mais expressivas. Não seria demais? A carga de responsabilidade parecia imensa para tão pacatas e cautelosas paredes. Jamais, em outros tempos, ansiosas em erguer, para si tal título. É natural titubear e relutar em aceitar. Mas a lei não deixava dúvidas, uma publicação selava a sina do novo herói. Valorizando o dia do município, em 15 de setembro de 1988, ocorreu a inauguração oficial do espaço. Daquele dia em diante, o destino da suntuosa construção estaria vinculado aos desígnios culturais da cidade, um templo, um cavaleiro solitário a velar diuturnamente pela cultura. Adentrando o umbral cultural, a edificação sofreu primorosa restauração que a remeteu novamente às características arquitetônicas da época da construção. Seu corpo passara pela iniciação, sagrando-o guardião da cultura.

Ao longo da jornada, nosso prédio herói encontra aliados, inimigos, passa por desafios e embates. De seus espaços são erigidos o Auditório Avelino Vieira e a Galeria João Pilarski. Quantas exposições, recitais musicais, apresentações teatrais, eventos literários, todos sob a salvaguarda do prédio, que dos olhos de suas carrancas, espanta os mal-intencionados, algozes da cultura, vilões traiçoeiros, que não redimem suas culpas em atos vis. O reconhecimento se fez presente quando, em 2002, foi tombado pelo Patrimônio Cultural de Ponta Grossa. Generoso em virtudes perfiladas em nome da cultura, passou a abrigar, desde 2007, a Pinacoteca Cidade de Ponta Grossa.

Passados quase trinta anos da publicação que sagrou seu caminho cultural, nosso herói já deu muitas provas de seu valor. No entanto, as constantes faltas de recursos e de políticas culturais fazem abarcar sobre suas ancas e cabeça carga cada vez mais difícil de ser suportada. Ventos fortes, tempestades e chuvas de granizo atacam, de forma implacável, intempéries verdugas, aplicando sua incúria às valentes edificações.

O caminho seria apenas de glória, de reconhecimento pelos nobres serviços prestados. Em vez disso, inimigos silenciosos se revelam infiltrados nas estruturas do telhado do prédio. Forças ocultas, o lado negro da força em ataque mortal ao ser majestoso. Venceria ele esta nova provação? Algum superpoder a ser despertado? Quem tanto nos representou contaria com nosso apoio e dedicação?

O herói passa por grave provação, portas fechadas diante dos riscos provocados pelo estado de conservação do teto, violentamente atacado por infiltrações e cupins. Quem sempre zelou pela cultura, agora silencia, abatido em necessidade de cura. Nosso Centro de Cultura está doente. Um mal lhe acomete e ataca. Em nós, a certeza de que também nossas células se encontram doentes. Não foram capazes de produzir vontade férrea, hemoglobina cultural, que fizesse frente aos perigos que o nosso herói sofre sozinho.

Joseph Campbell, um dos maiores mitologistas da humanidade, apresenta os passos da "Jornada do Herói", buscando as semelhanças que nutrem o emocional humano no caminho traçado pelos que executam atos heroicos. Na força dos grandes feitos, ouso tratar nosso Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa como um herói a abarcar nossas nuances culturais. O frágil momento de sua depuração pertence a todos nós, em ato real.

 

*Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

Araucária - Patrimônio jurássico

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O brasão da cidade de Ponta Grossa ostenta a araucária como um dos seus símbolos

Árvore símbolo do Paraná, do sul do Brasil, Pinheiro-do-Paraná. Elevou-se, foi buscar no anil o toque divino. Posicionou-se ereta, almejando o céu, para nós, sobranceira em proteção pujante.

Não é de hoje que este ser de porte nobre impressiona, na uniformidade da paisagem dos planaltos a recorrência que nutre os olhos. Quanto mais indivíduos reunidos, maior a altivez que cada um, magnificamente, adiciona ao conjunto. Ocorrência exclusiva do hemisfério sul, beleza que não visita outras paragens. Pousa e se fixa na paisagem, não é peregrina, nem andarilha, é senhora complacente de sua missão.

Por que o símbolo quase se extirpou? Não a si mesmo, mas pelas mãos predatórias que não conhecem a sustentabilidade. Mãos que não merecem a sustentação como indivíduo. Vidas que, na subsistência incógnita, lançam mão do que sustenta.

Na paisagem inexplorada de poucas décadas atrás, as araucárias cobriam, como tapete, o vasto território virginal. Tão abundante, parecia não ter fim. Madeira rica, matéria fértil em propriedades sem fim. O que falta a nós? Falta-nos a voz que sussurra o limite? Fala a voz que insiste, alude e regride. Não deixa assolar em desolação. Olhos que se voltaram para a progressão material, cerraram-se para os exemplares altivos. Tronco forte, da casca marrom-arroxeada foi ao chão em promessa econômica.

