Vida Crônica
Kid Cultura

Eu praticamente não falo com ninguém sobre o que leio. E ali todos estavam interessados no assunto. A conversa estava ótima. Até a menina que não memorizei o nome estava participando. A cerveja estava nos deixando falantes. As outras rodas de conversa estavam também a todo vapor. Quase não dava para ouvir mais a música. O ambiente estava tomado pelo som de gente conversando.

Perguntei para o meu amigo se era verdade mesmo que ele tinha lido os livros que citava. Na grande maioria das vezes! As meninas riram. É que tem uns que eu não lembro. Mentiu, rindo também. Bem que eu desconfiava.

Enquanto a gente conversava, alguns meninos e meninas passavam por ali e nos cumprimentavam, falavam alguma coisa da festa, ficavam um pouquinho com a gente e saíam. Até que uma hora, chegou um rapaz na roda. Óculos de armação grossa. Cabelo bem cortado. Bigode. Camisa. Paletó. Bem diferente dos caras que vestiam camisetas de banda e enchiam o lugar. Aparentava ter muito mais idade que todos nós. Chegou perguntando qual era o assunto que nos fazia parecer tão animados. Literatura, contos, disse meu amigo, me olhando logo em seguida de um jeito estranho. Ele não teve a mesma reação quando os outros que passaram por nós fizeram a mesma pergunta. Quando o rapaz abriu a boca de novo eu entendi.

Parecia uma palestra. Me lembrou algumas apresentações que a gente tem que assistir nas confraternizações do trabalho. Ele falava sobre os livros que estava lendo. Isso, lia de cinco a dez livros juntos. Para ele era difícil se concentrar em uma obra só, com tanta coisa para descobrir no mundo. Falava lentamente. Detesto gente que demora para continuar uma ideia e manda um ééééééééé. Era ele. Nesses intervalos intermináveis, mexia nos óculos, ajeitava o bigode. Olha só que interessante, éééééééé eu conversava dias desses com uma mestranda da área de Letras éééééééé sobre a representatividade do conto brasileiro na segunda metade do éééééééé século XX. Depois de um tempo, eu só reparava no jeito que ele falava. A maneira que acendia o cigarro como se estivesse na Paris dos anos 20. Sempre ajeitando o bigode e enfiando os óculos na cara com o dedo médio da mão esquerda. Só voltei do transe quando ele falou alguma coisa olhando diretamente para mim.

Desculpa, não entendi, arrisquei. Seu nome. É Kelly. Então, Kelly, o que você pensa disso? Eu não sabia o que eu pensava disso, porque não sabia o que era aquilo. Mas não teve problema. Ele mesmo respondeu por mim, sequestrando novamente a conversa. Continuei o devaneio. Taí um cara que é capaz de colocar os termos Idiossincrasia e Sui generis numa frase só.

E assim como apareceu, se despediu e foi embora. Quem é esse aí? É sempre assim? Fala tudo isso e sai? A gente não interage muito senão ele fica, disse a menina que eu tinha esquecido o nome. O nome dele é Caio, mas é mais conhecido como Kid Cultura, da música do Oswaldo Montenegro, sabe?

Todos ali meio que riram. E sem nenhuma necessidade de perguntar de que falava a letra da música, tomei mais um gole da minha cerveja.

Eduarda acabou de entrar

Mal a conhecia, tinham alguns amigos em comum e nem se lembrava desde quando ela estava ali. Mais que matar trabalho, sentiu um interesse que o surpreendeu, escorregou um oi.

A resposta foi rápida, sentiu prazer na reciprocidade. Depois das convenções de cumprimentos, a conversa evoluiu rapidamente. Discorreram sobre música, letras e afins, descobriram diferenças e, dentre as afinidades, a tara por conhaques. Pairava sobre o papo um flerte oculto, nenhum dos dois queria ser o primeiro a revelá-lo, porém, encontraram uma forma de manifestarem suas intenções, logo estavam fantasiando um encontro casual que mais escancarava do que velava os desejos.

– No apartamento dele.

– Sim, está frio e chovendo.

– Ela chega atrasada.

– Você chagaria atrasada?

– Chegaria um pouco, acho um charme. Tem que ter uma vitrola e lareira.

          Continuaram, cada um comandando seu avatar. Em determinada altura, quando os personagens já estavam trocando carícias, ela interrompe:

– Preciso sair.

– Eu não tenho seu telefone.

