Vida Crônica
 A barbearia

           Eu não sou fiel a nenhum barbeiro. Aliás, sinto inveja dos que podem dizer que cortam a barba e/ou o cabelo com a mesma pessoa há anos. Chegam pedindo o de sempre, são chamados pelo nome e já sabem o que esperar do prestador de serviço, que nesse caso, é bem mais que isso. Comigo não acontece. Sou um nômade das tesouras.

            Não é por falta de vontade. Desde adolescente, quando comecei a escolher onde cortar meu cabelo (e então deixei pra trás o penteado Chitãozinho e Chororó induzido pelo meu pai), tenho buscado encontrar meu barbeiro alma gêmea, uma busca longa e vã.

            Primeiramente, é bom deixar claro que eu não sou conhecido como alguém de barba e cabelo alinhados. É só ver minhas fotos, das mais antigas as mais recentes, pra constatar o desleixo. E é aí que mora o contraditório, sou mais vaidoso que o normal quando se trata desses pelos. Talvez seja também a raiz do problema. Eu sou chato. O resultado é sempre ruim, por mais detalhista que seja a minha descrição do corte desejado, tanto da barba quanto do cabelo.

            Já passei por todos os estilos de barbearias. Da simplicidade das localizadas no interior das vilas até as gourmets, com cerveja que não é de milho, sinuca, muita caveira, machados e rock clássico. Esse conhecimento empírico sobre um espectro tão variado me permite reparar em algumas características típicas destas casas.

            A última barbearia em que fui, pela terceira e certamente derradeira vez, continha boa parte dos clichês clássicos desse ambiente cabelo/barba/tesoura/navalha.

            Antes de tudo, é preciso ter uma TV. Preferencialmente sintonizada no pior programa possível para aquela faixa horária. Neste quesito o estabelecimento não decepcionou: lá estava o Vídeo Show em HD. Check!

            Havia dois barbeiros atendendo, o proprietário e seu funcionário, e um cliente na espera. Ótimo, saquei meus fones de ouvido e por enquanto estaria livre da previsão do tempo e de comentários cotidianos. Foi quando uma possibilidade que eu não tinha previsto me perturbou, o segundo turno das eleições tinham sido há menos de duas semanas e o assunto seria inevitável.

            Minhas esperanças estavam no funcionário, o barbeiro mais novo. Na última vez em que estive lá, fui atendido por ele (mal abriu a boca, homem de poucas palavras, concentrava-se plenamente no ofício). Foram alguns minutos de tensão, mas o melhor aconteceu, o barbeiro mais experiente terminou com o seu cliente e chamou o que estava na espera. Aliviado, até tirei os fones de ouvido.

            Logo em seguida o rapaz me chamou. Como vai ser, senhor? A desejar, como sempre! Pensei. Enquanto ele seguia minhas instruções meticulosamente (não sabia se era esmero ou medo paralisante de errar), reparei em algo inédito na cadeira ao lado. O cliente não parava de falar um segundo sequer e enquanto o barbeiro ainda cortava seu cabelo não havia problema, mas quando ele reclinou a cadeira e partiu pro corte da barba, a cena ficou estranha. O homem da tesoura tentava de todas as formas encontrar alguma brecha no assunto pra poder enfim atacar o bigode do palestrante. Lutou bravamente, mas não conseguiu, teve que ouvir o discurso até o fim. É verdade, juro, vi a cena sob dois ângulos, pelo canto do olho esquerdo e pelo reflexo do espelho. O homem confundiu a cadeira do barbeiro com um divã.

            Nesse ínterim, o jovem fígaro eliminava sem dó meus já rarefeitos cabelos do topo da cabeça. Desse ponto em diante pouca coisa pra destacar. Muita tesoura, espuma, pente e enfim aquele espelhinho mostrando como havia ficado o corte por de trás da cabeça.

            Paguei o serviço, agradeci ao rapaz que respondeu com um “volte sempre”. Aproveitei uma lacuna deixada pela necessidade de respirar do cliente ao lado e me despedi dele e do pobre barbeiro. Saí pela calçada faceiro, bem-apessoado e insatisfeito.

           

O Sebo

            Depois do almoço eu e a Dani sempre ficamos batendo perna. Olhando as vitrines. Ela fumando e eu tomando sorvete. Ali perto do mercado tinha uma máquina daquelas antigas. Eu chupava aquele sorvete mais pela beleza que pelo gosto. Pela lembrança, acho. Quando era pequena meus pais sempre compravam. Eu adoro o formato de sorvete de máquina e a pazinha de madeira. No final do ano passado a gente tava fazendo o de sempre quando caiu uma tempestade. A chuva veio com tudo. Tantas lojas pra entrar e a gente se abrigou num sebo. Eu soube depois. Nunca tinha visto o lugar. E até hoje não sei porque esses lugares se chamam sebo.

