Vida Crônica
Adotei um cachorro

Um amigo trouxe outro dia aqui. Deixou ração, uma coleira reserva, um brinquedo feito de couro seco, corrente e recomendações. Disse que havia aparecido na rua da sua casa e que, junto com os vizinhos, estava procurando lar para o animal. Depois de uma estadia de uma só noite na casa de pais adotivos impacientes, o cachorro viu-se sem teto novamente.

- Eu até que ficaria com ele, mas lá em casa já não tem mais espaço, não se sinta pressionado, é só uma proposta – arriscou meu amigo. Aceitei, quase não me reconhecendo.

No primeiro dia a coisa foi meio estranha. Eu sentando na soleira da porta, ele como esfinge de queixo encostado no chão olhando para mim. - E aí, tio, vai ficar parado com essa cara? Nunca ficou sozinho com um cachorro?

Claro que eu já tive vários cachorros na minha vida. Mas nunca fui o responsável por nenhum deles e lembrando aqui, acho que cabem nos dedos das mãos às vezes que ficamos a sós. Droga de bicho esperto, pensei. Arrumei um pote vazio de sorvete para a ração e uma panela para a água, estendi uma colcha velha king size na garagem e voilà! Estava instalado o garoto. Travesso e experiente, segundo meu amigo, tinha a vivência das ruas.

Naquela noite, eu já teria a primeira grande responsabilidade. Precisava de um nome para ele. Obviamente que não poderia ser qualquer alcunha, precisava demonstrar toda minha cultura, precisava ter referência, não à cor caramelo dele, nem às suas orelhas enormes e pontudas, muito menos às pernas curtas. Tinha que ser o nome de um grande personagem da literatura ou da música, uma prova de erudição do seu dono. Tarefa ingrata.

Não me pareceu de bom tom chama-lo de Brás Cubas. Joyce, além de arrogante, poderia suscitar uma ou outra discussão sobre Ulysses, aí já viu. Macunaíma também não, li que nome de “pet” tem que ser curto. Parti para a música. Ozzy? Não. Iggy? Olha aí, pode ser.

Mas a minha vida é um sem número de escolhas passivas, movida a não-escolhas e não seria agora que mudaria. A dúvida ainda se debatia em minha mente noite adentro, quando ao procurar reencher um copo de água me deparo com um imã antigo com a cara do Woody Allen na minha geladeira. Seria correto dar o nome do polêmico e quase cancelado diretor para o bichinho? Seria. Também não me importou ser o apelido antigo de um velho amigo. Talvez ninguém mais o chame assim hoje, ele entenderá.

Udi amanheceu seu primeiro dia aqui em casa deitado em frente à porta, e ao lado dele o pote de sorvete vazio. Garoto exigente. Adentramos a semana com altos e baixos na nossa recém-criada amizade. Tentativas frustradas de banho nele e efetivadas em mim. Choros e uivos até nos momentos em que eu o deixava sozinho para ir ao mercado aqui na esquina. A cada saída do carro da garagem foi preciso prendê-lo na corrente, a simples visão paradisíaca da rua o deixava maluco. Mas foi e ainda é necessário, você sabe, malandro não para, malandro dá um tempo.

Até que dias atrás recebi uma visita. Logo de cara percebi que Udi estava diferente. Risonho, latido grosso e olhos brilhantes. A moça e eu nos encostamos na sacada e apresentei o faceiro a ela. Estava soltinho. Gemia e mordiscava os sapatos e a barra da calça dela. Eu pedia que parrasse e nada, mais que isso, virou-me as costas, deu de rabo para mim e só tinha focinho para ela. Mal nos deixava conversar. Foi assim durante todo o tempo que ficamos bebendo fora da casa. Certa hora, ela foi para a cozinha preparar um cigarro e Udi foi junto, continuei na sacada terminando o meu. Enquanto fumava, ouvia risos dela e o respirar ofegante dele cada vez mais rápido. Apaguei a bituca e entrei ver o que acontecia.

Ela estava sentada na cadeira e, descalça, passava os pés nele, que de olhos fechados, gemia descaradamente. Cachorro! Pensei. Fiquei ao lado da cena, sobrando, até que ela terminou o artesanato e foi para sala. Udi, sedento, foi lá para fora saciar-se. Fingi um vento frio em pleno janeiro e fechei a porta. Aqui não garoto. Na madrugada achei ter ouvido latidos sob a janela do quarto, mas pensei não ser nada e adormeci. Pela manhã, enquanto abria o portão da garagem para ela ir embora, achei ter visto Udi abrir e fechar um olho, mas pode ter sido coisa da minha cabeça, culpa talvez.

