Vida Crônica
Barulhos

            Envelhecer é implicar com barulhos. É também um monte de outras coisas, boas ou tão insuportáveis quanto, mas esta crônica vai focar apenas neste fenômeno do passar dos anos. Claro que tal afirmação é baseada na minha experiência. Talvez montada também em uma opinião expressada por um amigo aqui, solta por uma amiga lá. O certo é que a maioria das implicâncias é bem particular.

            Tenho saudade da época em que meu incômodo era apenas o zumbido dos pernilongos. Aquela revoada de verão que todos nós conhecemos. Minha memória auditiva lembra até com certo sentimento nostálgico daquelas noites quentes. Pensando bem, o tal sentimento é mais pela lembrança da segurança da casa materna e pelo fato de que depois que passei a morar sozinho os pernilongos sumiram, e não sinto mais na pele e nem nos ouvidos a presença deles. Porém, hoje o som dos insetos parece até ingênuo comparado aos barulhos que mais me tiram do sério.

            A localização das minhas moradas pode ter espantado insetos voadores, mas trouxe outros problemas. Sempre morei perto de cruzamentos. Uma vez na esquina de uma grande preferencial e outra próximo a um semáforo. Se você não liga isso a barulho, é porque provavelmente não mora em uma rua movimentada. Carros, caminhões e motos param e em algum momento precisam arrancar novamente. Esse exato instante é meticulosamente escolhido pelo universo para coincidir com um momento importante, seja na TV, seja em uma música, na conversa no sofá ou com aquele último momento de vigília.

            Onde eu moro hoje ainda é pior. A estrutura das casas e prédios vizinhos montam um corredor acústico que termina na janela da minha sala. Muitas vezes o som é amplificado também por culpa de dias, semanas e meses difíceis que têm se apresentado. E nesses tempos de irritação fácil e prolongada, eu já escolhi a grande vilã do barulho à combustão. A moto. A motoneta. A motoca. O liquidificador de rodas. A cigarra de guidão.

            Irrita. E minha irritação não discrimina ninguém. Da vespa mais sem-vergonha a uma Harley-Davidson ao som de “Born to be wild”. O ronco da liberdade se aventurando em duas rodas trava minha boa vontade com a vida. Os carros passam, os caminhões às vezes se alongam um pouco, mas a moto não. Ela é acelerada ao máximo durante duas, três quadras levando com ela minha paciência e concentração. Me lembra os desenhos que assistia na infância em que os personagens mais velhos tinham ataques nervosos ao escutarem qualquer início de balbúrdia. Quem diria, hoje sou eu.

            Os dias de ouvidos sensíveis são completados por portas entreabertas manipuladas pelo vento que não sabe se as quer abertas ou fechadas. Por gente que tem verdadeiro tesão por canetas e lapiseiras que podem ser apertadas. Música ruim e alta. Choro de recém-nascido. Gente que come com a boca aberta. Trens. Construções.

            Essas últimas me fazem lembrar Chico Buarque e sua “Samba e Amor”. Na letra, Chico trata com classe e até com sensualidade o som da “correria da cidade”, o trânsito e a fábrica. O abismo de talento entre ele e este aqui chega até a fazer barulho também. Mas peço desculpa por esta crônica não ter um tantinho sequer da beleza preguiçosa do texto do poeta, só que a meu favor cito os seis pares de rodas que passaram enquanto estas palavras foram escritas, levando deste cronista qualquer possibilidade de elegância e deixando apenas a rouquidão do desabafo.

Idiossincrasia sui generis

Não gosto de cozinhar. Mas já gostei um dia, acho. Quando quase tudo que a gente faz fica ruim, isso acontece. Quando ainda morava com meu pai, era ele que fazia a comida. Meu pai cozinha de mão cheia. Quando chego tarde assim do trabalho, só como um sanduíche. Eu não saio de lá com tanta fome. Quero mais mesmo é tomar meu banho bem demorado. Banho, sanduíche e cama.

Mas não durmo logo que deito. Peguei o costume de ler antes de dormir. Igual a gente que às vezes aparece em novela e filme. A pessoa meio deitada, meio que sentada. Aqueles travesseiros grandes. Abajur e óculos pra ler. Antes eu só ficava no celular. Mas quando ele ficou um mês com a tela quebrada, eu comecei a ler na cama. Sem abajur nem óculos de ler. Mas meus travesseiros são grandes. Li numa revista que não é costume bom. Ler antes de dormir atrapalha o descanso do cérebro. Dizia lá que não é bom fazer nada na cama. Eu faço tudo.

