Cidades

Homem é o principal agente das mudanças climáticas

O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgado este ano mostra que, em termos globais, a temperatura média apresentou elevação nas últimas décadas, da ordem de décimos de grau. Nos últimos 10 anos de trabalho, o Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar) registrou, em Ponta Grossa, a segunda maior temperatura – 34,1 graus – no último dia 29 de outubro.

Ainda conforme o Simepar, os maiores valores registrados no Município estão concentrados nos últimos cinco anos. “E pode ser que a percepção de que o tempo está mais quente seja causada pelo fato de que as maiores temperaturas estão concentradas nas estações de transição – outono e primavera - onde a variabilidade das temperaturas está mais acentuada”, diz o meteorologista Marcelo Brauer

No entanto, um período de 10 anos é pouco para se conseguir definir o clima de uma região. Segundo Brauer, seriam necessários, no mínimo, 30. “Mas em breve deve ser iniciado um processo de mapeamento de impactos regionais, mas são trabalhos para mais cinco ou 10 anos, mas já existem alguns estudos nesse sentido, que devem evoluir a partir do ano que vem, com as novas previsões de cenários climáticos oriundos das novas informações provenientes do IPCC”.

Neste estudo, o foco também será calcular o número de dias com temperaturas acima de um determinado valor – 30º, por exemplo. “E já se percebe que a incidência dessas temperaturas mais altas aumentou em comparação às décadas anteriores”.

Entretanto, alguns passos já foram percorridos. Desde este ano, o Fórum Estadual de Mudanças Climáticas já inclui diversas áreas de pesquisa e setores governamentais e da sociedade civil. “Este fórum será o ambiente de divulgação e discussão e será o espaço para mitigarmos os impactos futuros e também de propor as alternativas”, explica.

Elevadas

De acordo com o também meteorologista do Simepar, Reinaldo Kneib, além dos picos de altas temperaturas, o que também se pode verificar é que as temperaturas mínimas também estão mais elevadas nos últimos anos. “Mas ainda não podemos dizer que estamos passando de um inverno mais rigoroso, para uma estação mais amena”, pondera.

Segundo ele, os dias consecutivos com temperaturas elevadas são, em parte, causados por fenômenos como El Niño e La Niña. O primeiro garante chuvas e temperaturas mais altas, o segundo reduz a precipitação. E é justamente nesse sentido de redução ou aumento das chuvas que surge a sensação de dias mais quentes. “Se ficamos muitos dias sem chuva, o sol aquece mais a terra. Se não há nuvens no céu, a superfície absorve mais o calor”, exemplifica.

 

Verão promete temperaturas mais quentes

Ainda ontem, exatamente às 4h38, começou o Verão. Para os próximos três meses de 2008, a influência será do fenômeno La Niña, que possui como uma das suas características principais a irregularidade na distribuição das precipitações no Paraná. Segundo o Simepar, a previsão climática indica que as precipitações deverão variar entre próximas da normal - nas regiões norte e leste - à ligeiramente abaixo da normal, entre o oeste e centro-sul. As temperaturas irão ficar acima da média histórica.

 

20 maiores temperaturas máximas

Fonte: Simepar

Data                        T. Máx.

 11/10/2002        34,5

*29/10/2007*      *34,1*

16/1/2006            33,6

28/2/2003            33,5

12/3/2005             33,5

*28/3/2007*        *33,5*

*7/10/2007*        *33,5*

9/10/2002            33,4

12/11/2003         33,4

10/10/2002         33,3

17/1/2006          33,3

*31/3/2007*     *33,3*

26/9/2004          33,2

15/1/2006          33,2

*27/3/2007*        *33,1*

*10/10/2007*      *33,1*

9/11/1997            33

2/12/1998             33

3/2/2003             33

7/10/2002          32,9

 

Valores médios das temperaturas mínimas

Fonte: Simepar

 

Data           T. Mín

17/7/2000 -4,1ºC

13/6/2004 -2,7ºC

14/7/2000 -2,6ºC

13/7/2000 -2,4ºC

15/8/1999 -2,3ºC

20/7/2000 -2ºC

17/8/2003 -1,8ºC

24/7/2000 -1,6ºC

28/7/2001 -1,2ºC

18/7/2000 -1ºC

21/7/2000 -0,6ºC

26/5/2003 -0,6ºC

2/9/2002    -0,4ºC

3/9/2002    -0,3ºC

7/7/2005    -0,1ºC

21/6/2001 0ºC

5/9/2006    0ºC

*30/5/2007*        *0ºC*

 

Ações humanas aceleram aquecimento

De acordo com a professora do Departamento de Biologia, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Ivana de Freitas Barbola, alguns pesquisadores afirmam que a terra está em processo de aquecimento como um todo. Porém, o consenso está no ‘papel’ das ações humanas nesse contexto. “Numa coisa todos concordam: que as atividades humanas têm acelerado o processo de aquecimento”, garante.