Nem eu nem ele tocamos no assunto desde então, hoje acredito que estamos bem, já que nesse momento, enquanto escrevo esta crônica e tomo café, Udi dorme o sono dos justos sobre meus pés.

Rotina

 

 

De uma hora pra outra o mercado encheu. Estranho porque à tarde geralmente a coisa é bem tranquila. Só dona de casa mesmo e o pessoal da terceira idade. Se bem que esses gostam mesmo é de madrugar no mercado. Nunca vi. Mas de repente lotou. Ainda pro meu azar eu estava no caixa rápido. É o pior. Tem gente que quer passar com mais produtos do que pode. Outros confundem com o preferencial. Não tem empacotador. Ninguém gosta.

            Rapidinho a fila já tinha umas quinze pessoas. E a gente estava em quatro meninas. No começo tudo indo bem. Só gente sozinha. Elas são práticas. Estão ali voltando do trabalho. Querem ir pra casa mais do que eu. É a única vantagem do caixa rápido. Papel higiênico, sabonete e shampoo. Três itens, tá ótimo. Café, trigo, óleo e açúcar. Próximo. Pão, ovo e leite. Botão vermelho duas vezes, por favor. Cerveja, carne e carvão. No cartão? Quero um cigarro.

            Eu detesto quando tenho que buscar cigarro. Quem sempre pega é o empacotador. Mas quando a coisa tá pegando fogo assim, eu mesmo vou lá buscar. Dá até dó dele. Qual marca? Não entendo. Eu não conheço. Como é? Nunca sei se é light ou de menta. Eu não fumo, não conheço as marcas. Deixo o caixa e vou atrás do tal cigarro. O mercado tem mais gente ainda. Tá entrando gente e não tá saindo ninguém. Tá aqui o seu cigarro. Quero box. Fumantes fumam a embalagem também, acho que é isso, qual é a diferença?

            Quando volto de novo, tô só eu no caixa rápido. Pra onde as outras meninas foram eu não sei. A fila tá enorme e o sistema tá lento. Código de barras, código de barras, código de barras. Vinte e sete e cinquenta. Esqueci uma coisinha, volto rapidinho, posso? Antes de eu pensar em dizer não e falar sim, a cliente foi. A cara de impaciência coletiva de quem estava ali atrás dela é instantânea. Vejo meu pai e minha mãe lá no caixa 11. Não, é só a mãe. Toda essa demora por causa de uma Coca-Cola? Reclama o próximo da fila, alto o suficiente pra eu ouvir.

            Tô ficando sem troco. Minha mãe tá lá na fila olhando pra mim ainda. E onde estão as outras meninas do caixa rápido? Próximo. Dá pra passar esse número de cervejas nesse caixa, né? Quantas são? Dezoito. Pode. Se esse sistema lento deixar. Uma cerveja, duas cervejas, três cervejas. Ele começa a sorrir pra mim. Lá do caixa onze minha mãe também. As outras meninas do caixa rápido voltaram. Também riem. Do quê? Sete, oito, nove cervejas. Não é mais fácil multiplicar por dezoito, moça? Claro, é assim que se faz. Doze, treze, quatorze. O bipe da leitora vai aumentando junto com a gargalhada de todo mundo. Minha mãe sumiu da fila. Quinze, dezesseis, dezessete e dezoito. Pronto. Esquece, não quero mais levar nada. Como assim? As gargalhadas vão diminuindo e o bipe fica  cada vez mais alto.

            Acordo assustada. No celular são quinze pras sete. É segunda-feira.

 

Dedicatórias

No próximo dia 14, lanço meu primeiro livro em prosa, “Por extenso” é, na sua maioria, uma compilação de crônicas publicadas neste espaço. Completam a obra alguns textos antigos, de uma época em que eu nem imaginava publicar em jornal.

Os lançamentos são eventos especiais nos quais o escritor encontra seus leitores, amigos e familiares, que no meu caso, acabam sendo um grupo só.

Embora neste ano haja o diferencial de estar publicando um gênero diferente da poesia, o que me deixa ansioso é estar outra vez cara a cara com o momento mais tenso que existe em um lançamento: a hora da dedicatória.

A maioria das pessoas imagina ser esse o ápice do evento, mas para mim – e para alguns outros escritores que conheço – é sempre um terror. Como assim? Você me pergunta. É só escrever qualquer coisa ali e pronto! Antes fosse.

Primeiro que essa “qualquer coisa” não pode ser repetitiva. Eu morro de medo de que, alguém que tenha meus livros anteriores, consulte-os de vez em quando, e perceba ali na primeira página, que venho me repetindo há quase dez anos! O leitor, ainda mais quando nos é próximo, quer algo de certa maneira único, inédito, que seja de alguma forma pessoal e cúmplice. Nem sempre é possível. O certo mesmo seria padronizar por completo. Já pensei até em mandar fazer um carimbo.