Anotou o telefone, combinaram de conversar pessoalmente. Antes mesmo de ele voltar ao trabalho, ela reapareceu:

– Pode ser hoje?

– Pode sim.

– 19:30?

– 19:30 no Soberano...

Ele se levantou, foi até um amigo e emprestou dinheiro, previa gastos que seu bolso surrado não suportaria. A noite, fosse longa ou curta, estava patrocinada.

O bar estava semivazio, apenas os fiéis etílicos ancorados no balcão faziam número naquela terça de tempo fechado. Assim que entrou, visualizou a mesa mais afastada. Sentou-se e fumou a seco, queria a companhia para começar a beber.

Ela chegou. Visivelmente desconsertada, não muito diferente dele, perguntou o que beberiam. Parecia evidente e era. Conhaque.

A primeira dose serviu para derrubar a diferença entre a conversa virtual e o contato ao vivo. Complementaram os assuntos da tarde e iniciaram outros. Ela falou sobre seu gosto vintage, de como era uma pinup perdida no presente. Ele ouviu, achando-a sofisticada. O período da segunda dose foi dele, contou sobre uma nova descoberta que tinha feito, um cantor fantástico, desfilou seus conhecimentos recém-adquiridos sobre o roqueiro e sentiu vergonha quando descobriu que ela dominava aquela biografia muito mais que ele.

Com o tempo passando, o conhaque encarregou-se de dar maior dinâmica ao encontro, entraram no assunto que ambos estavam interessados, por iniciativa dela:

– Você já fez algo daquilo que conversamos hoje à tarde? Sei que com certeza algumas coisas já, mas me refiro ao clima, à chuva, lareira, vitrola.

– Não, nunca.

Alcançada a fase do flerte descarado, entravam também na quarta rodada de conhaque, ela nitidamente curvada na direção dele, demonstrava a embriaguez a cada palavra que tropegamente pronunciava. Ele, dissimulado, arquitetava uma maneira que ao menos parecesse digna de levá-la pra cama. Falhou.

– Tem hora de ir pra casa?

– Talvez não, por quê?

– Podemos ir pra um hotel.

Pediram mais uma dose, a saideira. Ela ligou para sua casa, avisou que dormiria em uma amiga. Terminaram os copos e partiram.

Ventava forte e a chuva espreitava. Na rua, abraçados, foi que perceberam o quanto estavam bêbados, ela mais, tinha dificuldade até com as imperfeições da calçada. O hotel era próximo ao bar, mas o caminho demorou, nem tanto pelos desvios do álcool, mas pelas bruscas paradas que davam quando seus beijos chamavam atenção das prostitutas das três esquinas pelas quais passaram.

Chegaram e o recepcionista logo percebeu que o casal, embora estivesse viajando, não estava ali para uma revigorante noite de sono. Cobrou adiantado e disse um boa noite malicioso, ela olhou pra baixo, pra ele, o conhaque cobriu o embaraço.

No quarto sem lareira nem vitrola, despiu-a sem gentilezas e romantismos, ela não pareceu se importar.

Choveu e amanheceu. O sol trouxe a ressaca, a sobriedade e certo acanhamento. Conversaram o necessário para ambos descobrirem que estavam com fome. Desceram e, no salão onde serviam o café, comeram em silêncio juntos a uma família, alguns empresários de notebook e um solitário senhor.

Saíram do hotel juntos e, algumas quadras depois, sob o guarda-chuva dela, pararam.

– Vou por aqui.

– Eu pra cá.

       Um beijo curto e protocolar.

Quando ele chegou ao trabalho, ainda foi tomar mais um café, deu um tapa nas costas do amigo cúmplice e ligou o computador. Minutos depois, lia um aviso na tela, Eduarda tinha acabado de entrar...

 

6º ano

Eu tenho um sonho recorrente: vejo-me invariavelmente dentro de uma sala de aula, seja na escola, colégio ou universidade. São lugares onde estudei e os colegas são os mesmos, o que muda é que nos sonhos, como estudante, eu tenho também a experiência de ter sido professor. É curioso. Sentado na carteira, fico imaginado qual será a resposta que eu daria às minhas ações. Não importa se tenho mais de 20 anos ou se ainda estou aprendendo a escrever. Vai entender. Professor Freud deve explicar.

