Vida Crônica
Barulhos

            Envelhecer é implicar com barulhos. É também um monte de outras coisas, boas ou tão insuportáveis quanto, mas esta crônica vai focar apenas neste fenômeno do passar dos anos. Claro que tal afirmação é baseada na minha experiência. Talvez montada também em uma opinião expressada por um amigo aqui, solta por uma amiga lá. O certo é que a maioria das implicâncias é bem particular.

            Tenho saudade da época em que meu incômodo era apenas o zumbido dos pernilongos. Aquela revoada de verão que todos nós conhecemos. Minha memória auditiva lembra até com certo sentimento nostálgico daquelas noites quentes. Pensando bem, o tal sentimento é mais pela lembrança da segurança da casa materna e pelo fato de que depois que passei a morar sozinho os pernilongos sumiram, e não sinto mais na pele e nem nos ouvidos a presença deles. Porém, hoje o som dos insetos parece até ingênuo comparado aos barulhos que mais me tiram do sério.

            A localização das minhas moradas pode ter espantado insetos voadores, mas trouxe outros problemas. Sempre morei perto de cruzamentos. Uma vez na esquina de uma grande preferencial e outra próximo a um semáforo. Se você não liga isso a barulho, é porque provavelmente não mora em uma rua movimentada. Carros, caminhões e motos param e em algum momento precisam arrancar novamente. Esse exato instante é meticulosamente escolhido pelo universo para coincidir com um momento importante, seja na TV, seja em uma música, na conversa no sofá ou com aquele último momento de vigília.

            Onde eu moro hoje ainda é pior. A estrutura das casas e prédios vizinhos montam um corredor acústico que termina na janela da minha sala. Muitas vezes o som é amplificado também por culpa de dias, semanas e meses difíceis que têm se apresentado. E nesses tempos de irritação fácil e prolongada, eu já escolhi a grande vilã do barulho à combustão. A moto. A motoneta. A motoca. O liquidificador de rodas. A cigarra de guidão.

            Irrita. E minha irritação não discrimina ninguém. Da vespa mais sem-vergonha a uma Harley-Davidson ao som de “Born to be wild”. O ronco da liberdade se aventurando em duas rodas trava minha boa vontade com a vida. Os carros passam, os caminhões às vezes se alongam um pouco, mas a moto não. Ela é acelerada ao máximo durante duas, três quadras levando com ela minha paciência e concentração. Me lembra os desenhos que assistia na infância em que os personagens mais velhos tinham ataques nervosos ao escutarem qualquer início de balbúrdia. Quem diria, hoje sou eu.

            Os dias de ouvidos sensíveis são completados por portas entreabertas manipuladas pelo vento que não sabe se as quer abertas ou fechadas. Por gente que tem verdadeiro tesão por canetas e lapiseiras que podem ser apertadas. Música ruim e alta. Choro de recém-nascido. Gente que come com a boca aberta. Trens. Construções.

            Essas últimas me fazem lembrar Chico Buarque e sua “Samba e Amor”. Na letra, Chico trata com classe e até com sensualidade o som da “correria da cidade”, o trânsito e a fábrica. O abismo de talento entre ele e este aqui chega até a fazer barulho também. Mas peço desculpa por esta crônica não ter um tantinho sequer da beleza preguiçosa do texto do poeta, só que a meu favor cito os seis pares de rodas que passaram enquanto estas palavras foram escritas, levando deste cronista qualquer possibilidade de elegância e deixando apenas a rouquidão do desabafo.