Curiosa espécie, como nós, possui indivíduos machos e indivíduos fêmeas, complementares no papel de geração e perpetuação da espécie. Gênero exigente, exibe na longevidade a relação ancestral com o tempo. Nossos tempos de pressa avassaladora não permitem esperar, destes, os anos requeridos para a fase adulta. Ironicamente, embora símbolo, tão preteridas quando da escolha para reflorestamento. Nossas atitudes com o nobre reino vegetal nos extinguem? Sim, antagonismo irracional, ao mesmo tempo em que ansiamos vorazmente pela abundância material, os passos gananciosos convergem para a exaustão, escassez e aridez dos recursos.

Nosso altivo símbolo hoje é classificado como em perigo crítico de extinção. Intrigante perceber que este ser jurássico, sim, remonta a 200 milhões de anos, foi vertiginosamente abatido apenas nos últimos 50 anos. Milhões em calmaria foram arregimentados para míseras décadas em degradação.

Na forma escultural da araucária, uma alusão ao candelabro, imagem para um símbolo arquetípico de reza, de elevação dos pensamentos aos mais altos dos céus em prece. Ela reza por nós? Creio que sim, acalenta os olhos mergulhá-los nos candelabros acesos, que rogam por nós.

Tão útil que de sua madeira se pode produzir de palito de fósforo a mastro de navio. Como resistir à prontidão servil do altivo ser? Quem dera gritasse, esperneasse ante as rudezas que as põem abaixo! Mas, em vez disso, apenas o silêncio, imóvel, impassível, a realeza que mesmo quando condenada à morte segue até o algoz em passos soberanos. Símbolo do Paraná? O que esperamos de um símbolo? Almejamos do símbolo a postura nobre, ou carregamos, através dele, nossas próprias condenações?

Como no furor da época da revolução francesa, os ânimos andam inflamados, qualquer mínimo desagravo torna um amigo, inimigo e faz de um confidente em estranho. O que esperar de quem nos representa? Sendo esta embaixatriz de origem vegetal, teria, a araucária, a habilidade política requerida para nos representar? Penso que sim. Jamais se exasperaria, jamais levantaria a voz ou os braços (em candelabro aceso) contra quem quer que fosse. Em meio a tanta insanidade, quem se mantém plácido e irrepreensível, conquista o direito, por justo merecimento, de ser símbolo.

*A autora é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.



 

Patrimônio feminino

 

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Na obra Madona Sistina, Rafael Sanzio utiliza símbolos para expressar os atributos femininos

 

Todos os anos, no mês de março, um frenesi cor de rosa se abate sobre os ânimos. Época de eclodir em mensagens de conteúdo poético e nas eternas condolências àquelas que morreram sob chamas, originando o sentido da data. Nas últimas décadas, muito foi dito, desmentido e, novamente, reafirmado sobre a mulher. O perfil muda conforme a época? Uma mutante em mimetismos modernos mediante às novas urgências?

Passeando os olhos em locais de aglomeração de pessoas, como em shows musicais, é comum pousá-los em homens e mulheres, vestidos de maneira uniforme: calça jeans, camiseta e tênis. Um mundo unissex? Um mar de gente desprovida de gênero? Mulheres travestidas em homens?

Acima dos gêneros masculino e feminino, está a unidade humana. Este ser exclusivo, em processo único de respostas às demandas de consciência atual. A exemplo dos estágios do desenvolvimento da biografia individual, enquanto humanidade, também nos desenvolvemos coletivamente. A humanidade já foi bebê e criança, que precisavam de firme condução dos pais; hoje, é um ser adulto, capaz de responder por seus atos e em pleno apogeu das capacidades e potencialidades.

A unidade ser humano divide-se, igualmente, em feminino e masculino. Cabe a cada gênero cinzelar habilidades em função de suas características. Como não suspeitar? Se a anatomia não é igual, deve haver alguma atribuição inerente à forma. Numa anatomia sexual ativa, o homem revela seu caráter arrojado, de iniciativa e força. Na anatomia sexual passiva, a mulher desvela seu perfil acalentador, atento ao social e formador de cultura humana, nutrindo-a em si. Somam-se a estes perfis os desafios do livre arbítrio experienciados a partir do século XX: homens aprendendo a desenvolver sensibilidade e refinado tato social e mulheres praticando a objetividade em tarefas, até então, exclusivamente masculinas.

A igualdade acastelada nos diretos básicos, nas premissas de responsabilidades e na compreensão sobre os papéis diferenciados a serem insculpidos em cada gênero. Não obstante, na expressão, quanta cor, quanta beleza quando se revela o feminino.