O certo é que quando despertei hoje de um sonho desses, passei a manhã toda lembrando das minhas aulas no ensino fundamental. Segundo o historiador e professor Leandro Karnal, quem deu aula para o 6º ano é capaz de fazer qualquer coisa no planeta Terra. Dei aula durante quatro anos para os recém-chegados ao ensino fundamental II, não me sinto onipotente como descreve “profe” Karnal, mas foi a experiência, de longe, mais rica que tive como docente e gente.

Antes de tudo, é preciso lembrar que, normalmente, um aluno ou aluna que entra no 6º ano já tem – ou terá nos meses seguintes – 11 anos de vida. Nem mais tão criança e ainda longe de ser adolescente.

Eles começam o ano letivo carinhosos. Não é raro trazerem pequenos presentes. Mal você adentra a sala e eles te cercam. Alguns só para dizer oi. Outros para te contar que a mãe deixou-os dormir na tia Jaqueline no sábado e que ficaram acordados até as 2 da manhã. Nessas horas, o modo Xuxa é inevitável. Sentem lá, Cláudios e Cláudias. Essa empolgação dura menos de um semestre. Logo vão ignorar sumariamente a sua entrada em sala de aula até a chamada.

Nome após nome, intercalados por pedidos inúteis de silêncio. E ai de você se chamar a atenção do aluno errado. Nessa idade, a noção de justiça é implacável. Eles são capazes de qualquer coisa para provar que não estavam conversando. Angariam testemunhas e provas e as apresentam ao fim da aula em busca da redentora inocência.

São competitivos. O famoso “terminei” é praticamente um ponto final oral de qualquer atividade. E não adianta pedir para que os outros não façam o mesmo. Ao menos os cinco primeiros “colocados” farão questão de serem reconhecidos. E enquanto o resto da turma continua, os rapidinhos abraçam o ócio e é aí que mora o perigo. Mente vazia, oficina das dúvidas. Quantos anos você tem, professor? Por que não é casado? A sua barba comprida é alguma promessa? O meu tio tem um carro igual ao seu, é gastador né?

Para o 6 º ano eu dei aulas de inglês e produção de texto. Trabalhar com eles uma língua estrangeira tem lá suas curiosidades, mas às vezes ler as redações dos alunos nessa idade é dar razão as mais piegas das mensagens de grupo de família no WhatsApp. Entre relatos de férias e aventuras de heróis tendo eles mesmos como protagonistas, alguns textos realmente ficam registrados na nossa memória para sempre. Como a declaração de amor e fidelidade que um aluno escreveu para a sua progenitora. Depois de um sem número de elogios, já no final do texto, ele confessou de coração aberto que quando nasceu e olhou pela primeira vez para aquela mulher ali no hospital, mesmo sem a conhecer direito, não teve dúvida, percebeu no mesmo instante que ela seria sua mãe para o resto da sua vida.

 

Passo a passo

a pedido do amigo, a bebeu de uma só vez.

bebia pra esquentar o frio na barriga.

fez a casa redonda para não chorar pelos cantos.

chorava por hábito, sorria por educação.

das absolutas certezas só queria a redundância.

depois do fim, o calendário tinha escala 1:1000.

distorcia os pontos finais até se tornarem vírgulas.

dormiam juntos e transavam em camas diferentes.

entrou em parafuso e espanou.

era avessa a lados.

feliz já foi e nunca voltou.

foi levado pelos gatos.

mantinha esperanças em álcool.

mastigava os dias da semana.

mimava a tristeza.

mirou no amor, errou em cheio.

os ombros não se encaixavam mais.

penteou todos os cabelos até sobrar nenhum.

perdeu a fé em algum canto do bolso.

perdeu os olhos na multidão.

plantou uma árvore no lançamento do primeiro romance.

por ela, já seria dele.

por horas desejou apenas a mão dela.

sofria de poesia crônica.

soltou um sorriso quando a saudade apertou.

sonhava e chamava o dia de insônia.

suas costas eram paisagem.

sussurrava ao pé da orelha do livro.

tatuava sorrisos.

tinha certeza de que tudo era relativo.

tinha esperança, mas sempre acabava dormindo.

tinha medo de esquecer a voz dele.

tinha opinião pra tudo e solução pra nada.

tinha porta-retratos vazios por toda a casa.

tinha tara por pés de ouvido.

tinham um cão chamado Volte.

tirava a aliança pra tomar banho.

tomava sol e vomitava.

via o nome dela e em cada uma das letras do outdoor.

costurou-se com um fio de esperança.

desistiu na penúltima hora.

chegou em casa, abriu o gás e sentou.

morreu de olhos abertos pra ver a luz no fim do túnel.

o outro morreu em cima do muro.

e as quatro pernas nunca mais voltaram a se encontrar.

