Vida Crônica
Supermercadofobia

            É fácil, pão, leite e queijo. Fica tudo mais ou menos perto. E contando com a sorte – que anda sumida -, não vai encontrar ninguém. Vai levar 5 minutos. Nem fila no caixa vai ter. Coragem, rapaz! Quem vai ao mercado às 15h?

Aparentemente muita gente. Na verdade, não há horário seguro quando o assunto é supermercado.

Pegou uma cestinha, traçou mentalmente a rota mais rápida e foi pelo corredor que desembocava direto na padaria. Avistou de longe uma fila, diminuiu a passada já prevendo a morte de preciosos minutos. Ainda deu tempo de um senhor que surgiu por dentre os pacotes de arroz entrar na sua frente. Com o matusalém dos cereais, eram cinco na sua frente. Enquanto aguarda, se deu conta que havia esquecido os fones de ouvido, erro crasso. Antes mesmo de se lamentar, ouviu a conversa entre as mulheres que estavam à frente na fila. Reclamavam em volume alto que o supermercado não respeitava os clientes, deixando só uma “mocinha” pra atender na padaria. On-de-já-se-viu? Distraiu-se com o celular, quando matusalém o cutucou e lhe cedeu a vez. Exigente, queria o pão quentinho e preferia esperar a próxima fornada que sairia em 15 minutos – afinal, tinha todo o tempo do mundo. Pediu seus quatro pães, a “mocinha” os colocou num saco e o despachou numa eficiência fordista.

O leite ficava em um corredor próximo. Jogou duas caixas na cesta e partiu em busca do próximo laticínio. Este já demandava cuidados, as bandejas de queijo ficavam ao lado do açougue, de longe o lugar com maior probabilidade de se encontrar alguém. Tal como um araponga de chinelos, disfarçou simulando interesse nos temperos, enquanto tentava enxergar à distância se havia conhecidos ao redor do balcão das carnes e na fila. Nenhum rosto familiar. Aproximou-se do balcão dos frios e com uma só mão pegou uma embalagem com o queijo e uma com presunto também, já que estamos aqui – pensou. Virou-se altivo e encorajado. Salvo o imprevisto da fila na padaria, tudo havia ocorrido como planejara. Agora viria o momento mais tenso: atravessar toda a extensão do supermercado de forma rápida, sem parecer estar roubando algum produto, e enfim alcançar os caixas. Deu mais uma olhada ao redor e partiu.

Já na primeira interseção entre o fim do corredor e o início de outro, o pior aconteceu.

De tudo que poderia acontecer dentro de um supermercado, o que mais o apavorava era a possibilidade de encontrar alguém conhecido, alguém que não tivesse contato já algum tempo. Haveria aquela conversa genérica que não leva a lugar nenhum, perguntas que só emulariam interesse, “como você está?’, “o que tem feito?”, “onde está morando?”, coisas do tipo. E agora estava ali, exatamente na situação que temia.

Marcelo havia estudado com ele na faculdade, após a formatura nunca mais haviam se visto, até a tarde daquela terça-feira. Era arrogante, falador, e enquanto seguia à risca o protocolo social de reencontros imprevistos, tinha os olhos nervosos entre a cesta e as roupas do ex-colega.

Depois de um sem número de respostas monossilábicas, livrou-se de Marcelo dando um número falso de telefone e jurando que não tinha perfil em nenhuma rede social. Prometeu que manteriam contato, pediu desculpas pela pressa e partiu mais uma vez em direção ao caixa.

Havia uma pequena fila quando chegou, enquanto aguardava percebeu que nos outros caixas a situação não era diferente, resignado, tirou o celular do bolso e checou as mensagens. Parou a digitação quando ouviu a senhora da sua frente dizer que ligaria para a filha pedindo o número do CPF que havia esquecido. Soltou todo o ar dos pulmões e instintivamente olhou para trás. Marcelo vinha em sua direção com a cesta cheia de produtos e um sorriso cheio de dentes.