Esse livro de gente solitária é bom. Tem isso das histórias serem interessantes. Mas tem também muitas palavras que eu não conheço. Tive uma professora que dizia que as palavras não estão onde estão à toa. Idiossincrasia é a maneira de uma pessoa se comportar, tipo jeito de ser. “Rogério achava que o que o impedia de ter alguém é que as mulheres não sabem lidar com suas idiossincrasias”. O que ele é mesmo é um chato. “O que o tornava uma pessoa sui generis”. Essa não tem aqui no dicionário. Tá na cara que é de outra língua. Peculiar, tá dizendo o Google. Tem outros significados aqui, mas peculiar encaixa. Especial é melhor.

Aqui na internet todo mundo é especial. Todo mundo viaja. Todo mundo sai à noite. Sexta de carnaval então, imagine. A maioria eu não vejo pessoalmente desde a escola. Outras são lá do mercado. Mas sei da vida delas tudo que elas querem que a gente saiba. Sei, por exemplo, que pra uma a alegria de carnaval acaba, mas a paz de ter cristo no coração nunca passa. E que outra quer avisar que só volta pra casa na quarta de cinzas. É um tipo de solidão também eu acho. Delas e minha. Porque eu me interesso também em ficar lendo isso? Quase nunca escrevo nada. Deveria apagar tudo de vez. É só distração. Me tirou do meu livro.

Eu não gosto de parar de ler em qualquer parte. Tem que ser no fim da história mesmo. Do conto, no caso. Eu entro ali na situação da pessoa e quero ir até o final. Mas tem dias que o sono me derruba e pronto. No outro dia eu volto do começo e leio de uma vez. Na revista que falava sobre ler antes de dormir, dizia que a leitura também atrapalha. Que a gente antes um pouquinho de dormir vai perdendo a concentração. Vai pensando em outras coisas e a leitura daí não tem bom proveito. Era uma matéria boa essa da revista. Deveriam escrever sobre essa coisa das pessoas serem iguais na internet. Sobre todas sendo também especiais. “Nos dias de hoje podemos ver nas redes sociais que apesar dos internautas mostrarem todas as suas idiossincrasias, podemos perceber que estão se tornando iguais, mesmo se considerando tão sui generis”.

 

 A barbearia

           Eu não sou fiel a nenhum barbeiro. Aliás, sinto inveja dos que podem dizer que cortam a barba e/ou o cabelo com a mesma pessoa há anos. Chegam pedindo o de sempre, são chamados pelo nome e já sabem o que esperar do prestador de serviço, que nesse caso, é bem mais que isso. Comigo não acontece. Sou um nômade das tesouras.

            Não é por falta de vontade. Desde adolescente, quando comecei a escolher onde cortar meu cabelo (e então deixei pra trás o penteado Chitãozinho e Chororó induzido pelo meu pai), tenho buscado encontrar meu barbeiro alma gêmea, uma busca longa e vã.

            Primeiramente, é bom deixar claro que eu não sou conhecido como alguém de barba e cabelo alinhados. É só ver minhas fotos, das mais antigas as mais recentes, pra constatar o desleixo. E é aí que mora o contraditório, sou mais vaidoso que o normal quando se trata desses pelos. Talvez seja também a raiz do problema. Eu sou chato. O resultado é sempre ruim, por mais detalhista que seja a minha descrição do corte desejado, tanto da barba quanto do cabelo.

            Já passei por todos os estilos de barbearias. Da simplicidade das localizadas no interior das vilas até as gourmets, com cerveja que não é de milho, sinuca, muita caveira, machados e rock clássico. Esse conhecimento empírico sobre um espectro tão variado me permite reparar em algumas características típicas destas casas.

            A última barbearia em que fui, pela terceira e certamente derradeira vez, continha boa parte dos clichês clássicos desse ambiente cabelo/barba/tesoura/navalha.

            Antes de tudo, é preciso ter uma TV. Preferencialmente sintonizada no pior programa possível para aquela faixa horária. Neste quesito o estabelecimento não decepcionou: lá estava o Vídeo Show em HD. Check!

            Havia dois barbeiros atendendo, o proprietário e seu funcionário, e um cliente na espera. Ótimo, saquei meus fones de ouvido e por enquanto estaria livre da previsão do tempo e de comentários cotidianos. Foi quando uma possibilidade que eu não tinha previsto me perturbou, o segundo turno das eleições tinham sido há menos de duas semanas e o assunto seria inevitável.