            Eu achava que era uma mistura de loja de móveis usados com banca de jornal. Errei feio. Eram cinco enormes estantes que formavam quatro corredores. Cheios de livros e revistas. Lá no fundo da loja tinha a parte de música. Discos, fitas e CDs. Era um espaço grande, mas tinha umas dez pessoas só. Metade acho que tinha entrado pra se esconder da chuva também. Mas o que me marcou mesmo foi o cheiro. Tinha cheiro de mofo. Eu gostei. Era estranho. Era confortável. As pessoas que estavam lá também me chamavam atenção. Gente quieta. Diferente.

            Que povo esquisito! Eu gostei. A Dani nem escutou. Já estava lá no fundo vendo uns CDs. Eu entrei no primeiro corredor. Literatura brasileira. Muitos livros. Quando escuto literatura é o que me vem na cabeça. Sei que não é isso que quer dizer, mas prefiro assim. Acho até que biblioteca devia se chamar literatura. Quero montar uma pequena literatura na minha casa. Fui reconhecendo alguns nomes que vi na escola. Muito bem organizados. Em ordem alfabética. E de todo tipo. Capas rasgadas. Capas duras. Inteiros e escafiotados. Mas o preço era sempre bom.  Alguns eram três, quatro reais. Imagine! Pensei, que bom pra quem gosta né?

            Parei em frente aos contos. Contos! Eu deveria usar isso quando falo sobre os livros que leio. São livros de contos! Não histórias. Parei ali e fiquei fuçando. Julgando todos pela capa. Até que achei um escrito: O tempo do avesso. Estava judiado o coitado. Mas que nome legal. Não era tão grosso. E só 5 reais. É meu. Fui procurar a Dani lá no fundo. E enquanto ia, fui percebendo o jeito de quem estava ali. Pareciam estar ciscando. Dava a impressão que estavam procurando alguma coisa. Mas que só saberiam o que era quando achassem. Povo esquisito mesmo, Dani.

            Ela já tinha largado dos CDs, estava lá com as revistas velhas. Estava pasma com o jeito que não sei quem lá envelheceu, ou como aquele fulano lá era. Já estava na hora de voltar pro mercado. A Dani soltou a revista como quem solta fruta estragada. E a gente foi pro caixa pagar meu livro. O homem do caixa estava desconfortável conversando com um rapaz. Esses livros não me interessam. Ninguém compra. O rapaz enfiou os livros numa sacola e saiu. Tive uma sensação ruim.

            O homem me pediu desculpas pela demora e o telefone tocou. Ele puxou pela camiseta um menino que tinha acabado de entrar na loja. Parecia estar voltando do almoço. Atende elas aí pra mim. E foi para o telefone. O menino pendurou o crachá com o lado do nome pra dentro, olhou pra gente e sorriu. O sorriso dele era como a frase da capa do livro. Eu gostei quase sem saber porque. Pegou o meu livro. Disse que já tinha lido. Que era bom e que custava cinco reais. Sem leitora de códigos de barras, sem estresse. Paguei e ele colocou numa sacolinha. Respondi, obrigada. Por nada, Kelly. Volte Sempre. Olhei pro peito. Droga! Tinha ido almoçar de crachá. Tchau! E você nem pra me avisar, hein Dani? Falei sozinha. Ela já estava lá no meio da calçada me apontando o relógio.

 

Coletivo

E aí, fechou? Fechou nada, foi pra quebra de caixa. A quebra de caixa é um valor que recebemos a mais que os outros funcionários porque mexemos com dinheiro. Quando dá furo e a gente não quer conferir de novo, deixamos na conta desse “bônus”, só não dá pra exagerar.

Caminhando pro ponto a Dani não para de falar sobre o mercado. Eu até entendo, porque ela não tem também muito de outra coisa pra falar. Ela tá namorando já há uns meses e não tem muita novidade fora do trabalho. Digo isso porque quando ela era solteira não parava de falar dos caras que conhecia, só citava o mercado quando ficava com alguém de lá de dentro. Não sei explicar bem. É que eu quando passo por aquela porta de ferro desligo daquele lugar. Não quero nem saber mais. O ponto não tá vazio. Que bom. Uma menina e um senhor que sempre pegam meu ônibus. Ele sempre me cumprimenta. Ela não. Sempre com aqueles fones de ouvido. Parece que deixam ela cega.