Sobre cafés, tiaras e tapas

Uma das primeiras memórias que eu tenho com a minha mãe vem lá dos meus cinco anos, eu acho. Me sinto meio triste quando penso nisso. Porque tem gente que diz ter lembranças desde bem cedo de suas mães. Eu não. Lembro de coisa mais antigas. Umas cenas isoladas. Mas nenhuma delas tem ela no meio.

 

Aquele papo de que menina se apega mais ao pai é balela. Pelo menos pra mim. Eu não desgrudava da minha mãe. Eu adorava a presença dela. Claro que com meu pai sempre trabalhando, era só nós duas na casa. Mas bem por isso poderia ser o contrário. De tanto a gente ter contato, eu podia não aguentar ficar perto. Tenho um monte de amigas que são assim com suas mães. Não se suportam.

 

Eu sempre dormia com ela. Só nos fins de semana que meu pai estava em casa eu ia pro meu quarto. Segundo ela, ainda assim, de vez em quando eu batia na porta do quarto deles pra pedir cama. Não lembro disso. Lembro dela esfregando as mãos em cima do vapor da chaleira, esperava um pouco e colocava uma mão em cada bochecha minha pra esquentar. Também cantava umas músicas estranhas numa língua que ela tirava sei lá de onde. Mas aí tudo já cheirando a café de mãe e com o sol da manhã fazendo réstia no vidro da janela da cozinha. Disso até a hora do almoço eu passava na frente da TV. Ela nunca se incomodou de me deixar na mãos dos desenhos infantis. Pelo contrário, comprava envelopes pra que enviasse as cartas pra ganhar os prêmios dos programas. Eu escrevia, fechava com cola e jogava atrás da estante. Ela achava engraçado. Tadinha, ela pensa que é assim que funciona! Contava rindo pra todo mundo. Só que eu sabia que tinha que selar e enviar pelo correio. Mas assim que eu terminava as cartas, ficava com vergonha de enviar e escondia elas atrás do móvel.

 

Ela brigava pouco comigo. Lembro de uma vez que uma vizinha me deu uma lapiseira de aniversário. Fiquei brava. Quem dá uma lapiseira pra uma criança? Joguei no chão assim que ganhei. Minha mãe me fez pedir desculpas na hora e num bilhete que escrevi depois usando a tal “lembrancinha”. Fora a coça que levei. E teve outras vezes, mas mesmo assim foram poucas. E tinha também os sábados. Era dia da limpeza. Eu lembro que comparava ela com uma daquelas formigas vermelhas. Aquelas que têm a picada bem ardida, sabe? Era minha mãe. Só de olhar pra ela já se irritava.

 

Me enfeitava com todo o tipo de tiaras que você puder imaginar. Daquelas mais bonitas, com laços e tudo até as de plástico vagabundo. Sempre estava eu lá, de tiara e franja! Só fui usar uma calça fora de casa lá pelos dez anos de idade. Tivesse o frio que fosse, eu estava de vestido ou saia. E com as meias-calça mais grossas do lugar.

 

Todas essas passagens aí de infância vieram depois dos cinco anos. E a primeira lá, foi de uma dia que a gente tava no centro - city, ela dizia. Num ponto de ônibus, sei lá porque, eu perguntei pra ela se quando eu morresse, ela iria no meu enterro. Que isso? E meio sem pensar mandou um tapa na minha boca. Me deu vontade de chorar. Não por causa do tapa, mas por ter feito essa pergunta.

Banco é rotina

 

 

Meu chefe estala dois tapas nas minhas costas e dá meia volta. Até mais. Até. Alguns passos depois, já parado em frente a porta giratória, o guarda me reconhece e libera a entrada com as chaves e tudo. Ele sabe que tenho uma bolada na mochila. Vou pra fila da senha. A estagiária sorri com a aquela boca de plástico como faz todo dia. Como faz pra todos. Pra mim é pior. Sou um quebrado. Ela quer subir na vida. Eu quero uma senha pros caixas. Ela nem pergunta. Destaca da máquina o papel e estica o braço na minha direção. Interesseira. Basta ser um pouco mais engomadinho que o sorriso de plástico derrete e dura mais. Mas ela sabe que aquilo é provisório. Logo vai atender na sua própria mesa. Aí sim, homens endinheirados. Não esses pés rapados que precisam pagar as contas na boca do caixa.

