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Hiperconectividade pode afetar convívio social, aumentar solidão e levar à depressão na adolescência

Você tem um filho na pré-adolescência ou na adolescência? Se sim, você já calculou o tempo que ele/ela gasta usando o celular? De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os adolescentes lideram o ranking no uso de celulares e internet. Porém, a hiperconectividade em uma idade tão precoce, em que o cérebro ainda está em desenvolvimento, pode ser mais perigoso do que se imagina.

Segundo a neuropsicóloga Thaís Quaranta, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), um dos aspectos mais prejudicados relacionados ao uso excessivo do celular na adolescência é o desenvolvimento das habilidades sociais e afetivas.

“A tecnologia tem seus benefícios. Entretanto, o uso excessivo, em uma idade em que o indivíduo ainda está em formação, pode acarretar em problemas na interação social, aumentar a solidão, o risco de desenvolver depressão, além de outras condições, como a dependência da internet, reconhecida com um Transtorno do Controle de Impulsos”. 

 

Um mundo paralelo

“O que vemos no dia a dia são adolescentes que trocam encontros pessoais e deixam de sair para usar as redes sociais. Acabam até mesmo se isolando do próprio convívio familiar para viver numa espécie de mundo “paralelo”. O mundo real se confunde com o mundo virtual. Procuram lidar com os sentimentos, típicos dessa fase da vida, com os amigos ‘virtuais’ ou ainda com recursos que encontram na internet, que, infelizmente, nem sempre são confiáveis ou os mais indicados”, comenta a neuropsicóloga. 

A verdade é que o uso sem moderação da tecnologia só reforça ainda mais o isolamento social, além de interferir no desenvolvimento das habilidades sociais, que são cruciais para a vida adulta.

Thaís lembra que é justamente na adolescência que o convívio social se amplia. “Os adolescentes que trocam a vida real pela virtual têm sua capacidade de socialização comprometida e isso irá se refletir, por exemplo, na vida profissional e nos relacionamentos afetivos quando chegarem na vida adulta”.  

 

Riscos são maiores que benefícios

Uma pessoa que na adolescência teve oportunidades de construir relacionamentos sociais reais e usou a tecnologia dentro dos limites, certamente irá levar essas habilidades para a fase adulta.

“Por outro lado, o uso excessivo da tecnologia por adolescentes pode levar ao desenvolvimento de características como comportamento antissocial, agressividade, distúrbios do sono, ansiedade, depressão, problemas de aprendizagem e dependência da internet”, ressalta a psicóloga.

 Thaís lembra ainda que o uso desmedido da tecnologia e sem controle dos pais, pode incentivar o bullying e o acesso a conteúdos inapropriados para menores de idade. 

 

O que os pais devem fazer

A família é e sempre deve ser o porto seguro para o adolescente. Ao contrário do que se possa pensar, é justamente nessa fase da vida que os pais devem prestar mais atenção aos comportamentos dos filhos e impor limites e regras.

 “Muitos pais trabalham fora de casa e não conseguem acompanhar o que o filho adolescente faz durante o dia. Entretanto, é preciso encontrar maneiras de estabelecer limites para tudo, não só para o uso das tecnologias. Os pais também precisam dar o exemplo, ou seja, não adianta exigir que o adolescente não use o celular o tempo todo se os pais não largam o aparelho nem para comer”, reflete Thaís.

 

Veja algumas dicas da neuropsicóloga para os pais:

1.         Idade: A maioria das redes sociais exige que a pessoa tenha mais de 18 anos para entrar. Porém, se seu (sua) filho (a) tem um perfil e é menor de idade, lembre-se que você é responsável. Assim, tenha acesso ao login e senha e monitore o acontece por lá.

2.         Tempo: Estabeleça um tempo por dia para usar o celular, jogar videogame, etc. Lembre-se de não abrir exceções. Se for o caso, retire o dispositivo do adolescente se as regras não forem respeitadas.

3.         Controle: Procure pelo histórico de acessos aos sites que tipo de conteúdo o adolescente acessa. Hoje, há alguns aplicativos que ajudam a bloquear certos conteúdos. Além disso, é bom entender que tipo de informação é procurada.

4.         Mantenha as portas abertas: A melhor estratégia é você manter com o adolescente uma relação de confiança, respeito e autoridade. Converse, entenda as dificuldades do momento, procure ajudar como puder.

5.         Incentive: Procure incentivar os encontros pessoais com os amigos, com familiares, etc. Planeje programas que possibilitem conhecer pessoas novas para que o adolescente possa treinar sua socialização fora do ambiente virtual.

6.         Fale com a escola: Não espere as reuniões para saber se está tudo bem na escola. Ligue, mande e-mail, procure os coordenadores para verificar o andamento escolar, o comportamento, as amizades. Inclusive, várias escolas usam aplicativos que facilitam essa comunicação.

7.         Procure ajuda especializada: Como dizem por aí, os pais não nascem com manual de como serem pais. Então, se você percebeu que a situação está fora do controle, procure um psicólogo. O profissional está qualificado para orientar os pais, assim como para trabalhar as dificuldades junto ao adolescente.

 

“A tecnologia existe e pode ser usada de forma positiva. Proibir não é o caminho. É preciso ensinar o adolescente a usar de forma consciente e responsável, com limites e regras bem delimitados”, conclui Thaís.