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“Falta de senso crítico é mais perigosa que qualquer pandemia”, destaca historiador

Professor destacou erros e acertos da humanidade em meio à pandemias
(Foto: José Aldinan/DC)

Quais foram os principais erros e acertos humanidade frente às doenças que assolaram o mundo em diversos períodos da história? E quais foram as mudanças, principalmente comportamentais, decorrentes das pandemias? Para responder essas perguntas o Diário dos Campos convidou Yuri Sócrates Hichmeh, doutor em história e professor de filosofia e sociologia, que concedeu uma entrevista transmitida ao vivo nas redes sociais do jornal.

Não tem como a gente entender os nossos dias atuais sem entender aquilo que veio antes, e é fundamental ter olhar crítico diante da nossa sociedade tanto em tempos presentes, quanto históricos”, afirmou ele, destacando que “a falta de senso crítico é muito mais perigosa que qualquer pandemia”.

O professor cita Byung Chul Han, filósofo atual que define a nossa história a partir de eras epidemiológicas. “A cada momento a sociedade está sempre encarando algum tipo de ameaça e define dois termos cruciais: a negatividade a a positividade. A sociedade da positividade não é marcada por grandes ameaças e possui abundância de recursos e normalidade de vivência; na negatividade temos o medo, a privação de alimento, espaços, recursos e a incapacidade de desempenhar tarefas – e é a negatividade que serve como alavanca para o ser humano dar novos passos”, disse Hichmeh.

Processo civilizador

Outro autor citado pelo historiador é Norbert Elias, que em “O Processo Civilizador” debate como as ideias de cultura, refinamento e civilização são trajetórias históricas longas. “Em dados períodos, pela vontade do indivíduo de se diferenciar de outras classes, ele criava comportamento considerados mais refinados. Em outros momentos, visando impedir a proliferação de doenças, por exemplo, as pessoas perceberam que o hábito de lavar as mãos era benéfico. São pequenos comportamentos que acabam sendo incorporados e moldam a nossa civilização como um todo”, avalia Yuri.

Erros e acertos

Para o historiador, entre os impactos positivos de pandemias, considerados por ele como acertos da humanidade, estão a credibilidade de ciência, que foi crescendo ao decorrer dos anos, a compreensão das pessoas com relação à necessidade de hábitos de higiene e o desenvolvimento de pesquisas e tecnologias.

“Entre os erros, sabemos que alguns são mal intencionados e outros se devem à ignorância e inocência. É irresponsável tentar vender curas milagrosas por ser uma atitude que pode ter impactos muito severos diante da ingenuidade das pessoas; por falta de informação e treinamento em senso crítico e motivados pelo medo vão comprar tudo que lhes é apresentado”, exemplifica o Dr. Yuri Hichmeh, lembrando também da acentuação do preconceito decido à tentativa de culpar outras pessoas.

“Na peste negra, por exemplo, tivemos na Europa muita xenofobia e ódio ao outro especificamente aos judeus, muçulmanos e ciganos. No período da baixa idade média isso se alastrou muito, porque as pessoas não entendiam a doença, não a relacionavam à falta de práticas de higiene, e depositavam suas causas no sobrenatural e naquilo que não conheciam: mercadores judeus e muçulmanos taxados de infieis, por exemplo”, destaca.

 

Grandes pandemias e seus impactos sociais

Peste Negra

A peste negra matou cerca de um terço da população da Europa na Idade Média. “O tratamento era muito ineficaz e o estilo de vida propiciava a disseminação da doença. As cidades não eram ambientes limpos e a doença teve um impacto muito grande no imaginário das pessoas; através desse medo surgiram explicações da ordem sobrenatural – diferente de hoje, em que vemos a postura mais responsável do Vaticano frente ao coronavírus, incentivando as pessoas a respeitarem as normas ditadas pela ciência”, destaca o professor, que ressalta a necessidade do crescimento da confiança da ciência principalmente em momentos pelo qual estamos passando.

“Ainda que tenhamos no nosso mundo tantos exemplos de descrença na ciência, como negar a eficácia de vacinas ou acreditar em terraplanismo, não dá para negar que socialmente falando a ciência tem mais crédito ao decorrer do tempo”, lembra.

Yuri Hichmeh também afirma que após a diminuição dos surtos da doença houve todo um desenvolvimento cultural e médico – o renascimento, que, para ele, possui vínculo com o período. “O panorama geral mudou, e não apenas problemas emergiram e outros aconteceram, como a escassez de mão de obra devido às mortes e o enfraquecimento de rotas comerciais, mas também situações que mais tarde se tornaram positivas, como a revolução científica”, diz, ressaltando que o reconhecimento oficial de que medidas de higiene impedem a proliferação de doenças surgiu bem depois.

Tifo

Uma das doenças mais recorrentes da história, com registros que sugerem sua presença em Atenas, ao longo do império romano e outros períodos da idade média, o Tifo teve um surto marcante entre os séculos 19 e 20. Transmitido pelas fezes de piolhos, a enfermidade atingiu exércitos de Napoleão e das duas guerras mundiais devido à precariedade de higiene nos campo de batalha – e, quando associada à falta de higiene, a pandemia de tifo impulsionou a criação de uma regra que é seguida até hoje pelos exércitos de todo o mundo: o corte de cabelo e barba. “Na virada do século 19 para o 20 os exércitos franceses criaram determinações muitos rígidas quanto à higiene, exigindo que os soldados se barbeassem e lavassem o cabelo”, conta o historiador.

Varíola

Outra enfermidade recorrente na história, apenas recentemente a Varíola foi erradicada. Presente desde o final do império romano, quando provocou muitas mortes nas periferias, a doença também teve um grande impacto nos nativos americanos, que não tinham o corpo imunológico preparado para ela. “No final do século 18 um médico percebeu que quem tirava leite das vacas não contraía a doença. Ele percebeu que elas tinham varíola bovina e ao entrar em contato com ela os humanos tinham a sua produção de anticorpos estimulada, ficando resistentes à doença. Isso resultou na produção de uma vacina, que começou a ser popularizada”, explica o professor Yuri.