Indústria em tempo de guerra, a nova história no Alto Tibagi

Widson Schwartz 

 

A quantidade de Araucária angustifolia ou pinheiro-do-paraná na Fazenda Monte Alegre justifica a fundação das “Indústrias Klabin do Paraná”, em 20 de outubro de 1934, para produzir papel e celulose. Nove dias após o registro, a empresa compra a Fazenda Monte Alegre, vendida pelo Banco do Estado do Paraná.

Avaliada em 7.500 contos de réis, pagamento a prazo, o imóvel compreende 143.516 hectares, “a começar no ponto onde o rio Alegre desemboca no Tibagi”, seguindo-se a descrição minuciosa de outros limites, nomeando rio por rio, linhas etc. O nome da fazenda é menção ao lugar mais alto em sua extensão, onde José Félix da Silva, o primeiro proprietário, construíra a sede.

Faz-se um novo levantamento dos recursos naturais e topográfico, entre 1936 e 1940, definindo-se os três primeiros centros da Klabin. Mauá: construção da hidrelétrica no rio Tibagi e vila dos operários; Lagoa: centro administrativo e alojamento para os trabalhadores em estradas; Harmonia, local destinado à construção da fábrica.

Dona Ema Klabin sugere o nome Harmonia substituindo a Mortandade, porque assim eram conhecidos o lugar e o rio desde que José Félix comandara a matança de um grupo de caingangues, a “chacina do Tibagi”. A fonte sobre o desenvolvimento da Klabin é o livro Monte Alegre, cidade-papel, de Hellê Vellozo Fernandes.

Começa a Segunda Guerra Mundial, em 1939, e o presidente da República, Getúlio Vargas, temeroso de que o fornecimento de papel-jornal ao Brasil pelos países europeus seja interrompido, quer apressar a construção da fábrica em Monte Alegre. O Banco do Brasil concede um empréstimo, ante os riscos em tempo de guerra alegados pelos empresários, e Samuel Klabin segue para os Estados Unidos em 1940, acompanhado por Ernest Froelish, renomado especialista em papel. Vão encomendar máquinas e projetos. 

Em setembro de 1941, o capital da empresa é quadruplicado e o nome passa a ser Indústrias Klabin do Paraná de Celulose S.A. (IKPC). A fonte histórica não menciona os valores do capital e do empréstimo do Banco do Brasil.

A construção da infraestrutura em Monte Alegre é contínua no período da guerra e recebe, em 1943, a visita do ministro da Fazenda dos Estados Unidos, sr. Snyder, que assiste à iniciativa privada em ação “no mais bruto do sertão bruto”, escreve Assis Chateaubriand nos Diários Associados.  Enquanto Volta Redonda, construída pelo governo às portas da urbanização carioca e paulista, para ter a siderúrgica, “é o governo com as autarquias”, Monte Alegre é a “free enterprise, a liberdade de iniciativa”, proclama Chatô. E acredita que Monte Alegre, durante a guerra, irá se converter “no único centro da América Latina consagrado à industrialização em grande escala do pinheiro”.

 

Entre a Lituânia e o

mundo da araucária

 

 

Entre oito irmão Klabin, procedentes da Lituânia e que chegaram a São Paulo entre 1880 e 1885, Maurício, Salomão e Hessel, mais o  cunhado  Miguel Láfer, se dedicam ao comércio de papéis e artigos para escritório.  Em 1906, arrendam uma máquina em Itu (SP) e consolidam, três anos depois, uma fábrica de papel. No Rio de Janeiro, em 1932, eles compram a Manufatura Nacional de Porcelana, cuja ampliação, com três mil operários, dá ao Brasil a autossuficiência em azulejos.

Ainda em 1932, Salomão chama o filho Samuel, de 22 anos, e o incumbe: “O interventor Manoel Ribas oferece-nos terras ricas em pinheiros na região do rio Tibagi. Você vai conhecê-las”. O Fordinho 1929 parado em frente a um hotel de Tibagi, ainda com o radiador fumegante, é uma novidade, atraindo a molecada curiosa.  Samuel Klabin e Reinaldo Bronnert haviam-se revezado ao volante, desde São Paulo.  No dia seguinte, receberam do geólogo Reinhard Maack, que havia trabalhado para a Companhia Monte Alegre, as primeiras informações sobre a fazenda, que daria  origem à grande indústria.

Airton Procópio dos Santos/Caximbo/Divulgação

Alagamento no Rio Tibagi, na região de Telêmaco Borba

 

Airton Procópio dos Santos/Caximbo/Divulgação

Usina Mauá, na Bacia do Rio Tibagi, entre Telêmaco Borba e Ortigueira

 

 

 

 

 

Airton Procópio dos Santos/Caximbo/Divulgação

Vista da cidade de Telêmaco Borba, através de uma das caldeiras, das Indústrias Klabin