 

PARA ________, COM AMIZADE E CARINHO.

KLEBER BORDINHÃO.

 

Eu sei, é impessoal, frio. Além dos mais, que tipo de escritor não consegue criar algumas frases diferentes ali naquele espaço? De qualquer maneira, a ideia veio em um momento de desespero, assim como surgiu, foi descartada. Até porque resolveria apenas um dos problemas da dedicatória.

Todo mundo em algum momento da vida já esqueceu o nome de alguém. Geralmente, o lapso nominal se dá em encontros ocasionais, nas ruas, festas, supermercados, etc. O constrangimento é certo e livrar-se dele é uma arte que poucos dominam. Agora imagine-se frente a frente com uma pessoa que veio até o lançamento do seu livro, prestigiou o evento, comprou a obra e que na hora daquela dedicatória especial, você, desgraçadamente, esquece sua alcunha. Desejo-lhe uma ideia fixa, um argueiro ou uma trave no olho, mas que nunca passe por tal aperto. E as redes sociais tornaram a gafe ainda mais frequente. É complicado, minha lembrança de algumas pessoas é a soma de seu avatar e do @algumacoisa. Muitas vezes, eu realmente não sei nome o de batismo do cidadão ou da cidadã.

É claro que tenho alguns artifícios para fugir dessas encruzilhadas, de vez em quando eles me salvam. Obviamente, não vou citá-los aqui, afinal, talvez você me conheça, quiçá compre um livro meu e, mais que isso, me peça uma dedicatória. Neste dia, se perceber algum sinal de inquietação, por favor, não me leve a mal.

Com amizade e carinho.

Kleber.

Lendas do Paraná

- Ah, pai, eu não quero ir! – disse Paulo.

- Vai sim! São seus avós, você não gosta deles?

Claro que Paulo gostava deles. Mas ir fazer o que na casa nova dos avós? Seu pai já tinha dito que ainda não tinham instalado a internet ainda.  Entrou no carro e foi o caminho todo emburrado e sem conversar com o pai. Ficou imaginado a chatice que seria ficar lá sem fazer nada no meio de todas aquelas caixas de mudança, sem internet e sem ter ninguém para brincar.

Quando chegaram na casa nova, tinha um caminhão na frente com alguns homens descarregando os móveis. Seu avô veio recebe-lo:

- Paulinho, que bom que você veio! Estamos precisando de braços fortes hoje!

Ele mal abraçou o avô e já foi entrando na casa. Já na sala, foi pra janela e viu seu pai e seu avô se abraçando e conversando. Achou que os dois viriam atrás dele para tentar animá-lo. Nada disso. Logo foram em direção ao caminhão de mudança e começaram a ajudar os homens a descarregar os móveis.

Saiu da janela e decidiu explorar a casa nova dos avós. Era uma casa pequena e com todas aquelas caixas espalhadas pelos cômodos parecia menor ainda. Os móveis estavam todos fora do lugar: pia na sala, TV no corredor e geladeira na lavanderia. Só a estante onde ficavam as fotografias e os livros deles estava montada. Ao lado duas caixas: uma escrita “retratos” e na outra “livros”. Paulo sentou entre elas e tirou o celular do bolso torcendo para que ele tivesse conectado a alguma rede ali da vizinhança. Mas não, nada de internet.

Ainda olhando pro aparelho, Paulo ouve a voz do avô:

- Paulinho, meu filho, seu avô ainda não consegui instalar a internet.

- Eu já sabia, papai já tinha me contado.

O avô então diz uma frase que deixa Paulo com uma mistura de tristeza e vergonha:

- Então era por isso que você não queria visitar seus avós?

- Não, vô. Paulo responde olhando para baixo.

- Tudo bem, meu filho, deixa isso para lá. Olha, por que você não ajuda seu avô a preencher a estante? Aí quando sua avó e sua mãe voltarem do mercado, vão ficar orgulhosas da sua ajuda.

Paulo não achou a ideia muito legal, mas não queria discordar do avô. Então já foi abrindo a caixa dos retratos quando o avô disse que era melhor acomodar os livros, já que os porta-retratos poderiam cair e o vidro quebrado poderia machuca-lo. Paulo então abre a caixa dos livros, o avo lhe faz um carinho na cabeça e volta ajudar o pai e os outros homens na mudança.

Paulo então começou a colocar os livros na estante, mas logo um em especial o chamou a atenção. Era um de capa dura, que entre as várias figuras da capa tinha a taça do Parque de Vila Velha. Ele lembrou do dia em que visitaram o lugar, ficava no caminho entre a Ponta Grossa e casa antiga casa dos seus avós. O nome do livro era “As lendas do Paraná”.