            Minhas esperanças estavam no funcionário, o barbeiro mais novo. Na última vez em que estive lá, fui atendido por ele (mal abriu a boca, homem de poucas palavras, concentrava-se plenamente no ofício). Foram alguns minutos de tensão, mas o melhor aconteceu, o barbeiro mais experiente terminou com o seu cliente e chamou o que estava na espera. Aliviado, até tirei os fones de ouvido.

            Logo em seguida o rapaz me chamou. Como vai ser, senhor? A desejar, como sempre! Pensei. Enquanto ele seguia minhas instruções meticulosamente (não sabia se era esmero ou medo paralisante de errar), reparei em algo inédito na cadeira ao lado. O cliente não parava de falar um segundo sequer e enquanto o barbeiro ainda cortava seu cabelo não havia problema, mas quando ele reclinou a cadeira e partiu pro corte da barba, a cena ficou estranha. O homem da tesoura tentava de todas as formas encontrar alguma brecha no assunto pra poder enfim atacar o bigode do palestrante. Lutou bravamente, mas não conseguiu, teve que ouvir o discurso até o fim. É verdade, juro, vi a cena sob dois ângulos, pelo canto do olho esquerdo e pelo reflexo do espelho. O homem confundiu a cadeira do barbeiro com um divã.

            Nesse ínterim, o jovem fígaro eliminava sem dó meus já rarefeitos cabelos do topo da cabeça. Desse ponto em diante pouca coisa pra destacar. Muita tesoura, espuma, pente e enfim aquele espelhinho mostrando como havia ficado o corte por de trás da cabeça.

            Paguei o serviço, agradeci ao rapaz que respondeu com um “volte sempre”. Aproveitei uma lacuna deixada pela necessidade de respirar do cliente ao lado e me despedi dele e do pobre barbeiro. Saí pela calçada faceiro, bem-apessoado e insatisfeito.

           

O Sebo

            Depois do almoço eu e a Dani sempre ficamos batendo perna. Olhando as vitrines. Ela fumando e eu tomando sorvete. Ali perto do mercado tinha uma máquina daquelas antigas. Eu chupava aquele sorvete mais pela beleza que pelo gosto. Pela lembrança, acho. Quando era pequena meus pais sempre compravam. Eu adoro o formato de sorvete de máquina e a pazinha de madeira. No final do ano passado a gente tava fazendo o de sempre quando caiu uma tempestade. A chuva veio com tudo. Tantas lojas pra entrar e a gente se abrigou num sebo. Eu soube depois. Nunca tinha visto o lugar. E até hoje não sei porque esses lugares se chamam sebo.

            Eu achava que era uma mistura de loja de móveis usados com banca de jornal. Errei feio. Eram cinco enormes estantes que formavam quatro corredores. Cheios de livros e revistas. Lá no fundo da loja tinha a parte de música. Discos, fitas e CDs. Era um espaço grande, mas tinha umas dez pessoas só. Metade acho que tinha entrado pra se esconder da chuva também. Mas o que me marcou mesmo foi o cheiro. Tinha cheiro de mofo. Eu gostei. Era estranho. Era confortável. As pessoas que estavam lá também me chamavam atenção. Gente quieta. Diferente.

            Que povo esquisito! Eu gostei. A Dani nem escutou. Já estava lá no fundo vendo uns CDs. Eu entrei no primeiro corredor. Literatura brasileira. Muitos livros. Quando escuto literatura é o que me vem na cabeça. Sei que não é isso que quer dizer, mas prefiro assim. Acho até que biblioteca devia se chamar literatura. Quero montar uma pequena literatura na minha casa. Fui reconhecendo alguns nomes que vi na escola. Muito bem organizados. Em ordem alfabética. E de todo tipo. Capas rasgadas. Capas duras. Inteiros e escafiotados. Mas o preço era sempre bom.  Alguns eram três, quatro reais. Imagine! Pensei, que bom pra quem gosta né?

            Parei em frente aos contos. Contos! Eu deveria usar isso quando falo sobre os livros que leio. São livros de contos! Não histórias. Parei ali e fiquei fuçando. Julgando todos pela capa. Até que achei um escrito: O tempo do avesso. Estava judiado o coitado. Mas que nome legal. Não era tão grosso. E só 5 reais. É meu. Fui procurar a Dani lá no fundo. E enquanto ia, fui percebendo o jeito de quem estava ali. Pareciam estar ciscando. Dava a impressão que estavam procurando alguma coisa. Mas que só saberiam o que era quando achassem. Povo esquisito mesmo, Dani.