            Senha 175. Enxergo o número 133 no painel. Que merda! Hoje vai demorar. Foda-se. Quanto mais tempo aqui, menos no trabalho. Jogo a senha no bolso e vou matar o tempo com o guarda. Deve ter lá seus 40 anos. É separado, toma uns goles por aí. E como em toda a segunda-feira manda a mesma pergunta: e os golão? Sempre anda com caixas de cerveja no porta-malas do carro. Gosta de vodca e coca também. Não gosta de maconha. É coisa de piá vagabundo. De carçudo. Já trabalha ali faz uns 10 anos. E se um dia tentarem fazer o banco, o que você faz? Eu fico na minha, disfarço e me livro da arma, não arrisco minha vida pelo mixaria que ganho. De supetão, para o que está dizendo pra liberar a porta giratória e cumprimentar com mais atenção uma morena que acaba de entrar. Já comi. Trabalha na loja de calçados na rua debaixo. Safada. Então, voltando, não vale a pena dar uma de herói, é como dizem nos filmes mesmo. O guarda é amigo de todo mundo que põe os pés diariamente no banco. Tem vezes que ficam dois ou três ao lado dele, só de conversa. Encostados na parede apreciando o desfile das clientes e das funcionárias. No fundo da agência, onde tem carpete vermelho, nas mesas dos gerentes e de atendimentos personalizados, ficam as mais gostosas. E aquela de saia vermelha, guarda, quem é? Monique, veio transferida do interior. Mas é uma safada. Eu reparo como elas desfilam de um lado pro outro com seus saltos, saias, terninhos, cópias de documentos a tiracolo. Vêm lá do fundo, param na porta que dá acesso ao interior do banco e enquanto digitam suas senhas me cumprimentam com um oi forçado, às vezes com um sorriso, e seguem, corredor adentro, deixando só o fio de perfume pros pagadores de boleto que se aglomeram ao redor do guarda.

Ó piá, o gerente tá comendo essa. Filho da puta. Além do ar superior com que olha pra gente, ainda usa o trabalho pra comer as mais ambiciosas. E olha, elas gostam. São umas safadas, pontua o guarda. E tem mais, se fosse eu, faria o mesmo. Você também, garanto.

Senha 150. É o terceiro copo de água que tomo. O banco está abarrotado de gente. Vou procurar um lugar pra sentar até dar minha vez. Dor nas costas nessa idade, piazinho? Fico seis horas direto em pé e nunca me queixei. Veadinho. Há pouco tempo o banco tinha colocado umas 40 poltronas em frente aos quatro caixas. Conseguir sentar em uma delas era só se você chegasse pela manhã, na hora em que o banco estive abrindo. Deixei o guarda e me encostei na parede do fundo.

Todo mundo odeia esperar. Todo mundo odeia banco. Talvez só quando vão sacar grana no caixa. Aí tem gente que não consegue segurar um sorrisinho. Eu sei porque dá pra perceber tudo daqui de trás. Os mais pobres diabos, como eu, sempre estão com fones de ouvido. O banco é rotina, estão acostumados e né, quanto mais tempo aqui, menos no trabalho. Tem também os que não sabem o que é uma fila. Ficam indignados com a demora. Um desrespeito! Comentam em voz alta com os desconhecidos que estão mais próximos. Uns, mais exaltados e com um pouco mais de orgulho ou dinheiro, ameaçam ligar pro Banco Central pra denunciar a palhaçada. Toda semana tem um. No fundo são uns fodidos também. Se tivessem grana, estariam sendo atendidos lá no carpete vermelho.

Me distraio. A senha já é 175. Confiro no papel e me desencosto da parede. No meio do caminho até o caixa, todos ouvem gritos de mulher e barulho de vidro estilhaçando vindos lá da frente. Lembro das conversas com o guarda. Abro a mochila, pego um maço de cinquenta e escondo embaixo do boné.

O homenageado

 

Tempos atrás, estudantes do ensino médio de uma escola estadual entraram em contato comigo pelo facebook. Queriam me convidar para uma apresentação que fariam sobre meus livros de poesia. Segundo eles, a turma foi dividida em grupos e a professora pediu para que escolhessem personalidades da cidade na área da cultura ou do esporte. Um desses grupos me escolheu. Aceitei orgulhoso o convite. O evento seria dentro de algumas semanas e coincidiria com a gravação do podcast do qual participo, o Botecast. Seria corrido. Meu carro andava temperamental naqueles tempos, funcionava só quando queria. Para o bem da minha reputação de poeta pontual, seria melhor ir de outra forma.