Até amanhã, Dani. Subimos os três. Sempre que isso acontece eu fico com cuidado. O ônibus dela passa logo depois do meu. Mas nunca se sabe o que pode acontecer, né? Quase não tem lugar pra sentar no ônibus. Escolho o banco de dois que vem logo depois do cobrador. A menina do fone de ouvido senta junto. Abro a bolsa e pego meu livro. Se eu demorar um pouco o cobrador puxa conversa. Eu conheço o tipo.

Estou lendo um conjunto de histórias curtinhas. Na verdade, é só o que eu leio. Eu gosto porque dá pra prestar mais atenção nos detalhes. E também porque é como se eu lesse vários livros de uma vez só. Todas as histórias acontecem em uma cidade que não parece muito maior que a minha não. Falam de gente solitária ou que quer ser solitária. Um veio pra cidade maior pra estudar e largou tudo pra virar feirante. A outra lá separou do marido e saiu pro mundo. Não conheço os autores. Mas se for história de gente assim, eu compro. No sebo. É barato e aquele ambiente de velharia me agrada mais que as bibliotecas e livraria de shopping. Lugar que só tem universitário intelectual.

Paro de ler porque já estou quase dormindo. Ler no ônibus de noite não dá. Eu não duro muito. Passo vergonha dando aquelas pescadas com a cabeça. Na verdade, ninguém tá nem aí. O cobrador pegou pra cristo uma moça que ficou na roleta. E a menina aqui do fone de ouvido então, sabe-se lá onde tá. Mas mesmo assim tenho vergonha. Porque eu reparo mesmo. De uns tempos pra cá essa é minha distração. Quando é de dia é melhor. Os óculos escuros deixam eu reparar melhor sem parecer estar querendo alguma coisa. Reparo na roupa, no cabelo, e no que tem na mão. Se tá com cara de alegria ou de desgraça.

Mas daqui não consigo ver muita gente. Só a moça da roleta mesmo. Coitada. O cobrador tá jogando todo o charme dele de boy de vila. Mas ela gosta. Dá pra perceber pelas risadinhas. E claro, ela parou ali porque gostou do papo. Ou foi por causa das sacolas? Quando percebi já estava passando do meu ponto. Levantei rápido e puxei a campainha. O motorista freou forte. Só ficou parada a roleta. A moça e as sacolas voaram. Desci do ônibus e de canto de olho só deu pra ver um sorriso na boca da menina do fone de ouvido.

Série Reencontro

No mês passado, participei da 37ª Semana Literária, promovida pelo Sesc-PR. Na mesa de abertura do evento, dois escritores falaram sobre como foram suas primeiras experiências com livros. Um deles contou que seu pai era representante de vendas da editora Ática e que seu contato com os livros se deu através da série infanto-juvenil Vaga-Lume. O outro, por sua vez, disse que o primeiro livro que tem memória de ter lido foi o clássico Robinson Crusoé, do autor inglês Daniel Defoe.

O curioso foi que o testemunho dos escritores – ambos são poucos anos mais velhos que eu – lembra muito os meus primeiros contatos com a literatura.

Por volta dos meus 10, 11 anos o sucesso da Série Vaga-Lume era enorme. Qualquer criança da época, mesmo que não tivesse o mínimo interesse por livros, sabia da existência daquelas obras. Eram histórias escritas por autores brasileiros contemporâneos que, na maioria das vezes, escreviam enredos sobre investigações, mistérios e aventuras.

Lembro-me que os títulos chamavam muita a atenção. “O Escaravelho do Diabo”, por exemplo, eu não sabia o que era escaravelho, mas só o fato dele pertencer ao pé redondo já me mantinha longe daquela história. Outros livros eu li; “A serra dos meninos”, “O mistério das 5 estrelas”, “O rapto do garoto de ouro”, “Tonico e carniça”.

Entre os autores, destaque para Lúcia Machado de Almeida e Marçal Aquino, que mais tarde seria também reconhecido como grande roteirista do cinema nacional. Mais tarde, descobri que um dos meus escritores preferidos havia participado da série, Edmundo Nonato, nome de batismo de Marcos Rey, autor de clássicos da literatura brasileira, como “O enterro da cafetina” e “ Esta noite ou nunca”.

Diferente de muita gente da época, meu período de leitor da coleção Vaga-lume foi curto. Em uma das visitas à biblioteca da escola, emprestei sem muita pretensão o livro  “El Cid – O herói da Espanha”. Li os feitos do cavaleiro de um dia para o outro e fiquei fascinado. Fui à procura de mais livros como aquele e descobri que ele fazia parte da Série Reencontro. Uma coleção de adaptações de grandes clássicos da literatura mundial, lançada pela Editora Scipione.

