Vida Crônica
Sobre gomas

Na minha frente, na fila do caixa tem um senhor. Ele pede vinte reais em chicletes. Goma, disse ele. Antes ainda de eu me espantar, ele olha e diz que nenhuma é para mim e que não adiantava nem pedir. Monto minha cara de resignação e procuro não dar nenhum tipo de procedimento à situação. Ele toma a sacola com as compras, junta as gomas com as duas mãos, guarda no bolso do casaco e vai embora.

O rapaz do caixa do mercado não corresponde a minha expressão curiosa imediatamente. Penso em insistir, perguntar se o homem costuma comprar aquela quantia de gomas, mas quase que de imediato desisto. Esse menino não está nem aí para o que as pessoas compram ou deixam de comprar. Ledo engano. Toda segunda-feira é isso, solta o garoto enquanto separa o meu troco. Pergunto se ele conhece a figura, responde que não, mas que está sempre andado por aí, sempre de cabeça baixa.

Pego minhas coisas e saio. Já na esquina vejo a mesma figura andando lentamente pela calçada. Em alguns segundos eu o alcanço, e, ao ultrapassá-lo, procuro um contato visual, algum tipo de olhar cúmplice, em respeito aos nossos “laços” recém-criados. Na verdade, um pouco arrependido por não ter interagido ainda no mercado com sua tentativa de brincadeira (?).

Ele não olha para mim, talvez por um provável problema na coluna, tem o andar lento e o corpo arcado, muito arcado, a ponto de mal tirar os olhos do chão. Passo por ele e ouço: trabalhei 30 anos numa fábrica de gomas. Olho em volta e por óbvio critério de eliminação concluo que a frase é para mim.

Volto um pouco e o acompanho no seu ritmo. E antes de eu responder a sua frase ele continua. Diz que foi empregado de uma fábrica que ficava ali perto, era grande, tinha muitos funcionários, era um trabalho digno que o sustentou por toda a vida. O salário era justo e podia mascar quantas gomas quisesse. Hábito esse que traz até hoje, ao contrário de seus dentes originais, que não aguentaram as décadas de trabalho insalubre.

Enquanto falava, em momento algum me olhou, manteve os olhos fixos no chão. Passei a observar a calçada também. O olhar do velho varria o passeio de forma que não parecia estar apenas concentrado em seguir seu caminho. Perguntei se ele sentia saudades de trabalhar na fábrica, e se comprar aquele número de gomas, além de hábito, era uma maneira de lembrar os velhos tempos. Me ignorou calado.

Poucos passos lentos depois ele quebra o silêncio, não consigo dizer quantas gomas eu masquei na vida, mas te garanto que nunca joguei uma sequer no chão. Foi quando me dei conta da situação da calçada em que andávamos. Centenas de gomas descartadas pavimentavam o cimento do nosso caminho. Daquele ponto, e durante os poucos metros que faltavam para terminar a quadra, andamos juntos e mudos. Ele agora com o olhar menos agitado e eu ainda mais pensativo.

Chegamos à esquina da minha casa. Vou por aqui, eu falo. Ele despede-se ainda sem nenhum contato visual, mas com o braço direito estendido. Na palma enrugada da mão uma goma de tutti-frutti.

 

Palavrárias

Você tem cinco minutinhos pra ouvir a palavra? Quero dizer, você tem cinco minutinhos pra ler a palavra da palavra? Sim, querida leitora e querido leitor. A palavra salva, principalmente se, estando ao lado de suas outras colegas, for bem compreendida. Mas e a palavra por si só, como obra social onipresente nas nossas vidas, você já reparou? A palavra tem poder, e melhor ainda, ela tem beleza.

Já iniciemos deixando de lado aqui a conotação de palavra como sendo texto evangelizador. Quero falar da palavra terrena. Pecadora, latina vulgar, portuguesa, brasileira.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa indica que “palavra” tem origem no latim “parabŏla", empréstimo do grego “parabolé”, significa “comparação”. Nossa musa nos permite nomear nosso mundo e nossa vida. Mas não é raro prestarmos mais atenção a o que nomeamos do que a ela. Geralmente ao nos tornarmos adultos, juntamente com outros encantamentos, deixamos de lado essa ligação com o porquê do nome das coisas. Na minha infância, havia dias que eu acordava e pensava, por que ‘hoje” chame-se “hoje”? Porque não “caixa” ou “jogral”? Sempre achei que “jogral” seria melhor.

