Vida Crônica
Banco é rotina

 

 

Meu chefe estala dois tapas nas minhas costas e dá meia volta. Até mais. Até. Alguns passos depois, já parado em frente a porta giratória, o guarda me reconhece e libera a entrada com as chaves e tudo. Ele sabe que tenho uma bolada na mochila. Vou pra fila da senha. A estagiária sorri com a aquela boca de plástico como faz todo dia. Como faz pra todos. Pra mim é pior. Sou um quebrado. Ela quer subir na vida. Eu quero uma senha pros caixas. Ela nem pergunta. Destaca da máquina o papel e estica o braço na minha direção. Interesseira. Basta ser um pouco mais engomadinho que o sorriso de plástico derrete e dura mais. Mas ela sabe que aquilo é provisório. Logo vai atender na sua própria mesa. Aí sim, homens endinheirados. Não esses pés rapados que precisam pagar as contas na boca do caixa.

            Senha 175. Enxergo o número 133 no painel. Que merda! Hoje vai demorar. Foda-se. Quanto mais tempo aqui, menos no trabalho. Jogo a senha no bolso e vou matar o tempo com o guarda. Deve ter lá seus 40 anos. É separado, toma uns goles por aí. E como em toda a segunda-feira manda a mesma pergunta: e os golão? Sempre anda com caixas de cerveja no porta-malas do carro. Gosta de vodca e coca também. Não gosta de maconha. É coisa de piá vagabundo. De carçudo. Já trabalha ali faz uns 10 anos. E se um dia tentarem fazer o banco, o que você faz? Eu fico na minha, disfarço e me livro da arma, não arrisco minha vida pelo mixaria que ganho. De supetão, para o que está dizendo pra liberar a porta giratória e cumprimentar com mais atenção uma morena que acaba de entrar. Já comi. Trabalha na loja de calçados na rua debaixo. Safada. Então, voltando, não vale a pena dar uma de herói, é como dizem nos filmes mesmo. O guarda é amigo de todo mundo que põe os pés diariamente no banco. Tem vezes que ficam dois ou três ao lado dele, só de conversa. Encostados na parede apreciando o desfile das clientes e das funcionárias. No fundo da agência, onde tem carpete vermelho, nas mesas dos gerentes e de atendimentos personalizados, ficam as mais gostosas. E aquela de saia vermelha, guarda, quem é? Monique, veio transferida do interior. Mas é uma safada. Eu reparo como elas desfilam de um lado pro outro com seus saltos, saias, terninhos, cópias de documentos a tiracolo. Vêm lá do fundo, param na porta que dá acesso ao interior do banco e enquanto digitam suas senhas me cumprimentam com um oi forçado, às vezes com um sorriso, e seguem, corredor adentro, deixando só o fio de perfume pros pagadores de boleto que se aglomeram ao redor do guarda.

Ó piá, o gerente tá comendo essa. Filho da puta. Além do ar superior com que olha pra gente, ainda usa o trabalho pra comer as mais ambiciosas. E olha, elas gostam. São umas safadas, pontua o guarda. E tem mais, se fosse eu, faria o mesmo. Você também, garanto.

Senha 150. É o terceiro copo de água que tomo. O banco está abarrotado de gente. Vou procurar um lugar pra sentar até dar minha vez. Dor nas costas nessa idade, piazinho? Fico seis horas direto em pé e nunca me queixei. Veadinho. Há pouco tempo o banco tinha colocado umas 40 poltronas em frente aos quatro caixas. Conseguir sentar em uma delas era só se você chegasse pela manhã, na hora em que o banco estive abrindo. Deixei o guarda e me encostei na parede do fundo.

Todo mundo odeia esperar. Todo mundo odeia banco. Talvez só quando vão sacar grana no caixa. Aí tem gente que não consegue segurar um sorrisinho. Eu sei porque dá pra perceber tudo daqui de trás. Os mais pobres diabos, como eu, sempre estão com fones de ouvido. O banco é rotina, estão acostumados e né, quanto mais tempo aqui, menos no trabalho. Tem também os que não sabem o que é uma fila. Ficam indignados com a demora. Um desrespeito! Comentam em voz alta com os desconhecidos que estão mais próximos. Uns, mais exaltados e com um pouco mais de orgulho ou dinheiro, ameaçam ligar pro Banco Central pra denunciar a palhaçada. Toda semana tem um. No fundo são uns fodidos também. Se tivessem grana, estariam sendo atendidos lá no carpete vermelho.