Autores como Ana Maria Machado, Paulo Mendes Campos, Caros Heitor Cony e Rubem Braga eram responsáveis por traduzir e adaptar títulos como “As viagens de Gulliver”, “Sonho de uma noite de Verão”, “Ivanhoé”, “As minhas do Rei Salomão”, “Os Inocentes”, “Moby Dick”. Claro que na época eu não tinha a menor ideia de quem eram aqueles nomes nas capas, e também ainda não tinha interesse, o que me fascinava era a variedade de histórias que aquela coleção oferecia.

Hoje, vendo as capas aqui no Google, percebo que li muito mais títulos de que tinha memória. Mas a experiência de leitura de dois deles me marcou muito, “Dom Quixote” e “As Mil e Uma Noites”.

A alcunha de “Cavaleiro da Triste Figura” é exata para mim. Dom Quixote é um livro triste. E na minha cabeça de 11 anos, aquele personagem meio sonhador, meio maluco era vítima de muita injustiça, eu detestei todo mundo daquele mundo. E as analogias que li e escutei durante toda a vida em relação aos que vivem lutando contra “moinhos de vento” só aumentaram essa percepção pré-adolescente.

Ler “As Mil e uma Noites” é ler dezenas de histórias ao mesmo tempo, e naquela época foi uma descoberta incrível. Contos dentro de contos em vários níveis – quando assisti “Inception” muitos anos depois, foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Melhor ainda foi descobrir que as aventuras de personagens como Aladim e Simbad eram parte das narrativas de Sherazade.

Não tenho dúvida que ter lido esses clássicos teve importância enorme na minha formação como leitor. São memórias que guardo como carinho e que, como nem tudo são flores, me trazem até lembranças constrangedoras, como todas as vezes que disse que havia lido “As mil e uma Noites” de cabo a rabo, surpreendendo os mais crédulos e desconsiderando a diferença entre as mais de 5.000 páginas do original e da minha querida adaptação da Série reencontro.

 

Sobre gomas

Na minha frente, na fila do caixa tem um senhor. Ele pede vinte reais em chicletes. Goma, disse ele. Antes ainda de eu me espantar, ele olha e diz que nenhuma é para mim e que não adiantava nem pedir. Monto minha cara de resignação e procuro não dar nenhum tipo de procedimento à situação. Ele toma a sacola com as compras, junta as gomas com as duas mãos, guarda no bolso do casaco e vai embora.

O rapaz do caixa do mercado não corresponde a minha expressão curiosa imediatamente. Penso em insistir, perguntar se o homem costuma comprar aquela quantia de gomas, mas quase que de imediato desisto. Esse menino não está nem aí para o que as pessoas compram ou deixam de comprar. Ledo engano. Toda segunda-feira é isso, solta o garoto enquanto separa o meu troco. Pergunto se ele conhece a figura, responde que não, mas que está sempre andado por aí, sempre de cabeça baixa.

Pego minhas coisas e saio. Já na esquina vejo a mesma figura andando lentamente pela calçada. Em alguns segundos eu o alcanço, e, ao ultrapassá-lo, procuro um contato visual, algum tipo de olhar cúmplice, em respeito aos nossos “laços” recém-criados. Na verdade, um pouco arrependido por não ter interagido ainda no mercado com sua tentativa de brincadeira (?).

Ele não olha para mim, talvez por um provável problema na coluna, tem o andar lento e o corpo arcado, muito arcado, a ponto de mal tirar os olhos do chão. Passo por ele e ouço: trabalhei 30 anos numa fábrica de gomas. Olho em volta e por óbvio critério de eliminação concluo que a frase é para mim.

Volto um pouco e o acompanho no seu ritmo. E antes de eu responder a sua frase ele continua. Diz que foi empregado de uma fábrica que ficava ali perto, era grande, tinha muitos funcionários, era um trabalho digno que o sustentou por toda a vida. O salário era justo e podia mascar quantas gomas quisesse. Hábito esse que traz até hoje, ao contrário de seus dentes originais, que não aguentaram as décadas de trabalho insalubre.

Enquanto falava, em momento algum me olhou, manteve os olhos fixos no chão. Passei a observar a calçada também. O olhar do velho varria o passeio de forma que não parecia estar apenas concentrado em seguir seu caminho. Perguntei se ele sentia saudades de trabalhar na fábrica, e se comprar aquele número de gomas, além de hábito, era uma maneira de lembrar os velhos tempos. Me ignorou calado.

