Cidades

Famílias de PG se isolam para evitar contaminação

Psicóloga comenta efeitos da pandemia na saúde mental da população
(Foto: Fábio Matavelli)

Assim como vem acontecendo em outros países e em todas as regiões do Brasil, famílias ponta-grossenses estão se colocando em isolamento para tentar evitar o contágio do novo coronavírus. Os sintomas do Covid-19 podem demorar até sete dias para aparecer, mas também há casos em que a pessoa infectada permanece assintomática. O problema é que, enquanto isso, a transmissão acontece – e cerca de 76% dos casos confirmados contraíram o vírus de pessoas assintomáticas ou não diagnosticadas.

Sair de casa o mínimo possível é uma das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para conter a disseminação da doença – mas isso não quer dizer que seja uma tarefa fácil, tanto de manter, quanto de conscientizar. A jornalista B.M., de 25 anos, está realizando home office desde a última terça-feira (17). Ela não pertence ao grupo de risco, mas mora com o seu avô, que possui 77 anos, e por isso está incluído nele. Devido a este fato, desde que começou a trabalhar remotamente a jovem não saiu mais de casa, e só pretende fazê-lo em casos de necessidade básica, como para ir ao mercado ou farmácia, por exemplo.

“Pode ser que se eu me contaminar não tenha desdobramentos graves e fatais, mas para o grupo de risco sim. É muito difícil segurar idosos em casa, alguns não entendem a gravidade da situação. Na verdade muita gente não entendeu ainda, mas eu sei que fazer a minha parte já é alguma coisa”, avalia a jornalista, que prefere não se identificar.

B.M. conta que apesar de não morar com o pai, que possui 50 anos, a mãe, de 49 anos, o irmão de 21 anos e a irmã de 10 anos, eles estão sempre em contato. “Temos convivido, eles estão sempre na minha casa e do meu avô. Colocamos como rotina cuidados como lavar as mãos, por exemplo, e nesse ponto a minha irmã de 10 anos é a mais consciente de lembrar de lavar certinho, no tempo certinho. Ela tem ajudado bastante a educar o pessoal”, afirma a jovem.

 

Isolamento em casa

Angela Carbonare pertence ao grupo de risco e desde segunda-feira (16) está em isolamento em casa com o marido e seus dois filhos (foto: Fábio Matavelli)

Angela Kit Dalle Carbonare é diabética e, por isso, integra o grupo de risco. Junto aos dois filhos, de 14 e 10 anos, e ao marido, a família está isolada em sua casa desde a última segunda- feira (16). “Eu comecei a me autoisolar por conta da diabetes e tudo mais. Os meninos foram para a aula até terça-feira (17) e desde então estão em casa, sem ir para treinos extras e catequese, por exemplo. Nós possuímos uma empresa que fica anexa à casa e que iniciará férias coletivas a partir desta segunda (23), afirma Angela, que afirma que o isolamento seguirá por tempo indeterminado.

“Por enquanto no mercado e na farmácia meu marido continua indo, mas dependendo de como se agravar a situação da contaminação e os resultados na nossa cidade utilizaremos apenas serviços de entrega à domicílio”, categoriza. Sobre o entendimento dos filhos, Angela conta que eles estão conscientizados e buscam se manter ocupados. “Não estamos mais recebendo visitas de familiares. As crianças têm acesso à internet e já pesquisaram e conversaram com os amigos também. Estão fazendo atividades como brincadeiras e leituras, mas apesar de espairecer têm que entender que não é um período de férias”, afirma.

 

Família divididaA família de Edylce Biasi optou por se dividir: a filha que trabalha em um hospital permanece em casa, mas ela, seu marido, sua outra filha e o namorado vão passar um período em sua chácara (foto: José Aldinan)

Já no caso de Edylce Biasi, a família optou por se dividir para a proteção de todos. A lojista possui duas filhas, uma advogada e uma farmacêutica; a segunda é coordenadora de farmácia de um dos hospitais de Ponta Grossa e, por isso, o restante da família optou por se isolar na chácara da família para diminuir as chances de contaminação. Junto à seu marido, à filha mais nova e o namorado dela, a família foi nesta quinta-feira (19) para a sua chácara e pretende manter-se no local até que a pandemia seja controlada.