 

As minhas bibliotecas

Estudei todo meu ensino fundamental numa escola que ficava a menos de uma quadra da minha casa. Dentre todas as vantagens que essa distância poderia proporcionar, a que mais agradeço até hoje foi de poder visitar a biblioteca escolar na hora em que quisesse. Poder sair de casa cinco minutos antes começar a aula não é lá muito vantajoso para o futuro de uma criança e não precisar comprar lanches no recreio, já que minha mãe podia me levar uma bolacha que fosse, era muito mais do interesse dela do que meu.

Eu estudava à tarde e, criança ansiosa, acordava todos os dias às 7h. Antes mesmo do Xou da Xuxa começar eu já estava lá na biblioteca da escola, de pijama muitas vezes, revirando as estantes para o desespero da bibliotecária, que por incrível que pareça, não curtia muito que crianças ficassem bagunçando seu acervo. Uma vez estourei o prazo de entrega de um livro. Coisa de mês. Na minha cabeça, a multa era astronômica, passaria provavelmente o resto da vida pagando. Mandaram um bilhete por mim para a minha mãe. Não sei bem o que aconteceu, mas foi a primeira vez que uma dívida minha caducou por falta de pagamento.

A partir da sexta série, já morando em outro lugar e consequentemente frequentando outra escola, minhas visitas à biblioteca rarearam. Os professores não nos levavam para lá nos horários de aula, porque, segundo eles, virava bagunça. Estavam cobertos de razão, só que dessa forma, o único horário possível para se poder emprestar um livro era o recreio e nesses 15 minutos mágicos a biblioteca era fechada. Parecia planejado. Mesmo assim, no contraturno eu fazia minhas visitas e trazia para casa alguns livros.

Minha experiência com a biblioteca do ensino médio foi pitoresca. O lugar era enorme, tinha milhares de exemplares. Mas como meu curso de eletrônica (!) exigia muita leitura técnica, não pude me dedicar tanto à literatura, li pouco mas li bem. Além disso, o lugar tinha uma videoteca, nada além de um microauditório, com uma TV de 29 polegadas (!) e um aparelho de DVD. Nós reservávamos a sala, tomávamos algumas providências para que a sessão ficasse ainda mais atraente e entrávamos assistir, na maioria das vezes, o dvd do show The Song Remains The Same, do Led Zeppelin. Um paraíso, Borges ficaria orgulhoso.

Só visitaria a biblioteca da UEPG ao entrar no curso de História, isso cinco anos depois de sair do colégio. Nesse ínterim, por culpa da verve itinerante da biblioteca pública municipal de Ponta Grossa, eu passei a frequentar os sebos da cidade, um em especial existe até hoje e fica próximo de onde era o antigo Rei das batidas. Nos intervalos do almoço, eu esmiuçava as prateleiras e gôndolas. Voltava para o trabalho sempre com algum volume a tiracolo.

Gosto de dizer por aí que larguei de história porque lia mais romances do que as leituras necessárias para o curso, e que por esse motivo fui estudar Letras – na época isso parecia ter lógica. Independentemente da licenciatura que cursava, frequentei pouco a biblioteca da UEPG e nunca tive tino para pesquisador, infelizmente. Mas como no ensino médio, os parcos empréstimos que fiz na universidade foram importantes.

É claro que com o tempo passei a formar a minha própria biblioteca. Na casa dos meus pais, os livros ficavam amontoados num canto, sobre uma mesinha. Já morando sozinho, orgulhoso, comprei uma estante para eles. Entre penduricalhos, DVDs, CDs e lembranças de viagens que não fiz, consigo identificar várias crônicas nas histórias de como cada obra veio parar aqui. Textos que ficarão para outro dia, hoje eu quero ver se esse dvd do Led Zeppelin provoca o mesmo efeito.

Videogames

Eu devia ter uns 8 anos, ou menos. Meu pai chegou em casa com uma caixa com detalhes coloridos. Sob os olhares desconfiados da minha mãe, instalou e me ensinou a ligar meu primeiro videogame. Um Dactar. Confesso que as memórias são poucas. Só lembro com certeza que eu jogava River Raid e que das duas alavancas que o console tinha, uma ligava e desligava o aparelho e a outra reiniciava o jogo. Tinha também o olhar de reprovação da minha mãe, mas isso eu explico mais pra frente.

