A presença do Imperador e o fracassso da colonização

Windson Shwartz

 

            Causou “a mais penosa impressão” a D. Pedro II – expressão de um dos jornais da corte – o malogro de grande parte da colonização envolvendo os russos-alemães do Volga, que chegaram aos Campos Gerais em 1878. Eram descendentes dos alemães que emigraram para Rússia no século anterior, durante o reinado de Catarina II, a Grande.

            Nascida em Stettin, na Alemanha, Sofia Anhalt-Zerbst casou-se com o herdeiro do trono russo, Pedro III, e assumiu o poder em 1762, proclamada Catarina II, a Grande. Tinha 33 anos de idade. Tendo a obediência da guarda imperial, ela impediu a ascensão do marido, de quem estava separada, e governou até 1796, quando morreu. “Apaixonada no amor e na política, diplomata astuta e hábil comandante de guerra”, Catarina II conquistou territórios e estimulou a povoação com imigrantes. 

            Surgiu a República autônoma dos Alemães do Volga, no curso inferior do rio Volga, que seria suprimida em 1946, em consequência da Segunda Guerra Mundial.  A alemã Catarina II “foi a mais russa das mulheres de seu tempo”.

            Ponta Grossa recebe a maioria dos russos-alemães: 2.442. Eles constituem 615 famílias, distribuídas em 17 núcleos. Ao município de Palmeira chegam 213 famílias com 798 pessoas em seis núcleos. Lapa, o terceiro município destinado à etnia: 68 famílias com 291 pessoas, em três núcleos.

            Os números constam na História do Paraná por Romário Martins, totalizando 3.531 imigrantes. Ou 3.522 relacionados por José Cândido da Silva Muricy, no livro Viagem ao País dos Jesuítas. A vinda dos russos-alemães para o Brasil definira-se em 1876, informa Muricy. Os que chegaram aos Campos Gerais haviam-se  estabelecido inicialmente no Rio Grande do Sul, em Santa Maria da Boca do Monte. Em terras de boa qualidade, mas eles pediram transferência, motivo de controvérsia.  

            Em relatório de 1878 ao Conselho do Império, o presidente da Província, Rodrigo Otávio de Menezes, afirma que os russos-alemães não querem se adaptar e transmie péssimo conceito, tachando-os de “muito ignorantes, teimosos, indolentes, invejosos e desprovidos do sentimento de caridade, apesar de religiosos”. Não aceitam mudar os métodos agrícolas e os costumes e ainda pedem além das vantagens (gado, dinheiro, objetos de uso doméstico) já oferecidas pelo governo, alega o Presidente.

            Mas D. Pedro II, ao constatar pessoalmente, em maio de 1880, atribui o fracasso também à localização em  terras pobres. Pelos jornais, o caso chega ao Senado. “Extensa repercussão tiveram (…) as arguições no Parlamento sobre as decantadas compras de terras que determinaram o malogro da colonização nos Campos Gerais”, informou um dos jornais da corte. 

            Na década de 1890 a maioria dos russos-alemães já se retirou das colônias. Das 615 famílias em Ponta Grossa, ficaram 323. O país já é República. Em Palmeira e Lapa também restou a minoria, muitos retornaram ao país de origem. Os que permaneceram na região dedicaram-se a outras atividades, principalmente ao transporte de cargas em carroças, entre Ponta Grossa e Curitiba.

            O ministro de Agricultura do Império, Cansanção de Sinimbu, determinara a compra das terras impróprias, que pertenciam a um parente de Jesuíno Marcondes, informou o jornal Cruzeiro. O presidente da Província declarou que havia alertado o Ministro sobre “a imprestabilidade” do solo e a “incúria de tal aquisição”. Por isso, D. Pedro II cancelou o decreto que concederia o título de barão a Jesuíno Marcondes, sob suspeita de ter influência no mau negócio. 

O Imperador 

e a imprensa

            Nos Campos Gerais, D. Pedro II permanece seis dias e percorre 70 léguas, em maio de 1880. Integram a comitiva imperial correspondentes da Revista Ilustrada, Eco do Paraná e o 19 de Dezembro, editados em Curitiba; da Gazeta de Notícias, Cruzeiro e Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro. Os jornalistas serviam-se das linhas telegráficas e de malas postais. É o tema do livro D. Pedro II na Província do Paraná, de David Carneiro. Publicado em 1943, teve uma reedição em fascículos, pela Gazeta do Povo, em 2003. O historiador observa que o conteúdo “reflete (…) a grandeza e as fraquezas do povo em formação política ebuliente, incapaz ainda (…) de mostrar uma conduta firme”. 

 

Airton dos Santos/Caximbo

Nos Campos Gerais, D. Pedro II permanece seis dias e percorre 70 léguas