Segundo ela, ações simples, aparentemente inofensivas, acarretam em mudanças climáticas ao longo das décadas. “As queimadas que se faz no quintal de casa, ajudam a aumentar o processo de aquecimento gradativo da terra, modificando, até mesmo, fenômenos naturais”, exemplifica.

Além disso, as atividades industriais (desde a Revolução Industrial) permitiram o aumento da emissão de gás carbônico, acelerando, ainda mais, as mudanças que seriam gradativas e naturais. “Com a ação do homem, um processo natural de aquecimento - causado pela própria mudança da posição da Terra, em relação ao Sol, que altera o sistema de chuva e os ventos - fica mais acentuado”, exemplifica.

 

Brasil é o 4º emissor de CO2 do mundo

Conforme dados divulgados por pesquisadores, o Brasil já é considerado como o quarto maior emissor de CO2 do mundo. As causas são simples e fruto das ações humanas: queimadas de quintal e a própria queima de combustível fóssil.

De acordo com o técnico de Meio Ambiente, da Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente (Sema), Paulo Barros, não fossem as queimadas, o Brasil cairia para o 17º poluidor. “Na Amazônia, e em toda a região Centro-Oeste do País, há uma significativa presença de queimadas, para abrir novas fronteiras agrícolas e, isso, acaba resultando no que se chama de aquecimento global”, analisa.

Aliado a isso, a queima de combustível fóssil é outro fatos importante a ser considerado. Conforme Barros, o Brasil tem uma frota significativa de veículos. “Mas o maior problema está nos veículos movidos a diesel”, aponta. O diesel nacional é considerado muito poluente: 50 vezes mais que o produto comercializado na Europa. “Aí, acontece que a queima desse combustível vai resultar no lançamento de gases na atmosfera”.


O que é o ‘Aquecimento Global”

Muito se fala no processo de aquecimento global, suas causas e conseqüências. A explicação para este fenômeno parte de outro também muito comentado pelos meios de comunicação: o efeito estufa. “O efeito estufa permitiu que houvesse vida na terra. Não fosse ele, os raios solares bateriam na superfície da Terra e iriam embora”, explica o diretor de Meio Ambiente, Paulo Barros. O efeito permite, portanto, que o calor permaneça na Terra e, conseqüentemente, o surgimento da vida. Acontece que, com a demasiada emissão de CO2, o calor é absorvido demais. “A grande quantidade de gás potencializa o efeito estufa e não permite que os raios solares sejam dispersados, sem absorção”.

Dessa maneira, as temperaturas aumentam cada vez mais, causando um descontrole. “E isso é fruto da ação humana”, enfatiza.

 

Como melhorar?

Paulo Barros e Ivana Barbola concordam que as ações devem partir da própria comunidade, auxiliando na recuperação de áreas florestadas dentro da própria cidade. “Ter ruas e parques arborizados favorece a melhora a temperatura local, garantindo uma temperatura mais agradável”, comenta Ivana. E o plantio de árvores acaba resultando em outros benefícios, além de menos calor: são elas que retêm água e impedem inundações e enchentes. “Em Ponta Grossa, onde há muitos arroios, o plantio de árvores em maior quantidade traria inúmeros benefícios”.

Numa escala de ‘micro-ambiente’ – uma cidade, por exemplo – atitudes como essa, resolvem. “E cada um deve fazer a sua parte, de modo a melhorar as condições de vida e tornar o ambiente mais agradável e bonito visualmente”.

Segundo Barros, as atitudes locais garantem compensação em nível global. Nesse sentido, utilizar menos o carro e buscar o transporte nos ônibus coletivos ou o simples fato de dar carona, reduzem a quantidade de gás CO2 emitido. “Ao preferir o ônibus ou ir ao trabalho de carona, reduz-se a queima de combustível fóssil. Assim como dar preferência aos veículos movidos a álcool e regular os pneus dos carros”, confirma.

O simples ato de escolher produtos fabricados na região contribui com a redução na emissão de poluentes, por isso passar a verificar o local de origem dos produtos nos rótulos é fundamental. “Quando se escolhe um produto de uma cidade da região, cuja distância máxima é de 200 quilômetros, por exemplo, reduz-se a queima de combustível, porque se evita o transporte em grandes distâncias”, salienta

Ainda conforme Barros, falta ainda um processo de conscientização, principalmente dos jovens. “As pessoas mais velhas têm noção de quanta coisa foi modificada ao longo de 40 ou 50 anos e sabem que o principal fator para isso é a própria ação humana, mas os jovens – pelo curto espaço de tempo de vida – ainda não perceberam as mudanças e, dessa maneira, não entendem que ações simples contribuem para minimizar os problemas”.