            Ela já tinha largado dos CDs, estava lá com as revistas velhas. Estava pasma com o jeito que não sei quem lá envelheceu, ou como aquele fulano lá era. Já estava na hora de voltar pro mercado. A Dani soltou a revista como quem solta fruta estragada. E a gente foi pro caixa pagar meu livro. O homem do caixa estava desconfortável conversando com um rapaz. Esses livros não me interessam. Ninguém compra. O rapaz enfiou os livros numa sacola e saiu. Tive uma sensação ruim.

            O homem me pediu desculpas pela demora e o telefone tocou. Ele puxou pela camiseta um menino que tinha acabado de entrar na loja. Parecia estar voltando do almoço. Atende elas aí pra mim. E foi para o telefone. O menino pendurou o crachá com o lado do nome pra dentro, olhou pra gente e sorriu. O sorriso dele era como a frase da capa do livro. Eu gostei quase sem saber porque. Pegou o meu livro. Disse que já tinha lido. Que era bom e que custava cinco reais. Sem leitora de códigos de barras, sem estresse. Paguei e ele colocou numa sacolinha. Respondi, obrigada. Por nada, Kelly. Volte Sempre. Olhei pro peito. Droga! Tinha ido almoçar de crachá. Tchau! E você nem pra me avisar, hein Dani? Falei sozinha. Ela já estava lá no meio da calçada me apontando o relógio.

 

Coletivo

E aí, fechou? Fechou nada, foi pra quebra de caixa. A quebra de caixa é um valor que recebemos a mais que os outros funcionários porque mexemos com dinheiro. Quando dá furo e a gente não quer conferir de novo, deixamos na conta desse “bônus”, só não dá pra exagerar.

Caminhando pro ponto a Dani não para de falar sobre o mercado. Eu até entendo, porque ela não tem também muito de outra coisa pra falar. Ela tá namorando já há uns meses e não tem muita novidade fora do trabalho. Digo isso porque quando ela era solteira não parava de falar dos caras que conhecia, só citava o mercado quando ficava com alguém de lá de dentro. Não sei explicar bem. É que eu quando passo por aquela porta de ferro desligo daquele lugar. Não quero nem saber mais. O ponto não tá vazio. Que bom. Uma menina e um senhor que sempre pegam meu ônibus. Ele sempre me cumprimenta. Ela não. Sempre com aqueles fones de ouvido. Parece que deixam ela cega.

Até amanhã, Dani. Subimos os três. Sempre que isso acontece eu fico com cuidado. O ônibus dela passa logo depois do meu. Mas nunca se sabe o que pode acontecer, né? Quase não tem lugar pra sentar no ônibus. Escolho o banco de dois que vem logo depois do cobrador. A menina do fone de ouvido senta junto. Abro a bolsa e pego meu livro. Se eu demorar um pouco o cobrador puxa conversa. Eu conheço o tipo.

Estou lendo um conjunto de histórias curtinhas. Na verdade, é só o que eu leio. Eu gosto porque dá pra prestar mais atenção nos detalhes. E também porque é como se eu lesse vários livros de uma vez só. Todas as histórias acontecem em uma cidade que não parece muito maior que a minha não. Falam de gente solitária ou que quer ser solitária. Um veio pra cidade maior pra estudar e largou tudo pra virar feirante. A outra lá separou do marido e saiu pro mundo. Não conheço os autores. Mas se for história de gente assim, eu compro. No sebo. É barato e aquele ambiente de velharia me agrada mais que as bibliotecas e livraria de shopping. Lugar que só tem universitário intelectual.

Paro de ler porque já estou quase dormindo. Ler no ônibus de noite não dá. Eu não duro muito. Passo vergonha dando aquelas pescadas com a cabeça. Na verdade, ninguém tá nem aí. O cobrador pegou pra cristo uma moça que ficou na roleta. E a menina aqui do fone de ouvido então, sabe-se lá onde tá. Mas mesmo assim tenho vergonha. Porque eu reparo mesmo. De uns tempos pra cá essa é minha distração. Quando é de dia é melhor. Os óculos escuros deixam eu reparar melhor sem parecer estar querendo alguma coisa. Reparo na roupa, no cabelo, e no que tem na mão. Se tá com cara de alegria ou de desgraça.