Me distraio. A senha já é 175. Confiro no papel e me desencosto da parede. No meio do caminho até o caixa, todos ouvem gritos de mulher e barulho de vidro estilhaçando vindos lá da frente. Lembro das conversas com o guarda. Abro a mochila, pego um maço de cinquenta e escondo embaixo do boné.

O homenageado

 

Tempos atrás, estudantes do ensino médio de uma escola estadual entraram em contato comigo pelo facebook. Queriam me convidar para uma apresentação que fariam sobre meus livros de poesia. Segundo eles, a turma foi dividida em grupos e a professora pediu para que escolhessem personalidades da cidade na área da cultura ou do esporte. Um desses grupos me escolheu. Aceitei orgulhoso o convite. O evento seria dentro de algumas semanas e coincidiria com a gravação do podcast do qual participo, o Botecast. Seria corrido. Meu carro andava temperamental naqueles tempos, funcionava só quando queria. Para o bem da minha reputação de poeta pontual, seria melhor ir de outra forma.

A data do evento chegou. Foi marcado para às 19h. A gravação do podcast seria às 22h. Não levei meu carro para o conserto. Não procurei carona e já estava em cima do horário. Olhei para o possante, o fiz prometer que não me deixaria na mão e fomos para a escola. Estacionei próximo ao portão principal e entrei.

Um estudante veio me receber. Agradeceu minha presença e pediu para que eu aguardasse enquanto ela chamava as colegas e a professora de português. Nesse ínterim, no hall de entrada, atrás das fileiras em que professores, alunos e pais se acomodavam, permaneci atento à apresentação de um grupo sobre o folclore da região. Logo a professora chegou com as outras alunas. Algumas me perguntaram sobre onde encontrar meus livros à venda, outras pediram para que assinasse os exemplares que tinham encontrado pelos sebos da cidade. A coordenadora do projeto interrompeu nosso papo, pedindo desculpas e alertando que a apresentação sobre poesia seria a próxima.

Entramos em um auditório semivazio. No fundo do salão havia um suporte para projeções e atrás dele um enorme pano branco. Estavam todos além dele. Explico: o grupo anterior havia trazido alguns jogadores e o técnico da equipe de futebol do Operário Ferroviário que à época havia acabado de conquistar o acesso à Série C do Campeonato Brasileiro. A apresentação terminara e aparentemente todos os alunos foram para os bastidores tietar os atletas. Um frisson estava instalado. Havia fila para selfies, fila para autografar bolas, fila para abraço, fila pra perguntar como era ser jogador de futebol, fila para filas. A coordenadora me olhava constrangida e tentava, em vão, dissipar a aglomeração. Usava argumentos que, no fundo, nem ela acreditava que teriam efeito, como: “tá bom pessoal, agora teremos uma apresentação sobre poesia”, “é um escritor aqui da cidade”, “depois todos vão poder tirar fotos com os jogadores”. Temi, por alguns segundos, que uma bola voasse na direção dela.

Inúmeras frases sem efeito depois, os alunos foram se acalmando e voltando aos seus lugares com seus troféus devidamente registrados. A equipe iniciou a apresentação lendo alguns poemas e projetando as capas dos livros. Ao fim, me chamaram. Contei um pouco sobre a minha trajetória, falei da importância de eventos como aquele e agradeci a presença de todos. A apresentação seguiu. Entreguei alguns livros que haviam me encomendado e, antes de ir embora, ainda combinamos a realização de uma oficina de poesia na escola em breve. Entrei no carro crente que minha cota de constrangimento já estava garantida na noite. Elétrico engano.

Não previ que o carro pudesse não dar a partida. Havia um mínimo desnível entre a rua e o espaço em que estacionei. Tentei dar a partida várias vezes na esperança de que o temperamento da máquina mudasse. Nada. Abri a porta, olhei em direção à escola em busca de ajuda. Nada. Ouvia, sim, gargalhadas vindos do salão, meu senso dramático tinha certeza que eram pra mim. Passei a empurrar o teimoso até o asfalto. Eram aproximadamente três metros que, divididos em centímetros marcados a cada vez que colocava uma pedra para evitar o retorno do carro, levaram quase meia hora para serem vencidos. Amaldiçoei tudo em volta, escorreguei, caí. Sujo e suado venci.

Resignado, ainda comemorava o fato de incrivelmente ninguém ter visto a cena, quando olho por sobre o capô. Uma senhora, recostada na janela da casa em frente, me fita com um olhar cúmplice e de compaixão. Disse boa noite a ela, entrei no carro e desci a rua até o som do tranco do motor tirar minha dignidade do silêncio.