Poucos passos lentos depois ele quebra o silêncio, não consigo dizer quantas gomas eu masquei na vida, mas te garanto que nunca joguei uma sequer no chão. Foi quando me dei conta da situação da calçada em que andávamos. Centenas de gomas descartadas pavimentavam o cimento do nosso caminho. Daquele ponto, e durante os poucos metros que faltavam para terminar a quadra, andamos juntos e mudos. Ele agora com o olhar menos agitado e eu ainda mais pensativo.

Chegamos à esquina da minha casa. Vou por aqui, eu falo. Ele despede-se ainda sem nenhum contato visual, mas com o braço direito estendido. Na palma enrugada da mão uma goma de tutti-frutti.

 

Palavrárias

Você tem cinco minutinhos pra ouvir a palavra? Quero dizer, você tem cinco minutinhos pra ler a palavra da palavra? Sim, querida leitora e querido leitor. A palavra salva, principalmente se, estando ao lado de suas outras colegas, for bem compreendida. Mas e a palavra por si só, como obra social onipresente nas nossas vidas, você já reparou? A palavra tem poder, e melhor ainda, ela tem beleza.

Já iniciemos deixando de lado aqui a conotação de palavra como sendo texto evangelizador. Quero falar da palavra terrena. Pecadora, latina vulgar, portuguesa, brasileira.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa indica que “palavra” tem origem no latim “parabŏla", empréstimo do grego “parabolé”, significa “comparação”. Nossa musa nos permite nomear nosso mundo e nossa vida. Mas não é raro prestarmos mais atenção a o que nomeamos do que a ela. Geralmente ao nos tornarmos adultos, juntamente com outros encantamentos, deixamos de lado essa ligação com o porquê do nome das coisas. Na minha infância, havia dias que eu acordava e pensava, por que ‘hoje” chame-se “hoje”? Porque não “caixa” ou “jogral”? Sempre achei que “jogral” seria melhor.

É isso, preste atenção às palavras, elas têm força. Nunca deixe uma passar por você sem que antes saiba seu significado. O escritor Alberto Mussa em seu “Decálogo de leitor” alerta a o que inúmeros professores de português vêm dizendo por décadas; nunca leia sem um dicionário por perto. As palavras não estão onde estão à toa. Se imaginarmos a palavra “texto” como sua etimologia sugere, ou seja, algo construído, então não é de se surpreender que uma palavra mal assentada comprometa toda a parede.

A força da palavra também vem da capacidade de carregar na sua origem preconceitos históricos e sociais, além de ofender e desqualificar determinados gêneros, termos incompatíveis com a sociedade contemporânea. Infelizmente nesse quesito a atenção à palavra está muito longe de existir. Pelo contrário, há quem faça questão de não abandoná-las. É isso mesmo, não se engane, palavras são abandonadas, nascem, morrem, vão e voltam.

E a graça da palavra? Como tudo que se refere ao belo, aqui também se aplica: a beleza está nos olhos de quem lê. Embora muito do gosto que se tem por certas palavras venha também da sua pronúncia, temos nossas preferidas, as mimadas e bem guardadas, as prazerosas. Aqui aproveito para expor o uso equivocado, a meu ver, do termo “palavrão” como xingamento. Deveria se referir às palavras bonitas, sensuais: “lânguida”, baita palavrão hein? “Malemolência”, uau! Como dizia o Leminski, tesão de palavra.

Há também a palavrinha. O ‘nh’ que pode transformar uma palavra em carinho ou desprezo. Poeta, por exemplo. Antes de Vinícius de Moraes, “poetinha” possuía outra conotação. Hoje é no mínimo um agrado.

Só que de nada adianta só reparar nas palavras. É preciso usá-las, se expressar. Saramago dizia que se a gente não expressar o que sente, o sentimento acaba desaparecendo. Pois ao contrário do que significam e representam, as palavras belas ou feias, grandes ou pequenas, só existem quando as escrevemos ou dizemos.

As pombas e o tuim

 

Um casal de pombas fez lar na garagem da casa dos meus pais. Estacionaram sobre um varal de roupas em forma de sanfona que minha mãe instalou no fim do cômodo. E em meio a trapos e capas velhas de acento de caminhão, as aves construíram seu ninho.

Descobri no susto quando precisei daqueles trapos pra uma tarefa qualquer.  Fui lá mexer e uma pomba me fuzilou com aquele olhar marrom de quem mais teme que assusta.