Mas daqui não consigo ver muita gente. Só a moça da roleta mesmo. Coitada. O cobrador tá jogando todo o charme dele de boy de vila. Mas ela gosta. Dá pra perceber pelas risadinhas. E claro, ela parou ali porque gostou do papo. Ou foi por causa das sacolas? Quando percebi já estava passando do meu ponto. Levantei rápido e puxei a campainha. O motorista freou forte. Só ficou parada a roleta. A moça e as sacolas voaram. Desci do ônibus e de canto de olho só deu pra ver um sorriso na boca da menina do fone de ouvido.

Série Reencontro

No mês passado, participei da 37ª Semana Literária, promovida pelo Sesc-PR. Na mesa de abertura do evento, dois escritores falaram sobre como foram suas primeiras experiências com livros. Um deles contou que seu pai era representante de vendas da editora Ática e que seu contato com os livros se deu através da série infanto-juvenil Vaga-Lume. O outro, por sua vez, disse que o primeiro livro que tem memória de ter lido foi o clássico Robinson Crusoé, do autor inglês Daniel Defoe.

O curioso foi que o testemunho dos escritores – ambos são poucos anos mais velhos que eu – lembra muito os meus primeiros contatos com a literatura.

Por volta dos meus 10, 11 anos o sucesso da Série Vaga-Lume era enorme. Qualquer criança da época, mesmo que não tivesse o mínimo interesse por livros, sabia da existência daquelas obras. Eram histórias escritas por autores brasileiros contemporâneos que, na maioria das vezes, escreviam enredos sobre investigações, mistérios e aventuras.

Lembro-me que os títulos chamavam muita a atenção. “O Escaravelho do Diabo”, por exemplo, eu não sabia o que era escaravelho, mas só o fato dele pertencer ao pé redondo já me mantinha longe daquela história. Outros livros eu li; “A serra dos meninos”, “O mistério das 5 estrelas”, “O rapto do garoto de ouro”, “Tonico e carniça”.

Entre os autores, destaque para Lúcia Machado de Almeida e Marçal Aquino, que mais tarde seria também reconhecido como grande roteirista do cinema nacional. Mais tarde, descobri que um dos meus escritores preferidos havia participado da série, Edmundo Nonato, nome de batismo de Marcos Rey, autor de clássicos da literatura brasileira, como “O enterro da cafetina” e “ Esta noite ou nunca”.

Diferente de muita gente da época, meu período de leitor da coleção Vaga-lume foi curto. Em uma das visitas à biblioteca da escola, emprestei sem muita pretensão o livro  “El Cid – O herói da Espanha”. Li os feitos do cavaleiro de um dia para o outro e fiquei fascinado. Fui à procura de mais livros como aquele e descobri que ele fazia parte da Série Reencontro. Uma coleção de adaptações de grandes clássicos da literatura mundial, lançada pela Editora Scipione.

Autores como Ana Maria Machado, Paulo Mendes Campos, Caros Heitor Cony e Rubem Braga eram responsáveis por traduzir e adaptar títulos como “As viagens de Gulliver”, “Sonho de uma noite de Verão”, “Ivanhoé”, “As minhas do Rei Salomão”, “Os Inocentes”, “Moby Dick”. Claro que na época eu não tinha a menor ideia de quem eram aqueles nomes nas capas, e também ainda não tinha interesse, o que me fascinava era a variedade de histórias que aquela coleção oferecia.

Hoje, vendo as capas aqui no Google, percebo que li muito mais títulos de que tinha memória. Mas a experiência de leitura de dois deles me marcou muito, “Dom Quixote” e “As Mil e Uma Noites”.

A alcunha de “Cavaleiro da Triste Figura” é exata para mim. Dom Quixote é um livro triste. E na minha cabeça de 11 anos, aquele personagem meio sonhador, meio maluco era vítima de muita injustiça, eu detestei todo mundo daquele mundo. E as analogias que li e escutei durante toda a vida em relação aos que vivem lutando contra “moinhos de vento” só aumentaram essa percepção pré-adolescente.

Ler “As Mil e uma Noites” é ler dezenas de histórias ao mesmo tempo, e naquela época foi uma descoberta incrível. Contos dentro de contos em vários níveis – quando assisti “Inception” muitos anos depois, foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Melhor ainda foi descobrir que as aventuras de personagens como Aladim e Simbad eram parte das narrativas de Sherazade.

Não tenho dúvida que ter lido esses clássicos teve importância enorme na minha formação como leitor. São memórias que guardo como carinho e que, como nem tudo são flores, me trazem até lembranças constrangedoras, como todas as vezes que disse que havia lido “As mil e uma Noites” de cabo a rabo, surpreendendo os mais crédulos e desconsiderando a diferença entre as mais de 5.000 páginas do original e da minha querida adaptação da Série reencontro.