A data do evento chegou. Foi marcado para às 19h. A gravação do podcast seria às 22h. Não levei meu carro para o conserto. Não procurei carona e já estava em cima do horário. Olhei para o possante, o fiz prometer que não me deixaria na mão e fomos para a escola. Estacionei próximo ao portão principal e entrei.

Um estudante veio me receber. Agradeceu minha presença e pediu para que eu aguardasse enquanto ela chamava as colegas e a professora de português. Nesse ínterim, no hall de entrada, atrás das fileiras em que professores, alunos e pais se acomodavam, permaneci atento à apresentação de um grupo sobre o folclore da região. Logo a professora chegou com as outras alunas. Algumas me perguntaram sobre onde encontrar meus livros à venda, outras pediram para que assinasse os exemplares que tinham encontrado pelos sebos da cidade. A coordenadora do projeto interrompeu nosso papo, pedindo desculpas e alertando que a apresentação sobre poesia seria a próxima.

Entramos em um auditório semivazio. No fundo do salão havia um suporte para projeções e atrás dele um enorme pano branco. Estavam todos além dele. Explico: o grupo anterior havia trazido alguns jogadores e o técnico da equipe de futebol do Operário Ferroviário que à época havia acabado de conquistar o acesso à Série C do Campeonato Brasileiro. A apresentação terminara e aparentemente todos os alunos foram para os bastidores tietar os atletas. Um frisson estava instalado. Havia fila para selfies, fila para autografar bolas, fila para abraço, fila pra perguntar como era ser jogador de futebol, fila para filas. A coordenadora me olhava constrangida e tentava, em vão, dissipar a aglomeração. Usava argumentos que, no fundo, nem ela acreditava que teriam efeito, como: “tá bom pessoal, agora teremos uma apresentação sobre poesia”, “é um escritor aqui da cidade”, “depois todos vão poder tirar fotos com os jogadores”. Temi, por alguns segundos, que uma bola voasse na direção dela.

Inúmeras frases sem efeito depois, os alunos foram se acalmando e voltando aos seus lugares com seus troféus devidamente registrados. A equipe iniciou a apresentação lendo alguns poemas e projetando as capas dos livros. Ao fim, me chamaram. Contei um pouco sobre a minha trajetória, falei da importância de eventos como aquele e agradeci a presença de todos. A apresentação seguiu. Entreguei alguns livros que haviam me encomendado e, antes de ir embora, ainda combinamos a realização de uma oficina de poesia na escola em breve. Entrei no carro crente que minha cota de constrangimento já estava garantida na noite. Elétrico engano.

Não previ que o carro pudesse não dar a partida. Havia um mínimo desnível entre a rua e o espaço em que estacionei. Tentei dar a partida várias vezes na esperança de que o temperamento da máquina mudasse. Nada. Abri a porta, olhei em direção à escola em busca de ajuda. Nada. Ouvia, sim, gargalhadas vindos do salão, meu senso dramático tinha certeza que eram pra mim. Passei a empurrar o teimoso até o asfalto. Eram aproximadamente três metros que, divididos em centímetros marcados a cada vez que colocava uma pedra para evitar o retorno do carro, levaram quase meia hora para serem vencidos. Amaldiçoei tudo em volta, escorreguei, caí. Sujo e suado venci.

Resignado, ainda comemorava o fato de incrivelmente ninguém ter visto a cena, quando olho por sobre o capô. Uma senhora, recostada na janela da casa em frente, me fita com um olhar cúmplice e de compaixão. Disse boa noite a ela, entrei no carro e desci a rua até o som do tranco do motor tirar minha dignidade do silêncio.

Cômodos

Com a casa cheia de gente desconhecida, eu me ancorei nas companhias familiares até a cerveja, aos poucos, me libertar para o mar aberto da multidão. Planejei uma incursão à cozinha para reabastecer o copo. Ela conversava com a amiga e um rosto familiar, que me puxou para o canto do cômodo e as apresentou. Antes mesmo que eu lembrasse quem era a figura que promovia a conversa, ela elogiou a festa e minha camiseta do Lou Reed. Agradeci o elogio à reuniãozinha, embora não tivesse ideia do que comemorávamos, e chamei de vez o vocalista do Velvet Underground para a roda, emudecendo a amiga e o sujeito do meu lado, que ainda me era estranho.