Tudo corria bem – a essa altura eu também já tinha ganhado o cartucho do Enduro –, até que um dia o Dactar não ligou mais. Meu pai agiu rápido. Levou o dito cujo para a assistência técnica. Autorizada? Não. Não havia ainda esse tipo serviço em Ponta Grossa. Lembro de entrar junto com meu pai na loja e ao deixar o aparelho, o homem atrás do balcão dizer pra eu ficar tranquilo, que logo estaria me divertindo com meus joguinhos eletrônicos novamente. O Kleber da primeira infância sentiu-se muito seguro.

O fato é que eu nunca mais vi aquele videogame. Não sei se o reparo era muito caro, se meu pai nunca mais voltou lá porque não quis mesmo ou se o homem lá de trás do balcão deu o golpe nele. Pensando hoje, acredito que a última alternativa parece mais provável. O nome da assistência era Pica-Pau. Tinha logo acima da porta de metal um desenho do personagem, vesgo e com um charuto na boca. Inesquecível.

Até meus doze, treze anos, jogava esporadicamente na casa de vizinhos até que descobri as locadoras. Elas surgiram como um negócio de alugar jogos, mais ou menos como as locadoras de filmes, mas logo tornaram-se outra coisa. Nos anos 90 eram uma febre, elas cobravam por hora jogada. Possuíam várias TVs com seus respectivos videogames instalados, colocadas lado a lado. Muitos sofás e um atendente que geralmente tinha um pouco mais idade que a gente e era muito invejado. Afinal, ele tinha acesso a todas as novidades e podia jogar o quanto quisesse. Era um entretenimento relativamente barato, principalmente se, assim como eu, você não jogasse sozinho. Frequentei durante muito tempo as locadoras de forma saudável, digamos assim, até descobrir que se eu não fosse pra aula, poderia ter mais tempo para os meus tão queridos jogos. Aí a coisa degringolou.

Uma vez minha professora de matemática, Dona Marlene, que Deus a tenha, pediu para a diretoria da escola ligar lá em casa, porque, segundo ela, eu não pisava na aula dela havia duas semanas! Juro que não era verdade. Talvez eu só tivesse faltado justamente nas aulas dela. Não lembro bem, mas eu jamais ficaria 15 dias sem ir pra escola para jogar videogame. De onde tiraria tanto dinheiro? Minha mãe não acreditou em mim, obviamente, e juntando a gravidade da situação com um ódio já predisposto aos jogos eletrônicos, me proibiu de frequentar “esses lugares” e ficou no meu pé em relação às faltas na escola.

Minha mãe nunca gostou de videogames. Ela faz parte da geração de progenitoras que achava que esses aparelhos de alguma forma “estragavam” as TVs. E foi por isso que depois do meu Dactar lá dos anos 80 eu nunca mais tive um videogame, enquanto não tive um TV só minha, claro.

Depois de adulto tive alguns consoles, mas os jogos passaram a concorrer com outros interesses e acabaram ficando um pouco de lado. Ainda gosto muito de videogames, apesar de não ter um, sempre jogo na casa de amigos. E embora não seja problema para minha geração dizer que joga, achei uma maneira de condizer minha idade com a gosto pela coisa. Sou um senhor que quando a pergunta é “você curte videogame?” a resposta é rápida: gosto, mas só jogo futebol.

Caixa Livre

Cena 1

            Quando o som de alguma coisa é tão frequente na nossa vida, a gente passa por várias fases na relação com ele. Eu e o bipe da leitora de códigos de barra já estamos na última etapa do relacionamento, ou seja, eu praticamente não ouço mais. No início quase enlouqueci, ficava querendo achar tons diferentes num bipe que é desgraçadamente igual independente do que você passa na leitora. Tinha dias que ela acordava com a pá virada, não lia nada. Fosse um código recém impresso ou um iogurte com a tampa rasgada. Nada. Ignorava minhas passadas completamente. Eram dias intermináveis, assim como a digitação dos números dos códigos. Mas hoje nos suportamos, ela na dela e eu na minha. Além do mais, nem consigo imaginar como as meninas de tempos atrás conseguiam digitar todos os preços.