            - Tem um ninho de pombas lá na garagem, mãe.

            - Eu sei. Não vai assustar os bichos.

Grande descoberta a minha. Ainda assim precisava dos panos. Com cuidado, violei o espaço da hóspede e arranquei um pelego vermelho de lá de cima.

Daí em diante, sempre conferia como andava o desenvolvimento do residencial. Volta e meia flagrava um graveto caído aqui, outro de pendurado acolá. O empreendimento parecia crescer apesar dos desperdícios.

Temia, a cada vez que estacionava o carro, cometer uma chacina familiar. Jovem família de aves é encontrada morta em garagem na Santa Paula. Motivo: asfixia por monóxido de carbono. Mas o Google me alertou que esses acidentes só ocorrem em lugares completamente fechados. O que não é o caso daquela garagem.

Duas coisas me despertavam a curiosidade: quando veria as duas pombas juntas e quantos seriam os herdeiros. Pesquisei a relação da espécie nessa rotina de gerar novas vidas, conseguir o ganha pão e ainda preocupar-se com a construção do próprio teto. Funciona assim, pombos são monogâmicos, uma vez escolhido, o parceiro é pro resto da vida, após construído o ninho e botados os ovos – variam de um a dois – o casal reveza na tarefa de incubação. Entre 17 e 19 dias, pronto, crianças na casa!

Até que em dois dias seguidos minha curiosidade foi sanada. Em uma manhã de descuido do casal, flagrei dois ovos minúsculos no ninho, olhei em volta e desci da cadeira rapidamente pra não ser flagrado em tamanha falta de privacidade. Na tarde do dia seguinte, enfim, pude conhecer a família completa em seu novo lar, lá estavam as pombas e os ovinhos desfrutando da vista pro quintal, conforme enalteceram os corretores.

Naqueles dias, li a crônica “História triste de mim”, na qual Rubem Braga conta uma história de sua infância. Passando férias no interior, ele recolhe de um ninho de joão de barro um filhote de tuim – espécie bem pequena de periquito. Adota o passarinho, cuida, perde e reencontra algumas vezes. Até que, já de volta à cidade, numa triste tarde, vê pistas de penas, sangue no chão e a sombra de um gato ruivo no muro. Adeus Tuim.

Lamentei o triste fim do periquitinho e lembrei dos pombos da garagem da minha mãe. “Dá crônica com certeza”, pensei. Na visita seguinte à casa dela, levei o notebook pra dar uma última olhada nas aves e escrever o texto ali mesmo.

Ao chegar, entre uma conversa e outra, minha mãe pediu pra eu ver algo que tinha aparecido no chão da garagem naquela manhã. Lá estava uma pequena e reveladora mancha de sangue.

- Ficou alguma coisa no ninho. Perguntei.

- Nada, nem penas.

Corri os olhos pros muros do quintal. Nada de gato ruivo também.

Poesia, letra e música

Semana passada, eu ouvi uma prova das músicas que farão parte do primeiro trabalho gravado da banda ponta-grossense A Coisa.  Nesse primeiro disco, há poemas meus que foram musicados e algumas letras que criamos juntos. Nossa parceria já rendeu um primeiro lugar no FUC regional e a terceira colocação na etapa nacional do mesmo festival, em 2013. Tanto os prêmios quanto a participação no trabalho de estreia d’A Coisa, além de trazerem muito orgulho, lembram também o motivo pelo qual eu comecei a escrever: a música.

Não sei tocar nenhum instrumento musical. Já tentei e percebi que não tenho jeito e muito menos disciplina para me dedicar ao estudo que a atividade exige. E pra quem sempre foi apaixonado por música, essa incapacidade era muito decepcionante. Foi então que passei a escrever letras de canções pra uma suposta banda que, quem sabe um dia, as aproveitasse.

Desde pequeno tive facilidade na lida com palavras, e na minha adolescência essas “letras” foram a forma de registrar esse momento estranho e repleto de dúvidas. Escrevia uma, duas, três, quatro por dia. Às vezes até arriscava criar melodias pra elas, mas logo me dava conta da total incompetência pra tarefa. No início, escrevia e as escondia do mundo em caixas de sapato. Depois de um tempo, passei a mostrar pra dois amigos antes de guardá-las pra posteridade.

À época, poesia pra mim era algo tão longínquo e sem identificação quanto os temas e os autores que via nos livros didáticos. Já a música tinha um poder de reconhecimento e pertencimento incomparável. Naquela idade eu ouvia basicamente rock brasileiro dos anos 80 e 90 e todos os temas que os artistas dessas décadas trataram me despertavam interesse.