Cômodos

Com a casa cheia de gente desconhecida, eu me ancorei nas companhias familiares até a cerveja, aos poucos, me libertar para o mar aberto da multidão. Planejei uma incursão à cozinha para reabastecer o copo. Ela conversava com a amiga e um rosto familiar, que me puxou para o canto do cômodo e as apresentou. Antes mesmo que eu lembrasse quem era a figura que promovia a conversa, ela elogiou a festa e minha camiseta do Lou Reed. Agradeci o elogio à reuniãozinha, embora não tivesse ideia do que comemorávamos, e chamei de vez o vocalista do Velvet Underground para a roda, emudecendo a amiga e o sujeito do meu lado, que ainda me era estranho.

A noite em que nos conhecemos foi uma prévia de como seriam os nossos encontros seguintes, ela narrando viagens e situações carregadas de empolgação, e eu sinceramente atento, embora, às vezes, um tanto frustrado por não poder colaborar com nada além de interjeições, caras e bocas. Não demorou muito e as conversas passaram a ser na cama, intercaladas por suor, palavrões e maconha, com a diferença de que no quarto eu não era só ouvidos.  Ambos tínhamos a certeza velada de que, passada a fase do sexo, aquela relação não sobreviveria, o que em mim deu uma surpreendente sensação de urgência. Nos víamos quase todos os dias, invadíamos as madrugadas e poucas vezes havia contato com o ao ar livre. A ideia comum – acreditava eu – era gastar aquilo tudo, até o esgotamento completo, sem incomodar-se com o porquê de um estar na presença, ao lado ou dentro do outro.

Brevemente separados pela luz do sol, da minha parte, a urgência invadiu a rotina. Escrevia mais, bebia mais, fumava mais. Dormia pouco e consequentemente mal, mas tinha a impressão de que vivia como nunca. De início, como quase sempre, o sexo em ritmo industrial impedia a minha entrada em solos sentimentais. Assunto motivo de risadas arrogantes e curtas que ratificavam nossa diferença para os populares de fora do quarto. Até quando passei a ter flashes diurnos da voz dela separando as três sílabas do seu nome lentamente nos meus ouvidos ou das vezes que me pegava cantarolando músicas que referenciavam nas letras lugares que ela havia visitado. Devaneios românticos muito bem sustentados por bilhetes de poucas palavras que encontrava no meu quarto quando voltava depois de tê-la levado para casa.

Mas, com o tempo, nos intervalos em que as carnes se desgrudavam e a visão da janela dava de queimar os cigarros, o desgaste ficava nítido, não mais camuflado da necessidade de silêncio e distância pós-gozo, que só quem separa tesão de lirismo conhece.

Não me aflige pôr na minha conta a razão de o fim não ter chegado antes. Meu deslumbramento e acomodação davam contornos ainda mais nítidos à nossa de diferença de idade, pensamentos e ambições desencontrados que só confluíam naquela certeza prematura de que nós tínhamos data de validade. Em um sábado, tivemos a chance de acabar com tudo em uma discussão tão burra quanto curta. Ainda era dia e menos de cinco minutos depois de ter entrado e fechado a porta do quarto, já havíamos discutido e ela colocava o capacete novamente, desaparecendo da minha vista na janela da sala. Lembro que saí correr pela primeira vez na vida. Precisava pensar em movimento ou talvez porque meus pés já estivessem atolados em campo afetivo.

Voltamos a nos encontrar ainda mais alguns dias, mas deixamos a coisa minguar até a morte. Foi em um dia da semana, não daria argumento para filme algum. E como convém ao meu gênero e à minha geração, coube a ela o enterro.

Hoje, raramente nos vemos. Na última vez, conversamos um pouco, mas cada um de dentro daquela bolha de camada grossa, incômoda, misto de cumplicidade e resignação.

Antologia

Meus irmãos e eu nascemos em um galpão enorme e barulhento. Cheirava à cola e óleo de motor. Mal vimos a luz do dia, já fomos encaixotados e levados a para nossa primeira morada, no centro da cidade. Transportados em um caminhão, todos apertados uns nos outros, plastificados e mudos, não trocamos uma só palavra. Já em casa, um menino que aparentava ser muito novo nos livrou daquela embalagem e nos dispôs em uma longa prateleira. Fiquei apertado entre dois dos meus irmãos e tive a sorte de ser posto em pé, outros azarados ficariam de ponta cabeça até serem comprados. Dois felizardos completaram a fila também em pé e com a suas capasexpostas ao público. Eles nos narravam os acontecimentos que nossas visões limitadas pelas lombadas nos impediam de testemunhar.