É isso, preste atenção às palavras, elas têm força. Nunca deixe uma passar por você sem que antes saiba seu significado. O escritor Alberto Mussa em seu “Decálogo de leitor” alerta a o que inúmeros professores de português vêm dizendo por décadas; nunca leia sem um dicionário por perto. As palavras não estão onde estão à toa. Se imaginarmos a palavra “texto” como sua etimologia sugere, ou seja, algo construído, então não é de se surpreender que uma palavra mal assentada comprometa toda a parede.

A força da palavra também vem da capacidade de carregar na sua origem preconceitos históricos e sociais, além de ofender e desqualificar determinados gêneros, termos incompatíveis com a sociedade contemporânea. Infelizmente nesse quesito a atenção à palavra está muito longe de existir. Pelo contrário, há quem faça questão de não abandoná-las. É isso mesmo, não se engane, palavras são abandonadas, nascem, morrem, vão e voltam.

E a graça da palavra? Como tudo que se refere ao belo, aqui também se aplica: a beleza está nos olhos de quem lê. Embora muito do gosto que se tem por certas palavras venha também da sua pronúncia, temos nossas preferidas, as mimadas e bem guardadas, as prazerosas. Aqui aproveito para expor o uso equivocado, a meu ver, do termo “palavrão” como xingamento. Deveria se referir às palavras bonitas, sensuais: “lânguida”, baita palavrão hein? “Malemolência”, uau! Como dizia o Leminski, tesão de palavra.

Há também a palavrinha. O ‘nh’ que pode transformar uma palavra em carinho ou desprezo. Poeta, por exemplo. Antes de Vinícius de Moraes, “poetinha” possuía outra conotação. Hoje é no mínimo um agrado.

Só que de nada adianta só reparar nas palavras. É preciso usá-las, se expressar. Saramago dizia que se a gente não expressar o que sente, o sentimento acaba desaparecendo. Pois ao contrário do que significam e representam, as palavras belas ou feias, grandes ou pequenas, só existem quando as escrevemos ou dizemos.

As pombas e o tuim

 

Um casal de pombas fez lar na garagem da casa dos meus pais. Estacionaram sobre um varal de roupas em forma de sanfona que minha mãe instalou no fim do cômodo. E em meio a trapos e capas velhas de acento de caminhão, as aves construíram seu ninho.

Descobri no susto quando precisei daqueles trapos pra uma tarefa qualquer.  Fui lá mexer e uma pomba me fuzilou com aquele olhar marrom de quem mais teme que assusta.

            - Tem um ninho de pombas lá na garagem, mãe.

            - Eu sei. Não vai assustar os bichos.

Grande descoberta a minha. Ainda assim precisava dos panos. Com cuidado, violei o espaço da hóspede e arranquei um pelego vermelho de lá de cima.

Daí em diante, sempre conferia como andava o desenvolvimento do residencial. Volta e meia flagrava um graveto caído aqui, outro de pendurado acolá. O empreendimento parecia crescer apesar dos desperdícios.

Temia, a cada vez que estacionava o carro, cometer uma chacina familiar. Jovem família de aves é encontrada morta em garagem na Santa Paula. Motivo: asfixia por monóxido de carbono. Mas o Google me alertou que esses acidentes só ocorrem em lugares completamente fechados. O que não é o caso daquela garagem.

Duas coisas me despertavam a curiosidade: quando veria as duas pombas juntas e quantos seriam os herdeiros. Pesquisei a relação da espécie nessa rotina de gerar novas vidas, conseguir o ganha pão e ainda preocupar-se com a construção do próprio teto. Funciona assim, pombos são monogâmicos, uma vez escolhido, o parceiro é pro resto da vida, após construído o ninho e botados os ovos – variam de um a dois – o casal reveza na tarefa de incubação. Entre 17 e 19 dias, pronto, crianças na casa!

Até que em dois dias seguidos minha curiosidade foi sanada. Em uma manhã de descuido do casal, flagrei dois ovos minúsculos no ninho, olhei em volta e desci da cadeira rapidamente pra não ser flagrado em tamanha falta de privacidade. Na tarde do dia seguinte, enfim, pude conhecer a família completa em seu novo lar, lá estavam as pombas e os ovinhos desfrutando da vista pro quintal, conforme enalteceram os corretores.

Naqueles dias, li a crônica “História triste de mim”, na qual Rubem Braga conta uma história de sua infância. Passando férias no interior, ele recolhe de um ninho de joão de barro um filhote de tuim – espécie bem pequena de periquito. Adota o passarinho, cuida, perde e reencontra algumas vezes. Até que, já de volta à cidade, numa triste tarde, vê pistas de penas, sangue no chão e a sombra de um gato ruivo no muro. Adeus Tuim.

Lamentei o triste fim do periquitinho e lembrei dos pombos da garagem da minha mãe. “Dá crônica com certeza”, pensei. Na visita seguinte à casa dela, levei o notebook pra dar uma última olhada nas aves e escrever o texto ali mesmo.