E assim segui até meu grande amigo Jessé Vandoski, hoje vocalista d’A Coisa, me apresentar à biografia do poeta Paulo Leminski, escrita pelo jornalista Toninho Vaz. Foi a amor à primeira lida. A tal identificação nunca encontrada na poesia aprendida na escola estava quem cada página de “O bandido que sabia latim”. O poeta era curitibano, escrevia poemas curtos, brincava com ditados populares, usava e abusava das rimas, abordava temas próximos a mim e, principalmente, escrevia letras e compunha músicas.

Eu, que até então só via ligação de poesia e música quando tratavam Renato Russo e Cazuza como poetas do rock dos anos 80, me deparei com um mundo novo de inúmeras conexões entre as duas artes. Leminski foi parceiro de nomes consagrados da música brasileira, de Moraes Moreira a Ivo Rodrigues, do rock à MPB. Claro que o livro abordava em sua maior parte a verve literária do escritor paranaense, principalmente a poesia, isso me atingiu em cheio e pela primeira vez na vida passei a considerar os textos que escrevia como poemas, não mais “letras de música”.

Com o passar do tempo, descobri a vasta relação da música brasileira com a literatura, particularmente com a poesia. Motivo também de polêmicas, como a de que se pode considerar ou não os letristas como poetas, ou, letras como poemas. Ao mesmo tempo, descobri o prazer de ler poesia e de conhecer outros autores. Envelhecer e passar a ter diferentes interesses também ajudou nas descobertas literárias e poéticas que se seguiram.

Quando lancei meu primeiro livro, aquele sonho de ouvir meus versos escritos virarem canções e serem cantados por alguém aconteceu. Teve início minha parceria com A Coisa e desde então outras bandas e cantores também musicaram poemas de minha autoria. As “letras” daquela época de compositor adolescente ainda existem, guardadas não mais nas mesmas caixas, mas em outros suportes que mantêm as folhas em bom estado e o mundo preservado do seu conteúdo.

 

Gibis

Quando eu era criança lia muita história em quadrinho. Claro que na época a gente chamava de gibi. Esse também era o nome do doce de amendoim (ainda existe?). Eu tinha vários gibis, dos mais fininhos aos enormes almanaques. Lia compulsivamente e, quando não ganhava revista nova, relia todas as que já possuía. Algumas vezes eu reescrevia e redesenhava as histórias favoritas. Eu curtia mesmo.

Mais tarde, já com a internet, descobri que os quadrinhos eram coisa séria para muita gente. Mas as pessoas liam quadrinhos de super-heróis, que para minha infância era coisa de TV. Homem-Aranha, Super-homem, Hulk e Mulher-Maravilha eram personagens que passavam em programas da TV em dias de semana! E mais, havia uma briga entre os fãs de qual editora era melhor, Marvel ou DC. Mas então, se eu nuca havia tido contato com os quadrinhos de super-heróis, o que então eu lia quando criança? Walt Disney e Turma da Mônica, ué.

A Disney tinha uma infinidade de personagens. As histórias eram muito mais rocambolescas, o que de certa forma, atraía muito a atenção e também tinham o apelo de que também se podia ver aquelas figuras nos desenhos dos programas infantis, como na série Duck Tales. Ler as falas dos personagens imaginando suas vozes como as da televisão era uma experiência e tanto. Mas eu tinha um sério problema com o Mickey e seus amigos, eles falavam demais! Pode parecer uma contradição, gostar de ler gibi e não querer ler muito. Porém, os balõezinhos de fala eram enormes! Os diálogos eram intermináveis. E ainda, dependendo da história, havia o narrador. Sempre detestei os narradores.

A maior diferença entre os gibis da Disney e da Turma da Mônica era, para mim, a sensação de familiaridade que as histórias do Maurício de Souza passavam. Era muito mais fácil se identificar com os planos do Cebolinha ou com a fuga do banho do Cascão, do que se imaginar um sobrinho do Donald sobrevoando com o Capitão Boeing a África virgem.

Eu pirava na disposição das casas no universo da turma da Mônica. Não havia quadras nem ruas e os terrenos sem cercas e gradis. A possibilidade de a qualquer momento alguém aparecer pela janela da sua casa e te chamar era mágico para mim, embora hoje em dia pareça aterrorizante.