            Mas sem a luzinha do laser pra ler o código não dá. O fiscal de caixa mexe como se fosse adiantar alguma coisa. É fingimento, mas eu entendo. Não dá pra chegar aqui, não tentar nada e dizer pras pessoas que estão na fila há mais de vinte minutos, que o caixa quebrou e que por favor, dirijam-se a outro. Outra coisa que não ligo mais também. Cara de cu de cliente na fila. Mercado é assim, filho, quer rapidez vai na padaria, aqui demora mesmo, tem fila. O pior são as caras e bocas que fazem quando a gente começa a conversar de um caixa pra outro. Oito horas por dia num quadradinho desses e a gente não pode trocar umas palavras de vez em quando? Gente que tá na fila odeia ver quem tá no caixa rindo. Ele tá fudido esperando e quer que você também fique. Esconda esses dentes aí escrava. Depois querem que a gente ache engraçadas as piadinhas que soltam quando passam três caixas de cerveja nove horas da noite de um feriado. Burro. Mas é isso, Gilmar, vai ter que ser assim, vai ter que falar pros clientes que vão perder mais meia hora da sexta-feira de carnaval deles na fila.

            Antigamente isso não acontecia. Toda vez é assim. Toda vez que alguma coisa enguiça a Marisa diz isso. Seja o computador mais moderno ou um esfregão velho. Ela tem essa mania de achar que, só porque tá no mercado há 17 anos, as coisas de antigamente eram melhores. É também uma desculpa pra se queixar quando não consegue operar alguma coisa que tenha mais de três botões. Mas aguentar ela tagarelar é como o bipe, com o tempo a gente acostuma.

            Já a cara do supervisor olhando a gente como se eu tivesse quebrado a leitora só pra ficar dez minutos de “varde”, com isso eu nunca me acostumo. Júlio. O cara é um insuportável. Deve ser escrito lá no anúncio da vaga dele: supervisor de atendimento, exigências: não usar o “S” no final das palavras e xaropice extrema. Que saudades do Marcos! Era ele quem mandava na gente quando eu entrei aqui, há quatro anos. Mandaram ele embora porque deixava as operadoras irem ao banheiro sem precisão. Vê se pode. Ele era um amor. Mais cuidava que mandava na gente. Só que tinha a Marlene, que diziam que ele cuidava além da conta.

            Agora tá esse aí, nem falar direito sabe e acha que tem o rei na barriga. É a segunda vez na semana né Kelly, as leitora estão com problema com você! Odeio quando quer dizer uma coisa e não diz, fica fazendo piadinha em vez de falar de uma vez. Mas eu não estou nem aí, enquanto o menino da informática troca a máquina eu posso ir ao banheiro sem culpa.

 

O estrangeiro

 

 

Estava um pouco atrasada, alguns minutos que pra mim não fariam a menor diferença, mas imaginei que se chatearia com a perda do início da palestra. Uma semana antes, ela havia sugerido o evento e demonstrado grande empolgação. Na verdade, pra mim seria interessante ouvir o palestrante desde o início, já que não tinha lido o livro, qualquer informação era imprescindível para não posar de mais ignorante ainda, embora a descrição do evento deixasse bem claro que não havia necessidade de conhecimento prévio da obra. Nunca havia lido Camus, mas lembrando hoje, naquela hora eu era um completo estrangeiro.

Chegou ciente do atraso e mexendo na bolsa. Olhou em volta apertando os olhos e não me viu encostado na mureta ao lado do prédio. Deu outra remexida na bolsa, sacou os óculos e nosso convites para o evento. Antes de dar mais uma conferida em volta, agora com auxílio das lentes, me aproximei e a cumprimentei. Sorriu e compensou o meu constrangimento de estar ali sem conhecer o livro. Poderia ter me esperando lá dentro, já deve ter começado, disse me entregando o ticket.

O auditório era grande, o que criou a impressão de ter menos pessoas do que na realidade havia. Sem precisar se preocupar com a acomodação, ela sentou na penúltima cadeira de uma das primeiras filas, deixando pra mim a poltrona do corredor. Ao contrário do que pensamos, a palestra ainda não havia começado, uma moça distribuía um miniguia que auxiliaria os alheios à história de Meursault.

