Especial

O senhor não faz por menos?

Miguel Sanches Neto*  

Em carta ao seu amigo Suvórin, em 11 de março de 1889, o escritor russo Anton Tchékhov, reclamando do descaso com que eram tratadas as empregadas domésticas, diz: “quanto mais o trabalho é remunerado num país, mas este prospera; cada um de nós deve almejar, portanto, pagar mais caro para o trabalho”. A lição de Tchékhov continua atual e parece sob medida para Ponta Grossa.

A primeira coisa que estranhei quando cheguei à cidade foi o fato de pessoas ricas não quererem remunerar adequadamente os serviços. Uma lógica escravagista está por trás dessa mania de economia da cidade, onde se opta sempre pela construção mais barata, pelos produtos em promoção, pelos pratos mais econômicos e, consequentemente, pelos profissionais que cobram menos ou que fazem gratuitamente.

Isso, que poderia ser apenas um hábito inocente (e até louvável, pois economizar tem o seu lado positivo, principalmente em momentos de crise) produz efeitos nocivos para o desenvolvimento local. Na administração pública, acabamos fazendo tudo subdimensionado, pois não ousamos grandes projetos. Na arquitetura, escolhemos as soluções mais em conta – e daí proliferam os monstrengos dos edifícios pré-fabricados e as réplicas horrendas, determinando a inexistência de marcos arquitetônicos na cidade. Não remuneramos bem os profissionais especializados, contentando-nos com coisas mal feitas.

Assim, o dinheiro fica parado nas classes que, por herança ou qualquer outro acidente de percurso louvável ou não, o detém, enquanto a grande maioria da população é mantida num regime de exclusão econômica.

Um país, um estado ou uma cidade em que apenas uma pequena parcela de seus cidadãos acumula fortunas, recusando-se a fazer o dinheiro circular, estará fadada (ou fadado) a não se tornar inviável. A lógica acumulativa do Tio Patinhas talvez seja o maior empecilho para o crescimento de Ponta Grossa e precisa ser combatida por uma nova mentalidade, avessa ao movimento de regatear tudo, até mesmo na feira de frutas e verduras.  Valorizar o trabalho, única riqueza das classes operárias, intelectuais e artísticas, é a melhor maneira de alargar a classe média.

Ponta Grossa só se desenvolverá plenamente quando aprendermos a pagar bem pelos serviços.

* O autor é escritor e professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)