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Trabalho escravo contemporâneo no mundo da moda

Durante os dias 21 e 23 de outubro participamos de um encontro promovido pelo Ministério Público do Trabalho que reuniu pessoas refugiadas, artistas, juristas e promotores para conversar sobre o tema do Trabalho Escravo. Além das mesas de conversa super enriquecedoras a ação #NãoSomosEscravosdaModa contava com uma exposição interativa que mostrava para os passantes da Avenida Paulista como é o ambiente de trabalho escravo.

Péssimas condições de higiene, iluminação e ventilação, pouco tempo para descanso. Essas situações eram representadas por dois atores que ficavam em uma área que simulava uma oficina clandestina. Já do outro lado frases de relatos reais de pessoas que passaram por essa situação. “Comi comida estragada”, “O patrão ameaçava com um revólver”, “Eu apanhei do dono da oficina”, eram algumas delas. 

O trabalho escravo hoje se configura de uma maneira diferente do que era nos primórdios da colonização, nem sempre o funcionário é mantido em restrição de liberdade, mas passa por outras situações que promovem o cerceamento de seus direitos. Como, por exemplo, a retenção de documentos, na situação o chefe fica com os documentos trabalhistas ou de migração em caso de trabalhadores estrangeiros, servidão por dívida, quando a vinda do estrangeiro para o Brasil já significa uma dívida que ele tem com o patrão e esse pagamento nunca se concretiza, pois o que recebe produzindo é sempre menor, e ainda jornada exaustiva, em que o trabalhador não consegue se recuperar do esforço físico e repetitivo que a função o coloca, dentre outras condições degradantes.

Reconhecemos nosso papel como consumidores e entendemos que fazemos parte da cadeia que financia esse tipo de trabalho. Para além do dever do poder público em impedir que essa situação aconteça está nossa responsabilidade em investigar quais marcas consumimos e se elas têm indícios de serem complacentes com esse tipo de realidade descartar qualquer possibilidade de compra destas marcas. E as ações para que isso seja permanente são simples e claras:

 

- O primeiro passo para eliminar as compras de marcas que podem ter envolvimento com trabalho escravo é diminuir radicalmente o volume de consumo. Nós realmente precisamos de tudo que compramos?  

Fazendo essa reflexão e diminuímos o consumo e quebramos com a lógica do mercado, que vende roupas extremamente baratas para que as pessoas comprem muitas peças. O que muda, já que ao invés de comprar várias peças por um valor muito baixo compramos poucos itens, que até podem ser um pouco mais caros, mas têm uma durabilidade maior e um processo produtivo mais justo. 

Se aliarmos a isso o estudo de nosso estilo e das tendências do mundo da moda as compras serão muito mais assertivas e as roupas muito mais usadas. Já parou para pensar que se uma peça é muito barata provavelmente a pessoa que tem o papel mais singelo na cadeia produtiva não está sendo remunerada corretamente?

 

- O segundo passo para não compactuar com o trabalho escravo no mundo da moda é pesquisar sobre as marcas antes de comprar. Uma das maneiras pode ser apenas verificar nos sites do Ministério Público se a marca tem alguma denúncia. Um simples Google já pode ajudar a identificar isso.

Alguns aplicativos também podem auxiliar nessa busca de informação como o app Moda Livre, criado pelo site Repórter Brasil, que identifica 119 marcas e grifes com os sinais vermelho, amarelo e verde para mostrar o grau de responsabilidade de cada uma. As informações são colhidas com o envio de questionários às empresas que respondem às perguntas a respeito das condições de trabalho dos seus funcionários e fornecedores da cadeia produtiva. O aplicativo também usa como base pesquisas com órgãos competentes a respeito de investigações das marcas avaliadas.        

Também vale sempre dar uma olhada nos sites das marcas antes de comprar para conferir se eles divulgam sua lista de fornecedores, e se tem políticas de monitoramento e combate ao trabalho escravo. Vale até checar os relatórios de sustentabilidade se o interesse for mais profundo. O grande empecilho do trabalho de fiscalização é que a maioria das empresas têm serviços terceirizados por oficinas que nem sempre recebem as visitas dos compradores. Por isso é importante que as empresas se mantenham atualizadas das condições contratadas e compartilhem essas informações com os clientes por meio de transparência em seus veículos de comunicação. 

 

- O terceiro passo é explorar alternativas de consumo que tenham a garantia de não ter envolvimento nenhum com o trabalho escravo. Isso fica mais fácil quando substituímos a compra de grandes marcas por comerciantes locais e produtores independentes. As alternativas de consumo são várias, desde consumir roupas de artesãos locais, comprar em feiras, ou até pessoas da família a fim de incentivar o microempreendeorismo da sua cidade, até buscar marcas na internet engajadas na produção sustentável, que levam em consideração toda a questão ambiental em torno da produção e fazem uma gestão responsável dos resíduos gerados.         

É possível ainda consumir de segunda mão, comprar roupas em bazares ou brechós, auxiliando a economia local de pequenos comerciantes ou instituições beneficentes, bem como trocar peças sem uso com roupas de outras pessoas, em eventos de troca ou entre amigos e familiares. Tem jeito, o que não dá mais é pra continuar consumindo de marcas que fomentam condições degradantes de trabalho escravo e fingir que nada tem a ver com isso.

 

Mafer Teixeira e Nicoly França são jornalistas e youtubers apaixonadas por moda. Com experiência em gestão de mídias sociais e assessoria de imprensa, elas transformaram a paixão pela moda em profissão. Há dois anos e meio, criaram o Desavesso, focado em produção de conteúdo e eventos de incentivo à moda consciente e sustentável. Já realizaram eventos pelo Paraná e em São Paulo e seguem espalhando temas como estilo próprio, consumo consciente, sustentabilidade, autoestima e autoconhecimento. As duas cursam MBA na USP/Esalq para aprimorar os conhecimentos em marketing digital e gestão de negócios.