Vida Crônica
Balanço Rússia 2018

Há duas semanas, na última crônica desta coluna, escrevi sobre as memórias que tenho das copas passadas. Pois bem, a participação do Brasil na copa da Rússia acabou e faltando menos de uma semana para o fim do torneio, digo aqui para vocês meus destaques dentro e fora do campo.

Como corintiano, já quero iniciar confessando que a minha relação com o professor Adenor é outra depois dessa copa. Não suportei assistir a quase nenhuma entrevista dele. O tom professoral e pastoral do técnico da seleção foi demais pra mim. Será que ele era assim no Corinthians? Não sei, mas foi triste assistir ao Tite pagando de escritor de autoajuda nas entrevistas e propagandas.

E a publicidade na copa? Os clichês de sempre estiveram devidamente presentes: ufanismo, patriotismo de araque, muita cerveja, refrigerante, verde e amarelo. Tudo sem graça nenhuma, com pouca criatividade e explorando as figuras dos artistas em destaque no Brasil de 2018. Mas uma propaganda em especial me chamou a atenção pela cara de pau. Entre outros momentos absurdos, em uma cena vemos chefes de cozinha empenhados em preencher com comida “feita com muito carinho” uma bandeja miserável de plástico e logo em seguida, ao som de um discurso de preocupação com o bem-estar e a qualidade de vida dos clientes, uma gestante retira delicadamente a mesma bandeja congelada de seu refrigerador. Isso mesmo, comida congelada e uma gestante, que tabelinha.

Por outro lado, criatividade não faltou na já conhecida capacidade do brasileiro de criar memes. Teve o canário mais pistola do mundo, o Neymar rolando por todos os celulares do país, torcedor psicopata, Tite caindo e Tite correndo. Mas para mim o melhor foi sem dúvida o meme protagonizado por Cristiano Ronaldo e seu filho, o espetacular “pai tenho fome”.

Como é em toda copa, as mesas redondas esbaldaram-se nesse mundial. Teve canal que contratou tanto ex-jogador para comentar, que não sei como fez para por toda essa gente para falar. Já a transmissão dos jogos, pelo menos na TV aberta, não teve muitas novidades e manteve a sua cota de vergonha alheia. Se em 2014 tivemos o Alex Escobar como narrador, 2018 nos trouxe Roger Flores para comentar os jogos. As primeiras narrações femininas em uma copa do mundo foram um destaque positivo. Isabelly Morais, da Fox Sports, foi a pioneira.

Então, no seu quinto jogo, a seleção brasileira foi eliminada da copa da Rússia. A derrota não foi humilhante como há quatro anos, mas talvez a sensação da desclassificação digna tenha doído mais. Para os mais velhos, sair da copa é relembrar daquele sentimento estranho de tristeza e desilusão. Dificilmente há algo de novo nisso. Já para os mais novos, talvez seja a primeira decepção numa copa. A primeira vez que passam pelo procedimento socio-midiático de criação de expectativa e de, em algumas semanas, sofrer esse choque que é a eliminação de um mundial.

Só que derrota dura mesmo, e pra todo mundo, é quando esses grandes eventos evidenciam a misoginia, o machismo e o racismo, como nos casos dos torcedores brasileiros e mulheres russas e dos recentes ataques ao jogador Fernandinho.

E, infelizmente, as demonstrações de falta de empatia, má-educação e ignorância, logo serão mais frequentes ainda, lembre-se, estamos a poucos meses das eleições. Tenho a impressão que a sensação de derrota e desilusão não nos deixará muito cedo, nesse caso, seja quem for o vencedor.