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Isabel Meister: a mulher que plantou 400 árvores no Parque Ambiental

Engenheira agrônoma narra os desafios de 25 anos dedicados à preservação ambiental e arborização em Ponta Grossa
(Foto: José Aldinan)

Aos 54 anos, Isabel Meister tem em sua pele as marcas de quem ficou sob o sol, dedicando boa parte de sua vida a tornar a cidade de Ponta Grossa mais arborizada. Funcionária concursada, foi na prefeitura que ela teve seu primeiro emprego, e há 25 anos ela é um dos principais rostos por trás dos esforços em criar um cenário com mais vida e menos concreto. Se hoje não é tarefa fácil, há alguns anos era ainda mais complicado.

Quando criança, ela acompanhava seu pai a uma chácara da família, e logo mostrou gosto pelo cultivo e cuidado com as plantas. Decidiu levar esse interesse à vida profissional e se formou engenheira agrônoma. Hoje ela acredita que conseguiu, trabalhando no município, alguns avanços significativos para a criação e ampliação de áreas verdes.

Isabel primeiro atuou na Secretaria Municipal de Agricultura, quando exerceu diversas atividades, parte delas voltadas à agroecologia e fruticultura. Foi em 2001 que passou a se concentrar em arborização, e abraçou seu primeiro grande desafio por volta de 2009: o Parque Ambiental, ou “parque cimental”, como lembra que a população o apelidou à época.

“Foram uns dois meses para arborizar. Tiramos um bom tanto de calçadas. Na verdade, nunca houve na prefeitura um planejamento para arborização. Todo mundo podia plantar o que quisesse. Hoje temos legislação específica, as pessoas têm que consultar a prefeitura para o plantio ou corte nas praças e vias públicas. Mas plantavam até três mudas na mesma cova, para ver qual ia crescer... e cresciam as três! Eu ficava me perguntando, pra que isso?”, lembra, rindo.

Aquilo era o indício de que as pessoas queriam mais árvores, mas não sabiam como fazer isso se tornar realidade, e acabavam plantando espécies inadequadas. Recentemente, todas as novas leis criadas em benefício de uma arborização adequada no município tiveram a avaliação e parecer de Isabel. O problema é que muitas dessas leis continuam não sendo divulgadas, e o plantio e corte desordenado ainda persiste, avalia.

 

Pouco arborizada?

Isabel reconhece que a cidade é pouco arborizada em sua área urbana. Mas acredita que isso passa pela falta de planejamento ao longo de décadas, e não pela falta de interesse de uma secretaria, uma gestão ou da população. Sua principal pesquisa, ainda na faculdade, apontou que a cidade contava com passeios que tinham 50 centímetros de largura, impedindo a passagem até de cadeirantes, e tornando totalmente inviável o plantio de árvores. Com muito trabalho, o Parque Ambiental conta hoje com cerca de 400 árvores, mas deveria ter duas mil, em sua opinião.

 

Regador

Dez anos atrás, para trazer terra ao Parque Ambiental, Isabel usava uma caminhonete que ela mesma dirigia, e para regar as primeiras árvores do parque ela usou dois tambores de 200 litros de água, cujo conteúdo eram distribuído, para cada árvore, com um regador comum. “Hoje existe uma equipe com caminhão pipa para fazer isso. Mas acho que por isso envelheci tanto. Eu passava o dia inteiro sob o sol e, naquele tempo, a prefeitura não oferecia filtro solar, como ocorre agora”, diz.

 

Os desafios do Parque Ambiental

“Quando comecei, tínhamos que fazer cova com retroescavadeira e trocar todo o solo para as árvores se desenvolverem, porque o solo no Parque Ambiental é muito cheio de pedras, concreto e ferro, herança da linha férrea. Onde colocavam as máquinas para conserto tem um concreto tão forte, que não conseguimos quebrar, e só podemos plantar arbustos”, conta, revelando aquilo que está no subsolo e não pode ser visto. As pitangueiras, cerejeiras, romanzeiras e várias outras espécies tentam amenizar a impossibilidade de plantar árvores de grande porte ou em maior quantidade. Impossibilidade devido às características do terreno ou de uso do parque, também destinado a grandes eventos. Entre os agentes complicadores para arborizar o Parque Ambiental também está a fiação subterrânea, cuja localização exata não corresponde ao que está em projeto, diz Isabel.

 

Legado

Isabel sabe que a arborização não é conquista de uma só pessoa. Muitos outros participaram desse trabalho, e hoje ela atua ao lado de Elisângela Schnaider, chefe do viveiro municipal, e atualmente responsável pelo plantio de novas árvores, incluindo as palmeiras recentemente colocadas no parque Linear. Isabel se dedica, na Secretaria Municipal de Meio Ambiente, principalmente à arborização, liberação de corte e poda de árvores e licenciamento ambiental. Aguarda ansiosa a aposentadoria, daqui a cinco anos. Se a cidade ainda não é suficientemente arborizada, ela acredita que preparou terreno para que isso ocorra, ajudando na instalação do viveiro, há um ano, e na formatação de leis voltadas à preservação ambiental.