“É muito triste ter que se separar desta forma, mas se todo mundo tivesse consciência essa crise acabaria muito mais rápido. Não vamos receber visitas neste período porque entendemos que não é momento de festas e confraternização”, avalia. Edylce possui uma loja de roupas e conta que mesmo sem a determinação oficial até então optou por suspender o atendimento. “Nas últimas semanas eu não quis ir nem ir para São Paulo para fazer compras para reposição porque acredito no perigo da contaminação”, conta a empresária.

 

Solidariedade como forma de proteção

Em todo o país diversas iniciativas que visam a cooperação têm surgido para buscar minimizar os impactos do novo coronavírus na população. Entre elas, empresas expandindo seus serviços online e de entrega, além de motoristas de aplicativo e demais cidadãos se oferecendo para fazer compras para pessoas que integram o grupo de risco de contaminação.

O empresário Athos Sá é um desses exemplos. Nesta semana, ele fez uma postagem em sua conta no Facebook se oferecendo para ajudar aqueles que não devem sair de casa. “Fiz o que queria que fizessem para a minha mãe e avó caso elas não tivessem a mim. O governo está falando para o pessoal não sair de casa, mas as pessoas precisam de diversas coisas – e achoq ue vem da minha formação esta questão de fazer o que puder para ajudar o próximo”, afirma, contando que diversas pessoas entraram em contato com ele também para oferecer ajuda nas entregas.

 

Saúde mental também deve contar com atenção especial, alerta psicóloga

O isolamento não afeta apenas a rotina da população, mas também a sua saúde mental. Diante de uma pandemia que gera a sensação de insegurança e não possui prazo definido para acabar, muitas pessoas têm se deparado com sentimentos negativos, como ansiedade e tristeza, por exemplo, por conta da mudança súbita do cotidiano.

“Frente a uma situação de ameaça, quando as pessoas precisam sair da sua zona de conforto, rotina e atividades, a tendência é que os pensamentos ansiosos voltados à ideia de doença, catástrofe e a questão de achar que tudo vai dar errado é típica, e tende a ficar mais evidente por conta da reclusão”, afirma a psicóloga Camila da Silva Eidam de Lima, que atua no Centro de Atenção Psicossocial II de Ponta Grossa, voltado a transtornos mentais graves e persistentes.

Segundo ela, o isolamento pode gerar as sensações de punição e solidão, que impulsionam crises. “Nem todas as pessoas têm a habilidade de lidar com situações novas, e o desenvolvimento deste tipo de pensamento pode virar um padrão de comportamento. A ansiedade não é uma emoção ruim porque faz parte do corpo humano, mas se há dificuldades para lidar com isso os casos de quadros que evoluem para doenças como depressão podem aumentar, alerta a psicóloga.

Como cuidar da mente

A pedido do DC, a especialista listou algumas dicas para tentar driblar o estresse e a ansiedade durante o período de isolamento.

- Evitar ficar ocioso. “Fazer leituras, aproveitar para organizar a casa e fazer coisas de lazer são estratégias para a saúde mental durante o isolamento”, diz a psicóloga.

- Filtrar informações. “Hoje temos acesso ilimitado à informações, mas precisamos saber filtrá-las e buscar de fontes seguras, como da imprensa e sites oficiais do governo, e não de mensagens de WhatsApp, por exemplo”, ressalta.

- Manter uma rotina. “Não é porque você está em casa que deve deixar de fazer as coisas no horário certo”, lembra ela.

- Lembrar que é passageiro. “É necessário lembrar que o isolamento é passageiro e entender a importância de estar em casa sem se culpar”, destaca a especialista.

- Cuidar de si mesmo. “É necessário manter uma alimentação saudável e ter as horas de sono recomendadas, além de praticas atividades físicas. Hoje temos disponibilidade de fazer exercícios de casa mesmo, por exemplo”, afirma Camila.

Atendimento online

A união de diversos psicólogos buscando oferecer atendimento terapêutico remoto deu origem ao site A Chave da Questão. Nele, diversos profissionais oferecem aconselhamento para o manejo de situações difíceis. O site pode ser acessado pelo link www.achavedaquestao.com.br.