A noite em que nos conhecemos foi uma prévia de como seriam os nossos encontros seguintes, ela narrando viagens e situações carregadas de empolgação, e eu sinceramente atento, embora, às vezes, um tanto frustrado por não poder colaborar com nada além de interjeições, caras e bocas. Não demorou muito e as conversas passaram a ser na cama, intercaladas por suor, palavrões e maconha, com a diferença de que no quarto eu não era só ouvidos.  Ambos tínhamos a certeza velada de que, passada a fase do sexo, aquela relação não sobreviveria, o que em mim deu uma surpreendente sensação de urgência. Nos víamos quase todos os dias, invadíamos as madrugadas e poucas vezes havia contato com o ao ar livre. A ideia comum – acreditava eu – era gastar aquilo tudo, até o esgotamento completo, sem incomodar-se com o porquê de um estar na presença, ao lado ou dentro do outro.

Brevemente separados pela luz do sol, da minha parte, a urgência invadiu a rotina. Escrevia mais, bebia mais, fumava mais. Dormia pouco e consequentemente mal, mas tinha a impressão de que vivia como nunca. De início, como quase sempre, o sexo em ritmo industrial impedia a minha entrada em solos sentimentais. Assunto motivo de risadas arrogantes e curtas que ratificavam nossa diferença para os populares de fora do quarto. Até quando passei a ter flashes diurnos da voz dela separando as três sílabas do seu nome lentamente nos meus ouvidos ou das vezes que me pegava cantarolando músicas que referenciavam nas letras lugares que ela havia visitado. Devaneios românticos muito bem sustentados por bilhetes de poucas palavras que encontrava no meu quarto quando voltava depois de tê-la levado para casa.

Mas, com o tempo, nos intervalos em que as carnes se desgrudavam e a visão da janela dava de queimar os cigarros, o desgaste ficava nítido, não mais camuflado da necessidade de silêncio e distância pós-gozo, que só quem separa tesão de lirismo conhece.

Não me aflige pôr na minha conta a razão de o fim não ter chegado antes. Meu deslumbramento e acomodação davam contornos ainda mais nítidos à nossa de diferença de idade, pensamentos e ambições desencontrados que só confluíam naquela certeza prematura de que nós tínhamos data de validade. Em um sábado, tivemos a chance de acabar com tudo em uma discussão tão burra quanto curta. Ainda era dia e menos de cinco minutos depois de ter entrado e fechado a porta do quarto, já havíamos discutido e ela colocava o capacete novamente, desaparecendo da minha vista na janela da sala. Lembro que saí correr pela primeira vez na vida. Precisava pensar em movimento ou talvez porque meus pés já estivessem atolados em campo afetivo.

Voltamos a nos encontrar ainda mais alguns dias, mas deixamos a coisa minguar até a morte. Foi em um dia da semana, não daria argumento para filme algum. E como convém ao meu gênero e à minha geração, coube a ela o enterro.

Hoje, raramente nos vemos. Na última vez, conversamos um pouco, mas cada um de dentro daquela bolha de camada grossa, incômoda, misto de cumplicidade e resignação.

Antologia

Meus irmãos e eu nascemos em um galpão enorme e barulhento. Cheirava à cola e óleo de motor. Mal vimos a luz do dia, já fomos encaixotados e levados a para nossa primeira morada, no centro da cidade. Transportados em um caminhão, todos apertados uns nos outros, plastificados e mudos, não trocamos uma só palavra. Já em casa, um menino que aparentava ser muito novo nos livrou daquela embalagem e nos dispôs em uma longa prateleira. Fiquei apertado entre dois dos meus irmãos e tive a sorte de ser posto em pé, outros azarados ficariam de ponta cabeça até serem comprados. Dois felizardos completaram a fila também em pé e com a suas capasexpostas ao público. Eles nos narravam os acontecimentos que nossas visões limitadas pelas lombadas nos impediam de testemunhar.