Ele foi passando as páginas até encontrar a lenda de Vila Velha. Parou quando viu novamente a ilustração da taça, se encostou na parede e começou a ler. A lenda dizia que muito tempo atrás, Vila Velha era um lugar chamado de Abaretama, que na língua indígena significava “terra dos homens”. Lá vivia uma tribo composta só de guerreiros, chamada de Apiabas, esses homens eram também os protetores de um grande tesouro, o Itaimmareru. Os índios desfrutavam de muito conforto e muita liberdade, mas eles não podiam namoram índias de outras tribos. Sabendo disso, uma tribo rival enviou a jovem Aracê Poranga para seduzir o guerreiro Dhui. Só que o casal se apaixonou de verdade, provocando a raiva do grande deus Tupã. O deus indígena, revoltado, transformou os namorados e a cidade toda em pedra. O tesouro foi derretido e se transformou na bela lagoa dourada.

Paulo adorou a história. Voltou ao início do livro e começou procurar outras lendas sobre lugares que já conhecia. Achou a lenda das Cataratas do Iguaçu, aquelas cachoeiras enormes que ele sempre via na TV. E também leu a lenda da Araucária, também conhecida como pinheiro-do-paraná.

Seu avô e seu pai espiavam ele de vez em quando pela janela, surpresos com a concentração do menino no livro. Paulo estava tão mergulhado nas histórias que nem percebeu a chegada da mãe e da avó. Elas entraram pela sala e não quiseram mexer com o pequeno leitor. Só algum depois a avó de Paulo gritou lá da cozinha:

- Paulo, largue um pouco esse livro e venha comer alguma coisa!

Não adiantou nada. Seu avô, que junto com seu pai tinha feito uma pausa na mudança para comer alguma coisa, teve que ir pessoalmente chamar o menino para se alimentar. Paulo chegou na mesa improvisada de caixas de papelão com o livro embaixo do braço, puxou um banquinho e antes de dar a primeira mordida no sanduíche que sua avó tinha preparado, perguntou a todos:

- Vocês conhecem a lenda de Vila Velha?

Kid Cultura

Eu praticamente não falo com ninguém sobre o que leio. E ali todos estavam interessados no assunto. A conversa estava ótima. Até a menina que não memorizei o nome estava participando. A cerveja estava nos deixando falantes. As outras rodas de conversa estavam também a todo vapor. Quase não dava para ouvir mais a música. O ambiente estava tomado pelo som de gente conversando.

Perguntei para o meu amigo se era verdade mesmo que ele tinha lido os livros que citava. Na grande maioria das vezes! As meninas riram. É que tem uns que eu não lembro. Mentiu, rindo também. Bem que eu desconfiava.

Enquanto a gente conversava, alguns meninos e meninas passavam por ali e nos cumprimentavam, falavam alguma coisa da festa, ficavam um pouquinho com a gente e saíam. Até que uma hora, chegou um rapaz na roda. Óculos de armação grossa. Cabelo bem cortado. Bigode. Camisa. Paletó. Bem diferente dos caras que vestiam camisetas de banda e enchiam o lugar. Aparentava ter muito mais idade que todos nós. Chegou perguntando qual era o assunto que nos fazia parecer tão animados. Literatura, contos, disse meu amigo, me olhando logo em seguida de um jeito estranho. Ele não teve a mesma reação quando os outros que passaram por nós fizeram a mesma pergunta. Quando o rapaz abriu a boca de novo eu entendi.

Parecia uma palestra. Me lembrou algumas apresentações que a gente tem que assistir nas confraternizações do trabalho. Ele falava sobre os livros que estava lendo. Isso, lia de cinco a dez livros juntos. Para ele era difícil se concentrar em uma obra só, com tanta coisa para descobrir no mundo. Falava lentamente. Detesto gente que demora para continuar uma ideia e manda um ééééééééé. Era ele. Nesses intervalos intermináveis, mexia nos óculos, ajeitava o bigode. Olha só que interessante, éééééééé eu conversava dias desses com uma mestranda da área de Letras éééééééé sobre a representatividade do conto brasileiro na segunda metade do éééééééé século XX. Depois de um tempo, eu só reparava no jeito que ele falava. A maneira que acendia o cigarro como se estivesse na Paris dos anos 20. Sempre ajeitando o bigode e enfiando os óculos na cara com o dedo médio da mão esquerda. Só voltei do transe quando ele falou alguma coisa olhando diretamente para mim.

Desculpa, não entendi, arrisquei. Seu nome. É Kelly. Então, Kelly, o que você pensa disso? Eu não sabia o que eu pensava disso, porque não sabia o que era aquilo. Mas não teve problema. Ele mesmo respondeu por mim, sequestrando novamente a conversa. Continuei o devaneio. Taí um cara que é capaz de colocar os termos Idiossincrasia e Sui generis numa frase só.