 

Sobre gomas

Na minha frente, na fila do caixa tem um senhor. Ele pede vinte reais em chicletes. Goma, disse ele. Antes ainda de eu me espantar, ele olha e diz que nenhuma é para mim e que não adiantava nem pedir. Monto minha cara de resignação e procuro não dar nenhum tipo de procedimento à situação. Ele toma a sacola com as compras, junta as gomas com as duas mãos, guarda no bolso do casaco e vai embora.

O rapaz do caixa do mercado não corresponde a minha expressão curiosa imediatamente. Penso em insistir, perguntar se o homem costuma comprar aquela quantia de gomas, mas quase que de imediato desisto. Esse menino não está nem aí para o que as pessoas compram ou deixam de comprar. Ledo engano. Toda segunda-feira é isso, solta o garoto enquanto separa o meu troco. Pergunto se ele conhece a figura, responde que não, mas que está sempre andado por aí, sempre de cabeça baixa.

Pego minhas coisas e saio. Já na esquina vejo a mesma figura andando lentamente pela calçada. Em alguns segundos eu o alcanço, e, ao ultrapassá-lo, procuro um contato visual, algum tipo de olhar cúmplice, em respeito aos nossos “laços” recém-criados. Na verdade, um pouco arrependido por não ter interagido ainda no mercado com sua tentativa de brincadeira (?).

Ele não olha para mim, talvez por um provável problema na coluna, tem o andar lento e o corpo arcado, muito arcado, a ponto de mal tirar os olhos do chão. Passo por ele e ouço: trabalhei 30 anos numa fábrica de gomas. Olho em volta e por óbvio critério de eliminação concluo que a frase é para mim.

Volto um pouco e o acompanho no seu ritmo. E antes de eu responder a sua frase ele continua. Diz que foi empregado de uma fábrica que ficava ali perto, era grande, tinha muitos funcionários, era um trabalho digno que o sustentou por toda a vida. O salário era justo e podia mascar quantas gomas quisesse. Hábito esse que traz até hoje, ao contrário de seus dentes originais, que não aguentaram as décadas de trabalho insalubre.

Enquanto falava, em momento algum me olhou, manteve os olhos fixos no chão. Passei a observar a calçada também. O olhar do velho varria o passeio de forma que não parecia estar apenas concentrado em seguir seu caminho. Perguntei se ele sentia saudades de trabalhar na fábrica, e se comprar aquele número de gomas, além de hábito, era uma maneira de lembrar os velhos tempos. Me ignorou calado.

Poucos passos lentos depois ele quebra o silêncio, não consigo dizer quantas gomas eu masquei na vida, mas te garanto que nunca joguei uma sequer no chão. Foi quando me dei conta da situação da calçada em que andávamos. Centenas de gomas descartadas pavimentavam o cimento do nosso caminho. Daquele ponto, e durante os poucos metros que faltavam para terminar a quadra, andamos juntos e mudos. Ele agora com o olhar menos agitado e eu ainda mais pensativo.

Chegamos à esquina da minha casa. Vou por aqui, eu falo. Ele despede-se ainda sem nenhum contato visual, mas com o braço direito estendido. Na palma enrugada da mão uma goma de tutti-frutti.

 

Palavrárias

Você tem cinco minutinhos pra ouvir a palavra? Quero dizer, você tem cinco minutinhos pra ler a palavra da palavra? Sim, querida leitora e querido leitor. A palavra salva, principalmente se, estando ao lado de suas outras colegas, for bem compreendida. Mas e a palavra por si só, como obra social onipresente nas nossas vidas, você já reparou? A palavra tem poder, e melhor ainda, ela tem beleza.

Já iniciemos deixando de lado aqui a conotação de palavra como sendo texto evangelizador. Quero falar da palavra terrena. Pecadora, latina vulgar, portuguesa, brasileira.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa indica que “palavra” tem origem no latim “parabŏla", empréstimo do grego “parabolé”, significa “comparação”. Nossa musa nos permite nomear nosso mundo e nossa vida. Mas não é raro prestarmos mais atenção a o que nomeamos do que a ela. Geralmente ao nos tornarmos adultos, juntamente com outros encantamentos, deixamos de lado essa ligação com o porquê do nome das coisas. Na minha infância, havia dias que eu acordava e pensava, por que ‘hoje” chame-se “hoje”? Porque não “caixa” ou “jogral”? Sempre achei que “jogral” seria melhor.