Ao chegar, entre uma conversa e outra, minha mãe pediu pra eu ver algo que tinha aparecido no chão da garagem naquela manhã. Lá estava uma pequena e reveladora mancha de sangue.

- Ficou alguma coisa no ninho. Perguntei.

- Nada, nem penas.

Corri os olhos pros muros do quintal. Nada de gato ruivo também.

Poesia, letra e música

Semana passada, eu ouvi uma prova das músicas que farão parte do primeiro trabalho gravado da banda ponta-grossense A Coisa.  Nesse primeiro disco, há poemas meus que foram musicados e algumas letras que criamos juntos. Nossa parceria já rendeu um primeiro lugar no FUC regional e a terceira colocação na etapa nacional do mesmo festival, em 2013. Tanto os prêmios quanto a participação no trabalho de estreia d’A Coisa, além de trazerem muito orgulho, lembram também o motivo pelo qual eu comecei a escrever: a música.

Não sei tocar nenhum instrumento musical. Já tentei e percebi que não tenho jeito e muito menos disciplina para me dedicar ao estudo que a atividade exige. E pra quem sempre foi apaixonado por música, essa incapacidade era muito decepcionante. Foi então que passei a escrever letras de canções pra uma suposta banda que, quem sabe um dia, as aproveitasse.

Desde pequeno tive facilidade na lida com palavras, e na minha adolescência essas “letras” foram a forma de registrar esse momento estranho e repleto de dúvidas. Escrevia uma, duas, três, quatro por dia. Às vezes até arriscava criar melodias pra elas, mas logo me dava conta da total incompetência pra tarefa. No início, escrevia e as escondia do mundo em caixas de sapato. Depois de um tempo, passei a mostrar pra dois amigos antes de guardá-las pra posteridade.

À época, poesia pra mim era algo tão longínquo e sem identificação quanto os temas e os autores que via nos livros didáticos. Já a música tinha um poder de reconhecimento e pertencimento incomparável. Naquela idade eu ouvia basicamente rock brasileiro dos anos 80 e 90 e todos os temas que os artistas dessas décadas trataram me despertavam interesse.

E assim segui até meu grande amigo Jessé Vandoski, hoje vocalista d’A Coisa, me apresentar à biografia do poeta Paulo Leminski, escrita pelo jornalista Toninho Vaz. Foi a amor à primeira lida. A tal identificação nunca encontrada na poesia aprendida na escola estava quem cada página de “O bandido que sabia latim”. O poeta era curitibano, escrevia poemas curtos, brincava com ditados populares, usava e abusava das rimas, abordava temas próximos a mim e, principalmente, escrevia letras e compunha músicas.

Eu, que até então só via ligação de poesia e música quando tratavam Renato Russo e Cazuza como poetas do rock dos anos 80, me deparei com um mundo novo de inúmeras conexões entre as duas artes. Leminski foi parceiro de nomes consagrados da música brasileira, de Moraes Moreira a Ivo Rodrigues, do rock à MPB. Claro que o livro abordava em sua maior parte a verve literária do escritor paranaense, principalmente a poesia, isso me atingiu em cheio e pela primeira vez na vida passei a considerar os textos que escrevia como poemas, não mais “letras de música”.

Com o passar do tempo, descobri a vasta relação da música brasileira com a literatura, particularmente com a poesia. Motivo também de polêmicas, como a de que se pode considerar ou não os letristas como poetas, ou, letras como poemas. Ao mesmo tempo, descobri o prazer de ler poesia e de conhecer outros autores. Envelhecer e passar a ter diferentes interesses também ajudou nas descobertas literárias e poéticas que se seguiram.

Quando lancei meu primeiro livro, aquele sonho de ouvir meus versos escritos virarem canções e serem cantados por alguém aconteceu. Teve início minha parceria com A Coisa e desde então outras bandas e cantores também musicaram poemas de minha autoria. As “letras” daquela época de compositor adolescente ainda existem, guardadas não mais nas mesmas caixas, mas em outros suportes que mantêm as folhas em bom estado e o mundo preservado do seu conteúdo.

 

Gibis

Quando eu era criança lia muita história em quadrinho. Claro que na época a gente chamava de gibi. Esse também era o nome do doce de amendoim (ainda existe?). Eu tinha vários gibis, dos mais fininhos aos enormes almanaques. Lia compulsivamente e, quando não ganhava revista nova, relia todas as que já possuía. Algumas vezes eu reescrevia e redesenhava as histórias favoritas. Eu curtia mesmo.