Sentado e me sentindo um pouco mais seguro com aquelas folhas nas mãos, pude enfim prestar mais atenção nela. Parecia tranquila, tinha movimentos naturais que contrastavam com a inquietude das minhas pernas e mãos. Me pediu desculpas pelo atraso e eu a relembrei que poderia tê-la buscado. Tudo bem, você me leva pra casa depois.

Um homem próximo dos seus 60 anos sentou-se na cadeira posta em frente ao palco. Um pouco acima do peso, apesar de suado, transmitia serenidade e segurança. Começou ratificando o descompromisso daquela reunião com qualquer tipo de viés de crítica literária, ou qualquer outra possibilidade de análise acadêmica. O encontro seria um bate-papo. Ufa, pensei, temendo imediatamente ter falado na expiração. Ela me olhou, descansou o braço direito no encosto entre nossas poltronas e voltou a atenção para as folhas.

“Hoje morreu minha mãe. Ou talvez ontem, não sei bem.”

Enquanto lia um dos maiores inícios de romance da literatura mundial, minha visão escapou para a mão direita dela. Desse ponto em diante meus olhos dividiam-se entre os trechos d’O Estrangeiro e a sua mão. Pequena, com os dedos ligeiramente mais longos que o padrão, um anel azul no dedo anelar e uma pulseira preta delimitava o início do braço. Quando o homem lia algo curioso da vida módica e sem sentido de Meursault, nos olhávamos cúmplices, mas logo estava novamente acompanhando o texto. Enquanto eu fingia, baixando a cabeça e lendo as costas da sua mão. O desejo de toca-la crescia junto com o receio. O que ela pensaria? O interesse mútuo existia, mas pegar a mão dela assim? Coisa de adolescente? Me acharia imaturo? Ou não? Talvez achasse bonito, carinhoso. Em certas passagens do livro ela contraía levemente os dedos e eu via a oportunidade de encaixar minha mão por debaixo daquela concha de dedos, olharia pra ela e voltaríamos ao texto. Enfim, nada fiz.

De repente um árabe havia sido assassinado e eu não sabia o que tinha levado o acusado a cometer o crime.

O Homem ainda leu o monólogo final de Meursault, respondeu algumas perguntas e deu por encerrado o encontro. No meu carro, a caminho da sua casa, enquanto descansava a mão direita sobre a bolsa, ela me confessou que também não tinha lido o romance. Se tivesse me dito antes, não teria me sentido tão estranho e estrangeiro, eu disse falhando em ser cômico. Ela me beijou no rosto e desceu do carro. Dei a partida e pelo espelho ainda vi sua mão levantada dando tchau.

Duas necessidades surgiram a partir daquela noite: uma eu saciei nos dias seguintes, quando nos encontramos novamente, já a leitura d’O Estrangeiro levou algumas semanas, posto que eu só poderia começar quando ela terminasse de ler o presente.

Ameixeira

Minha melhor amiga de infância foi uma ameixeira. Amiga enorme. Devia ter uns 10 metros, mas na época parecia ter mais 30. Ela era - ou ainda é? - uma ameixeira de “ameixa amarela” - embora eu acredite que é a outra ameixa que merece a distinção pela cor, a vermelha. No quintal-pomar da minha infância, ela ficava soberana no centro. Em volta dela tinha também macieira, goiabeira, mangueira (mangueirinha), limoeiro, araçazeiro, além do galinheiro e do poço. A ameixeira era uma moça, eu uma criança e ele um senhor quintal.

Conhecia cada palmo do terreno e da ameixeira cada galho. Sabia de cor em quais pisar e em poucos segundos de subida já estava na copa. Trepar em árvores era uma habilidade muito prestigiada na infância de um menino, e eu treinava diariamente, por horas, na minha ameixeira.

Tinha vários lugares em cima dela. Galhos grossos que sustentávam com facilidade os corpos franzinos da criançada. Mas bem no centro da árvore, um prolongamento do tronco dividia- se em três outros galhos, ali era meu canto preferido. Lugar que ficava o capitão da nave quando viajávamos pelo espaço ou o cérebro do robô gigante que vez em quando salvava a cidade. Essa posição especial era minha menos por prestígio do que pelo fato da árvore estar no meu quintal.