É isso, preste atenção às palavras, elas têm força. Nunca deixe uma passar por você sem que antes saiba seu significado. O escritor Alberto Mussa em seu “Decálogo de leitor” alerta a o que inúmeros professores de português vêm dizendo por décadas; nunca leia sem um dicionário por perto. As palavras não estão onde estão à toa. Se imaginarmos a palavra “texto” como sua etimologia sugere, ou seja, algo construído, então não é de se surpreender que uma palavra mal assentada comprometa toda a parede.

A força da palavra também vem da capacidade de carregar na sua origem preconceitos históricos e sociais, além de ofender e desqualificar determinados gêneros, termos incompatíveis com a sociedade contemporânea. Infelizmente nesse quesito a atenção à palavra está muito longe de existir. Pelo contrário, há quem faça questão de não abandoná-las. É isso mesmo, não se engane, palavras são abandonadas, nascem, morrem, vão e voltam.

E a graça da palavra? Como tudo que se refere ao belo, aqui também se aplica: a beleza está nos olhos de quem lê. Embora muito do gosto que se tem por certas palavras venha também da sua pronúncia, temos nossas preferidas, as mimadas e bem guardadas, as prazerosas. Aqui aproveito para expor o uso equivocado, a meu ver, do termo “palavrão” como xingamento. Deveria se referir às palavras bonitas, sensuais: “lânguida”, baita palavrão hein? “Malemolência”, uau! Como dizia o Leminski, tesão de palavra.

Há também a palavrinha. O ‘nh’ que pode transformar uma palavra em carinho ou desprezo. Poeta, por exemplo. Antes de Vinícius de Moraes, “poetinha” possuía outra conotação. Hoje é no mínimo um agrado.

Só que de nada adianta só reparar nas palavras. É preciso usá-las, se expressar. Saramago dizia que se a gente não expressar o que sente, o sentimento acaba desaparecendo. Pois ao contrário do que significam e representam, as palavras belas ou feias, grandes ou pequenas, só existem quando as escrevemos ou dizemos.

As pombas e o tuim

 

Um casal de pombas fez lar na garagem da casa dos meus pais. Estacionaram sobre um varal de roupas em forma de sanfona que minha mãe instalou no fim do cômodo. E em meio a trapos e capas velhas de acento de caminhão, as aves construíram seu ninho.

Descobri no susto quando precisei daqueles trapos pra uma tarefa qualquer.  Fui lá mexer e uma pomba me fuzilou com aquele olhar marrom de quem mais teme que assusta.

            - Tem um ninho de pombas lá na garagem, mãe.

            - Eu sei. Não vai assustar os bichos.

Grande descoberta a minha. Ainda assim precisava dos panos. Com cuidado, violei o espaço da hóspede e arranquei um pelego vermelho de lá de cima.

Daí em diante, sempre conferia como andava o desenvolvimento do residencial. Volta e meia flagrava um graveto caído aqui, outro de pendurado acolá. O empreendimento parecia crescer apesar dos desperdícios.

Temia, a cada vez que estacionava o carro, cometer uma chacina familiar. Jovem família de aves é encontrada morta em garagem na Santa Paula. Motivo: asfixia por monóxido de carbono. Mas o Google me alertou que esses acidentes só ocorrem em lugares completamente fechados. O que não é o caso daquela garagem.

Duas coisas me despertavam a curiosidade: quando veria as duas pombas juntas e quantos seriam os herdeiros. Pesquisei a relação da espécie nessa rotina de gerar novas vidas, conseguir o ganha pão e ainda preocupar-se com a construção do próprio teto. Funciona assim, pombos são monogâmicos, uma vez escolhido, o parceiro é pro resto da vida, após construído o ninho e botados os ovos – variam de um a dois – o casal reveza na tarefa de incubação. Entre 17 e 19 dias, pronto, crianças na casa!

Até que em dois dias seguidos minha curiosidade foi sanada. Em uma manhã de descuido do casal, flagrei dois ovos minúsculos no ninho, olhei em volta e desci da cadeira rapidamente pra não ser flagrado em tamanha falta de privacidade. Na tarde do dia seguinte, enfim, pude conhecer a família completa em seu novo lar, lá estavam as pombas e os ovinhos desfrutando da vista pro quintal, conforme enalteceram os corretores.

Naqueles dias, li a crônica “História triste de mim”, na qual Rubem Braga conta uma história de sua infância. Passando férias no interior, ele recolhe de um ninho de joão de barro um filhote de tuim – espécie bem pequena de periquito. Adota o passarinho, cuida, perde e reencontra algumas vezes. Até que, já de volta à cidade, numa triste tarde, vê pistas de penas, sangue no chão e a sombra de um gato ruivo no muro. Adeus Tuim.

Lamentei o triste fim do periquitinho e lembrei dos pombos da garagem da minha mãe. “Dá crônica com certeza”, pensei. Na visita seguinte à casa dela, levei o notebook pra dar uma última olhada nas aves e escrever o texto ali mesmo.

Ao chegar, entre uma conversa e outra, minha mãe pediu pra eu ver algo que tinha aparecido no chão da garagem naquela manhã. Lá estava uma pequena e reveladora mancha de sangue.

- Ficou alguma coisa no ninho. Perguntei.

- Nada, nem penas.

Corri os olhos pros muros do quintal. Nada de gato ruivo também.

Poesia, letra e música

Semana passada, eu ouvi uma prova das músicas que farão parte do primeiro trabalho gravado da banda ponta-grossense A Coisa.  Nesse primeiro disco, há poemas meus que foram musicados e algumas letras que criamos juntos. Nossa parceria já rendeu um primeiro lugar no FUC regional e a terceira colocação na etapa nacional do mesmo festival, em 2013. Tanto os prêmios quanto a participação no trabalho de estreia d’A Coisa, além de trazerem muito orgulho, lembram também o motivo pelo qual eu comecei a escrever: a música.

Não sei tocar nenhum instrumento musical. Já tentei e percebi que não tenho jeito e muito menos disciplina para me dedicar ao estudo que a atividade exige. E pra quem sempre foi apaixonado por música, essa incapacidade era muito decepcionante. Foi então que passei a escrever letras de canções pra uma suposta banda que, quem sabe um dia, as aproveitasse.

Desde pequeno tive facilidade na lida com palavras, e na minha adolescência essas “letras” foram a forma de registrar esse momento estranho e repleto de dúvidas. Escrevia uma, duas, três, quatro por dia. Às vezes até arriscava criar melodias pra elas, mas logo me dava conta da total incompetência pra tarefa. No início, escrevia e as escondia do mundo em caixas de sapato. Depois de um tempo, passei a mostrar pra dois amigos antes de guardá-las pra posteridade.

À época, poesia pra mim era algo tão longínquo e sem identificação quanto os temas e os autores que via nos livros didáticos. Já a música tinha um poder de reconhecimento e pertencimento incomparável. Naquela idade eu ouvia basicamente rock brasileiro dos anos 80 e 90 e todos os temas que os artistas dessas décadas trataram me despertavam interesse.

E assim segui até meu grande amigo Jessé Vandoski, hoje vocalista d’A Coisa, me apresentar à biografia do poeta Paulo Leminski, escrita pelo jornalista Toninho Vaz. Foi a amor à primeira lida. A tal identificação nunca encontrada na poesia aprendida na escola estava quem cada página de “O bandido que sabia latim”. O poeta era curitibano, escrevia poemas curtos, brincava com ditados populares, usava e abusava das rimas, abordava temas próximos a mim e, principalmente, escrevia letras e compunha músicas.

Eu, que até então só via ligação de poesia e música quando tratavam Renato Russo e Cazuza como poetas do rock dos anos 80, me deparei com um mundo novo de inúmeras conexões entre as duas artes. Leminski foi parceiro de nomes consagrados da música brasileira, de Moraes Moreira a Ivo Rodrigues, do rock à MPB. Claro que o livro abordava em sua maior parte a verve literária do escritor paranaense, principalmente a poesia, isso me atingiu em cheio e pela primeira vez na vida passei a considerar os textos que escrevia como poemas, não mais “letras de música”.

Com o passar do tempo, descobri a vasta relação da música brasileira com a literatura, particularmente com a poesia. Motivo também de polêmicas, como a de que se pode considerar ou não os letristas como poetas, ou, letras como poemas. Ao mesmo tempo, descobri o prazer de ler poesia e de conhecer outros autores. Envelhecer e passar a ter diferentes interesses também ajudou nas descobertas literárias e poéticas que se seguiram.

Quando lancei meu primeiro livro, aquele sonho de ouvir meus versos escritos virarem canções e serem cantados por alguém aconteceu. Teve início minha parceria com A Coisa e desde então outras bandas e cantores também musicaram poemas de minha autoria. As “letras” daquela época de compositor adolescente ainda existem, guardadas não mais nas mesmas caixas, mas em outros suportes que mantêm as folhas em bom estado e o mundo preservado do seu conteúdo.