Mais tarde, já com a internet, descobri que os quadrinhos eram coisa séria para muita gente. Mas as pessoas liam quadrinhos de super-heróis, que para minha infância era coisa de TV. Homem-Aranha, Super-homem, Hulk e Mulher-Maravilha eram personagens que passavam em programas da TV em dias de semana! E mais, havia uma briga entre os fãs de qual editora era melhor, Marvel ou DC. Mas então, se eu nuca havia tido contato com os quadrinhos de super-heróis, o que então eu lia quando criança? Walt Disney e Turma da Mônica, ué.

A Disney tinha uma infinidade de personagens. As histórias eram muito mais rocambolescas, o que de certa forma, atraía muito a atenção e também tinham o apelo de que também se podia ver aquelas figuras nos desenhos dos programas infantis, como na série Duck Tales. Ler as falas dos personagens imaginando suas vozes como as da televisão era uma experiência e tanto. Mas eu tinha um sério problema com o Mickey e seus amigos, eles falavam demais! Pode parecer uma contradição, gostar de ler gibi e não querer ler muito. Porém, os balõezinhos de fala eram enormes! Os diálogos eram intermináveis. E ainda, dependendo da história, havia o narrador. Sempre detestei os narradores.

A maior diferença entre os gibis da Disney e da Turma da Mônica era, para mim, a sensação de familiaridade que as histórias do Maurício de Souza passavam. Era muito mais fácil se identificar com os planos do Cebolinha ou com a fuga do banho do Cascão, do que se imaginar um sobrinho do Donald sobrevoando com o Capitão Boeing a África virgem.

Eu pirava na disposição das casas no universo da turma da Mônica. Não havia quadras nem ruas e os terrenos sem cercas e gradis. A possibilidade de a qualquer momento alguém aparecer pela janela da sua casa e te chamar era mágico para mim, embora hoje em dia pareça aterrorizante.

E os personagens? O Louco, por exemplo. Procure ver uma história dele hoje em dia. Faz muito jus ao nome. Tinha o Penadinho e todos os outros do núcleo dele. Tratavam a morte da maneira mais corriqueira possível, de forma que uma criança pudesse compreender, ou, pelo menos, se habituar. E tinha o Chico Bento. Qualquer um que já estivesse pisado em uma chácara, fazenda ou sítio entendia o que significava subir em uma árvore para pegar fruta, tomar banho de rio, pescar, etc.

A seção de cartas era outro diferencial, embora também tivesse nas revistas da Disney, nesse caso, ainda assim a identificação era maior. Nunca enviei uma carta, mas sempre imaginava como seria ter uma publicada, vai entender.

Tempos atrás, precisei pesquisar algumas tirinhas de quadrinhos para montar uma prova de interpretação de texto. Automaticamente a procura começou pelos personagens do Maurício de Souza. Relembrei de muita coisa. As crianças vão adorar, afinal, quem não gosta deles? No dia da prova, enquanto eu distribuía a avaliação, uma aluna me perguntou se eu não achava que eles já estavam bem grandinhos para interpretar a Turma da Mônica. Pedi silêncio corado.

 

 

 

 

 

Balanço Rússia 2018

Há duas semanas, na última crônica desta coluna, escrevi sobre as memórias que tenho das copas passadas. Pois bem, a participação do Brasil na copa da Rússia acabou e faltando menos de uma semana para o fim do torneio, digo aqui para vocês meus destaques dentro e fora do campo.

Como corintiano, já quero iniciar confessando que a minha relação com o professor Adenor é outra depois dessa copa. Não suportei assistir a quase nenhuma entrevista dele. O tom professoral e pastoral do técnico da seleção foi demais pra mim. Será que ele era assim no Corinthians? Não sei, mas foi triste assistir ao Tite pagando de escritor de autoajuda nas entrevistas e propagandas.

E a publicidade na copa? Os clichês de sempre estiveram devidamente presentes: ufanismo, patriotismo de araque, muita cerveja, refrigerante, verde e amarelo. Tudo sem graça nenhuma, com pouca criatividade e explorando as figuras dos artistas em destaque no Brasil de 2018. Mas uma propaganda em especial me chamou a atenção pela cara de pau. Entre outros momentos absurdos, em uma cena vemos chefes de cozinha empenhados em preencher com comida “feita com muito carinho” uma bandeja miserável de plástico e logo em seguida, ao som de um discurso de preocupação com o bem-estar e a qualidade de vida dos clientes, uma gestante retira delicadamente a mesma bandeja congelada de seu refrigerador. Isso mesmo, comida congelada e uma gestante, que tabelinha.