Nenhum de nós tinha ideia de quanto tempo ficaria ali. E como não havia muito o que fazer, conversávamos muito. Logo esgotamos as conversas, afinal éramos literalmente uns iguais aos outros. A saída foi puxar papo com as prateleiras próximas. A fileira de cima era boa de prosa, meio poética, meio viajada. Não demorou muito e já tinha gente conversando com o pessoal de baixo, inclusive eu. Eram muito reflexivos e pareciam ter resposta para tudo. Estavam lá muito antes da gente e parecia que ficariam muito mais tempo ainda. Eu os achava sábios e por isso resolvi compartilhar a minha maior dúvida lhes pedindo ajuda: pela fresta de espaço que minha lombada permitiaenxergar, eu via uma ilha de livros bem à frente da nossa estante, todos os dias vários deles eram levados. Quem eram eles? Perguntei. Enigmático, um exemplar bem abaixo de onde eu estava disse que as pessoas levavam aqueles títulos da ilha pra casa pelo mesmo motivo que eu compartilhei minha dúvida, queriam ajuda. Não entendi, talvez eu também precisasse conversar com o pessoal ali da ilha.Não deu tempo.

Na mesma semana, na hora do almoço, uma moça apressada me tirou da estante e sem nem me folhear me levou pra sua casa. Não me despedi de ninguém, mas a imagem que tive ao ser retirado da estante e enfim poder ver o mundo de frente foi indescritível.

Curioso é que no instante seguinte em que me faltaram palavras, eu conheci o Aurélio. Era um livro enorme e tinha resposta pra tudo, falava coisas que eu não entendia, coisas que estavam muito além das que eu guardava dentro de mim. No curto espaço de tempo em que conversamos dentro da sacola da livraria, aprendi muito com ele. Entre outras coisas, falei que estava ansioso, porque enfim eu seria lido e confessei que nem sequer havia sido aberto. Aurélio disse que a leitura de cabo a rabo de uma obra é superestimada. Deu como exemplo ele próprio: disse que era muito melhor ser consultado com frequência por alguns segundos, a ser lido por inteiro e depois abandonado por anos. Concordei nervoso.

Ao chegarmos ao lugar que parecia ser a casa da moça, ela nos jogou no sofá da sala e foi tomar banho. Aurélio começou uma descrição interminável dos objetos que havia no cômodo. Do tapete à lâmpada, ele discorreu toda a sua sabedoria “verbetiana”. A casa era pequena e deu pra ver que após o banho a moça foi à cozinha, preparou rapidamente algo e veio comer na sala. Enquanto segurava o garfo em uma das mãos, com a outra folheava o Aurélio parecendo procurar alguma coisa específica. Repetiu algumas vezes sussurrando a palavra “escafandro” e jogou o livro pesado na mesinha de centro. Terminou a refeição e me levou para o seu quarto.

A primeira leitura de um livro é algo muito íntimo. O que posso dizer é que além de inesquecível, foi de uma vez só. Na época fiquei feliz e orgulhoso, já que me fez sentir interessante. Mas ao mesmo tempo lembrei das palavras do Aurélio e o medo de passar o resto dos meus dias empoeirado em um canto qualquer me atormentou.

A estante da moça era modesta, principalmente em relação à da livraria. Ela me acomodou na prateleira mais alta entre uma biografia e um livro de fotografias.

Conheci muitos livros nos meses seguintes. Todos relativizavam meu medo de nunca mais ser lido. Soube que alguns estavam guardados sem nem terem sido abertos! Outros diziam que era melhor passar os últimos dias ali a terminar tendo as folhas embrulhando qualquer coisa por aí. Repetiam como mantra. Havia também a esperança de ser emprestado. Ter uma nova casa e conhecer novos livros, já que a probabilidade de volta nessa situação é quase nula - me ensinou uma vez um livro didático. E assim aconteceu, em uma noite de festa, música e bebida a moça me emprestou.

Fui lido inúmeras vezes daquele dia em diante, sempre no regime de empréstimo. Sempre ciente de que nunca mais voltaria ao lar anterior. Um livro de piadas umas vezes me disse que até quem nos empresta no fundo sabe que nunca mais voltaremos, vai entender.

Voltas e voltas que me trouxeram aqui. SEBO, mostra o letreiro desbotado lá na frente. Há quem diga que é uma espécie de sobrevida para livros velhos e já cansados dos empréstimos. Olhando em volta tenho que concordar: “melhor aqui a terminar tendo as folhas embrulhando qualquer coisa por aí”. E olha que nem estou em estado tão ruim, me colocaram em um lugar de destaque, enfim com a capa à mostra. Uma visão privilegiada, que me permite ainda que de longe reconhecer o Aurélio mostrando para alguém o significado da palavra “reciclagem”.