Boca de Cena
'Édipo' sem complexo

Direto ao ponto: a primeira sensação após ter assistido ao espetáculo "Édipo-Rei", da Companhia do Chapitô, de Lisboa, Portugal, no teatro da Caixa Cultural, em Brasília (DF), na noite de 19 de setembro, foi a mesma depois da derrota da Seleção brasileira por 7 a 1 pela da Alemanha, no dia 8 de julho. No caso da acachapante derrota durante a Copa do Mundo, uma das conclusões foi a de que se pensava que havia futebol de ponta no Brasil. A humilhação mostrou que não. Mostrou, sim, que está havendo algo muito além disso fora do País e que este, de certa forma, perdeu o bonde em algum lugar do passado recente. (Dunga, agora, tenta recuperar o estrago; mas essa é outra história).

No caso do espetáculo português, foi mais ou menos parecido. O Brasil está repleto de brilhantes exemplos no teatro (e nem é preciso citá-los). Ocorre que a montagem do clássico dos clássicos da tragédia grega, de Sófocles, pela Chapitô mostrou que existe teatro de muito melhor qualidade sendo feito do outro lado do Atlântico. Claro, há estilos e estilos. Só que, de repente, depois de ter visto o espetáculo lisboeta, a impressão que fica é de que muito do que já se viu no Brasil tornou-se... convencional.

Em primeiro lugar, chama a atenção a ousadia e a sem-cerimônia com que o texto foi completamente remexido (é esta a expressão exata). Ao ponto de transformar o herói trágico por excelência em um ser ridiculamente cômico.

Dois atores – Jorge Cruz e Tiago Viegas – e uma atriz – Marta Cerqueira – revezam-se nos inúmeros personagens do texto original. Mas cabe a Tiago interpretar Édipo, no que resultou em uma escolha muito acertada. Mesmo confessando que nunca pensou a sério nessa linha de interpretação, o seu rosto é o de um clown perfeito.

No palco, os três têm uma sintonia arrasadora, e fazem literalmente de tudo. Não é para menos, haja vista o tour de force a que se propõem ao condensar em pouco mais de 50 minutos um texto que, se fosse encenado sem cortes, com certeza demoraria mais de três horas. A agilidade com que passam de um personagem a outro, de um ambiente a outro, de um tempo a outro é avassaladora. E aí está o nó górdio da diferenciação: a história é contada/dramatizada com uma agilidade rara, em que o poder de síntese é a tônica. Texto e rubricas se amalgamam a serviço de uma encenação que transcorre como cachoeira: com força, rapidez e beleza.

Não à toa, a montagem optou por uma concepção de iluminação em que há somente um quadrado de luz geral, que não é alterado em momento algum, e por não incluir sonoplastia. Se no início do espetáculo isso pode causar estranhamento, à medida que ele avança percebe-se que simplesmente a sonoplastia é desnecessária. O figurino, como não poderia deixar de ser, é up to date: calça e camiseta para os dois atores; calça jeans, camiseta e um casaquinho para a atriz; sapatos para eles, botas de cano curto para ela.

A ação da peça acontece por meio da gestualidade, do jogo de olhares, das marcações de cena, da mudança de personagens e das diferentes entonações de voz e de interpretação. São hilárias as cenas do nascimento de Édipo; da ventania no topo da montanha; da morte de Laio; da ambientação da viagem de Édipo a cavalo para Corinto e do esforço do Mensageiro (Jorge) em alcançá-lo; das performances do monstro do Oráculo e da Esfinge, por Marta e Jorge; e do impressionante contorcionismo de Marta (bailarina de formação) que ela emprega na personagem da Pastora – e de calça jeans! As sacadas do texto, o timing perfeito das falas, os cacos colocados nos momentos certos e as ambientações das inúmeras cenas fazem do espetáculo um momento dignamente prazeroso das artes cênicas. Com o requinte de a proposta de montagem centrar-se no trabalho de ator. Ponto com louvor para o diretor, o inglês John Mowat, que soube aplicar a mais pura técnica no trio de joias raras que tem nas mãos. O mais impressionante é saber que todo o processo de montagem durou um mês e meio!

Uma característica do teatro contemporâneo chama a atenção no espetáculo: o hibridismo de linguagens. "Édipo-Rei" apropriou-se da gramática cinematográfica, o que resultou em um espetáculo de alta voltagem imagética, com momentos de movimentos de câmera, enquadramentos e flashes da mítica pantomima chapliniana. Além disso, muito provavelmente trata-se da montagem mais carregada de elipses a que este crítico já assistiu.

Se, no início do espetáculo, há o risco latente de a coisa descambar para um besteirol inconsequente, a sua ação solidifica-se e, mesmo acontecendo de forma muito rápida e na voz do português de Portugal, entende-se tudo e não se perde nada. Surge, então, a epifania inescapável: todo o conjunto da montagem (principalmente a escolha dos cortes no texto original) coloca um pé no chamado "teatro de tese", cujo enredo encontra-se quase sempre no registro do "pós-conflito". No caso da montagem portuguesa, isso é explícito, uma vez que partiu de um texto universal desde o seu nascedouro – impulsionado, desde o final do século 19, por sua apropriação pela Psicanálise de Sigmund Freud, com o proverbial paradigma do "Complexo de Édipo". Foi o ensaísta e semiólogo italiano Umberto Eco que disse, em Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, que alguns romances, dada a sua complexidade, necessitam de um "leitor de segundo nível". No caso da proposta do espetáculo português, é justo dizer que ele também precisaria de um "espectador de segundo nível", que presumidamente chegasse ao teatro com o conhecimento prévio do texto clássico de Sófocles. Pode-se argumentar que, em plena segunda década do século 21, é quase impossível alguém ainda não saber do que se trata. O fato é que o espetáculo é tão bom, tão eficaz em suas opções, que essa preocupação praticamente inexiste. Pelo contrário: quando ele termina, a vontade é de ir correndo ler a peça original.

Ao final, conclui-se que "Édipo-Rei" toca no universal ao propor o registro cômico, mas que atinge também o drama e, claro, a tragédia, notadamente na cena da descoberta de Jocasta (Marta) de que se casou com o próprio filho. As imagens finais, da morte de Jocasta e do cegamento de Édipo, mesmo sendo feitas de forma engraçada, são pungentes. Eis a epifania da tragicomédia humana. Eis o teatro em sua forma mais sublime.

Antes de Brasília, a montagem de "Édipo-Rei" passou pelo Rio de Janeiro, Fortaleza e São Paulo. Daqui, segue, novamente, para o Rio e, depois, para Curitiba e São José do Rio Preto (SP).

*Helcio Kovaleski é ator, diretor, crítico de teatro e já fez trabalhos como dramaturgo e dramaturgista. Natural de Ponta Grossa (PR), atualmente mora em Brasília (DF).