E assim como apareceu, se despediu e foi embora. Quem é esse aí? É sempre assim? Fala tudo isso e sai? A gente não interage muito senão ele fica, disse a menina que eu tinha esquecido o nome. O nome dele é Caio, mas é mais conhecido como Kid Cultura, da música do Oswaldo Montenegro, sabe?

Todos ali meio que riram. E sem nenhuma necessidade de perguntar de que falava a letra da música, tomei mais um gole da minha cerveja.

Eduarda acabou de entrar

Mal a conhecia, tinham alguns amigos em comum e nem se lembrava desde quando ela estava ali. Mais que matar trabalho, sentiu um interesse que o surpreendeu, escorregou um oi.

A resposta foi rápida, sentiu prazer na reciprocidade. Depois das convenções de cumprimentos, a conversa evoluiu rapidamente. Discorreram sobre música, letras e afins, descobriram diferenças e, dentre as afinidades, a tara por conhaques. Pairava sobre o papo um flerte oculto, nenhum dos dois queria ser o primeiro a revelá-lo, porém, encontraram uma forma de manifestarem suas intenções, logo estavam fantasiando um encontro casual que mais escancarava do que velava os desejos.

– No apartamento dele.

– Sim, está frio e chovendo.

– Ela chega atrasada.

– Você chagaria atrasada?

– Chegaria um pouco, acho um charme. Tem que ter uma vitrola e lareira.

          Continuaram, cada um comandando seu avatar. Em determinada altura, quando os personagens já estavam trocando carícias, ela interrompe:

– Preciso sair.

– Eu não tenho seu telefone.

Anotou o telefone, combinaram de conversar pessoalmente. Antes mesmo de ele voltar ao trabalho, ela reapareceu:

– Pode ser hoje?

– Pode sim.

– 19:30?

– 19:30 no Soberano...

Ele se levantou, foi até um amigo e emprestou dinheiro, previa gastos que seu bolso surrado não suportaria. A noite, fosse longa ou curta, estava patrocinada.

O bar estava semivazio, apenas os fiéis etílicos ancorados no balcão faziam número naquela terça de tempo fechado. Assim que entrou, visualizou a mesa mais afastada. Sentou-se e fumou a seco, queria a companhia para começar a beber.

Ela chegou. Visivelmente desconsertada, não muito diferente dele, perguntou o que beberiam. Parecia evidente e era. Conhaque.

A primeira dose serviu para derrubar a diferença entre a conversa virtual e o contato ao vivo. Complementaram os assuntos da tarde e iniciaram outros. Ela falou sobre seu gosto vintage, de como era uma pinup perdida no presente. Ele ouviu, achando-a sofisticada. O período da segunda dose foi dele, contou sobre uma nova descoberta que tinha feito, um cantor fantástico, desfilou seus conhecimentos recém-adquiridos sobre o roqueiro e sentiu vergonha quando descobriu que ela dominava aquela biografia muito mais que ele.

Com o tempo passando, o conhaque encarregou-se de dar maior dinâmica ao encontro, entraram no assunto que ambos estavam interessados, por iniciativa dela:

– Você já fez algo daquilo que conversamos hoje à tarde? Sei que com certeza algumas coisas já, mas me refiro ao clima, à chuva, lareira, vitrola.

– Não, nunca.

Alcançada a fase do flerte descarado, entravam também na quarta rodada de conhaque, ela nitidamente curvada na direção dele, demonstrava a embriaguez a cada palavra que tropegamente pronunciava. Ele, dissimulado, arquitetava uma maneira que ao menos parecesse digna de levá-la pra cama. Falhou.

– Tem hora de ir pra casa?

– Talvez não, por quê?

– Podemos ir pra um hotel.

Pediram mais uma dose, a saideira. Ela ligou para sua casa, avisou que dormiria em uma amiga. Terminaram os copos e partiram.

Ventava forte e a chuva espreitava. Na rua, abraçados, foi que perceberam o quanto estavam bêbados, ela mais, tinha dificuldade até com as imperfeições da calçada. O hotel era próximo ao bar, mas o caminho demorou, nem tanto pelos desvios do álcool, mas pelas bruscas paradas que davam quando seus beijos chamavam atenção das prostitutas das três esquinas pelas quais passaram.

Chegaram e o recepcionista logo percebeu que o casal, embora estivesse viajando, não estava ali para uma revigorante noite de sono. Cobrou adiantado e disse um boa noite malicioso, ela olhou pra baixo, pra ele, o conhaque cobriu o embaraço.

No quarto sem lareira nem vitrola, despiu-a sem gentilezas e romantismos, ela não pareceu se importar.