Por outro lado, criatividade não faltou na já conhecida capacidade do brasileiro de criar memes. Teve o canário mais pistola do mundo, o Neymar rolando por todos os celulares do país, torcedor psicopata, Tite caindo e Tite correndo. Mas para mim o melhor foi sem dúvida o meme protagonizado por Cristiano Ronaldo e seu filho, o espetacular “pai tenho fome”.

Como é em toda copa, as mesas redondas esbaldaram-se nesse mundial. Teve canal que contratou tanto ex-jogador para comentar, que não sei como fez para por toda essa gente para falar. Já a transmissão dos jogos, pelo menos na TV aberta, não teve muitas novidades e manteve a sua cota de vergonha alheia. Se em 2014 tivemos o Alex Escobar como narrador, 2018 nos trouxe Roger Flores para comentar os jogos. As primeiras narrações femininas em uma copa do mundo foram um destaque positivo. Isabelly Morais, da Fox Sports, foi a pioneira.

Então, no seu quinto jogo, a seleção brasileira foi eliminada da copa da Rússia. A derrota não foi humilhante como há quatro anos, mas talvez a sensação da desclassificação digna tenha doído mais. Para os mais velhos, sair da copa é relembrar daquele sentimento estranho de tristeza e desilusão. Dificilmente há algo de novo nisso. Já para os mais novos, talvez seja a primeira decepção numa copa. A primeira vez que passam pelo procedimento socio-midiático de criação de expectativa e de, em algumas semanas, sofrer esse choque que é a eliminação de um mundial.

Só que derrota dura mesmo, e pra todo mundo, é quando esses grandes eventos evidenciam a misoginia, o machismo e o racismo, como nos casos dos torcedores brasileiros e mulheres russas e dos recentes ataques ao jogador Fernandinho.

E, infelizmente, as demonstrações de falta de empatia, má-educação e ignorância, logo serão mais frequentes ainda, lembre-se, estamos a poucos meses das eleições. Tenho a impressão que a sensação de derrota e desilusão não nos deixará muito cedo, nesse caso, seja quem for o vencedor.

Lembra daquela copa?

Em algum momento dos anos 90, dentro da faixa de programação que a TV Globo chamava de “Terça Nobre”, eu assisti a um especial que contava a história da relação entre um grupo de amigos e a copa do mundo. Na festa de comemoração do título de 1970, eles prometem que estarão reunidos em todos os mundiais dali para a frente. Da promessa adiante, por vários motivos, o grupo não conseguiu reunir-se nas copas seguintes, só cumprindo a promessa em 1994, “ajudando” o Brasil a conquistar a taça nos EUA.

Como dá para perceber, o enredo não tem nada de especial. O que me pegou, foram as mudanças (ou não) nas vidas dos personagens daquela história. Perdas, frustrações, metas alcançadas, relações terminadas, enfim, tudo que nos leva a entender que o tempo passa, e rápido. Algo que dificilmente a gente mensura quando é criança.

Pois bem, desde então eu faço esse exercício, quais são as maiores memórias da minha vida em épocas de copa do mundo? Geralmente, são os ouvidos dos meus amigos que são as vítimas da minha nostalgia, neste ano, será você, leitor.

Não sei se as imagens da seleção de 82 passaram pelos meus olhos, se passaram, posso afirmar que não foram registradas. Com um mês de vida, dizem que a gente só enxerga borrões. Só tenho mesmo um certo orgulho de ter nascido no ano em que aquela seleção emocionou tanta gente. Também não tenho memória de 86, provavelmente estava comendo terra enquanto o Zico perdia aquele pênalti.

Já sobre 1990 a coisa é diferente. Lembro de um clima pesado na minha casa e nos noticiários da TV. Um baixo-astral generalizado. Acho que o baque do Plano Collor ainda doía. E sobre aquela copa, quatro nomes ficaram na minha cabeça: Lazaroni, Dunga, Maradona e Caniggia.

O primeiro título mundial a gente nunca esquece. Em 1994 eu tinha 12 anos e curti pela primeira vez todos jogos do Brasil. Todas as imagens que hoje se repetem daquela campanha eu lembro nitidamente. A final eu assisti na chácara do meu tio, lá para os lados de Palmeira, lembro de alguns poucos foguetes e de, logo depois do chute do Baggio, meu pai nos colocar dentro do carro e virmos para casa. Eu tenho tanta lembrança da copa, que esqueci do meu mundo além disso. Só me recordo que na época ainda estava meio chocado com a morte do Senna.

O dia 12 de julho de 1998 tinha tudo para ficar marcado como o dia do meu primeiro porre, mas Zinedine Zidane assim não o quis. Pior que isso, antes de provar a sensação da bebedeira, eu aprendi o que era uma ressaca. Lembro da cara de bocós que ficamos meus amigos e eu, prontos que estávamos para ir para a “cidade” comemorar. E só para constar, o porre foi adiado só por alguns meses.