Mas minha relação com a ameixeira amadurecia mesmo, quando ficávamos a sós. Brincar sozinho sempre me pareceu mais divertido, talvez algumas vezes por falta de opção, outras por escolha própria, o fato é que ficar sozinho naquele quintal enorme me atiçava a imaginação. E lá estava sempre brincando, com as mãos sujas de terra ou lambuzadas de ameixa.

Chorão que sempre fui, derramei lágrimas e lágrimas na ameixeira, sentado sob a sua sombra, em cima dela, em todos os cantos. Todo choro das coças que levava por ter aprontado alguma coisa acabava nela. Às vezes a choradeira tinha início ali mesmo no chão, abraçado aos seus galhos mais fracos. Tombos decorrentes de quando me desafiava a tocar suas folhas mais distantes.

Menor ela foi ficando à medida que cresci. A rua passou a ser mais atrativa e a ameixeira se tornou só mais uma árvore das que existiam atrás da minha casa. Meus pais mudaram-se, nunca mais voltei lá. E hoje quando às vezes divago sobre o passado e imagino que versões nossas continuam vivendo seus momentos pela eternidade, a imagem do menino encostado no tronco chupando ameixa é de longe a mais bonita.

 

Agente de trânsito

- oi, me veja um bloco de meia hora.

- são seis reais.

- quem é ele, mãe?

- é o guardinha da zona azul.

- agente de trânsito, senhora.

- isso, ele é agente de trânsito, e o trabalho deles é verificar se os carros estão estacionados de maneira correta.

- ah entendi, o moço cuida do carro da gente?

- não, nós verificamos se os veículos estão estacionados de maneira correta, senão a gente multa.

- mas isso não é cuidar, moço?

- não, cada dono cuida do seu carro.

- não entendi, mãe.

- é assim: a mãe só pode deixar o carro pelo tempo que ela pagou.

- entendi, e quando dá o tempo o guardinha avisa?

- agente, garoto.

- por favor, Gabriel.

- oi, mãe.

- não, filho, é pro agente te chamar pelo teu nome, e sobre o estacionamento, quando acaba o nosso tempo a gente tem que tirar o carro.

- e ele leva o carro pra polícia?

- ele quem?

- o agente, mãe!

- não, nós tiramos o carro, o guardinha só multa se ele estiver lá depois do tempo.

-agente, senhora, por favor.

- olha aí, mãe, ele multa com mais gente.

- multa sozinho, filho.

- entendi, a gente paga pro guardinha ficar esperando a gente voltar e se a gente não voltar ele multa o carro sozinho?

- agente de trânsito, garoto!

- Gabriel, agente! E Gabriel, é agente que fala.

- tá, a gente paga o guardinha pra cuidar do carro por um tempo e se a gente voltar depois do horário é a gente mesmo que avisa o guardinha pra multar.

- não, garoto, mas que coisa, é agente!

- Gabriel, guardinha!

- agente, santa mãe de Deus!

- é Maria, guardinha, o nome da minha mãe é Ma-ri-a de Deus.

 

13/02/2019

Entrega a domicílio

Terminou de embrulhar o livro com pressa. Atrás queria escrever apenas “eu”, ideia que imediatamente pareceu infantil e que, pior ainda, poderia fazer o pacote voltar – pelo menos é alguma coisa que volta, pensou resignado - rabiscou o nome, o novo endereço, conferiu o CEP e saiu para rua.

Nos correios, aguardando a vez para ser atendido, pensou mil vezes no porquê do envio. Ela talvez jogaria o pacote num canto, inconveniente como um boleto, mas sem data de vencimento, guardaria espaço e juntaria pó. Metáfora daqueles dias finais. Mas ainda dava tempo, podia jogar fora, podia doar, podia vender por míseros reais em um sebo qualquer. Não destacaria a dedicatória, tão pessoal e nascida a fórceps, deixaria que fosse lida por um estranho e depois ignorada, exilada em um canto de estante qualquer, ou ainda, seria exposta à leitura pública. O leitor mostraria a todos os seus próximos o teor dramático daquelas linhas. Ririam.