E os personagens? O Louco, por exemplo. Procure ver uma história dele hoje em dia. Faz muito jus ao nome. Tinha o Penadinho e todos os outros do núcleo dele. Tratavam a morte da maneira mais corriqueira possível, de forma que uma criança pudesse compreender, ou, pelo menos, se habituar. E tinha o Chico Bento. Qualquer um que já estivesse pisado em uma chácara, fazenda ou sítio entendia o que significava subir em uma árvore para pegar fruta, tomar banho de rio, pescar, etc.

A seção de cartas era outro diferencial, embora também tivesse nas revistas da Disney, nesse caso, ainda assim a identificação era maior. Nunca enviei uma carta, mas sempre imaginava como seria ter uma publicada, vai entender.

Tempos atrás, precisei pesquisar algumas tirinhas de quadrinhos para montar uma prova de interpretação de texto. Automaticamente a procura começou pelos personagens do Maurício de Souza. Relembrei de muita coisa. As crianças vão adorar, afinal, quem não gosta deles? No dia da prova, enquanto eu distribuía a avaliação, uma aluna me perguntou se eu não achava que eles já estavam bem grandinhos para interpretar a Turma da Mônica. Pedi silêncio corado.

 

 

 

 

 

Balanço Rússia 2018

Há duas semanas, na última crônica desta coluna, escrevi sobre as memórias que tenho das copas passadas. Pois bem, a participação do Brasil na copa da Rússia acabou e faltando menos de uma semana para o fim do torneio, digo aqui para vocês meus destaques dentro e fora do campo.

Como corintiano, já quero iniciar confessando que a minha relação com o professor Adenor é outra depois dessa copa. Não suportei assistir a quase nenhuma entrevista dele. O tom professoral e pastoral do técnico da seleção foi demais pra mim. Será que ele era assim no Corinthians? Não sei, mas foi triste assistir ao Tite pagando de escritor de autoajuda nas entrevistas e propagandas.

E a publicidade na copa? Os clichês de sempre estiveram devidamente presentes: ufanismo, patriotismo de araque, muita cerveja, refrigerante, verde e amarelo. Tudo sem graça nenhuma, com pouca criatividade e explorando as figuras dos artistas em destaque no Brasil de 2018. Mas uma propaganda em especial me chamou a atenção pela cara de pau. Entre outros momentos absurdos, em uma cena vemos chefes de cozinha empenhados em preencher com comida “feita com muito carinho” uma bandeja miserável de plástico e logo em seguida, ao som de um discurso de preocupação com o bem-estar e a qualidade de vida dos clientes, uma gestante retira delicadamente a mesma bandeja congelada de seu refrigerador. Isso mesmo, comida congelada e uma gestante, que tabelinha.

Por outro lado, criatividade não faltou na já conhecida capacidade do brasileiro de criar memes. Teve o canário mais pistola do mundo, o Neymar rolando por todos os celulares do país, torcedor psicopata, Tite caindo e Tite correndo. Mas para mim o melhor foi sem dúvida o meme protagonizado por Cristiano Ronaldo e seu filho, o espetacular “pai tenho fome”.

Como é em toda copa, as mesas redondas esbaldaram-se nesse mundial. Teve canal que contratou tanto ex-jogador para comentar, que não sei como fez para por toda essa gente para falar. Já a transmissão dos jogos, pelo menos na TV aberta, não teve muitas novidades e manteve a sua cota de vergonha alheia. Se em 2014 tivemos o Alex Escobar como narrador, 2018 nos trouxe Roger Flores para comentar os jogos. As primeiras narrações femininas em uma copa do mundo foram um destaque positivo. Isabelly Morais, da Fox Sports, foi a pioneira.

Então, no seu quinto jogo, a seleção brasileira foi eliminada da copa da Rússia. A derrota não foi humilhante como há quatro anos, mas talvez a sensação da desclassificação digna tenha doído mais. Para os mais velhos, sair da copa é relembrar daquele sentimento estranho de tristeza e desilusão. Dificilmente há algo de novo nisso. Já para os mais novos, talvez seja a primeira decepção numa copa. A primeira vez que passam pelo procedimento socio-midiático de criação de expectativa e de, em algumas semanas, sofrer esse choque que é a eliminação de um mundial.

Só que derrota dura mesmo, e pra todo mundo, é quando esses grandes eventos evidenciam a misoginia, o machismo e o racismo, como nos casos dos torcedores brasileiros e mulheres russas e dos recentes ataques ao jogador Fernandinho.

E, infelizmente, as demonstrações de falta de empatia, má-educação e ignorância, logo serão mais frequentes ainda, lembre-se, estamos a poucos meses das eleições. Tenho a impressão que a sensação de derrota e desilusão não nos deixará muito cedo, nesse caso, seja quem for o vencedor.