Em 2002 eu namorava. Que frase, que fase! E não por coincidência, assisti a todos os jogos, exceto a final, com minha mãe e minha irmã. As madrugadas em que todo mundo da minha idade pirou por aí, eu passei comendo pipoca embaixo de cobertores. Já na final, perdi o primeiro tempo por estar “namorando”, sabe como é, friozinho, domingo de manhã. Mas a comemoração do título foi, mais uma vez, discreta.

Tudo o que não festejei nos títulos de 1994 e 2002, eu descontei nos jogos de 2006 e 2010. O que acredito ser o motivo das poucas memórias da época. Talvez sob a má influência do time de 2006. A vida era uma festa e assistir à seleção era só mais uma desculpa.

Na copa de 2014 a seleção brasileira estava em casa e eu também. Foi o primeiro mundial que vivi morando sozinho. E com experiência das duas copas anteriores, a coisa foi intensa. Naquele ano, um 7x1 pessoal começava a pesar menos. Curiosamente, assisti ao “Mineirazzo" na casa dos meus pais, com minha irmã, minha mãe, mas sem pipoca, pelo menos deste lado da TV.

E deste ano, quais memórias terei? Claro que ainda é cedo para dizer em relação à campanha da seleção. E sobre o que vivemos no momento é sempre melhor falar alguma coisa com um distanciamento de tempo, quatro anos neste caso. O certo é que direi que lá na época da copa da Rússia e eu publiquei minha primeira crônica sobre copas do mundo. Bom sinal? Leia em 2022.

O caminhoneiro 2.0

O gigante acordou novamente. Mas desta vez, parou em um posto de beira de estrada, comeu um prato feito, tomou uma cerveja e não funcionou mais o caminhão por dez dias. Durante esse tempo, a histeria foi a única coisa que não faltou no país.

Teve de tudo, gente que torceu por um grande “Mad Max” tupiniquim, batata a preço de ouro, gente à beira da loucura por não ouvir o som de um motor de combustão, a alegria do “nosso dia chegou” dos ciclistas, teve o apocalipse anunciado pelas trombetas do WhatsApp, pedidos por intervenção militar e, pasmem, até gente apoiando greve!

Há quem pense que a personagem principal desse caos todo tenha sido a gasolina. Volátil engano. O protagonista da semana passada foi o caminhoneiro. Estava bem ali, todo mundo viu, mas ninguém prestou atenção direito.

Indo além das questões ideológicas e políticas, essa figura - que todo brasileiro acha possuir na “gabine” do seu “bruto” um altar para a Sula Miranda e para o Amado Batista - é rica em imagens caricatas e tem um dos estereótipos mais conhecidos entre os brasileiros. Mas será que o caminhoneiro de 2018 é mesmo a imagem daquele tiozinho de boné e de pança de fora ouvindo sertanejo na boleia do seu caminhão?

Claro que é. Só que com alguns novos detalhes. Em tempo, você deve estar se perguntando “quem é esse aí que sai fazendo perfil da nossa querida classe de estradeiros?”. Pois bem, não digo que meu pai é caminhoneiro desde que me conheço por gente, porque esse meu reconhecimento é constantemente posto em cheque, mas meu velho é sim representante da classe, e há 40 anos.

         Dada essa carteirada de especialista, continuemos. O caminhoneiro passou por um processo de atualização, modernizou-se sem dar as costas à tradição (em alguns pontos, infelizmente). Se pensarmos no motorista de caminhão raiz, sem dúvida a novidade dos últimos anos é o smartphone.

         Lembro que na minha infância, meu pai assistia aos domingos de manhã um programa chamado “Clube Irmão Caminhoneiro Shell” (risos), além de ser um clube mesmo (tinha carteirinha e tudo), era um almanaque eletrônico do trecho, tinha de cotações de frete às competições entre os motoristas (bizarras demais para o meu subconsciente não suprimir). Embora eu ache que o programa ainda exista, hoje o caminhoneiro não precisa dele, se informa e se entretém pelo celular, seja pesquisando ou recebendo as informações pelo “Zap”. O que nos leva a um parágrafo exclusivo.

O mau uso do WhatsApp, não só pelos caminhoneiros, mas por qualquer pessoa, para divulgar boatos, fakenews e todo tipo de mentira é notório, perigoso e ainda vai piorar muito até as eleições. Mas o foco aqui é o lado bom da coisa. Veja só, usando apenas um exemplo, as mensagens instantâneas acabaram (ou diminuíram muito) com aquela cena do pai de família há semanas na estrada, ligando para casa de um orelhão em um posto qualquer. É só mandar aquela mensagem, nem ligar precisa, e de quebra, ainda envia um vídeo daquele cara tentando cantar em inglês.

A internet e as redes sociais trouxeram à tona o lado artístico e youtubber do caminhoneiro (que vontade de escrever camioneiro). Já recebi vídeo de tutorial de costela assada em motor de caminhão, de danças performáticas ao som de “Berlin” e “Kid Abelha”. Já não são tão dependentes dos clichês sertanejos. E aquelas revistas marotas então? Certamente só restam como nomes de grupos do WhatsApp.

A parte mais séria da questão é que se, por um lado, a greve dos caminhoneiros nos mostrou o quanto a classe anda se apropriando das novas tecnologias para sua informação e comunicação, por outro, deixou evidente o atraso do país em depender tanto do transporte rodoviário. Mais uma contradição para a conta do Brasil.

 Uma coisa que eu já ia me esquecendo, o GPS é a única facilidade que a tecnologia digital trouxe e que é completamente descartável para o caminhoneiro, quem já conversou mais de meia hora com um sabe do que estou falando.

 

Língua mãe

Em 2010, na época do lançamento do meu primeiro livro, “distâncias do mínimo”, tive o prazer de conhecer o professor Hein Leonard Bowles, editor-chefe da TODAPALAVRA. À época, ele havia acabado de lançar seu grande livro “Jacu Rabudo”, que trata com muita propriedade e humor da linguagem coloquial falada em Ponta Grossa. Gentilmente, ele me presenteou com um exemplar.

Lembro que ao ler pela primeira vez aquelas palavras e expressões, imediatamente veio à memória minha mãe. Apesar de ter nascido na cidade de Palmeira, ela é profícua em usar verbetes dignos de pertencerem à pesquisa do professor Hein.

Minha irmã e eu obviamente já estamos habituados a grande parte do léxico, digamos, característico, da nossa progenitora, embora até hoje ainda nos surpreendamos com uma palavra ou outra. Mas desde aquela já longínqua primeira leitura do Jacu Rabudo, passei a prestar mais atenção aos termos curiosos proferidos por ela. Separei dez para vocês conhecerem. Me perdoem o gênero masculino da maioria dos verbetes, mas como quase todos já foram dirigidos a mim, a identificação facilita as descrições.

Espicula – Gente curiosa. Não da forma boa, ou seja, de quem quer aumentar seu nível de conhecimento, e sim de quem se importa demais com a vida ou assuntos alheios. Pessoas espiculas vivem se intrometendo, fazendo perguntas deselegantes ou com a cara pelas frestas das janelas e das portas. Tem uma variante: “da miúda”, o ser espicula portador dessa mutação eleva a padrões compulsivos sua bisbilhotice.

Guaramputa – Quase autoexplicativa. Um xingamento que deixa a critério do nível de ódio do falante a sua carga semântica, ainda que as quatro últimas letras sejam sugestivas.

Arsado – Desprovido de inteligência. Que possui dificuldades cognitivas. Aparvalhado. Não se faça de arsado, você entendeu.

Consoante – Não é tão fácil quanto parece. Embora o significado que minha mãe dê a essa palavra esteja no dicionário, não se refere aos fonemas tão amados pelas línguas escandinavas. Aqui, consoante é parecido com algo, de igual valor, em harmonia com alguma coisa ou alguém. “O que você aprontou hoje é consoante com o que fez ontem”.

Traia – Talvez o verbete mais popular deste vocabulário. Pessoa de pouca valia. Sem caráter. De gênio ruim e que, em regra, não se dá conta disso. Muitas vezes confundido com personalidade forte, geralmente por quem o é.

Estrambólico – É o que mais tem por aí. Algo ou alguém estranho, esquisito. Exótico, excêntrico. Fazendo uma associação com a cultura pop contemporânea, os episódios da série Black Mirror, por exemplo, são muito estrambólicos.

Não estar católico – Calma, eu explico. É uma expressão de quem tem pouca fé. Desconfiança. Crendo que apenas quem segue a Santa Madre Igreja tem plena certeza das coisas. Sinônimo também de má qualidade. “Não sei não, esse café aqui não está muito católico”.

Sanápio – Quando minha mãe aprendeu essa palavra, provavelmente não imaginava que em pleno século XXI haveria, enfim, um habitat criado especialmente para o sanápio. As redes sociais são criadouros dos mais diferentes tipos de sanápio. Gente chata, sarna, mal-educada, insuportável.

Morfioso – Uma espécie de guaramputa, só que um pouco maquiavélico, com um ar tenebroso, beirando o macabro. Vendo aqui a definição do dicionário até arrepia: “Quem tem a orelha muito pontuda para cima”. Duende?