Voltou do devaneio quando uma senhora lhe pediu passagem para sentar. Temeu estar pensando em voz alta. Retomou o raciocínio. Era preciso enviar, o exorcismo só estaria completo se o espectro fosse entregue a domicilio. Girava o pacote com as mãos de forma que os nomes do remetente e destinatário se entrelaçassem. A simples ilusão de ótica o fez cogitar entregar envelope ele mesmo. Sem avisar, tocaria o interfone, se anunciaria, ela o convidaria pra entrar, esse mentiria um compromisso atrasado, se abraçariam e ele seguiria pela velha calçada de sempre, mas com um novo andar. Resolvido.

O som do painel da senha de atendimento parecia cada vez mais frequente, unidade por unidade aumentando a ansiedade e descontruindo a coragem de uma conversa cara a cara. Chegou a levantar decidido a ir pra casa, mas em pé desistiu, por dois segundos estagnou-se. Foi o número 86 piscando em vermelho que decidiu por ele.

Ao entregar o pacote, sentiu-se livre, esvaziado. As reações agora seriam do lado lá – boa leitura, querida. A simpática atendente dos correios ao ver que a cidade do destinatário e do remetente coincidiam, indagou neutra e profissionalmente:

– Será que não vale a pena entregar pessoalmente?

Sorriu nervoso, arrancou o embrulho das mãos da funcionária e seguiu por aquelas calçadas desconhecidas com o andar de sempre.

Mudanças que não mudam

No início dos anos 90 em frente à TV, eu achava que deveria ser muito legal mudar-se de casa. A empresa de transportes Granero patrocinava alguns programas no SBT e as propagandas funcionavam muito bem comigo. Todos aqueles funcionários encaixotando com todo cuidado os pertences dos clientes e acomodando os móveis em enormes caminhões me parecia a coisa mais divertida do mundo.

Obviamente que, além de ser uma criança deslumbrada e obediente à TV, eu nunca tinha passado por uma mudança. Não que eu lembrasse. Na verdade, meus pais já tinham trocado de casa algumas vezes, mas eu não tinha idade suficiente para ter ideia de quanto o procedimento é complexo, mas logo logo teria.

Meus pais realizaram o sonho da casa própria. E eu, enfim, teria a oportunidade de realizar o meu: ter uma mudança assim como via na TV. Doce e publicitária ilusão.

Primeiro que quando se é criança, mudar-se não significa apenas trocar de um endereço para outro. Você vai ter que deixar para trás todos os seus amigos, da escola e da rua. E nessa fase, isso é praticamente o fim do mundo. Outro golpe de realidade é perceber que não é toda mudança que é feita por profissionais uniformizados do transporte. Aliás, até hoje eu nunca vi uma como aquelas da TV.

Meu pai conseguiu um caminhão emprestado ou alugado, chamou alguns parentes e amigos e a equipe estava montada. Fiquei responsável por guardar minhas coisas, entenda-se brinquedos, em duas caixas de papelão. Trabalho hercúleo, já que a minha atenção se dissipava ao ver os adultos desmontarem e carregarem todos aqueles móveis pesados. Ao mesmo tempo, queria terminar de uma vez minha parte, subir no caminhão e ir lá em cima numa das viagens para a casa nova. Infelizmente só consegui embarcar na derradeiro itinerário. Abraçado nas minhas caixas, em meio a colchões e gavetas, fui embora balançando e me despedindo da casa antiga. Lembro do sentimento de estar totalmente exposto com as nossas coisas todas a vista curiosa dos nossos, àquela altura, antigos vizinhos.

Lembranças da infância carregadas de impressões ingênuas que escondem o nível de empenho que é mudar-se quando você é o adulto.

Desde que passei a morar sozinho, mudei-me três vezes. A última foi há algumas semanas. O perrengue é sempre o mesmo. Tudo começa com o desfecho da relação com a temida e implacável imobiliária. Sempre fiz questão de só por os pés em tal estabelecimento quando fosse de extrema necessidade. Sempre me incomodou a sensação de ouvir a marcha imperial ao entrar nesses lugares.

Centenas de reais mais pobre e outra centena de fios de cabelos mais calvo, a gente parte para a montagem da equipe de trabalho. Neste momento, é importante ter um bom portfólio de participação em mudanças alheias. A reciprocidade nesses casos é sagrada.