***

"Édipo-Rei"

Companhia Chapitô, de Lisboa, Portugal

Duração: 50 minutos

Local: Teatro da Caixa Cultural (SBS, quadra 4, lotes ¾, Asa Sul, anexo à matriz da Caixa, Brasília (DF)

Temporada: de 12 a 28 de setembro de 2014

(Fonte: http://www20.caixa.gov.br/Paginas/Releases/Noticia.aspx?releID=353)

Febeapó

Antes, uma explicação. O título acima é, ao mesmo tempo, uma homenagem e uma paráfrase de um termo cunhado por Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista carioca Sergio Marcus Rangel Porto. “Febeapá”, segundo ele, quer dizer “Festival de Besteiras que Assolam o País”, título de um livro publicado em 1966 (Editora do Autor, Rio de Janeiro) que teve duas continuações: “2º Festival de Besteiras que Assolam o País” (1967) e “Na Terra do Crioulo (A máquina de fazer) Doido - Febeapá 3” (1968), ambos pela Editora Sabiá, Rio de Janeiro.

“Febeapó” significa, pois, “Festival de Besteiras que Assolam Ponta Grossa”. No caso, os recentes episódios que alçaram a pobre cidade de Ponta Grossa a uma inesperada repercussão nacional e até mesmo internacional.

Tratam-se de episódios que não podem ser analisados isoladamente. Parafraseando o jornalista Rogério Galindo, da Gazeta do Povo, em seu fundamental texto ‘A Macondo brasileira’ (publicado na edição do último 9), tais fatos são sintomáticos de que já há algum tempo existe algo de muito podre na política ponta-grossense. Para além das inevitáveis piadinhas que circularam ad nauseam nas redes sociais e microblogs e na própria imprensa, é necessário parar um pouco e refletir a respeito de quais são os caminhos insondáveis que o município vem tomando – a sua revelia, aliás.

O suposto autossequestro da vereadora Ana Maria Branco de Holleben (PT), no primeiro dia de 2013, é desses fatos que transcendem ao mesmo tempo a lógica e a boa-fé de gente que simplesmente não acredita que uma figura pública, até então tida como autocentrada, com uma militância histórica dentro do seu partido, pudesse ser autora (ou coautora, vá lá) de um episódio que só permite a justaposição de um adjetivo: triste. Até o momento, ela ainda não se pronunciou a respeito do que raios teria acontecido naquelas 24 horas decorridas entre o seu desaparecimento e o seu aparecimento em um hospital da cidade. Mas qualquer que seja o teor de seu depoimento, mesmo que explique as coisas, não vai justificar e nem ao menos aplacar o grau de perplexidade que acometeu toda a população da quinta maior cidade do Paraná, em um primeiro momento, e depois do Estado e do país.

Já a ‘descoberta’ de um banheiro público com paredes transparentes dentro de um espaço cultural inaugurado nos estertores do último ano de um total de oito ininterruptos do ex-prefeito tucano Pedro Wosgrau Filho é, no final das contas, a repetição de um filme B que o mesmo ator canastrão protagonizou no final de 1992 (há exatos 20 anos, portanto). Uma trama da mesma forma rocambolesca, que foi exibida em 1993, o primeiro ano de governo do falecido e (agora, sabemos) saudoso Paulo Cunha Nascimento.

O que aconteceu nesse ano? Recordar é viver. Simples. Paulo Cunha herdou do antecessor, além de muitas e óbvias dívidas, um Terminal Central de transporte coletivo cujas ruas calçadas internas não tinham passado por testes de carga, o que o obrigou a colocar chapas de aço que só aumentaram a poluição sonora do local; com um teto embaixo do qual simplesmente não cabiam os ônibus; e com um sistema elétrico interno cujo projeto “não previu” a instalação de uma escada rolante – que, ao ser acionada, fez um bom estrago na caixa de força. Passaram-se vários anos até que a população tivesse a alegria incontida de usufruir de tal equipamento. Pena que isso durou menos de uma semana, para a tristeza e justificada raiva de idosos e pessoas com deficiência.

Paulo Cunha herdou também uma via, por sinal próxima ao terminal, que talvez seja a única de ‘mão inglesa’ fora da Inglaterra e da África do Sul; e um parque que, coitado, desde que nasceu, tem complexo de ambiental, com aquelas ocas ridículas e aqueles mastros que, pela mãe do guarda..., só alguém bem sem noção apreciaria. Resumo da ópera (sem trocadilho): para quem conhecia o velho tucano de longa data, nada de novo no front, pois.

A explicação de que o prédio da Casa da Música teve uma inauguração “política” em dezembro de 2012, prestada à imprensa por um assessor de comunicação (que inacreditavelmente continuou no cargo mesmo sendo os dois governos, o que saiu e o que entrou, de lados antagônicos), só vem, digamos, colocar uma cortininha daquelas bem cafonas no verdadeiro circo de horrores que se tornou a política ponta-grossense. Acrescente-se a esse rol nonsense um trecho publicado na Folha de S. Paulo, na edição do dia 9: “O ex-prefeito de Ponta Grossa, que é engenheiro civil, diz que considera o prédio totalmente concluído, com apenas ‘alguns detalhes’ precisando de ajustes. ‘Todo o prédio é de vidro. O banheiro também. Mas já inventaram cortinas, persianas e películas. Trata-se de um detalhe de decoração’. Para ele, a falta de escadas nas portas de saídas de emergências e as infiltrações também são ‘detalhes’”. Convenhamos: é necessário algum tipo de comentário?

Uma das pistas para se entender toda essa barafunda na qual a cidade está imersa é o fato de que, bem feitas as contas, ela cresceu muito nos últimos 30 anos (desordenadamente, aliás), mas a cultura política não acompanhou isso. Os conchavos, as conversas ao pé do ouvido, os apadrinhamentos, os acordos espúrios e os tapinhas nas costas que continuam acontecendo à exaustão no município ainda são – acreditem se quiser – resquícios diluídos e algo puídos do modus operandi dos famigerados coronéis, bem aqueles da virada do século XIX para o XX. E se a análise pautar-se pelo histórico dos prefeitos que governaram a cidade – à exceção, talvez, de Juca Hoffmann (1955-1959 e 1963-1966), Cyro Martins (1969-1973), Luiz Carlos Zuk (1977-1982); Jocelito Canto (1997-2000) e Péricles de Holleben Mello (2001-2004) –, o quadro é assustador. Os demais componentes dessa lista pertencem a grupos oligárquicos que só confirmam o fato de que a cidade ainda vive na pré-história da política. Não faz muito tempo, certo candidato a deputado estadual, em propaganda eleitoral durante a campanha, definiu toda a miséria em uma frase: “A cidade tem dono”.

Registre-se que as legislaturas locais, também com raríssimas exceções, só fizeram acompanhar e/ou repetir o quadro infeliz dos prefeitos. Daí que não é de causar surpresa e nem espanto o que vem acontecendo em Ponta Grossa neste formidável início de ano, gestão e legislatura. A impressão que dá é que houve uma ruptura, tal a esgarçadura do tecido político, pelo menos dos últimos dez anos para cá. A situação chegou ao seu ponto saturado, entrópico e insustentável, mas só alguns agentes políticos se deram conta disso.