Choveu e amanheceu. O sol trouxe a ressaca, a sobriedade e certo acanhamento. Conversaram o necessário para ambos descobrirem que estavam com fome. Desceram e, no salão onde serviam o café, comeram em silêncio juntos a uma família, alguns empresários de notebook e um solitário senhor.

Saíram do hotel juntos e, algumas quadras depois, sob o guarda-chuva dela, pararam.

– Vou por aqui.

– Eu pra cá.

       Um beijo curto e protocolar.

Quando ele chegou ao trabalho, ainda foi tomar mais um café, deu um tapa nas costas do amigo cúmplice e ligou o computador. Minutos depois, lia um aviso na tela, Eduarda tinha acabado de entrar...

 

6º ano

Eu tenho um sonho recorrente: vejo-me invariavelmente dentro de uma sala de aula, seja na escola, colégio ou universidade. São lugares onde estudei e os colegas são os mesmos, o que muda é que nos sonhos, como estudante, eu tenho também a experiência de ter sido professor. É curioso. Sentado na carteira, fico imaginado qual será a resposta que eu daria às minhas ações. Não importa se tenho mais de 20 anos ou se ainda estou aprendendo a escrever. Vai entender. Professor Freud deve explicar.

O certo é que quando despertei hoje de um sonho desses, passei a manhã toda lembrando das minhas aulas no ensino fundamental. Segundo o historiador e professor Leandro Karnal, quem deu aula para o 6º ano é capaz de fazer qualquer coisa no planeta Terra. Dei aula durante quatro anos para os recém-chegados ao ensino fundamental II, não me sinto onipotente como descreve “profe” Karnal, mas foi a experiência, de longe, mais rica que tive como docente e gente.

Antes de tudo, é preciso lembrar que, normalmente, um aluno ou aluna que entra no 6º ano já tem – ou terá nos meses seguintes – 11 anos de vida. Nem mais tão criança e ainda longe de ser adolescente.

Eles começam o ano letivo carinhosos. Não é raro trazerem pequenos presentes. Mal você adentra a sala e eles te cercam. Alguns só para dizer oi. Outros para te contar que a mãe deixou-os dormir na tia Jaqueline no sábado e que ficaram acordados até as 2 da manhã. Nessas horas, o modo Xuxa é inevitável. Sentem lá, Cláudios e Cláudias. Essa empolgação dura menos de um semestre. Logo vão ignorar sumariamente a sua entrada em sala de aula até a chamada.

Nome após nome, intercalados por pedidos inúteis de silêncio. E ai de você se chamar a atenção do aluno errado. Nessa idade, a noção de justiça é implacável. Eles são capazes de qualquer coisa para provar que não estavam conversando. Angariam testemunhas e provas e as apresentam ao fim da aula em busca da redentora inocência.

São competitivos. O famoso “terminei” é praticamente um ponto final oral de qualquer atividade. E não adianta pedir para que os outros não façam o mesmo. Ao menos os cinco primeiros “colocados” farão questão de serem reconhecidos. E enquanto o resto da turma continua, os rapidinhos abraçam o ócio e é aí que mora o perigo. Mente vazia, oficina das dúvidas. Quantos anos você tem, professor? Por que não é casado? A sua barba comprida é alguma promessa? O meu tio tem um carro igual ao seu, é gastador né?

Para o 6 º ano eu dei aulas de inglês e produção de texto. Trabalhar com eles uma língua estrangeira tem lá suas curiosidades, mas às vezes ler as redações dos alunos nessa idade é dar razão as mais piegas das mensagens de grupo de família no WhatsApp. Entre relatos de férias e aventuras de heróis tendo eles mesmos como protagonistas, alguns textos realmente ficam registrados na nossa memória para sempre. Como a declaração de amor e fidelidade que um aluno escreveu para a sua progenitora. Depois de um sem número de elogios, já no final do texto, ele confessou de coração aberto que quando nasceu e olhou pela primeira vez para aquela mulher ali no hospital, mesmo sem a conhecer direito, não teve dúvida, percebeu no mesmo instante que ela seria sua mãe para o resto da sua vida.

