Cidades

12 perguntas para a delegada responsável pelo Nucria sobre abusos contra crianças e adolescentes

Delegada Ana Paula Cunha Carvalho, responsável pelo Nucria, participou de uma live no Jornal Diário dos Campos, na manhã de sexta-feira (5), para falar sobre os principais crimes contra crianças e adolescentes
Delegada Ana Paula Cunha Carvalho é responsável pelo Nucria de Ponta Grossa desde 2015. (Foto: José Aldinan)

A delegada responsável pelo Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente (Nucria), Ana Paula Cunha Carvalho, participou de uma live no Jornal Diário dos Campos, na manhã de sexta-feira (5), para falar sobre os crimes contra crianças e adolescentes. Entre as principais questões apontadas pela delegada estão os sinais que os menores demonstram ao sofrer qualquer tipo de abuso. Os pais e responsáveis devem ficar atentos às mudanças de comportamentos, por exemplo.

A delegada apontou ainda a importância das denúncias formalizadas junto à Polícia Civil para agilizar o processos das investigações e prisões dos agressores. Confira na reportagem informações importantes apontadas por Ana Paula durante a entrevista.

Isolamento social em tempos de pandemia

A violência contra crianças e adolescentes pode aumentar neste período de pandemia, onde elas estão mais tempo em casa e sem aulas?

Com relação a essa questão da pandemia, percebemos que não houve aumento considerável de denúncias por conta das crianças estarem mais em casa. A violência física pode acontecer por conta do estresse dos pais em casa, sem trabalho, o que pode vir a gerar violência física. No entanto, não temos dados concretos porque o nosso principal canal de denúncias são as escolas, onde as crianças relatam os abusos, e neste momento elas se encontram fechadas.

Números de denúncias x realidade

No geral, podemos dizer se os casos de denúncias estão aumentando ou diminuindo em nossa cidade?

Os números, infelizmente, nunca refletem a realidade. Nós temos determinados números de denúncias que chegam até o Nucria, mas sabemos que a violência é maior do que aquilo que é registrado. O que podemos dizer é que qualquer tipo de violência deve ser denunciada para impedir que agressor continue com essa atitude. As meninas que namoram, por exemplo, e acabam sendo vítimas de xingamento, depois leva um tapa e assim a agressão vai aumentando, fazendo com que a denúncia só acabe sendo realizada quando chegou ao limite.

Aumento de relatos dos crimes nos últimos anos

Desde que o Nucria foi implantado em Ponta Grossa, no ano de 2015, o que podemos perceber de mudanças nos últimos anos?

O que vemos ao longo dos anos é uma progressão do número de denúncias e isso se deve à implantação de uma delegacia especializada. Antes, os crimes eram investigados, mas direcionados para outros distritos. Hoje temos uma delegacia especializada com uma psicóloga cedida pela Prefeitura e contamos com um atendimento todo diferenciado, para que a criança fale no tempo dela. Estamos tendo um bom resultado por conta do trabalho que temos realizado e, com ajuda dos canais de imprensa, as pessoas têm cada vez mais confiado em nós.

Justiça na resolução dos crimes

Na sua visão, a Justiça está sendo ágil em resolver essas questões que envolvem crianças e jovens?

Percebemos que os últimos pedidos de prisão saíram em tempo recorde. Sempre tivemos respaldo tanto do Poder Judiciário, quanto do Ministério Público, na análise dos nossos pedidos. E nessa época de pandemia, os pedidos estão saindo com uma velocidade incrível.

Perfil dos agressores

Normalmente, os responsáveis pelos abusos de crianças e adolescentes, são pessoas próximas das vítimas?

Infelizmente, 98% dos nossos casos de violência sexual são praticados por pessoas muito próximas da criança. Podem ser os pais, mães, amigos, tios, irmãos. Existe uma progressão nos atos do agressor, como um toque sutil e, dessa forma, vai trazendo a criança mais perto. Em seguida, ocorrem as carícias nas partes íntimas do corpo. Por isso, o agressor tem que conhecer a vítima para saber que ela não vai denunciar.

Diálogo é o melhor caminho

Como abordar a criança para saber o que está acontecendo?

Os pais devem indicar para as crianças que existem partes do corpo que só pertencem à criança, em especial regiões íntimas. Eles devem contar que algumas regiões do corpo são caixinhas de segredo e a partir do momento que a criança sabe disso, ela consegue definir com facilidade o momento do toque ou um beijo que ela não gostou e vai conseguir conversar sobre isso. Além disso, é importante sempre acreditar na palavra dessa criança.

O trauma

Qual o tratamento necessário para este tipo de trauma?

Temos uma psicóloga que trabalha Nucria com as vítimas que não conseguem se expressar em razão do trauma. O objetivo é a escuta especializada de como o crime foi praticado, o tipo de crime e a autoria dele. E quando percebemos que a criança está traumatizada, fazemos o encaminhamento o para a assistência social do próprio Município.

Álcool e drogas x violência

O álcool e outras drogas são fatores que contribuem para o aumento da violência dentro de casa?

O uso de álcool e drogas são sempre potencializadores dessas violências. Muitas crianças relatam que os agressores estavam com cheiro de álcool no momento do abuso e infelizmente são fatores que encorajam as pessoas na prática da violência.

Denúncias online

Nesta semana, após um pedido da Assembleia Legislativa e Policia Civil, o governo do Estado incluiu no site a possibilidade das mulheres realizarem denúncias online em relação à violência doméstica. Haveria essa possibilidade para denúncias envolvendo menores também?

Existe a possibilidade de fazer a denúncia na Delegacia Eletrônica sem a necessidade da pessoa ir pessoalmente até a delegacia. Mas casos envolvendo crianças acredito que não seja prudente até porque não é a vítima quem faz a denúncia, mas sim um representante dela.

Medo de denunciar

Porque, normalmente, as denúncias e os relatos demoram a ser feitas?

O principal fator é o medo, em especial, as vítimas são abusadas e ameaçadas. Em crianças com idades até 10 anos, por exemplo, o agressor ameaça que se ela contar, vai levar uma surra da sua mãe. Também ocorrem ameaças de morte ou de que aquilo também acontecerá com o seu irmão/irmã mais novos caso ela revele o crime.

Assédio de fotógrafo investigado nas redes sociais

E como estão as investigações sobre o fotógrafo denunciado por assédio por adolescentes?

No Twitter houveram diversas denúncias, mas no Nucria, que atende adolescentes de até 18 anos, apenas uma vítima compareceu para formalizar uma denúncia sobre perturbação de tranquilidade. Mas o absurdo foram as várias denúncias em redes sociais, mas que não chegaram até a delegacia. E sem a denúncia formalizada, a polícia não pode investigar. Mas com relação à denúncia formalizada, fizemos todo o procedimento necessário. O investigado irá responder por termo circunstanciado e já prestou esclarecimentos na delegacia.

Pais devem observar publicações em redes sociais

Como os pais devem ficar atentos aos celulares e redes sociais dos filhos?

A rede social é muito ampla onde a vítima pode acessar qualquer vídeo erótico digitando apenas uma palavra sem querer. Mas os pais devem saber quais jogos o filho está jogando, olhar o que a criança publica e não permitir fotos e vídeos de biquíni, por exemplo, para impedir que esse pedófilo jogue estas imagens em sites pornográficos.

É importante também não expor informações pessoais como endereços e suas casas. Os pais também devem observar mensagens de desconhecidos e perguntas pessoais sobre aquela criança. O primeiro passo é bloquear na hora para que os filhos não sejam expostos a isso.

Quais os sinais que indicam que uma criança está sofrendo abuso?

- Medo de aproximar de algum parente ou receio de frequentar a casa do mesmo

- A criança começa a urinar na cama ou a evacuar nas calças

- Queda no rendimento escolar

- Isolamento social

- Choro constante

Denuncie

- Disque 100 – Direitos Humanos

- Disque 181

- Atendimento presencial no Nucria – Ponta Grossa

Rua Rodrigues Alves, 950 (atendimento presencial das 9 às 12 horas em período de pandemia)