Aparentemente, suposto autossequestro e banheiros transparentes (incluindo o da Arena Multiuso) nada têm a ver entre si. Mas, à luz dessa e de outras possíveis análises da história política de Ponta Grossa, é lícito concluir que os dois episódios, um ocorrido na sequência do outro em menos de uma semana, são os sinais inequívocos de que é urgente se repensar a maneira atual de se fazer política na cidade. Mais. Arrisco uma suspeita: a de que é bem provável que, no episódio da vereadora Ana Maria, ela esteja sendo a catalisadora, o pivô, de todo esse processo. De alguma forma, ela concentrou em si toda a entropia catastrófica da política ponta-grossense, e deu no que deu. E no que sabe Deus ainda vai dar.

Em meio a esse lamaçal, é de se perguntar: mas não há nada que tenha acontecido ultimamente que possa mudar esse quadro? A resposta é: sim, há. Incrivelmente, nesse estado de catatonia geral, se ocorreu algo que realmente pode fazer a diferença e ser promissora de novos tempos foi a sensacional virada do grupo de oposição ao prefeito Marcelo Rangel (PPS) na eleição da mesa diretora da Câmara, na sessão extraordinária do dia 3. Com a vitória nas mãos e com pouco a fazer a não ser esperar pelo último voto (nominal e em ordem alfabética), os 11 vereadores da situação acabaram levando um baile e uma aula de estratégia política que há muito não se viam em qualquer cidade dos Campos Gerais – quiçá do Estado.

Se, porém, o novo presidente do Legislativo, Aliel Machado (PC doB), terá condições de promover uma renovação de verdade nos meandros da Câmara – e se isso vai se estender a outros recantos –, ainda é muito cedo para avaliar. Mas é fato que a sua inesperada e estupenda vitória é o único fato político recente que a cidade de Ponta Grossa tem para se orgulhar.

Mas é pouco, muito pouco. Do restante dos episódios ocorridos neste início de 2013, só resta lamentar. E rir, claro, que ninguém é de ferro.

As cerejas do bolo

O 40º Fenata trouxe algumas surpresas no que diz respeito aos espetáculos selecionados para as mostras competitivas – Adulta e Para Crianças – e não competitivas – de Rua, Bonecos/Animação e Às Dez em Cena. E nem sempre positivas, haja vista que algumas expectativas não foram cumpridas, como se verá logo a seguir.

Mas, antes de começar a análise dos espetáculos e do próprio festival, é preciso que se digam duas coisas. Primeiro, o título acima se refere a uma expressão cunhada pelo jurado adbailson Cunha, de Caraguatatuba (SP), das mostras não competitivas, para designar alguns espetáculos de conceituação formal e conteúdo bem definidos que deram à 40ª edição do Fenata um requinte que há muito não se via. Para ele, tais montagens foram as “cerejas do bolo” de aniversário de 40 anos do festival. Outra expressão, de autoria do curador do festival, Antonio José do Valle, é “espetáculos-poema”, para designar montagens tão bem acabadas que acabaram tornando-se ‘conceitos’ em si mesmas.

Tais expressões chamam a atenção por se referir, na sua maioria, a espetáculos que não fizeram parte das duas mostras principais – justamente as que definem o Fenata. Neste ano, as mostras de Rua, Bonecos/Animação e Às Dez em Cena trouxeram espetáculos de altíssima qualidade, tão bem feitos e tão encantadores, que, pela primeira vez em muito tempo, eles é que definiram o festival.

Segundo, uma explicação. Dos 29 espetáculos das cinco mostras (sete da Adulta; seis Para Crianças; cinco Ás Dez em Cena; seis de Rua; e cinco de Bonecos/Animação), este crítico assistiu a 24. Da Adulta, foram “O evangelho segundo Dona Zefa”, “Quem é o rei?”, “Portela, patrão. Mário, motorista”, “O amor de Dom Perlimplim com Belisa em seu jardim”, “Deus e o Diabo na terra do sol”, “Pois é, vizinha...” e “O malefício da mariposa”. Para Crianças, “O que podemos contar”, “O reino da gataria”, “O feitiço”, “Lili reinventa Quintana” e “Dois cavalheiros de Verona”. Às Dez em Cena, “Sala, quarto, cozinha, banheiro e outros lugares menos cômodos”, “Anáguas” e “O incrível ladrão de calcinhas”. De Rua, “Ubu rei”, “É o povo que sustenta o Brasil”, “Taiô”, “Minha alma é nada depois dessa história”, “Amor por anexins” e “Júlia”. E Bonecos/Animação, “Anjo de papel”, “A terra dos meninos pelados” e “O sítio dos objetos”. Contando com o espetáculo convidado “Blow Elliot Benjamin”, que abriu esta edição do festival, na noite do dia 6, foram, ao todo, 25 espetáculos vistos.

Isto posto, na modesta avaliação deste crítico, independentemente da premiação das mostras principais, os 12 melhores espetáculos deste ano foram, pela ordem: “O incrível ladrão de calcinhas” e “Minha alma é nada depois dessa história” – disparados, os dois melhores do 40º Fenata –;  seguidos de “Anáguas”; “Lili reinventa Quintana”; “Portela, patrão. Mário, motorista”; “Taiô”; “Anjo de papel”; “Deus e o Diabo na terra do sol”; “Júlia”; “Pois é, vizinha...”; “O sítio dos objetos”; e “O reino da gataria”. Isso é pouco mais de 40% do total de 29 – uma bela marca que já há algum tempo o Fenata não alcançava. Note-se que, desses 12, somente dois são da mostra Para Crianças e três da Adulta. Os outros sete são das mostras de Rua (três), Bonecos/Animação (dois) e Às Dez em Cena (dois).

Em suma, dá para se constatar, seguramente, que esses 12 espetáculos foram as “cerejas do bolo” do 40º Fenata. Com especial atenção a “O incrível ladrão de calcinhas”, “Minha alma é nada depois dessa história”, “Lili reinventa Quintana” e “Anjo de papel”, que podem ser classificados também como “espetáculos-poema”.

Feitas todas as contas, portanto, levando-se em consideração justamente essas avaliações, fica como sugestão à organização do Fenata rever a decisão de não se premiar os espetáculos das mostras Às Dez em Cena, De Rua e Bonecos/Animação. E os exemplos deste ano são eloquentes. Foi uma pena não se premiar, por exemplo, “O incrível ladrão de calcinhas”, “Anáguas”, “Minha alma é nada depois dessa história”, “Taiô”, “Amor por anexins”, “Júlia”, “Anjo de papel” e “O sítio dos objetos”.

Aliás, a sugestão deste crítico vai mais longe. Que tal criar a categoria de “Melhor Espetáculo do Fenata”, premiando aquela que foi a melhor montagem da edição do festival? Como se viu neste ano, essa briga seria bem interessante, com representantes de pelo menos quatro das cinco mostras. É evidente que, para isso acontecer, a organização precisaria montar toda uma logística de acompanhamento de todos os espetáculos. Loucura ou não, fica a sugestão.

 

Premiação

Independente das “cerejas do bolo” e de expectativas positivas e outras que deixaram a desejar, a premiação dos espetáculos das mostras competitivas Adulta e Para Crianças foi uma das mais justas dos últimos anos. Só a observar alguma ou outra escolha.

Neste ano, a comissão julgadora das duas mostras – formada por Toninho do Valle, pelo ator e professor de interpretação Gonzaga Pedrosa e pelo dramaturgo, escritor e diretor Luiz Carlos Laranjeiras – demonstrou, com suas escolhas, um apontamento de caminhos do teatro brasileiro que se pretende abrangente no que diz respeito a propostas de montagem. É claro que tal afirmação está circunscrita ao universo dos espetáculos selecionados para esta edição do festival. Todavia, as 13 montagens das duas mostras (sete da Adulta e seis Para Crianças) não deixaram de configurar uma amostragem do que se faz no país, atualmente. Não só pelos Estados representados – Rio de Janeiro (seis espetáculos), Santa Catarina (dois), Paraná (um), São Paulo (um), Acre (um), Rio Grande do Sul (um) e Minas Gerais (um) –, como também pelas várias formas de se fazer teatro – drama, épico, comédia, fantasia, musical e lírico/poético – e a maneira como isso foi apresentado nos palcos do Cine-Teatro Ópera e do Teatro Marista.

Também é necessário lembrar que a avaliação dos espetáculos é feita com base na sua performance no dia em que se apresentaram. Isso vale tanto para o Fenata quanto para qualquer outro festival que tenha caráter premiativo. Logo, se determinado espetáculo não for bem em sua apresentação no festival, é bastante provável que isso influencie na decisão dos jurados.

Nesse sentido, a premiação da mostra Para Crianças é emblemática. Os seis prêmios, incluindo o de melhor espetáculo, e as duas indicações de “O reino da gataria”, da companhia Atores In Cena, do Rio de Janeiro (RJ), por exemplo, sinalizam que o musical é uma modalidade em franca ascensão no Brasil. O espetáculo ganhou os prêmios de melhor espetáculo, diretor (Marco dos Anjos), figurinista (Rute Alves), sonoplastia (Edinho Hora, Gustavo Groove e Vini Onety) e maquiagem e especial “para o elenco, pelo trabalho coletivo na interpretação, no canto e na coreografia”. Já as indicações foram para melhor iluminador (Daniel Souza) e cenógrafo (Cachalote Mattos).

Em segundo lugar, ficou “Cabeça de vento”, da Pandorga Companhia de Teatro, também do Rio de Janeiro (RJ), com três prêmios e seis indicações. O espetáculo ganhou os prêmios de melhor texto original (Cleiton Echeveste), iluminador (Tiago Mantovani) e cenógrafo (Daniele Geammal) e foi indicado para melhor espetáculo, diretor (Cleiton Echeveste), atriz (Luciana Zule), ator coadjuvante (Eduardo Almeida), ator (Jan Macedo) e figurinista (Daniele Geammal).

Já o espetáculo “Lili reinventa Quintana”, da Téspis Companhia de Teatro, de Itajaí (SC), ganhou como melhor atriz (Denise da Luz) e teve quatro indicações: melhor espetáculo, diretor (Max Reinert), sonoplastia (Alessandro Kramer e Guinha Ramirez) e cenógrafo (Max Reinert). Na opinião deste crítico, porém, este deveria ser o espetáculo vencedor, por tudo aquilo que tem de encantamento, plasticidade, ousadia formal e contribuição inegável para o universo infantil, haja vista que aborda a obra de um dos maiores poetas do Brasil, o gaúcho Mario Quintana, infelizmente não tão lembrado quanto deveria.

“O que podemos contar”, da Trupe do Experimento, do Rio de Janeiro (RJ), que levou os prêmios de melhor atriz coadjuvante (Tathiana Loyola) – aliás, a única indicada – e ator (Daniel Carneiro) e foi indicado como melhor cenógrafo (Cachalote Mattos), confirma Marco dos Anjos como um diretor bastante promissor. Completa a lista de premiações “Dois cavalheiros de Verona”, do Projeto Shakespeare Livre, de Blumenau (SC), que ganhou como melhor ator coadjuvante (Hugo Carvalho) e foi indicado como melhor figurinista (Cica Modesto). Por último, “O feitiço”, do grupo Autônomos de Teatro, de Uberlândia (MG), só teve uma indicação: a de melhor figurinista (José Luiz Filho).

 

Adulta

Muito embora “Portela, patrão. Mario, motorista”, da Boa Companhia, de Campinas (SP), tenha levado seis prêmios – incluindo o de melhor espetáculo, que dividiu com “Deus e o Diabo na terra do sol”, da Companhia Provisória, do Rio de Janeiro (RJ) – e sido indicado para outros dois, a premiação dos espetáculos da mostra Adulta indica certo equilíbrio que há algum tempo não acontecia no Fenata. Isso demonstra que, inegavelmente, houve uma tentativa por parte dos jurados de se contemplar o maior número possível de espetáculos –levando em consideração, é claro, a sua qualidade.

O grande ganhador da mostra Adulta foi o espetáculo campinense, que levou os prêmios de melhor espetáculo, diretor (dividido entre Daves Otani, Eduardo Osório e Verônica Fabrini), ator (Daves Otani e Eduardo Osório), figurinista (Boa Companhia) e iluminador (Bruno Garcia). As duas indicações foram para melhor sonoplastia (Silas Oliveira) e cenógrafo (Boa Companhia).

O forte e belo espetáculo “Deus e o Diabo na terra do sol” ficou em segundo lugar, com três prêmios e outras nove indicações. Além de dividir a premiação de melhor espetáculo “Patrão, Portela...”, levou os de melhor ator coadjuvante (Jefferson Almeida) e cenógrafo (Lia Farah). As indicações foram para melhor sonoplastia (Renato Frazão, Michel Nascimento e Marcus Garrett), iluminador (Tainá Louven), figurinista (Arlete Rua e Thais Boulanger), atriz coadjuvante (Laura Lagub), ator coadjuvante (duas, para Hector Gomes e Betho Guedes), atriz (Tamires Nascimento), ator (Gustavo Almeida) e diretor (Jefferson Almeida).

“Pois é, vizinha...”, da Companhia de Solos & Bem Acompanhados, de Porto Alegre (RS), além de ser indicado também como melhor espetáculo, levou os prêmios de melhor espetáculo pelo júri popular e atriz (Deborah Finocchiaro). Outro belo espetáculo dessa mostra foi “O evangelho segundo Dona Zefa”, do Núcleo de Estudos de Performances Afro-Ameríndias (Nepaa), do Rio de Janeiro (RJ), que recebeu o prêmio de melhor sonoplastia (Chico Rota e Raquel Araújo) e foi indicado para melhor atriz (Marise Nogueira) e espetáculo pelo júri popular.

Completam a lista de premiações “O malefício da mariposa”, do grupo Ave Lola Espaço de Criação, de Curitiba, que ganhou como melhor maquiagem e foi indicado como melhor figurinista (Cristine Conde) e ator (Val Salles); e “Quem é o rei?”, do Grupo do Palhaço Tenorino (GPT), de Rio Branco (AC), que levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante (Sandra Buh).

“O amor de Dom Perlimplim com Belisa em seu jardim”, da Companhia Ser ou não Cena de Teatro, do Rio de Janeiro (RJ), recebeu quatro indicações: de melhor espetáculo pelo júri popular, ator  (Cláudio Sásil), atriz (Suellem Costa) e figurinista (Cláudio Sásil e Zelda Sá).

 

Expectativas

O 40º Fenata também será lembrado pelas expectativas que criou em relação a profissionais de teatro e grupos que já se apresentaram em edições anteriores do festival. Algumas dessas expectativas foram cumpridas; outras, nem tanto.

Na mostra Adulta, as expectativas que foram (muito bem) cumpridas foram da Boa Companhia, de Campinas, que já tinha vindo a Ponta Grossa, em 2005, para encerrar o 33º Fenata, no Teatro Marista, com o espetáculo ‘hors concours’ “Primus”, baseado no conto “Comunicado a uma Academia”, do escritor tcheco Franz Kafka; e da gaúcha Deborah Finocchiaro, que também levou os prêmios de melhor atriz e de melhor espetáculo pelo júri popular com “Sobre anjos & grilos – o universo de Mário Quintana”, em 2007, no 35º Fenata. Conseguir os dois mesmos prêmios em um intervalo de cinco anos é tarefa para poucos, e Deborah mostrou-se à altura do desafio.

Na mostra Para Crianças, o diretor catarinense Max Reinert confirmou a sua competência como diretor, e Denise da Luz, como grande atriz. Ambos estiveram em Ponta Grossa, durante o 32º Fenata, em 2004, ainda ao tempo do auditório da Reitoria, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com “Medeia”, que teve indicações de melhor espetáculo e de direção.

Na mostra Às Dez em Cena, o destaque ficou por conta do espetáculo “Sala, quarto, cozinha, banheiro e outros lugares menos cômodos”, interpretado, escrito e codirigido (com Gilvan Balbino) por Andréa Cevidanes, do grupo O Porão, do Rio de Janeiro (RJ). Andréia e o grupo já tinham vindo a Ponta Grossa em 2003, durante o 31º Fenata, com o belo “... Cinzas”, dirigido por João Marcelo Pallotinno. A montagem ganhou os prêmios de melhor ator (João Marcelo), atriz (Andréa) e autora nacional (Andréa), e recebeu indicações de melhor espetáculo, direção, trilha sonora e figurinista.

Na mostra De Rua, três espetáculos decididamente mostraram a que vieram, confirmando a boa expectativa de outros trabalhos que participaram de edições anteriores do Fenata. A começar por “Minha alma é nada depois dessa história”, dirigido por Ribamar Ribeiro, dos Ciclomáticos Companhia de Teatro, do Rio de Janeiro (RJ). Essa belíssima montagem só fez acrescentar o rol de elogios ao diretor e ao grupo, que, em 2007, durante o 35º Fenata, com “Sobre mentiras & segredos”, ganharam nada menos do que nove prêmios; e em 2010, no 38º Fenata, concorreram com o também belíssimo “Amargasalmas”.

Outro bom momento da mostra De Rua foi “Amor por anexins”, dirigido por Silvestre Ferreira, do grupo Dionisos Teatro, de Joinville (SC). Silvestre já foi jurado da mostra Adulta, em 2007, no 35º Fenata, e dois de seus espetáculos já receberam indicações e premiação. O primeiro foi “Babaiaga”, que recebeu indicações de melhor espetáculo e direção, na categoria Para Crianças, em 2003, no 31º Fenata; e o segundo foi “Migrantes”, que, na mostra Adulta do 37º Fenata, em 2009, foi indicado como melhor espetáculo e ganhou três prêmios: melhor iluminação, cenografia e atriz coadjuvante (Andréia Malena Rocha).

Por último, o Cirquinho do Revirado, de Criciúma (SC), trouxe o pungente e belo “Júlia”, uma recriação de bufões baseado no conceito da circularidade, que fez rir e chorar o público da manhã do dia 13 de novembro, em frente à Estação Saudade. Em cena, o casal Reveraldo Joaquim e Yonara Marques mostrou um par de moradores de rua que só dignificam a arte do teatro, pela sua qualidade, competência, talento, criatividade e imensa seriedade. Eles já estiveram em Ponta Grossa em 2007, no 35º Fenata, mostrando outro belo trabalho, “Amor por anexins”, sobre pernas-de-pau, na mostra De Rua, que recebeu indicação de melhor espetáculo nessa categoria.

Na mostra de Bonecos/Animação, o grupo Mariza Basso Formas Animadas, de Bauru (SP), trouxe “O sítio dos objetos”. No 37º Fenata, em 2009, outro espetáculo do grupo, “O circo dos objetos”, recebeu indicação de melhor montagem.

 

Destoantes

Infelizmente, é preciso mencionar que as notas, por assim dizer, destoantes do 40º Fenata ficaram por conta de grupos dos quais se esperava algo mais. Não que isso seja negativo, pelo contrário. Em se tratando de teatro, nunca se pode prever que se acertará sempre. E isso é uma verdade quase inquestionável. Até porque se tratam de grupos que já ganharam prêmios no Fenata.

Nesse sentido, a expectativa mais frustrada ficou por conta do diretor italiano naturalizado brasileiro Roberto Innocente, do grupo A Arte da Comédia, de Curitiba, que trouxe à mostra De Rua o espetáculo “É o povo que sustenta o Brasil”, apresentado na manhã de 8 de novembro, no Calçadão da rua Cel. Claudio. Não obstante o fato de que a montagem – encenada pelo ator Alaor Carvalho – estreou no festival deste ano, ela mostrou que a pesquisa ainda não foi bem concluída. Resultou em uma apresentação por vezes enfadonha, com Alaor se repetindo no texto e não aproveitando bem as situações imprevisíveis que a rua oferece nesse tipo de espetáculo.

Em se tratando de Roberto Innocente, era de se esperar algo melhor. Ele, que em 2006, no 34º Fenata, ganhou como melhor espetáculo da mostra De Rua com “Comédia dell’ACT – As Calcinhas da Flor”, do grupo Ateliê de Criação Teatral, também de Curitiba; e, em 2007, no 35º Fenata, com “Aconteceu no Brasil – enquanto o ônibus não vem”, já pelo grupo A Arte da Comédia – Comédia dell'ACT. Conforme explicou o próprio Innocente, este último espetáculo foi a primeira parte do estudo do grupo, que desembocou em “É o povo que sustenta o Brasil”. Pelo sim, pelo não, ficou meio confusa a explicação do diretor, durante o debate que sucedeu a apresentação, na praça Barão do Rio Branco, de que seu objetivo, com a montagem, era buscar uma espécie de “não teatro”.

Na mostra Adulta, igualmente é duro concluir que o senão ficou por conta do Grupo do Palhaço Tenorino (GPT), de Rio Branco (AC), que trouxe a Ponta Grossa “Quem é o rei?”. Havia 11 anos que o grupo não aportava por estes lados. Só para lembrar, o diretor, Dinho Gonçalves, já participou do Fenata com montagens dirigidas por Roberto Gill Camargo, um dos maiores estudiosos da semiótica teatral no Brasil (e que já ganhou prêmios de melhor espetáculo no Fenata, na década de 1980, e também foi jurado do festival). E, para quem viu espetáculos como “Abajur Lilás”, de Plínio Marcos, e “A Menina e o Palhaço”, de autoria do casal Dinho e Marília Bomfim, a expectativa em relação a “Quem é o Rei?” era muito grande. Ocorre que ela, infelizmente, não se cumpriu. A torcida é para que, nas próximas edições do Fenata, o grupo volte à cidade com toda força e talento que seu diretor e elenco têm de sobra.

Por último, na mostra Para Crianças, é preciso falar que “O feitiço”, do grupo Autônomos de Teatro, de Uberlândia (MG), foi outra das expectativas frustrantes do festival. Aguardava-se um trabalho muito melhor por parte do diretor, Paulo Merísio, que já foi premiado em 2008, no 36º Fenata, com “Simbá, o marujo”, da Trupe de Truões, também de Uberlândia, como melhor espetáculo, diretor (Merísio), atriz, figurinista e iluminador e indicado como melhor trilha sonora. Dois anos antes, em 2006, no 34º Fenata, “Ali Babá e os 40 ladrões”, também dirigido por Merísio, foi indicado para melhor figurino, iluminação, cenografia, direção e espetáculo.
Depois daquele espetáculo

Direto ao ponto: o espetáculo “Minha alma é nada depois dessa história”, apresentado na manhã de 10 de novembro, em frente à Estação Saudade, pelo grupo Os Ciclomáticos Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro (RJ), é uma pedra rara, daquelas de se guardar no porta-joias sobre o criado-mudo, ao lado da cama, e rever a cada momento.

Montagem enxuta, com quatro atrizes (Carla Meirelles, Fernanda Dias, Fabíola Rodrigues e Nívea Nascimento) e um ator (Julio Cesar Ferreira) de fortíssimas presenças no palco, “Minha alma...” foi uma das cerejas do bolo de 40 anos do Fenata – nas palavras do jurado adbailson Cunha, de Caraguatatuba (SP). A partir de um conto do ator, escritor e dramaturgo Gero Camilo, Ribamar Ribeiro, que também é o diretor, compôs uma montagem belíssima, forte, com números esplêndidos de música e uma beleza plástica de tirar o fôlego.

A história é simplicíssima. Um vigia de fábrica apaixona-se por uma misteriosa mulher chamada Cleide, “que faz amor com árvores e carrapatos”. “Um dia, Cleide desaparece e este amor se torna uma história sem flor e alma”, diz a sinopse. Na montagem, Cleide é interpretada pelas quatro atrizes.

Em resumo, o que Ribamar trouxe a Ponta Grossa foi mais um espetáculo com a sua marca registrada: elenco excelente; marcação de cena absolutamente bem desenhada; história muito bem contada; figurino que, valha-me Deus!; sonoplastia que chega a dar raiva, de tão boa que é (operada por Getulio Nascimento, que também toca cajon com Renato Neves); e direção precisa de atores e de espetáculo, algo raro de se ver em teatro. A trilha sonora, a propósito, calcada principalmente em ritmos espanhóis, chega ao suprassumo de reinventar o tema principal do filme “Beleza Americana” (EUA, 1999, de Sam Mendes): “Dead Already”, de Thomas Newman. Sem comentários.

Mas esta não foi a primeira vez que o público do Fenata assistiu a essas aulas de teatro. Em 2007, durante a 35ª edição do festival, “Sobre mentiras & segredos” arrebanhou nada menos do que nove prêmios. Nessa montagem, Ribamar mostrou um Nelson Rodrigues no registro tênue de um expressionismo irônico, por vezes debochado e escatológico, ágil, também marcado por rubricas, com um elenco afiadíssimo e um deslumbre visual também de tirar o fôlego. É bom lembrar que nesse mesmo ano o grupo também ganhou na categoria para crianças, com “Antes que o galo cante”, que acabou levando cinco prêmios. Até onde se sabe, essa foi a primeira vez na história do Fenata que um grupo ganhou 14 troféus por duas montagens e que um mesmo espetáculo levou nove prêmios.

Já no 38º Fenata, em 2010, Ribamar e os Ciclomáticos voltaram a Ponta Grossa para apresentar o belíssimo “Amargasalmas”, que colocou em relevo o universo feminino naquilo que ele tem de misterioso, sublime, íntimo e até mesmo abjeto e sombrio. Teatro forte, que toca no mais íntimo do coração e da mente do espectador, “Amargasalmas” deixou o público perturbado durante algum tempo.

Em outro registro – agora, com um espetáculo concebido para a rua –, o ourives Ribamar surpreendeu de novo com “Minha alma...”. No modesto público presente durante a apresentação (devido à chuva insistente que caiu durante o festival), não houve quem não se encantasse pelas atrizes, ou pelo ator, e não se envolvesse completamente com a história; e também quem não fizesse brotar pelo menos uma lágrima dos olhos. Com “Minha alma...”, o Fenata e o público saíram revigorados.

Voltem sempre, Ribamar e Ciclomáticos. O criado-mudo e o porta-joias já são de vocês.

Quando Lorca não acontece

Retratar o amor – o tema universal por excelência – através de uma história entre insetos. Essa foi a maneira que o dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca utilizou, por meio da fábula “O Malefício da Mariposa”, para “visitar pequenas sutilezas das relações afetivas, com a originalidade e profundidade de poucos”.

Eis o que informa a sinopse do espetáculo homônimo apresentado na noite desta terça-feira (13), no auditório A do Cine-Teatro Ópera, pelo grupo Ave Lola Espaço de Criação, de Curitiba, com tradução da peça e direção da montagem por Ana Rosa Genari Tezza. “A comédia que vamos apresentar é humilde e inquietante ‘comédia rota’, das que querem arranhar a lua e arranham o próprio coração”, diz a sinopse.

Bem. O espetáculo é todo marcado, com um ator (Val Salles) e duas atrizes (Alessandra Flores e Janine de Campos) que se esmeram em interpretar movimentos de insetos. A maquiagem e o figurino são bem acabados e a manipulação dos bonecos que representam os insetos é muito bem feita. A trilha chega a ser adequada, mas, em determinado momento, torna-se cansativa.

E, se é uma fábula, o movimento natural seria o público embarcar nela, certo? A resposta seria positiva se de fato isso acontecesse. O problema é que tal não ocorre. Aliás, é o espetáculo que não acontece. E por que? Por alguns motivos.

O primeiro deles é o fato de Val iniciar a apresentação falando em... espanhol. Como assim? Para demarcar que se trata de uma peça de um autor dessa língua? Depois, entendia-se pouco do que Alessandra e Janine falavam. Ou seja, o velho problema da dicção, tão cara ao ofício de ator. E, por último, simplesmente não se entendeu o texto em si devido ao sem-número de referências colocadas em cena e justificadas pelo elenco no debate após o espetáculo (Cirque Du Soleil entre elas). Sem contar que a cena em que o boneco da mariposa é manipulado por todo o elenco, revezadamente, e tem falas das duas atrizes, pareceu algo no melhor estilo ‘olha-o-que-eu-sei-fazer-em-cena’.

O ponto alto foi a conversa entre o boneco da mosquinha e a diretora da montagem, que falava da plateia. Apesar de o colóquio, digamos assim, ter sido em espanhol, ele foi bem engraçado. A pergunta que fica é: por que não foi assim durante toda a apresentação?

Mas não. O resultado foi um espetáculo que resvala no pernóstico e repleto de referências que não deveriam estar ali, já que embotaram a verdadeira origem da peça: o seu caráter popular.

 

Outro Lorca

É uma pena que Lorca não tenha tido melhor sorte neste 40º Fenata. No último sábado (10), a Cia. Ser ou não Cena de Teatro, do Rio de Janeiro (RJ) apresentou outro texto do autor espanhol, “O Amor de Dom Perlimplim com Belisa em seu Jardim”. Dirigida por Claudio Sásil, a montagem também foi equivocada, pois não se sabia em qual registro ela estava incluída – “aleluia erótica, farsa burlesca, teatro de fantoches, tragicomédia”. Resultou numa apresentação cansativa e, por vezes, ‘engraçadinha’. E só.

Pois é, Deborah...

Se em 47 a. C. o general e cônsul romano Júlio César veio, viu e venceu, neste 40º Fenata a atriz, diretora e produtora gaúcha Deborah Finocchiaro veio, viu, foi vista e acachapou. E iluminou. E apontou caminhos. E ensinou. E mostrou de forma absolutamente competente como é o ofício de atriz/ator. E demonstrou, com uma humildade que só poderia vir de alguém que ama o teatro e a vida como a si mesma, que a generosidade é o melhor caminho neste mundo complexo, perigoso, arisco e salpicado de mentes politicamente corretas (essa ignomínia que desejamos ardentemente a zilhões de anos-luz de distância do teatro).

Em suma, é o que se viu na noite desta segunda-feira (12), no auditório A do Cine-Teatro Ópera, com o espetáculo “Pois é, Vizinha...”, da Companhia de Solos & Bem Acompanhados, de Porto Alegre (RS), apresentado mais de 560 vezes e visto por mais de 200 mil pessoas, em 19 anos de estrada. A partir do texto original, “Uma Donna Sola”, do dramaturgo, ator e diretor italiano Dario Fo e de Franca Rame, e traduzido pelo diretor paulista Roberto Vignati, Deborah fez uma adaptação para os dias atuais de um tema irritantemente recorrente: a violência contra a mulher. Segundo a sinopse da peça, trata-se da história de Maria, “uma dona de casa trancafiada em casa pelo marido ‘gauchão’ e que é obrigada a suportar o cunhado semiparalítico e tarado, o ‘voyeur’ do prédio vizinho, o tarado do telefone e o apaixonado rapaz, que é professor de inglês”. Tudo isso, ao mesmo tempo em que ela tem de cuidar do bebê.

Certo dia, enquanto varre a varanda do apartamento, Maria encontra uma vizinha do prédio em frente e começa a desabafar. Aos poucos, seu ‘simples cotidiano’ começa a se revelar patético e... cruel. Tanto que a plateia demora um pouco para perceber que, na verdade, está rindo – e às vezes gargalhando – de algo trágico. E, quando se dá conta, já é tarde, e o riso frouxo se torna algo asfixiante. O engasgo e o engolir seco não demoram a chegar, e público começa a rir, então, da miséria humana; da sua própria miséria. A montagem causa um conjunto tão grande de sensações que é de perder o fôlego quando Deborah resvala no escatológico sexual e, por vezes, no caricatural.

Como é bom ver Deborah em cena. Como é bom ver uma atriz na sua plenitude, com um trabalho em tudo diferente daquele poético “Sobre anjos & grilos - o universo de Mário Quintana”, apresentado em 2007, durante o 35º Fenata. E exatamente em tudo competente, na mesma toada.

Deborah está soberba em cena, dona absoluta do tempo e do espaço do espetáculo. Vai do gesto mais ínfimo da pontinha do dedo mindinho aos movimentos mais amplos de quando encena, por exemplo, a hilária ‘comparação’ do orgasmo feminino. Se alguém tinha alguma dúvida de que também se aprende em festivais, isso acabou na noite de segunda.

Pois é, Deborah. Decididamente, você deu uma aula de teatro e de vida. Obrigado pela sua generosidade.

E o palco virou o sertão de Glauber

Não tanto pela aura mitológica que envolve o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964, Copacabana Filmes, Rio de Janeiro, 110 min.) – espécie de síntese do Cinema Novo e dirigido pelo ícone maior desse movimento, o baiano Glauber Rocha –, mas principalmente pela expectativa de como se colocaria em prática o desafio de transpor um roteiro cinematográfico para o palco, é que se aguardava com ansiedade a apresentação do espetáculo homônimo pela Cia. Provisória, do Rio de Janeiro (RJ), na noite de domingo (11), no auditório A do Cine-Teatro Ópera. E o que se viu, guardadas todas as proporções, foi uma montagem vigorosa, à altura do roteiro escrito por Glauber.

Adaptado e dirigido por Jefferson Almeida, o espetáculo, encenado por nove atores (incluindo o diretor) ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio), mostra toda a força do argumento criado pelo próprio Glauber. A história narra a saga do vaqueiro Manuel e sua mulher, Rosa, que vivem uma rotina de “comida pouca”, “trabalho pesado” e “absoluta falta de facilidades”. Em um “gesto heroico/anti-heroico, tentando manter o que lhe resta de dignidade”, Manoel torna-se o assassino do Coronel Morais, seu “patrão, explorador e carrasco”. Perseguido pelos homens de Morais (que já havia matado sua mãe), Manuel une-se a Rosa “em um calvário em busca da salvação espiritual em detrimento de um corpo que sofre desde sempre”. A partir daí, o casal encontra pelo caminho o beato Sebastião (inspirado em Antonio Conselheiro) e Antônio das Mortes, “vil matador de aluguel que faz do seu ofício um orgulho”. Este, cumprindo seu dever, comete um massacre de beatos, em Monte Santo (BA), deixando vivos apenas Manuel e Rosa. Nesse ponto da história surge a antológica figura de Corisco, o ‘Diabo Louro’, uma espécie de “herói dos pobres”, que “marchava com sua esposa e seguidores em busca do ‘Deus Negro’, Sebastião”. Ao saber do assassinato do beato, Corisco promete vingança e sai à caça de Antônio. Em uma batalha épica, Antonio das Mortes mata Corisco e fere sua mulher, Dadá. Assegurado pela promessa do Santo de que um dia o sertão viraria mar e o mar, sertão, Manuel corre até encontrar o mar. “E no mar, a esperança de, ainda, viver”.

Essa é a sinopse do filme que Jefferson, com a colaboração de Tamires Nascimento (que também está no elenco), teve a sabedoria de manter intacto.

Não há muito o que falar do espetáculo. Forte, pulsante, que inicia meio ralentando – provavelmente com certo respeito a Glauber –, mas que, depois, aos poucos, arrebata a plateia. Jefferson optou por fazer uma montagem bastante marcada com luz, sombras, músicas (todas do filme, com letras de Glauber e melodias de Sérgio Ricardo) e danças típicas do Nordeste (como, por exemplo, maculelê, coco e frevo).

Só um senão, apontado pelo jurado Gonzaga Pedrosa. Há que se ‘limpar’ a transição de uma cena para outra. A direção de Jefferson, se por um lado se mostra extremamente competente em praticamente tudo, peca por pequenos detalhes de acabamento de uma cena para outra.

Uma sugestão. Já que se trata da adaptação de um roteiro de Glauber Rocha, que sabidamente usava e abusava da ‘teoria da montagem’, formulada pelo cineasta russo Sergei Eisenstein, por que não estudar essa técnica para o espetáculo, principalmente no que diz respeito ao ‘poder de sugestão’ que o cinema propõe?

No mais, é um alento assistir a um espetáculo dessa qualidade durante o 40º Fenata. E que, literalmente, resgata Glauber Rocha e a sua obra, ainda tão pouco estudada e meio que renegada por certos cineastas pipoqueiros, que querem porque querem transformar a tela do cinema em televisão.

 

 

De como levar o espetáculo para casa

Grande parte do público presente no auditório A do Cine-Teatro Ópera, na noite desta sexta-feira (9), dever ter levado para casa o espetáculo “Portela, patrão; Mário, motorista”, do grupo Boa Companhia, de Campinas (SP). E não é muito difícil de entender como se deu esse processo.

Primeiro que a Boa Companhia é um dos grupos teatrais mais respeitados do país. Suas montagens primam pela excelência – a começar do trabalho dos atores, precisos em suas performances no palco e muito bem preparados tecnicamente. Exemplo disso é “Primus”, apresentado como ‘hors concours’ em 11 de novembro de 2005, no Teatro Marista, no encerramento do 33º Fenata. Baseada no conto “Comunicado a uma Academia”, do escritor tcheco Franz Kafka, a montagem busca refletir sobre “o gigantesco percurso da evolução humana” e conta a história de um macaco que, para garantir seu lugar ao sol, “aprende a ser homem e torna-se um pop star do show business”. O espetáculo todo é uma espécie de tour de force de cinco atores, que impressionam com o altíssimo nível de preparação técnica vocal e corporal.

Bem, foi justamente esse nível de excelência que dois desses cinco atores – Daves Otani e Eduardo Osorio – trouxeram para o Fenata neste ano. Diga-se de passagem que, além da interpretação, os dois assinam a criação e a codireção do espetáculo (juntamente com Verônica Fabrini). E já que uma das características do 40º Fenata são as expectativas sobre trabalhos de grupos e diretores que já passaram pelo festival, esta correspondeu à altura do que era esperado. E, aí, vamos para a segunda parte da explicação do mote inicial deste texto.

Conforme o site do grupo (www.boacompanhia.art.br), a explicação da escolha dessa montagem chega a ser simples: “[O espetáculo] nasceu de nossa vontade de falar sobre as relações de poder em nossa sociedade. Queríamos fazer um estudo prático sobre uma realidade em que o encontro de dois seres humanos está condicionado por questões econômicas. Procuramos organizar de maneira cênica as existentes nesse encontro que, por um lado, é incontestavelmente humano, mas por outro, é notavelmente desumano. Decidimos por radicalizar essa contradição por meio do trabalho com a corporeidade animal e, para isso, buscamos ajuda nas gravuras de Goya, ‘Os caprichos’, onde podemos encontrar figuras meio animais, meio humanas”.

Toda essa preocupação, no palco – de resto referenciada em Bertolt Brecht e Samuel Beckett, por exemplo –, se revela em precisão cênica, ótimo domínio do espaço e de objetos (incluindo quatro bonecos em tamanho natural) pelos dois atores e um texto forte e contundente sobre relações trabalhistas, pessoais, afetivas e, por que não?, políticas, que, antes de ser compreendido pelo público, impõe-se como discurso duro e que chama imediatamente à reflexão. E é exatamente essa reflexão que o público levou para casa. Prova disso foi a relutância da generosa plateia ponta-grossense em se levantar para aplaudir – algo raro nesta cidade.

 

O tempo da comédia

É uma sensação de muita alegria reencontrar o casal acreano Dinho Gonçalves e Marília Bomfim, do Grupo do Palhaço Tenorino (GPT), de Rio Branco (AC). Havia 11 anos que eles não aportavam por estes lados. Para quem acompanha o Fenata há anos, Dinho e Marília se tornaram sinônimos de pessoas absolutamente sérias e honestas que praticam muito bom teatro.

Portanto, para quem viu espetáculos como “Abajur Lilás”, de Plínio Marcos, e “A Menina e o Palhaço”, de autoria do casal, a expectativa em relação a “Quem é o Rei?”, que o grupo apresentou na noite desta quinta-feira (8), era muito grande. Ocorre que essa expectativa, infelizmente, não se cumpriu.

O texto é de Marília e, segundo a publicação que o grupo fez em homenagem aos seus 20 anos, ‘GPT 20’, é a sua peça “mais complexa”. “Não é à toa que foram sete anos escrevendo, alterando, acrescentando, até chegar ao resultado final”, diz a edição comemorativa. Mas o que houve de errado, se, em cena, Dinho demonstra uma presença carismática; se Marília faz uma diretora na medida; e se Sandra Buh interpreta uma vendedora de mamão impagável? Se a cenografia é pontual, se a luz é precisa, se a maquiagem é certeira e se a maioria das piadas funciona? Levando em consideração tudo isso, era para o espetáculo dar certo. Mas como, se para a maioria do público isso efetivamente aconteceu? Senão, como explicar as gargalhadas e a manifestação generosa das palmas no final?

Pois é, acontece que tudo isso não foi suficiente para fazer de “Quem é o Rei?” um espetáculo memorável. A começar do texto. A metateatralidade pretendida por Marília não se cumpriu, e as participações de Sandra, muito embora tenham sido engraçadíssimas, ficaram no limite da timidez. Uma questão fica no ar: já que o metateatro é um mote do espetáculo, por que não aproveitar o potencial de Sandra para a inclusão de cacos?

Ainda em relação ao texto, é bom lembrar da sugestão de um dos jurados para adaptar o texto para apresentações fora do Acre, com conotações políticas mais claras. Nesse contexto, o texto se perdeu e tudo virou uma grande brincadeira, ponto. E o risco foi a montagem ficar somente com a ‘meta’ e deixar de lado o ‘teatro’ quase de fora. Problemas de direção? Talvez. É algo que Dinho deve repensar. Para uma comédia, faltou timing e sobraram ‘barrigas’ – principalmente nas cenas envolvendo Bell Paixão (que, diga-se de passagem, é uma atriz muito boa).

No mais, “Quem é o Rei?” foi mais um exemplo de espetáculo montado para espaços menores e mais intimistas e, por causa disso, se ressentiu da enormidade do auditório A do Cine-Teatro Ópera. Esse fato chegou a influir na apresentação de quinta à noite? É possível que tenha contribuído. O fato é que isso está se tornando recorrente e, para as próximas edições do Fenata, algo precisa ser feito pela coordenação do festival. Sob o risco de as montagens que vêm para cá contarem com mais esse empecilho. A se pensar.