As pinturas antigas, legado dos grandes mestres da história da arte, revelavam, em discretos sinais, os atributos concatenados ao universo feminino. O rosto valorizado, o corpo coberto por roupas em abundantes tecidos, representando a pujante expressão de vida. A mulher tem sua vitalidade elevada em relação ao homem, que, por sua vez, está fortemente ligado às métricas e proporções experienciadas através do corpo físico e suas noções matemáticas e racionais. Nesta linguagem cheia de significado em cores, formas e gestos, a imagem de uma mulher semi-nua, sem pudor ou moralismo, alude a uma vitalidade escassa, alma esquálida, desprovida de vida, em tão poucos panos a exaltar sua capacidade vital. Trata-se de conceito sobre o funcionamento de cada gênero humano. O feminino em posturas discretas e gestos graciosos revela a intensa vivência psíquica interna, a bem de compreender o mundo dentro de si. A mulher como um arquétipo da gestação, não de um indivíduo, mas como aquela que gesta o mundo. O ser que internalizou, dentro de si, a própria vivência do mundo, para devolvê-lo em novo nascimento.

A Madona Sistina, pintura de Rafael Sanzio, artista renascentista que viveu entre 1483 e 1520, mostra seu olhar sério e consciente do mundo e carrega com graça e leveza a criança da promessa. Postura ereta, é mensageira entre mundos. Não expressa benevolência por fútil complacência, em vez disso, faz despertar a consciência para critérios vitalizantes e os demonstra em atos delicados e precisos. Olhar ancestral que representa as próprias forças universais na condução da humanidade. Imagem que não tem época, é representação da mais elevada qualidade feminina.

 

*A autora é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.

Cântico centenário

Quanto tempo o vento já soprou? Não sei, tantos sóis já se passaram, erigidos nas manhãs e dormitantes nas noites. Lembro-me de quando os ares eram outros, o céu mais puro, as árvores ainda pequenas. Mulheres usavam vestidos bonitos, portavam elegantes chapéus e abrigavam suas peles alvas com delicadas sombrinhas. O ritmo era dessemelhante, carros puxados por cavalos, muitas crianças brincando nas praças. Quando morria alguém, a despedida era longa, toda a cidade se punha a depositar condolências no túmulo amigo, todos eram conhecidos.

Cheguei muito pequena aqui, mal lembro daqueles dias, talvez noventa, cem anos atrás. Creio que algum documento me acompanhou. Uma certidão de nascimento? Por certo não era este o nome, documento em papel antigo, letras desenhadas e manuscritas, belas como a leveza de quem empunha a pena. A escrita com a pena faz as palavras alçarem voo e planarem sobre o leito impresso. Sei que não vim sozinha, outras me acompanharam e têm a mesma idade. Somos irmãs. Não reconheço todas ao meu lado. Algumas já morreram. Uma irmã menor, que vivia um pouco à frente, foi definhando lentamente. Ninguém sabe o que lhe aconteceu, uma doença, um vírus, quem sabe um fungo raro e mortífero. Foi o bastante para arrebatá-la em seu viço. Morreu, de seus restos nada sobrou. Uma criança ainda olhou com espanto e falou:

- Passarinho foi embora, a bela da praça não vingou.

Agora, algumas imagens começam a aparecer em minhas memórias torvadas. Era uma tarde quente de verão quando os moços de roupas engraçadas nos trouxeram. Chapéus grandes protegiam suas cabeças e nos refrescavam na sombra de suas abas.

Um homem simpático, de pele rude e braços fortes, levara-me em seu colo. Eu me sentia como um bebê em carinhosos cuidados. Recebemos visitas e mais visitas, crianças do colégio, namorados, até mesmo alguns perdidos alcoolizados nas madrugadas longínquas.

Um dia, um casal apareceu, eram tão tenros e jovens quanto as flores que por ali também estavam. Fizeram juras e escreveram seus nomes com desenho de coração. Rasgaram a minha pele grossa nesse ato impulsivo, a primeira tatuagem. Depois, surgiram já de alianças nos dedos. Mais tarde, passaram a circular com um garoto no colo. E, então, veio uma menina, e mais duas.

Quando me dei conta, já eram maduros e ainda passeavam pela praça. Daquela menina moça com o namorado, minha memória guarda lembrança. Há algumas semanas, seu cortejo fúnebre passou por aqui e, pela primeira vez, chorei uma despedida. Será que estou ficando emotiva depois de tantos anos de vida? Impossível ver a partida de quem, por compartilhar comigo, vai embora em sonho colorido. Queria ganhar pernas, braços, tamanha a saudade que impele a correr no encalço do bem querer.

Sinto-me fraca, o peso dos anos azuis tem deixado suas marcas. Já trago no corpo o sinal dos anos. Temo pelo fim. Desejo uma partida digna e também natural. Livrem-me de homens tiranos empunhando motosserras. Não mutilem meu corpo, que ainda é capaz de fazer frente aos ventos e resistir altivo. Não há dor pior que ver tombar a copa frondosa para todos. Só um cotoco, inerte, morto. Livrai-me deste mal.

As árvores nas praças sonham com uma biografia altiva, lançando sombras afáveis aos que a valorizam. Sherlock Holmes Cultura defende a manutenção e a preservação efusiva de nossas árvores.

 

Autora: Renata é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes.