Vida Crônica
Ameixeira

Minha melhor amiga de infância foi uma ameixeira. Amiga enorme. Devia ter uns 10 metros, mas na época parecia ter mais 30. Ela era - ou ainda é? - uma ameixeira de “ameixa amarela” - embora eu acredite que é a outra ameixa que merece a distinção pela cor, a vermelha. No quintal-pomar da minha infância, ela ficava soberana no centro. Em volta dela tinha também macieira, goiabeira, mangueira (mangueirinha), limoeiro, araçazeiro, além do galinheiro e do poço. A ameixeira era uma moça, eu uma criança e ele um senhor quintal.

Conhecia cada palmo do terreno e da ameixeira cada galho. Sabia de cor em quais pisar e em poucos segundos de subida já estava na copa. Trepar em árvores era uma habilidade muito prestigiada na infância de um menino, e eu treinava diariamente, por horas, na minha ameixeira.

Tinha vários lugares em cima dela. Galhos grossos que sustentávam com facilidade os corpos franzinos da criançada. Mas bem no centro da árvore, um prolongamento do tronco dividia- se em três outros galhos, ali era meu canto preferido. Lugar que ficava o capitão da nave quando viajávamos pelo espaço ou o cérebro do robô gigante que vez em quando salvava a cidade. Essa posição especial era minha menos por prestígio do que pelo fato da árvore estar no meu quintal.

Mas minha relação com a ameixeira amadurecia mesmo, quando ficávamos a sós. Brincar sozinho sempre me pareceu mais divertido, talvez algumas vezes por falta de opção, outras por escolha própria, o fato é que ficar sozinho naquele quintal enorme me atiçava a imaginação. E lá estava sempre brincando, com as mãos sujas de terra ou lambuzadas de ameixa.

Chorão que sempre fui, derramei lágrimas e lágrimas na ameixeira, sentado sob a sua sombra, em cima dela, em todos os cantos. Todo choro das coças que levava por ter aprontado alguma coisa acabava nela. Às vezes a choradeira tinha início ali mesmo no chão, abraçado aos seus galhos mais fracos. Tombos decorrentes de quando me desafiava a tocar suas folhas mais distantes.

Menor ela foi ficando à medida que cresci. A rua passou a ser mais atrativa e a ameixeira se tornou só mais uma árvore das que existiam atrás da minha casa. Meus pais mudaram-se, nunca mais voltei lá. E hoje quando às vezes divago sobre o passado e imagino que versões nossas continuam vivendo seus momentos pela eternidade, a imagem do menino encostado no tronco chupando ameixa é de longe a mais bonita.

 

Agente de trânsito

- oi, me veja um bloco de meia hora.

- são seis reais.

- quem é ele, mãe?

- é o guardinha da zona azul.

- agente de trânsito, senhora.

- isso, ele é agente de trânsito, e o trabalho deles é verificar se os carros estão estacionados de maneira correta.

- ah entendi, o moço cuida do carro da gente?

- não, nós verificamos se os veículos estão estacionados de maneira correta, senão a gente multa.

- mas isso não é cuidar, moço?

- não, cada dono cuida do seu carro.

- não entendi, mãe.

- é assim: a mãe só pode deixar o carro pelo tempo que ela pagou.

- entendi, e quando dá o tempo o guardinha avisa?

- agente, garoto.

- por favor, Gabriel.

- oi, mãe.

- não, filho, é pro agente te chamar pelo teu nome, e sobre o estacionamento, quando acaba o nosso tempo a gente tem que tirar o carro.

- e ele leva o carro pra polícia?

- ele quem?

- o agente, mãe!

- não, nós tiramos o carro, o guardinha só multa se ele estiver lá depois do tempo.

-agente, senhora, por favor.

- olha aí, mãe, ele multa com mais gente.

- multa sozinho, filho.

- entendi, a gente paga pro guardinha ficar esperando a gente voltar e se a gente não voltar ele multa o carro sozinho?

- agente de trânsito, garoto!

- Gabriel, agente! E Gabriel, é agente que fala.

- tá, a gente paga o guardinha pra cuidar do carro por um tempo e se a gente voltar depois do horário é a gente mesmo que avisa o guardinha pra multar.

- não, garoto, mas que coisa, é agente!

- Gabriel, guardinha!

- agente, santa mãe de Deus!

- é Maria, guardinha, o nome da minha mãe é Ma-ri-a de Deus.

 

13/02/2019

Entrega a domicílio

Terminou de embrulhar o livro com pressa. Atrás queria escrever apenas “eu”, ideia que imediatamente pareceu infantil e que, pior ainda, poderia fazer o pacote voltar – pelo menos é alguma coisa que volta, pensou resignado - rabiscou o nome, o novo endereço, conferiu o CEP e saiu para rua.

Nos correios, aguardando a vez para ser atendido, pensou mil vezes no porquê do envio. Ela talvez jogaria o pacote num canto, inconveniente como um boleto, mas sem data de vencimento, guardaria espaço e juntaria pó. Metáfora daqueles dias finais. Mas ainda dava tempo, podia jogar fora, podia doar, podia vender por míseros reais em um sebo qualquer. Não destacaria a dedicatória, tão pessoal e nascida a fórceps, deixaria que fosse lida por um estranho e depois ignorada, exilada em um canto de estante qualquer, ou ainda, seria exposta à leitura pública. O leitor mostraria a todos os seus próximos o teor dramático daquelas linhas. Ririam.

Voltou do devaneio quando uma senhora lhe pediu passagem para sentar. Temeu estar pensando em voz alta. Retomou o raciocínio. Era preciso enviar, o exorcismo só estaria completo se o espectro fosse entregue a domicilio. Girava o pacote com as mãos de forma que os nomes do remetente e destinatário se entrelaçassem. A simples ilusão de ótica o fez cogitar entregar envelope ele mesmo. Sem avisar, tocaria o interfone, se anunciaria, ela o convidaria pra entrar, esse mentiria um compromisso atrasado, se abraçariam e ele seguiria pela velha calçada de sempre, mas com um novo andar. Resolvido.

O som do painel da senha de atendimento parecia cada vez mais frequente, unidade por unidade aumentando a ansiedade e descontruindo a coragem de uma conversa cara a cara. Chegou a levantar decidido a ir pra casa, mas em pé desistiu, por dois segundos estagnou-se. Foi o número 86 piscando em vermelho que decidiu por ele.

Ao entregar o pacote, sentiu-se livre, esvaziado. As reações agora seriam do lado lá – boa leitura, querida. A simpática atendente dos correios ao ver que a cidade do destinatário e do remetente coincidiam, indagou neutra e profissionalmente:

– Será que não vale a pena entregar pessoalmente?

Sorriu nervoso, arrancou o embrulho das mãos da funcionária e seguiu por aquelas calçadas desconhecidas com o andar de sempre.

Mudanças que não mudam

No início dos anos 90 em frente à TV, eu achava que deveria ser muito legal mudar-se de casa. A empresa de transportes Granero patrocinava alguns programas no SBT e as propagandas funcionavam muito bem comigo. Todos aqueles funcionários encaixotando com todo cuidado os pertences dos clientes e acomodando os móveis em enormes caminhões me parecia a coisa mais divertida do mundo.

Obviamente que, além de ser uma criança deslumbrada e obediente à TV, eu nunca tinha passado por uma mudança. Não que eu lembrasse. Na verdade, meus pais já tinham trocado de casa algumas vezes, mas eu não tinha idade suficiente para ter ideia de quanto o procedimento é complexo, mas logo logo teria.

Meus pais realizaram o sonho da casa própria. E eu, enfim, teria a oportunidade de realizar o meu: ter uma mudança assim como via na TV. Doce e publicitária ilusão.

Primeiro que quando se é criança, mudar-se não significa apenas trocar de um endereço para outro. Você vai ter que deixar para trás todos os seus amigos, da escola e da rua. E nessa fase, isso é praticamente o fim do mundo. Outro golpe de realidade é perceber que não é toda mudança que é feita por profissionais uniformizados do transporte. Aliás, até hoje eu nunca vi uma como aquelas da TV.

Meu pai conseguiu um caminhão emprestado ou alugado, chamou alguns parentes e amigos e a equipe estava montada. Fiquei responsável por guardar minhas coisas, entenda-se brinquedos, em duas caixas de papelão. Trabalho hercúleo, já que a minha atenção se dissipava ao ver os adultos desmontarem e carregarem todos aqueles móveis pesados. Ao mesmo tempo, queria terminar de uma vez minha parte, subir no caminhão e ir lá em cima numa das viagens para a casa nova. Infelizmente só consegui embarcar na derradeiro itinerário. Abraçado nas minhas caixas, em meio a colchões e gavetas, fui embora balançando e me despedindo da casa antiga. Lembro do sentimento de estar totalmente exposto com as nossas coisas todas a vista curiosa dos nossos, àquela altura, antigos vizinhos.

Lembranças da infância carregadas de impressões ingênuas que escondem o nível de empenho que é mudar-se quando você é o adulto.

Desde que passei a morar sozinho, mudei-me três vezes. A última foi há algumas semanas. O perrengue é sempre o mesmo. Tudo começa com o desfecho da relação com a temida e implacável imobiliária. Sempre fiz questão de só por os pés em tal estabelecimento quando fosse de extrema necessidade. Sempre me incomodou a sensação de ouvir a marcha imperial ao entrar nesses lugares.

Centenas de reais mais pobre e outra centena de fios de cabelos mais calvo, a gente parte para a montagem da equipe de trabalho. Neste momento, é importante ter um bom portfólio de participação em mudanças alheias. A reciprocidade nesses casos é sagrada.

O próximo passo é sair à caça de caixas, sacos e toda sorte de coisas nas quais caibam outras coisas. Nessa etapa é essencial o mínimo de organização para que o caos não reine mais do que o normal nos dias seguintes à mudança.

Então, eis que chega a hora de transportar tudo. Seja de camionete, caminhão ou carrinho de mão, para mim essa é a parte mais tensa. Torcer contra a chuva, descobrir a falta que faz saber dar um nó decente. Usar toda a técnica acumulada de anos jogando Tétris para que tudo caiba no mínimo espaço possível. Depois de algumas viagens, se você não deixou nada pelo caminho, a mudança está quase concluída.

Quase, porque na moradia nova você ainda levará dias confundindo a geladeira com o fogão e procurando aquele fone de ouvido dentro do cesto do banheiro. Vai abominar por algumas semanas caixas de papelão, vai descobrir que elas se reproduzem e adoram morar nos cantos das casas. Agora mesmo uma dessas olha pra mim, descontraída, ri exibindo sua linda etiqueta branca com a palavra “coisas’.

O balcão

É uma entidade. É o bar dentro do bar. É a saudosa geral do Maracanã. É democrático. Acima de tudo, o lugar para quem gosta da boemia e, algumas vezes, da solidão. Na biosfera do boteco, o balcão é o lugar dos fortes. De homens e mulheres de cotovelos fortes. Sua origem, ainda não cientificamente comprovada, provavelmente ocorreu no momento em que algum dos nossos ancestrais apoiou-se em uma rocha ou árvore caída ao beber seu copo de grão fermentado. É isso, o balcão é apoio em seus mais diversos sentidos.

Quem se dispõe a sentar-se dando as costas para o interior do estabelecimento, sem dúvida, merece atenção. Quase nada importa além daquele naco de espaço-tempo pós-expediente. A conversa rala com o balconista, o cara a cara com as cúmplices garrafas nas prateleiras. A contemplação das já íntimas imperfeições da madeira. O apoio dos cotovelos para o impulso do entendimento.

Bem verdade que atualmente o bioma do balcão tem sido drasticamente afetado pelo advento dos smartphones. A tecnologia predadora tem monopolizado a atenção do reservado bebedor. Fazendo-o ignorar a diversidade e a beleza da paisagem “balcaniana”.

– Vai pra mesa! Pregam os detratores mais radicais da companhia de bolso.

Mas há dias em que o parceiro digital não basta e o “balconeiro” quer calor humano. Um regalo de conversa tête-à-tête contra as injustiças da vida. Quer uma experiência antropológica. Visto que uma vez acomodado no balcão, você nunca vai saber quem entrará pela porta e sentará ao seu lado. A soma da aleatoriedade e do álcool já gerou amizades eternas e discussões homéricas. Os temas mais caros à humanidade já desfilaram de ponta a ponta de um balcão.

E a relação humana mais sincera e unilateral foi destilada no móvel mais importante do bar: o bebedor e seu garçom. A verborragia do boêmio e as reações monossilábicas do barman são matéria-prima pra qualquer análise de discurso. Lutos, vitórias, traições, tragédias, saudades, reviravoltas, retornos, comemorações, dúvidas, toda a infinidade de emoções já sentidas é narrada entres as vírgulas de um trago e outro num balcão.

Já do ponto de vista privilegiado de quem está atrás da bancada, embora limitado fisicamente, pode-se ir, entre um drink servido e outro, do céu ao inferno. A imprevisibilidade do universo o concede acesso as mais diversas histórias. Esqueça o cronista de banco de praça. Todo garçom é um escritor em potencial.

O balcão, seja o “cool” e esvaziado de “Nighthawks" de Edward Hopper ou o movimentadíssimo e popular da esquina da sua casa, é testemunha diária da riqueza do comportamento humano. Valorize este último bastião da boemia clássica, saia beber sozinho, mas mesmo que acompanhado, esqueça a mesa e as cadeiras, puxe sua banqueta e apoie-se. Todo homem e mulher deste mundo tem direito ao seu espaço no balcão.

Barulhos

            Envelhecer é implicar com barulhos. É também um monte de outras coisas, boas ou tão insuportáveis quanto, mas esta crônica vai focar apenas neste fenômeno do passar dos anos. Claro que tal afirmação é baseada na minha experiência. Talvez montada também em uma opinião expressada por um amigo aqui, solta por uma amiga lá. O certo é que a maioria das implicâncias é bem particular.

            Tenho saudade da época em que meu incômodo era apenas o zumbido dos pernilongos. Aquela revoada de verão que todos nós conhecemos. Minha memória auditiva lembra até com certo sentimento nostálgico daquelas noites quentes. Pensando bem, o tal sentimento é mais pela lembrança da segurança da casa materna e pelo fato de que depois que passei a morar sozinho os pernilongos sumiram, e não sinto mais na pele e nem nos ouvidos a presença deles. Porém, hoje o som dos insetos parece até ingênuo comparado aos barulhos que mais me tiram do sério.

            A localização das minhas moradas pode ter espantado insetos voadores, mas trouxe outros problemas. Sempre morei perto de cruzamentos. Uma vez na esquina de uma grande preferencial e outra próximo a um semáforo. Se você não liga isso a barulho, é porque provavelmente não mora em uma rua movimentada. Carros, caminhões e motos param e em algum momento precisam arrancar novamente. Esse exato instante é meticulosamente escolhido pelo universo para coincidir com um momento importante, seja na TV, seja em uma música, na conversa no sofá ou com aquele último momento de vigília.

            Onde eu moro hoje ainda é pior. A estrutura das casas e prédios vizinhos montam um corredor acústico que termina na janela da minha sala. Muitas vezes o som é amplificado também por culpa de dias, semanas e meses difíceis que têm se apresentado. E nesses tempos de irritação fácil e prolongada, eu já escolhi a grande vilã do barulho à combustão. A moto. A motoneta. A motoca. O liquidificador de rodas. A cigarra de guidão.

            Irrita. E minha irritação não discrimina ninguém. Da vespa mais sem-vergonha a uma Harley-Davidson ao som de “Born to be wild”. O ronco da liberdade se aventurando em duas rodas trava minha boa vontade com a vida. Os carros passam, os caminhões às vezes se alongam um pouco, mas a moto não. Ela é acelerada ao máximo durante duas, três quadras levando com ela minha paciência e concentração. Me lembra os desenhos que assistia na infância em que os personagens mais velhos tinham ataques nervosos ao escutarem qualquer início de balbúrdia. Quem diria, hoje sou eu.

            Os dias de ouvidos sensíveis são completados por portas entreabertas manipuladas pelo vento que não sabe se as quer abertas ou fechadas. Por gente que tem verdadeiro tesão por canetas e lapiseiras que podem ser apertadas. Música ruim e alta. Choro de recém-nascido. Gente que come com a boca aberta. Trens. Construções.

            Essas últimas me fazem lembrar Chico Buarque e sua “Samba e Amor”. Na letra, Chico trata com classe e até com sensualidade o som da “correria da cidade”, o trânsito e a fábrica. O abismo de talento entre ele e este aqui chega até a fazer barulho também. Mas peço desculpa por esta crônica não ter um tantinho sequer da beleza preguiçosa do texto do poeta, só que a meu favor cito os seis pares de rodas que passaram enquanto estas palavras foram escritas, levando deste cronista qualquer possibilidade de elegância e deixando apenas a rouquidão do desabafo.

Idiossincrasia sui generis

Não gosto de cozinhar. Mas já gostei um dia, acho. Quando quase tudo que a gente faz fica ruim, isso acontece. Quando ainda morava com meu pai, era ele que fazia a comida. Meu pai cozinha de mão cheia. Quando chego tarde assim do trabalho, só como um sanduíche. Eu não saio de lá com tanta fome. Quero mais mesmo é tomar meu banho bem demorado. Banho, sanduíche e cama.

Mas não durmo logo que deito. Peguei o costume de ler antes de dormir. Igual a gente que às vezes aparece em novela e filme. A pessoa meio deitada, meio que sentada. Aqueles travesseiros grandes. Abajur e óculos pra ler. Antes eu só ficava no celular. Mas quando ele ficou um mês com a tela quebrada, eu comecei a ler na cama. Sem abajur nem óculos de ler. Mas meus travesseiros são grandes. Li numa revista que não é costume bom. Ler antes de dormir atrapalha o descanso do cérebro. Dizia lá que não é bom fazer nada na cama. Eu faço tudo.

Esse livro de gente solitária é bom. Tem isso das histórias serem interessantes. Mas tem também muitas palavras que eu não conheço. Tive uma professora que dizia que as palavras não estão onde estão à toa. Idiossincrasia é a maneira de uma pessoa se comportar, tipo jeito de ser. “Rogério achava que o que o impedia de ter alguém é que as mulheres não sabem lidar com suas idiossincrasias”. O que ele é mesmo é um chato. “O que o tornava uma pessoa sui generis”. Essa não tem aqui no dicionário. Tá na cara que é de outra língua. Peculiar, tá dizendo o Google. Tem outros significados aqui, mas peculiar encaixa. Especial é melhor.

Aqui na internet todo mundo é especial. Todo mundo viaja. Todo mundo sai à noite. Sexta de carnaval então, imagine. A maioria eu não vejo pessoalmente desde a escola. Outras são lá do mercado. Mas sei da vida delas tudo que elas querem que a gente saiba. Sei, por exemplo, que pra uma a alegria de carnaval acaba, mas a paz de ter cristo no coração nunca passa. E que outra quer avisar que só volta pra casa na quarta de cinzas. É um tipo de solidão também eu acho. Delas e minha. Porque eu me interesso também em ficar lendo isso? Quase nunca escrevo nada. Deveria apagar tudo de vez. É só distração. Me tirou do meu livro.

Eu não gosto de parar de ler em qualquer parte. Tem que ser no fim da história mesmo. Do conto, no caso. Eu entro ali na situação da pessoa e quero ir até o final. Mas tem dias que o sono me derruba e pronto. No outro dia eu volto do começo e leio de uma vez. Na revista que falava sobre ler antes de dormir, dizia que a leitura também atrapalha. Que a gente antes um pouquinho de dormir vai perdendo a concentração. Vai pensando em outras coisas e a leitura daí não tem bom proveito. Era uma matéria boa essa da revista. Deveriam escrever sobre essa coisa das pessoas serem iguais na internet. Sobre todas sendo também especiais. “Nos dias de hoje podemos ver nas redes sociais que apesar dos internautas mostrarem todas as suas idiossincrasias, podemos perceber que estão se tornando iguais, mesmo se considerando tão sui generis”.

 

 A barbearia

           Eu não sou fiel a nenhum barbeiro. Aliás, sinto inveja dos que podem dizer que cortam a barba e/ou o cabelo com a mesma pessoa há anos. Chegam pedindo o de sempre, são chamados pelo nome e já sabem o que esperar do prestador de serviço, que nesse caso, é bem mais que isso. Comigo não acontece. Sou um nômade das tesouras.

            Não é por falta de vontade. Desde adolescente, quando comecei a escolher onde cortar meu cabelo (e então deixei pra trás o penteado Chitãozinho e Chororó induzido pelo meu pai), tenho buscado encontrar meu barbeiro alma gêmea, uma busca longa e vã.

            Primeiramente, é bom deixar claro que eu não sou conhecido como alguém de barba e cabelo alinhados. É só ver minhas fotos, das mais antigas as mais recentes, pra constatar o desleixo. E é aí que mora o contraditório, sou mais vaidoso que o normal quando se trata desses pelos. Talvez seja também a raiz do problema. Eu sou chato. O resultado é sempre ruim, por mais detalhista que seja a minha descrição do corte desejado, tanto da barba quanto do cabelo.

            Já passei por todos os estilos de barbearias. Da simplicidade das localizadas no interior das vilas até as gourmets, com cerveja que não é de milho, sinuca, muita caveira, machados e rock clássico. Esse conhecimento empírico sobre um espectro tão variado me permite reparar em algumas características típicas destas casas.

            A última barbearia em que fui, pela terceira e certamente derradeira vez, continha boa parte dos clichês clássicos desse ambiente cabelo/barba/tesoura/navalha.

            Antes de tudo, é preciso ter uma TV. Preferencialmente sintonizada no pior programa possível para aquela faixa horária. Neste quesito o estabelecimento não decepcionou: lá estava o Vídeo Show em HD. Check!

            Havia dois barbeiros atendendo, o proprietário e seu funcionário, e um cliente na espera. Ótimo, saquei meus fones de ouvido e por enquanto estaria livre da previsão do tempo e de comentários cotidianos. Foi quando uma possibilidade que eu não tinha previsto me perturbou, o segundo turno das eleições tinham sido há menos de duas semanas e o assunto seria inevitável.

            Minhas esperanças estavam no funcionário, o barbeiro mais novo. Na última vez em que estive lá, fui atendido por ele (mal abriu a boca, homem de poucas palavras, concentrava-se plenamente no ofício). Foram alguns minutos de tensão, mas o melhor aconteceu, o barbeiro mais experiente terminou com o seu cliente e chamou o que estava na espera. Aliviado, até tirei os fones de ouvido.

            Logo em seguida o rapaz me chamou. Como vai ser, senhor? A desejar, como sempre! Pensei. Enquanto ele seguia minhas instruções meticulosamente (não sabia se era esmero ou medo paralisante de errar), reparei em algo inédito na cadeira ao lado. O cliente não parava de falar um segundo sequer e enquanto o barbeiro ainda cortava seu cabelo não havia problema, mas quando ele reclinou a cadeira e partiu pro corte da barba, a cena ficou estranha. O homem da tesoura tentava de todas as formas encontrar alguma brecha no assunto pra poder enfim atacar o bigode do palestrante. Lutou bravamente, mas não conseguiu, teve que ouvir o discurso até o fim. É verdade, juro, vi a cena sob dois ângulos, pelo canto do olho esquerdo e pelo reflexo do espelho. O homem confundiu a cadeira do barbeiro com um divã.

            Nesse ínterim, o jovem fígaro eliminava sem dó meus já rarefeitos cabelos do topo da cabeça. Desse ponto em diante pouca coisa pra destacar. Muita tesoura, espuma, pente e enfim aquele espelhinho mostrando como havia ficado o corte por de trás da cabeça.

            Paguei o serviço, agradeci ao rapaz que respondeu com um “volte sempre”. Aproveitei uma lacuna deixada pela necessidade de respirar do cliente ao lado e me despedi dele e do pobre barbeiro. Saí pela calçada faceiro, bem-apessoado e insatisfeito.

           

O Sebo

            Depois do almoço eu e a Dani sempre ficamos batendo perna. Olhando as vitrines. Ela fumando e eu tomando sorvete. Ali perto do mercado tinha uma máquina daquelas antigas. Eu chupava aquele sorvete mais pela beleza que pelo gosto. Pela lembrança, acho. Quando era pequena meus pais sempre compravam. Eu adoro o formato de sorvete de máquina e a pazinha de madeira. No final do ano passado a gente tava fazendo o de sempre quando caiu uma tempestade. A chuva veio com tudo. Tantas lojas pra entrar e a gente se abrigou num sebo. Eu soube depois. Nunca tinha visto o lugar. E até hoje não sei porque esses lugares se chamam sebo.

            Eu achava que era uma mistura de loja de móveis usados com banca de jornal. Errei feio. Eram cinco enormes estantes que formavam quatro corredores. Cheios de livros e revistas. Lá no fundo da loja tinha a parte de música. Discos, fitas e CDs. Era um espaço grande, mas tinha umas dez pessoas só. Metade acho que tinha entrado pra se esconder da chuva também. Mas o que me marcou mesmo foi o cheiro. Tinha cheiro de mofo. Eu gostei. Era estranho. Era confortável. As pessoas que estavam lá também me chamavam atenção. Gente quieta. Diferente.

            Que povo esquisito! Eu gostei. A Dani nem escutou. Já estava lá no fundo vendo uns CDs. Eu entrei no primeiro corredor. Literatura brasileira. Muitos livros. Quando escuto literatura é o que me vem na cabeça. Sei que não é isso que quer dizer, mas prefiro assim. Acho até que biblioteca devia se chamar literatura. Quero montar uma pequena literatura na minha casa. Fui reconhecendo alguns nomes que vi na escola. Muito bem organizados. Em ordem alfabética. E de todo tipo. Capas rasgadas. Capas duras. Inteiros e escafiotados. Mas o preço era sempre bom.  Alguns eram três, quatro reais. Imagine! Pensei, que bom pra quem gosta né?

            Parei em frente aos contos. Contos! Eu deveria usar isso quando falo sobre os livros que leio. São livros de contos! Não histórias. Parei ali e fiquei fuçando. Julgando todos pela capa. Até que achei um escrito: O tempo do avesso. Estava judiado o coitado. Mas que nome legal. Não era tão grosso. E só 5 reais. É meu. Fui procurar a Dani lá no fundo. E enquanto ia, fui percebendo o jeito de quem estava ali. Pareciam estar ciscando. Dava a impressão que estavam procurando alguma coisa. Mas que só saberiam o que era quando achassem. Povo esquisito mesmo, Dani.

            Ela já tinha largado dos CDs, estava lá com as revistas velhas. Estava pasma com o jeito que não sei quem lá envelheceu, ou como aquele fulano lá era. Já estava na hora de voltar pro mercado. A Dani soltou a revista como quem solta fruta estragada. E a gente foi pro caixa pagar meu livro. O homem do caixa estava desconfortável conversando com um rapaz. Esses livros não me interessam. Ninguém compra. O rapaz enfiou os livros numa sacola e saiu. Tive uma sensação ruim.

            O homem me pediu desculpas pela demora e o telefone tocou. Ele puxou pela camiseta um menino que tinha acabado de entrar na loja. Parecia estar voltando do almoço. Atende elas aí pra mim. E foi para o telefone. O menino pendurou o crachá com o lado do nome pra dentro, olhou pra gente e sorriu. O sorriso dele era como a frase da capa do livro. Eu gostei quase sem saber porque. Pegou o meu livro. Disse que já tinha lido. Que era bom e que custava cinco reais. Sem leitora de códigos de barras, sem estresse. Paguei e ele colocou numa sacolinha. Respondi, obrigada. Por nada, Kelly. Volte Sempre. Olhei pro peito. Droga! Tinha ido almoçar de crachá. Tchau! E você nem pra me avisar, hein Dani? Falei sozinha. Ela já estava lá no meio da calçada me apontando o relógio.

 

Coletivo

E aí, fechou? Fechou nada, foi pra quebra de caixa. A quebra de caixa é um valor que recebemos a mais que os outros funcionários porque mexemos com dinheiro. Quando dá furo e a gente não quer conferir de novo, deixamos na conta desse “bônus”, só não dá pra exagerar.

Caminhando pro ponto a Dani não para de falar sobre o mercado. Eu até entendo, porque ela não tem também muito de outra coisa pra falar. Ela tá namorando já há uns meses e não tem muita novidade fora do trabalho. Digo isso porque quando ela era solteira não parava de falar dos caras que conhecia, só citava o mercado quando ficava com alguém de lá de dentro. Não sei explicar bem. É que eu quando passo por aquela porta de ferro desligo daquele lugar. Não quero nem saber mais. O ponto não tá vazio. Que bom. Uma menina e um senhor que sempre pegam meu ônibus. Ele sempre me cumprimenta. Ela não. Sempre com aqueles fones de ouvido. Parece que deixam ela cega.

Até amanhã, Dani. Subimos os três. Sempre que isso acontece eu fico com cuidado. O ônibus dela passa logo depois do meu. Mas nunca se sabe o que pode acontecer, né? Quase não tem lugar pra sentar no ônibus. Escolho o banco de dois que vem logo depois do cobrador. A menina do fone de ouvido senta junto. Abro a bolsa e pego meu livro. Se eu demorar um pouco o cobrador puxa conversa. Eu conheço o tipo.

Estou lendo um conjunto de histórias curtinhas. Na verdade, é só o que eu leio. Eu gosto porque dá pra prestar mais atenção nos detalhes. E também porque é como se eu lesse vários livros de uma vez só. Todas as histórias acontecem em uma cidade que não parece muito maior que a minha não. Falam de gente solitária ou que quer ser solitária. Um veio pra cidade maior pra estudar e largou tudo pra virar feirante. A outra lá separou do marido e saiu pro mundo. Não conheço os autores. Mas se for história de gente assim, eu compro. No sebo. É barato e aquele ambiente de velharia me agrada mais que as bibliotecas e livraria de shopping. Lugar que só tem universitário intelectual.

Paro de ler porque já estou quase dormindo. Ler no ônibus de noite não dá. Eu não duro muito. Passo vergonha dando aquelas pescadas com a cabeça. Na verdade, ninguém tá nem aí. O cobrador pegou pra cristo uma moça que ficou na roleta. E a menina aqui do fone de ouvido então, sabe-se lá onde tá. Mas mesmo assim tenho vergonha. Porque eu reparo mesmo. De uns tempos pra cá essa é minha distração. Quando é de dia é melhor. Os óculos escuros deixam eu reparar melhor sem parecer estar querendo alguma coisa. Reparo na roupa, no cabelo, e no que tem na mão. Se tá com cara de alegria ou de desgraça.

Mas daqui não consigo ver muita gente. Só a moça da roleta mesmo. Coitada. O cobrador tá jogando todo o charme dele de boy de vila. Mas ela gosta. Dá pra perceber pelas risadinhas. E claro, ela parou ali porque gostou do papo. Ou foi por causa das sacolas? Quando percebi já estava passando do meu ponto. Levantei rápido e puxei a campainha. O motorista freou forte. Só ficou parada a roleta. A moça e as sacolas voaram. Desci do ônibus e de canto de olho só deu pra ver um sorriso na boca da menina do fone de ouvido.