O próximo passo é sair à caça de caixas, sacos e toda sorte de coisas nas quais caibam outras coisas. Nessa etapa é essencial o mínimo de organização para que o caos não reine mais do que o normal nos dias seguintes à mudança.

Então, eis que chega a hora de transportar tudo. Seja de camionete, caminhão ou carrinho de mão, para mim essa é a parte mais tensa. Torcer contra a chuva, descobrir a falta que faz saber dar um nó decente. Usar toda a técnica acumulada de anos jogando Tétris para que tudo caiba no mínimo espaço possível. Depois de algumas viagens, se você não deixou nada pelo caminho, a mudança está quase concluída.

Quase, porque na moradia nova você ainda levará dias confundindo a geladeira com o fogão e procurando aquele fone de ouvido dentro do cesto do banheiro. Vai abominar por algumas semanas caixas de papelão, vai descobrir que elas se reproduzem e adoram morar nos cantos das casas. Agora mesmo uma dessas olha pra mim, descontraída, ri exibindo sua linda etiqueta branca com a palavra “coisas’.

O balcão

É uma entidade. É o bar dentro do bar. É a saudosa geral do Maracanã. É democrático. Acima de tudo, o lugar para quem gosta da boemia e, algumas vezes, da solidão. Na biosfera do boteco, o balcão é o lugar dos fortes. De homens e mulheres de cotovelos fortes. Sua origem, ainda não cientificamente comprovada, provavelmente ocorreu no momento em que algum dos nossos ancestrais apoiou-se em uma rocha ou árvore caída ao beber seu copo de grão fermentado. É isso, o balcão é apoio em seus mais diversos sentidos.

Quem se dispõe a sentar-se dando as costas para o interior do estabelecimento, sem dúvida, merece atenção. Quase nada importa além daquele naco de espaço-tempo pós-expediente. A conversa rala com o balconista, o cara a cara com as cúmplices garrafas nas prateleiras. A contemplação das já íntimas imperfeições da madeira. O apoio dos cotovelos para o impulso do entendimento.

Bem verdade que atualmente o bioma do balcão tem sido drasticamente afetado pelo advento dos smartphones. A tecnologia predadora tem monopolizado a atenção do reservado bebedor. Fazendo-o ignorar a diversidade e a beleza da paisagem “balcaniana”.

– Vai pra mesa! Pregam os detratores mais radicais da companhia de bolso.

Mas há dias em que o parceiro digital não basta e o “balconeiro” quer calor humano. Um regalo de conversa tête-à-tête contra as injustiças da vida. Quer uma experiência antropológica. Visto que uma vez acomodado no balcão, você nunca vai saber quem entrará pela porta e sentará ao seu lado. A soma da aleatoriedade e do álcool já gerou amizades eternas e discussões homéricas. Os temas mais caros à humanidade já desfilaram de ponta a ponta de um balcão.

E a relação humana mais sincera e unilateral foi destilada no móvel mais importante do bar: o bebedor e seu garçom. A verborragia do boêmio e as reações monossilábicas do barman são matéria-prima pra qualquer análise de discurso. Lutos, vitórias, traições, tragédias, saudades, reviravoltas, retornos, comemorações, dúvidas, toda a infinidade de emoções já sentidas é narrada entres as vírgulas de um trago e outro num balcão.

Já do ponto de vista privilegiado de quem está atrás da bancada, embora limitado fisicamente, pode-se ir, entre um drink servido e outro, do céu ao inferno. A imprevisibilidade do universo o concede acesso as mais diversas histórias. Esqueça o cronista de banco de praça. Todo garçom é um escritor em potencial.

O balcão, seja o “cool” e esvaziado de “Nighthawks" de Edward Hopper ou o movimentadíssimo e popular da esquina da sua casa, é testemunha diária da riqueza do comportamento humano. Valorize este último bastião da boemia clássica, saia beber sozinho, mas mesmo que acompanhado, esqueça a mesa e as cadeiras, puxe sua banqueta e apoie-se. Todo homem e mulher deste mundo tem direito ao seu espaço no balcão.