 

Passo a passo

a pedido do amigo, a bebeu de uma só vez.

bebia pra esquentar o frio na barriga.

fez a casa redonda para não chorar pelos cantos.

chorava por hábito, sorria por educação.

das absolutas certezas só queria a redundância.

depois do fim, o calendário tinha escala 1:1000.

distorcia os pontos finais até se tornarem vírgulas.

dormiam juntos e transavam em camas diferentes.

entrou em parafuso e espanou.

era avessa a lados.

feliz já foi e nunca voltou.

foi levado pelos gatos.

mantinha esperanças em álcool.

mastigava os dias da semana.

mimava a tristeza.

mirou no amor, errou em cheio.

os ombros não se encaixavam mais.

penteou todos os cabelos até sobrar nenhum.

perdeu a fé em algum canto do bolso.

perdeu os olhos na multidão.

plantou uma árvore no lançamento do primeiro romance.

por ela, já seria dele.

por horas desejou apenas a mão dela.

sofria de poesia crônica.

soltou um sorriso quando a saudade apertou.

sonhava e chamava o dia de insônia.

suas costas eram paisagem.

sussurrava ao pé da orelha do livro.

tatuava sorrisos.

tinha certeza de que tudo era relativo.

tinha esperança, mas sempre acabava dormindo.

tinha medo de esquecer a voz dele.

tinha opinião pra tudo e solução pra nada.

tinha porta-retratos vazios por toda a casa.

tinha tara por pés de ouvido.

tinham um cão chamado Volte.

tirava a aliança pra tomar banho.

tomava sol e vomitava.

via o nome dela e em cada uma das letras do outdoor.

costurou-se com um fio de esperança.

desistiu na penúltima hora.

chegou em casa, abriu o gás e sentou.

morreu de olhos abertos pra ver a luz no fim do túnel.

o outro morreu em cima do muro.

e as quatro pernas nunca mais voltaram a se encontrar.

Sobre cafés, tiaras e tapas

Uma das primeiras memórias que eu tenho com a minha mãe vem lá dos meus cinco anos, eu acho. Me sinto meio triste quando penso nisso. Porque tem gente que diz ter lembranças desde bem cedo de suas mães. Eu não. Lembro de coisa mais antigas. Umas cenas isoladas. Mas nenhuma delas tem ela no meio.

 

Aquele papo de que menina se apega mais ao pai é balela. Pelo menos pra mim. Eu não desgrudava da minha mãe. Eu adorava a presença dela. Claro que com meu pai sempre trabalhando, era só nós duas na casa. Mas bem por isso poderia ser o contrário. De tanto a gente ter contato, eu podia não aguentar ficar perto. Tenho um monte de amigas que são assim com suas mães. Não se suportam.

 

Eu sempre dormia com ela. Só nos fins de semana que meu pai estava em casa eu ia pro meu quarto. Segundo ela, ainda assim, de vez em quando eu batia na porta do quarto deles pra pedir cama. Não lembro disso. Lembro dela esfregando as mãos em cima do vapor da chaleira, esperava um pouco e colocava uma mão em cada bochecha minha pra esquentar. Também cantava umas músicas estranhas numa língua que ela tirava sei lá de onde. Mas aí tudo já cheirando a café de mãe e com o sol da manhã fazendo réstia no vidro da janela da cozinha. Disso até a hora do almoço eu passava na frente da TV. Ela nunca se incomodou de me deixar na mãos dos desenhos infantis. Pelo contrário, comprava envelopes pra que enviasse as cartas pra ganhar os prêmios dos programas. Eu escrevia, fechava com cola e jogava atrás da estante. Ela achava engraçado. Tadinha, ela pensa que é assim que funciona! Contava rindo pra todo mundo. Só que eu sabia que tinha que selar e enviar pelo correio. Mas assim que eu terminava as cartas, ficava com vergonha de enviar e escondia elas atrás do móvel.

 

Ela brigava pouco comigo. Lembro de uma vez que uma vizinha me deu uma lapiseira de aniversário. Fiquei brava. Quem dá uma lapiseira pra uma criança? Joguei no chão assim que ganhei. Minha mãe me fez pedir desculpas na hora e num bilhete que escrevi depois usando a tal “lembrancinha”. Fora a coça que levei. E teve outras vezes, mas mesmo assim foram poucas. E tinha também os sábados. Era dia da limpeza. Eu lembro que comparava ela com uma daquelas formigas vermelhas. Aquelas que têm a picada bem ardida, sabe? Era minha mãe. Só de olhar pra ela já se irritava.

 

Me enfeitava com todo o tipo de tiaras que você puder imaginar. Daquelas mais bonitas, com laços e tudo até as de plástico vagabundo. Sempre estava eu lá, de tiara e franja! Só fui usar uma calça fora de casa lá pelos dez anos de idade. Tivesse o frio que fosse, eu estava de vestido ou saia. E com as meias-calça mais grossas do lugar.

 

Todas essas passagens aí de infância vieram depois dos cinco anos. E a primeira lá, foi de uma dia que a gente tava no centro - city, ela dizia. Num ponto de ônibus, sei lá porque, eu perguntei pra ela se quando eu morresse, ela iria no meu enterro. Que isso? E meio sem pensar mandou um tapa na minha boca. Me deu vontade de chorar. Não por causa do tapa, mas por ter feito essa pergunta.