Nenhum de nós tinha ideia de quanto tempo ficaria ali. E como não havia muito o que fazer, conversávamos muito. Logo esgotamos as conversas, afinal éramos literalmente uns iguais aos outros. A saída foi puxar papo com as prateleiras próximas. A fileira de cima era boa de prosa, meio poética, meio viajada. Não demorou muito e já tinha gente conversando com o pessoal de baixo, inclusive eu. Eram muito reflexivos e pareciam ter resposta para tudo. Estavam lá muito antes da gente e parecia que ficariam muito mais tempo ainda. Eu os achava sábios e por isso resolvi compartilhar a minha maior dúvida lhes pedindo ajuda: pela fresta de espaço que minha lombada permitiaenxergar, eu via uma ilha de livros bem à frente da nossa estante, todos os dias vários deles eram levados. Quem eram eles? Perguntei. Enigmático, um exemplar bem abaixo de onde eu estava disse que as pessoas levavam aqueles títulos da ilha pra casa pelo mesmo motivo que eu compartilhei minha dúvida, queriam ajuda. Não entendi, talvez eu também precisasse conversar com o pessoal ali da ilha.Não deu tempo.

Na mesma semana, na hora do almoço, uma moça apressada me tirou da estante e sem nem me folhear me levou pra sua casa. Não me despedi de ninguém, mas a imagem que tive ao ser retirado da estante e enfim poder ver o mundo de frente foi indescritível.

Curioso é que no instante seguinte em que me faltaram palavras, eu conheci o Aurélio. Era um livro enorme e tinha resposta pra tudo, falava coisas que eu não entendia, coisas que estavam muito além das que eu guardava dentro de mim. No curto espaço de tempo em que conversamos dentro da sacola da livraria, aprendi muito com ele. Entre outras coisas, falei que estava ansioso, porque enfim eu seria lido e confessei que nem sequer havia sido aberto. Aurélio disse que a leitura de cabo a rabo de uma obra é superestimada. Deu como exemplo ele próprio: disse que era muito melhor ser consultado com frequência por alguns segundos, a ser lido por inteiro e depois abandonado por anos. Concordei nervoso.

Ao chegarmos ao lugar que parecia ser a casa da moça, ela nos jogou no sofá da sala e foi tomar banho. Aurélio começou uma descrição interminável dos objetos que havia no cômodo. Do tapete à lâmpada, ele discorreu toda a sua sabedoria “verbetiana”. A casa era pequena e deu pra ver que após o banho a moça foi à cozinha, preparou rapidamente algo e veio comer na sala. Enquanto segurava o garfo em uma das mãos, com a outra folheava o Aurélio parecendo procurar alguma coisa específica. Repetiu algumas vezes sussurrando a palavra “escafandro” e jogou o livro pesado na mesinha de centro. Terminou a refeição e me levou para o seu quarto.

A primeira leitura de um livro é algo muito íntimo. O que posso dizer é que além de inesquecível, foi de uma vez só. Na época fiquei feliz e orgulhoso, já que me fez sentir interessante. Mas ao mesmo tempo lembrei das palavras do Aurélio e o medo de passar o resto dos meus dias empoeirado em um canto qualquer me atormentou.

A estante da moça era modesta, principalmente em relação à da livraria. Ela me acomodou na prateleira mais alta entre uma biografia e um livro de fotografias.

Conheci muitos livros nos meses seguintes. Todos relativizavam meu medo de nunca mais ser lido. Soube que alguns estavam guardados sem nem terem sido abertos! Outros diziam que era melhor passar os últimos dias ali a terminar tendo as folhas embrulhando qualquer coisa por aí. Repetiam como mantra. Havia também a esperança de ser emprestado. Ter uma nova casa e conhecer novos livros, já que a probabilidade de volta nessa situação é quase nula - me ensinou uma vez um livro didático. E assim aconteceu, em uma noite de festa, música e bebida a moça me emprestou.

Fui lido inúmeras vezes daquele dia em diante, sempre no regime de empréstimo. Sempre ciente de que nunca mais voltaria ao lar anterior. Um livro de piadas umas vezes me disse que até quem nos empresta no fundo sabe que nunca mais voltaremos, vai entender.

Voltas e voltas que me trouxeram aqui. SEBO, mostra o letreiro desbotado lá na frente. Há quem diga que é uma espécie de sobrevida para livros velhos e já cansados dos empréstimos. Olhando em volta tenho que concordar: “melhor aqui a terminar tendo as folhas embrulhando qualquer coisa por aí”. E olha que nem estou em estado tão ruim, me colocaram em um lugar de destaque, enfim com a capa à mostra. Uma visão privilegiada, que me permite ainda que de longe reconhecer o Aurélio mostrando para alguém o significado da palavra “reciclagem”.