PG 190 anos

PG: este é o momento cultural?

Um novo momento. Esta pode ser a definição sobre a situação atual da cultura em Ponta Grossa. A cidade tem um Festival Nacional de Teatro Amador que completa 41 anos e atrai quase 40 mil espectadores, um Festival Literário dos Campos Gerais (Flicampos) que registra um público de mais de 60 mil pessoas, e uma estimativa de mais de 200 atividades culturais que acontecem no decorrer do ano e envolvem mais de 80 mil pessoas. Este já não é mais um perfil de cidade do interior.

Cirillo Barbisan é ator e diretor de teatro, há 40 anos, e há 9 anos está na administração pública. “Enveredei para este lado, e como qualquer outra profissão há dificuldades, mas é uma questão de aprendizado, às vezes doloroso, e tempos de adaptação, e para se viver da arte não é possível pensar como artista, mas sim como empreendedor”. Ponta-grossense, Cirillo revela que sonhava em montar espetáculos que nunca fossem esquecidos. “Mas na prática abandonei essa vaidade, e hoje minha função é trabalhar a educação com a arte, levando questões ambientais, de trânsito, enfim, conceitos de qualidade total”, descreve. Seus espetáculos ficam anos em cartaz, e um deles já chegou a 700 apresentações. “Isso é uma vitória, pois muitas peças não chegam a 20”, contabiliza

Ele lembra que Ponta Grossa tem grandes nomes revelados nos diversos setores da cultura. “Na música são mais de 100 anos com escolas de músicas, como maestro Paulino Martins Alves, Calistrato Sanson, e essa tradição de sucesso se concretiza com bandas atuais, muitos músicos passaram pelo conservatório que têm projeção no Brasil e na Europa”. Na dança, ele lembra da boliviana Emma Sintani, que há mais de 50 anos chegou a Ponta Grossa, com o esposo Renan Castellon. “Eles fizeram revolução na área da dança em Ponta Grossa”. Da mesma forma, Carol Ferreira foi precursora em várias artes, junto com a sua família de artistas. Carol tem 102 anos de idade, e hoje vive acamada. Na literatura ele destaca Faris Michaele e Bruno Enei, que em Ponta Grossa são ícones da cultural. “Foram eles que plantaram o que os palcos ponta-grossenses colhem hoje, formaram públicos e ainda são exemplos”.

Por outro lado, o ponta-grossense Flávio Fanucchi, ator e cantor, acredita que a cidade não tem muito a comemorar nesta data. “Como artista ponta-grossense que até então conseguiu sobreviver da Arte em nossa cidade, pela primeira vez, em anos, me encontro em um estado de vulnerabilidade social que não esperava enfrentar depois de 43 anos dedicados ao teatro, à música, à literatura e à cultura de nossa terra. Hoje, sobreviver da arte não é mais para poucos, é para ninguém. Não saio daqui por vício, por mania, por querer intenso, quem sabe por covardia? Cada qual tem seus segredos”, desabafa.

“Respiramos um pouco mais de cultura”, diz escritor

Escritor, professor da UEPG e doutor em Literatura, Miguel Sanches Neto, constata aumento na produção cultural da cidade. “E também um novo público. A vinda de uma livraria do porte da Curitiba é um sinal visível disso. Na área de eventos, o calendário de atividades confirma este crescimento. Nós estamos respirando um pouco mais de cultura, há uma pressão por produtos e a recente criação do curso de artes da UEPG é outro sintoma deste momento. Houve uma grande evolução, em relação ao panorama de 10 anos atrás”, compara.

Mas o que ainda falta? Para Sanches faltam equipamentos públicos. “A presença do poder público melhorou, mas ainda é tímida. Temos que lutar por bibliotecas atrativas nos bairros, por uma política de bibliotecas públicas descentralizadas e que funcionem como centros culturais. Outra urgência é fazer com que a Lei Municipal de Incentivo à Cultura funcione, pois isso dá autonomia aos produtores culturais. Há ainda um ponto nevrálgico: ao dar incentivos para a instalação de grandes indústrias é preciso exigir que as suas verbas para cultura sejam vinculadas ao Município. Pois, da forma que está, muitas indústrias não aplicam na cultura local. Estas mudanças são estruturantes, pois permitem uma consolidação de trajetórias artísticas”, dispara.

Acesso gratuito à internet é importante para o setor cultural

Jornalista e professor da UEPG, Rafael Schoenherr é ex-integrante do Conselho Municipal de Cultural e delegado por Ponta Grossa na próxima Conferência Estadual de Cultura, que acontece no dia 21 em Guarapuava. “Já passaram nove meses do atual governo e tivemos três secretários de Cultura, isso tem um impacto sobre a situação, e muitos compromissos firmados no ano passado, no período pré-eleitoral, não foram cumpridos, e alguns estão em cumprimento, como é o caso do Flicampos, que o requisito era continuação e ampliação, no entanto, editais públicos que precisam de conclusão dos anos anteriores, principalmente no setor áudio visual”, destaca.

 Rafael também cita que em abril, a Conferência Municipal de Cultura deliberou a realização de uma audiência para discussão do formato da Münchenfest. “O Executivo já sinalizou mudanças, mas o que se pautou é repensar o formato e transformar em festa popular, o que envolve, primeiramente, na desprivatização da festa, e nada mais justo que chamar a comunidade e os setores para discutirem o assunto, como é o caso das cervejarias artesanais que teriam interesse em participar e enriquecer a festa, assim como outras participações”.

Outra questão é o acesso gratuito à internet. “Recentemente o acesso foi mapeado no Paraná, e cidades menores que Ponta Grossa têm acesso garantido e muito mais amplo, e este é um fator que prejudica o setor cultural, tanto consumidor, quanto artistas, núcleos de produção, enfim, hoje temos apenas um ponto de acesso livre sem cadastro, que é na Biblioteca Pública, e a internet gratuita foi garantido em campanha”.