Banco é rotina

 

 

Meu chefe estala dois tapas nas minhas costas e dá meia volta. Até mais. Até. Alguns passos depois, já parado em frente a porta giratória, o guarda me reconhece e libera a entrada com as chaves e tudo. Ele sabe que tenho uma bolada na mochila. Vou pra fila da senha. A estagiária sorri com a aquela boca de plástico como faz todo dia. Como faz pra todos. Pra mim é pior. Sou um quebrado. Ela quer subir na vida. Eu quero uma senha pros caixas. Ela nem pergunta. Destaca da máquina o papel e estica o braço na minha direção. Interesseira. Basta ser um pouco mais engomadinho que o sorriso de plástico derrete e dura mais. Mas ela sabe que aquilo é provisório. Logo vai atender na sua própria mesa. Aí sim, homens endinheirados. Não esses pés rapados que precisam pagar as contas na boca do caixa.

            Senha 175. Enxergo o número 133 no painel. Que merda! Hoje vai demorar. Foda-se. Quanto mais tempo aqui, menos no trabalho. Jogo a senha no bolso e vou matar o tempo com o guarda. Deve ter lá seus 40 anos. É separado, toma uns goles por aí. E como em toda a segunda-feira manda a mesma pergunta: e os golão? Sempre anda com caixas de cerveja no porta-malas do carro. Gosta de vodca e coca também. Não gosta de maconha. É coisa de piá vagabundo. De carçudo. Já trabalha ali faz uns 10 anos. E se um dia tentarem fazer o banco, o que você faz? Eu fico na minha, disfarço e me livro da arma, não arrisco minha vida pelo mixaria que ganho. De supetão, para o que está dizendo pra liberar a porta giratória e cumprimentar com mais atenção uma morena que acaba de entrar. Já comi. Trabalha na loja de calçados na rua debaixo. Safada. Então, voltando, não vale a pena dar uma de herói, é como dizem nos filmes mesmo. O guarda é amigo de todo mundo que põe os pés diariamente no banco. Tem vezes que ficam dois ou três ao lado dele, só de conversa. Encostados na parede apreciando o desfile das clientes e das funcionárias. No fundo da agência, onde tem carpete vermelho, nas mesas dos gerentes e de atendimentos personalizados, ficam as mais gostosas. E aquela de saia vermelha, guarda, quem é? Monique, veio transferida do interior. Mas é uma safada. Eu reparo como elas desfilam de um lado pro outro com seus saltos, saias, terninhos, cópias de documentos a tiracolo. Vêm lá do fundo, param na porta que dá acesso ao interior do banco e enquanto digitam suas senhas me cumprimentam com um oi forçado, às vezes com um sorriso, e seguem, corredor adentro, deixando só o fio de perfume pros pagadores de boleto que se aglomeram ao redor do guarda.

Ó piá, o gerente tá comendo essa. Filho da puta. Além do ar superior com que olha pra gente, ainda usa o trabalho pra comer as mais ambiciosas. E olha, elas gostam. São umas safadas, pontua o guarda. E tem mais, se fosse eu, faria o mesmo. Você também, garanto.

Senha 150. É o terceiro copo de água que tomo. O banco está abarrotado de gente. Vou procurar um lugar pra sentar até dar minha vez. Dor nas costas nessa idade, piazinho? Fico seis horas direto em pé e nunca me queixei. Veadinho. Há pouco tempo o banco tinha colocado umas 40 poltronas em frente aos quatro caixas. Conseguir sentar em uma delas era só se você chegasse pela manhã, na hora em que o banco estive abrindo. Deixei o guarda e me encostei na parede do fundo.

Todo mundo odeia esperar. Todo mundo odeia banco. Talvez só quando vão sacar grana no caixa. Aí tem gente que não consegue segurar um sorrisinho. Eu sei porque dá pra perceber tudo daqui de trás. Os mais pobres diabos, como eu, sempre estão com fones de ouvido. O banco é rotina, estão acostumados e né, quanto mais tempo aqui, menos no trabalho. Tem também os que não sabem o que é uma fila. Ficam indignados com a demora. Um desrespeito! Comentam em voz alta com os desconhecidos que estão mais próximos. Uns, mais exaltados e com um pouco mais de orgulho ou dinheiro, ameaçam ligar pro Banco Central pra denunciar a palhaçada. Toda semana tem um. No fundo são uns fodidos também. Se tivessem grana, estariam sendo atendidos lá no carpete vermelho.

Me distraio. A senha já é 175. Confiro no papel e me desencosto da parede. No meio do caminho até o caixa, todos ouvem gritos de mulher e barulho de vidro estilhaçando vindos lá da frente. Lembro das conversas com o guarda. Abro a mochila, pego um maço de cinquenta e escondo embaixo do boné.