Vida Crônica
Coletivo

E aí, fechou? Fechou nada, foi pra quebra de caixa. A quebra de caixa é um valor que recebemos a mais que os outros funcionários porque mexemos com dinheiro. Quando dá furo e a gente não quer conferir de novo, deixamos na conta desse “bônus”, só não dá pra exagerar.

Caminhando pro ponto a Dani não para de falar sobre o mercado. Eu até entendo, porque ela não tem também muito de outra coisa pra falar. Ela tá namorando já há uns meses e não tem muita novidade fora do trabalho. Digo isso porque quando ela era solteira não parava de falar dos caras que conhecia, só citava o mercado quando ficava com alguém de lá de dentro. Não sei explicar bem. É que eu quando passo por aquela porta de ferro desligo daquele lugar. Não quero nem saber mais. O ponto não tá vazio. Que bom. Uma menina e um senhor que sempre pegam meu ônibus. Ele sempre me cumprimenta. Ela não. Sempre com aqueles fones de ouvido. Parece que deixam ela cega.

Até amanhã, Dani. Subimos os três. Sempre que isso acontece eu fico com cuidado. O ônibus dela passa logo depois do meu. Mas nunca se sabe o que pode acontecer, né? Quase não tem lugar pra sentar no ônibus. Escolho o banco de dois que vem logo depois do cobrador. A menina do fone de ouvido senta junto. Abro a bolsa e pego meu livro. Se eu demorar um pouco o cobrador puxa conversa. Eu conheço o tipo.

Estou lendo um conjunto de histórias curtinhas. Na verdade, é só o que eu leio. Eu gosto porque dá pra prestar mais atenção nos detalhes. E também porque é como se eu lesse vários livros de uma vez só. Todas as histórias acontecem em uma cidade que não parece muito maior que a minha não. Falam de gente solitária ou que quer ser solitária. Um veio pra cidade maior pra estudar e largou tudo pra virar feirante. A outra lá separou do marido e saiu pro mundo. Não conheço os autores. Mas se for história de gente assim, eu compro. No sebo. É barato e aquele ambiente de velharia me agrada mais que as bibliotecas e livraria de shopping. Lugar que só tem universitário intelectual.

Paro de ler porque já estou quase dormindo. Ler no ônibus de noite não dá. Eu não duro muito. Passo vergonha dando aquelas pescadas com a cabeça. Na verdade, ninguém tá nem aí. O cobrador pegou pra cristo uma moça que ficou na roleta. E a menina aqui do fone de ouvido então, sabe-se lá onde tá. Mas mesmo assim tenho vergonha. Porque eu reparo mesmo. De uns tempos pra cá essa é minha distração. Quando é de dia é melhor. Os óculos escuros deixam eu reparar melhor sem parecer estar querendo alguma coisa. Reparo na roupa, no cabelo, e no que tem na mão. Se tá com cara de alegria ou de desgraça.

Mas daqui não consigo ver muita gente. Só a moça da roleta mesmo. Coitada. O cobrador tá jogando todo o charme dele de boy de vila. Mas ela gosta. Dá pra perceber pelas risadinhas. E claro, ela parou ali porque gostou do papo. Ou foi por causa das sacolas? Quando percebi já estava passando do meu ponto. Levantei rápido e puxei a campainha. O motorista freou forte. Só ficou parada a roleta. A moça e as sacolas voaram. Desci do ônibus e de canto de olho só deu pra ver um sorriso na boca da menina do fone de ouvido.