Esfainado – Na minha infância vinha sempre antes de “parece que posou amarrado!”. Criado por alguém, que, de tanta fome, não conseguiu dizer que estava esfomeado.

Vasco – Essa é particularmente especial. Segundo minha mãe, era o nome de um senhor que morava próximo a casa dos meus avós. A característica mais visível do Seu Vasco era a sua insuportável e gigantesca letargia. O homem era realmente lerdo. Devagar, praticamente parando. Então, meu avô, neologista que era, tomou a alcunha do pobre-diabo como sinônimo de lentidão. Palavra ouvida sem moderação desde que minha mãe era pequena, entrou fácil para seu dia a dia, e, consequentemente, para o meu também. Escutei muito. Me identifico.

 

Os brasileiros e a crônica

O Brasil nasceu pra ser o país da crônica. A crônica do tempo, dos costumes, do cotidiano. Nada de relatos intermináveis, narrativas modorrentas de acontecimentos homéricos. Esqueça as grandes aventuras e fantasias. Me refiro a nossa crônica, a que está no detalhe, no pequeno, no menor, no despercebido esfregado na nossa cara diariamente. No causo, na lorota, na mentira, na fila da lotérica, no jogo da segunda divisão. A crônica está no ridículo da simplicidade. Sua matéria-prima é simples, nunca superficial. Pelo contrário, seu intuito é escancarar a riqueza dos detalhes que a luta pelo supérfluo nos impede de enxergar.

Rubem Braga, talvez nosso maior cronista, dizia aos que o perguntavam sobre a sua técnica de escrita, que não sabia bem, que aprendera de ouvido, que seus textos eram palpites de tudo que percebia. Ele era mestre em escrever sobre o nada. O poeta e amigo Manuel Bandeira, dizia que Braga, quando tinha assunto era magnífico, mas quando não tinha era ainda melhor. É nosso maior cronista dando a receita: a crônica está no vulgar, no banal.

Nosso país é a terra da crônica. Nosso povo e cultura são fontes inesgotáveis destes valiosíssimos pormenores. Ou, então, o que explicaria este lugar que proveu um panteão de cronistas dos mais variados assuntos e estilos? Do porquê de tudo de Clarice Lispector à graça das coisas de Martha Medeiros, do Popular de Luiz Fernando Veríssimo ao Macho-Jurubeba de Xico Sá, do Rio de Janeiro de Nelson Rodrigues a Curitiba de Luiz Henrique Pellanda.

Todos os grandes escritores brasileiros já escreveram crônica. Mesmo que alguns sejam reconhecidos pela excelência na escrita de outros gêneros. Uns com mais, outros com menos competência. E por quê? Ora, todo o escritor sente a necessidade de registrar a passagem do tempo, a mudança dos costumes e do seu povo. Você pode enxergá-la como algo descartável ou como uma Polaroid dos tempos em que foi escrita. Eu fico com a segunda.

Quem sabe pelo seu caráter aparentemente descompromissado e por tratar de assuntos corriqueiros, a crônica brasileira já foi muitas vezes considerada como um gênero menor na literatura. Há quem a veja sem a pompa da poesia ou do romance. Pensar assim é chancelar o recorrente e conhecido sentimento de vira-latas - termo criado por Nelson Rodrigues -, é, mais uma vez, destinar uma criação original brasileira a um papel inferior ou sem importância.

Além do mais, somos um fenômeno também se considerarmos os milhões de cronistas orais que temos por aí. Todo mundo conhece alguém que sabe contar um causo, que domina a arte de narrar a vida do dia de semana, que consegue emocionar uma plateia apenas descrevendo uma lembrança. Seja após uma refeição, em um velório, batismo, hospital ou bar, seja com poesia, humor ou tristeza. As crônicas brasileiras também estão nas músicas, nos poemas, nas histórias, no cinema, em tudo que nossa cultura produz.

E se você não conhece ninguém que se encaixa nas descrições acima, ou, se conhece e assim mesmo, acha que estou exagerando, olhe para você. Relembre quantas vezes já contou situações que viveu ou presenciou por aí, seja para um confidente ou para recém-conhecidos. Puxe pela memória ocasiões em que, introspectivamente, se encantou com um detalhe brilhante, uma pedra preciosa encrustada na sua rotina. A reflexão que essa sensibilidade causou, ou ainda, lembre quando abriu aquele sorriso espontâneo ao se pegar numa ação cômica de um hábito suspeito. Mas se mesmo assim, nenhuma palavra acima tenha despertado em você alguma identificação, comece agora, procure reparar a sua volta. Tente, atente. A vida é crônica.